Dame Jolie

25 A Mais Especial das Pessoas


Notas iniciais
Olá vocês :3 Eu só iria atualizar no final de semana, e após responder todos os comentários - desde já agradecendo todos eles, vocês são uns amores! - MAS HOJE É ANIVERSÁRIO DE ALGUÉM MUITO ESPECIAL! E quis dedicar este capítulo a ela... uma pessoinha que me acompanhas desde a primeira fic, "Grilhões Eternais", quando ela me xingava horrores hahahahahaha, mas sempre apoiando! Seu apoio continuou em "O Brilho da Honra", em que ela comenta em TODOS capítulos, e não foi diferente em "Dame Jolie". Sempre me presenteia com comentários vitaminados, apaixonados, raivosos, divertidos, me fazem rir, me fazem muito feliz... é aquela leitora que realmente me apoia em tudo que faço, véi! Ainda por cima é linda e ruiva, uii... Então, DYH "PEIXE GAY", DAISY querida, este capítulo é em sua homenagem... PARABÉNS!!! E muito obrigada por existir em my life... te desejo muitas felicidades, saúde, sucesso e todas coisas boas que você merece. A arte da capa é de Namimaru Pixiv ID: 46814647 Member: ナミ丸 Boa leitura!

“É justamente por amar-vos que não posso aceitar vosso amor.”

Teria sido aquilo mesmo que Camus falara?

Não, não poderia ser.

— Receio que estejas com febre. Penso que deliras.

— Não estou a delirar – retrucou o ruivo, cerrando o cenho.

Milo devolveu, ligeiramente irritado:

— Eu creio que estejas, pois o que dizes não faz sentido. Acabas de declarar que me amas e que, “por isso”, não podes aceitar meu amor?

— Senhor Milo... sim, é o que eu disse.

— Isso é ILÓGICO, Camus. Acabarei por desconfiar de que não te encontras em juízo perfeito, pois sendo quem és, JAMAIS serias ilógico!

— Senhor Milo – respirou fundo, reunindo forças para argumentar – explicar-me-ei, se me permitirdes.

Passando as mãos pelos cabelos dourados, o conde fez o mesmo; respirou fundo, enquanto prontificava-se a não exaurir o jovem acamado. Mas ele PRECISAVA entender!

— Muito que bem, podes justificar-te. Não te interromperei.

O olhar decidido de Camus pouco a pouco cingia-se de melancolia, ainda que ele pretendesse conservar-se altivo.

— Senhor Milo, conforme vos contei, os malfeitores que executastes planejavam obter por mim substancial resgate junto a vós... entretanto, crede, deveras, que eles parariam por ali? Que ficariam satisfeitos com a soma, por mais vultosa que fosse, por vós a eles entregue? Pois que vós mesmo assegurastes que pagaria qualquer valor para me salvar.

A pausa que se seguiu estimulou o loiro a confirmar:

— Sim, eu pagaria qualquer valor para te ter volta. Mas, Camus, isso NÃO aconteceu!...

— Suponde, senhor, que TIVESSE acontecido... respondei minha questão: acreditais que estaria TUDO ACABADO com o pagamento do resgate?

— Confesso que estou confuso com tuas falas. Aonde queres chegar?

O ruivo voltou a mirar Milo, fixamente, ao responder:

— Tivésseis feito o que eles queriam, os bandidos teriam a confirmação de que eu vos era importante. Ter-vos-iam em suas mãos, pois se um homem que se traveste de mulher é importante para um nobre, é porque ambos mantêm um relacionamento amoroso. De posse de tal segredo, passariam a chantagear-vos.

Milo arregalou os olhos, assimilando o raciocínio do esposo.

— Isso... nunca teria um fim – continuou Camus, apertando o lençol por entre os dedos – arrancar-vos-iam TUDO que pudessem... e então quando nada mais pudessem obter... denunciar-nos-iam como sodomitas.

Um pesado silêncio instalou-se. O quarto parecia expandir-se proporcionalmente à distância que voltava a se alargar entre eles.

— Sabeis a condenação a que estaríamos sujeitos. É um risco que sempre nos espreitaria. Notadamente, ao governante de Saint-Doulchard. Por isso – o ruivo sentia seu peito dilacerado por suas próprias palavras – não podemos ficar juntos.

Boquiaberto, o cavaleiro sequer sabia o que enunciar. O marido encarregou-se disso:

— O mais certo a se fazer é vigiarmos os termos do contrato de matrimônio; que vós arrumeis vossa concubina, instituí família e dela cultiveis vossa descendência. E eu...

— Serás AMADO por mim, aconteça o que acontecer! – Milo tomou, sem aviso, o rosto do amado entre as palmas cálidas – Eu NÃO desistirei de ti, Camus. Tanto mais agora, que SEI que me amas!

— Senhor Milo – procurou não corresponder ao intenso olhar que o devorava – um amor que pode levar-vos à ruína não é digno de que o vivais.

— À ruína estarás TU a condenar-me, se me repeles de tão cruel forma – murmurou, encostando o nariz na face fria do amado; este cerrou os olhos, atormentado.

— Compreendei minhas razões... – sussurrou, tenso.

— Não, não, recuso-me! Queres, em suma, privar a nós dois da felicidade de viver sob a ventura de um amor mútuo e verdadeiro... por causa de criaturas que agora nada mais são que ração de corvos e vermes?!?

— ESTES são “ração de corvos e vermes”! ESTES mortos estão! Entretanto, a intenção que possuíam VIVE em muitos e muitos homens!

— Certa vez, acusaste-me de subestimar-te. No entanto, és TU que estás a subestimar-me.

Camus fitou-o, atônito.

— Eu sou o herdeiro do maior exército de França. O soberano de Saint-Doulchard. TEU marido. Achas que eu não seria capaz de manter-te seguro junto a mim?

— Não falo apenas por mim.

— Tens vivido por treze amos sob disfarce de mulher. Ainda que te beije com paixão até arrancar de ti o fôlego, diante de toda a corte, quem dirá que sou sodomita?

Ruborizando, o ruivo admitiu:

—Agora sou em quem não está a compreender-vos.

