Dance Made
10 #10-Acordando em um sonho.
Notas iniciais

Na manhã seguinte, acordei lentamente com os poucos raios de sol que passavam pela cortina da janela. Foi muito estranho não ter que ouvir o barulho irritante do meu despertador, mas é lógico que eu não iria reclamar. Estava tudo muito calmo e aconchegante, dava até para ver as poeirinhas dançando nesses raios da janela. Espera. Desde quando é possível ter um ambiente calmo e a Bea ao mesmo tempo?
Imediatamente olhei para o lado para verificar a presença da minha amiguinha anormal, e, obviamente, ela não estava lá. Aquela situação calma virou algo um pouco desesperador. Pensei que eu estivesse atrasada para alguma coisa, então tinha que me arrumar logo.
Joguei o edredom para o lado e levantei em um pulo. Fui ao banheiro para aquele famoso ritual matinal feminino de: ajeitar o cabelo, lavar o rosto, escovar os dentes, passar os cremes, maquiagem, perfume, e essas coisas que tomam metade do tempo da nossa vida. Depois, decidi que iria tomar café antes de trocar de roupa, porque se eu tivesse que me arrumar só para tomar o café do hotel, aí sim eu estaria completamente atrasada.
Abri a porta do quarto e fui diretamente para um dos armários da cozinha, sem olhar para nada que pudesse me distrair. Pensei em algo que não tomasse tempo para preparar, e achei um cereal. Ótimo. Coloquei ele na bancada e peguei um leite na geladeira. Quando eu estava finalmente pronta para comer, ouvi uma risadinha. Não. Não é possível. Levantei a cabeça e lá estava o dono da risadinha sarcástica.
Breno estava deitado no sofá com uma das pernas esticadas e a outra dobrada. Provavelmente já fazia um tempinho que ele estava ali, então sabia da minha situação. Não achava certo ele zoar uma pessoa atrasada, por isso fui tirar satisfação.
—Qual é a graça, Breno? —Disse, cruzando meus braços.
Ele apenas deitou a cabeça em seu ombro, para me ver melhor, e disse, de uma maneira ridiculamente calma:
—Bom dia, Elin. Dormiu bem?
Tá, confesso que ignorar um “bom dia” é algo meio cruel, então respondi, mas depois fui direto ao ponto.
—Bom dia. Mas agora responde o que eu perguntei.
—Ah... Só ri porque é engraçado ver você fazendo tudo tão rápido sendo que você não tem compromisso. —Ele disse, voltando seus olhos para seu celular.
—Sem compromisso? Mas a Bea saiu...
—Sim, ela marcou ensaio com o Diego, e eles queriam tomar café do hotel. —Explicou, mas sem tirar os olhos do celular.
Depois dessa informação, fiquei muito mais tranquila e decidi preparar um café da manhã mais elaborado. Achei que fazer panquecas seria uma ideia legal, e, como a receita rende bem, pensei em oferecer para o meu parceiro.
—Breno.
—Diga. —Olha só! Respondeu! Sinal de que ainda presta atenção no mundo em sua volta.
—Quer panqueca? Vou fazer umas aqui. —Disse, olhando para ele.
—Elin, você tá bem? —Perguntou, depois de fazer uma expressão confusa ao me olhar.
—Se não quiser é só dizer não. —Fui para o fogão fazendo bico. Não preciso de grosserias nessa hora da manhã.
—Não, Elin! Quer dizer, é claro que eu quero. —Ele começou, sentando no sofá, para se explicar melhor. —É só....
—O que? —Eu disse, cortando sua fala.
—Nada... Só é meio estranho as pessoas fazerem algo por mim.
—Não custa nada ser gentil com as pessoas. Vem, sua panqueca tá pronta. —Respondi, colocando uma das panquecas em um prato.
—Valeu mesmo, Elin. —Ele disse, se sentando ao meu lado. —A propósito....
—Sim? —Disse, confusa.
—Você chegou bem cansada ontem, né?
—Por que?
—Seu pijama. Você botou a blusa do avesso.
Olhei imediatamente para ver se ele estava falando sério. Mas depois parei para pensar que eu estava de pijama na frente de um garoto. Corei imediatamente, e, para variar, ele notou:
—Não precisa corar toda vez que eu noto algo em você. Enfim, troca de roupa, tenho que te levar pra um lugar. —Ele se levantou e beijou minha testa, depois foi para seu quarto, deixando a porta encostada.
