Dame Jolie

23 Vigílias e Súplicas


Notas iniciais
Hello, hello Gostaria de agradecer a ajuda de algumas pessoas na produção deste capítulo: à Sheilinha, que opinou sobre a sequência mais adequada de algumas cenas; à Haleth e à Lady Trooper, que falaram sobre possíveis consequências dessa batida do Camus na pedra, ajudaram nas pesquisas. Caso encontrem equívocos nas partes que tratam de terapias e tal, pelo que desculpem o ser leigo aqui. Atenção para o farto uso de licença poética nas falas de Afrodite, pois que muitas das terminologias usadas hoje em dia possivelmente não o eram nesta época. Arte da capa por Helenhe Pixiv ID: 55489667 Member: helenhe337 Boa leitura... Desculpa não dar muitos esclarecimentos e pela betagem deficiente, não estou muito legal hoje não, mas queria atualizar antes de a semana se iniciar.

No céu onde não mais reinava o sol, o escarlate passara a púrpura e por fim tudo mergulhou em frios tons azulados. Ouvia-se os grilos e as cigarras, incansáveis em sua celebração.

Aflito, Afrodite permanecia no pórtico principal, acompanhado por alguns guardas, pelo castelão Pierre e pelo líder comunitário Leopold. Todos mantinham os olhares atentos para baixo da elevação, esperando que a qualquer momento surgisse em seu ágil corcel o conde de Saint Doulchard, trazendo consigo “a desaparecida condessa Camille”.

E foi em meio a manifestações jubilosas que viram entrar no campo de visão o que tanto aguardavam: o cavaleiro trazendo a dama, que estranhamente parecia envolta em um tipo de cobertor.

— Senhor Milo! – gritou Afrodite, sendo contido pelos guardas, pois que tencionou correr na direção dele – SOLTAI-ME! Deixai-me ir até eles!!!

— Lembrai das ordens do senhor conde, senhor Afrodite – admoestou o capitão dos soldados.

— Tsc – o sueco estalou a língua, conformando-se em esperar.

— Deem passagem ao senhor Milo! – disse Pierre, vendo que o amo não diminuía a velocidade do galope. Aquilo semeou neles um mau pressentimento. Abriram caminho para que o soberano adentrasse a fortaleza. Correram para dentro dos pavilhões, seguindo-o, receosos de que tivesse acontecido algo de ruim com “a condessa”.

— Senhor Milo!!! Excelência!!! – clamavam, aproximando-se do conde.

— Afrodite, ajuda-me aqui! – bradou Milo – Os demais, AFASTAI-VOS! É UMA ORDEM!

O tom, que não dava margem a réplicas, prontamente fez com que os homens paralisassem. Lépido, o camareiro-mor adiantou-se, com o coração aos pulos. Parou ao lado do alto cavalo negro.

— Ajuda-me... está inconsciente...! – sussurrou, tenso.

Ao ver o tom lívido do rosto de Camus Afrodite quase entrou em choque.

— O que... o que aconteceu com...

— Nada de perguntas agora, por Deus!!! Ajuda-me!

Assentindo, o ex-pajem segurou Camus, envolto em uma manta malcheirosa. Milo apeou do cavalo e se dirigiu aos demais, que os observavam a média distância:

— Camille foi ferida pelos malfeitores. Capitão, manda alguns de teus homens recolherem os cadáveres dos bandidos, pois que os matei.

— Vós os abatestes, excelência?

— Louvado seja Deus!

— Deus vos abençoe, senhor conde!

— E quanto à condessa, ela ficará bem?

— Iremos aferir a gravidade de seus ferimentos. Leopold, vai avisar os camponeses. Diz que estão vingados, e que em breve poderão ver os desgraçados mortos.

O líder comunitário fez uma reverência, repleto de alegria mas também de preocupação pela dama, a quem prezava sobremaneira.

— Afrodite, vem, nós dois a levaremos pelas escadas, segura-a pelos joelhos – ordenou Milo.

Pierre tentou ajudar a seu modo:

— Senhor conde, vós poderíeis mandar os guardas transportarem a senhora condes...

— CALA-TE! ÉS SURDO?!? – vociferou o jovem aristocrata, fazendo todos estremecerem – NÓS DOIS a levaremos!!!

— S-sim, excelência, co-como quiserdes!

Foi uma árdua empreitada subir pelas escadas de pedra, que formavam espirais a partir do segundo pavimento, carregando o jovem sem sentidos. Tentavam não balançar em demasia, e nada proferiram até que chegassem aos aposentos senhoriais, no quarto andar. Deitaram Camus no leito. Milo tirou enfim o puído e fétido cobertor que envolvia o corpo do marido.

— SENHOR DEUS TODO PODEROSO – exclamou Afrodite, ao ver o amigo sujo e machucado.

Milo tomava fôlego, considerando o ruivo, igualmente espantado.

