Dance Made
4 #4-Perguntas sem respostas.
Notas iniciais

A aula de quinta foi resumida em coreografias. O Yan passou três para que pudéssemos treinar para o campeonato. Eu e Breno não nos falamos desde aquele momento. Apenas trocamos olhares do tipo: ”eu sei o que você quer, mas quando vai querer? ”. Hoje é sábado, mais tarde Bea chega para criarmos nossa coreografia. Por um lado, estou animada para poder dançar com ela, mas, por outro, sinto que ela vai cobrar muito de mim.
Sabendo que ela só chegaria mais tarde, decidi sair para comprar um lanche em uma lanchonete que fica à duas quadras da minha. Chegando lá, pedi uma quantidade agradável de besteiras para dividir com minha parceira, mas logo me arrependi quando me virei. Não podia acreditar, era Jake. Não sabia se ele havia me visto, mas estava vindo para a lanchonete. Devolvi todas as besteiras e comecei a olhar para os sanduiches naturais nada atraentes que estavam ali.
—Oi, me vê uns dois doritos, quatro chicletes e dois sucos... Elin? —Essas foram as palavras do cara que eu estava tentando esconder meus besteirilhos.
—Oi Jake! —Tentei parecer o mais surpresa possível—Então.... Quando vai me contar sobre seus trabalhos de espionagem?
—Que? —Ele riu— Você é que tem que me contar como consegue estar sempre no lugar certo na hora certa!
—Sei...
—Decidiu o que vai pedir?
Bom, agora eu com certeza poderia pedir minhas besteiras.
—Tava pensando em umas batatinhas e um suco...
—Batatas e suco? Beleza. Amigo, me vê uma batata e um suco de... do que você quer, Elin?
—Jake! Não é pra você comprar! Eu to com dinheiro, relaxa.
—Se não responder eu vou ter que escolher um.
—Jake! Sério, não preci—
—De uva, por favor.
—Aff... Te odeio. —Falei, dando um tapinha no ombro dele.
—Posso viver com isso. Vem, vamos pra uma mesa.
Nos sentamos e começamos a comer. Estava muito curiosa para saber porque ele havia pego dois salgadinhos e dois sucos. Mas acho que minha expressão havia deixado isso muito claro para ele.
—Você deve estar curiosa com os salgadinhos. —Ele disse.
—Sim, um pouco.
—É pra coreografia do HipHop, to fazendo com o Breno, daí ele esqueceu de comprar lanche pra gente.
—Ah, entendi. —Ri— E.… onde estaria ele?
—Ele passou na casa da Camila para pegar um casaco dele que tinha ficado lá.
Alguém por favor me diz que Camila também pode ser um nome masculino. Por favor.
—Camila...? —Disse, confusa.
—É verdade, você não chegou a conhece-la. Bom, como posso dizer.... Ela é a ex-namorada do Breno. Eles terminaram há três meses.
—Entendi.... Eles continuam se vendo?
—Não muito.... Ela ainda sente uma atração por ele, saca? Mas o Breno já esqueceu dela. Só passa lá para pegar coisas dele.... Sabe como é, né? Ele já dormiu lá algumas vezes.
—Sim. Sei como é.
Na minha mente só passava a imagem dela estragando qualquer coisa que eu e Breno poderíamos ter no futuro. Acho que estava exagerando nos pensamentos, mas só pude notar isso quando vi que a latinha que estava na minha mão havia sido esmagada.
—Acho que alguém não gosta de uva.... —Disse Jake, brincando.
Antes de responder, vi Breno se aproximando da faixa de pedestres para vir até a lanchonete.
—É, sou mais laranja. —Eu disse, descontando toda minha raiva naquelas quatro palavras.
