Dame Jolie

24 O Anjo Perdido


Notas iniciais
Olá a todos Vamos a mais um capítulo de "Dame Jolie" *.* Quero agradecer a todos que vêm apoiando a fic, seja lendo, favoritando, comentando, agradeço em especial pelos comentários, que sempre estimulam enormemente o trabalho. Não há marcações no texto a serem explicadas nas notas finais. Créditos da capa: 乙こ (só achei assim, caso haja equívoco, favor me avisar para que eu possa corrigir) Boa leitura!

A aurora insinuava-se por sobre as montanhas que margeavam a extensa floresta. Os primeiros raios de sol não tardariam a invadir os aposentos senhoris através das altas janelas ogivais, abertas por causa do clima da estação.

Antes que o novo dia iluminasse a visão de Milo, esta foi iluminada pelo brilho dos olhos avermelhados nele fixos. Camus fitava-o, aparentemente mergulhado em dúvidas, incompreensões. Percebendo-o, o loiro sentiu vívido receio. Quis crivar o marido de perguntas, certificar-se de que ele conservava suas memórias mesmo após o acidente. No entanto, lembrou-se das instruções de Afrodite: deveria, antes de mais nada, dar-lhe de beber. Após quatro dias inconsciente, o ruivo precisaria de água, acima de todas as coisas!

— Não te movas, dar-te-ei água fresca!

Esticou a mão para a mesa ao lado da cama, sobre a qual dispunham-se um jarro de cerâmica e um copo, que encheu quase até a borda. Entregou-o ao esposo, inconscientemente segurando-lhe a mão, como se temesse que Camus pudesse deixá-lo cair por falta de coordenação. Não foi o que aconteceu: o jovem segurou o copo com certa firmeza e sorveu seu conteúdo a princípio vagarosamente; em seguida, pôs-se ávido em saciar-se. Tal ação fez com que se engasgasse, para susto de Milo.

— Calma, calma! Melhor é que bebas aos poucos! – aconselhou o cavaleiro, espalmando a mão nas costas do rapaz que tossia.

Em momento algum Camus desviou de Milo seu olhar estranhamente perscrutador. Ainda que o conde ansiasse por inquirir-lhe a razão, não o fez. Afinal, Afrodite fora enfático sobre a necessidade de poupar o ruivo de esforços físicos e mentais tão logo despertasse.

— Queres mais? Espera. – Serviu-lhe mais água, pois que o esposo ainda tinha sede. O esposo tossiu mais algumas vezes, agora fracamente.

— Assim... bebe devagar. Não te apresses. – Orientava o loiro, observando o marido com amorosa atenção. – Estás satisfeito mesmo?

Assentindo levemente, Camus entregou-lhe o copo. Milo devolveu-o ao local de origem. Ficaram se olhando em silêncio. O cavaleiro não se conteve em levar até a face do outro sua mão trêmula. Com as pontas dos dedos, acariciou-a com reverência.

— Camus... sentes alguma dor?

Ainda emudecido, ele fez que não com a cabeça.

— Isso é ótimo. – Aliviou-se Milo, que, contudo, não sabia interpretar aquele contínuo mutismo, aquele insistente olhar... não podia ficar lhe interrogando, sabia-o! Não obstante... tinha que saber se ele estava MESMO bem. Tremia de ansiedade.

— E... sabes... sabes onde estás?

Achou que a resposta tardaria, mas ela veio logo, ainda que lenta, fraca:

— Estou em casa...

O coração de Milo foi envolto em um conforto tépido, doce. Sorriu com brandura, seus olhos turquesas marejando sem que se desse conta. Murmurou:

—Sim. Estás em casa. Em TUA casa. Teu lar!

— Meu lar...

— Exatamente. Ah! Eu... eu fico feliz que estejas bem... – encontrava-se terno e temeroso ao mesmo tempo.

— Senhor Milo... – sussurrou Camus, o tom hesitante aumentando momentaneamente aquele temor – eu tive tanto medo...

Agora o coração de Milo comprimiu-se dolorosamente. Ele próprio tentara imaginar inúmeras vezes como teriam sido aquelas horas em que o amado estivera em poder dos malditos bandidos. Por que horrores tivera que passar! Só de imaginar seu precioso Camus experimentara medo dava-lhe uma revolta imensa! O olhar do ruivo, antes intenso, tornara-se melancólico. Que angustiosas lembranças sobrevoavam por sobre a recém desperta consciência?

Tomou-lhe as mãos, encarando-o com firmeza

— Nunca mais... nunca mais sentirás medo. Ouviste-me, Camus?

— …..

— Eu prometo. Nunca mais...

— ...tive medo de não voltar a ver-vos. – Completou, aparentando extrema fadiga.

Emocionado, o conde quase não acreditara no que acabara de ouvir. Considerou-o, surpreso.

— Camus...

Com gesto suave, esticou o braço e achegou-se mais ao esposo, fazendo-o repousar junto a si. Camus permitiu-se apoiar docilmente bem junto ao loiro. Encontrava-se um tanto letárgico, mas nada o incomodava. O perfume almiscarado que desprendia daquele vigoroso corpo moreno tão amplo que o abrigava, trouxe-lhe serena paz. Uma doce e sutil recordação que não tardou a chegar. Por sua vez, Milo julgava ter adentrado o paraíso... a emoção se fazia deveras forte, e ele não resistiu a proferir, em voz baixa, resoluto, bem junto à fronte em que depositara um beijo:

— Camus... eu te amo.

O esposo permaneceu em silêncio. Um turbilhão incompreensível se apossou dele, que chegou a sentir dor com a taquicardia desenfreada pelo que escutara.

Seria uma alucinação sonora?

Seria um sonho?

Estaria, de fato, acordado?

Entreabriu os lábios para aspirar mais do ar que parecia subitamente lhe faltar.

Queria responder.

Mas a torrente de emoções o enfraquecia.

Parecia que algo o tragava novamente para a escuridão... só que desta vez, em meio a indizível ventura.