Camus tinha escoriações pelos antebraços e nas pernas, um corte na altura do peito e arranhões no rosto descorado. Havia terra, lama, musgo, grama em sua túnica, em seu corpo, em seus longos cabelos. O sueco sentia-se prestes a cair quando Milo levantou a franja rubra do esposo, mostrando ao outro o pior dos ferimentos.

O ex-pajem precisou levar a mão à boca para suprimir um grito de horror.

— O que lhe fizeram?!?

— Não sei ao certo – confessou o conde, desalentado – quando cheguei aonde ele estava... já se encontrava inconsciente. Creio que acertaram-no na cabeça com algum objeto.

— Meu Deus – o sueco aproximou-se, quase colando os seus olhos naquela ferida – penso que utilizaram uma pedra... o tipo de corte indica-o... não é tão grande, contudo... tirou-lhe os sentidos.

— E isso não é bom, não é?

— De forma alguma. Porém, preciso antes examiná-lo minuciosamente. Há níveis de gravidade de lesões cranianas. Rezemos que essa seja a mais branda.

— Sim, claro – murmurou o cavaleiro, apreensivo – Do que precisas tu?

— Antes de mais nada, de limpar a ferida. Tanto para que não infeccione quanto para observar melhor. Preciso de água fresca, sabão e pedaços de panos limpos.

— Eu trarei tudo – anunciou, já correndo para a sala de banhos. Enquanto providenciava o que era necessário, Afrodite aproveitou para verificar as demais partes do corpo de forma superficial. Não parecia haver fraturas ou outras feridas severas, e ele suspirou ante um momentâneo alívio. As abundantes escoriações fê-lo pensar se o machucado na cabeça não fora causado por uma queda... Camus claramente caíra e rolara pelo solo.

— Cá está o que pediste.

O sueco agradeceu com um menear de cabeça. Pôs-se a realizar a assepsia do ferimento com que mais se preocupava. Batidas na cabeça eram sempre fontes de preocupação maior, tanto mais porque o jovem amo NÃO despertara em instante algum!...

Livre do sangue escuro já um tanto endurecido, Afrodite verificou que o inchaço não se fazia excessivo. Segurando o rosto de Camus pelas faces, atentava para cada parte, cada aspecto que pudesse levar-lhe a algum diagnóstico.

— Que achas, é sério? Ele corre risco? – indagou Milo, torcendo as mãos de nervoso, de pé junto à cama.

O ex-pajem separou as pálpebras do ruivo com seus dedos.

— Dai-me um castiçal, peço-vos.

O conde fez o que ele pedia.

— Aproximai a chama de seus olhos.

Franzindo o cenho, Milo assim o fez. Não gostou da expressão contrariada que se desenhou no semblante do camareiro.

— Isso é mau. Suas pupilas estão assaz dilatadas e não reagem à luminosidade. Pior, há mesmo uma certa diferença entre o tamanho de suas aberturas.

— Aberturas? – o cavaleiro repetiu, sem entender.

— Sim.

— Dizes… aberturas como buracos?

— Sim. Exatamente o que as pupilas são, buracos. Não sabíeis disso?

— Nunca precisei saber – rebateu, irritado.

— Senhor Milo, acredito que Camus não foi atingido na cabeça, e sim que a machucou em decorrência de uma queda que sofreu.

— Ele... ele caiu?

— Sim, e assim, teria batido a cabeça. As inúmeras escoriações em seu corpo, e especialmente nos membros, me fazem supor isso.

— Bem... isso faz diferença? Digo, na gravidade de seu ferimento?

— Pode fazer sim. A julgar pelas mesmas escoriações por quase toda parte presumo que o terreno era acidentado, e isso por incrível que pareça, pode ter amenizado a força do impacto com a pedra.

— Deus seja louvado – exclamou o conde, permitindo-se um sorriso nervoso – Então ele ficará bem?

— Eu gostaria de dizer isso. No entanto, ele segue inconsciente... e isso não é tudo...

O coração do cavaleiro parecia trespassado ante aquelas palavras.

— ...seu rosto está doentiamente lívido, e há nódoas roxas sob seus olhos. Tudo isso indica que a lesão não foi inofensiva.

— Estás a matar-me de agonia!!! – exasperou-se Milo, começando a dar voltas pela alcova.

Por uns segundos, Afrodite viu naquele desespero a constatação do que vinha desconfiando há alguns dias.

Guardaria para depois... o mais importante era Camus... e o que ele estava prestes a fazer.

Isso sim, alvoroçava-lhe os nervos, os quais tinha que manter sob controle a bem da examinação.

Olhou por dentro das pálpebras de Camus, por dentro do nariz, por dentro da boca e por dentro do ouvido. Sobressaltou-se visivelmente, causando receio em Milo.

— Isso é mau... é MUITO MAU – balbuciou. Inseriu um dedo no canal auricular do ruivo, mostrando-o, trêmulo, ao conde.