— É simples – o conde encarou-o, desafiador – Tal fato dar-se-ia por haverem eles descoberto que eras varão, por certo?

— Eu... errr, sim.

Gesticulando de modo a sinalizar dúvidas, o loiro prosseguiu, resoluto:

— Em que circunstância os bandidos te despiram? Pois sei que não foste violado. Em outras palavras: em que momento, e com que objetivo, eles tiraram teu vestido, tuas jóias, e te deixaram com a túnica de baixo, logrando assim, descobrir que não eras mulher?

O rubor nas faces de Camus intensificou-se. Em um fio de voz, admitiu:

— Não foram eles que tiraram-me o vestido que eu estava a usar. Fui EU mesmo.

— Tu te despistes?

— Sim, para nadar no lago. Despi-me por inteiro. – Uma ponta de irritação permeava a confissão – Ao sair da água, só tive tempo de vestir a túnica e então... então...

— Então foste surpreendido por eles. – Completou Milo, triunfante.

— Com efeito. – Agora Camus assemelhava-se a uma pessoa que, pega em falta, impacienta-se contra quem a interpele.

— E é a MIM que chamaste de impaciente? – O conde disparou, erguendo as sobrancelhas.

— .....

— Se corremos o tal perigo que, sob tua ótica, inviabiliza nosso amor, foste TU o único culpado. Portanto, não ajas como se a aceitação do que nos une pudesse ser um risco para nossas vidas.

Malgrado os lábios de Camus se entreabrissem para uma réplica... ela não viera.

Não existia.

— Não queres aceitar meu amor, apenas admite-o. – O tom do loiro era seco, ressentido – Não o justifiques mediante fantasias. Meras conjecturas acerca do que poderia ser mas NÃO foi. Aliás, Camus... NUNCA teria sido.

Pôs-se a caminhar para fora da alcova, deixando o outro perplexo.

— Penso sim que a batida em tua cabeça alterou algo em teu comportamento – virou-se para ele, muito sério – afinal de contas, tu não eras covarde.

Camus estremeceu, ultrajado. Ainda assim, não conseguiu articular qualquer argumento.

— Respeitarei tua decisão, é claro. Não sou nenhum indigno violador de pessoas – o conde vestia um colete negro por cima da túnica cinza, enquanto falava, com displicência – outrossim, seguirei cuidando de ti, pois que é meu dever. Como cristão, cavaleiro, marido e chefe da casa. Ou até isto estou impedido de cumprir?

Engolindo em seco, o ruivo tartamudeou:

— Não. Não estais.

— Ótimo. Muito que bem, chamarei Afrodite para que fique contigo enquanto vou cuidar dos deveres que a mim competem. Retornarei posteriormente para continuar meu ofício aqui junto a ti. Estimo-te um bom repouso.

Concluído o discurso, proferido com austera firmeza, o loiro dirigiu-se aos fundos do apartamento. Bateu à cela do camareiro-mor, que não demorou a atender.

— Ele está desperto e bem. Vigia-o, pois que tenho trabalho a fazer.

— Sim, senhor Milo. Perdoai-me, mas... vejo-vos estranho. Acaso aconteceu alguma...

— Recebeste uma ordem. É tudo que te importa – interrompeu, ríspido. Retirou-se, a ação tão lépida quanto a fala.

A porta do quarto fechou-se com mais força do que o usual. Intrigado, o sueco refletiu:

“Foi impressão minha ou havia lágrimas em seus olhos?”

*************

Milo irrompeu ruidosamente em um de seus escritórios. Bufava, nervoso, deixando enfim algumas lágrimas quentes de frustração rolarem pelo belo rosto.

Por que aquilo estava acontecendo consigo?

Por que justamente quando descobrira o que era o amor não tinha direito a ele?

Seria um castigo? Uma punição por tudo que fizera Camus passar?

Sabia que merecia! Aceitar, porém...

Em descompassados ofegos respirava, enquanto caminhava, desnorteado, pelo recinto. Dir-se-ia uma fera aprisionada, despojada de tudo a que seus instintos tinham direito.

“Camus! Amo-te tanto! Por que recusas meu amor? Por que me repudias? Tuas razões são tão frágeis que parecem irreais!”

E se eram irreais... Camus NÃO o amava de verdade.

Aquelas doces palavras, proferidas de forma abandonada, aquele olhar carregado de sentimento...

... um delírio?

Teria sido um delírio febril do marido?

— Não, não pode ser – alegava para si mesmo, agoniado – Ele falava a sério, sei que falava!

Atormentado pelas dúvidas, continuou a andar pela sala. A agitação nublava-lhe a razão: tomado de fúria, arremessou uma estátua de bronze contra a parede. Mais alguns objetos tiveram o mesmo destino.

— Senhor conde! Excelência! Está tudo bem convosco? – guardas já batiam à porta por causa do barulho que escutavam.

Ele deixou-se cair sobre um divã, derrotado, segurando a cabeça pesada entre as mãos.

— Excelência!

— DEIXAI-ME EM PAZ! – gritou, colérico – IDE EMBORA!

Tentou com todas as forças não se render ao desespero. Tinha que cessar aquele pranto. Recompor-se.

Camus não o amava.

Era isso.

Ou... ou o amava. Mas não se encontrava disposto a se sujeitar ao conde d’Auvergne.

Por quê? Não era difícil definir. Talvez ressentimento... rancor... fosse como fosse, fatos eram fatos.

E o fato era este: Camus o rejeitara.

*************

Afrodite adentrou a alcova do quarto senhoril, estudando o ambiente. Viu em cima da mesa uma escudela vazia e a baixela com sopa pela metade.

— Vejo que te alimentaste, isso é bom – comentou, para iniciar conversa.

Camus meneou a cabeça em uma silenciosa confirmação.

— O senhor Milo pareceu-me desanimado... aconteceu alguma coisa entre vós?

— Não.

— Te sentiste mal?

— Não – repetiu, de má vontade; cobriu-se com a manta e virou-se para o lado, evitando contato visual com o amigo.