— Descansa. Nunca mais te deixarei só. Eu prometo – sussurrava Milo, amorosamente, sentindo o ruivo relaxar mais e mais junto ao seu largo peito. Então ouviu-o proferir, de forma quase inaudível:

— Eu vos amo, senhor Milo.

O cavaleiro provou o gostinho salgado de uma lágrima que acondicionou-se no canto de seus lábios, frementes em um sorriso feliz. Pousou-os nos lábios de seu marido, que acabara de adormecer.

Nunca, em toda sua vida, Milo experimentara tamanha felicidade.

Seu amor era aceito.

Seu amado despertara.

E parecia estar bem.

E haveria de estar realmente tudo bem dali em diante.

Coberto de júbilo, somente veio a ser arrebatado pelo sono quando o sol, já alto, entronizara-se no céu.

*************

Apesar de ter dormido bem depois que Camus adormecera, Milo despertara antes dele. Ficou a observá-lo. Embevecido com aquela beleza etérea, intocada pela perfídia humana. Notou que os arranhões de seu rosto cicatrizavam bem, certamente dentro de algumas semanas marca alguma macularia a pele alva. O ruivo ressonava tranquilo, ainda sobre o braço do marido.

“Meu Deus, como eu o amo”, pensou o conde, assombrado com a vastidão daquele sentimento. Parecia expandir-se a cada instante vivido. Viu os rubros cílios estremecerem. E então os adoráveis olhos castanhos se revelaram para os azuis que não os perdiam.

— Perdoa-me. Despertei-te?

O ruivo meneou a cabeça em uma discreta negativa.

— Espera que chamarei Afrodite. Não te levantes.

Sem esboçar reação, Camus permaneceu deitado, enquanto o loiro ia bater à porta do quarto contíguo que o camareiro-mor voltara a ocupar.

— Ele acordou – anunciou, feliz, tão logo foi atendido pelo sueco.

— Deus seja louvado! Despertou agora?

— Na verdade, chegou a acordar esta madrugada, daí voltou a dormir e agora...

O ex-pajem lançou um breve olhar à alcova, adentrando os vastos aposentos ao lado do soberano.

— Falastes com ele? – indagou, sondando o senhor.

— Sim.

— Não lhe fizestes uma saraivada de perguntas, por certo? – deteve-se, ao que Milo fez o mesmo, ambos conversando de modo a não deixar o ruivo ouvi-los.

— Por quem me tomas? – retrucou o conde, injuriado – Não sou nenhum néscio. Segui à risca tuas orientações. Apenas dei-lhe água, perguntei se sentia dor e... e se sabia onde se encontrava.

Afrodite cruzou os braços, demonstrando discreta reprovação.

— Senhor Milo...

— Que poderia eu fazer? Tinhas que ver com que olhos fitava-me! Não havia como manter-me calado... temi que estivesse desmemoriado, conforme tu apontaste sobre alguns casos de igual ferimento.

Dando um suspiro resignado, o sueco inquiriu:

— Bom... dizei-me, que impressão tivestes acerca dele?

— Pareceu-me bem, ainda que um tanto enlanguescido. Isto, porém, há de ser normal, não?

— Creio que sim. Pareceu-vos desorientado?

Milo apertou as mãos, receoso.

— Não muito. Eu diria que demonstrou mais estar cansado. Ele lembrou-se de mim...

— Isso é bom.

— ...e disse que me amava.

O ex-pajem quase caiu para trás.

— Ele disse isso?!?

— Sim – o cavaleiro não conseguiu esconder a euforia ao confirmar.

Ficou intrigado com o ar de preocupação que nasceu no outro.

— Isso é estranho, senhor Milo. Nem para mim Camus confessou que vos amava. Se uma das primeiras coisas que resolveu dizer ao ver-vos diante dele...

Caminhou até uma janela, seguido pelo nobre ansioso por ouvi-lo.

— ...ainda que felizmente não tenha sido violado... creio que tenha passado por momentos de real terror naquela floresta.

— Ele mencionou ter sentido medo de não voltar a me ver – ajuntou Milo, a consternação ocupando o lugar do orgulho.

Enquanto os dois confabulavam, Camus, desejoso de se aliviar, ergueu-se do leito, não sem dificuldade: ao tocar o chão, vacilou; o que oferecia empecilho a que caminhasse direito eram mais as tiras de linho enroladas nos pés do que a dor que sentiu. A passos lentos, dirigiu-se ao que era o toalete da época, em um compartimento próximo à sala de banhos, em um corredor adornado por belas estátuas de mármore.

— Penso que Camus esperou pela morte, para ter vos dito tais palavras... achou que não mais vos veria.

— Ferve-me o sangue só de imaginar pelo que ele passou... que tenha sentido medo... – Rosnou o conde, contraindo os punhos.

— A prioridade agora é sua plena recuperação, senhor Milo. Imaginar tais coisas só trará sofrimento. E por ora, não precisamos de mais, crede-me.

— Droga, estás coberto de razão, como sempre. – Resmungou.

— Estais a elogiar-me! Será que terei de examinar vossa cabeça também? – Provocou o camareiro.

— Oras, impertinente, isso não foi um elogio e sim... – ao se virar para o centro do quarto viu o marido em pé – CAMUS!

Correu para ele, apavorado. Passou o braço por trás das costas do ruivo, aturdido, enquanto ralhava:

— Por Deus, deves manter-te em repouso! Mandei que ficasses na cama!

— Eu precisava aliviar-me...!

— Bastava teres pedido para que um de nós te entregasse um urinol!

— Mas... – Ainda confuso, foi conduzido pelo loiro de volta ao leito.

Afrodite cobriu o riso com a mão:

— Senhor Milo, ele pode andar, não ficou inválido nem nada!

— Mas tu mesmo disseste que ele não pode fazer esforço físico! Ademais, não viste como estava a mancar?