Depois que eu troquei de roupa, Breno me acompanhou até a recepção do hotel, e, quando chegamos no centro do lobby, ele segurou minhas mãos e começou a me olhar.
—O que foi? —Eu disse, desviando o olhar.
—Quero que você feche os olhos agora. —Ele respondeu, sem tirar seus olhos dos meus.
—Por que...? —Perguntei, curiosa.
—É surpresa.
—Tá.
Breno me guiou por um tempo, até eu começar a ouvir uma música alta e ele fechar uma porta atrás de mim. Provavelmente tínhamos entrado em algum salão. Mas eu teria certeza agora.
—Chegamos, pode abrir. —Ele disse, começando a andar na minha frente.
Quando abri os olhos, me deparei com um auditório enorme. Nele havia um palco lindo e bem espaçoso no centro, sem falar da arquibancada, haviam várias cadeiras bem confortáveis em volta do palco, com um piso aveludado em todos os locais do salão. O teto era bem alto e amplo, com alguns detalhes dourados e um lustre enorme no topo. Ao olhar novamente para o corredor de escadas, na minha frente, vi meu parceiro fazendo um sinal com a mão, para que eu começasse a segui-lo.
Fomos até a primeira fileira, e a turma inteira estava lá, o Yan sentado na beirada do palco, dando alguns recados, e o resto da turma ocupando as cadeiras mais próximas.
—Bem-vindos, dorminhocos. —Disse Yan, brincando, enquanto nos convidava para sentarmos.
Fui sentar perto do Jake, fazia tempo que não conversávamos direito.
—Demorou hein! —Ele disse, me dando um beijo na bochecha e me abraçando com uma de suas mãos.
—Foi mal, dormi demais. —Respondi, cumprimentando a Jane, que estava ao seu lado.
—Sei como é, só levantei antes porque o Jake é um chato e esqueceu de desligar o despertador. —Disse a Jane, fazendo uma cara feia pro Jake.
—Jake! Não se faz isso com as pessoas! —Completei, me sentando ao lado dele.
—A culpa é dela por ter esquecido meu celular na bolsa! —Ele disse, com um rosto irônico.
—Que? —Eu disse, rindo da situação dos dois.
—Tá, deixa eu explicar. —Começou, Jane. —O Jake me emprestou o celular dele pra eu jogar no ônibus enquanto ele dormia que nem um urso hibernando.
—Ei! —Ele pelo menos tentou se defender.
—Aquieta, Jake. —Continuou Jane. —Daí, eu guardei o celular dele na minha bolsa pra não acordar ele, mas quando cada um foi pro seu quarto, eu esqueci de devolver o bendito. Agora eu to acordada desde seis e meia da manhã. Legal, né?
—Em minha defesa, —Explicou, Jake. —Você não disse a parte que me acordou com um copo de água na cara.
—Sem defesas Jake, foi burrice. —Disse Yan, mostrando que a turma inteira estava prestando atenção no conflito dos dois.
Rimos um pouco, mas depois paramos para prestar atenção no anúncio do Yan. Parecia importante.
—Seguinte galera, —Ele começou. —Tem um motivo para esse ano a gente ter vindo na sexta e não no sábado pro hotel, que nem a gente sempre faz. —Todos estavam se preguntando o motivo, menos eu, até porque, eu nem tava aqui. —Hoje à noite, vai ter a Noite de Luzes aqui no hotel. —Todo mundo começou a murmurar exageradamente, e, novamente, eu não sabia o porquê. —Para aqueles que não sabem, é quando o hotel inteiro fica iluminado por velas coloridas, inclusive nos campos. —Tá. Entendi o motivo. —Todos os alunos usam tinta neon no corpo, pulseiras fosforescentes e coisas assim. É bem interessante e divertido. Mas, recomendo que visitem o palco aberto e a fonte. No palco aberto, vão ter apresentações, com fogos coloridos, feitas por dançarinos profissionais, é legal vocês irem para pegar uns movimentos e tals. Na fonte, vai ter show de luzes, ela fica toda iluminada e os jatos de água acompanham o ritmo da música. Também tem uns desafios de dança na frente dela. Enfim, acompanhem o cronograma e não deixem de participar. Ah, só mais uma coisa! Meia noite tem caça ao tesouro. Vocês formam duplas e começam a seguir as pistas. Para entender essas pistas, vocês têm que ter domínio sobre a dança que praticam. A dupla vencedora ganha um convite para fazer uma aula particular com o ganhador do campeonato das nacionais do ano passado. Bom, é isso. Curtiram?
