Dancing With Our Hands Tied
12 11. Presa dentro de si
Notas iniciais

capítulo onze
Aquela era a primeira vez em que Nathalie retornava para o seu país para passar mais do que três dias. O clima gelado da Inglaterra a recebeu com um vento que soprava em seu rosto, fazendo com que ela se encolhesse em seu cachecol. A corvina se encolheu em seu casaco pesado enquanto atravessava a entrada do Caldeirão Furado, — apesar de ter comunicado sua mãe que havia retornado para Londres, havia decidido ceder um pouco intimidade para o casal que acabara de anunciar noivado, desta forma, decididira alugar um quarto por certo tempo. Decidiu ficar próxima do Beco Diagonal, porque ali ficava localizado boa parte dos pontos focais de movimentação financeira dos bruxos.
Era estranho pensar que iria começar a trabalhar em uma das mais antigas e rigorosas instituições do mundo bruxo: o Banco Gringotes. Com o aumento da violência, aquela se tornara uma das regiões mais perigosas seja para bruxos ou até mesmo algum trouxa desavisado, principalmente a região que abrangia a Travessa do Tranco.
Nathalie havia conversado brevemente com o seu supervisor no Gringotes, Albert Collins — um bruxo de olhar desconfiado com mais de 50 anos -, lhe introduzira as atuais demandas do Gringotes e do Ministério Inglês: reforçar os cofres do banco com mais feitiços protetivos (para além da magia dos duendes e das próprias artimanhas de segurança que o banco guardava em segredo). Tal necessidade surgira com o início de movimentações suspeitas na grande região comercial bruxa, o Ministério suspeitava de que o tráfico de artifícios das trevas haviam aumentado consideravelmente. Não era uma tarefa fácil comprovar o porquê daquela movimentação, embora a dedução fosse bem rápida e simples: comensais da mortes andavam circulando pela área. Todavia, comprovar que os comensais da morte estavam envolvidos com tal coisa era uma jornada sinuosa.
A última coisa que Moreau desejava era envolver-se em alguma atividade que, de alguma forma, se relacionasse com os comensais da morte. Seus sentimentos sobre o tema era conflituosos, pois ao mesmo tempo em que se sentia um covarde por não ter entregado Regulus Black às autoridades, também sentia-se incapaz de fazer algo que fosse feri-lo; o que era no mínimo irônico. No final do dia, Nathalie sabia que era uma criatura desprezível e desprovida de bravura — afinal, o Chapéu Seletor jamais cogitara colocá-la na Grifinória -, pois além de levar consigo o medo de arcar com a ira dos seguidores do Lord das Trevas, a ideia de ter um embate com a família Black lhe causava arrepios. Contudo, ela precisava do emprego. Tinha passado a amar a França, mas sabia que em algum momento iria precisar voltar, precisava apenas criar forças para ser uma adulta que não se deixava dominar por seus sentimentos de adolescente.
E cá estava ela.
Seu quarto no Caldeirão Furado era pequeno, embora aconchegante, a lareira estava acesa e a cama de casal era extremamente atraente para ela que passara a manhã inteira cansada de organizar questões da mudança. Após um suspiro resignado, ela decidiu afundar-se em meio às cobertas enquanto esperava pelo sono.
Não queria refletir sobre como os próximos dias seriam difíceis, Nathalie estava ciente de que não iria odiar trabalhar no Gringotes, porém, nada seria a mesma coisa do que trabalhar com a arte que estava sufocada em seu peito. Seus dedos coçavam para fazer algo: escrever uma poesia, realizar uma pintura ou simplesmente tentar compor uma música — algo que era inédito até para ela.
Irritada com o rumo dos pensamentos, Moreau abriu a mochila e tirou dali uma pequena pílula que iria garanti-la uma longa noite de sono sem sonhos.