— Camus precisa repousar sim, não se transformar em uma estátua tumular – riu, aproximando-se do cavaleiro e acrescentando, baixinho – já vos tornastes protetor! Conselho que vos ofereço: Camus não se agrada de que o tratem como frágil ou que tenham piedade dele.

Milo estalou a língua, irritado. Fez um muxoxo, o que alimentou a hilaridade de Afrodite.

— Por que tenho este pano amarrado à cabeça? – indagou Camus, calmamente.

Os outros dois viraram-se de imediato para ele, que prosseguiu, no mesmo tom:

— Após aliviar-me, mirei-me ao espelho do corredor e vi esta grossa faixa de linho a envolver-me... o que houve?

Afrodite e Milo entreolharam-se. O ex-pajem achegou-se ao amigo e pôs-se a esclarecer, com tato:

— Machucaste a cabeça. Nada de muita gravidade, contudo, tive que realizar um procedimento invasivo para tratar o ferimento.

— Um procedimento invasivo?

— Uma cirurgia. Todavia, não te preocupes. A mesma foi bem sucedida.

— Eu o confirmo – Milo sorriu-lhe, tencionando transmitir segurança.

Camus franziu as sobrancelhas. Perguntou, firme porém sereno:

—Sabeis como me machuquei? Eu não me lembro...

— Isso é normal, não te aflijas. Pensamos que possas ter caído, pois que tens escoriações pelo corpo, tuas vestes estavam bem sujas de terra e musgo, e bateste a cabeça no que achamos ter sido uma pedra.

— Afrodite, é adequado que contes assim?

— Se não contar, ele ficará se remoendo tentando imaginar como conseguiu o ferimento, o que pode ser prejudicial. – Dirigindo-se ao ruivo, quis saber – Diz-me, estás a sentir alguma coisa?

— Sinto a cabeça pesada... não é exatamente uma dor... mas...

Alarmado com a resposta, Milo prontamente virou-se para o camareiro. Este adivinhou-lhe o receio e garantiu ao jovem acamado, mas sobretudo ao cavaleiro:

— É normal, estiveste na mesma posição por quatro dias, sem...

— Estive a dormir por quatro dias?

— Acalma-te, peço. É essencial que conserves a serenidade. Quanto a não se lembrar de alguns eventos, lembrar-te-ás aos poucos, à medida que fores te recuperando.

Camus levou a mão direita à testa, lembrando gradualmente dos ocorridos.

— Lembro-me de cinco homens... fui cercado por eles no lago... levaram-me com eles, eram criminosos... mas... não vejo muito além...

— Não fiques a forçar, tudo virá aos poucos – repetiu o sueco, colocando a mão no ombro do amigo.

— Como vim parar aqui?

— O senhor Milo te trouxe, meu amigo – Afrodite revelou, animadamente – salvou-te das garras dos malfeitores que haviam te levado!

O ruivo mirou o esposo, admirado.

— Vós me resgatastes?

Assentindo, o conde ainda disse:

— Quanto aos desgraçados, não te preocupes. Tudo que sobrou deles sobre a Terra foram suas cabeças, neste momento expostas sobre estacas nas fronteiras de Saint Doulchard.

— Senhor Milo!!! – Afrodite chamou-lhe a atenção; o conde não fez caso daquilo e continuou:

— Mas brevemente nem mesmo isto, pois que os corvos e os vermes hão de se encarregar de eliminar seus restos. Enquanto isso, servirão de advertência a qualquer um que adentrar esta província com intenções criminosas.

Camus a tudo ouvia, boquiaberto; o sueco reclamou vivamente:

— Por favor, senhor Milo, o teor de tais declarações não é adequado para quem está se restabelecendo... estais a assustá-lo.

— Não estou assustado.

— Camus?

— O senhor Milo deve punir malfeitores de forma exemplar… — murmurou, recordando-se de cenas desagradáveis sobre as quais preferiu não falar – ele é governante desta terra... e deve...

Viram-no empalidecer enquanto sua fala tornava-se mais lenta. Milo postou-se a seu lado, sentando-se no colchão.

— Camus!

— Ele precisa se alimentar – falou Afrodite, cerrando o cenho – trarei algo leve para que consuma.

— Eu... preciso limpar-me. Quero tomar um banho.

Malgrado a expressão tranquila, sua voz saiu tremida..

— Tens que comer, antes. Após a refeição ajudar-te-ei com o banho e...

— Afrodite, eu posso fazer isso. Traz, peço-te, algum alimento. Enquanto isso, eu o ajudarei a se lavar.

Como o camareiro o encarasse um tanto surpreso, Milo justificou-se:

— Desse modo, ele poderá descansar tão logo se alimente.

— Como quiserdes. Lembrai-vos, porém, de que ele precisa de REPOUSAR. Nada de esforços físicos.

Percebendo o verniz malicioso daquela admoestação, o cavaleiro indignou-se:

— Acaso julgas-me algum devasso destituído de autocontrole?

— É BOM que não o sejais. Tereis muito tempo para vossas investidas idílicas, excelência – chasqueou Afrodite, saindo sob resmungos do soberano.

— Essa é boa! É um atrevido mesmo!!! – grunhia Milo. Voltou-se para o esposo, aparentemente distante. Estendeu-lhe a mão – Vem comigo, acompanhar-te-ei à sala de banhos.

— Decerto ouvistes Afrodite, não me tornei inválido. Posso ir só.

Milo ressentiu-se do tom frio com que aquela recusa fora enunciada. Fingindo não se importar, insistiu:

—Como disse, apenas acompanhar-te-ei. Não esfregarei teu corpo ou coisa parecida, a menos que o queiras...

O ruivo enrubesceu, e, em um gesto maquinal, aceitou a mão que lhe era oferecida. Tentou ao máximo não mancar. Foi conduzido até o recinto, onde a banheira já se encontrava cheia. Como fazia calor, não se incomodaram em providenciar aquecimento, mediante sistema alimentado por lenha. De mais a mais, Camus apreciava as baixas temperaturas. Lançou um olhar furtivo ao marido, sem disfarçar a desconfiança.

