Dance Club - Life Is a Suprise

16 Season 2 / Chapter 6 - Christmas


Notas iniciais
Eu sei, eu sei, depois de tanto tempo, quantos meses? Precisamente mais de 2. Mas voltei, isso que importa. Com esse NaNoWriMo eu consegui terminar a história e planejar ela direito. Agora as atualizações serão semanais e vou programar algumas postagens já. Espero que gostem. Não vou me enrolar aqui porque tenho que estudar ainda, mas fico feliz de estar de volta. ♥

Chapter 6 — Christmas

Angus Ryan

Só tinha mais uma semana para voltar para a escola, não acreditava que havia se passado tão rápido aquelas férias do meio do ano letivo, mas estava animada pelo que viria a acontecer, animada para passar mais tempo com seus novos amigos, que acabaram por se tornar tão essenciais para ela, que era até uma surpresa, para alguém que nunca tivera amizades nas quais pudera confiar, ter tanta gente incrível a apoiando e presente ali por ela. Eles sabiam sobre ela, e fora incrível como se lembrava que na primeira semana eles já estavam sabendo sobre ela, da boca dela, não de mais ninguém. Seus pensamentos se dissiparam no momento que seu olhar parou na bolinha vermelha, brilhando como se fosse coberta de areia, da árvore de natal.

Ela não sabia como se sentir, era a primeira vez que comemorava uma data festiva com amigos de verdade. Era a primeira vez que iria cantar na frente de suas famílias com suas amigas, já que haviam de fato começado e decidido dar uma chance para a banda, elas iriam "abrir" oficialmente para seus familiares – que haviam se dado bem e estavam todos juntos na casa de Angus. Ela só sabia que estava feliz, mas como descrever o que vai além disso?!

"Hoje vamos cantar um cover de Somebody, de Lemonade Mouth." Liz disse, visivelmente engolindo em seco, respirando fundo em seguida. Angus piscou para Yumi que começou a tocar o teclado, sorrindo para Marley, cuja não hesitou e dedilhou o violão.

"Can you see me?

Cause I'm right here

Can you listen?

Cause I've been trying to make you notice

What do you mean to me

To feel like somebody

We've been on our way to nowhere

Trying so hard to get there

And I say oh!

We're gonna let it show

We're gonna just let go of everything

Holding back our dreams

And try

To make it come alive

Come on let it shine so they can see

We were meant to be somebody

Somebody ya somehow someday someway somebody...

I'm so tired

Of being invisible

But I feel it, ya!

Like a fire below the surface

Trying to set me free

But inside of me

Cause we're standing on the edge now

It's a long way down

But I say oh!

..."

Marley (Marilene)

"... Para e pensa comigo, vivemos numa sociedade que elogio para as meninas é princesa, linda e bonita, mas não inteligente, corajosa e forte. Vivemos numa sociedade que estupra e acha comum a morte de mulheres simplesmente pelo ódio, ciúmes e nojo. É surpreendentemente babaca ter que lidar com gente dizendo que não existe machismo. Como não existiria machismo se ainda não podemos sair de casa com a roupa que bem entendemos ou se ainda há uma diferença de 30 por cento a menos de salário em comparação com o de um homem pela mesma função?!" Marley se sentou novamente, basicamente caindo na cadeira após uma enorme discussão de exemplos sobre machismo. "Há maneiras de mudar isso, e uma delas é educando em casa os filhos sobre igualdade. E repassando isso à escola."

Todos da (enorme) mesa aplaudiram e ela fingiu tirar um chapéu da cabeça. Logo outros assuntos entravam e eles pareciam uma enorme e única família, era incrível pensar que elas haviam se juntado para fazer aquilo. Elas prepararam as comidas, com ajuda dos homens das famílias, enquanto as mulheres descansavam e bebiam vinho e nem desconfiavam da surpresa. Quando tudo veio à tona, saber de toda a ocasião de "cinco famílias juntas no Natal" foi meio chocante, mas uma ideia topada logo em seguida, até mesmo porque as famílias vinham se conhecendo, devido suas filhas.