SOCORRO. PRECISO. Enfim, estava tentando me controlar e não parecer muito estranha na frente de todo mundo, mas não precisei. Geral começou a gritar, comemorar, fazer uns sons estranhos.... Enfim, eu realmente não precisei me conter.
—YAN! —Gritaram as Borges, juntas, como sempre. —Quando começa a noite das luzes?!
—Gente, se acalmem. —Disse o Yan, tentando controlar os animaizinhos que ele havia ganhado. —A noite das luzes começa às 18 horas e não tem horário para fim. Só acaba quando a caça ao tesouro termina. Daí, todo mundo começa a soprar as velas e o hotel fica todo escuro. Podem ter certeza que será uma noite inesquecível para vocês.
Os animais voltaram a reagir, até o Yan cortar todo mundo com um “GENTE!”. Super simpático ele.
—Só pra eu poder liberar vocês, —Ele concluiu. —Alguma dúvida?
—Eu tenho. —Disse, tentando controlar minhas empolgações. —Onde eu pego o cronograma, e onde eu arrumo coisa neon?
—O cronograma fica na recepção, é só pedir que elas te entregam. Sobre os acessórios, vão ter cestas com objetos e tintas espalhas em todos os andares, é só pegar o que você quiser. —Explicou.
Quando todos tiraram suas dúvidas, fomos liberados para curtir o hotel e descansar, a noite seria longa. Saí conversando com o Jake e a Jane. Como ela estava com a cabeça em outro lugar, provavelmente no mundo da Jane, comecei a falar com o Jake.
—Jake, você vai né? —Perguntei.
—Pra noite das luzes? Vou sim.
Não Jake, pro Acre.
—Como é o desafio de dança da fonte? Fiquei curiosa, mas não quis perguntar pro Yan. —Disse, olhando para nossas mãos, que estavam quase juntas.
—Bom, eles geralmente pedem pra você formar uma dupla. —Ele disse, segurando minha mão. —Aí, eles pedem pra vocês criarem umas coreografias loucas, fazer uns passos estranhos.... É bem divertido. Você vai gostar.
—Jake... —Eu disse, olhando para qualquer lugar que não fosse seu rosto.
—Oi, linda. —Ele disse, virando, delicadamente, meu rosto pra o dele. Eu amo quando ele me chama de linda, sua voz soa de um jeito tão sincero.
—Vai comigo na fonte? —Corei ao perguntar.
Paramos. (Menos a Jane, ela continuou andando, até porque, ela meio que não estava ali.)
—Elin.... Você sabe que eu nunca recusaria um pedido seu, mas, dessa vez, vou ter que dizer não... —Ele disse, enquanto acariciava a minha mão.
—Por que...? —Perguntei, sem graça.
—Marquei um ensaio noturno com a Jane. A gente vai treinar Free Style no escuro, pra desenvolver melhor os passos.
—Tá... Pode pelo menos ir ao palco comigo? Você sabe como essa noite vai ser difícil e importante pra mim. —Disse, cruzando os braços, estava começando a ficar irritada.
—Desculpa linda.... Eu vou estar—
—Já sei, com a Jane. Tudo bem. Eu paro de atrapalhar vocês.
Soltei minha mão da dele e fui diretamente pro meu quarto, talvez conversar com a Bea pudesse me deixar melhor. Só não queria mais ver seu rosto. Sabe, ele, mais do que ninguém, entende o quão importante isso é para mim. O que custa tirar dez minutos do ensaio para fazer uma amiga feliz? Pelo visto, muito.
—POV: Jane. —
Vi a Elin passando correndo pela minha frente, e, quando olhei para trás, vi Jake sentado em um sofá da recepção com a mão no rosto. Ele só faz isso quando entra em uma situação ruim. Com certeza eu deveria conversar com ele. Me aproximei e sentei ao seu lado. Ele pareceu não se importar muito, então tentei chamar sua atenção.