— Senta-te neste tamborete, tirarei os curativos de teus pés — ordenou o loiro.

— Não é preciso, consigo fazê-lo. – Sentou-se na peça indicada.

— Para isso terias que abaixar tua cabeça, o que não é uma boa ideia. – Argumentou o conde, já ajoelhando-se diante do esposo, que desviou o olhar, acanhado. Desenrolou as tiras; a boa cicatrização dos machucados animou-o.

— Precisas de ajuda para tirar a túnica? – perguntou Milo.

O ruivo não respondeu: tirou a vestimenta e entrou na água, sob o olhar atento do conde. Segurava os cabelos, sem saber o que fazer, já que tinha aquela faixa de linho na cabeça.

— Eu poderia lavar teus cabelos – Milo adivinhou-lhe o dilema.

— Não é preciso, posso fazê-lo.

— Não deves molhar o local do curativo. Enquanto te limpas, esfregarei as partes de teu cabelo de modo a preservar o local da operação.

— Está bem. – Acabou por aceitar, sabendo que lhe seria custoso fazê-lo, e ele queria se limpar o máximo que pudesse. Então tratou se se banhar, utilizando um sabonete de mel e rosas brancas.

Milo estendia algumas mechas, umedecia-as e as limpava, cuidadosamente, percebendo que o marido tentava manter-se o mais submerso que podia, de quando em quando olhando para trás, como que verificando para onde ele olhava. Que estranho, haviam se declarado um para o outro! Por que Camus parecia constrangido na presença do homem que confessara amar?

— Pareces incomodado com alguma coisa... – Acabou por observar, já que aquele desconforto fazia-se quase palpável.

— Em verdade... tenho vergonha de que vejais meu corpo.

Milo ergueu as sobrancelhas; massageava a nuca do ruivo, fazendo-o suspirar baixinho.

— E por que terias tu vergonha de tal, uma vez que já te vi nu? – Alegou, quase sussurrando-lhe ao ouvido. Camus fechou os olhos.

— Sim... mas quando o fizestes... eu não estava coberto de tão feias nódoas... – Confessou, envergonhado.

O cavaleiro encheu-se de compaixão. Então o esposo tinha vergonha de seus machucados, de seus hematomas? Espalmou as mãos sobre os ombros molhados do amado, que arrepiou-se com aquilo, dizendo:

— As nódoas de que te envergonhas logo cessarão de existir.

— Senhor...

As mãos do loiro deslocaram-se pela área sensível, iniciando suaves carícias até voltarem para a base do pescoço do marido. Este suprimiu um suspiro de langor ao sentir a respiração cálida do conde em sua nuca, os lábios movendo-se contra a pele exposta:

— Essas marcas em nada subtraem a beleza de teu corpo, Camus.

— Vossa condescendência me é dispensável... ahn... – Sentiu a língua de Milo percorrer-lhe a nuca, e, em seguida, sentiu-a sendo delicadamente tocada por beijos aspirados – aah... o q-que estais a fazer?

— Estou a provar com ações o que disse com palavras – respondeu, deslizando uma das mãos para o peito de Camus. Roçou-a por sobre um mamilo, fazendo o jovem estremecer. Os lábios do cavaleiro sugava-lhe delicadamente o pescoço, o contato com a carne úmida potencializando as sensações de ambos. Camus engoliu em seco, arfando de leve.

— Senhor Milo, p-por favor...!

— Shhh... não temas... não forçar-te-ei a nada. Quero apenas que vejas como te equivocas ao julgares que não me agrado de teu corpo devido a teus ferimentos.

Seus beijos de fato percorriam áreas arranhadas, escurecidas, escoriadas. Os dedos do loiro que estavam a brincar com o mamilo tornaram-no intumescido pela insistente estimulação. A outra mão descia-lhe pelo abdômen, fazendo Camus arquear um pouco, fustigado por aquelas desconhecidas porém deliciosas sensações. A voz de Milo torturava-o mais:

—Teu corpo incita-me a ações que ainda não posso realizar... mas tão logo te restabeleças, far-te-ei enfim libertar esses gemidos que insistes em conter...

— E-eu não estou... a... aaahn... – Uma lambida em seu lóbulo fê-lo quase desmanchar-se.

— Camus, eu te amo – sussurrou.

— Se...senhor Milo... e-eu...

Dissera-o naquela noite. Lembrava-se! O que o impedia de dizer novamente?

Ouviram a voz imperiosa de Afrodite vindo da porta:

— SENHOR MILO! Que foi que vos falei acerca de poupá-lo até sua plena recuperação?!?

— POR DEUS! Sou eu algum selvagem? Tão somente o auxilio em sua higiene! Estou a seguir “tuas ordens”!

— ACHO BOM. E apressai-vos. Ele necessita alimentar-se.

Camus ergueu-se da banheira, cobrindo com as mãos o sexo que despontava ansioso. Milo sorriu, divertido. Ajudou-o a sair do tanque, envolveu-o com fino linho egípcio, ajudando-o a se enxugar. De frente para ele, disse, em tom amoroso:

—Teremos muito tempo para cuidar disso, prometo-te.

Tomou-lhe os lábios num beijo que selava a promessa. Após chupá-los com moderada ânsia, como quem prova uma fruta suculenta sem querer verter o caldo em demasia, percebeu que a boca do ruivo abriu-se mais, dando passagem à sua língua. Sem demora, aprofundou o beijo, ao que foi correspondido com tal entrega que sentiu mesmo um gemido vibrar entre eles. Ao se separarem, seus olhares ansiosos se cruzaram, as respirações levemente entrecortadas por anseios mais uma vez adiados.

— Toma, veste-te com esta túnica – entregou-lhe uma limpa, de cor perolada.

— Obrigado – murmurou Camus, com o coração disparado e as pernas bambas.

— Espera. Não deves pisar no solo sem os novos curativos nos pés.

— Que...