Agora estavam conversando sobre como os elogios costumam ser sobre beleza de uma garota, nunca sobre a inteligência, bravura ou capacidade dela. Até aquele momento vários discursos haviam sido ditos e todos ao redor da mesa estavam aprendendo muito. Aquele devia ser o natal que Marilene mais estava gostando, não era um natal rodeado de gente babaca falando merda, era gente legal conversando sobre feminismo e a luta diária contra o machismo. Porém era perceptível que a conversa estava chegando ao fim.

“Galera, vamos subir, okay?” Informou Angus e viu os familiares assentirem. “Partiu gente!”

...

“Todo mundo já pegou seus presentes para trocar?” Angus viu todas confirmarem. “Ótimo, vamos começar abrir presentes!”

“Uhul!” Comemoraram, trocando os presentes e os abrindo, rindo com algumas piadas, em meio a agradecimentos, abraços e fotos.

Quando cansaram, deitaram suas cabeças na cama de ficaram conversando, sem ver a hora passar, aproveitando aquele Natal que estava sendo o melhor.

China

Aquela tarde ela decidira voltar às reuniões de pessoas do espectro assexual. Já fazia um tempo desde sua última vez, e sempre que estava ali algo novo era aprendido e absorvido. Aquele dia ela colocara uma camisa xadrez de flanela vermelha, o que sua mãe garantia que contrastava com sua pele negra, o jeans azul lavado, levemente cinza, era dobrado no tornozelo, dando um ar jovial que apesar disso a deixava um pouco mais “séria”, como ela acreditava que deveria ser para aquelas ocasiões. Não que ela não pudesse relaxar, mas ela ia lá para aprender e se no processo fosse fazendo mais amigos, era melhor ainda.

Ela tinha noção que era Natal e seus pais a esperavam de noite em casa para um jantar com alguns primos, os quais ela tinha certeza que seriam usados como exemplo pelo pai a lembrando que a época de se aplicar mais aos estudos para poder melhorar em vestibulares que estavam chegando, como se ela já não estudasse o bastante em seu tempo livre.

Assim que ela entrou pela porta central do local, absorvendo novamente o ambiente, como sempre fazia. Havia uma roda composta por puffs e cadeiras de diferentes estilos. Assim teria lugares para que todos se sentissem confortável. Ela se sentou no puff roxo, admirando a sala e soltando um riso nasal ao perceber como o local parecia o mesmo que Jude e Noah, de The Fosters (uma série a qual ela via) haviam se conhecido: o chão era coberto por um tapete de retalhos, então era bem macio. As cadeiras ou puffs alternavam pelas cores; roxo, branco, cinza e preto, fazendo alusão justamente a sexualidade. Os tutores e conselheiros costumavam usar camisetas ou camisas verde claro ou verde escuro contrastando com a sala, lembrando-os da arromânticidade.

Quando a conversa pôde enfim começar, falaram sobre a atração por pessoas fora da binária do gênero, conversando, como tópico, sobre assexuais sexo-negativo, sexo-positivo e sexo-indiferente.

“Então você quer dizer que há pessoas assexuais que gostam do sexo?” Questionou Thomas, vendo o tutor-chefe assentir.

“Veja, ser assexual não significa ter repulsa ou não gostar de sexo, mas há assexuais que são assim, e os chamamos de sexo-negativo. Não sentir atração sexual não quer dizer perda da libido.” O homem explicou, vendo Thomas assentir, mostrando que entendera. “Mas sobre atrair-se por não-binários, quanto ao romântico, você pode ser skoliossexual, polissexual ou pan... se você se identifica como demi ou grey-a, isso também vale, mas cabe a você se rotular, ou não.”

