Dancing With Our Hands Tied

11 10. Feridas que sangram e se transformam em arte


Notas iniciais
finalmente as férias da faculdade chegaram e eu vou poder ficar mais presente por aqui. espero que gostem do capítulo! :) boa leitura

capítulo dez



“Caras Genevieve e Anna Moreau,

Venho por meio desta carta informar que possuo interesse em passar meu verão com vocês na França.



Atenciosamente,

Nathalie Moreau.”



A sala do Professor Dumbledore era algo interessante de se observar, ele dispunha dos mais diversos artefatos do mundo bruxo espalhados naquele ambiente espaçoso. Ela soube reconhecer uma penseira mencionada nos livros sobre artefatos mágicos que havia lido anos atrás, e até mesmo uma bela fênix que a olhava atentamente de longe. Seus olhos deslizaram da decoração até a expressão atenciosa do professor.

— Recebi uma carta curiosa de sua tia, Genevieve Moreau. — foi tudo o que o senhor à sua frente comentou.

Ela sentiu-se dividida entre dar de ombros ou simplesmente suspirar cansada. Era um fato conhecido pela elite bruxa de que seu drama familiar a impedia de manter contato com a parte francesa da família, e estava certa de que até mesmo Dumbledore deveria saber sobre este tipo de coisa.

— Minha mãe já está ciente a respeito da viagem Professor. — murmurou.

— Claro, imagino que esteja. Apenas me pergunto o que ocasionou uma mudança tão brusca.

Os olhos castanhos da garota faíscaram, poderia ser de raiva ou simplesmente de tristeza. Tinha plena noção de que Dumbledore estava ciente de suas reações contrárias às palavras que escapavam de seus lábios, não era possível mentir para um homem como ele.

— Recebi esse convite durante a festa de Slughorn e resolvi aceitá-lo — ao menos, essa parte de seu discurso era uma verdade.

Ele a observou atentamente, como se fosse capaz de ler cada um dos pensamentos que ela não ousava verbalizar.

— Apenas tenha uma única coisa a dizer antes de partir, — aquela foi a única vez durante a conversa em que Nathalie olhou Dumbledore nos olhos e ergueu seu queixo, juntando confiança para dizer o que precisava externalizar — o senhor devia ter uma noção do tipo de pessoas perigosas que essa escola está acolhendo.

De forma quase imperceptível, as sobrancelhas de Dumbledore se ergueram, não em surpresa, mas sim com interesse no que havia sido dito.

— São tempos difíceis Srta. Moreau. Hogwarts é uma escola que irá receber todos os tipos de crianças que possuírem magia correndo em seu sangue. Resta a nós termos a resiliência necessária para acreditar na mudança e ser um símbolo de esperança para quem precisa.

Para uma garota que sempre foi conhecida por ser dócil e silenciosa, aquela foi a primeira vez que Nathalie riu com deboche. As sobrancelhas da garota se arquearam em sinal de desafio, como se estivesse à espera das palavras do Professor, para que admitisse que sabia.

Era óbvio que Dumbledore sabia, ele era um dos homens mais poderosos do mundo bruxo. Ele saberia caso um comensal da morte estivesse se espreitando em Hogwarts.

O que a espantava era o fato de ele permitir a estadia de Regulus, permitir que aquele garoto se aproximasse de pessoas como ela.

E ainda ousasse falar sobre esperança e mudança. Aquilo era asqueroso.

— Hogwarts sempre estará de portas abertas para aqueles que precisarem de uma segunda chance — foi tudo o que Alvo disse antes da garota partir, ciente de que ela não pretendia voltar, ciente de que o caçula dos Black estava sozinho com seus demônios.



~*~



Eloise Moreau era uma mulher de pele branca e cabelos castanhos escuros que se enrolavam em cachos nas pontas, seus olhos eram sorridentes e faziam com que sua filha sorrisse brevemente sempre que a avistasse de longe. Daquela vez não foi diferente, depois de meses sem ver sua mãe, Nathalie sorriu como uma criança.

— Como foram as férias? — Eloise indagou após abraçar a sua pequena em meio a correria dos trouxas que entravam e saíam da cafeteria, em direção a suas vidas apressadas.

Nathalie sentou-se em uma mesa de frente para a mãe, deu um gole em seu cappuccino e por fim falou:

— Não foi péssimo como eu imaginei que seria. Genevieve está se esforçando para ser uma pessoa razoável, e… Anne é adorável, tenho a impressão de que na verdade a ideia de me trazer para a França foi dela. Ela se casou recentemente e está grávida, então esse momento de reunião foi bem legal para ela.

“Elas tentaram me ensinar as danças que os Moreau realizam naqueles bailes espalhafatosos que eu só pude escutar o pai mencionar, — o canto dos lábios de Nathalie se ergueram em um sorriso melancólico, a garota amava passar horas trazendo lembranças de seu adorado pai a tona — mas eu não consegui aprender um passo sequer. Acho que meus pés não possuem coordenação motora o suficiente para dançar, e minhas mãos também não conseguem se adaptar à arte do bordado e da costura. Então me restou pintar, passei o verão inteiro pintando as paisagens do jardim ao pôr do sol, e participei de quase todas as festas da família.”

