Dame Jolie

26 "Douce Dame Jolie"


Notas iniciais
Olá a todos! Como os que estão no grupo das minhas fics no Facebook foram informados, a partir de agora as atualizações passam a ser mais espaçadas, em virtude de eu estar fazendo um curso aos sábados e estudando para concursos. Amo ser professora, mas meu país não ama minha profissão, então vamos de plano B xD Mas as fics continuam firmes e fortes! Afinal de contas, as histórias estão planejadas, somente demandando tempo sua digitação e betagem. Espero que compreendam ^^ Gostaria de agradecer o apoio que vêm dando à "Dame Jolie", e agradecer principalmente os maravilhosos comentários, que tanto me alegram e estimulam ♥ Obrigada também a você que leu, que favoritou, claro!!! ;) Este capítulo encerra a segunda fase da fic, espero que gostem. Postei o link para a imagem da capa, versão original e sem censura, nas notas finais, juntamente com algumas explicações acerca dos trechos numerados e com o link do tema, que nada mais é que a própria música que deu nome à fic, acrescida de "Douce", que é o "virelai" com letra, composto por Guillaume Machaut no século XIV. Créditos da capa (cortada) Pixiv ID: 53585112 Member: なより Boa leitura!

Ainda que os ares conservassem certa calidez, o verão despedia-se orgulhosamente; o frescor dos crepúsculos outonais já se fazia anunciar através da brisa que fazia bailarem pétalas e folhas por sobre a relva oliva. Nuances douradas mesclavam-se com as violáceas no firmamento azul pálido.

Arrumada com requintada fartura, dir-se-ia que a mesa posta sob os mais frescos castanheiros do jardim da vasta propriedade castelar abrigaria pelo menos uma dúzia de convidados. No entanto, apenas o senhor e “a senhora condessa” de Saint-Doulchard ali se encontravam. Ao lado, músicos deixavam repousar seus instrumentos enquanto os senhores recebiam Beatriz de Dia, não a única, mas certamente a mais famosa trovadora daquela época. (1)

— O senhor meu pai contou-me a vosso respeito – comentou o ruivo, encantado – disse que por duas ocasiões teve o privilégio de assistir a vossas apresentações, uma no castelo de um primo dele, e outra, no palácio do próprio senhor nosso rei...

— Tive a honra de conhecer vosso honrado pai, assim como o honrado pai do senhor Milo. É uma dádiva concedida por Nosso Senhor que hoje esteja eu perante seus amados filhos, e com tão sublime missão.

— O abençoado sou eu, senhora, por haverdes atendido à minha humilde súplica. Sei bem como deveis ser ocupada, com tantas solenidades a atender...

Beatriz ergueu a palma, em um sinal para que Milo não prosseguisse, e retorquiu, docemente:

— Nenhum compromisso me é mais caro que a celebração de um amor verdadeiro, senhor conde.

Camus olhou para eles, cada vez mais intrigado. Então o esposo contratara a grande trovatriz para se apresentar “em celebração a um amor verdadeiro”... por um acaso...

— Senhora – a cantora dirigiu-se a Camus em tom grandiloquente – rogo-vos, ouvi o amor de vosso marido através de minha voz...

Acordes do saltério romperam o curto silêncio que se seguiu àquele pedido; a eles juntaram-se os harmoniosos sons dos demais instrumentos, tocados com maestria pelos musicistas presentes. De pronto, Camus reconheceu aquela melodia:

“Dame Jolie”, arrepiou-se, evocando a primeira vez em que dançara com o amado.

O dia em que o conheceu.

O dia em que descobriu o que era amar alguém. Amou-o desde o primeiro instante.

“Dame Jolie”.

Parecia ainda mais bela...

Experimentava como que um transe quando em meio aos sons emergiu o canto da Condessa de Dia:

Douce dame jolie (Doce bela dama)

Pour dieu ne pensés mie (Por Deus, não penseis)

Que nulle ait signorie (Que há outra soberana)

Seur moy fors vous seulement. (em meus pensamentos, pois que são apenas para vós )

Qu'adès sans tricherie (Para sempre, sem traições)

Chierie (Amado)

Vous ay et humblement (Vos tenho, e humildemente)

Tous les jours de ma vie (Por todos os dias da minha vida)

Servie (Servido)

Sans villain pensement. (Sem pensamentos baixos)

Helas! et je mendie (Mas ai de mim! Sou deixado implorando)

D'esperance et d'aïe; (Por esperança e alívio)

Dont ma joie est fenie, (Eis que minha alegria está no fim)

Se pité ne vous en prent. ( Sem vossa compaixão )

Douce dame jolie ( Doce bela dama )

Pour dieu ne pensés mie ( Por Deus, não penseis )

Que nulle ait signorie ( Que há outra soberana )

Seur moy fors vous seulement. ( Em meus pensamentos, pois que são apenas para vós )

Mais vo douce maistrie ( Mas vosso doce império )

Maistrie ( Impera )

Mon cuer si durement ( Em meu coração tão severamente)

Qu'elle le contralie (Atormentando-o )

Et lie ( E amarrando-o )

En amour tellement ( A um amor insuportável)

Qu'il n'a de riens envie ( Meu coração nada deseja )

Fors d'estre en vo baillie; ( A não ser estar em vosso poder )

Et se ne li ottrie (E eis que continua)

Vos cuers nul aligement. ( Vosso coração a não dar-lhe qualquer alívio )

Douce dame jolie ( Doce bela dama )

Pour dieu ne pensés mie ( Por Deus, não penseis )

Que nulle ait signorie ( Que há outra soberana )

Seur moy fors vous seulement. ( Em meus pensamentos, pois que são apenas para vós )

Et quant ma maladie (E desde que esta minha moléstia)

Garie (De forma alguma)

Ne sera nullement (Será cessada)

Sans vous, douce anemie, ( Sem vós, doce inimiga )

Qui lie (Que tem )

Estes de mon tourment, ( Prazer em meu tormento )

A jointes mains deprie ( Com as mãos juntas eu rogo )

Vo cuer, puis qu'il m'oublie, ( A vosso coração, que se esquece de mim )

Que temprement m'ocie, ( Que misericordiamente mata-me )

Car trop langui longuement. ( Por muito tempo tenho eu sofrido )

Douce dame jolie (Doce bela dama)

Pour dieu ne pensés mie (Por Deus, não penseis)

Que nulle ait signorie (Que há outra soberana)

Seur moy fors vous seulement. (em meus pensamentos, pois que são apenas para vós )

Ao término da música, Camus encontrava-se em tal estado de arrebatamento que sequer conseguia decidir se aplaudia ou não. Uma possante emoção paralisava-o, sufocava-o. Lágrimas presas em suas pálpebras cintilaram, hesitantes, temerosas. Antes mesmo de Beatriz revelar, ele já sabia do que se tratava aquela canção:

— O senhor Conde de Saint-Doulchard compôs este poema em vossa homenagem, senhora, e pediu para que eu o musicasse utilizando o conhecido virelai “Dame Jolie”. Disse-me que foi a música que embalou vosso primeiro encontro... e vosso primeiro momento de harmonia.