Levantei e agradeci Jake pelo lanche, a última coisa que eu queria era encontrar com Breno. Fui andando em direção à minha casa, mas parece que não tinha como fingir que a faixa de pedestres não existia. Atravessei olhando fixo para frente, sem deixar os olhos azuis me fazerem mudar de ideia. E, claramente, não funcionou. Estávamos à uns sete passos de distância um do outro. Seus olhos foram descendo até meus pés, e subiram passando por cada parte do meu corpo. Depois ele apenas arqueou as sobrancelhas, como se estivesse aprovando cada detalhe meu. Não deixaria ele ganhar. Não dessa vez. Fiz o mesmo com ele, mas não disse se havia aprovado ou não. Apenas encarei seu olhar.
Chegando em casa, fui tomar banho para depois esperar minha exigente convidada. Que, depois de uma hora, chegou. Desci para buscá-la, mas não sabia nem como dizer “oi” a ela.
—Ei! Elin! —Ouvi sua voz gritando do outro lado do bloco— Desculpa a demora, meus pais não quiseram me trazer, vim de ônibus. —Ela se aproximou de mim e me abraçou, um abraço de alguém que você já conhece há muito tempo, o que não era o caso. —Teria como eu dormir aqui? Não quero parecer folgada nem nada, eu só não acho que conseguiria chegar cedo em casa, isso preocuparia muito meus pais.
—Dormir aqui? Problema nenhum.... —Eu ainda não conhecia essa Bea que estava na minha frente, mas eu estava gostando dela. —Quer ajuda com sua mochila?
—Não precisa não, valeu. Mas é sério que eu posso dormir aqui hoje? Não quero atrapalhar.
—Problema nenhum, Bea. Vem, vamos subir.
Subimos conversando sobre a trajetória da Bea no ônibus. As pessoas estranhas que ela viu, as situações engraçadas que ela passou. Nem me lembrava mais o motivo de eu estar com medo de conversar com ela.
—Bea, chegamos. Pode deixar suas coisas no meu quarto, é aquele no fim do corredor. Agora não tem ninguém aqui, mas minha mãe chega às 22h, ela vai ficar no escritório e dorme assim que acaba de trabalhar. Mas então, quer alguma coisa?
—Cara, eu aceitaria uma água.... Ei, não precisa responder, mas.... Seus pais.... Eles são...
—Divorciados? São sim, por que?
—Nada.... É só que os meus estão se divorciando aos poucos.... Não sei quanto tempo vou continuar na dança.... É meu pai que paga ela, minha mãe acha que é desperdício.
—Nossa.... Boa sorte, Bea. —Eu a abracei, mas ela pareceu muito surpresa. —Bom, vou pegar sua água, tá? Já apareço no quarto.
Depois de pegar a água, só pude ouvir a Bea dizendo um “Não acredito, Elin! ”. Espero que seja no bom sentido. Entrei no quarto esperando levar um esporro, mas pelo contrário....
—Não sabia que gostava de jogar videogame! Ou vai dizer que você tem um irmão e que isso é dele?
—Não, Bea. É meu mesmo. Por que? Você também joga?
—E muito! Nossa não acredito que você joga! Nunca tive uma amiga que jogasse de verdade!
—Sério? Eu conheço uma só. Minha melhor amiga, Amanda. Estudamos na mesma escola.
—Aff, me apresenta ela esses dias! Preciso de mais amigas assim!
—Pode deixar!
Dançamos durante a tarde toda, mas a coreografia havia ficado perfeitamente perfeita. Bea foi tomar banho primeiro. É bem a cara dela levar um pijama na mochila, lógico que eu não negaria o pedido dela de dormir aqui. Decidi aproveitar esse tempo sozinha para pensar no que havia acontecido hoje mais cedo. Será mesmo que Breno não sentia mais nada por ela? Será que Jake não me considera uma idiota por deixar ele ali, daquele jeito? Quem é essa Camila? Eram muitas perguntas, mas todas sem respostas.
Por um instante me peguei pensando nos lábios do Breno, tão próximos dos meus, mas tão longes ao mesmo tempo. Não queria estar pensando nele. Isso só mostrava que ele estava ganhando de mim. Em tudo. Pensar em Jake não me ajudava a esquecer Breno. Mesmo sendo um bom amigo, nunca mostrou segundas intenções. Ao contrário de Breno, que, em qualquer situação, mostrava o que queria de mim. Não que isso me incomodasse, até porque eu queria o mesmo.