— Neste caso, deves ter dito-lhe algo que o aborrecesse. Pois ele parecia tão...

— Por que estás a te preocupar com ele? Desde quando tornastes-vos amigos?

— Não sejas tolo – riu, irônico – Pensas que contigo à beira da morte seríamos eu e ele inimigos? Acaso é isso que queres?

— Eu só quero que vós dois me deixeis em PAZ – grunhiu, enrolando-se ainda mais na roupa de cama.

— Hunf – o sueco cruzou os braços, desconfiado – Hei de descobrir o que se passou por aqui.

— Por que isso te importa?

— Porque vós vos amais. Sendo mútuo o amor, empecilho algum deve resistir a que se concretize.

O ruivo virou o rosto para o ex-pajem. Inquiriu timidamente:

—Ele… mencionou algo sobre isso a ti?

— Digamos que cessou de negar – sentou-se na cadeira antes ocupada pelo conde – Camus... o senhor Milo ama-te. Presenciei seu desespero, sua agonia, quando chegou contigo em seus braços... quando tu estavas sob o sono profundo.

Remorso e senso de dever digladiavam-se no interior do rapaz sobre o leito. Afrodite considerou-o, com brandura.

— Por que te calas, meu amigo? Que se sucedeu entre vós? Ele parecia atormentado, e tu tens o mesmo tormento a toldar-lhe as feições.

— Há de ser sono, apenas – rebateu, voltando à posição anterior... fugindo do olhar perscrutador do camareiro-mor. Este suspirou, resignado.

— Pois bem, dorme. Aqui estarei, velando teu descanso... até que teu consorte retorne, conforme ele mesmo prometeu que faria.

O coração do ruivo palpitou dolorosamente. Então Milo mostrara-se apaixonado... atormentado... por ELE... tê-lo-ia ferido?

Não... nunca quisera ferir Milo... ao contrário! Queria protegê-lo de um destino trágico, como o que vislumbrara ao ouvir as maquinações de seus sequestradores! Quem poderia garantir que em algum momento nefasto ALGUÉM pudesse descobrir, como aqueles criminosos estiveram perto de descobrir, tal relação e... e...

Uma pontada na cabeça sinalizou para que parasse de pensar.

Mas como é que se para de pensar?

Levou a mão à testa, franzindo a testa. O sueco percebeu-lhe o mal estar e, preocupado, indagou:

— Sentes dor?

— Um pouco. Nada de mais.

— Espera, dar-te-ei o medicamento.

— Não se faz necessário. Não é excessiva.

— Tens certeza? Não ocultes o que sentes. Mentir sobre o que estás a sentir só piorará a situação.

— Sim...

— E isso serve para os demais aspectos da vida, Camus.

Inferindo o sentido naquela complementação, o ruivo defendeu-se, fazendo-se seguro de sua decisão:

— Mentir sobre como me sentia todos estes anos foi o que possibilitou que eu chegasse até aqui sem perder a sanidade, Afrodite.

— Camus...

— Agora deixa-me dormir, peço-te. Não foste TU que me recomendaste repouso absoluto? – a fria ironia contida sugeriu ao camareiro que desistisse daquela conversa.

Ademais... não deveria fatigá-lo.

— Não mais te incomodarei. Permites que eu tome um de teus livros emprestados para que possa distrair-me enquanto tu DORMES? – frisou bem o verbo, atestando não estar convencido – Os meus estão no quarto de baixo.

— Fica à vontade – murmurou, cerrando os olhos, como quem vai, de fato, dormir.

O ex-pajem escolheu um volume de contos tradicionais e acomodou-se no confortável divã marroquino do lado oposto à alcova.

— Se precisares de mim, basta me chamar.

Resposta alguma veio.

Abrindo o tomo, o sueco presumiu que o amigo fingia ter pego no sono rapidamente. E ele não estava enganado.

*************

Milo e Afrodite seguiram revezando-se na observação de Camus, que melhorava a olhos vistos. É bem verdade que por vezes não sentia bem, fosse por questões físicas, fosse por questões emocionais, pois que, se o conde estava a sofrer pela rejeição, talvez mais ainda estava a sofrer o jovem que o rejeitara... ter erguido aquele muro entre eles custara muito de si.

Quando Milo estava no quarto com o esposo convalescente, os dois pouco ou nada conversavam. O ruivo tinha ganas de pedir para que o outro cuidasse de seus afazeres; podia ficar só, esperar Afrodite, que se sentia muito bem... porém, nas primeiras vezes em que o fizera, fora sumamente ignorado, recebendo do marido apenas um olhar gélido. Então calava-se e assim permaneciam os cônjuges: como dois ilustres desconhecidos, malgrado dentro de seus corações ardesse a paixão um pelo outro.

A despeito do mutismo entre ambos – ou melhor, devido a isso – não foi difícil ao camareiro-mor perceber que havia algo errado ali. Não obstante, permanecia neutro, uma vez que não queria extenuar o amigo com questões, tampouco suportar a volta das explosões do conde... não, estava muito bem sem elas!

Certo dia, Milo recebeu a visita de alguns nobres viajantes, que no castelo se hospedaram como preconizava a etiqueta da aristocracia. Dando atenção aos hóspedes, o cavaleiro passou menos tempo na assistência a Camus. Este suspirava de quando em quando, perdido na lembrança dos últimos beijos que trocara com o esposo, há cerca de quatro semanas. E de quando fora tão carinhosamente por ele abraçado na cama, abrigado em seu peito... agora Milo somente deitava-se ao seu lado e se virava para dormir. Sempre dando-lhe as costas. O ruivo unia as mãos sobre o peito e ficava a remoer a decisão que tomara. Acreditando que era o melhor a ter sido feito... embora o marido não pensasse assim.

Não importava. Preferia que Milo tivesse-lhe ressentimento a fazê-lo correr algum perigo no futuro. Nunca mais queria experimentar aquele temor novamente! Por sua vez, o cavaleiro ressentia-se sim, mas não pela recusa simplesmente: doía-lhe a falta de confiança do esposo. Que importava que fosse considerado o maior guerreiro de sua época? Que em sua honra compusessem trovas, poemas, contos que atravessariam os séculos? A pessoa por ele amada não acreditava que pudesse por ele ser protegida. Jamais experimentara tamanha frustração, até porque estava finalmente a experimentar o amor.

