Dancing With Our Hands Tied

13 12. Esperar e ansiar


capítulo doze



alguns dias antes



— Nathalie, eu apenas peço para que você escute o quero te falar, ao menos uma vez. Não irá levar muito tempo.

A antiga corvina franziu suas sobrancelhas em uma leve expressão de irritação.

— Já te disse que estou ocupada, preciso retornar para o meu posto em menos de alguns minutos.

Por favor. — a voz abafada de Sirius Black fez com que ela finalmente o olhasse nos olhos. Nunca lhe ocorreu que olhar diretamente nos olhos de Sirius fosse ser tão doloroso, porque a semelhança estava bem ali diante dela: aqueles olhos castanhos tão escuros quanto a noite.

Por um breve momento, ela ficou aturdida e acabou por ceder ao pedido do rapaz.

— 5 minutos.

— Precisamos ir para um ambiente mais reservado — Sirius meneou com a cabeça, como se indicasse para que os dois fossem até um bar escondido em meio a duas lojas enormes. De fato, não poderia estabelecer uma conversa em meio a movimentação caótica do Beco Diagonal, era muito provável que dependendo do tema que iriam tratar, alguém pudesse escutá-los.

Com um suspiro derrotado, Nathalie o seguiu até o bar. Assim que atravessaram a porta, ela pode perceber que aquele ambiente estava encantado para que alguns bruxos em específicos conseguissem acessá-lo. A imagem do bar era apenas uma fachada, por trás da porta estava uma aconchegante sala de estar e longas escadarias, dando a impressão de ser uma estalagem.

— Onde estamos?

— Em uma das diversas instalações da Ordem da Fênix — o grifino a respondeu cuidadosamente.

Tal declaração não a espantou, dada a situação política conflitante da Inglaterra no atual momento, Nathalie sabia que era questão de tempo até que algum membro de alguma organização secreta entrasse em contato com ela ou algum dos vários bruxos que estavam trabalhando para estabelecer a segurança do Gringotes.

— E o que seria a Ordem da Fênix?

— Antes de te dar mais detalhes, vou precisar de alguma prova que posso confiar em você. Os assuntos que iremos tratar aqui são extremamente delicados.

A irritação ficou visível na expressão de Nathalie, era certo que, quem quer que fosse o líder da organização havia instruído Sirius Black muito bem. Não precisava de muito para entender que ele iria propor um feitiço do segredo ou até mesmo um voto perpétuo para poderem seguir com aquela conversa.

— Se precisa tanto de mim, a ponto de insistir que eu venha diretamente a uma das instalações da sua organização secreta, então ao menos tem que me dizer o porquê eu me interessaria em escutar o que você tem a dizer. — disse sem fazer cerimônia.

Sirius ergueu uma sobrancelha, surpreso com a mudança de Nathalie. Ele certamente estava acostumado com uma garota mais retraída e dócil em seus anos de Hogwarts, não passara por sua cabeça que aqueles últimos anos haviam a esculpido em algo diferente.

— Para além da sua segurança? — ele murmurou — Bem, vim até você porque sei que agora está trabalhando no Gringotes junto com o Ministério da Magia. Lhe deram o cargo porque você sempre foi uma aluna querida de Flitwick, e tenho certeza que tem um bom conhecimento de feitiços defensivos.

“Só que a guerra está próxima, e você está em uma posição vulnerável, irá precisar de mais do que alguns feitiços defensivos para poder sobreviver. Irei direto ao ponto, preciso de algumas informações para poder impedir a guerra e você pode nos ajudar com isso, em troca, nos iremos protegê-la.”

— Me proteger de quê? — Nathalie necessitou fazer a pergunta que iria colocá-lo com a parede, para que ele informasse qual o seu lado.

— Dos comensais da morte.