Quase não acreditou quando, sem aviso algum, o marido pegou-o no colo. Sequer teve tempo ou mesmo expediente para rejeitar aquela ajuda, a seu ver exagerada. Acabou por emudecer, pasmado com aquele gesto cavalheiresco.

Deixaram a sala de banhos sob o olhar analítico do sueco, que tinha até as mãos na cintura. Milo sentou o marido em uma cadeira à mesa posta, e defendeu-se, encarando o camareiro-mor:

—É assim que retribuis a confiança que deposito em ti? Desconfiando de mim?

— A recuperação de Camus está acima de tudo, deveis pensar nisso.

— Afrodite, a despeito da ação do senhor Milo, não sou uma mulher de resguardo – disse-lhe o ruivo, friamente.

O marido e o camareiro entreolharam-se, surpresos com aquela fala.

— Eu não disse isso.

— É, ele não disse isso.

— Estais a defender-me?!?

Milo deu de ombros.

— Sou um cavaleiro, defendo a verdade.

Enfastiado, o ruivo olhava a refeição à sua frente.

— Trouxe-te uma sopa bem nutritiva. A partir de amanhã à noite poderás comer carne, não muito gorda, claro – anuciou o ex-pajem, servindo-o.

Notaram que Camus agora tinha o olhar mortiço. Talvez estivesse apenas sonolento, o que não seria de se espantar.

— Quando terminares, farás a higiene bucal e refarei teus curativos.

— E eu ficarei a...

— Não há necessidade de que fiqueis a pajeardes-me. Estou bem. Tenho sono, isso é tudo.

— Não sejas teimoso – foi a réplica do cavaleiro.

Malgrado aquele desconforto cuja razão nem mesmo ele compreendia, Camus não teve remédio senão proceder conforme demandavam os dois homens diante de si. Tomou a sopa, um pouco de vinho com especiarias, fez a higiene bucal e voltou para o leito. Afrodite aspergiu um unguento cicatrizante em seus pés e voltou a envolvê-los com tiras de linho. O mesmo preparado foi aplicado nos demais ferimentos, como o corte que tinha abaixo do ombro e escoriações variadas.

— Obrigado, Afrodite – agradeceu, mecanicamente. Abaixou a cabeça, seu desconforto aumentando.

— Não precisas agradecer-me. Agora bebe isto.

O ruivo aceitou o recipiente contendo um estranho líquido escuro.

— Que é isto?

— Um medicamento. Livrar-te-á do mal estar que está a acometer-te.

Milo tornou o semblante interrogativo para o camareiro-mor, que alegou:

— Ele empalideceu subitamente e pôs-se a franzir excessivamente o cenho. Penso que está um tanto enjoado.

— Isso é verdade, Camus? Tu te sentes mal?

Comprimindo os lábios, ele assentiu, contrariado. O conde exasperou-se:

— Maldição, tens de falar o que sentes! Desta vez, Afrodite adivinhou, entretanto és tu que deves contar se algo está a molestar-te!

Aparentando não fazer caso da reprimenda, Camus virou o rosto. Rindo um pouco, o sueco ajuntou:

— Teu consorte tem razão, meu amigo, principalmente porque ele não é lá muito observador...

— QUÊ?

— …não deixes tudo a cargo de nossas percepções, tens de revelar-nos acerca de tais coisas. Não cuidar de algum sintoma, tais quais uma dor ou uma vertigem, pode vir a comprometer teu tratamento.

— Já o compreendi – resmungou, engolindo a beberagem de uma vez; devolve o copo, fazendo uma careta.

— Do que se trata o comporto que lhe deste? – Quis saber Milo, seguindo o ex-pajem que foi depositar o copo na mesa.

— Uma mistura de sumo de beladonna, de alface, extrato de camomila e de noz moscada.

— Agora entendo a careta dele. Mas... espera...– Abaixou ainda mais a voz – beladonna não é tóxica?

— Assaz tóxica. É mister grande conhecimento em sua dosagem para dela poder se servir em segurança.

Afrodite considerou o amigo, recostado nos travesseiros de penas de ganso. Havia fechado os olhos, mas não adquirira expressão alguma de relaxamento. Fez sinal para que Milo o acompanhasse até uma distância para que nada de sua conversa pudesse ser ouvida pelo ruivo.

— Eu o notei tenso em demasia. E ele precisa descansar. Por isso...

— É algum tipo de sedativo, não?

O sueco confirmou com um gesto de cabeça.

— Estou intrigado. Quando ele acordou pela madrugada, parecia bem... parecia... em paz...

— É normal que haja esquecimento de eventos, em especial aqueles que permearam os momentos em que Camus esteve face a face com o perigo. Penso que essa mudança a que presenciamos deva-se ao retorno de ALGUMAS lembranças – deduziu o sueco, disfarçando a preocupação para não potencializar a que já percebia no seu interlocutor.

— Isso pode lhe trazer... desconforto... dor?

— Sim. Por isso optei por sedá-lo, pelo menos para garantir-lhe um repouso pleno pelas próximas horas.

O cavaleiro vislumbrou o amado, apreensivo.

— Não vos atormenteis, senhor Milo. Tudo isso é normal e esperado. Penso até que ele está muito bem, considerando pelo que passou.

— Deveras?

Afrodite assentiu, tentando transmitir confiança ao inseguro nobre.

— Vigia-o. Cuidarei de alguns assuntos junto aos meus funcionários e aos artífices. Mandarei que teu almoço seja trazido para cá. Tão logo encontre-me livre, substituo a ti na assistência a Camus.

O ex-pajem ia dizer para que o conde não se incomodasse. Entretanto, conhecia a motivação daquele oferecimento. Milo amava Camus, e o reconhecera. O mais natural é que quisesse cuidar do amado tanto quanto pudesse. Sorriu, discretamente.

Assim se passou o dia, os dois homens que outrora detestavam-se mutuamente se revezavam na observação do jovem acidentado. Ambos se perguntavam mentalmente por que horrores ele haveria de ter passado, mas sabiam que não convinha a que lhe inquirissem... pelo menos por um tempo.