Em uma das tardes em que Milo se ausentara em virtude de compromissos, Afrodite, vendo o ruivo bem disposto a ler um grosso volume de contos, armou-se de coragem e perguntou:

— Até quando continuareis a tratar-vos como dois estranhos?

Pego de surpresa, Camus ergueu os olhos do livro, encarando o amigo, que prosseguiu:

— Aproveito que finalmente consegui tua atenção para inquirir quando pretendes contar-me a razão de tal.

— Não sei a que te referes. O senhor Milo está a cuidar de seus afazeres e eu estou a vegetar neste quarto, como vós indicastes.

— Não torças os fatos. Não me tomes por tolo – cruzou os braços, visivelmente injuriado.

— Não estou a fazê-lo.

— Então explica-me: sabes do amor que ele te devota. E tu o amas há tempos. E eis que, finalmente, conscientes do sentimento que nutris um pelo outro, tratai-vos com frieza, conservais uma distância que não havia nem mesmo nos difíceis primeiros tempos.

— Nos primeiros tempos – murmurou o ruivo – É daquele jeito que tudo deve ser...

— Como?

— Afrodite… tu estás mais perto dele agora. Parece-me mesmo que sois como aliados, atualmente. Poderias aconselhar-lhe...

— Aconselhar-lhe? Aconselhar-lhe a quê?

— A constituir logo a família de que ele necessita.

O loiro espantou-se vivamente:

— Que tipo de pilhéria é essa? Não é de teu feitio gracejar dessa forma.

— Não se trata de pilhéria alguma.

Estupefato, Afrodite mirou-o por alguns segundos. Chegou a levantar da cadeira, tamanha indignação que sentiu. E não a disfarçou ao atirar:

—Então é isso. É por ISSO que o senhor Milo anda tão desalentado. Tu lhe sugeriste o que estás a pedir que EU diga!

— É o melhor a se fazer – insistiu, sem emoção alguma na voz.

— Por quê? Se tu o amas, responde-me, por que “é o melhor a se fazer”? Eu realmente gostaria de saber, Camus – agora o sueco tornava-se impaciente.

— Eu preferia explicar-te em outra hora, Afrodite.

Exasperado, o ex-pajem preferiu dar as costas ao amigo, antes que se excedesse. Pôs-se a caminhar pelos aposentos, tentando recobrar a calma. Por fim, tornou-se para ele, afirmando:

— De fato, o ser humano acostuma-se a tudo. Tu te acostumaste ao sofrimento.

— Tu não entendes...

— Não, Camus, TU não entendes – rebateu, irritado – Não entendes os sentimentos do senhor Milo, que sofre por tua rejeição, esculpida pela falta de confiança tua para com ele. Não entendes meus sentimentos, que sempre sofri vendo-te despojado de um real viver... que sofri vendo-te sofrer por amar um homem que te desprezava... que agora sofro por ter acreditado, em vão, que finalmente serias feliz, pois que aquele que amas a ti se declarou e tu... tu o repeliste!

— Eu tenho motivos – insistiu, sem se alterar.

— Não duvido. E creio serem honrados. Contudo, ainda assim é lamentável. – Virou-se para ir sentar no divã. Absteve-se de o proferir, mas estava cansado de tudo aquilo. Suspirou profundamente, em um claro sinal de desgosto. Pegou o livro que estivera a ler antes e retornou à página que marcara com a fita de veludo negro.

Um longo silêncio fez-se no recinto. Os pensamentos abundavam enquanto as palavras emudeceram. Tomando cuidado de não parecer ansioso pela resposta, o ruivo, muito tempo depois, perguntou:

— O senhor Milo encontra-se desalentado?

Os olhos azuis cristalinos sequer abandonaram as adornadas páginas.

— Que te importa? Tu o rejeitas. É dispensável que saibas acerca de seu estado de espírito.

— Isso não é verdade – defendeu-se Camus, indignando-se de leve.

— Se não é verdade, então por que és o único a impedir que a felicidade se instale entre vós?

— Está certo. Explicar-te-ei.

Então seguiu-se a exposição de Camus, para justificar a recusa do amor que lhe fora oferecido pelo amado. A tudo Afrodite ouviu atentamente. Terminada a explicação, sua expressão de desagrado, contudo, não foi demovida. Ao contrário, evidenciou-se ainda mais.

— Não nego que haja pertinência em tua linha de raciocínio. Todavia, não consideras que estás a exagerar em teu pessimismo?

— Como?

— Quando finalmente consegues o amor daquele a quem amas, o dispensas por medo. Tu temes o que para o senhor Milo certamente não é NADA perto da frustração que lhe infliges.

— Vejo que não me entendeste.

— Tu não podes ser o único a ser entendido, Camus, ainda que o desejes – replicou, duramente – Não tenciono convencer-te, pois se nem o homem que te salvou, que te ama e que jurou proteger-te nisso obteve êxito, como obterei eu?

— Afrodite...

— Apenas responde-me isto: pretendes, deveras, prescindir da própria felicidade e, simultaneamente, impossibilitar o senhor Milo de alcançá-la?

Tais palavras foram setas impiedosas no coração já dolorido do jovem acamado. Contudo, ele respirou profundamente, reunindo toda coragem para continuar simulando aquela convicção, e confirmou:

— Em prol da segurança do senhor Conde de Saint-Doulchard... sim.

Um riso tão triste quanto escarninho moldou-se nos rubros lábios do ex-pajem.

— Lembro-me de quando em Turenne alguns diziam que tu possuías “alma de gelo”.

Um arrepio percorreu o corpo de Camus; fitando-o severamente, Afrodite continuou:

— Quem diria que os que aquilo afirmavam tinham, com efeito, razão em tecer tal julgamento...

Foi impossível para o marido de Milo esboçar qualquer contra resposta. E foi assim, paralisado pela impotência em revidar, que viu o amigo abrir novamente o tomo que conservava sobre os joelhos, em um claro sinal de desistência.