Observado de modo amoroso pelo cavaleiro, o ruivo tentava arduamente não piscar. Se o fizesse, na certa as lágrimas cairiam!

A trovadora estendeu para “Camille” um pequeno pergaminho, que retirara do próprio seio.

— Ei-lo. Em vossa honra, não mais chama-se apenas “Dame Jolie”, e sim “Douce Dame Jolie”. (2)

As mãos trêmulas do jovem acolheram o papel. Os olhos úmidos correram por sobre os escritos. Notou-lhes a formosa letra de Milo, por vezes um tanto tremida, como que traçada em meio a uma vigília febril... e, em alguns pontos, marcas como que de... lágrimas.

Ao pousar o papel sobre a mesa, a mão do marido cobriu a sua.

Quente.

Tão quente.

Sentiu-se aquecido pelo calor daquela mão. Pelo calor daquelas palavras. Pelo calor do suave olhar que sentia sobre si.

Ainda assim... relutou em olhar para o esposo.

— Comecemos de novo. – Propôs o loiro, gentilmente. – Façamos do hoje nosso início. Nosso REAL início.

Lentamente, Camus virou-se para Milo. Trocaram um profundo olhar. O loiro retirou uma caixinha do bolso e a abriu, mostrando o interior ao marido: uma vistosa aliança em puro ouro, cravejada de mimosos rubis.

Rubi, a pedra símbolo de Camus para ele.

— Esta aliança, contrariamente à que possuis em tua alva mão, foi adquirida mediante genuíno desejo de união. Permites...? – fez menção de tirar do anelar direito do ruivo o anel com diamantes que ali trazia, desde o matrimônio.

Timidamente, Camus assentiu, o coração palpitando com extrema violência. Assim que viu em seu dedo a joia que a partir daquele gesto de fato conteria significado para ele, sentiu em sua acetinada cútis o deslizar da lágrima que represara com tanta obstinação.

Uma única lágrima.

— Aceitas renovar comigo os votos selados diante de Deus? – indagou Milo, em voz baixa e esperançosa.

O ruivo ergueu para ele o rosto, que tinha não o rubor de um apaixonado mas o livor de um resgatado, que por muito pouco não se viu precipitar pelo abismo.

— Sim, eu aceito.

Um grito esteve a ponto de sair da boca escancarada em um sorriso do cavaleiro extasiado. Este ergueu-se de repente, quase assustando o outro, e ofereceu-lhe a mão, eufórico:

— Então vem comigo, peço-te.

Camus pôs sua mão fria naquela palma cálida e acolhedora. Levantou-se majestosamente, como se uma nova postura se adaptasse-lhe ao corpo. Seu semblante iluminou-se quando um inédito sorriso irrompeu-lhe nos lábios rubros. Maravilhado com o que via, o loiro não resistiu ao impetuoso anseio de carregar o esposo, como no dia em que se casaram. Afinal, aquele era o REAL casamento deles! Tomou-o nos braços; Camus, em um sobressalto, envolveu o pescoço do amado com seus braços. Milo assim o levou rumo à entrada do castelo. Sorrindo, Beatriz acenou para eles e voltou-se para os músicos:

— Senhores, que tal continuarmos por mais uma hora? Depois, convido-os a jantar comigo. Vinho “por minha conta” – riu.

Rindo de volta, assim eles fizeram, animadamente.

Os trabalhadores e servos que assistiam à cena comemoravam à passagem dos senhores. Os homens acenavam, as crianças riam e corriam acompanhando, as mulheres batiam palmas de encantamento. O conde ria, feliz como jamais haviam visto. Não estivesse igualmente feliz, Camus estaria constrangido pelo que ocorria. Mas só conseguia mirar o homem que amava, como que absorvido por aquela euforia. Os consortes adentraram enfim a casa palaciana; o cavaleiro pôs o esposo no chão. Diminuiu a distância entre seus rostos e beijou-o solenemente nos lábios, como se encerrasse alguma cerimônia.

E se findo estava o enlace... que viesse a noite de núpcias!

Foi necessário boa dose de paciência para ambos ascenderem as escadas até os aposentos senhoriais. Lá, Milo trancou a porta cuidadosamente e virou-se para o marido, que tinha as mãos unidas na altura do peito, por não saber exatamente o que fazer. Lia-se expectativa e dúvida em seu belo rosto, mas não medo, o conde pôde discernir com orgulhosa clareza. Isso incentivou-o a se aproximar do ruivo. Tomou suas faces geladas entre as palmas, fazendo-o olhar bem fundo em seus olhos turquesa. O entreabrir dos lábios escarlates foi um silencioso porém irresistível convite a que fossem provados... assim, vagarosamente, os lábios do cavaleiro ali pousaram, com a delicadeza de uma borboleta sobre uma rara flor; o mero toque fez Camus estremecer e fechar os olhos, apenas recebendo aquela sutil carícia. Respirou ainda mais rapidamente quando os lábios de Milo roçaram mais amiúde nos seus, seu rosto ainda amparado pelas grandes mãos de seu amor. Enleado, deu passagem a que a língua do outro invadisse sua boca de uma vez, sem poder conter um suspiro de deleitamento. O beijo aprofundou-se sob o calor que invadiu aquelas duas almas, que só então selavam um compromisso maior do que o registrado em papel:

Amar-se-iam.

Viveriam aquele amor.

Agora não haveria volta. Imersos na suprema delícia de se provarem, de se sentirem, disto tinham plena consciência. O tempo pareceu parar durante aquele longo beijo, há tanto esperado, há tanto sonhado. Ambos queimavam, antegozando vindouras e inevitáveis delícias. Desvencilhando-se ofegante do esposo, encostou sua fronte na dele, cerrando os olhos frementes ao sussurrar:

— Amo-te, Camus. Amo-te tanto que dói! Nunca mais te apartes de mim, eu morreria, Camus... eu morreria...

— Senhor Milo... eu igualmente vos amo...