—Elin! Socorro! —Grita Bea, do banheiro.
—O que foi? —Fui, desesperada, em direção à porta.
—Esqueci minha toalha!
—Vei, eu quase enfartei aqui criatura. Vou buscar.
Depois de Bea ser salva e meu banho ser tomado, preparamos uma boa ceia—Salgadinhos e refri—e fomos para o quarto. Minha cama é de casal, então mesmo com intimidade zero, eu teria que dormir com as visitas que apareciam.
—Ta. O que vamos fazer? —Ela puxou assunto, enquanto abria um dos salgadinhos e encostava em um dos travesseiros.
—Sei lá.... A gente pode ver filme, jogar, conversar.... Os três....
—Juro que eu estava esperando por um “Pintar as unhas, fazer penteados, ler revistas...”
—Você ainda não me conhece! —Disse, rindo.
—Então já sei o que vamos fazer! —Ela disse, se sentando, como se fosse algum assunto sério. —Vou te fazer perguntas e você faz pra mim também, podem ser qualquer tipo de pergunta e a gente tem que responder! Pode ser?
—Ta, gostei da ideia, pode sim. Você é a visita, então começa. —Decidi.
—Ta! Hm.... Quantos anos você tem? —Ela começou.
—Tenho dezesseis, fiz dia 15 de janeiro.
—Janeiro? Eu também sou de janeiro! Dia 27.
—Sério? Qual sua idade?
—Dezesseis também!
As perguntas começaram leves e descobrimos que temos muita coisa em comum. Mas, depois de uns vinte minutos, fazíamos perguntas mais comprometedoras.
—Elin, você prefere que um menino te pegue pela cintura ou pelos ombros?
Eu não achei a pergunta estranha, como estávamos aumentando os níveis aos poucos, falar com Bea sobre isso era normal.
—Cintura.
—Então parece que você é das que gosta de atitude, né?
—Lógico! Menino que te pega pelo ombro é muito educadinho!
—Concordo! Mas vai, faz sua pergunta.
—Qual o nome do menino que tirou seu BVL?
—Aff.... Espero que você não conheça! O nome dele é Thiago. Não ouse procurar no facebook, Elin.
—Eu? Procurar? Nunca.
—Você me assusta, Elin.
—Muahahahaha! —Brinquei.
—Eu vou mudar um pouco a pergunta. Qual o primeiro nome de menino que vem na sua mente?
Essa foi a pior pergunta. De todas. Não tinha como responder, mas se eu pensasse muito, ela iria notar. Queria ser sincera e dizer: Breno, porque eu acho que eu gosto dele mais do que eu achava. Mas ainda não sabia o que ela poderia fazer com essa informação.
—Thiago, até porque tenho que lembrar o nome dele pra não procurar no facebook enquanto você dormir.
—Eu te odeio, garota! Só por isso vou cancelar sua chance de fazer a próxima pergunta.
—Ei! Isso não vale!
—Qual o primeiro nome de menina que vem na sua mente? —Ela disse, determinada.
—Camila.
Simplesmente saiu. Ela não poderia conhecer ela. Poderia? Claro que sim.
—Camila? Você conhece a Devil?
—Devil...?
—O sobrenome dela é Danvel, mas eu chamo ela de Devil por motivos óbvios.
—Não sei se estamos falando da mesma Camila....
—Ex do Breno. —Ela disse, cruzando os braços e arqueando uma de suas sobrancelhas. —Mesma Camila? Não estou surpresa. Essa escrota está em toda parte.
—Eu nem conheço ela.... Só ouvi falar....
Bea me explicou a biografia da garota. Ela disse que a menina estava tentando fazer o Breno desistir de dançar, isso irritou todo mundo da dança. Mas, como Bea é a única que toma iniciativas, elas criaram uma discussão enorme, e se odeiam. Ela também disse que a garota ficava agarrando o Breno na frente de todo mundo, que ela não desgrudava dele, que era nojento. Mas, tudo que ela queria era chamar atenção, todas as aulas de dança ela levava ele até a sala, caso contrário, ela deixava uma marca de batom enorme no pescoço dele.