Era certo de que teriam sido momentos perturbadores. Tanto que naquela noite, após ter dormido mais de 12 horas seguidas, Milo foi acordado por movimentos bruscos ao seu lado: o esposo debatia-se, cativo de algum sonho nefando! Nada saía de seus lábios abertos, a mão ser ofegos desesperados... uma súplica muda... o loiro hesitou, incerto se poderia de fato despertá-lo. Ao ver o fio brilhante de uma lágrima descer de um de seus olhos, viu que não poderia deixá-lo preso àquela agonia!

— Camus, acorda... Camus! Acorda, meu amor!

O ruivo despertou, assustado, ofegante. Milo ainda segurava-lhe o ombro, que sacudira levemente para que acordasse. Ficaram a se encarar, nervosos.

— Camus... diz-me! O que tens?

Nenhuma resposta.

Outra vez... aquele olhar fixo, indecifrável!

O que, em nome de Deus, significava aquilo?!?

— Camus, por favor! Te sentes bem? Responde-me, imploro...

— Vós estais aqui comigo... como não haveria de estar? – respondeu, a fraqueza de sua voz em contraste com a firmeza de seu olhar.

Enternecido, o conde o abrigou em seus braços, cingindo-lhe, protetor. Sussurrou-lhe:

—Sim, estou contigo. Estarei sempre contigo, meu amor.

— Sempre?

— De agora em diante tudo será diferente, prometo-te – assegurou-lhe, acariciando-lhe as costas, afagando-lhe os cabelos, querendo mais que tudo fazer aquele homem sentir-se tranquilo e em segurança.

— Senhor Milo...

— Sim?

Seguiu-se o silêncio. Haveria ele dormido novamente? O cavaleiro achou que sim. O remédio certamente ainda atuava em seu organismo fragilizado. Sorriu, encantado com o fato de que uma das mãos do amado segurava o tecido de sua túnica. Algumas mechas douradas emaranhavam-se naqueles dedos de alabastro. Aos poucos, aquela excelsa paz conduziu-o de volta ao seu sono.

Camus, porém, abriu os olhos.

Não voltara a dormir como o marido pensara.

Permanecera desperto: torpes memórias vinham açoitá-lo.

Risos ecoando em seus ouvidos.

Máscaras contorcidas de ganância.

“Ele deve ser a puta de um nobre!”

“Pagará por ele!”

“Temos um acordo, Alteza?”

E ele ali, diante daqueles oprobriosos seres... consciente de que seria apenas O COMEÇO.

“E se tivessem efetivamente chegado a Milo? Antes de Milo chegar a eles?”, pensava, acariciando os fulvos fios por entre os nós de seus dedos.

O que teria acontecido com eles dois... o que teria acontecido A MILO?

Malgrado a madrugada avançasse, não foi mais capaz de conciliar o sono.

*************

Amanhecera. O conde de Saint-Doulchard despertara; ao se espreguiçar, deu por falta do amado. Abriu os olhos, intrigado. O lado ocupado por Camus estava vazio. Aonde fora ele?

Erguendo meio corpo, o loiro considerou ao redor. Viu-o parado em frente a uma das janelas.

Há quanto tempo estaria ali?

— Camus – chamou, aproximando-se devagar. O rosto macilento voltou-se para o vívido do cavaleiro, lentamente.

“O que ele tem? Está tão estranho! Será que está a se recordar de alguma coisa? Afrodite disse que Camus deve se lembrar cada vez mais detalhamento do que viveu quando esteve em poder daqueles malditos”, pensou, tenso. O sol nascente tingia o jovem de âmbar, fazendo-o parecer um anjo perdido.

— Não fiques aí em pé. Deves descansar o máximo possível para...

— Senhor Milo, como vós me encontrastes na floresta? Como me salvastes do bando de ladrões?

O conde surpreendeu-se com as perguntas, embora soubesse que mais cedo ou mais tarde elas seriam feitas. Procurou responder de forma serena:

— Os camponeses contaram-me a respeito de perigosos forasteiros que estavam a atormentá-los. Aqueles bandidos chegaram a violentar duas meninas. E mataram alguns homens.

Um arrepio desagradável subiu pela espinha do ruivo. Nada demonstrou, entretanto. Milo continuou:

— Os desgraçados andavam a praticar toda sorte de crimes nas imediações da aldeia e pelas estradas dos bosques. Quando soube que haviam por fim embrenhado-se na floresta, possivelmente para deixarem a província, fiquei alarmado, pois que sabia que tu havias dirigido-te para lá. Perguntei a Afrodite em que parte da floresta tu poderias estar; ele mencionou o lago e parti sem demora. Segui os rastros dos miseráveis e... bem, fui auxiliado pelos gritos de um deles.

— Gritos?

— Sim. Berros inumanos. Creio que o torturavam pois ao chegar até onde se entocavam, um deles já se encontrava morto... ou pelo menos parecia.

— Há de ter sido Gaston – murmurou Camus, um ódio frio luzindo nas íris. Milo estranhou:

— Sabias o nome do maldito?

— Permaneci tempo o suficiente com eles para saber, infelizmente.

Tornou-se sombrio. Milo não soube o que fazer, então continuou, somente para não deixar o silêncio dominar:

— Seguindo na direção dos hórridos alaridos, enfim vi fumaça subir ao céu, e soube com mais exatidão onde estavam.

— Em que circunstâncias me encontrastes?

— Como assim? Acabei de explicar-te.

— Quero saber COMO EU estava.

— Não acho que seja benéfico que saibas.

— Pois eu QUERO saber.

— Camus, nem tudo que queremos é o que devemos obter...

Rindo sarcasticamente, o ruivo disparou:

— Logo o senhor conde a dizer isso... a mim, parece que sempre obtendes o que quiserdes!

— Nem tudo – rebateu Milo, segurando-o abaixo dos ombros. Os dois se encararam, já respirando de modo diferente, ora fitando os olhos um do outro, ora seus lábios entreabertos e ansiosos.