Camus manteve o olhar baixo, incapaz de definir o que sentia... raiva? Culpa? Vergonha?

Em meio a todas aquelas dolorosas sensações crepitavam as chamas do amor que nele residia.

“Senhor Milo, faço isto por vós... por nós!”

Entretanto... valia a pena?

Ao preço da dor do cavaleiro?

Da sua própria?

Já não estavam fadados a viverem lado a lado? Não lograra enganar o mundo até então? Não era suficiente enganar o mundo? Tinha agora que enganar a SI MESMO? A Milo?

Confuso.

Estava tão confuso!

Queria dormir e não acordar mais.

— Afrodite – simulou fraqueza na voz – Dá-me daquela beberagem que faz dormir.

O loiro lançou-lhe um olhar abertamente desconfiado; ergueu-se da peça e foi até a mesa onde havia deixado remédios, unguentos e materiais para curativos. Verteu o líquido em um pequeno copo e deu-o ao amigo. Observando-o sorver o sedativo, pensou se agira corretamente contribuindo para aquela fuga. Sabia que Camus apenas queria exilar-se daquele mundo, daquelas questões.

*************

Camus dormia profundamente.

Não poderia ser diferente.

Preparado por Afrodite, o composto de beladona, noz moscada, camomila e alface funcionava como um potente sonífero para o atribulado nobre; o sueco erguera-se do assento ao qual voltara para continuar a ler, dirigiu-se até o leito e assegurou-se de que o amigo mergulhara em um sono pesado.

“Sei que é um sono mais de fuga que de reparação... bem, contanto que te restaure de qualquer jeito...”, refletiu, compungido.

Ouviu a porta abrir-se e fechar-se, e soube que o conde adentrava os aposentos.

— Senhor – fez uma reverência, ao que o outro respondeu com um menear de cabeça.

— Como ele está, Afrodite?

— Adormeceu há pouco. Porém, mediante o sedativo, o que significa que dormirá por bastante tempo.

Milo deu um suspiro de desânimo, aproximando-se da cama onde dormia o marido.

— De novo o sedativo – murmurou, contemplando o belo semblante adormecido – Já faz um mês... ele ainda sente dor?

— Não estou bem certo que TIPO de dor levou Camus a pedir que eu o sedasse – confessou o sueco, embora aquela confissão tivesse sido mais uma indireta que outra coisa.

— Mesmo que a dor não seja física, preocupa-me que ele considere necessário evadir-se dessa forma.

— Senhor Milo, sabeis o motivo.

Apático, o conde encarou o subalterno ao responder:

— Sim, eu sei.

— E quanto a vós? Como vos sentis?

— Não encontro palavras para definir o que sinto – admitiu o conde, cabisbaixo.

— Pensais em fazer algo a respeito?

Milo respondeu, mais desanimado que irritado:

— Pensas que já não o tentei?

— Imagino eu. Perdoai a minha intromissão.

— Não te escuses – àquela fala o sueco chegou a se admirar. O cavaleiro então lhe dirigiu um sorriso enigmático – Disse-te que tentei ALGO. Não que tentei TUDO.

Aquilo fez o camareiro sorrir de volta; AQUELE era o conde que conhecia. Não o homem soturno, sorumbático, que arrastava-se há semanas, ensimesmado, pelo castelo, vitimado pela dolorosa rejeição amorosa.

— Ajudar-vos-ei no que for preciso.

— Alegro-me com tua oferta cortês. Com efeito, precisarei de teus préstimos, Afrodite.

— Sou todo ouvidos, senhor Milo.

O cavaleiro estendeu a mão na direção de uma mesa próxima à janela, sobre a qual havia algumas garrafas e taças.

— Senta-te e bebe comigo. Falar-te-ei o que pretendo e como poderás ajudar-me.

*************

Somente no dia seguinte, catorze horas depois, Camus despertou. Não tinha ideia do quanto estivera adormecido, entretanto seus membros amortecidos indicavam-lhe que havia sido por muito tempo. Milo, diligente governante que era, decerto encontrava-se no cumprimento do dever, pois que quem estava no quarto era Afrodite, a ler no divã, sem se dar conta de que o ruivo acordara. Ressentiu-se por encerrar-se continuamente naquele recinto, como um inválido. O que não condizia com seu atual estado, quase que plenamente restabelecido, graças ao tratamento ministrado por Afrodite e aos esmerados cuidados de Milo; ainda assim, não encontrava ânimo algum para deixar aquele refúgio no qual se encontrava, longe de tudo e de todos, longe principalmente do amor do esposo...

Jogou as longas pernas para fora do colchão, já sem dificuldade alguma, pois que as feridas nos pés haviam cicatrizado por completo. Dirigiu-se para onde faria as necessidades e a higiene matinais. Notando-o de pé, Afrodite apenas fez-se atento a algum requerimento do amo, já que este lograva fazer quase tudo sozinho àquela altura. Esperou-o retornar e fez as costumeiras indagações acerca de seus estados de saúde e ânimo. A tudo Camus respondia, paciente. Parecia constantemente anestesiado, malgrado sua condição física fosse cada vez melhor.

É verdade que continuava magro, porém não abatido como dantes; a alimentação balanceada, os tônicos, os remédios, o repouso, as tinturas efetuavam nele verdadeiro milagre. Já não trazia as tiras de linho a envolver-lhe a cabeça. O pequeno espaço raspado para a trepanação cobria-se agora de rubra penugem; ele jogava mechas de seu volumoso cabelo por cima, disfarçando a falha com certa eficiência. Sorrindo, Afrodite auxiliava-lhe, consciente de que o amigo se preocupava com aquilo por causa de Milo. Se no passado o ruivo reclamava do rápido crescimento de seus cabelos, atualmente agradecia com fervor por tal dádiva.

— Pedirei a uma criada que traga uma refeição para...

— Não te preocupes por ora, Afrodite. Diz-me, que estavas a ler?

O sueco alegrou-se: há tempos Camus não manifestara qualquer interesse por nada. Nas últimas semanas mantivera-se distante, monossilábico.