~*~
Com o passar dos dias Nathalie havia se habituado à rotina de acordar cedo e dirigir-se até o Gringotes para trabalhar. A corvina não se importava de ter que conferir o estado dos feitiços que protegiam a infinidade dos cofres que estavam alocados no subterrâneo de Londres, na verdade, era um tanto divertido ter que viajar pelo subterrâneo. Era fato de que os duendes não gostavam da presença de bruxos no banco, sempre sendo bem fechados e objetivos, até mesmo com os bruxos que ali trabalhavam. De toda aquela rotina no Gringotes, o que Nathalie mais detestava eram os clientes.
Todo tipo de pessoa do mundo bruxo possuía uma conta no Gringotes, contudo o pior de gente que poderia habitar aquele local era a elite puro-sangue.
De todas as pessoas que a garota poderia encontrar ali, Bellatriz Lestrange certamente era uma das possibilidades mais remotas que lhe passara em sua mente. Embora ali estava a cacheada, de frente para a sua mesa, a observando como se fosse uma animal em um zoológico.
— Nathalie Moreau. — a entonação praticamente musical da voz da Black lhe causou arrepio até a ponta dos pés.
Aquela fora a primeira vez que sentira medo legítimo de Bellatriz, primeiro porque não sabia se a prima de Reglus também tinha conhecimento do relacionamento do dois; e segundo porque a mulher de nariz pontudo vinha acompanhada de um homem que carregava consigo fama de estar alinhado com os valores dos seguidores do Lord das Trevas, seu marido, Lestrange.
Os olhos de Nathalie se ergueram da papelada para a bruxa.
— Bom dia Bellatriz, como posso ajudá-la? — foi preciso de muito autocontrole para que sua voz não vacilasse.
Após mais alguns momentos desconfortáveis a encarando em silêncio, Bellatriz sorriu.
— É assustador perceber que as instituições bruxas andam contratando qualquer um — e com um aceno de desprezo (levemente dramático), a mulher que agora carregava o sobrenome Lestrange, lhe deu as costas e foi atrás de um duende para receber atendimento.
O marido de Bellatriz a olhou por mais alguns momentos, antes de seguir a mulher.
Silenciosamente, Nathalie se permitiu suspirar em alívio. Para os padrões da mulher a sua frente, aquele comportamento nada mais era do que um dia de bom humor, o que significava que a Lestrange sequer sonhava com a ideia de imaginar a Moreau ao lado de seu primo.
Para além daquele pequeno infortúnio, Nathalie seguiu a sua semana em um clima monótono.
~*~
Aos poucos se passaram alguns meses em que a Moreau estava instalada no Caldeirão Furado enquanto trabalhava no Gringotes, ela estava começando a considerar mudar-se para alguma casa que ficasse em um povoado tranquilo — para que não precisasse viver eternamente em hotel e se permitisse criar raízes. Em seus dias livres, Nathalie gostava de visitar sua mãe e seu padrasto ou até mesmo ir até a casa de sua amiga grifina dos tempos de Hogwarts, Simone.
Sempre que entrava em contato com alguma pessoa que estava em sua vida durante os seus últimos anos em Hogwarts, um pensamento engraçado lhe passava na cabeça: a vida realmente continua, independente de todo tipo de infortúnio e desgraça que possa acontecer consigo ou com os outros. Sua mãe estava caminhando feliz para o segundo casamento, Simone também comentara com ela que após celebrar três anos de namoro, finalmente recebeu um pedido de casamento.
A vida de todas as pessoas ao seu redor parecia estar em movimento, menos a sua própria vida. Nathalie sentia como se estivesse congelada no tempo, presa aos seus próprios pensamentos depressivos. Uma âncora havia se fincado ali, em meio a uma maresia de melancolia. Como era possível que mesmo depois de todos aqueles anos, ela ainda se sentisse terrível e pateticamente sozinha?
Aquele fora o estalo necessário para que Nathalie compreendesse que a única pessoa que poderia erguer a âncora, era ela mesma. Desde muito tempo, havia se acostumado a se afogar em seus próprios sentimentos como que em uma punição. Estava tão presa dentro de si mesma que não conseguia apreciar o passar do tempo. Não poderia viver assim para sempre.