Moreau ficou pensativa por alguns momentos, era fato que o seu trabalho implicava em um certo risco. Suas tarefas eram bem rotineiras e muitas vezes até mesmo monótonas, contudo o perigo em não reconhecer a confidencialidade de algumas informações que passavam por suas mãos era um erro e tanto. Ela trabalhava auxiliando os duendes a implementarem estratégias de proteção ao Gringotes, como também realizando análises de câmbio. Todavia, era evidente que vez ou outra algumas informações com potencial destrutivo passassem por suas mãos.

O mundo bruxo estava prestes a entrar em guerra, talvez ela devesse se resguardar.

— Qual é a sua condição, Sirius?

— Um feitiço chamado Fidelius fará com que eu saiba que você está guardando o segredo a respeito de tudo o que eu te disser agora, e também não será possível de ser captado pela intervenção de terceiros.

Com um aceno de cabeça, Nathalie mostrou ter aceitado as condições propostas por Sirius. Ele a instruiu a entrelaçar suas mãos, para que pudessem estabelecer um tipo de conexão, e em seguida ergueu sua varinha.

Fidelius — murmurou baixinho.

Nathalie conseguiu vislumbrar pequenos feixes branco serpenteando em torno das duas mãos dadas. O feitiço estava lançado.

— Estou toda a ouvidos. — a cacheada disse, soltando-se da mão de Sirius, enquanto se sentava na mesa da sala de estar.

— A Ordem da Fênix é uma organização criada por Alvo Dumbledore para combater a ascensão de Voldemort. Temos alguns aurores lutando ao nosso lado, como também alguns bruxos extraordinários. A princípio estamos organizando informações para compreendermos a gravidade da situação; é evidente que Voldemort está um passo à frente, precisamos entender que passo é esse.

“É de conhecimento popular que a região do Beco Diagonal está mais perigosa, e existem suspeitas de que essa movimentação pode ser por conta de transações financeiras. Dumbledore me orientou a procurar por você.”

A garota ficou em silêncio por alguns momentos, refletindo a respeito do que Sirius havia comentado. Sabia que Sirius Black não se daria o trabalho de ir até ela e dizer uma série de mentiras, principalmente porque fazia anos em que não se falavam. E ela ainda conseguia se lembrar perfeitamente da última conversa que tiveram.

— Você está pedindo por informações confidenciais do meu trabalho — concluiu.

— Se você olhar por este lado, estou sim. — Sirius concordou, mostrando que não estava disposto em tecer alguma forma de enrolar a corvina.

— Conhecendo Dumbledore, eu não me surpreenderia se ele mesmo convencesse Flitwick de me alocar no Gringotes — disse dando um riso fraco — seria extremamente oportuno.

Pela primeira vez durante toda aquela conversa, Sirius finalmente lhe direcionou um sorriso torto. Não haviam muitas certezas, eles poderiam apenas supor.

— Bom, devo admitir que em certo ponto você tem razão, meu trabalho está realmente envolvendo algumas questões perigosas. Meus superiores já me orientaram a respeito de pessoas com interesses semelhantes ao seu, não sou a primeira colaboradora a ser abordada. Mas irei lhe dizer algumas coisas Sirius.

“Acho que você conhece a sua família melhor do que eu, e deve imaginar que sua prima, Bellatriz Lestrange, jamais iria pessoalmente até o Gringotes visitar seu cofre caso não fosse por algo que a interessasse. Ela estava acompanhada do novo marido, e apenas posso supor o que a fez sair de sua mansão para ir até o banco. Recentemente as movimentações tanto em galeões, e até mesmo com o dinheiro dos trouxas — que é relativamente mais difícil de localizar — estão tendo um pique. Se vocês estão em dúvidas a respeito da possível movimentação de artigos infestados de magia sombria aqui na região do Beco Diagonal, então lhe direi uma única coisa: essa seria a única justificativa para que tanto dinheiro seja movimentado em tão pouco tempo.”

“Só que estamos falando da elite bruxa, a qual você conhece muito bem — um sorriso afetado despontou no rosto da garota — bruxos assim sabem encobrir seus passos. Então apesar de termos ciência da quantia aproximada de dinheiro que vem sido movimentada, não podemos definir em quê esse dinheiro está sendo utilizado e consumido. É como segurar água, estamos seguindo passos de fantasmas.”