— Eu exijo saber – insistiu Camus, renitente.

— Não te bastas que estejas bem? Que estejas aqui, em segurança? Que estejas comigo? – inquiria, em tom baixo, diminuindo a distância entre suas bocas – Que saibas que eu te amo?

Tomou a boca do amado, suavemente. Provando aquele inefável sabor, não se contentou em permanecer na superfície, e aprofundou o beijo, que foi correspondido pelo marido, igualmente necessitado daquele toque. Quando se separaram, Camus encostou-se nele, lânguido, sussurrando:

—Contai-me, peço-vos. Se não o fizerdes, minha mente há de torturar-me...

O loiro estremeceu; sim, era o que aconteceria. Hesitante, começou a revelar:

—Quando cheguei ao acampamento deles, tu estavas desacordado… trajavas apenas a roupa de baixo e… tinha as mãos amarradas para trás... havia dois homens perto de ti e... penso... eu penso que tencionavam violar-te.

O violento tremor de Camus vibrou no corpo de Milo, que apressou-se em completar:

— Mas não te roubaram a inocência, descansa!

— Como sabeis? Dissestes que eu estava inconsciente.

— Afrodite examinou-te... nenhuma violência dessa categoria foi cometida contra ti, e...

— Afrodite examinou-me? – as sobrancelhas rubras ergueram-se.

— Sim... ele tinha que fazê-lo.

— E como ele fez isso?

O cavaleiro só se perturbava mais e mais com aquela conversa.

— Como...? Oras… n-não imaginas? Ele... bem... ele...

— Estáveis junto a ele nesse momento?

Coçando a cabeça, sem graça, o esposo confirmou. Camus soltou uma exclamação de estupefação.

— Não fiquei olhando, se é o que queres saber! Só dei uma olhada de relance, para ver sobre o que ele dizia... não que não acreditasse no que me contava, mas...

Percebeu que o ruivo vexara-se, o conde acariciou-lhe a face e murmurou, terno:

— Não fiques assim. O pior já passou.

— E se não tivesse passado?

— Que queres dizer?

Camus afastou-se de Milo, ainda mancando.

— Volta para o leito, tu estás...

— Fostes imprudente. Arriscastes-vos em demasia.

O loiro ficou boquiaberto ao ouvir a acusação, proferida tão secamente que nem parecia ter sido enunciada pelo mesmo homem que estivera junto a si.

— A que te referes? Eu sou um cavaleiro, ainda que estivessem em maior número, tais biltres não representavam ameaça alguma para mim – defendeu-se, com firmeza.

— Claro... constituíam ameaça apenas para o fraco que está em vossa frente – ironizou.

— Não és fraco! Estavas desarmado, e tenho certeza de que foste surpreendido.

— Não preciso de vossa compreensão – o ruivo replicou, ferino – quanto a vos arriscar, não refiro-me à vossa integridade FÍSICA.

Sem se importar com o crescente incômodo que sentia, Camus caminhou pelo quarto. Não saberia definir o que movia os amargos pensamentos, tampouco o mal estar... contudo, a ideia que viera juntamente com as lembranças havia de ser, sem sombra de dúvidas, responsável por aquela inquietação.

— Eu não entendo aonde queres chegar – confessou o conde, preocupado com a agitação do marido.

— Aqueles homens planejavam pedir resgate por mim. Tencionavam descobrir de que casa aristocrática viera eu para exigir dinheiro em troca da minha vida...

— Basta de rememorar tais horrores, eles estão MORTOS, Camus.

— A ameaça... a VERDADEIRA ameaça que eles representavam NÃO está morta! – interrompeu, enérgico – Sois realmente tão INGÊNUO?

— O... o quê?

O jovem avançou para o marido, para postar-se bem próximo e elucidar, como voz rouca:

— Que teríeis feito se não tivesses me encontrado? Pagaríeis o resgate?

— Eu teria te encontrado de qualquer maneira.

A ironia de Camus transmutou-se em sarcasmo:

— Não sois Deus. Não podeis fazer-vos onipresente.

— Camus...

— Dizei-me: pagaríeis o preço por mim?

Milo segurou-o pelos braços, tomando cuidado para não apertar demais. Como em um apelo apaixonado e angustiado, respondeu:

—Eu daria TUDO por ti, Camus. Pagaria o preço que fosse para te ter comigo...

Miravam-se intensamente. O ruivo cerrou os dentes; fez menção de se desvencilhar do homem que o continha, entretanto uma pontada aguda na cabeça fê-lo esboçar sofrida expressão de dor. Alarmado, Milo segurou-o mais firmemente, pois percebeu que o amado perdia as forças. E foi providencial, pois que Camus perdeu os sentidos, sendo de imediato amparado pelo loiro.

— Camus... CAMUS! – chamava, seu grande amor desfalecido em seus braços.

Em vão.

Apertou-o contra o peito, mergulhando seu rosto aflito contra ele, à beira de um pranto de pura angústia e frustração.

*************

O mundo voltava a ter forma para Camus.

Lentamente abriu os olhos e, como em antigos sonhos, viu diante deles o intenso azul dos olhos de Milo.

— Até que enfim – suspirou o loiro, aliviado.

— Senhor Milo... o que houve?

— Perdeste a consciência enquanto conversávamos. Afrodite examinou-te e... – teve logo que conter o esposo, que fez menção de se levantar – não podes te erguer! Que está a se suceder contigo?

O ruivo fez ar de indiferença.

— Deus. Estava justamente a contar que Afrodite examinou-te e reforçou a necessidade de teu repouso – concluiu o cavaleiro, sem compreender a atitude esquiva do amado.

Acaso teria imaginado a conversa noturna com o marido? Não, tinha plena certeza de que a mesma ocorrera... havia confessado seu amor a Camus... e Camus...

“Ele disse que me amava!”, pensava, cismado, encarando o rapaz que mal o olhava de volta. A despeito de sua aflição, o mais importante era a recuperação de Camus.