— SANGUE?

— Senhor Milo… há um pouco de sangue nos ouvidos de Camus. Isso é MUITO sério. A lesão... a lesão... eu creio que a pressão intracraniana aumentou em virtude do impacto!

— Diabos, não estudei coisas de médico como tu, não estou a entender nada, ainda que muito estejas a amedrontar-me!!!

— Pensai em nosso cérebro como uma massa gelatinosa, e no crânio como uma resistente caixa que a guarda. A pressão intracraniana é a pressão exercida pelo crânio ao cérebro. O aumento dessa pressão, ocasionada pelo choque da cabeça de Camus na pedra, poderá sim levá-lo a morte, caso a pressão não seja reduzida.

— Que... que dizes...? – não que Milo tivesse entendido tudo, e seu estado então sequer o permitiria. Contudo, a palavra “morte” fez todas suas fibras vibrarem de pânico.

— QUE ESTÁS A DIZER? ELE VAI MORRER, É ISSO? – gritou, atirando-se ao sueco, agarrando-lhe pela gola da roupa.

— ACALMAI-VOS! ELE NÃO VAI MORRER!

— MAS... disseste que...

— Achai que deixarei meu amigo morrer sem tentar tudo de que disponho? E até do que NÃO disponho?!?

— Eu não entendo!!!...

— Então deixai-me explicar, pois que precisarei de VOSSA autorização! – interrompeu Afrodite, sério como nunca.

Atordoado, Milo o soltou, sentindo todo seu corpo fraquejar. O ex-pajem ajeitou a gola enquanto falava, gravemente:

— Como eu disse, tenho que reduzir a pressão que neste momento o crânio está a fazer no cérebro de Camus. Se não fizer isso, ele morrerá em algumas horas... ou nunca mais acordará.

— E... e como... como fará isso? Por que dizes que precisa de minha autorização?

— Vós sois seu esposo e responsável por ele. E eu, subordinado a ele, prontamente o sou a vós, como certa vez vós mesmo alegastes.

O cavaleiro assentiu, sem mais conseguir enunciar uma só palavra. Apenas aguardava a resposta.

— A pressão pode ser aliviada mediante uma operação... TREPANAÇÃO. Consiste em fazer um pequeno orifício na caixa craniana e, através dela, descomprimir o cérebro, antes que a lesão torne-se permanente.

— Espera – Milo ergueu a mão, perplexo, impedindo que Afrodite continuasse – Estás a dizer que... que vais PERFURAR A CABEÇA DELE?

— Exatamente.

Boquiaberto, o conde julgou, a princípio, que o camareiro estivesse a gracejar. Mas quem em SÃ CONSCIÊNCIA, tanto mais alguém que se dizia AMIGO de Camus, brincaria em um momento como aquele. Aproveitando a momentânea confusão que fizera Milo se calar, Afrodite prosseguiu:

— Podemos deixar a cargo do destino a melhora de Camus. Ele pode dormir por semanas, meses, anos... e um dia despertar. Mas também pode acordar e ter sequelas drásticas, as quais abstenho-me de mencionar em sua totalidade; limitar-me-ei a citar paralisia definitiva, perda da fala, audição, visão... pode vir mesmo a esquecer-se de quem é... de quem sois vós ou de quem sou eu, em suma, DE TUDO e de todos. Ou então, pode falecer ainda hoje. Preferis confiar na sorte ou...

— O que estás me dizendo... é INSANO!

— Absolutamente. A trepanação é a mais antiga cirurgia do mundo. Sabeis que há registros de sua prática que remontam há mais de 8000 anos? ( 1 )

— COMO posso permitir tamanha sandice! Ele está ferido na cabeça, pretendes fazer-lhe um OUTRO ferimento, e pensas que ele sobreviverá por isso?!?

— Acreditai-me, a sobrevivência ao procedimento, desde a Antiguidade, é de 7 a 8 homens, dentre 10 que a ele se submetem, senhor Milo. É uma alta probabilidade de salvação, ao passo que deixá-lo ASSIM é praticamente uma condenação – esclarecia Afrodite, agora mais calmo, pois via que a resistência de Milo nascia não apenas da ignorância no assunto, mas também ao sentimento que deixava transparecer. Compadeceu-se dele.

— De dez homens... sete ou oito melhoram ao... ao...?

— Sim, não vos parece promissor?

Os lábios de Milo fremiam visivelmente. Ele mesmo empalidecera como se tivesse adoecido de súbito.

— Mas... tu... tu sabes fazer essa... essa operação mesmo?

— Eu nunca fiz. Entretanto, fascinado por todo tipo de intervenção humana ao que parece ser uma sentença de dor e sofrimento, estudo-a há muitos anos. Foi amplamente documentada e ensinada. Senhor Milo, homens que nem mesmo possuíam cultura letrada a realizavam. Nossos antepassados dela têm se servido há milênios...