O rosto de Sirius Black estava congelado com suas feições contrariadas, ele escutava cada palavra que Nathalie proferia de forma cuidadosa, como se sua mente estivesse constantemente elaborando um plano.

— Posso investigar o porquê Bellatriz esteve circulando pela região, porém acredito que apenas isso seja o suficiente para sanar as minhas dúvidas — Sirius murmurou.

— E quais seriam?

— Tenho algumas informações que indicam que Lestrange é um comensal da morte.

Nathalie piscou lentamente, digerindo a informação aos poucos. A percepção de ter ficado tão próxima dos comensais da morte novamente era algo que lhe arrepiava de corpo inteiro. Ela pareceu pensar com cuidado, quando ergueu seus olhos em direção a Sirius, era visível que estava decidida.

— Tudo bem Black, já errei uma vez e não irei permitir que isso ocorra novamente. Irei vazar os relatórios do banco que entender serem mais suspeitos em suas mãos, espero que você e sua Ordem da Fênix faça algo que possa impedir essa guerra de eclodir.

O rapaz a observou, com surpresa evidente em sua expressão facial.

— O que você quer dizer com “já errei uma vez”?

Os cantos dos lábios de Nathalie se inclinaram para baixo, de repente havia uma barreira que separava Sirius da Moreau. Novamente ela estava emocionalmente inacessível.

— Acho que nós dois sabemos muito bem do que estou falando — foi tudo o que ela se permitiu dizer.

Sirius abriu a boca para falar algo, porém nada lhe veio à mente. Ele certamente estava ciente do que Nathalie mencionava, porém a culpa lhe corroía. Não havia sido ele quem lhe avisara a respeito de seu irmão caçula? Contudo, jamais poderia imaginar que Regulus fosse ser tão baixo a ponto de se unir aos comensais da morte, aquela era uma mágoa que iria carregar consigo até o túmulo. Às vezes, se pegava pensando, como era possível que aquele pirralho que sempre corria atrás de si, com os olhos brilhando em admiração, um dia pudesse se unir a alguém tão vil e cruel. Quando estava sozinho com os seus pensamentos, Sirius se perguntava onde havia errado com Regulus. O que deixara de fazer para tirar o irmão da garra de seus pais.

Talvez ele nunca fosse saber mesmo.

Porém, olhar para uma Nathalie Moreau, que antes possuía uma energia tão etérea e serena, ver que seu irmão havia a transformando em alguém que agia com cautela, como se alguma coisa sempre estivesse à espreita… Era minimamente triste.

Desta vez, com a culpa corroendo em seu peito, Sirius não disse uma palavra, apenas permitiu que Nathalie fosse embora em silêncio. Regulus havia sido o irmão Black que havia partido seu coração, Sirius torcia para não ser aquele, que junto com a Ordem, a colocasse em perigo.



~*~



O tempo parecia ter congelado, depois de soltar as palavras que estavam entaladas em seu peito, Regulus apenas soube olhar para Nathalie. Ele ansiava por uma resposta, por qualquer que fosse a reação que ela pudesse ter seria melhor do que a expressão vazia em seu rosto e o silêncio assustador. Havia uma distância segura entre os dois, e ainda assim havia uma intensidade estonteante no olhar que Natalie o dirigia.

— Você não acredita em mim — Regulus concluiu e ela não negou.

Nathalie alternou o olhar para as chamas que crepitavam na lareira. Olhando-a desta forma, Moreau parecia ser uma estranha, apesar de suas feições serem praticamente as mesmas de alguns anos atrás, o cansaço e a cautela eram evidentes em seu rosto. Talvez ela nunca soubesse, mas Regulus se culparia eternamente por ser aquele que lhe tirou o brilho encantador que possuía.