— Afrodite trouxe há pouco um ensopado – anunciou, indo até a mesa para pegar o alimento, ainda fumegante na baixela. Retirou um pouco e voltou até o leito, sentando-se na cadeira ao lado, na qual estivera sentado por horas a velar o amado.

— Não tenho fome – murmurou Camus.

— Necessitas alimentar-te, com ou sem fome.

A expressão de enfado do outro não intimidou o loiro, que prosseguiu:

— Teu amigo já bronqueou comigo por conta de tua síncope. E o culpado foste tu, que não seguiste a ordem de repouso. Se teimares também com isto – mostrou a escudela com a comida – chamá-lo-ei aqui para que recebas o sermão dele pessoalmente.

O ruivo franziu o cenho ao ver o conde pegar um bocado com uma colher de ouro... pretendia... alimentá-lo daquela maneira?

— Agora come sem mais delongas – ordenou Milo, levando o talher à boca de um estupefato Camus.

Com um muxoxo nada disfarçado, o jovem acamado abriu a boca, recebendo o alimento oferecido. Corava, sentia-se envergonhado... contudo, encontrava-se de fato sem energia alguma, nem mesmo para segurar por si mesmo a tigela e a colher. Recostado nos travesseiros de forma a possibilitar a deglutição, abria a boca, resignado, para receber a gentileza que no fundo comovia-o. Nunca se imaginara em semelhante situação: alquebrado, convalescente, fragilizado, com o portentoso conde Milo d’Auvergne a dar-lhe de comer como se fosse ele uma criança!

Não. Não como se fosse uma criança.

Como se fosse... uma pessoa por ele amada.

“O senhor Milo me ama”, pensava, com profunda emoção. Ainda que nada deixasse transparecer... ao contrário do outro, em cuja doce expressão lia-se carinho e devoção.

Uma dor pungente atingiu-o. Não na cabeça, não nos pés, ou em qualquer parte de seu corpo debilitado, e sim em sua alma.

— Oh, perdoa-me – desculpou-se o cavaleiro, pois que um pouco do caldo escorrera pelo queixo do ruivo. Com delicadeza esmerada, enxugou com um lenço de seda. Os olhos avermelhados pousaram apaixonadamente naquela face nobre.

“Eu não posso. Não tenho o direito de pô-lo em risco!”, Camus gritava para si mesmo, no mais retirado recôndito de seu ser.

— Muito bem, folgo em ver que comeste tudo sem recusar. Desejas repetir? – ofereceu o loiro, olhando, contente, o prato vazio.

— Não, estou satisfeito.

— Creio que à noite poderás comer algo mais substancioso. Afrodite recomendou que fosse coelho ou lebre... quem sabe amanhã já não possas finalmente degustar um bom javali.

Pôs-se a observar o amado enquanto falava. Malgrado o abatimento, encontrava-se encantador. Tomou-lhe a mão, com candura.

— Como te sentes?

— Bem. – Não mentia: o conforto da refeição morna, a calidez da pele do esposo na sua, a tepidez daquele cuidado amoroso faziam-lhe muito bem. Teve vontade de desistir da difícil decisão que tomara... decisão que se fortalecia a cada uma das lembranças do rapto, que chegavam como aves de mau agouro.

A Milo o insistente olhar sobre si não passou despercebido. Apertou um pouco mais a mão que segurava na sua.

— A mim, parece-me que estás a pensar incessantemente. Fitas-me com insólita gravidade... dir-se-ia que consideras algo ao qual encontro-me alheio. – Observou o conde, a voz baixa atingindo em cheio a sensibilidade de Camus, que não teve saída senão abaixar a cabeça. Milo tomou-lhe o queixo entre os dedos, erguendo-o novamente.

— Disseste-me certa coisa na noite passada. Quero saber se eu não estava a ouvir demasiado – inquiriu o loiro — Disseste-me que me amas. Isto é verdade, Camus?

Camus estremeceu, pelo toque e pela questão. Sua razão clamava para que mentisse.

Para que dissesse NÃO!

Contudo...

— Sim – balbuciou, mirando corajosamente os surpresos olhos turquesas.

Quase suspendendo a respiração, o cavaleiro abriu um lindo sorriso. A despeito da seriedade do amado, sorria de puro júbilo. Amava e era amado! Ventura das venturas!

— Eu também te amo, Camus... sim, amo-te!

Sem mais poder se conter, aproximou sua álacre face daquela que conservava-se sisuda, almejando-lhe os lábios. Surpreendentemente, o ruivo esquivou-se, recusando o beijo que adviria.

— Senhor Milo, não podemos...

— Ah, perdoa-me! Não tinha intenção de fazer com que te cansasses. Dar-te-ia apenas um beijo... – Riu da própria afobação.

— Não me refiro a isso, senhor. Refiro-me a este amor... não podemos.

O gaúdio no semblante do loiro desapareceu. Abismado, perguntou:

—Do que estás a falar? Acaso consideras que não podemos...

— Senhor Milo, tal relação seria absolutamente inapropriada.

— Mas... eu te amo, Camus! – Fez-se atônito com o que ouvia – Tu disseste... tu disseste que, de igual maneira, me amas!

— Sim. E justamente porque vos amo NÃO POSSO aceitar o vosso amor.

*************

Notas finais
Não me matem! Matem o Camus! Não, pera... o cara ACABOU de escapar da morte... mas... Como bem perguntou Milo, que se sucede com o ruivo? Ao que parece, sua decisão de rejeitar Milo veio com memórias recém despertadas... depois de tantos obstáculos, será que o próximo será justamente o Camus?!? Obrigada por prestigiarem. Até o próximo capítulo! Tema do capítulo "A chant m'er de so", da trovatriz Beatriz de Dia (1140 - 1175 ou 1212) - guardem o nome da moça... depois do rei Filipe, o Belo e do filósofo Averróis, mais uma personalidade histórica real fazendo participação especial em breve :) https://www.youtube.com/watch?v=a_RQJOAHedQ