Dancing With Our Hands Tied
14 13. Plano de Escape
Notas iniciais
capítulo treze
O Gringotes era um dos edifícios mais altos e imponentes do Beco Diagonal, os pedestres que apenas viam a fachada do banco não poderiam imaginar a imensidão da construção. Mesmo depois de meses trabalhando naquele local, ainda assim Nathalie se perdia em meio aos longos corredores que sempre davam em lugares diferentes.
Naquela manhã de terça-feira, ela estava sentada em sua sala, revirando uma pilha de documentos confidenciais. Embora seus dedos percorriam delicadamente as inscrições dos documentos, sua mente estava distante. Seus pensamentos estavam em Regulus Black.
Sentia-se frustrada por ter sido tão facilmente abalada pela presença do sonserino novamente. Para si, beirava a humilhação perceber que talvez sempre fosse haver alguma faísca entre os dois — mesmo que pequena e praticamente inexistente, ainda assim, existia.
Talvez devesse acionar Sirius, que havia lhe aconselhado a apenas entrar em contato no caso de alguma emergência — principalmente se estivesse correndo risco de vida -. Pensou seriamente em lhe contar sobre tudo o que Regulus havia lhe dito, sobre querer abandonar o Lord das Trevas, porém rapidamente lhe veio a percepção de que ele lhe diria que era uma tola por acreditar em uma mentira tão fácil. Não havia nada que pudesse dizer que faria com que Sirius acreditasse na palavra de Regulus, não quando sequer ela conseguia confiar no rapaz. Aquela não era uma ideia inteligente, mas….
A pior coisa que poderia acontecer com uma mente ansiosa era ser permeada pela incerteza dos porquês. O quê o fez pensar em abandonar o Lord das Trevas? Por que ele havia comprado todos aqueles livros? Por quê permitiu que saísse de sua casa ilesa? Por quê estava preocupado a ponto de pedir que ela saísse do país? Aquelas perguntas ecoavam em sua cabeça e não a levavam a lugar algum, e para alguém que havia decidido superar Regulus Black através do silêncio e da distância, aquilo estava sendo tortuoso. Não poderia esperar por respostas que jamais viriam a seu encontro. Não podia arriscar o seu pescoço apenas para alimentar alguma expectativa infantil.
Voltou sua atenção para as folhas em suas mãos, ali estavam presentes as principais movimentações bancárias da família Lestrange. Haviam despesas com bailes luxuosos e viagens ao redor da Europa, e caso se prestasse um pouco mais de atenção nos valores dos últimos anos para com os atuais, havia uma diferença gritante. Não havia instabilidade econômica que justificasse aquele tipo de discrepância, as possibilidade que parte daquela “gordura” estivesse sendo destinada para outros fins era muito grande. Por ser uma família muito rica, os Lestrange possuíam um contador particular, que sempre prestava contas para o Gringotes devidos aos impostos cobrados pelo Ministério da Magia.
Finalmente, Nathalie havia encontrado o que precisava.
Seus olhos mal podiam acreditar, mas as passagens que a família Lestrange andava fazendo em um estabelecimento chamado Borgin & Burke’s era mais frequente do que aparentava, e uma boa quantia de dinheiro estava sendo movimentada ali.
A corvina passou todo o expediente com o coração na boca, com a crescente sensação de que a qualquer momento alguém descobriria que ela tirou cópias de uma documentação confidencial de uma das maiores famílias do mundo bruxo. Ela seria caçada, morta e esquartejada caso os Lestrange descobrissem do poder que havia em suas mãos. Aquela era a consequência de se menosprezar o conteúdo de algumas simples letras escritas em papel. Para passar despercebida, Nathalie conseguiu — com a ajuda de um feitiço — inserir as informações que havia extraído em uma edição de O Morro dos Ventos Uivantes. Ninguém jamais suspeitaria de que um livro trouxa pudesse guardar tal informação.
Naquele meio tempo, Nathalie havia retornado para o quarto que estava alugando no Caldeirão Furado e através de sua coruja, enviou as informações diretamente para Sirius. Havia cumprido o seu papel. Ainda assim, se sentia inquieta: o que havia na Borgin & Burke’s? Quais eram os verdadeiros planos do Lord das Trevas?