— Uma biografia de Galeno, que o senhor Shura me enviou – respondeu, sorrindo com ternura, ante a lembrança de seu saudoso amigo.

— E quem é Galeno?

— Quem “foi” Galeno? Foi um médico grego que viveu no século I de nossa era. Era filósofo também – vendo que despertara a atenção do outro, continuou – Era especialista em cirurgia e nutrição; cuidou pessoalmente de gladiadores a nobres. Bastante notório, ficou ainda mais famoso após curar um milionário. Por isso, acabou se tornando o médico particular do imperador romano Marco Aurélio.

— Fascinante! Deve ter sido um homem muito sábio e influente.

— Sim... ele chegava a apresentar suas palestras sobre medicina e higiene em teatros, de tão concorridas que eram! Sabe, acho muito inspirador ler sobre médicos tão talentosos...

— Tu és igualmente talentoso nessa área.

— Oras, nem se compara – ele riu, em um misto de modéstia e comicidade.

— Falo a sério. Oxalá pudesses efetivamente estudar em uma universidade ao invés de cuidar de um peso inútil como eu – o ruivo fez todo possível para imprimir neutralidade naquela declaração.

— Abstém-te de afirmar coisas tão depreciativas a respeito de ti!

A fim de afetar pouco caso, ele deu de ombros. Quis saber:

—Mudando de assunto, onde está o senhor Milo a este momento? Imagino que ocupado com as obrigações de soberano...

— Neste exato instante recebe visitantes assaz importantes.

— Deveras? Quem seriam?

— Alguns enviados do rei.

Camus empalideceu, seus olhos crescendo nas órbitas, tamanha surpresa.

— Disseste “enviados do rei”? – quis certificar-se, sob sombria curiosidade – Mas que vieram fazer cá?

Foi a vez de Afrodite dar de ombros:

— Que sei eu? Apenas que o senhor conde os recebe e, creio, a este momento está a ciceroneá-los pela propriedade.

— Deus – tornou-se apreensivo, pois que, a exemplo das semanas recentes, trajava apenas uma túnica leve, ou seja, sem disfarces – Achas que virão até aqui? Se o senhor Milo lhes disse que “sua esposa” encontra-se “enferma”, eles podem querer visitar-me!

— Sossega, foi-lhes dito que “a senhora condessa” guarda repouso quase absoluto. Se tinham alguma intenção de virem visitar “a consorte” do conde, o senhor teu marido certamente há de tê-los demovido desse intuito.

— Isso muito me alivia – fechando os olhos, Camus recostou-se mais nos travesseiros. Esmagava-o uma lassidão que substituíra a animação com que entabulara conversa havia pouco com o ex-pajem. A última coisa que gostaria seria ter que se trocar, receber visitas, ter de se comunicar com pessoas, mostrar-se cordato...

A ideia de apertar seu corpo com todos aqueles aparatos que lhe conferiam contornos feminis também lhe desagradava sobremaneira.

Odiava-os.

Quisera Deus nunca mais tivesse que fingir ser “Camille”! Quase que preferia seu exílio ali, em cima de uma cama, onde podia ser ele mesmo... ainda que nem assim estivesse a ser legítimo...!

— Não obstante... – Afrodite imprimiu um acento quase musical à fala – terás que comparecer ao banquete que o senhor Milo oferecerá no jardim, ao cair do dia.

— Do que estás a falar? – surpreendeu-se, e não de modo positivo.

Afetando entusiasmo, o sueco foi abrir as cortinas, batendo-as um pouco.

— O senhor teu esposo pretende celebrar a chegada da nova estação com seus convidados. Por isso, decidiu por um singelo jantar em meio à natureza. Uma despedida do verão! Não te pareces uma linda ideia?

Em nada a “linda ideia” impressionou o ruivo, que suspirou com enfado.

— Que tolice.

— Não sejas mal humorado, Camus! Sabes, penso que deves usar uma cor clara... branco com dourado.... talvez amarelo, ou quem sabe aquele vestido que...

— Eu NÃO irei.

O camareiro já se dirigia para um dos baús, enunciado sem se dignar a virar para o ruivo:

— Deixa-te de caturrices, sabes que não podes desobedecer a uma ordem de teu marido.

Aquilo fez o jovem segui-lo, obstinado.

— Desde quando tornaste seu “fiel escudeiro”? O que houve entre vós enquanto estava eu a dormir?

Um sorriso trocista antecedeu a resposta do loiro, quase divertido:

— Acaso tens ciúmes de nós?

— Não sejas tolo. – O ruivo fez um muxoxo, cruzando os braços.

Afrodite continuava a escolher entre alguns vestidos, enquanto dizia:

— Com efeito, o senhor Milo e eu estamos a nos entender melhor, Tínhamos que nos aliar em prol de tua melhora.

— Bom para vós – resmungou o ruivo, dando meia volta e afastando-se dele. Postou-se diante de uma janela, comprazendo-se com a esplêndida paisagem daquele claro início de tarde.

Sobraçando um vestido amarelo claro com detalhes em pérolas e citrinos, o loiro parou perto dele, acrescentando:

— Quando digo que não podes desobedecer ao teu marido, sabes que refiro-me à imagem que é mister manter.

Lentamente, Camus virou-se para ele, que prosseguiu didático:

— Imaginas que diriam os enviados do rei sobre tal desfeita “da condessa”? O senhor Milo já demonstrou admirável compreensão para contigo, impedindo os nobres de virem visitar-te no quarto. Pretendes tu retribuir tal ato fazendo com que seja ele motivo de chacota na corte?

A retórica de Afrodite começava a fazer efeito sobre o amigo. A postura do amo mudara diante daquele raciocínio. Percebendo-o, o ex-pajem adicionou ao argumento:

—Um aristocrata que não é obedecido nem mesmo pela própria esposa não é digno de respeito. É um FRACO, dirão. E não é bom negócio para um governante ser tomado por fraco...

— Está bem, está bem – rendeu-se o ruivo, aborrecido – Comparecerei ao tal jantar!