Thomas assentiu, e China pôde ver nos olhos dele que o menino estava pensando sobre isso seriamente. Como da última vez ela não havia falado muita coisa, China decidiu que ela precisava daquilo, colocar pra fora o que vinha a fazendo mal, o que vinha a colocando pra baixo:

“Eu tento, realmente tento, me convencer de que não estou errada, não estou ‘quebrada’ ou que não sou uma aberração, mas eu não consigo. Ainda sim eu sinto como se eu não era pra ser assim, como se eu não deveria ser assim. Eu não sinto que sou normal, sinto que não querer e não sentir atração sexual é como se fosse um erro perante a sociedade e como se eu estivesse errada. Eu realmente não sei o que fazer. E muito menos como contar para meus pais. Sei que eles não vão pirar, mas provavelmente achar que nunca quero ter um filho ou essas coisas... eu só não sei o que fazer.” Thomas colocar a mão no ombro dela, já que ele estava numa cadeira, ficava difícil dar as mãos ou coisa assim, devido a diferença de altura.

China limpou rapidamente a lágrima que insistia em cair pela sua bochecha direita. Ela não queria que vissem ela chorando, ela não queria chorar. Ela só queria parar de se sentir errada e começar a sentir-se normal. Ela era normal, por que estava tão difícil de entender isso?!

“Eu posso dizer que você deve contar conosco, que estamos aqui sempre que precisar. E você já sabe o que irei te falar: você é normal, não está errada ou muito menos é uma aberração, nem está sozinha. Olha só quantas pessoas se identificam com você. E olha a variedade de idades.” O tutor disse, apontando para todos daquela sala, a fazendo olhar para ele, um homem de 30, seu amigo do lado, de 26, Thomas com sua idade (ou menos? Ela não tinha certeza), uma garota que ela ainda não tivera a chance de conversar aparentava ser vinte, e havia mais três pessoas que se identificavam fora da binária do gênero que aparentavam ter 16/17 anos. “Eu sei que deve ser ainda mais difícil na idade de vocês, pelo menos pra mim foi, porque tem todo o senso de se sentir errado (que na idade de vocês é multiplicado por cem), mas isso é algo que vem de uma sociedade que prioriza o sexo. E o sexo não é tudo isso. Sentir atração sexual não é tudo isso, tem gente que sente, tem gente que não, é isso.”

“Obrigada.” Ela disse, levantando e abraçando o homem.

...

“Ei, tudo bem?” China perguntou, escutando a voz de Kurt do outro lado da linha.

“Claro, e você?” Ele perguntou, escutando-a respirar fundo.

“Eu quero te contar algo, mas pode ser amanhã?” Ela disse, questionando-o em seguida.

“Claro, que horas?” Ele perguntou com a voz soando quase como se ele estivesse mordendo os lábios, o que China tinha certeza que era o que o garoto fazia.

“Depois do horário de almoço, às 14?” Ele emitiu um ‘okay’ do outro lado. “Mas e então, me conte, como está sendo esse Natal com Sam?”

“Tu não sabe, ele é MUITO fofo!” O moreno exclamou do outro lado da linha, fazendo a garota rir.

“Claro que não sei então me conta!” Ela retrucou, escutando-o pedir um segundo para Sam, seguido de um estalo, o que ela supôs ser um beijo.

...

Ela chegou à rua que havia sido marcada com seu grupo de dança de rua e os viu junto rindo e dançando. Ela se aproximou, dançando, vendo geral gritar o nome dela, chamando-a. E ali ela sentiu como se pudesse ser ela novamente. Como se fosse só ela e o universo.

“Se preparem que eu vou botar pra quebrar!” Ela exclamou, ouvindo vários gritos de aprovação e apoio.

“Isso, bota pra quebrar, gata!”

“Você tem o poder!”

“UHUL!”

Kurt

Sam abraçou o menor por trás, encostando a cabeça em seu ombro. O calor fez Kurt fechar os olhos, se arrumando nos braços do namorado, agora mais do que nunca oficial. Sam havia pedido sua mão em compromisso para o pai do garoto mais cedo, fechando o almoço de Natal com chave de ouro. O menor viu a aliança de prata entrar no seu dedo anelar e começou a chorar, Sam o abraçou, sorrindo, afinal ele sabia que aquilo era o que Kurt desejava que acontecesse quando fosse oficializar namoro. Kurt por mais futurista e inovador, quando se tratava de relacionamentos era mais “tradicional” e sempre zoava a si mesmo por isso, mas Sam dizia que não era um problema, era até legal ver que tradições são algo que varia de pessoa pra pessoa. Kurt abraçou o corpo do loiro e aconchegou a cabeça no peito do mesmo, sentindo o cheiro do perfume levemente amadeirado, o arrepiando.