Com a curiosidade aguçada, Nathalie acabou saindo de seu quarto em direção ao Beco Diagonal. O clima estava chuvoso em Londres, por isso optou por vestir um longo sobretudo marrom e um capuz que cobria seus fios ondulados. Além dos pingos caindo, o único som que conseguia escutar era o do salto de sua bota batendo contra o chão ladrilhado. A Travessa do Tranco era uma das piores regiões do comércio bruxo para ser frequentada por uma mulher sozinha, ainda assim, Nathalie caminhava cuidadosamente em direção a loja que havia encontrado nos escritos da família Lestrange. Embora a rua fosse estreita, podia perceber de longe o quão imenso era o estabelecimento que aparentemente vendia uma série de artefatos que seriam enquadrados como antiguidades. Quando se aproximou o suficiente, pode ver diversos objetos curiosos na vitrine: um pote com olhos humanos desconfiados, uma mão que se mexia sozinha, um caldeirão que emitia um cor suspeita…
Estava tão distraída observando a fachada da loja, que levou um susto ao perceber o vulto que abriu a porta do estabelecimento vazio e quase esbarrou em seu corpo.
Regulus Black. De novo.
O sonserino arregalou os olhos assustado, sua próxima reação foi tirar Nathalie dali o mais rápido possível.
— Pelas barbas de Merlin, o quê estava pensando? — ele grunhiu, quando finalmente pararam em um beco sem saída. As mãos do rapaz seguravam seus ombros, enquanto ele a olhava nos olhos.
Regulus estava vestido com uma capa preta, e por baixo daquela roupa, também trajava uma camiseta de botões branca e uma calça igualmente preta. Não ocorreu a Nathalie que era assim que ele deveria se vestir como um comensal da morte, tal pensamento fez com que o seu almoço balançasse em seu estômago.
Ela nunca tinha o visto tão furiosa quanto naquele momento, seu rosto estava completamente vermelho e as pupilas dilatadas.
— A noite mal começou e já está se divertindo, Black? — a voz que veio de longe foi o suficiente para fazer com que a cor se esvaísse do rosto de Regulus.
Com uma rapidez impressionante ele segurou sua varinha e murmurou um feitiço:
— Confundus.
Nathalie franziu o cenho, porém pelo olhar de advertência no rosto do rapaz, entendeu que deveria ficar calada.
— Um homem precisa se divertir, Lestrange. — o tom de Regulus era irônico. Ele se virou para o companheiro, que Nathalie reconheceu ser o marido de Bellatriz.
— Engraçado, acho que já vi essa garota antes, porém não consigo me lembrar de onde. Muito bonita para alguém como você, se me permite dizer — um sorriso ardiloso surgiu no rosto de Lestrange.
Ela deu o melhor de si para permanecer com a expressão confusa e não deixar suas feições se retorcerem em desgosto. Regulus, por sua vez, ergueu a sobrancelha cuidadosamente.
— Por quê diz isso?
— Um bom homem divide suas conquistas com seus companheiros.
Regulus trincou o maxilar..
— Não sou um homem que gosta de compartilhar o que é meu, Lestrange — os olhos do Black brilhavam furiosamente.
Lestrange subiu sua mão até o queixo de Nathalie, que congelou assustada. Ele virou seu rosto para que pudesse olhar diretamente em seus olhos, porém foi interrompido pela mão de Regulus, que com uma leve batida, o empurrou para longe.
— É uma pena — Lestrange disse com um sorriso afetado — Tente não se distrair com a primeira vagabunda que encontra no meio do caminho, o Lorde das Trevas tem planos grandiosos para você.
— Jamais — Regulus respondeu em tom solene.
— Aproveite a noite, e a bela companhia. — o comensal riu, afastando-se e os deixando sozinhos no beco mal iluminado.
A percepção de que estava tremendo só atingiu Nathalie quando Lestrange estava distante, sua respiração estava fraca e todo o seu corpo parecia palpitar. Antes que pudesse ter qualquer tipo de reação, Regulus a puxou contra seu peito, ele a abraçou com força por longos minutos. Com o corpo dele tão perto de si, Moreau conseguiu perceber que ele também estremecia.
— Eu falhei com você novamente — Black murmurou contra seus cabelos.