Então, em uma tarde nublada, Nathalie Moreau molhou um pincel em uma paleta recém comprado de tintas, e pintou. Pintou até sentir que havia extraído tudo o que podia de si.
~*~
A cada dia que se passava, as movimentações suspeitas no mercado bruxa estavam ficando evidentes. Os envolvidos possuíam temor o suficiente ao Lorde das Trevas para poder manter a boca fechada, o que garantia certo tempo antes que o Ministério da Magia iniciasse as investigações em todo o Beco Diagonal. Isso permitia com que Regulus Black circulasse pela região com mais facilidade.
O rapaz estava acostumado a ficar alocado na região que compreendia a Travessa do Tranco — popularmente conhecida por ser uma área mais perigosa e atraente para todo tipo de negócio que beirasse a ilegalidade. Como ele ainda era um mero comensal iniciante, lhe eram designadas as tarefas mais simples e banais: compras alguns itens, realizar o transporte de alguns objetos, acompanhar os irmãos Lestrange em algumas reuniões. Demorou um certo tempo para que Regulus percebesse que não havia nada de banal nas atividades que andava exercendo.
Havia algo estranho sobre os itens que o Lorde das Trevas solicitava que ele comprasse na Travessa do Tranco e transportasse ao QG dos Comensais. A diversidade de objetos impregnados de magia sombria que passara por suas mãos nos últimos meses era assustadora, e era impossível algo assim não atiçar sua curiosidade. Black tentou realizar algumas pesquisas, buscando compreender o que o Lorde das Trevas tinha em mente. Ainda não havia encontrado nada concreto, contudo estava começando a ficar realmente assustado com o que as suas pesquisas estavam começando a apontar.
Certa tarde, ele havia decidido ir até o Caldeirão Furado para tomar um pouco de uísque de fogo. Sua mente andava ansiosa conforme se afundavam em livros e mais livros, sejam as obras voltadas para a oclumência — ramo da magia que conforme era aprimorada, permitia que protegesse sua mente daqueles que tentassem invadir seus pensamentos — ou para os planos do Lord das Trevas. Estava começando a ficar cansado e desesperançoso, passava a maioria dos seus dias rodeado de comensais da morte, e no momento, tudo o que mais gostaria era de ficar sozinho.
Para sua surpresa o bar estava cheio, provavelmente por conta da temperatura gelada nas ruas afora. Foi necessário que ele procurasse uma mesa que não estivesse tão repleta de pessoas para que se sentasse, havia apenas uma mulher cabisbaixa sentada na outra ponta da mesa. Assim que o uísque encontrou suas mãos, Regulus não hesitou em dar um longo gole, em tardes como aquelas, era o queimar costumeiro do líquido em seu corpo, que o lembravam de como era sentir algo.
— Aqui está seu licor, Srta. Moreau, posso ajudá-la em mais alguma coisa? — Tom, o dono do Caldeirão Furado, sorriu calorosamente para a mulher do outro lado da mesa.
Ela ergueu a cabeça, permitindo que Regulus sentisse algo como um soco no estômago, capaz de deixá-lo sem ar. A poucos centímetros de distância estava Nathalie Moreau, talvez com os cabelos um pouco mais curtos do que ele se lembrava e com o olhar mais cansado. Ainda assim, era ela, a garota a quem ele costumava chamar de sua.
Demorou uma eternidade dolorosa para que o olhar de Nathalie encontrasse com o de Regulus, e a dor na expressão da cacheada foi pior do que qualquer ofensa que ela pudesse proferir contra ele. Rapidamente, Moreau desviou o olhar.
— Não, muito obrigada Tom.
O olhar dela não retornou a encontrar o de Regulus, e em questão de poucos minutos, Nathalie levantou-se da mesa e começou a caminhar decididamente em direção a saída.