— Enfim, mostra-te razoável! Bem, despe-te para que comecemos os preparativos. Temos cerca de duas horas...

Camus seguiu-o para o cômodo anexo; deu-se o ritual do qual não sentira a menor falta no último mês, em que dele se vira livre.

Despiu-se. Afrodite notou-o mais magro, mas felizmente não doentio. Procedeu ao disfarce de “Camille”; o corpete, os moldes de seios, por fim a túnica branca que vinha por baixo do traje principal.

“Apesar de toda a dor e o desconforto destas semanas, foi agradável não ter de me submeter a estas sessões...”, pensava, olhando-se ao espelho, taciturno.

Seu rosto e colo receberam uma fina cobertura de pó de pérolas e seus lábios foram cuidadosamente pintados com tintura de cera de abelhas e corantes à base de framboesas.

— Não aplicarei a maquiagem como de costume, Camus, tens a tez mais pálida que nunca. Sugiro que de quando em quando apertes as maçãs de teu rosto com os polegares e os indicadores, para que consigas um pouco de cor durante a solenidade.

— Não poderia ser diferente, há 40 dias encontro-me como que sepultado neste apartamento.

— Hás de admitir que nos últimos tempos muito mais por tua melancolia do que por agravo físico.

— Não o nego – murmurou tão somente, mirando as próprias mãos por sobre os joelhos. Os longos cabelos vermelhos foram escovados pelo camareiro, que preferiu não colocar neles nenhum adorno. Ajeitou algumas mechas por sobre a pequena falha, obtendo êxito em disfarçá-la. Conferiu-lhes a maciez passando os dedos esticados por entre as mechas brilhantes.

— Penso que cair-lhe-iam bem jóias com citrinos... que achas? Evoca o sol... será um reencontro teu com ele.

Camus não soube bem a que “ele” o sueco se referia. Ignorou a ambiguidade contida naquele dito, preferindo apenas assentir em consonância com a sugestão. Seus lóbulos ganharam brincos em forma de gota com a gema ambarina, e seu colo um estupendo colar de ouro cravejado com as pedras.

Surgia, enfim, diante dos olhos escarlates a bela e altiva mulher que devia viver a vida em seu lugar.

Conteve um suspiro pesaroso, guardando-o em si.

Afrodite tomou-o pelos pulsos, com suavidade, fazendo-o se levantar.

— Por Deus, palavra de honra, não importa que intentemos que tenhas aparência casual, sempre ficas soberbo – comentou, maravilhado com o que via. Certamente Milo também ficaria!

— O mérito é todo teu, meu caro – devolveu, entre modesto e desinteressado.

— Vem, o senhor conde disse que teria como conviva a mais especial das pessoas. Não deves atrasar-te.

— A mais especial das pessoas?

— Sim. Vem comigo.

Camus seguiu-o, pensativo. Quem seria o tal “conviva especial”? Sabia que enviados do rei acompanhavam o marido na solenidade... haveria algum dentre eles com alguma posição mais destacada em relação aos demais? Talvez alguém da própria família real? Milo era um parente distante de Filipe, afinal.

Sair do quarto foi um evento particularmente difícil para o jovem. Só de cruzar os umbrais teve palpitações, e desejou mais que tudo dar meia volta e atirar-se ao leito confortável, abrigando-se ali por mais 40 dias.

Não queria ver ninguém. Não queria falar com ninguém.

A garganta constringia à medida que descia pelas escadas, rumo ao térreo da fortificação. Seus olhos ressentiram-se da luminosidade que o recepcionou ao ganhar a área externa. Criados ficaram boquiabertos ao ver “a senhora” plenamente restabelecida e, se é que aquilo pudesse ser possível, ainda mais encantadora. Camus queria sorrir-lhes, pois que percebeu suas expressões de agrado e alívio, no entanto... não fora capaz. Limitou-se passar por eles, correspondendo-lhes aos olhares amistosos. Cruzou o pátio principal, anuindo graciosamente a cada pessoa que lhe fazia uma respeitosa reverência. Desceu as escadas que levavam ao jardim, reparando que a quantidade de flores pelo caminho principiara a diminuir. O fim da tarde conferia ao céu uma tonalidade próxima ao seu vestido, farfalhante por sobre a relva fresca. Ouviu os acordes de instrumentos; cítaras, alaúdes, flautas, formando uma melodia doce que abrandou o coração do ruivo. Então ele viu a mesa posta para o jantar, ladeada pelos músicos, e em seu centro, o conde de Saint-Doulchard.

O coração de Camus fremiu-se ante a mera visão do amado. A música, os raios do sol poente pousando nos dourados cabelos, os olhos mais azuis que safiras preciosas, o discreto sorriso em seus lábios carnudos, as pétalas de dente-de-leão que bailavam pelos ares... acreditou-se dentro de um sonho, tal que cerrou momentaneamente os olhos rubros, crendo que ao abri-los tudo diante de si desapareceria em meio à névoa da cinzenta realidade... da plúmbea solidão...

— Sê bem vinda, minha senhora – a voz grave e instigante fê-lo abrir os olhos.

Real... tão real quanto seu amor.

Seu amor sufocado.

Ele segurou as saias e fez uma respeitosa reverência.

“Mas onde estão os convidados?”, intrigava-se, sem contudo o demonstrar.

— Meu senhor – foi difícil libertar a voz – Rogo-vos que perdoeis minha demora.

— Senta-te ao meu lado – ordenou Milo, ignorando-lhe as escusas. O ruivo obedeceu. Afrodite fez uma mesura e, para a surpresa de Camus, retirou-se.

Abriu a boca para chamá-lo, mas som algum saiu de seus lábios pintados. Estranho, o sueco sempre se fazia presente nas refeições e demais ocasiões. Por que saíra dali? Olhou em torno, vendo-se a sós com o marido na grande mesa, preparada para muitos convivas. Tantas cadeiras, tantas iguarias, tanta prataria...

— Como te sentes, minha esposa? – Milo indagou, em um tom intimista que exigiu de Camus esforço para não corar.