— Como assim?
— Não consegui te proteger. Tive medo de que ele pudesse te reconhecer, você poderia estar morta agora Nathalie… — a voz dele vacilava a cada palavra.
O som de murmúrios se aproximando do beco fez com que os batimentos cardíacos de Nathalie acelerassem. Sem pensar duas vezes, ela segurou o braço de Regulus com força e desaparatou, caindo no chão do seu quarto no Caldeirão Furado.
Regulus caiu ao seu lado com a respiração ofegante, ele aparentava estar completamente desnorteado, pois deitou-se com a cabeça no chão e ficou encarando o teto por longos momentos. Enquanto ele se recompunha, Nathalie se levantou do chão, refletindo sobre o quão precipitada fora em levar o inimigo diretamente para a sua casa.
— Você está hospedada no Caldeirão Furado? Todo esse tempo? — a voz entrecortada dele a tirou de seus pensamentos.
— Foi o lugar mais próximo do Gringotes que pude pensar.
— E o mais perigoso também — ele resmungou.
A corvina revirou os olhos.
Diferente do quarto luxuoso que Regulus Black possuía em algum lugar próximo ao Beco Diagonal, Nathalie ainda mantinha o simples quarto que estava alugando há alguns meses. Tratava-se de um quarto simples com as paredes pintadas de branco, uma escrivaninha para que pudesse escrever suas cartas, diversos papéis com alguns desenhos espalhados pelo chão, uma mala aberta próxima a cama de casal e uma coruja branca parada diante da janela. Era evidente de que, apesar de ter retornado para a Inglaterra, Nathalie ainda estivesse incerta sobre criar raízes ali, pois nunca havia desfeito a própria mala.
Enquanto sentava-se no chão, Regulus começou a prestar atenção na infinidade de desenhos e pinturas espalhados por todos os lugares. A arte de Nathalie havia adquirido um tom mais sombrio do que se lembrava, ela havia começado a utilizar tons fortes de verde e tonalidades de vermelho que chegavam ao bordô ao compor paisagens.
Seus dedos capturaram um pedaço de pergaminho que lhe chamou atenção, era um olhar. Nathalie havia desenhado dois olhos castanhos esverdeados com tanta delicadeza que pelas cores que escolhera pintar com aquarela, conseguia perceber o misto que tentava passar de agonia e mágoa. Eram os seus olhos.
— Você me pintou — não era uma pergunta, apenas uma afirmação que escapou-lhe os lábios.
Na defensiva, ela ergueu as sobrancelhas.
— Eu desenho muitas coisas.
Um sorriso dolorosamente gentil espalhou-se lentamente pelo rosto anguloso de Regulus, aquela visão tão melancólica fez com que Nathalie se sentisse obrigada a desviar o olhar. Não podia reagir a qualquer coisa que Black fizesse como uma adolescente.
O sorriso estava quase desaparecendo do rosto de Black quando Moreau tomou coragem para dizer:
— Você roubou o meu exemplar de Anna Karenina.
Regulus olhou para a morena com surpresa.
— Esteve bisbilhotando a minha biblioteca? — ele indagou, o sorriso teimando em aparecer em seu rosto novamente.
— Eram tantos livros… Fiquei curiosa, apenas isso.
— Peguei esse livro porque me encantei com a primeira frase que você me citou, teve um impacto forte naquela época. Tentei ler alguns anos depois mas foi praticamente impossível, é muito maçante. — Regulus murmurou, seus olhos pareciam sorrir enquanto conversava como se estivesse compartilhando um segredo. — Mas acho que entendo o porque você gosta desse livro, a história da Anna é fascinante.
Apesar de todas as barreiras que havia construído, Nathalie se viu rindo baixinho. Fazia tanto tempo que não ria assim.
— Você acabou de insultar um dos meus livros favoritos na minha casa.
— Bem, isso não significa que nunca irei terminar o livro — ele começou a se defender — Sabe, eu li as últimas páginas da história e o que aconteceu com a Anna…
— Pelas barbas de Merlin, você leu os últimos capítulos do livro? Regulus você simplesmente acabou com toda a experiência que é ler essa obra!
Regulus não pode evitar, apenas riu da expressão indignada no rosto de Nathalie.