Regulus certamente não estava pensando quanto também se levantou e foi atrás da Moreau. Primeiro porque não havia a remota possibilidade de que pudesse estabelecer algum tipo de conversa civilizada, ainda mais quando ele fora o culpado das coisas terem acabado daquela maneira. Ainda assim, ele a seguiu em direção a porta. Talvez porque ele ainda se odiasse fervorosamente por ter feito com que a situação acabasse daquela forma, ou simplesmente porque depois de mais de um ano sem poder ver as feições de Nathalie Moreau, ele queria ao menos ter certeza de que ela estava bem.
Ele era um babaca desprezível, e sabia disso.
Mas não se perdoaria se deixasse Nathalie fugir novamente.
~*~
Regulus estava começando a ficar com a respiração ofegante enquanto seguia Nathalie pelas ruas do Beco Diagonal, podia perceber que ela sequer hesitava em olhar para trás, apenas caminhava decidida a afastá-lo de si. Contudo, a chance estava dada, ele não iria desistir enquanto não conseguisse ao menos conversar com a garota dos cabelos encaracolados. Por fim, a sorte veio ao seu favor, de tanto que caminhava de forma desordenada, Nathalie acabou estagnado no meio do caminho. Estava prestes a cruzar a divisa entre o Beco Diagonal e a Travessa do Tranco. Pela primeira vez, sua cabeça se virou para trás, seus olhos dolorosamente brilhantes encontraram os de Regulus Black depois de dois longos anos.
— Por quê está fazendo isso? — foi tudo o que perguntou.
Ele gostaria de poder prender o som da voz dela em uma caixa de música, porque tudo sobre Nathalie o remetia a calmaria e nostalgia. Não havia percebido o quanto sentia falta de simplesmente escutar sua voz.
— Nathalie, por favor, não vamos poder conversar no meio de um lugar como este.
Um sorriso torto cruzou o rosto da corvina. era um tipo de riso que parecia errado em uma face tão dócil como a dela. Era puro amargor.
— Não me lembro de ter te chamado para uma conversa. Apenas fiz uma pergunta simples.
— Bom, eu quero conversar com você. Afinal, você pode se despedir através de uma carta, já eu te procurei por toda a Inglaterra e me deparei com um grande nada! — o Black se exasperou e imediatamente se arrependeu de suas palavras, porque pelo olhar de Moreau, sabia que não tinha o direito de ter proferido aquela fala.
— Você sabe muito bem em qual momento decidiu se despedir de mim.
Aquelas palavras doeram de uma forma inimaginável, mas ele se manteve intacto. Estava se acostumando com a dor, com o rancor e a decepção.
— Nathalie, quinze minutos, é tudo o que eu peço.
— A resposta é não. — ela respondeu com firmeza.
— O que eu tenho para te dizer vai muito além da nossa relação, — seu tom de voz ficou baixo, praticamente inaudível — você corre perigo aqui.
Os olhos castanhos de Nathalie se estreitaram em desconfiança, ela poderia tomar a decisão que lhe parecia mais rezoável: azarar Regulus e desaparecer me meio as ruas sombrias da Travessa do Tranco. Contudo, alguma parte fraca nela ansiava por ao menos saber o porquê Regulus havia feito o que fez. Olhar para ele era doloroso, pois ali ainda existiam resquícios do rapaz que ela tanto amou e em meio a nostalgia, havia um homem que Nathalie desconhecia. Aqueles dois anos haviam mudado o caçula dos Black de alguma forma, seu olhar aparentava estar opaco e as bochechas sem cor. Não queria perder seu tempo dando espaço para a imaginação, porém ali estava ela, diante daquele que havia lhe deixado chorando de joelhos.
Por Merlin, ela sequer estava considerando o real perigo que corria estando sozinha com um comensal da morte em um beco — pois era isso que ele era, um comensal da morte, um homem perigoso e que estava agindo fora da lei bruxa. Ele era perigoso, a última coisa que deveria fazer era aceitar a mera possibilidade de conversar com Regulus Black em um lugar reservado.