“Eu te amo.”

Sam o olhou com os olhos levemente arregalados e Kurt percebeu que sem a franja o loiro ficava mais bonito, os cabelos agora mais curtos e organizados em um topete. O loiro o abraçou mais forte, a camiseta vermelha ainda um pouco molhada pelo choro mais cedo do menor.

“Eu também te amo, Kurt.”

O loiro deu um selinho demorado no moreno, fazendo a pele alva de Kurt corar e arrepiar. O sofá marrom os encolhendo enquanto a lareira à direita crepitava gentilmente, o fogo brilhando e balançando devagar fez com que ele apreciasse aquele momento com todo o amor e paz que sentia.

“Está preparado para voltar às aulas e logo em seguida o próximo nível da competição?” Kurt perguntou para o de olhos azuis, vendo-o suspirar.

“Olha, pronto-pronto eu não estou. Porém, eu realmente gosto disso. E vamos ver onde isso dá, né?” Sam assumiu, fazendo Kurt assentir em concordância.

“Obrigado por vir passar o Natal aqui.”

“Você sabe que se meus pais não estivessem viajando a trabalho vocês iriam lá para casa, falando nisso, minha mãe convidou você e seu pai para passarem o Ano Novo juntos de nós.” Kurt sorriu, assentindo.

“Vou falar com meu pai, mas eu acredito que ele não vá se opor.”

Sam beijou a testa do menor e se aconchegou, fechando os olhos e adormecendo junto de Kurt.

...

Kurt acordou de madrugada com o pai subindo as escadas nas pontas dos pés para não acordar eles. O fogo agora estava fraco, seus corpos estavam cobertos por um cobertor azul macio. O anel na mão de Sam brilhava a luz laranja, assim como o dele. Uma das mãos do maior estava entrelaçada entre seus cabelos, começando a acariciar de leve, denunciando que Sam estava acordado, apesar dos olhos fechados.

“Boa noite.” Sam soltou quase como um sussurro, fazendo Kurt sorrir.

“Boa noite.” Kurt deu um selinho no maior, sentindo a mão do mesmo descer para seu pescoço, puxando-o para um beijo. “Vamos subir?”

“Claro.” Sam pegou o cobertor e puxou Kurt pela mão, subindo correndo a escada em direção ao quarto do moreno. Assim que a porta foi fechada, Kurt sentiu ser pressionado gentilmente contra a cama, caindo por baixo de Sam, que deu um sorriso e Kurt entendeu a mensagem, beijando o pescoço do loiro, virando-os, ficando por cima e sorrindo, descendo os beijos, ao mesmo tempo retirava a camiseta vermelha do loiro.

Sam o puxou para um beijo forte e gentil, fazendo Kurt agradecer aos céus por estar sobre o loiro, senão ele teria caído graças a suas pernas bambas.

Autumn

A garota ajeitava suas tranças olhando-se no espelho. Havia acabado de chegar das aulas de balé e francês, em breve teria que ir para a sala ter que agüentar gente mais preconceituosa que seus pais um dia haviam sido. Ela odiava o Natal, era uma data tão hipócrita, quando comemorada da forma cristã, falando de amor enquanto metade só disseminava ódio. Era um dia que diziam que Jesus havia nascido, mas segundo estudos científicos dados pelas analises da Bíblia e outros livros, Jesus poderia ter nascido em agosto, e mais, Natal era uma data pagã, celebrando os espíritos de terra, por isso a maior parte das coisas que trazemos para dentro de casa são da natureza, a árvore, a comida... era tudo para celebrar e agradecer espíritos da terra, da floresta, e agradecer uma deusa antiga. Ela se viu rindo, imaginando que mais tarde a sua irmã falaria isso, quando decidissem sair da sala e ir para outro lugar. Parecia tudo mais fácil, após sua irmã ter reconhecido e assumido ser ateia.