— É que – murmurou, aflito – parece-me tão bárbaro... furar a cabeça de um homem!

— Bem sucedida a operação, o osso volta a crescer ao redor do orifício.

— Isso é sério? – Milo assombrava-se mais e mais.

— Nossos conterrâneos, ao contrário dos orientais, estão deixando a prática se extinguir pouco a pouco. Há, não obstante, os que ainda a façam, e pretendo ser eu um deles. O senhor Shura enviou-me farto material redigido pelos árabes, cuja eficiência não encontra rivais. Enviou-me também ferramentas para uso específico. Eu já possuía algumas, contudo...

Calou-se ao notar a expressão nauseada do conde. Estava muito difícil para o esposo do amigo assimilar tal ideia!

— Podes... MESMO fazer isso? Deveras? Nunca… disseste que nunca fizeste uma… trepanação antes!

— Deveras. Entretanto, todos, até os mais experientes, tiveram sua primeira vez. Pensai nisto.

Suspirando apreensivo, o cavaleiro se viu obrigado a concordar:

— Está certo. Eu consinto em que realizes a operação.

— Perfeitamente. Antes de ir buscar tudo de que necessito, ajuda-me a despi-lo.

— Despi-lo?

— Sim. Preciso examinar os outros ferimentos de seu corpo para tratá-los rapidamente. E vesti-lo com uma túnica limpa. Afinal, depois que a trepanação for concluída, não poderemos mais mexer nele. Deverá ficar sempre nessa posição.

Ao ouvir o ex-pajem falar aquilo, Milo mordeu o lábio inferior, aterrorizado. Com toda a atenção que dispensaram ao ferimento mais grave de Camus, acabou não relatando TUDO ao jovem que cuidava do amado.

— Afrodite. A manta que tiramos dele... pertencia aos bandidos. E-eu... eu não achei as roupas dele...

— Que dizeis? Vós já o encontrastes ASSIM? Trajando apenas roupa de baixo? Achei que tivésseis sido vós a remover-lhe o vestido!

Profundamente perturbado, o cavaleiro revelou, em voz baixa:

— Quando eu cheguei até onde estavam Camus e os bandidos... e-eles... eles estavam prestes a SODOMIZÁ-LO!

Milo tremia de ódio. Seu rosto contorcia-se de fúria e dor. O sueco mal podia acreditar.

— N-não... não... Ca... Camus... Camus foi violado? É o que estais a contar-me?

— Não sei se lograram seu vil intento antes de eu... de eu... – o conde agarrou-se a uma das colunetas trabalhadas do dossel.

Vendo-o quase à beira do desespero, Afrodite se viu obrigado a manter o sangue frio:

— Vou verificar isso agora mesmo. Ajudai-me a despi-lo e aproveitamos para virá-lo de bruços. Se o pior tiver acontecido... precisarei tratá-lo urgentemente nesta parte também.

Engolindo o pranto em meio a uns suspiros sentidos, Milo assentiu e auxiliou o camareiro. Assim que o ruivo ficou nu, o sueco proferiu uma rápida prece e em seguida, separou as nádegas de Camus com as mãos, segurando-as enquanto fazia minuciosa observação de seu interior. Engolindo as lágrimas, Milo evitou olhar, embora estivesse tentado a fazê-lo, por medo de que Afrodite lhe mentisse. Mas já confiava em Afrodite o suficiente para crer que não o faria... trincou os dentes, agoniado com o tempo que passava.

— Não há sangue. Tampouco vestígios de quaisquer outros fluidos. Não há laceração alguma, nem marcas em sua pele, ou nas regiões próximas – contou o ex-pajem.

— Por favor, não mintas!

— Não estou a mentir. Olhai, se duvidais de mim. Chegastes a tempo, com a graça de Deus, senhor Milo... Camus – sorriu levemente – Camus conserva a pureza... está intacto!

— Graças a Deus! – Milo exclamou, um doloroso sorriso em que algumas lágrimas fugitivas pousaram.

Comovido, Afrodite viu o soberano cobrir os olhos com a mão que tremia, enquanto balbuciava debilmente:

—Deus seja louvado! Deus... Camus...

Por mais que tivesse a plena convicção de que o esposo continuaria puro mesmo que tivesse sido seviciado por aqueles malditos, saber que ele sofrera semelhante martírio... esfregou os globos oculares quase com violência, cuidando de se recompor.

— Eu cuidarei agora de seu corpo, para que possa, por fim, partir para o mais importante. Deveis estar fatigado, senhor Milo. Podeis vos retirar e...

— Jamais. E nem ouses sugerir isso novamente – retrucou, resoluto.