—Ainda bem que não tive que conhecê-la. —Respondi.
—Ainda bem mesmo! Bom, mas agora tudo se resolveu. Breno terminou com a cobra quando ela fez um escândalo no estúdio. Isso porque Breno tinha sido aceito para dançar em uma escola, que, segundo ela, teriam muitas garotas.
—Ai cara! Que garota chata! Quanto ciúmes!
—O lado dos ciúmes eu até entendo ela, namorar o Breno é algo muito complicado, por isso quem conhece ele nem se atreve a pensar em segundas intenções.
—Hm.... Por que?
—É verdade! Você ainda não sabe quem ele é! Bom, é mais legal ficar na curiosidade. Acho que vou deixar você descobri-lo sozinha. Mas só um aviso.... Não se entregue para aquele garoto de olhos azuis. A não ser que você queira. Porque, se você se entregar, vai estar na palma das mãos dele e não vai mais conseguir sair. Igual a Camila.
—E o que te faz achar que eu me entregaria a ele?
— O que me faria achar que não? O Breno é o sonho de qualquer uma que ainda não o conheça....
—Você sabe muito sobre o Breno, não acha?
—Sete anos de amizade? Você conhece um pouco a pessoa. Ei.... Se quiser me falar qualquer coisa relacionada a ele, pode falar.
—Eu até queria.... Mas não tenho certeza se o que vou te falar é real.
—Fala Elin! Para quem você acha que eu contaria? Pra minha irmã mais nova? Eu nem tenho muitas amigas.
—Bea.... Eu acho que gosto do Breno.
—Ta brincando, né? Elin! Fala que é mentira!
—Mas não é! Eu estou mentindo para mim mesma desde a primeira vez que vi aquele garoto entrando pelas portas do estúdio!
—Eu não sei por onde eu começo.... Você ainda tem consciência da vida quando está com ele?
—Oi?
—É! Você consegue ganhar dele nos sinais?
—Desculpa, pode falar português por favor?
—Elin, você sabe devolver os sinais dele ou fica que nem uma lesada e deixa ele fazer o que quer?
—Eu consigo! Não.... Sim! Ah, depende.
—Defina.
—Quando ele não apela, eu consigo.
—Defina apelar, porque eu já to imaginando um estupro aqui.
—Beatriz! Quinta ele quase me beijou, mas não quis.
—Pera. O Breno não quis?
—Ele disse que não tava na hora certa.
—Lembra que eu disse que conhecia ele há sete anos? Então, não conheço mais. Você é diferente, Elin. Não vai ser a mesma coisa das outras meninas, tenha certeza disso.
—O que eu faço, Bea?
—Se você gosta mesmo dele, pode ir. Mas nunca baixe a guarda perto dele. Ele vai aproveitar esse momento para te ter só para ele.
—Acho que consigo isso.... Mas e essa Camila?
—Ah tá, Elin! Nem se preocupa com ela, você ganha de lavada. Ou.... Mas cuidado, não se apaixone tanto pelo Breno. Acredite, é muito difícil fazer isso, mas não sei se ele vai querer algo sério.
—Com as outras ele quis?
—Sério não. Mas você é diferente, Elin. Agora vamos dormir, já são uma da manhã!
—É zoa né? .... Boa noite então, Bea! —Me despedi.
—Beijo, amore.
Viramos uma para cada lado e o ultimo som foi das luzes se apagando. Mas, na minha mente, os sons dos meus pensamentos não se calavam. Será que eu já havia me perdido naquele garoto? O quão diferente eu sou? Mesmo com perguntas, isso não vai me impedir de gostar do Breno. Vou mostrar pra ele que comigo ele vai ter que fazer um esfocinho.
O nosso “ainda” está mais próximo do que eu pensava, Breno.
Fale com o autor