— Ah! Não imaginas como fazes-me feliz em dizer tal coisa! Contudo, não mais me chames “senhor”, tampouco uses “vós” para comigo.

Percebendo que o ruivo se surpreendera com aquele pedido, encarou-o com grande ternura ao explicar:

— Tu és o senhor de minha vida. Não deves a mim servilismo algum. Vivamos de igual para igual, pois. Quero que passes a tutear-me.

— Mas, senhor Milo! Não sei se...

O loiro tomou-lhe a boca até que perdessem o fôlego mais uma vez. Abraçando o ruivo carinhosamente, insistiu:

—Sim, tu consegues. E eu quero ouvir apenas meu nome nessa tua voz macia e sensual...

Camus poderia desmanchar-se tão somente com aquele tom envolvente. Arfava de leve quando assentiu, tímido como sua inocência o moldava:

— Compreendo-o. Eu o farei... Milo.

O mero pronunciar de seu nome despido de tratamentos nascidos da conveniência que os uniu primordialmente semeou vívida excitação no cavaleiro. Estreitou-se junto a ele, beijando-o novamente. Oxalá passasse toda sua vida beijando Camus, sentindo seu calor, seu corpo através daquelas inéditas proximidade e entrega...

Não.

Necessitava de mais.

Não que aquilo não fosse uma glória. Contudo... queria mais, muito mais! Pesquisara sobre como os homens amavam-se entre si. Lera alguns tratados orientais, poemas persas que versavam sobre o amor varonil, compêndios gregos que enalteciam-no... no entanto, estar fisicamente no âmago da situação era assaz diferente!

— Camus... eu te desejo. – Declarou, sem rodeios.

O ruivo fitou-o, enrubescido pelos beijos... e agora pelos dizeres do marido. Compreendia-lhes o significado, ou pelo menos, achava que compreendia. No entanto, por um simples reflexo, retesou nos braços do loiro. Balançou a cabeça em uma fraca negativa e ciciou:

—Senhor Milo… digo… Milo… sois… aah! És homem como eu...

— Sim, eu sou. – Não pôde deixar de sorrir.

— Se estais... hum... estás a dizer que me desejas, então...

— Então quero fazer amor contigo.

Desta vez, Camus ficou boquiaberto. Para piorar, seu corpo parecia portar-se de maneira inquietante... algo formigava em seu peito, e descia... descia...

— Por um acaso não desejas que sejamos um? – Indagou um paciente Milo, acariciando-lhe os cabelos lisos.

— Sim, claro... só que... n-não sei como isso seria possível. Vós... – estalou a língua, irritado por não conseguir se acostumar de imediato à nova linguagem – Tu sempre fizeste amor com mulheres e...

— Não, Camus – interrompeu-o, tomando-lhe novamente o rosto entre as mãos — Eu NUNCA fiz amor com mulheres. Eu apenas me DEITEI com elas. Eu nunca fiz amor com ninguém, simplesmente porque nunca tive amor por ninguém.

O ruivo não pareceu convencido. Tomando-lhe os lábios com paixão, Milo tencionou demonstrar o que afirmava.

— Em se tratando de fazer amor, pode-se dizer que sou virgem como tu...

— Não digas bobagens – Camus revirou os olhos, causando um risinho no outro.

— Ah! És tão lindo... eu te quero tanto... meu marido... será que não me queres como eu te quero? – murmurava, distribuindo inúmeros beijos pela pele clara do amado. Este arrepiava-se por fora, ardia-se por dentro, sentia-se tão desconcertado! Aquelas sensações o atordoavam. Não obstante, tinha certeza de que queria, sim, o esposo. Sempre o quisera! E... havia outra certeza...

— Senhor Milo... ah... Milo... ajuda-me com minhas vestes... quero despir-me...

Aquele pedido quase incendiou o cavaleiro! Sufocando de desejo, quis certificar-se:

— Tens... tens a certeza?...

— Sim… quero que me tenhas como sou. Quero despir-me destes disfarces que me encerram em uma farsa perene – esclareceu, um tanto melancólico – Tocar-me-ás sendo eu um homem, o verdadeiro “eu”... não uma fraude!

— Cala-te! – Milo abraçou-o com força – Nunca mais digas isso a teu respeito! Proíbo-te, ouviste bem?

Afastou-se um pouco para encarar com firmeza aquele semblante confuso. E continuou, mais brando:

— Nem sob camadas e camadas de vestidos e atavios serias tu uma fraude. És, acima de ser o homem a quem amo, a criatura mais honesta que já conheci.

— Honesto, eu...!

— Sim, honesto. Nunca quiseste enganar a quem quer que fosse, e tudo o que fizeste até hoje foi mediante ordens de teu pai. Foi pelo teu clã. Não te deprecies nunca mais. Nunca mais!

— Mi... Milo...

— Ajudar-te-ei com o vestido – e pôs-se a tirar-lhe as joias das orelhas, do pescoço; à medida que ia retirando acessórios e partes dos trajes beijava, acariciava, alisava seu amado, que quase suspirava de ansiedade. O ritual fora tantas vezes interrompido por aqueles arroubos que o conde teve ganas de possuí-lo ali mesmo, com vestido e tudo. Lembrava-se, entretanto, da fala de Camus; este queria despir-se, não apenas de suas roupas femininas, não apenas para o ato que viria a seguir. Queria viver aquele momento como homem que era. O curioso que para Milo as vestimentas nunca o fizeram enxergar Camus de modo diferente. Mas era a vontade do ruivo, e ele a realizaria.

Até porque, obviamente, ansiava por vê-lo nu. Nu e entregue...

Quando chegou à túnica que servia como roupa de baixo, o loiro tirou as mãos dele, afastando-se com ar dramático. Recebendo um olhar interrogativo do marido, explicou sua atitude:

— Quero ver-te tirar a última peça. Tira-a para mim.

As sobrancelhas vermelhas arquearam-se de maneira quase cômica. Certa petulância desafiadora parecia se mesclar à amorosidade de Milo. Camus hesitou por uns instantes. Porém... não retrocederia. De qualquer forma, a modéstia fê-lo virar-se de costas. Era um passo muito grande... estava envergonhado, sim, tolice negá-lo!

A Milo aquilo apenas agradou mais. Um sorriso prazenteiro apareceu em seus lábios carnudos, os quais ele ainda lambia para sentir o gosto dos de Camus ali impregnado. Arrancou as botas de si e sentou-se no leito, como a preparar-se para um espetáculo.

Não deixava de ser.

Saborearia cada etapa daquele momento especial...