— Sinto-me bem, graças a Deus Nosso Senhor, obrigada – meneou a cabeça graciosamente ao responder.

Os músicos continuaram a executar com maestria harmoniosa melodia.

Ainda a sondar os arredores, o ruivo foi servido pelo marido, que deitou vinho em seu cálice dourado.

— Pareces preocupada com algo – observou o cavaleiro, nunca deixando de encará-lo.

— Apenas estava a me perguntar onde se encontram vossos convidados. Não seria de bom tom começarmos a refeição sem a presença de tão importantes gentis-homens.

— Que te disse teu camareiro-mor? A respeito deste jantar?

— Que me disse? – não entendeu a pergunta. Então olhou, sem querer, para a pequena escadaria de pedra cercada de flores e a viu.

“Quem... quem é ela?” pensou, os olhos castanhos muito abertos na direção da dama que se aproximava. De estatura média e compleição esbelta, ela parecia deslizar por sobre a grama florida; algumas pétalas trazidas pelo vento caíam-lhe sobre os bastos cabelos castanhos claros, que davam a impressão de serem loiros sob o sol. Não se lembrava de vislumbrar olhos tão doces, acinzentados e semicerrados, à maneira de santificadas madonas. Trajava um elegante vestido rosa salmão com detalhes em ouro e lápis-lázuli. A despeito de não trazer muitas jóias, verificava-se facilmente que a mulher provinha da mais alta nobreza. Suas feições, seu jeito de andar, o refinamento que dela emanava, causando em Camus um involuntário frêmito de ciúmes; claro… Afrodite falara a respeito de “a mais especial das pessoas” como conviva.

“Será ela...?”, pensou, amargo. Os acordes abafavam em sua percepção, à medida que a dama avançava na direção dos anfitriões.

Ela parou diante da mesa, e a música cessou imediatamente. Os músicos se curvaram na presença da recém-chegada, o que confirmava sua importância.

Camus olhou o esposo de soslaio, ressentindo-se da euforia que se lia em seu semblante. Voltou a observá-la; uma beleza madura, é verdade, teria cerca de trinta e cinco anos, talvez mais… nobre de estirpe… a única convidada daquele festim... não havia dúvidas! “A mais especial das pessoas”... quem sabe o conde tivesse enfim acatado a sugestão de arranjar uma concubina, conforme o previsto no acordo nupcial!

— Senhor Conde Milo d’Auvergne, Senhora Condessa Camille d’Auvergne – em meio a uma profunda reverência emergiu sua voz, aprazível e musical.

— Sede bem vinda, Senhora Condessa Beatriz de Dia – Milo ficou de pé, correspondendo ao cumprimento, o que era raríssimo em se tratando de uma mulher que não fosse uma princesa ou uma rainha.

Àquele nome, Camus aturdiu-se.

Escutara corretamente?

Em um reflexo acabou por perguntar, ao invés de cumprimentar a dama conforme a boa etiqueta preconizava:

— Beatriz de Dia? Sois a famosa trovadora provençal?

— Se sou famosa? Quem sabe… se sou Beatriz de Dia? Isso atesto-vos, bela senhora – respondeu, sorrindo de forma quase divertida.

— Perdoai-me os maus modos – o ruivo cumprimentou-a, fazendo similar mesura, sinceramente envergonhado de ter demonstrado incredulidade.

Isso explicava a deferência dos músicos para com a recém chegada. Tratava-se da notória Beatriz de Dia, a maior trovadora da Europa (1), filha do Conde Isoardo II, de Die, no condado de Provença.

— Agradeço-vos a confiança em minha humilde pessoa, magnânimo Conde de Saint-Doulchard. Espero fazer jus a tal honra que tão gentilmente concedestes-me.

— Só em ouvir vossa maviosa voz, senhora, certifico-me de que procedi com sabedoria ao confiar-vos tal missão – respondeu o loiro, visivelmente animado.

Ante a expressão desconcertada de Camus, Beatriz explicou:

— O senhor conde refere-se à missão de homenagear a “mais especial das pessoas”, que ele esperava para o banquete.

Piscando instintivamente, o ruivo perguntava-se quem seria esse conviva tão especial, visto que receberia homenagem de ninguém menos que Beatriz de Dia! Em meio à sua confusão, a trovadora completou, sorrindo alegremente:

— E esta sois vós, senhora Camille... para o senhor vosso marido, “a mais especial das pessoas”!...

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Notas finais
( 1 ) Beatriz de Dia (1140 - 1180? 1212?) A trovadora (ou trovatriz) que foi a Saint-Doulchard a chamado do conde. A data de seu falecimento é incerta, em alguns lugares aparece como sendo 1180, em outros 1212. Uma vez que a fic no momento se encontra no ano de 1192, vê-se que considerei a segunda. Sendo assim, Beatriz teria, a essa altura, 52 anos. Como Camus a toma por uma mulher de 35 anos? Segundo alguns registros, a Condessa de Dia aparentava bem menos idade que tinha, conservando a beleza e a juventude até a morte. Alguns, claro, dizem ser isso uma fantasia, mas... achei legal e vou usar aqui xD "Conhecida em documentos da época apenas como Condessa de Diá, acredita-se que seu nome de batismo era Beatriz, e que era filha do Conde Isouard II de Diá, casada com Guillem de Poitiers. No entanto, menciona-se uma paixão não muito secreta pelo troubadour Raimbaut d'Aurenga (1147 – 1173), a quem ela teria dedicado muitas de suas canções. De todas as trovatrizes, é a única de quem temos texto e música, no poema "A chantar m'er de so qu'eu no volria" ", tema do capítulo anterior. ************* Dyh, mais uma vez parabéns pelo seu dia! ^^ Em tempo: originalmente, esse "jantar" seria oferecido no Grande Salão do castelo, mas a leitora Ana Paula me deu a ideia de fazê-lo no jardim; bom, não diretamente, mas ela falou disso em uma das conversas no nosso grupo, e achei o máximo! Obrigada, Ana Paula :) Obrigada por lerem, até a próxima! Grupo das fics amelindescas: https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/ Tema do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=yUYpsDdRyHo