— Eu tenho uma única condição: quero a sua varinha na minha mão.
As feições de Regulus endureceram, aquilo era praticamente uma ofensa. Exigir que um bruxo lhe entregasse sa varinha era algo baixo, e ela sabia disso. Mesmo assim, ela observou com certa surpresa, Regulus deslizar o objeto pela manga do casaco e colocá-lo em sua mão. Os músculos do corpo de Nathalie endureceram quando o contato de peles, rápido e sutil, aconteceu.
— Iremos precisar aparatar.
— Apenas me diga o lugar.
~*~
Em um piscar de olhos, os dois desaparataram em um quarto espaçoso. Nathalie precisou de alguns momentos para se repor, antes de se levantar do chão.
— Esse quarto é um lugar protegido contra feitiços das artes das trevas. Estamos seguros aqui.
Ela ignorou aquelas palavras, empurrando a ponta da varinha contra o pescoço de Regulus de uma forma ameaçadora.
— Comece a falar Regulus. O quê está fazendo no Caldeirão Furado? Você também está envolvido nas movimentações suspeitas na Travessa do Tranco?
O Black suspirou certo de que ela não iria ceder tão cedo, então apenas afastou-se de Nathalie sentou-se em um divã próximo a janela do quarto.
— Isso não foi algo planejado, eu nunca pretendi te envolver nisso.
— Você não está sendo claro o suficiente.
Regulus riu rouco, não havia alegria em seu riso.
— Não irei te dizer o que eu pretendia fazer, Nathalie, é perigoso. Sei que cometi vários erros, envolver você nessa bagunça não será um destes. Te aconselho a retornar para a França, lá estará segura enquanto a guerra não estourar e o conflito começar de verdade.
— Guerra? — balbuciou.
— As instituições demoraram muito para agir, uma guerra irá começar muito em breve. Saía do país enquanto ainda há chance, e leve sua mãe junto. — seu tom não de ameaça, e sim de advertência. Ele falava como alguém que estava resignado, era estranho pensar dessa forma, mas ele aparentava ser muitos anos mais velho agora. O cansaço era evidente em suas feições.
A corvina desviou o olhar dos olhos de Regulus, cada momento que seus orbes se encontravam um série de memórias dolorosas percorriam a sua mente, tudo o que havia guardado nos últimos anos estava transbordando dentro de si. Seu corpo estremecia levemente.
Sua mão abaixou a varinha, seus pensamentos estavam nublados entre a culpa, o assombro e a esperança. No fundo, ela sentiu nojo de si por se permitir sentir uma sequer faísca de esperança ao olhar para aquele rapaz.
— Por quê? — ela indagou sem virar o rosto e olhá-lo diretamente.
— Você tem que ser mais específica em suas perguntas.
Nathalie riu com rancor.
— Por que eu deveria acreditar em você? Até onde eu sei, você é um covarde que decidiu abandonar qualquer resquício de bom senso e unir-se a um grupo de homicidas supremacistas. Acho que seus pais devem estar orgulhosos. — a corvina tocou na ferida com vontade, porque a princípio, havia passado anos remoendo o que havia ocorrido entre os dois. Ela ansiava por uma tentativa de fazê-lo sofrer da mesma forma que Regulus fizera.
Diferente do que esperava que acontecesse, ele aceitou suas ofensas de bom grado, como se no fundo soubesse que merecia receber toda a raiva que ela ainda nutria por ele.
— Você não precisa acreditar em mim, ninguém precisa. Nunca pedi por isso.
Moreau balançou a cabeça, enfurecida.
— Não posso e sequer tenho a capacidade de te pedir para acreditar em mim, não depois de tudo o que fiz. Mas peço que você pelo menos escute os murmúrios nas ruas, você sabe que a guerra está chegando. Por favor, apenas vá embora. Sei que passou uma temporada na casa de sua família na França, retorne o quanto antes.