Virado para a parede de pedra, de costas para o amado, Camus percorreu suas mãos trêmulas pelo tecido fino de sua túnica, rumo às coxas. As palpitações pareciam ecoar por todo seu interior, reverberando em seu estômago. Encurvou-se, pois a barra da roupa passava dos joelhos. Seus dedos longos seguraram-na, e menção de levantar o traje foi feita. Contudo, deteve-se, respirando rapidamente.

— Estou a esperar, Camus – anunciou Milo, pretensamente provocante – tu manifestaste o desejo de mostrar-te a mim “como verdadeiramente és”.

Respirando fundo, o ruivo evitou olhar para o marido. Decidiu que era melhor suspender a respiração quando, por fim, começou a suspender a túnica, pouco a pouco desvendando suas pernas... suas coxas...

Milo engoliu em seco. Umedeceu os lábios ante a visão do esposo de cabeça baixa, mostrando-se lentamente a ele. Percebeu que o marido estava constrangido, porém já o conhecia o suficiente para saber que ele não fazia nada obrigado quando se encontravam a sós. Camus era altivo demais para isso; a modéstia verificada fazia-se esperada em alguém prestes a entregar sua inocência. Enfim, as níveas e bem moldadas nádegas do ruivo se revelaram; o loiro sentiu seu sexo despertar.

Camus experimentava quase uma vertigem de tanta tensão, mas estava decidido. Tirou de si a túnica branca, presenteando o esposo com sua nudez. E, surpreendentemente resoluto, virou-se de frente para ele.

Sim, o conde já havia vislumbrado seu corpo nu. Contudo, não direcionado para ele. Não ofertado a ele. Completamente emudecido, contemplou-lhe as formas suaves porém másculas. Não, nada tinha de feminino, conquanto não fosse musculoso como o cavaleiro. Ora, de que maneira o seria? Toda uma vida dedicada a similar a existência como mulher o deixara magro, pálido, de gestos sutis... todavia, eis que seu torso emergia bem tonificado, suas longas pernas dotadas de coxas mais volumosas do que poderia se supor, os braços delineados... os olhos azuis exploraram todo o belo corpo à sua frente, e brilharam à imagem do grande e rosado pênis abaixo dos pelos rubros.

— Palavra de honra, és lindo como eu sabia que o eras... embora eu já tivesse observado de relance anteriormente... o que tens entre as pernas espanta-me!

— Por quê? – o ruivo cobriu o sexo com as mãos, sem entender o que o esposo quisera dizer.

O loiro riu com gosto. Levantou-se de um salto, chegando a assustar o marido; foi até ele e pegou-o no colo, como se convinha a uma autêntica noite de núpcias. Carregou-o até o enorme leito e ali o acomodou, beijando-o carinhosamente na fronte.

Então, de pé, começou a se despir.

Desta vez, seria Camus a contemplar a nudez do consorte. E isso o amedrontava, em meio à fascinação.

Em alguns segundos, tinha diante de si uma imagem que fez sua respiração novamente dificultar-se.

“É a personificação de um deus grego”, pensava, deslumbrado com a definição daqueles músculos esculpidos, seus braços fortes, seu abdômen bem marcado em cujo baixo ventre distinguia-se os pelos loiros por sobre sua impressionante masculinidade.

Nada conseguia proferir, embora sua expressão traduzisse perfeitamente suas impressões para Milo. Isto muito alegrou o conde, a quem não passou despercebido que o membro de Camus enrijecia... como o seu próprio.

Aproximou-se da cama na qual o ruivo jazia estático. Chegara a hora de se unir a ele.

— Se... senhor Milo...

— Que te falei acerca desse dispensável “senhor”? – sorria, enquanto achegava-se ao marido apoiado sobre os cotovelos.

— Perdoa-me. É o costume...

Deitando-se de frente a ele, Milo depositou um beijo em seus lábios. Em seguida perguntou, acariciando-lhe as costas arrepiadas:

—Tens medo?

— Medo? – sussurrou contra seu ombro moreno, quase reflexivo – Não creio que o que sinto seja medo. O medo incita a fuga, e eu de forma alguma quero fugir de ti... Milo... nunca mais.

Emocionado com aquela resposta, Milo invadiu-lhe a boca com mais fervor, sendo pronta e ardentemente correspondido. As mãos do cavaleiro sondavam o pálido corpo do amado, que gemia em sua boca, entregue e ansioso... aquilo deixava o loiro mais ávido por prová-lo, por descobri-lo, por senti-lo... entretanto, não deveria se deixar levar pelo descontrole, ainda que todas as fibras de seu ser por isso clamassem; afinal de contas, Camus nunca havia... não, não queria machucá-lo, sob nenhuma circunstância!

Não obstante, em relação ao que pretendia, também ele era inexperiente...

Estreitou-o em seus braços, seus beijos convertendo-se em trilhas incandescentes pela pele fria. O ruivo arqueava-se, cativo de sensações que o inebriavam imperiosamente. Ao fazê-lo, recebia em seu pescoço, ombro, peito, carícias e leves mordidas que o desarmavam cada vez mais. Seus suspiros deram lugar a gemidos baixos quando os dedos do esposo brincaram com seus mamilos. Sem saber o que fazer, acariciava as costas largas de Milo, e mesmo essa singela retribuição deleitava o conde. As intumescidas protuberâncias róseas agora eram sutilmente torcidas. Camus nunca se tocara ali, sequer sabia se tratar de um local que o conduzisse a sensações tão prazerosas. Lembrava-se, sim, de quando semanas antes, ao ser ajudado pelo marido a se banhar, fora por ele tocado de forma similar. E de como havia sido bom...

...oh, sim.

Não importava o que Milo fizesse.

Parecia saber EXATAMENTE como deliciá-lo. Queria tanto fazer o mesmo!

— Aaah! – seus pensamentos foram sacudidos pelo choque da língua de Milo naquela carne túrgida. Por Deus, que estava Milo a fazer? Não entendia, de fato não entendia! Movimentos como de serpente a envolver seus mamilos rígidos, agora úmidos... cerrou os olhos e sentiu uma estranha urgência entre as pernas. Gemeu um pouco mais alto.

Que estava a acontecer? Milo sabia o que ele estava a sentir? Porque bem quando sentiu seu pênis latejar, percebeu que a mão do loiro para aquela região se deslocou...

— Milo... – suspirou, ainda tendo os mamilos chupados até ficarem completamente molhados. Como aquilo o desconcertava! – huum...