Claro que Afrodite não insistiu. E procedeu à assepsia das demais partes, não deixando de aplicar nelas unguentos e tinturas à base de ervas e substâncias anti-inflamatórias e cicatrizantes, tais como sálvia, bolsa-de-pastor, noz-moscada, extrato de verbena. Vestiram o nobre com uma túnica azul clara que Milo trouxera de um dos baús.

Contemplaram em silêncio o rapaz, sempre inconsciente.

— Senhor Milo, é chegada a hora...

— Sim, vai pegar teus artefatos. Ficarei aqui para te auxiliar no que for preciso.

*************

Noite sem lua.

Milo acendeu mais lamparinas, de modo que o quarto parecia receber a visita do sol malgrado se aproximasse da meia noite.

— Será que não seria melhor operá-lo depois que amanhecesse? Acaso não precisas de bastante claridade para...

— Seria bem melhor, senhor Milo. Ocorre que quanto antes a trepanação for realizada, maiores as chances de sucesso. A diferença de algumas poucas horas pode ser a diferença entre a cura total e uma lesão permanente... ou mesmo a morte.

O cavaleiro cruzou os braços, vendo o sueco dispor sobre uma mesa que encostara ao leito variados instrumentos, a maioria para ele desconhecida.

— Podes dizer-me como fará o tal buraco? – inquiriu, temeroso.

— Primeiramente, terei que raspar um pouco de seus cabelos. Não será em área muito extensa, pois que o orifício será pequeno. Com este instrumento – mostrou uma espécie de alicate dentado – removerei o couro cabeludo para chegar ao crânio. Aí sim perfurarei o osso com este trépano de obsidiana – mostrou um tubo fino com uma ponta afiada e serrilhada.

— Santo Deus... – gemeu Milo, suando frio ao ver os objetos.

— Eu possuía trépanos de aço e de prata, mas este, que o senhor Shura enviou de Espanha, é bem mais cortante, e diminuirá o tempo de abertura da caixa craniana, bem como o risco de hemorragia. Feito isso, eu drenarei o líquido.

— Isso ainda me parece loucura... mas sei que não há outro jeito...

— Não vos atormenteis. Tentarei ser o mais breve possível. No entanto, advirto-vos... não levará menos que duas horas.

— E-ele... ele n-não acordará com a dor?

O sueco suspirou, tristemente.

— Neste exato momento, senhor Milo... Camus não é capaz de sentir coisa alguma. Está no sono profundo que é similar à morte (2).

— E se ele acordar... digo, quando acordar...

— Terei o remédio adequado para aplacar qualquer mal estar que sinta. Por ora...

— Sim, claro, e-eu... eu... – Milo estava pálido, suas palpitações pareciam-lhe audíveis até mesmo para o homem que estava em iminência de operar seu marido.

— Sei que desejais ficar aqui. Todavia, não é algo agradável de se ver, ainda mais se tratando de alguém que vós... – emudeceu, preferindo não tocar no assunto. A prioridade era salvar seu amigo. E só!

— Eu auxiliar-te-ei no que for preciso – propôs, sem autoritarismo nenhum, era mais como se pedisse.

Afrodite sorriu, terno.

— Neste caso, conto convosco, contudo, para vosso próprio bem, abstenhai-vos de olhar muito para o que faço...

Milo quase que replicou “eu já vi coisas piores nos campos de guerra!”, porém deu-se conta de que nunca em relação a alguém que AMASSE.

Comprimiu os lábios e apenas fez “sim” com a cabeça.

— Muito que bem; mantende, rogo-vos, uma tina de água limpa à minha disposição permanentemente. De quando em quando pedir-vos ei que direcione o candelabro para uma área específica – falou o sueco, raspando cuidadosamente uma parte dos cabelos de Camus, acima de onde abria-se o nefasto machucado.

Por um breve instante, mirou Milo de relance, reparando-lhe a fisionomia de profunda preocupação. Também ele tinha o espírito mergulhado em incerteza, em temor... contemplou o rosto do amigo; Camus estava com eles, e, ao mesmo tempo, encontrava-se tão longe deles!

Localizando o ponto no couro cabeludo que seria retirado, fez uma prece silenciosa antes de iniciar o procedimento...

************

Dois dias inteiros haviam se passado.

Camus não recobrara a consciência.

Milo não saía de perto dele, sempre esperando que no minuto seguinte veria os longos cílios rubros tremularem antes de desvendarem os mais instigantes olhos que já vira em toda sua vida.

Naquela manhã, deitado ao lado do amado, estudava-lhe cada ponto do rosto. A palidez ainda se fazia evidente, mas o mórbido livor arrefecera, bem como as manchas escuras abaixo das pálpebras, restando apenas nódoas como olheiras.

Levantava-se unicamente para beber água ou fazer necessidades. Recusava-se a falar com quem quer que fosse, com a óbvia exceção de Afrodite. E assim mesmo, apenas sobre Camus. Ignorava os conselhos do sueco para que se alimentasse, para que fosse cumprir seus compromissos, que o ruivo seria observado por seu camareiro, como sempre. O cavaleiro a tudo recusava, obstinado.