A garota alisou com as mãos o vestido branco e olhou para seu rosto. Ela sempre fora magra, ao contrário da irmã, e algo que ela sempre se lembrava era de sua mãe (que perto dos parentes jurava de pé junto não ser feminista) dizendo para as duas quando crianças: “ninguém pode dizer que vocês são feias, nem que o corpo de alguma de vocês é feio. Não deixe que ninguém, nem mesmo a gente (eu e o pai de vocês) fale isso, nunca.” Era engraçado, todo Natal ela lembrava disso, parecia um mantra pra enfrentar aquela família.

Ela retocou a maquiagem levemente prateada no rosto, agradecendo aos céus por ter a prática de aprender rápido, porque senão os vídeos que havia visto mais cedo teriam sido em vão. Respirou fundo, três vezes enchendo o pulmão e soltando o ar calmamente. Ela levantou o queixo e abriu a porta do quarto, fechando-a em seguida, descendo as escadas com o olhar penetrante em contraste da sombra dourada em seus olhos castanhos.

No pé da escada estava seu pai, cujo ajudou ela a descer a escada, todo o cuidado com um salto (por mais que fosse pequeno) era pouco.

A maior parte da família já estava ali. Suas tias por parte de mãe junto dos maridos, o irmão do seu pai, sua avó materna, três crianças respectivamente de cada tia e seu avô paterno. Havia uma pessoa, que ela sabia que era sua tia, mas não havia conhecido ainda, estranhamente, ela já gostava dessa pessoa. China ainda não havia decido, o que a fez praguejar em silêncio.

“Oi, querida!” Disse uma tia, Ilda, abraçando-a. “Olha só, magra, poderosa... você está linda.”

“Obrigada.” Sorriu nervosa, acanhada e um pouco com vontade de dar um soco na cara da tia, porque ela sabia o que vinha a seguir, quando sua irmã estivesse ali embaixo. Como se Deus estivesse escutado e gostasse de brincar com humanos, sua irmã começou a descer a escada.

Ela usava uma túnica de tecido fino floral, preta com bordados de flores brancas, laranjas e amarelas. A maquiagem consistia em um batom escuro, sombra preta e laranja combinando com a túnica e os brincos laranja. O pé não era visto, mas como Autumn conhecia a irmã, ela devia estar usando um all-star preto.

“Você está linda.” Autumn disse para a irmã, vendo-a sorrir e agradecer.

“Só acho que deveria emagrecer um pouco mais, um rosto tão lindo desses.” Ilda disse, vendo China rir, o escárnio na risada dava pra ser sentido a quilômetros de distância.

“Se eu emagrecer, eu perco essa gostosura toda.” China piscou para a tia, vendo-a fechar a cara. “Agora, quem quer comida?”

“Partiu!” Exclamou a mãe delas, tentando esconder o sorriso.

Com todos sentados a mesa, Autumn olhou para a irmã, ambas sorriram, já fazendo o que sempre faziam: contar até trinta para que alguém falasse alguma merda. Menos dez segundos depois, ainda era só uma conversa de atualização sobre as coisas que haviam acontecido desde a última vez que haviam se visto. Mais dez a menos, nenhuma merda saiu da boca de ninguém.

“Ah, vocês viram a notícia da garota que foi abusada?” Um dos maridos, que Autumn suspeitava ser de Ilda trouxe à tona a conversa. Haviam se passado mais três segundos.

“Sim, terrível.” Autumn comentou.

“Mas você sabe não é?” O homem disse, e Autumn fechou os olhos por um segundo respirando fundo, vendo China trancar o maxilar. Nada de bom vinha depois disso.

“Sei o que?”