Em um estalo que fez o amante inspirar de súbito, a boca do cavaleiro abandonou aquela região em seu peitoral – que acabara, afinal, por descobrir ser bastante sensível – para sussurrar no ouvido de Camus:

— Meu amado esposo... quero dar-lhe muito prazer... levar-te ao ápice é minha cruzada pessoal... tu mo permites?

Um tímido porém inquieto assentir foi a resposta. Milo acariciou-lhe a parte interna das coxas e observou, pacientemente:

— Disseste-me que não tinhas medo...

Encostou sua própria intimidade na perna do amado para que ele tivesse noção do que estava a causar. A mão do conde subiu até o órgão desperto de Camus, que com voz estrangulada de nervosismo confessou:

— E não tenho... contudo... reside em meu peito o sólido receio de que não te agrades de mim.

— Como isso seria possível? Eu te amo, eu te desejo! Sente meu mastro erguido por ti... – esfregou mais sua ereção nele – Tu sabes o que isto significa, não? Também te fazes rijo, anjo, vê...

O toque do marido em seu falo pulsante fez Camus puxar o ar com nítida aflição.

— Mas eu... eu nada sei como... bom, minhas tias explicaram-se algumas coisas... – balbuciava, sofrendo para conferir coerência à suas palavras, pois que Milo fechara seu dedos sobre a extensão inchada – e-eu queria dar-te... o... o prazer que estás a oferecer-me...aahn...

— Amado meu, isso são coisas que o instinto e a paixão ensinam. Apenas deixa-te levar pelo que sentes... – sussurrou-lhe ao ouvido, sensualmente.

— Humm... ahh...

— E saibas que tu me agradas como ninguém nunca agradou-me... provar-te-ei...

Inegavelmente aquela última frase trazia um duplo sentido, pois que o loiro voltou a beijá-lo nos lábios, que contraía na tentativa de abster-se de gemer alto. Sentiu o agarre sutil cercar com mais veemência seu sexo rígido; para estimulá-lo, Milo formou um anel com o polegar e o indicador, e, aprisionando-o de vez assim, pôs-se a mover sua mão de modo lento e cadenciado.

—Aaaahh!!

— Isso, meu amor... entrega-te tão somente... cessa de ponderações... – a voz rouca de Milo tinha poderoso efeito sobre Camus, já enlouquecido pelo estímulo constante em seu pênis. Gemendo, o ruivo arqueou-se, quase convulso; sua mente nublou-se, ele era apenas prazer, ânsia, paixão. Enlaçou o loiro, inconscientemente projetando-se contra a mão habilidosa que por vezes dava-lhe uma trégua. E nessa pausa, Camus gemia, desesperado, dentro da boca que sorria pela provocação. Então Milo retomava a masturbá-lo em um ritmo que conduzia o ruivo a um êxtase inédito... como deliciava-o ver seu ruivo daquele jeito!

Por sua vez, Camus surpreendia-se ao constatar que uma ação já praticada por ele em si mesmo tornava-se, ministrada pelo esposo, enlouquecedora a ponto de fazê-lo temer perder o controle e gritar.

Como o esposo conseguia fazê-lo se sentir daquela forma?

— Se... senhor Milo... ah... Milo...

O loiro sorriu, vendo-o a ponto de explodir em sua mão. Percebeu que o sexo de Camus atingira espessura e enrijecimento tais que mal cabiam-lhe na palma a executar os frenéticos movimentos. Ao roçar a glande sentiu-a muito úmida. Espalhou aquela seiva por todo pênis pulsante, ouvindo os gemidos quase lamentosos do outro. Um delicioso aroma fazia o conde delirar. Intensificou a masturbação, cônscio de que estava prestes a fazer o amado gozar.

— Ah... ung... aahn! – gemeu o ruivo mais demoradamente, quando as convulsões advindas de seu forte orgasmo o sacudiram por baixo do corpo trigueiro que recendia a perfume amadeirado. Milo mordeu o lábio inferior, deliciado com o que presenciava. O sêmen projetava-se em jatos generosos durante os espasmos do jovem virgem. Abriu muito a boca em busca de ar, recebendo também a boca suculenta do cavaleiro.

— Aaahh...! M-Milo... o que... que me fizeste sentir…? – indagou, entorpecido de prazer, tão logo o beijo se extinguiu.

— O que farei muitas e muitas outras vezes, asseguro-te... dentre outras coisas mais, claro – respondeu o nobre, acariciando-lhe os contornos do rosto corado.

Sob os efeitos residuais do clímax, Camus fitou seus olhos castanhos semicerrados no semblante gentil do amado. Baixou o olhar para seu próprio membro encharcado e palpitante. Próximo, o pênis do marido, grande e grosso como se lembrava... bom, verdade que parecia maior ainda, pois que despertara por completo... uma tonalidade como que de caramelo.... seus dedos esticaram-se para ele e, com dificuldade, perguntou:

— Permites... permites que eu o toque?

O conde riu, encantado com a pureza do ruivo.

— Anjo meu, disse-te uma vez... és senhor de minha vida. És meu tanto quanto sou teu.

Incentivado pela resposta, Camus levou a mão até o órgão do loiro; incerto de como proceder, porém desejoso por agir, fez menção de pegá-lo. Milo prendia o ar em expectativa; isto fez com que o membro pulsasse, e aquele movimento involuntário assustou o marido. Que já estava devidamente intrigado com o tamanho do que contemplava. Comparou-o a um cetro de poder. Sim, majestoso como sabia-o ser. Digno do homem imponente que era seu amado. Cerceou o pênis com seus dedos, pasmando-se com a solidez e o calor. Ouviu um suspiro fundo e indagou, receoso:

—Machuco-te?

— Não – respondeu, sorridente, o cavaleiro – ocorre que é deveras deleitoso que me toques.

“Entretanto... não sei o que fazer”, pensava Camus, apertando os lábios, preocupado. Tudo que sabia é que QUERIA tocar o amado. Oh, se pudesse retribuir-lhe o que experimentara! Talvez... quem sabe, se fizesse no esposo o que costumava fazer em si mesmo... seria este o caminho?

Não que se masturbasse amiúde. Ao contrário; até conhecer Milo, poucas vezes se permitira tal. Anseios fisiológicos haviam de estar atormentando-o por demais para que àquela prática se rendesse. Não obstante, nos últimos tempos, a lembrança de Milo e seu cheiro nas roupas de cama impregnado vinham modificando aquela frequência quase casta. Seu dúvida, um pecado... mas TODA sua vida não era uma mentira? Um pecado? Ele era o pecado encarnado.

Principiou a efetuar movimentos que fizeram o conde fechar os olhos, enleado.