— Senhor Milo, vosso jejum em nada influenciará a recuperação dele... a menos que seja com objetivos religiosos.

Ele não respondeu. Sequer pensara em consagrar a Deus o jejum que fazia desde que trouxera o esposo para casa. Tudo que sabia é que de forma alguma conseguiria comer enquanto o homem que amava continuasse preso àquele sono misterioso. Chegou a se arrepender por isso.

Afrodite suspirou, tomado de piedade pelo imponente nobre, que agora não se fazia metade do homem que era. Abatido, sem roupas apropriadas, estava frequentemente com o torso nu, os olhos permanentemente injetados por vigílias e prantos, os quais cuidava de ocultar do ex-pajem. Quase não falava, e não saberia dizer se por estar destroçado ou por estar enfraquecido pela carência de nutrientes e de descanso necessários. A pedido de Milo, na noite da cirurgia Afrodite instalara-se novamente no quarto contíguo ao do “casal”; mantivera o aposento inferior como seu, pois que era dez vezes maior e mais luxuoso, entretanto, durante o período de recuperação de Camus, acharam propício que estivesse sempre por perto. Não obstante, respeitava a privacidade de Milo, sempre pedindo-lhe, respeitosamente, por permissão para adentrar o quarto, mesmo para trocar curativos e observar a evolução do quadro clínico do amigo. Sempre a obtinha, mediante um mero grunhido cansado.

— Compreendo vossa atitude, porém não a aprovo. Sois governante de uma terra cujos habitantes de vossa presença dependem como as plantas dependem do Sol.

— Afrodite... – balbuciou, nunca deixando de mirar o ruivo inconsciente.

— Já disse-vos, ficarei a cuidar dele enquanto vós...

— Eu NÃO SAIREI de perto dele, ouviste? Será que não entendeste que NUNCA MAIS deixarei Camus sozinho?

— Ele NÃO ficará sozinho, por Deus! – o sueco chegou a revirar os olhos – Se estou a dizer que ficarei com ele enquanto vós cuidareis de vossos deveres de soberano!

— Pouco me importam os “deveres de soberano” – cuspiu, amargo. Passou a mão pela testa, fatigado.

Sem mais conter-se, o camareiro proferiu o que era mais uma afirmação do que uma indagação, a despeito da entonação:

— Vós o amais, não é verdade?

Tornando seus olhos subitamente arregalados para ele, Milo perguntou, levemente irritado:

— Que sandice é essa agora?

— Não é sandice alguma. Vós amais Camus.

— Essa é a maior! – riu nervosamente – Então a natural preocupação acerca do estado de saúde de um inocente é “amor”!

— Sim, em se tratando de Camus, é amor – reforçou Afrodite, sem qualquer receio.

— Tolo! Com que cara direi ao melhor amigo de meu pai, ao MEU PADRINHO, que o filho dele pereceu estando sob MINHA responsabilidade?

— Ele está VIVO.

Erguendo-se do leito onde até então estivera, ao lado do esposo, Milo foi até Afrodite, ostentando uma fachada ameaçadora... que em nenhum momento intimidou o sueco.

— Sim, vivo, mas em que condições acordará? Tu disseste que aquela horrível operação poderia salvá-lo! E até agora, vê!, dorme!!!

— Seu organismo está a se recuperar. Há pessoas que são submetidas à trepanação ACORDADAS, e SEM anestesia, senhor Milo! E sobrevivem! Se tivésseis um pouco mais de fé no Deus que dizes adorar...

— EU TENHO! EU TENHO FÉ! MAS... mas... – vacilou, sob forte emoção.

— ...mas o amais.

— Cala-te, insolente!

— Por que não o admitis?

As mãos do cavaleiro se crisparam em sua face, agarrando algumas mechas onduladas que ali caíam.

— Do que adiantaria isso agora? De que adiantaria MEU AMOR agora?!? Olha para ele, OLHA! Fui EU quem o pôs ali!

— Não digais tal parvoíce! VÓS o salvastes! – contestou-o Afrodite, como ele erguendo a voz durante aquele embate – VÓS o livrastes dos pérfidos malfeitores. Se não fosse por vós, ele não mais seria puro, não mais estaria aqui... talvez não mais estaria VIVO...

— E se não fosse por minhas ações que tanto o magoaram ele não teria se lançado naquele lugar em busca de paz... uma paz que NUNCA encontrou ao meu lado!!!

Malgrado a ira de suas réplicas, lágrimas rolaram livremente, surpreendendo o sueco.

— Senhor Milo... ele não tinha essa paz.... simplesmente porque vos amava. E cria ser por vós desprezado.

Piscando incomodado pelo ardor do pranto, balbuciou:

— Eu achava que ele me odiava...