“É horrível, mas é que...” 3. Deus, por favor, cala a boca dele antes de falar bosta. 2. “A culpa foi dela.”

30 segundos corretos. A sala caiu num silêncio mortal. A tia que elas ainda não conheciam apoiou ambas as mãos na mesa, olhou para o homem, tossiu como se preparasse para falar e sorriu.

“Por quê?”

“Vocês sabem, o que ela estava fazendo àquela hora fora de casa? E ainda bebendo, usando um short.” Ele disse, então Autumn olhou para a mãe, que soltou um suspiro alto, engolindo em seco.

“Então quando você está sem camiseta isso quer dizer que alguém pode pegar e meter em você sem seu consentimento?” Ela questionou, fazendo Autumn e China sorrirem uma para a outra.

“Não, é que...”

“Quer dizer então que você ir para um bar às dez da noite é pedir pra ser estuprado? Então você pede muito, pede todos os dias.” Ela tombou a cabeça pro lado, agora séria.

“Não é a mesma coisa!” O homem exclamou, passando as mãos nervosamente nos cabelos loiros.

“Ninguém pede pra ser estuprado. Se fosse pedido, seria sexo. Sexo é feito com consentimento, com ambas as partes conscientes e sem que uma esteja bêbada. O que ela usou ou deixou de usar não justifica que um bando de gente hipócrita e babaca fale merda dela, ou culpabilize a vítima. Ela é uma vítima! Assim como eu fui e milhares de pessoas já foram.” A mulher afastou-se da mesa e saiu do recinto, indo para fora.

“Babaca.” China disse, correndo atrás da tia. Autumn seguiu a irmã, vendo a tia sentada no banco perto do poste de luz.

A luz levemente azulada do poste chegava ao rosto da mulher de maneira calma, a pele negra reluzindo, junto de suas lágrimas de raiva. Autumn ficou atrás da mulher enquanto China se sentava do lado da mesma. China lhe mandou um olhar de tem espaço do outro lado, senta ali que fez com que Autumn entendesse o recado e fizesse o que era pedido. Ambas seguraram as mãos da tia.

“O que me surpreende...” A tia começou, assustando as garotas por tão repentina fala. “É que a última vez que nos vimos foi desse mesmo jeito. O que muda é a idade, vocês estavam na faixa dos quatro anos.”

“Isso explica porque não lembramos de você.” Autumn lançou um olhar de advertência para a irmã, que viu a tia rir. “É verdade, não me olha assim Autumn.”

“Eu sei, minhas queridas. A circunstância pela qual fui embora era briga familiar, e infelizmente se eu não me afastasse da mãe de vocês também, eu ainda continuaria convivendo com todos.” Ela abaixou a cabeça.

“Ainda bem que pudemos continuar conversando por telefone.” A mãe das garotas apoiou as duas mãos nos ombros, surgindo do nada, fazendo as meninas arregalarem os olhos.

“Pelo menos isso, não é mesmo?” A mulher riu, limpando as lágrimas. “A propósito, crianças, me chamo Eliza.”

“Ah, sim! A tia Eliza!” Autumn e China gritaram, lembrando de poucas lembranças da primeira infância. As garotas abraçaram a tia, aproveitando o momento e o silêncio que se instalara para matar a saudade.

“Que bom que minhas garotas estão reunidas juntas de novo. Senti falta de você, irmã.” A mãe delas assumiu, saindo de trás do banco e indo para frente, onde a irmã se levantou e a abraçou forte. “Desculpa pelo marido da Ilda. Mas você sabe como é; não dá pra comer um minuto em paz sem que falem merda.”

“E como sei.” Elas riram.

Ficaram conversando, aproveitando entre elas quatro, sem dar a mínima para quem estava dentro da casa, era só elas e a noite. As quatro juntas sentadas no banco ficaram olhando para a rua silenciosa e sem ninguém, de vez em quando passando um carro ou uma pessoa, vez ou outra um grupo. Numa dessas vezes, passou um homem branco, vestindo uma roupa preta com o símbolo de Hitler pintado de vermelho, bêbado e aparentemente irritado, ele as viu, e começou a rir, quase expressando a raiva na risada.