Alguns momentos depois, o riso cessou e os dois estavam novamente sentados no assoalho, se encarando silenciosamente. Aquele momento a fez se questionar como haviam se tornado o que eram, não parecia ser justo que duas pessoas tão próximas e tão certas uma para a outra pudessem subitamente se tornarem estranhas. Havia uma sutileza cruel em olhar para o Regulus a sua frente, ela sabia exatamente a sensação de seu maxilar contra a ponta de seus dedos, ao mesmo tempo em que não o conhecia mais. Não sabia que tipo de atrocidades havia cometido em nome de sua escolha, em nome de sua família.
Enquanto a olhava, Regulus parecia transbordar pedidos de desculpas.
Talvez momentos como aquele fossem feitos para que ela caísse em si e percebesse que não havia sentido algum em reatar com Black. Não quando havia uma tatuagem em seu antebraço que marcava a distância entre os dois.
— O que você estava fazendo na Borgin & Burke’s?
O feitiço que havia feito com Sirius a impedia de dar detalhes a respeito da Ordem da Fênix, desta forma, jamais poderia ser completamente sincera com Regulus. Ainda assim, conseguiu lhe dar um sorriso irônico quando respondeu.
— Estava a trabalho.
— Possuo os meus informantes dentro do Gringotes, sei muito bem que os funcionários de lá não passam o horário de almoço passeando pela Travessa do Tranco. Desembuche.
— Não é sempre que eu tenho tempo livre para visitar um dos estabelecimentos favoritos da sua família.
Os olhos de Regulus se estreitaram.
— Por favor, não me diga que você está investigando as transações financeiras da minha família por conta própria.
Apenas o silêncio de Nathalie foi o suficiente para Regulus afundar o rosto em suas mãos. Ele não aparentava estar triste ou furioso, apenas estressado e irritado consigo mesmo, por não ter previsto que algo assim iria acontecer.
— Nathalie, minha prima é uma mulher perigosa. Ela não pode sequer sonhar com o seu nome.
Ela sabia muito bem daquilo, estava uma pilha de nervos o dia inteiro por conta da pequena infração que cometera. Tinha noção de que a segurança dos Gringotes era superior a qualquer truque que procurasse utilizar, cedo ou tarde, seria descoberta. Só que ela estava cansada de ser covarde. O fato de não ter feito nada a respeito da Marca Negra no pulso de Regulus ainda lhe causava pesadelos, aquela seria a sua forma de se redimir consigo mesma.
— Você não pode mais ficar aqui.
— Eu sei, estou de saída.
O queixo de Regulus caiu, aquilo fora fácil demais. Tentar convencer Nathalie de alguma coisa significava insistir várias vezes no mesmo tema, não poderia ser possível ganhar uma discussão com tanta facilidade. Algo estava errado.
— O que aconteceu? — ele indagou exasperado.
Nathalie se ergueu do chão, limpando a poeira de seu sobretudo.
— Você não é o único com seus segredos.
A corvina ergueu a varinha e a agitou suavemente, em questão de momentos o quarto ficou organizado, as roupas e os papéis do chão foram em direção a mala. Ela olhou ao redor e fez um aceno para a coruja, que disparou pelo céu cinza.
— Para onde está indo? — A voz de Regulus falhou uma oitava. Ele se sentia atormentado, preso na mesma memória de anos atrás, o confronto que ainda existia entre eles, Nathalie chorando e então partindo sem sequer avisá-lo. Ainda conseguia lembrar de ser deixado para trás apenas com uma carta em mãos. Sabia que merecia aquilo, o silêncio, a indiferença e a dor, contudo, não sabia se conseguiria passar por tudo aquilo novamente.
— Para longe, exatamente como você me disse para fazer.
— Nathalie — disse seu nome lentamente, com uma intensidade que fez com que seu corpo estremecesse.
Mais uma vez, as mãos de Regulus estavam nos ombros de Nathalie, e ele a olhava como se nunca a tivesse visto antes. Ele parecia estar prestes a desmoronar.
Regulus somente percebeu que Nathalie havia rendido a seu toque quando ele a puxou para um abraço e ela não se afastou. Ele rodeou sua cintura com os braços, puxando o corpo da corvina para perto de si, como sempre deveria ter estado. Surpreendeu-se quando percebeu que ela estava chorando contra o seu peito.