— Então, considerando que você não me atraiu até aqui para me assassinar a sangue frio. Devo acredito que a sua intenção foi simplesmente me alertar de que uma guerra está prestes a acontecer, e estou correndo perigo? — perguntou com as palavras escapando suavemente de seus lábios, porém com os olhos fixos em um ponto distante, como se estivesse se contendo para não olhá-lo nos olhos.

— Por mais surreal que isso possa parecer para você, sim. Eu só quero que você fique segura, longe de tudo isso.

Ela o olhou por cima do ombro, era evidente que Regulus não sabia que ela era uma importante informante da Ordem já faziam alguns meses, desta forma, não poderia deixar a cidade tão cedo. Queria não acreditar em nenhuma palavra que saía da boca do Black, porém ele soava sincero, embora ela preferisse acreditar que Regulus havia adquirido a habilidade de ser cínico.

Aquele silêncio constrangedor entre os dois era um inferno sufocante, e tudo o que ela poderia desejar era arranjar um motivo para se levantar e ir embora. Não saberia dizer se aguentaria mais um momento ali, olhando para ele. Estava prestes a se mover quando Regulus levantou-se do divã subitamente.

— O Lord das Trevas — murmurou com a cor lhe fugindo do rosto.

Seu olhar imediatamente focou-se em uma Nathalie Moreau encolhida perto de sua lareira.

— Fique aqui enquanto eu não voltar, irei deixar Monstro para ficar contigo.

— Regulus! — ela levantou-se, indo de encontro ao moreno. A simples menção de seu nome fez com o que o caçula dos Black congelasse, era dolorosamente bom ouvir seu nome na boca dela.

— Preciso ir, estou sendo invocado.

— Mas eu estou com a sua varinha!

Um resquício de sorriso torto surgiu no rosto de Black, ele deu apenas um estalo com os dedos para que a varinha aparecesse em suas mãos e no segundo seguinte havia apartado para só Merlin sabia onde. Nathalie grunhiu exasperada.

Encarou a parede com detalhes bordô com uma expressão assassina, até que uma voz irritante a chamasse atenção.

— Uma mestiça traidora de sangue..

Nathalie ergueu a sobrancelha ao se deparar com um elfo doméstico ranzinza, ele a encarava com uma expressão de profundo desgosto, como se o simples fato de ela existir dentro daquele quarto fosse um ultraje.

— Você deve ser o Monstro que Regulus mencionou.

— Meu Senhor pediu-me para que protegesse uma mestiça imunda, então é isso que farei.

— Isso é muito gentil de sua parte — Nathalie fez uma careta, dando-lhe as costas.

Começou a movimentar-se pelo quarto enorme e luxuoso, foi de encontro direto às estantes abarrotadas de livros no outro lado do ambiente. Sabia que iria se arrepender tremendamente caso ficasse bisbilhotando os livros que Regulus Black andava lendo nos últimos tempos, porém foi impossível não ficar encantada pelos calhamaços organizados lado a lado.

Seu dedo indicador passeou pela lombada de cada um daqueles livros, alguns títulos lhe eram familiares e outros não. As obras estavam organizadas por temas: defesa contra as artes das trevas, feitiços, história da magia, poções, romances, não-ficção e bibliográficas. Era um acervo surreal, principalmente para um rapaz que alguns anos atrás só parecia importar-se com sua vassoura e um pomo de ouro.

A surpresa lhe atingiu quando o seu dedo parou sobre um livro que conhecia muito bem.

Anna Karenina.

Aquele era o seu exemplar, que havia deixado Regulus ler na época em que realizavam detenções nas masmorras. Por muito tempo havia acredito que perdera aquele livro, jamais poderia imaginar que todo aquele tempo aquela edição estava na estante de Black.

Junto da obra, haviam diversos outros livros que em algum momento Nathalie lera em seus anos de Hogwarts ou ao menos mencionara para Regulus. Ele havia comprado todos aqueles livros.