“Boa noite, macacas!” Ele gritou, as fazendo encarar o cara no silêncio, um pouco chocadas com aquela abordagem. “Não vão falar nada? Voltem pra África!”

“Meninas peguem o nazista!” Eliza gritou, levantando as sobrinhas e puxando-as correndo atrás do cara, vendo-o gritar e sair correndo. A mãe de Autumn e China estava de mãos dadas com a irmã, rindo da situação. Autumn e China se encararam e gargalharam, sem parar de correr com as mais velhas.

“Corre mesmo, babaca!” Gritou China.

“Meu Deus, não acredito que estamos fazendo isso...” Autumn comentou.

“Caça aos nazistas.” Eliza piscou.

E as quatro mulheres correndo, vestidos esvoaçantes e risadas altas preencheram a rua, num memorável Natal.

Potato

“Oi, tudo bem?” Spike perguntou do outro lado da linha. “O que está fazendo acordado às cinco da manhã?”

“Pesadelos.” Respondeu Potato. “Mas só liguei pra perguntar se você já saiu do trabalho.”

“Vou sair daqui a pouco. Que tal se a gente se encontrar?” Ele tirou a ideia da cabeça de Potato, só podia.

“Okay, até daqui a pouco. De frente de casa?”

“Sim, beijos.” E a chamada desligou.

...Now that I’m free. Nothing but blue skies. Paradise in front of me…

Depois de escutar The Middle Of Starting Over, de Sabrina Carpenter, pela oitava vez repetida, Potato viu a moto de seu amigo parar na frente da sua casa.

“Oi.” Potato disse, descendo a escada e abraçando o amigo. “Vamos pra onde hoje?” Perguntou, pegando o capacete dado pelo amigo.

“Zoológico, eu vi que está tendo um evento especial, então pensei em levar você.” Spike deu uma bagunçada no cabelo de Spike que riu e deu um beijo na bochecha dele.

“Obrigada.” Agradeceu ela.

Capacetes colocados, medidas de segurança aplicadas, a moto deu partida, o vento no rosto, conversas banais para atualizar e entreter até chegar ao destino, tudo que Potato amava na presença de Spike. Não demoraram pra chegar, logo entrando no local.

“Preparado para nossa aventura?” Spike perguntou com uma voz de interlocutor, fazendo Spike arrepiar, rindo em seguida e concordando.

“Então vamos, madame.”

...

“Adorei hoje.” Potato agradeceu, vendo Spike o puxar para um abraço, deitando-os na toalha. “Obrigado, cavalheiro, por tudo.”

“De nada querido, é um prazer. É querido agora, né?” Potato riu e assentiu, mantendo o sorriso e admirando o sorriso despreocupado de Spike. O outro parou de rir, focando os olhos em Potato, fazendo-o corar. “Você é lindo.”

“Você também não é nada mal.” Brincou Potato, vendo o outro revirar os olhos dramaticamente. Justin, assim que parou de revirar os olhos focou em olhar para o menor. “Justin-”

Então Justin o beijou, impedindo-o de continuar a falar. O segundo do choque passou rápido demais, o que ele agradeceu aos céus por ter acontecido. Potato levou os braços para trás da cabeça de Spike, puxando-o para si. Era um beijo singelo, quase como finalmente, um beijo esperado e esperado muito pacientemente.

“Finalmente.” Ambos sussurraram assim que se separaram, buscando por ar, inspirando e expirando pesadamente. Riram, dando conta do que haviam dito.

Sam

Ele havia passado na casa de Kurt e pego o namorado com seu carro. Ele estava tão feliz por ter passado no exame e tirado a licença para dirigir, o melhor foi quando seu pai surgiu com um carro vermelho antigo, mas conservado e muito bem lustrado para si.

Agora ele estacionava o carro ao lado da praça do centro da cidade, esperando encontrar China que queria contar algo para Kurt e ela havia pedido para Kurt levar o namorado.