— Huumm...

O coração de Camus disparou: será que conseguiria…? Acelerou o ritmo bruscamente, a que o loiro trincou os dentes e, por entre eles, exclamou:

— C-calma!

— Ah! Perdoa-me...!

— N-não... não te escuses... e não pares. Apenas... aah... assim... faz aos poucos... huum. Isso mesmo...

Concentrado, o ruivo procurou imitar o que comumente fazia em seus momentos solitários “dedicados ao senhor Milo”; iniciou restringindo a base, até que tivesse o pênis bem ereto a partir do anel formado pelo polegar e o indicador. Então pôs-se a manipular o falo do esposo, julgando-o a mais bela joia que já vira em toda sua vida.

— Aaah... ah... C-Camus...

Animou-se em ver que o marido estava a agradar-se daquela carinhosa massagem. Se mantivesse aquele ritmo... quem sabe? Calma, com calma… viu-o abrir mais as pernas; encantou-o a fartura daquelas coxas amorenadas. Ficou um bom tempo a masturbar o amado, que gemia baixinho. Camus viu que sua própria masculinidade despertava novamente ante a visão do portentoso cavaleiro à sua disposição. Os gemidos abafados, a expressão tensa, a umidade em que escorregava sua palma... tudo isso colaborava para que sua excitação crescesse... viu a seiva incolor brotar no orifício da ponta inchada e avermelhada... estranho desejo de provar aquele líquido apoderou-se dele. E quando abaixou o rosto para ceder a tal anseio, o loiro segurou seu pulso, repentinamente, fazendo-o parar em um sobressalto.

— Eu... fiz algo errado? – Camus quis saber, apreensivo.

Milo sentou-se no colchão, sorrindo ao responder:

— Não, ao contrário, meu amor...

— Mas... ainda não chegaste ao clímax... – não entendia por que o marido o interrompera.

— Não... não cheguei ao clímax... exatamente por isso devemos parar... antes que eu não aguente mais – brincou com os contornos da face de Camus, achando graça daquela indignação. Teve que explicar:

— Afinal… eu tenciono fazê-lo dentro de ti, meu esposo.

Por mais que tentasse não demonstrar estupor algum, Camus não conseguiu evitar de gaguejar:

— D-dentro de mim?

— Sim. Não estamos nós a celebrar nossa “real” lua-de-mel?

O ruivo viu-o erguer-se do leito. Pensou em perguntar-lhe aonde ia, todavia preso estava às próprias suposições acerca do que estava por vir. Sim, tinha uma ideia do que seria, mas a mesma se revelava de forma tão difusa que forçoso era compreender de fato.

Milo retornou, trazendo um pequeno frasco de cristal. Voltou a se deitar do lado do amado, beijando-o nos lábios. Àquela altura, os beijos se faziam vorazes, os contatos se faziam urgentes. Ao se separar dele, sussurrou-lhe ao ouvido, acariciando-lhe as costas:

— Vira-te de bruços.

Entre dócil e desconfiado, Camus obedeceu. O cavaleiro ficou a admirar as harmoniosas formas do jovem entregue: suas costas brancas contendo algumas sardas, as longas pernas torneadas, a pronunciada e atraente elevação das nádegas, firmes, relíquias de alabastro...

— Abre as tuas pernas.

Engolindo em seco, o ruivo afastou-as. Tremia levemente, sem saber de fato por que caminhos enveredava. Sobressaltou ao toque das mãos do esposo, espalmadas em cada uma das nádegas. Sentiu que ele as separava. Em um gesto mecânico, acabou por apertar o lençol entre os dedos e inquirir:

— Como... como farás isso? Digo… como caberá “aí ” algo tão grande quanto... hã... tão grande quanto o teu...

Um tanto maroto, Milo sapecou um beijo quase estalado naquela carne tenra. Abrindo mais aqueles portais imaculados, assegurou:

— Acalma-te. Seguramente haverá como. Confias em mim?

— ...

— Causar-te-ei alguma dor, bem o sei... quiçá bastante... todavia, creio piamente que depois disso...

— Huum... – carícias nas imediações de seu ânus fizeram-no suspirar.

— Em todo caso, preciso que confies em mim – e acrescentou, em uma sinceridade quase inibida – também eu estou aprendendo. Mas quero muito tornar-me um contigo... Camus...

Posicionou-se, ajoelhado, entre as pernas do jovem. Abaixou-se e olhou cobiçoso para a entrada rósea na qual roçou o dedo indicador. O ruivo retesou, segurando um murmúrio.

— Devo parar...? Preferes deixar para outro dia, ou...

— Eu não tenho medo – resmungou Camus, apertando o travesseiro. Aquelas carícias naquele lugar intocado...!

— Farei o possível para não te magoar em excesso, anjo – prometeu, e, para delírio do esposo, pôs-se a beijar demoradamente a área desvendada. Camus sequer sabia que se fazia tal coisa!

— Ohh... o que...

Milo saboreava aquela exploração, a princípio realizada com as pontas dos dedos, depois com os lábios... acoplou-os no orifício e sugou-o, arrancando um longo gemido do marido.

— MILO?!? – não podia compreender o que se passava. Apenas sabia que algo novo se desvelava em seu interior, um arrepio, um ardor, cócegas em seu...

Lançava seu esposo a sensações inimagináveis mediante sucções e aspirações na entrada pulsátil quando decidiu que era chegada a hora de sua língua em ação.

— AAH! – em um misto de surpresa e prazer, o ruivo estremeceu, sem entender o que se passava... Milo estava LAMBENDO sua região anal? Não era possível! Mas sim... distinguia perfeitamente... a invasão da língua úmida ALI... deslizava para cima, para baixo, para os lados... o que ele estava fazendo?

— Milo, o que... e-está... aaahn...

“Tão delicioso, ouvi-lo gemer assim enquanto possuo-o com minha língua”, pensava Milo, introduzindo-a mais durante aquela massagem única. Porque proporcionava tamanho regalo – os incessantes gemidos revelavam-lhe – decidiu enrijecer a língua e dar estocadas no orifício do amado. Camus temeu gritar: vocalizava contra o travesseiro, presa de implacável deleitação. A saliva de Milo escorria-lhe por entre as pernas, desembocando no períneo, acariciado pelos polegares esticados do loiro. Por vários minutos, o conde intercalou lambidas, estocadas, sugadas e chupadas naquela região, as terminações nervosas que ali abundavam transmitiam ao ruivo sensações inimagináveis até então. Percebendo-o prestes a enlouquecer, cessou o que fazia. Camus deixou escapar um murmúrio dolente; julgou que tudo havia terminado. Mas como lidar com o fervoroso vibrar em sua masculinidade sôfrega? Então, ao virar-se para trás, viu o conde verter sobre os dedos da mão certa quantidade do conteúdo do frasquinho trazido para a cama. Um líquido viscoso...?