— Por que decidiu ir embora? — perguntou suavemente, com sua mão percorrendo os cachos dela.
— Sua família irá me matar se me encontrar aqui mais uma vez, ou talvez até mesmo você — ela respondeu com a voz abafada.
— Eu jamais conseguiria erguer um dedo contra você Nath.
— Não diga isso Reg, você apenas está tornando tudo pior — o apelido antigo escapou-lhe. Ele a apertou com mais força contra seus braços.
— Juro pelo meu sangue que jamais irei machucá-la, e que todas as noites me culpo por tê-la magoado anos atrás.
A cabeça de Nathalie ergueu-se, para olhar nos olhos castanhos enevoados dele. Juramentos como aquele eram palavras recheadas de magia, que não deveria ser ditas de toda sorte. Todavia, ali estava ele.
Haviam centenas de pensamentos ao mesmo tempo na mente de Nathale, mas todos pareceram se calar quando ela puxou Regulus Black pelo colarinha, trazendo-o em sua direção, calando-o com um beijo. Ela não sabia mais distinguir certo de errado, apenas sabia dizer que a presença de Black a embebedava, tirando o discernimento de suas ações. Regulus a correspondeu com ainda mais intensidade, tomando os lábios da garota para si.
Beijar Regulus Black era algo que sempre lhe perseguiria, poderiam ser passar meses e ela ainda sentiria o toque fantasma de seus lábios contra os seus. Por isso, ela o beijava como se aquela fosse a última vez, entregando-se e cometendo aquele mesmo erro pela última vez.
Até que os lábios se separassem, e Nathalie desse um passo para atrás.
Regulus ofegava, enquanto a olhava confuso. Ele conseguia perceber que havia um plano sendo articulado por trás daquele sorriso triste, por isso, quando Nathalie afastou-se mais um passo e estendeu a mão para a mala que levitou em sua direção, Regulus saltou na direção da garota.
~*~
Tudo estava girando furiosamente quando Nathalie Moreau finalmente desamparou em meio a praia. Seus joelhos foram de encontro com a areia, o ar entrava em seus pulmões com dificuldade. Contudo, foi a visão de um Regulus Black caído ao seu lado que lhe desestabilizou por completo.
— Droga — ela xingou baixinho. Aquilo não estava em seus planos.
Engatinhou em direção ao corpo do rapaz, colocando seus dedos em seu pescoço, aliviada ao sentir a pulsação. Haviam percorrido uma distância muito longa, fora perigoso aparatar daquela forma, mas era um risco que Moreau precisava correr.
Ela tirou os cachos castanhos da testa de Regulus, percebendo que ali haviam gotículas de suor e palidez. Foi necessário dar alguns tapinhas em suas bochechas para que ele acordasse.
— Nathalie, você por acaso… ficou maluca? — ele ralhou, entredentes, enquanto buscava forças para poder se levantar.
— Eu que deveria te perguntar isso. O que te deu na cabeça de se meter no meio de uma aparatação? Você poderia ter se machucado.
O sonserino parecia estar ofendido com aquela fala.
— Primeiro você me beija depois de anos, e então espera que eu apenas te observe ir embora novamente, sem fazer nada?
Rubor surgiu nas bochechas dela, que desviou o olhar com um pouco de timidez. A verdade é que não tinha pensado em qual seria a reação de Regulus após beijá-lo furiosamente porque pretendia abandoná-lo. Deveria ter imaginado que um plano tecido em cinco minutos estava propenso a muitas falhas e variáveis.
— Onde estamos? — Regulus resmungou, percebendo que Nathalie não iria lhe responder nenhuma pergunta sobre o beijo que haviam compartilhado momentos atrás.
— Bem, eu estou a caminho do meu novo esconderijo. Já você deveria ir… para o QG dos comensais da morte ou algo do gênero. — ela lhe deu um sorriso amarelo enquanto limpava a areia da calça e do casaco.
O barulho das ondas quebrando contra as pedras da praia foi o suficiente para abafar um dos palavrões que Regulus murmurou.
— Quantas vezes preciso lhe dizer que estou desertando?