Eles haviam marcado de se encontrar no centro da praça (que mais parecia um parque, mas esqueçam isso), onde uma abóbada cobria um palco, onde muitas bandas iniciantes tocavam. China estava encostada no palco conversando com Autumn e rindo.

“Oi, garotas!” Kurt disse, abraçando as duas. Sam abraçou as duas e ficou quieto ao lado do namorado, não tinha muito o quê falar, ele sentia que por China querer conversar com eles era algo sério e ele queria saber do que se tratava.

“Como vocês estão?” Autumn perguntou direcionada para Kurt e Sam.

“Bem, e vocês?” Respondeu Sam, abraçando o namorado que sorriu e lhe deu um beijo na bochecha.

“Eu estou bem.” Autumn disse, olhando de soslaio para a irmã.

“Fisicamente eu estou bem, mas preciso contar algo para vocês primeiro antes de quem sabe melhorar um pouco essa angústia que ta no meu peito.” Ela disse e todos olharam preocupados para a garota.

“Que aconteceu?” Autumn questionou, vendo a irmã levantar a mão pedindo por um tempo.

“Tem um tempo que algumas coisas aconteceram e eu percebi que eu não sinto atração sexual. Eu estou freqüentando um grupo de pessoas que se identificam comigo e tudo. E uma das dicas deles é de falar com alguém que você considere muito sobre isso e se assumir e se definir para os outros é um passo importante. E como eu realmente precisava disso, aqui estou. Eu sou assexual.” Kurt não esperou e abraçou a garota, imediatamente vendo-a chorar.

Sam olhou para Autumn e ambos entraram no abraço.

“Nós te amamos e sinceramente, isso é só uma parte de quem você é e é normal. Assim como tem quem sente, tem quem não sente.” Kurt falou, dando um beijo na testa da amiga e limpando as lágrimas dela.

“É que é tão difícil, sabe? É tão difícil porque parece que todo mundo sente atração sexual e quando você é uma das poucas pessoas que diz não sentir tudo parece não normal.” China assumiu.

“Você é normal como qualquer um, pode não parecer pra você, mas você é sim.” Autumn disse, sussurrando pra irmã.

“Não se culpe tanto ou se puna por ser quem é.” Aconselhou Sam, vendo o choro dela diminuir e ela se acalmar. China limpou as lágrimas, aproveitou um pouco do abraço e afastou gentilmente todos.

“Assumida, agora quero um sorvete.” Ela falou, causando a risada de todos.

...

Sam sentou ao lado do namorado, passando o segundo sorvete para ele, vendo ele sorrir, agradecendo e lamber a bola, o que fez Sam rir com o pensamento.

“Que houve?” Kurt perguntou, fazendo Sam travar a risada.

“É só o que pensei vendo você lamber a bola.” Sam fez as sobrancelhas mexerem num gesto sugestivo, fazendo o menor rir.

“Desnecessária essa cena gravada na minha cabeça.” Notificou China, vendo os dois gargalharem, fazendo-a revirar os olhos com um sorriso no rosto.

“Acho que isso justifica muita coisa.” Autumn levantou a mão direita de Kurt, revelando o anel prateado, fazendo China arregalar os olhos.

“Meu Deus-...!” Exclamou ela, fazendo Autumn soltar uma gargalhada.

“Irônico...” A de tranças soltou, fazendo a irmã revirar os olhos.

“Meus dois pombinhos finalmente são oficiais! Surt!” China sorria e comemorava com as mãos, o que quase a fez perder um sorvete muito bom de morango, fazendo os outros três da mesa rir.

“Melhor tomar cuidado do seu sorvete...” Kurt comentou, fazendo-a lhe dar a língua.

...

“Nos vemos amanhã?” Sam perguntou, vendo Kurt assentir. O loiro puxou o moreno pela cintura, colando seus lábios, um beijo de até logo.

“Te amo.” Kurt sussurrou, as testas coladas.

“Também te amo.” Sam sussurrou de volta, dando um selinho no namorado e indo em direção ao carro.