“Mas sendo bem sincera, senti a sua falta, senti saudade de casa.”

Sua mãe sorriu de forma amorosa, o tempo todo em que a filha relatou sobre sua viagem, apenas a escutou em silêncio. Apesar do tempo que passaram separadas, ficou contente em perceber que Nathalie havia tido a iniciativa de visitar a família de seu pai. Ver a criança fora severamente abalada pela perda tão precoce, poder se reconectar com o pai de alguma forma, era algo que lhe aquecia o peito.

— Você aceitou a proposta de Anne, então?

Nathalie hesitou, desviando o olhar para a janela do café. O olhar da garota perdeu-se na rua, onde os londrinos caminhavam apressados em meio a fina garoa que caía suavemente em suas cabeças.

— Sim, eu aceitei.

— Filha, você nunca me disse o que te fez querer sair de Londres tão abruptamente. Sei que o fato de eu estar iniciando um novo relacionamento pode ser algo difícil para você… mas saiba que eu ainda posso esperar…

A corvina balançou a cabeça negativamente. Nos últimos anos sua mãe havia retornado a se relacionar com novas pessoas, e já faziam alguns meses que seu mais novo relacionamento aparentava estar dando certo. Nath gostava do cara, na verdade, estava muito feliz pela mãe, em vê-la seguindo em frente depois de tudo o que teve de passar. Contudo, nunca havia mencionado o que fez com que ela deixasse a cidade de seu coração, e provavelmente jamais iria verbalizar o nome daquele que deixara feridas profundas em si.

— Mãe, está tudo bem. Eu apenas quero uma experiência diferente, sei que Beauxbatons é um pouco distante de casa, mas sinto que uma mudança no meu último ano escolar seria algo bom. Iria expandir meus horizontes.

Um sinal de preocupação atravessou o olhar de Eloise.

— E os seus amigos em Hogwarts?

— Irei escrever para cada um deles, e estarei de volta todos os feriados para lhes fazer companhia.

Ciente de que sua filha não iria elaborar mais sobre o assunto, Eloise resignou-se a dar um gole em seu chá. Era visível que alguma coisa fizera com que Nathalie decidisse sair de Hogwarts, contudo também era perceptível que ela não iria abordar aquele tema.



~*~



“Mesmo quando você se tornou a causa da minha ruína”.

Aquelas palavras o assombravam constantemente, a carta que lhe fora endereçada assim que Nathalie deixara Hogwarts alguns dias antes do ano letivo acabar sem sequer se despedir… Tudo aquilo estava gravado em sua mente em uma memória extremamente dolorosa. Ele conseguia se recordar facilmente de procurar por ela nos dias seguintes e nunca encontrá-la, estava começando a ficar desesperado quando percebeu que Nathalie havia partido. Quando se deu conta de sua ausência, alguma coisa pareceu se romper.

A carta de Nathalie fora como uma espécie de golpe fatal, e ele sempre revisitava aquelas palavras, para lembrá-lo do quão estúpido e egoísta ele poderia ser. Nunca fora alguém que chorava com facilidade, porém sempre se encontrava vulnerável quando segurava aquele pedaço de pergaminho.

As memórias de seu relacionamento estavam começando a virar borrões, e ele se odiava por isso. Queria ter o poder de guardar tudo o que vivera nitidamente em sua mente, para lembrá-lo de que ele era uma falha ambulante, um monstro egoísta. Com o passar dos meses, ele não conseguia mais se lembrar com exatidão da risada de sua namorada e muito menos da estampa do seu vestido favorito. Contudo, ela jamais desaparecia de sua memória, sempre seria um borrão distante, porém presente.

Ele não se permitiria dizer adeus a memória de Nathalie, não quando ela era a lembrança vívida de que sua ambição fora o motivo de sua destruição. Havia desejado demais, desejado para além dele e se perdido em meio às suas vontades conflitantes. Restara apenas o amargor na boca daquele que havia perdido.

A única coisa que lhe sobrara fora aquela maldita marca em seu braço.

Havia perdido seu irmão e a garota que adorava. Tudo isso porque era egoísta, porque seu interior era corrompido e maldoso. Com os meses de solidão, Regulus se resignou, compreendeu que existiam coisas boas que pessoas como ele jamais iriam merecer, o amor era uma delas.



dois anos depois



Talvez desligar-se de toda forma que possibilitasse criar arte fosse a maneira mais cruel de se torturar um artista. Não havia muito tempo que Nathalie havia terminado seus estudos em Beauxbatons, desta forma, seu início na carreira voltada para a área de finanças havia sido algo bem recente. Seus orientadores, tanto em Hogwarts quanto na escola francesa, sempre apostaram na sua capacidade de trabalhar com arte e criatividade. Todavia a corvina optou por seguir com algo que lhe fosse mais confortável.