—Amigo, —Disse, tirando sua mão do rosto e depois a segurei. —O que foi?
—Nada não, pequena. —Ele parecia olhar para algum ponto fixo, tentando disfarçar suas emoções.
—Você colocou a mão no rosto. Não pode! —Eu disse, fazendo bico e cruzando os braços.
—Apelona.
—Que? —Murmurei.
—Se eu falar, você tira o bico?
—Quem sabe.
—Sem pirraça, Jane.
—Ah fala logo! —Disse, dando um tapinha em seu ombro.
—Então, a gente marcou nosso ensaio noturno hoje. Certo? —Ele disse, e eu concordei com a cabeça. —Pois é, daí, a Elin queria que eu fosse na fonte ou no palco com ela.
—E qual é o problema? Ainda não entendi.
—Pequena, eu não vou cancelar nosso ensaio. Não é justo.
—Ué, mas não é só você sair por uns vinte minutos e voltar? —Perguntei, confusa.
—Jane, eu conheço a Elin. Com ela não teria a parte do “voltar”. Eu ficaria com ela até o final.
Eu tinha que encontrar uma solução. Eles são meus amigos! Não posso deixar eles tristes por minha causa.
—Amigo.
—Oi.... —O Jake parecia bem tristinho, dava peninha.
—Mas.... Você não acha que a Elin merece?
—Como assim, pequena?
—Olha, você não acha que a Elin merece ter uma noite bem divertida e especial? —Expliquei.
—Claro que eu acho!
—Então! Amigo, você é muito bom em fazer as pessoas felizes. A noite dela não vai ser a mesma sem você.
—Jane.... Eu não quero cancelar nosso ensaio, ele tá marcado faz tempo....
—Jake Baden. —Disse, o encarando.
—Jane Dolabella. —Ele devolveu o olhar.
—Escuta, a gente pode marcar pra outro dia....
—Jane, não tem outra Noite de Luzes.
—Eu sei.... Mas.... Dá pra fazer em uma noite normal.... né?
—Você sabe que não.
—Eu sei! —Disse, irritada, abraçando meus joelhos. —Desculpa amigo.... Não queria causar briga entre vocês.
—A culpa não é sua, pequena. Eu vou resolver isso depois, tá? Mas essa noite já tá marcada pra gente.
—Tá.... —Eu não queria concordar com aquilo. Doía muito para mim. Muito mesmo.
Conversamos mais um pouco e fomos para a sala de jogos, só para descontrair mesmo. Era uma parte do hotel que eu gostava muito. Tinha um monte de fliperamas, e também uns jogos de plataforma, tipo PS4, X-BOX.... Enfim, era bem legal. Mas a melhor parte é que era tudo de graça, então ela sempre estava lotada.
O único problema da sala de jogos, eram os garotos que não aceitam que meninas jogam videogame. Eu sempre tinha que aturar algum “mimimi” antes de destruir todos eles nos jogos. Mas, mesmo assim, era divertido.
Quando voltamos para o quarto, notei que o Jake parecia bem mais calmo e feliz, isso me deixou feliz também, até porque, eu amo colocar sorrisos nas pessoas. Principalmente nos meus amigos.
Agora só tinha um problema, a Elin. Eu não sei se ela vai entender a situação, e eu não queria ela triste! De jeito nenhum! Espero do fundo do meu coração que ela sorria muito hoje! Mas, agora, tenho que descansar um pouquinho, essa noite vai ser bem longa. Para todo mundo.
—POV:Elin. —
A Bea finalmente chegou no quarto, ela e o Diego treinaram alguns passos, enquanto eu e meu parceiro apenas comemos umas panquecas.
Sabe, essa me pareceu uma hora perfeita para resolver todos os meus problemas. Eu tenho que esquecer o Jake um pouquinho. Na verdade, eu não quero pensar nele agora. Chamei a Bea para conversar, disse que era um assunto sério, e era mesmo. Eu não queria mais intrigas com o Breno. Ele é meu parceiro agora, de um jeito ou de outro vamos ter que interagir.
A Bea sentou na beirada da minha cama, ela parecia bem preocupada, mas, essa conversa era realmente inevitável. Coloquei um travesseiro no colo, e comecei.
—Bea. Quero que você me conte tudo que aconteceu entre o Breno e a Camila na festa da Letícia.
Fale com o autor