Seu peito doeu, começando a ser inundado por memórias de seus anos em Hogwarts. Das tardes no esconderijo que haviam declarado como deles, onde apoiaria sua cabeça no peito de Regulus e leria um livro em silêncio. Aqueles momentos que lhe pareciam ser tão fáceis e suaves, agora estavam tão próximos da sua memória e lhe atingiam com força. Caso se esforçasse, ainda conseguiria sentir o cheiro exato do perfume de Regulus, ou da sensação de ter seus fios cacheados contra a palma de sua mão. Ainda se lembrava de traçar o começo da barba em seu queixo.

Piscou com força, afastando-se da estante e das memórias.

— Deve estar feliz, em ver que ainda causa tanto sofrimento ao meu Senhor. Você deveria ter vergonha. — Monstro ralhou.

Inexpressiva, Nathalie girou os tornozelos, deparando-se com o elfo a alguns passos de distância, olhando-a furiosamente.

— O que quer dizer com isso?

— Não é evidente que meu Senhor montou essa biblioteca para se lembrar? E ainda assim, meu Senhor consegue ser tão bom a ponto de ter piedade de escória como você. Depois de todo sofrimento que causou nele, ele ainda lhe recebe de braços abertos.

Ela engoliu em seco e com certa dificuldade, não queria acreditar e muito menos se deixar levar pelas palavras de Monstro. Contudo, Nathalie sabia que o elfo não possuía nenhum motivo para mentir, ele a odiava. Monstro a odiava por que de alguma forma, havia visto Regulus sofrer por sua causa.

Nathalie sentou-se no chão de madeira, sentindo-se cansada demais para poder pensar em alguma coisa. Estava trancada naquele cômodo até que Regulus Black retornasse, ainda não sabia ao certo qual era a sua posição ali: a de uma prisioneira ou simplesmente de uma hóspede. E para além de ser verbalmente atacada por um elfo doméstico raivoso, a última coisa que esperava era se deparar com aquela estante abarrotada de livros.



~*~



Era difícil definir em que momento Nathalie caiu no sono, quando deparou-se estava sendo acordada por um farfalhar próximo de si. Seus olhos se abriram lentamente, procurando se acostumar com a pouca luminosidade do ambiente. Quando estava confortável o suficiente para abrir os olhos, deparou-se com Regulus ajeitando uma coberta em torno de seu corpo, ele imediatamente se afastou, com medo de como pudesse reagir.

— Por que ainda estou na sua casa? Se estiver me prendendo aqui Black, eu vou… — sua voz falhou, e os olhos piscaram novamente, como se estivesse prestes a voltar para o mundo dos sonhos.

Um sorriso casto surgiu no rosto de Regulus, ele olhou para Nathalie em silêncio. O rapaz segurou sua varinha e murmurou um feitiço que fez com que a corvina levitasse até um divã, onde ele a ajeitou junto com uma coberta, para que pudesse descansar.

Ele deveria ter percebido quando a garota havia comentado que estava trabalhando no Gringotes, que havia apenas o extremo cansaço visível em suas feições. As funções que executava no banco estavam a exaurindo, e certo de que Nathalie era uma artista nata, era entristecedor ver seu talento ser desperdiçado daquela forma. Por um momento, permitiu-se perguntar como tudo seria diferente caso não houvesse guerra. Ela seria uma artista e ele um jogador famoso de quadribol? A ele cabia apenas pensar, e perder-se em seus devaneios.

Apesar de toda a distância, ressentimentos, mágoas e palavras não ditas que haviam entre os dois. Regulus ficou parado por bons momentos diante de uma Moreau adormecido, ele estava deslumbrado pelas feições tranquilas da garota. Mesmo sabendo que não haveria sequer uma possibilidade para o perdão entre os dois. ele se viu acariciando os fios cacheados dela.

Nathalie havia dito, por meio de uma carta, que ele havia sido o motivo de sua ruína. Regulus acreditava que não haviam palavras em seu vasto vocabulário como aquela garota havia transpassado por sua vida, deixando-o apenas com o caos para trás.