A oportunidade para trabalhar no Gringotes viera de forma sutil, seu antigo professor de feitiços, Flitwick, havia a indicado informando que havia grande habilidade na execução de feitiços voltados para a segurança. Durante o verão havia trocado algumas cartas com sua melhor amiga, informando que não se importaria de retornar à Inglaterra para trabalhar — embora não estivesse disposta a voltar-se para alguma atividade relacionada a arte. Não foi preciso de muito para que Simone entrasse em contato com o professor que representava a Corvinal, seria questão de tempo para que o retorno fosse oficializado.

A princípio Nathalie não entendeu o porquê dos duendes estarem reforçando a segurança do banco, até que o óbvio se fez visível: com a despontar de uma nova guerra no mundo bruxo os negócios estavam ficando incertos e o capital oscilando.

A arte era algo que ela estava evitando há alguns anos, era muito raro que Nathalie fosse vista pintando ou desenhando algo novo nos últimos tempos. Desde que havia saído de Hogwarts, deixar seus sentimentos transbordarem em uma tela branca tornou-se algo insuportável. Toda vez que ela manuseava um pincel, as formas que criavam pareciam com o maxilar anguloso, os olhos castanhos gentis e o sorriso torto de Regulus Black. Aquilo se tornou insustentável para si, porque estava evitando tudo que levasse seus pensamentos de volta para ele. Evitava, como um covarde, toda e qualquer coisa que a lembrasse de que para se curar daquelas feridas, deveria encarar aquele que a feriu de frente.

Então ela apenas levava a vida. Ignorando o fato de que a arte fora tudo aquilo que a conectou com seu pai, ou simplesmente a questão de que criar algo com um lápis e um pincel sempre fora sua forma de lidar com seus sentimentos confusos. Desde que havia se distanciado de seus dotes artísticos, Nathalie sentia que existiam milhares de sentimentos entalados e queimando em sua garganta, implorando por liberdade. Cerca de uma vez por semana ela buscava calar aqueles sentimentos com uma boa dose de uísque, pois aquela parecia ser a única coisa capaz de desanuviar a sua mente.

Moreau estava dando um último gole em uma taça de vinho no jardim da residência de sua família quando Genevieve surgiu, caminhando em sua direção. Naquele fim de tarde Genevieve tinha seu cabelo arrumado em longas tranças que caíam em suas costas, balançando vagarosamente conforme seu caminhar, os olhos castanhos escuros fitavam a sobrinha com cuidado. Já fazia mais de um ano em que Nathalie convivia com as tias, desde então a convivência se tornou algo quase que tranquilo.

— Está partindo para a Inglaterra?

— Sim, já está tudo planejado para as próximas semanas — a expressão no rosto de Nathalie era vazia, embora a sua lentidão em responder demonstrasse que a bebida estava começando a surtir efeito.

Genevieve aproveitou sua deixa.

— Você nunca nos disse o que a fez sair de Hogwarts tão abruptamente, mas eu sei o que a fez vir aqui. Reconheço o olhar de um coração partido de longe.

Nathalie se engasgou.

— Eu não-

— Você é tão ingênua quanto minha irmã Anne, — a tia disse, com o seu jeito nada carinhoso de lhe dar um sermão — acreditando que fugir da confusão que causou irá amenizar o sofrimento que está sentindo por dentro.

— O que aconteceu com a Anne? — perguntou timidamente.

Genevieve rolou os olhos, como se aquela memória lhe causasse dor de cabeça. Antes de começar a falar, ela retirou a garrafa de vinho das mãos da sobrinha e deu um gole direto do gargalo.

— Antes de conhecer o atual marido, Anne se envolveu com um homem casado. Era óbvio que ela não sabia no começo, só que com o passar do tempo foi se tornando claro. Ele nunca a levava para sair em público, sempre estava ocupado com outros compromissos e pedia para que ela não lhe escrevesse cartas. — o tom de Genevieve era gélido, como se ela pessoalmente odiasse aquele sujeito com todas as suas forças — Quando descobriu, Anne ficou devastada, trancou todos os sentimentos consigo por bons meses, achando que era a melhor forma de lidar com a situação.

— E como ela superou a situação? — a sobrinha indagou.

Sua tia fez uma careta.

— Não sou a melhor pessoa para falar a respeito desse tipo de coisa, afinal, quem está feliz e casada é a minha irmã, então prefiro repetir as mesmas palavras que ela me segredou anos mais tarde. “Minha única saída foi me fazer vulnerável novamente, me abrir para poder sentir novamente ao invés de me fechar para o mundo”. Talvez ela esteja certa, talvez ela esteja errada. A única coisa que eu sei, é, a família Moreau é conhecida por sua longínqua linha de artistas; e não há maior inferno do que impedir um artista de sentir.

“Permita que suas feridas sangrem e se transformem em arte, apenas tente dar algum sentido ao que está sentindo, e tenho certeza de que encontrará uma forma de lidar com o que está sentindo.”

Para uma mulher que sempre fora conhecida por suas duras palavras e olhares tortos, Nathalie teve de reconhecer que Genevieve estava fazendo um esforço para ser minimamente gentil com ela. A garota se pegou sorrindo de leve, apesar do leve aperto no peito de ter refletido sobre as palavras de sua tia.

— Obrigada pelas palavras.