— Põe dois travesseiros debaixo de teu abdômen; preciso de que eleves ligeiramente teus quadris – orientou o loiro, sendo prontamente atendido. Camus voltou a virar-se para os travesseiros restantes, sob verdadeira taquicardia.

— Ouve com atenção. Tens de respirar fundo, e sempre. Mantém-te calmo.

Viu o esposo assentindo com o rosto afundado nos travesseiros. Em seguida, por meio de gentis movimentos circulares, Milo inseriu o dedo lambuzado na entrada do outro.

— O... o quê? Aah!

— Respira fundo – repetiu, nervoso e excitado – Se doer em demasia, eu tiro. Todavia, é dito que o desconforto precederá ao prazer.

Como aquilo seria possível?, questionava-se o ruivo, apertando a fronha de seda, apreensivo.

A invasão prosseguia... cerrou os olhos com força.

— Hung! – prendeu o ar à pressão do dedo do amante em seu interior, que remexia o dedo a efetuar círculos, lentamente afundando nele.

Malgrado a aflição de algo movendo-se sinuosamente dentro de si... de certa forma era prazeroso. Contendo sua excitação monumental. O loiro introduziu um segundo dedo, desta vez o médio...

Desta vez, Camus gemeu, e aparentemente incomodado.

— Queres que eu pare?

— N-não…

— Sê sincero – admoestou, nunca deixando de massageá-lo por dentro. Sentiu que seus dedos começavam a ser acolhidos pela cavidade, os esfíncteres acostumando-se com aquela invasão; rodou-os, acariciando-lhe a membrana e enviando as primeiras mensagens realmente prazerosas ao jovem trêmulo. Não mais avançava, dando tempo de o corpo de Camus aceitá-lo. E quando percebeu que isso acontecia, retirou seus dedos de dentro do amante. Fê-lo virar-se para si, falando:

— Quero ver teu rosto quando nos tornarmos um… Camus.

— Milo… — o ruivo suava e ofegava, resistindo ao impulso de implorar ao esposo que lhe aliviasse daquela premência aprisionada nele, tal qual lava à boca de um vulcão prestes a entrar em erupção.

O cavaleiro acomodou-se entre as pernas abertas do marido e tomou-as por trás dos joelhos, flexionando-as. Considerou-o com devoção e com temor; receava tanto machucá-lo! Entretanto, a julgar por sua própria necessidade e pela do amado, que o fitava ansioso, era um caminho sem volta... curvou-se sobre ele, acariciando-lhe o rosto congestionado de desejo, a outra mão conduzindo o próprio pênis muito duro àquela entrada palpitante. Esperava tê-lo preparado suficientemente... ainda assim...

— Huung!

— AAH... p-perdão...

“Droga, está difícil me concentrar... nunca estive tão nervoso em momento como este... nem tão excitado”, refletia o loiro, respirando profundamente no afã de se recompor. Tentou novamente: ergueu um pouco as pernas do ruivo, cuja ereção animava o esposo a que prosseguisse. Desta vez apenas a ponta de seu membro sondou o orifício, escorregadio por fluidos corporais e pelo óleo mineral que aspergira segundos antes.

— Mi... Milo... – balbuciou, mirando fixamente nos olhos turquesa do amado.

Respirando fundo, o loiro penetrou lentamente o jovem, que cerrou os dentes ante a estranha dor que se seguiu. O conde arremetia-se devagar, mas com constância suficiente para acomodar-se dentro de seu amor. A despeito de sua vontade, Camus viu-se sob grande agonia. Milo parou de avançar quando aquela agonia ficou muito patente na expressão dolorosa do outro. A ele era tão delicioso o que sentia! Porém...

— C-Camus... eu não quero causar-te dor... se sofres demasiado...

— J-já te esqueceste? Não temo a d-dor...

— Sei disso! Mas eu... eu temo causar-te dor, eis a questão – argumentou Milo, entre a angústia e o prazer.

— Milo... nos últimos tempos... tens invariavelmente aplacado minhas dores – rebateu, entre gemidos doridos – Sei que... que não será diferente desta vez... eu confio em ti.

Emocionado com tal declaração, o conde curvou-se sobre ele e beijou-o suavemente nos lábios entreabertos e gementes. Mais de si entrou no parceiro, que gemeu dentro de sua boca. Em um sussurro abafado, disse:

— Eu te amo, Camus.

O ruivo encarou-o, o ardor dentro de si expandindo-se.

— De igual modo amo-te... Milo...

Impelido pela fala e pela entrega do outro, o cavaleiro projetou-se mais, aprofundando aos poucos a penetração. Mordeu o lábio inferior, deliciando-se soberbamente.

— Aaaah... Camus... p-por Deus...

— Aaah! Milo! Humm... – ainda havia a dor, mas estar nos braços do homem que tanto amava... tê-lo dentro de si, vislumbrar seu belo rosto contorcer-se de prazer... instintivamente, moveu os quadris, o que potencializava o deleite do loiro. Com aquilo, seu membro mergulhou mais no estreito canal, fazendo ambos gemerem entre os beijos alucinados.

Levou um bom tempo, e à base de muito autocontrole, até que Milo se sentisse seguro para iniciar as estocadas, furiosamente demandadas por seu corpo.

— Aaah!! Milo!!

— Isso, meu amor... estás indo muito bem... move-te assim mesmo... ooh...

— Huumm... – ele assim o fazia; por motivo que desconhecia, a dor foi ficando menos excruciante e algo diferente veio substituí-la; a princípio, um meio termo entre o desconforto e algo bom de se sentir. Não sabia o que era mas queria cada vez mais. Contemplou o cavaleiro à sua frente, a encarnação do vigor; sua pele amorenada salpicada de gotas de suor que às suas iam se juntar, os músculos que evocavam os de uma autêntica estátua de deus grego, o belíssimo rosto decidido, resoluto, emoldurado por formosos cachos reluzentes pelas candeias. Milo... todo ele era beleza e poder. Quase sufocava ante tamanha sensação... por sua vez, Milo admirava o corpo alvo bem definido sob um ângulo inédito, entregue a ele sob frêmitos arrebatadores. Os longos e rubros cabelos se espalhavam como trilhas de sangue por sobre os lençóis níveos. Considerou o próprio falo que desaparecia quase que por inteiro na entrada avermelhada; seus pelos emaranhavam-se, escurecidos pela umidade que abundava.