— Ele por sua vez achava que vós o odiásseis.

Ambos silenciaram, exaustos, pesarosos. Após longos minutos, Afrodite o interpelou:

— Prometeis que o revelareis... tão logo ele acorde?

— Acreditas mesmo que... que ele voltará...?

— É claro. Camus é forte. Não vos deixeis enganar por sua aparente fragilidade.

Sorrindo em meio às lágrimas, Milo levou a mão direita à face esquerda, esfregando-a ao concordar:

— Tens nisso razão. Tem a mão pesada, o miserável. Pude sentir naquele dia... e disso és tu a grande testemunha.

Eles riram baixinho, um riso de nostalgia, de hilaridade, mas sobretudo... de cumplicidade.

— Será que a refeição que tu me trouxeste ainda está quente? – perguntou Milo.

— Possivelmente. Estivéssemos no inverno, eu não acreditaria nisso.

O conde considerou o camareiro de seu esposo e dirigiu-se à mesa, onde Afrodite depositara a bandeja com o alimento.

— Deixar-te-ei com ele algumas horas, pois. Tenho certos assuntos a tratar com os artífices – disse, servindo-se da apetitosa comida.

— Agradeço vossa confiança – respondeu o ex-pajem, alegremente.

Parecia que a trégua se insinuava entre aqueles dois cavalheiros cuja relação até então fora árdua, em virtude do profundo amor que ambos nutriam pelo mesmo homem. Amores que agora se diferiam, entretanto, permaneciam sob o verniz da mesma nobreza.

*************

Noite alta do quarto dia.

Terminada mais uma sessão de limpeza dos curativos e averiguação do local da operação realizada em Camus, Afrodite despediu-se de Milo e recolheu-se, exausto. Igualmente cansado encontrava-se o conde de Saint Doulchard, já que seu sono fragmentava-se por sonhos perturbadores... sonhos em que o marido não despertava nunca mais. Em outros, Camus não mais se lembrava de que se casara com Milo, aliás, tampouco se lembrava de Milo! Em alguns outros, não mais movia parte alguma do corpo, com exceção dos lacrimejantes olhos avermelhados... dir-se-ia que sabia estar prisioneiro a uma nova e terrível realidade a que fora levado pela lesão cerebral...

“Já faz quatro dias, meu amor, não podes mesmo despertar e dizer-me que tudo irá ficar bem?”, perguntava-se em pensamento, acariciando os contornos do rosto do amado, observando o curativo na cabeça. Pousou em sua fronte um beijo casto.

“Farei com que experimentes os melhores dias de tua existência. Juro por minha alma que serás feliz, Camus. Declaro aqui, perante Deus Todo Poderoso, que prefiro que minha alma seja levada a que seja levada de ti novamente a paz a que tens direito... tu, o homem mais nobre e puro que há na face desta Terra... o homem que amo, de todo meu coração...”, e durante aquele juramento íntimo, lágrimas foram vertidas, até se precipitarem por sobre o jovem cuja consciência ainda distava...

Fechando a porta, Afrodite pegou seu diário, que levara para o quarto contíguo, a fim de registrar aqueles dias tão insólitos. Sentou-se no pequeno gabinete que no recinto permanecera e pôs-se a escrever, após molhar a pena no tinteiro espanhol:

“A dor conduz à vida. Nascemos em meio a dores excruciantes de nossas mães. Nascemos em meio ao sofrido pranto de quem abandona o aconchegante lar uterino. E vivemos. Análoga a um parto, contemplo a mudança dos rumos das vidas de meu grande amigo Camus e de seu esposo, a quem outrora considerei odioso, hoje não mais. Embora Camus esteja a passar pela pior provação de sua vida, desde o assassinato de sua querida irmã Camille, venturas impensáveis parecem por ele esperar, pois que o homem a quem ele devotou seu imaculado coração enfim admite por ele nutrir igual sentimento. De que o senhor Milo por Camus sentisse algum amor desconfio desde o dia em que tratei dos ferimentos a ele infligidos por um colérico e irreconhecível Camus, quando daquela lamentável contenda. Sim, pois que o senhor Milo deixou-se ser atingido sucessivas por Camus, ao passo que meu amigo havia sido estapeado uma única vez. Para mim ficou claro que o conde tentou poupá-lo, e que outra razão teria para assim proceder que não fosse movida por amor... cristão, fraternal, ou... romântico? Decidi pelo último, analisando-o sem que o percebesse. Até então, o senhor Milo molestava-se com a minha presença, e agora vejo que também isso devia-se ao amor que já estava a alimentar por Camus. Triste é que a tragédia tenha rasgado os véus do mistério, que a dor tenha feito enfim emergir esse amor, o qual percebo claramente, é poderoso e magnânimo. Rogo a Deus que Camus recupere-se em breve, pois que, tal qual o horizonte dourado insinua em meio à tempestade, anuncia-se, enfim, a bonança.”