— E o que te faria tomar uma atitude tão estúpida quanto essa? — ela ergueu as sobrancelhas. — Não estou te encorajando a nada, apenas quero dizer que a última coisa que você vai querer são os dois lados indo atrás de ti.
O vento soprou forte contra os dois, fazendo com que os cachos que cobriam os olhos de Regulus se erguessem.
— Perceber que tive uma atitude ainda mais estúpida ao aceitar essa marca no meu braço, achando que poderia ser algum tipo de salvador.
Ele se levantou da areia e começou a seguir Nathalie para fora da praia, estava surpreso ao perceber que a garota de fato havia planejado tudo aquilo: a mala, a partida, o esconderijo — menos ele. Regulus fora o elemento surpreso em todo o seu planejamento.
— Vai precisar ser mais sincero do que isso se quiser me convencer.
— Pelo seu bem e proteção, prefiro não lhe dizer o que me fez desertar. Da mesma forma em que você com certeza não irá me contar o porquê partiu tão abruptamente de Londres.
Nathalie virou-se para ele, enquanto ainda caminhava. Seu olhar era uma incógnita.
— Descobri algumas informações sobre o marido da sua prima, que se cair nas mãos do auror certo, podem vinculá-la ao Lord das Trevas. Isso é tudo que posso lhe dizer,
— Você analisou as transações financeiras dos Lestrange? Por isso estava parada na frente do Borgin & Burke’s?
Apenas recebeu um aceno como resposta. Um suspiro pesado escapou dos lábios de Regulus.
— A Borgin & Burke’s é um estabelecimento antigo, que sempre foi conhecido por bruxos que tinham uma tendência a se desviarem para o caminho da magia das trevas. Por isso que a Travessa do Tranco esteve movimentando tanto dinheiro todo esse tempo.
— E por quê você estava lá? — Nathalie perguntou, sem coragem o suficiente para olhá-lo. — Quero que ao menos dessa vez, me diga a verdade. Pare de me proteger, e apenas seja sincero.
Black engoliu em seco.
— Recebi uma… tarefa do Lorde das Trevas, que envolvia alguns artefatos mágicos. Quero que você entenda a situação em que a Inglaterra se encontra neste momento: o Ministério da Magia está sendo omisso, porque estão subestimando o poder do Lorde das Trevas, eles acreditam que nenhum bruxo irá conseguir causar dano como Grindelwald o fez algumas décadas atrás. Nosso Ministro prefere fingir que não há uma guerra à espreita para não perder seu cargo de prestígio. Alguns bruxos estão montando alianças voluntariamente, para lutarem quando chegar a hora e, outros simplesmente estão desaparecendo do mapa, em uma tentativa de se proteger.
“O que tudo indica, é que existe uma situação favorável para toda a destruição que os comensais da morte pretendem executar. Para isso, estão adquirindo diversas artefatos para verificarem o quão danosos eles podem ser, quantas pessoas podem matar.”
“Mas o Lorde das Trevas está atrás de algo maior, algo mais sombrio. Já faz alguns meses que ele me delegou essa tarefa e eu ainda não sei o que é, mas sei que há um potencial destrutivo gigantesco por trás. Isso é tudo que sei.”
Os cachos castanhos de Nathalie formavam uma barreira entre os dois olhares, mas mesmo pelo seu silêncio, Regulus pode perceber que ela estava apreensiva.
— Regulus, você sabe que isso é uma traição grave. Eles virão te caçar quando descobrirem o que quer que seja que você pretende fazer.
— Estou contando com isso — respondeu com o queixo erguido.
Nathalie observou seu rosto com tristeza.
— Sabe que não somos muito diferentes, você também está arriscando a sua vida. Estamos brincando com fogo Nathalie.
Haviam chegado a um ponto, onde Moreau não sabia mais em que acreditar. Estava ficando cansada de tantas mentiras e de verdades contadas pela metade. Talvez fosse por isso que ela caminhasse em direção ao seu esconderijo com Regulus Black em seu encalço, tranquilamente.
— Não ouse morrer, Regulus Black.
Lá estava o sorriso torto no rosto de Regulus que ela tanto adorava.
— Digo o mesmo para você Moreau — e a seguiu em direção ao chalé que ficava cada vez mais próximo conforme avançavam pelo caminho.
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