— Aaah... Camus... és tão lindo... – arremetia-se sem trégua contra aquela deliciosa restrição que o engolia mais e mais. Ambos gemiam incessantemente, a volúpia nutrindo-se inclusive daqueles sons: seus gemidos, seus suspiros, seus arfares, seus corpos chocando-se no calor daquele embate cada vez mais intenso.

— Nngg... oh... Milo! – o tom modificou-se, e ele estremeceu todo. O sexo que preenchia todo seu interior, a ponto de parecer ameaçar arrebentá-lo, tocou-lhe em um ponto que quase o levou à loucura total. Lágrimas vieram-lhe aos olhos avermelhados. O loiro assustou-se um pouco, tanto pela expressão do marido quanto pela textura do que seu órgão premia. Era macio e a cada vez que ali pressionava, Camus jogava mais a cabeça para trás, desesperava-se, gemia demoradamente.

— Sentes dor excessiva? – indagou, parando de se mover. Ao que o ruivo negou veementemente, balançando a cabeça aflito:

— Não! Ao contrário... é... é muito bom... p-por favor – suplicou tenso, convulso.

Tomando novo fôlego, o conde retomou as estocadas, agora concentrando-se no ponto que, aparentemente, conduzia Camus a um verdadeiro frenesi. Vê-lo daquele jeito desconcertante exigia que travasse árdua luta para não gozar antes de seu amado. Prendeu o ar, concentrou-se na questão que fazia de vê-lo se desmanchar, se descontrolar com seu pênis ainda bem fundo nele... ainda que sobre o mesmo a pressão começasse a mostrar-se implacável. Conseguiria aguentar por muito mais tempo? O que experimentava... era acima, muito acima do que jamais experimentara!

Sentiu que Camus estremeceu mais. Lágrimas rolaram por suas faces ruborizadas.

— Mi... Milo!! E-eu... eu... – arfava, sem entender o que se passava consigo. Era como se algo incandescente se ramificasse por suas entranhas... as paredes de seu canal retal contraíram-se em torno do grosso membro que o invadia... ele mordeu o lábio para não gritar. No entanto, uma poderosa onda, um delírio supremo que dele se abateu, não lhe possibilitou êxito:

— AAAHH!!!

— CAMUS – exclamou Milo, a sensação de estrangulamento em seu pênis provocada pelos espasmos musculares do estreito canal a decretar o fim de seu autodomínio.

— Milo!!... nng... aaahhn...

Camus gozou fartamente, jatos mornos de seu esperma batizaram seus abdomens. Sem mais poder aguentar, Milo agarrou-o com força, quase esmagando o ruivo ainda sob espasmos. Experimentou um orgasmo tão potente que urrou. Jamais sentira algo sequer parecido! Inundou o âmago do amado com seu sêmen abundante, tremendo febrilmente, mas nunca largando-o.

O violento clímax fazia com que ofegassem um nos braços do outro.

Que o tempo parasse...

Que a vida parasse...

O que de melhor teriam de suas existências certamente... seria aquilo... trocaram doces beijos, suspirando ainda, pelo fôlego que ainda não fora plenamente restabelecido. Milo lambeu as lágrimas que seu amado vertera. Camus acariciava-lhe as costas nas quais mechas douradas grudavam-se pelo suor. Também ele suava, mas pela primeira vez... aquilo de forma alguma o incomodava.

Até que suas respirações se regularizassem, um longo silêncio estabeleceu-se entre eles, ainda unidos carnalmente. Após um longo suspiro, o cavaleiro retirou-se de dentro do marido, a cascata de seu gozo escorrendo por entre as pernas brancas. Deitando-se a seu lado, puxou o esposo para junto de si, acomodando-o em seu peito largo. Aceitando de bom grado aquele doce abrigo, o ruivo ajeitou-se, pleno... uma plenitude única, que se estendia sobre ambos.

— É sempre assim? – perguntou o ruivo, com voz fraca.

— “Sempre assim”, como?

— Não sei a palavra... “maravilhoso”?

Sentiu no extenso peitoral as vibrações emitidas pelo riso de Milo, que respondeu, terno:

— Contigo... creio que sempre será. Te sentes bem?

— Sim… mas todo meu corpo está a formigar. É normal?

— É sim, anjo meu... – beijou-lhe a fronte, após afastar um pouco a franja quase molhada.

Milo acariciava-lhe os ombros pálidos, e Camus traçava caminhos por sobre o torso do amado com os dedos. Entorpecidos pelo estrondoso orgasmo que experimentaram juntos, tão somente sussurravam as palavras.

E foi assim que, cinco meses após o enlace matrimonial, deu-se a real noite de núpcias dos condes de Saint-Doulchard.

Um novo começo para dois jovens inicialmente unidos por um acordo de interesses e conveniência, agora unidos pelo mais puro e genuíno sentimento... que, em verdade, há muito se enraizara em seus corações.

— Eu te amo, Camus.

— Também amo-te, Milo.

*************

Notas finais
( 1 ) Realmente, havia outras mulheres trovadoras além de Beatriz de Dia. A afirmação na história de que ela era "certamente a mais famosa" de sua época, porém, não passa de licença poética. Não possuo fontes para afirmá-lo. Contudo, para a trama, quis que assim o fosse. ( 2 ) Mais uma vez, a licença poética entrando em ação, em relação à autoria da canção e da época de sua criação. "Douce Dame Jolie" foi composta por Guillaume de Machaut (1300 - 1377), isto é, mais de 100 anos depois do ano em que se passa a fic. Ele realmente musicou o "virelai" Dame Jolie, este sim sem autoria conhecida, cujas primeiras menções datam do século XII. E então o batizou como "Douce Dame Jolie". ************* ENFIM, ESSES DOIS SE ACERTARAM!!!! xD Sim, senhoras e senhores, finalmente, após tantos reveses, obstáculos, dificuldades... Milo e Camus são, oficialmente (e oficialmente MESMO) um casal... e, ao que parece, essa lua de mel aí está apenas começando, não acham? ^^ Bem, aqui está o link para a imagem completa da capa, por Nayori (que postarei no grupo das fics) http://www.pixiv.net/member_illust.php?mode=medium&illust_id=53585112 E aqui o link do tema do capítulo, por Annwn: https://www.youtube.com/watch?v=7ZbQQaMuatE Obrigada por terem prestigiado. Até o próximo capítulo... mais uma fase que se inicia... beijo grande!