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“Senhor Milo.”

“Camus!”

“Senhor Milo, eu menti para vós. Eu não vos odeio. Nunca vos odiei!”

“Mas tu disseste...”

“Eu disse. Contudo, mentia...”

“Agora é tarde, Camus.”

“Por que é tarde?”

“Porque estás perdendo tua vida...”

“Não, eu não quero perder minha vida agora que vós estais aqui, a meu lado!”

“Tampouco eu quereria que fosse assim... mas...”

“Senhor Milo, eu não quero morrer!”

“Tampouco eu quero que morras... fica...”

“Mas vós dissestes...”

“Não temos escolha, Camus.”

“Eu fugi de vós! Não quero mais fugir!”

“Eu igualmente fui fugitivo de mim mesmo...”

“Senhor Milo... estou mesmo morrendo?”

“Infelizmente, Camus... infelizmente, está.”

“Senhor Milo...”

“Eu sinto tanto, Camus! Sinto tanto!!!”

“O que... lágrimas... estais a chorar, senhor Milo?”

“....”

“Do que se tratou minha vida? Foi uma penitência por ter subtraído a vida de minha irmã?”

“...”

“Senhor Milo, respondei-me, imploro-vos!”

“...”

“Por que não escuto mais a vossa voz? Não obstante vossas lágrimas continuam a molhar-me as faces!”

“...”

“Senhor Milo... SENHOR MILO! SENHOR...”

— ...MILO!

Milo acordou de seu breve cochilo, talvez o terceiro ou o quarto daquela madrugada, ao ouvir seu nome na voz de Camus. Seus batimentos cardíacos desordenaram a ponto de causar-lhe desconforto. Puxou o ar pela boca ao olhar para o homem a seu lado...

... e ver os olhos castanho-avermelhados abertos.

ABERTOS!!!

Seria um sonho? Uma ilusão de ótica pregada pela iluminação bruxuleante das velas?

Olhos tão abertos que nunca piscavam.

Olhos tão abertos que nada miravam.

Olhos tão abertos... como seguem os olhos dos que partem para a eternidade em meio a um longo suspiro.

Ofegante de pavor, Milo destravou a língua a muito custo e balbuciou:

— Camus...?

Lentamente, as íris de tão incomum cor se moveram para encontrar os olhos vidrados do conde. O rosto do ruivo tornou um pouco para o lado ocupado pelo esposo, e de seus lábios ressecados escapou, em tom tão baixo quanto fraco:

— Senhor Milo...

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Notas finais
( 1 ) Sendo Afrodite um homem medieval, a princípio cristão, desconsidera ou desconhece que a referida operação, a trepanação, remonta a épocas bem mais antigas. Algumas fontes afirmam que há cerca de 9000 anos a trepanação já era realizada nas mais variadas partes do mundo. Outras fontes, porém, sugerem que já no período Mesolítico (10.000 a.C. a 5000 a.C.) o procedimento de abrir orifícios na cabeça ora com fins religiosos ora com fins medicinais já se fazia uma realidade. É considerada a mais antiga cirurgia do mundo, e a sequência seguida por Afrodite é a registrada. Falando-se de fins medicinais, recorria-se à trepanação em casos de lesões severas na cabeça ou para tratar doenças mentais, epilepsias, e até enxaquecas crônicas. O índice de sobrevivência à trepanação na Antiguidade e até o século XIV é estimado entre 70% a 80%. No final da Idade Média esse percentual cai drasticamente. A razão divide opiniões: as péssimas condições de higiene e saneamento aliadas à ocupação desenfreada nos centros urbanos, a perda desse conhecimento, são algumas das mais apontadas. Surpreendente é que, conforme Dite falou, muitas pessoas faziam trepanação sem o uso de qualquer anestesia... há um vídeo no Youtube que mostra a trepanação feita em uma tribo africana, sem qualquer anestesia ou tecnologia. E o locutor fala em 96% de chances de sobrevivência... e de que 7 horas depois a pessoa sai andando e tudo!!! Claro que há casos e casos, bem como diferentes tamanhos de perfurações. No caso de Camus, essa foi pequena. O osso se regenera ao redor de onde foi cortado e a vida segue normalmente. Será esse o caso do nosso ruivo? Ainda hoje há gente que inclusive recorre à trepanação para "despertar uma consciência sobrenatural". (2) Sono similar à morte = coma Não sei se já utilizavam o conceito de "coma", então recorri à figura de linguagem, ************* Camus enfim despertou... resta saber em QUAIS condições. Estará o ruivo a salvo das temíveis sequelas mencionadas por Afrodite? Espero por vocês no próximo capítulo, até lá... bjs Tema do capítulo - de uma banda que amo, amo, AMO de paixão, Lycia... https://www.youtube.com/watch?v=O1ZxvGRjzag