O olhar dela estava preso as chamas fracas da lareira, seus olhos estavam começando a sair do foco enquanto escutava as palavras de Regulus. Um grito parecia estar entalado em sua garganta a ponto de seu peito doer.
— Você não tem o direito de se importar comigo Regulus, mas ao menos me deve uma resposta. Por quê aceitou a Marca?
Talvez, dois anos atrás, Nathalie Moreau não estivesse pronta o suficiente para sequer proferir aquelas palavras. Contudo, depois de passar tanto tempo guardando os seus sentimentos e remoendo tudo o que havia ocorrido, finalmente conseguiu verbalizar a dúvida que vinha a assolando.
— Meu pai sempre foi um grande admirador do Lorde das Trevas, embora nunca tenha se envolvido com os Comensais. Quando Sirius foi embora… — sua voz falhou por alguns momentos — quando ele partiu tudo começou a ruir e eu… Apenas queria ser aquele que iria colar os retalhos do que havia sobrado da minha família: meu pai que vivia se afogando em uísque de fogo, minha mãe que vivia tendo surtos de raiva… Pensei que se eu fizesse algo grandioso eles poderiam ficar orgulhosos, e de alguma, iria arranjar alguma forma de trazer Sirius de volta para casa.
“Não sei se isso pode fazer sentido, você teve um pai presente o que é completamente diferente da ideia de pai que eu sempre tive. Eu sempre fui uma criança que implorava por atenção, sempre dependia da reafirmação dos meus pais para poder sentir que estava fazendo algo certo. Então se você precisa de um motivo específico, posso dizer que sou um completo idiota cego por validação paterna, prestes a fazer tudo apenas para receber um afago na cabeça. Mesmo que precise matar um pouco de mim para que eu possa chegar lá.”
“Só que com o passar do tempo, eu senti a culpa me corroendo e o olhar destruído que você me deu aquele dia foi o suficiente para me corromper. Então quero que saiba que eu me odeio por todo o mal que eu te causei, sei que não há nada que eu posso fazer para voltar atrás e corrigi o que fiz.”
Antes que Regulus pudesse terminar sua fala, Nathalie ergueu a mão rapidamente o cortando. Sua fala saiu seca.
— Valeu a pena?
O corpo do rapaz se afundou ainda mais no divã, seu olhar estava voltado para o teto enquanto algumas mechas castanhas cobriam sua testa.
— Como poderia valer a pena? Irei pagar pelas consequências da minha escolha, meu erro, para sempre.
Pela primeira vez, depois de uma longa discussão, os dois ficaram em silêncio, cada um posicionado em um canto do quarto. Regulus no divã enquanto Nathalie estava sentada de frente para a lareira, com o olhar perdido nas chamas.
— O que te fez voltar? — Regulus perguntou depois de muito tempo.
Nathalie ponderou suas palavras.
— A França não é o meu lugar, tive que arranjar alguma forma de voltar para a Inglaterra.
— E como sabe a respeito das movimentações financeiras da região?
— Aleḿ do óbvio? — Nathalie deu uma risada seca — Eu trabalho para o Gringotes agora, é meu trabalho entender porque está havendo tanto desvio de dinheiro em uma região específica.
— Gringotes? Você deveria estar trabalhando como pintora. — Regulus virou-se no divã, inclinando o corpo em direção a Moreau.
Ela apenas lhe respondeu com um dar de ombros.
— As coisas mudam Regulus.
Não você, ele quis dizer, não a sua arte, que é uma das coisas mais lindas que eu pude ter o prazer de olhar.
— Então, — Nathalie perguntou em uma tentativa de despistar o assunto — esse é o momento em que você revela o seu plano do mal de Comensal da Morte e me mata com uma Maldição Imperdoável?
As sobrancelhas da garota se erqueram em sinal de desafio.
Regulus suspirou.
— O que eu vou te dizer agora pode custar a minha vida, mas irei fazê-lo de toda forma. Nathalie, eu estou abandonando Aquele Que Não Deve Ser Nomeado.
Fale com o autor