~*~



Na segunda vez que acordou no quarto de Regulus, Nathalie estava mais desperta. Ela franziu o cenho ao perceber que estava enrolada em um coberto, deitada em um divã, não se lembrava de como poderia ter parado ali. Ainda assim, escorregou seus pés, encostando-os no chão frio. Conseguiu ver um feixe de luz escapar pela fresta de uma porta, então decidiu ir em direção a luminosidade.

Quando abriu a porta, deparou-se com um pequeno corredor que dava em uma sala de jantar. Regulus estava sentado em uma cadeira com o olhar perdido e as olheiras abaixo dos olhos, ele olhava entediado para o pedaço de torta em seu prato, até que seu olhar surpreso encontrasse o de Nathalie.

— O que está fazendo acordada?

— Você me colocou para dormir? — o tom de Moreau era acusatório.

— Você aparentava estar cansada — ele respondeu, dando de ombros.

— Regulus, você não pode me prender aqui. As pessoas irão começar a notar a minha ausência.

Black deu um suspiro cansado.

— Não estou te prendendo aqui Nathalie, você é livre para ir e vir. Te deixei dormir porque você estava exausta.

Ela congelou, alguns passos à sua frente, parecia estar incrédula com praticamente qualquer palavra que saísse dos lábios do rapaz. Aquilo o incomodava, pois apesar de ele saber que não havia sequer um motivo que justificasse suas atitudes e pudesse fazer com que ela acreditasse nele. Ainda assim, ele queria acreditar que ela não fosse esperar o pior de si.

Ao menos não quando Regulus sempre deixara o seu lado suave transparecer quando estava ao lado dela.

Deveria saber que aquela altura do campeonato, o que houvera entre eles não parecia importar.

— Ainda assim, queria insistir que você tirasse um tempo para sair do país. Pegue sua mãe e saía enquanto há tempo.

— Por que insiste nisso? Sabe que não irei abandonar a Inglaterra.

Regulus riu fraco, porém não havia nada que demonstrasse felicidade em seu riso. Seus olhos castanhos percorreram o rosto de Nathalie e pela primeira vez ele a olhou com uma expressão de derrota. Estava ficando cansada de lutar, e cada vez mais, querer proteger Nathalie Moreau estava se tornando uma causa perdida.

Além de ter falhado uma centena de vezes, o peito de Regulus doeu mais uma vez ao perceber que também iria falhar ao tentar proteger Moreau. O vínculo que haviam forjado estava estilhaçado, não havia sequer um resquício de confiança entre os dois. E embora não fizesse sentido algum em insistir em algo que não viraria, ainda assim, havia uma parte de Regulus que sempre iria ansiar e esperar por Nathalie Moreau.

“Causa da minha ruína”.

Talvez seu irmão, Sirius, estivesse certo e ele fosse um covarde incorrigível.

Estava tão perdido em seus pensamentos, que quase não viu as lágrimas se formarem no canto dos olhos de Nathalie. Apesar de ela ter dormido por boas horas em seu divã, o cansaço psicológico estava falando mais alto. Seu olhar era um reflexo dos estilhaços da sua mente naqueles últimos anos.

— Eu sinto muito Nath, eu realmente sinto muito. — ele murmurou, com a voz falhando a cada palavra.

Moreau apenas fechou os olhos, impedindo as lágrimas de rolarem por suas bochechas.

— Não posso me permitir acreditar em você Regulus, não novamente.

— Eu sei.

— Como posso ir embora daqui?

Embora estivesse cabisbaixo, Regulus murmurou.

— No próximo corredor há uma lareira e um pote com pó de flu ao lado.

— Obrigada — Nathalie murmurou, caminhando em direção a saída.

— Nathalie, uma última coisa antes que você vá embora. Quero que você saiba que apesar de tudo eu te amei, e sei que foi de verdade. Eu te amei como nunca amei ninguém, e me deixa mais leve saber que ao menos consegui lhe dizer isso.

Por estar de costas para o rapaz, ele não foi capaz de ver as lágrimas deslizando furiosamente pelo rosto de Nathalie enquanto ela se retirava do ambiente em silêncio.