Dame Jolie
42 Uma Sombra Sobre Nós
Notas iniciais
— Filipe realmente deve gostar deveras de ser o centro das atenções; sempre que há um casamento, faz questão de chegar EXATAMENTE na hora da cerimônia religiosa. – Milo cochichou ao ouvido de Camus, que deu de ombros, sorridente.
— Ele é um REI. Que esperavas?
—Tens razão. É um rei, e não “qualquer” rei. É Filipe Augusto...
Assim como as centenas de convidados oriundos dos mais variados lugares da Europa, o casal aguardava, do lado externo da Catedral de Borgonha, que os noivos recebessem os primeiros sacramentos do cardeal. Nesse meio tempo, a imponente carruagem real, seguida por pelo menos uma dúzia de carruagens, parou defronte à igreja. Do luxuoso veículo, desceram Filipe Augusto e sua amante Inês de Merânia. Dizia-se que o monarca mantinha-se firme na decisão de contrair matrimônio com a jovem, na verdade, apenas uma menina ainda, faltando apenas o aval da Igreja, cujos representantes máximos dividiam-se sobre a delicada questão. Foram saudados por respeitosas reverências.
Não era de bom tom proceder aos ritos matrimoniais sem a presença do rei, portanto, enfim, teve continuidade a cerimônia de união dos jovens Aiolia D’Auvergne e Marin de Turenne. Foi um lindo e auspicioso cerimonial, durante o qual quem mais chorou foi o noivo, e não a noiva, como seria de se supor.
— Deve ser porque nossa querida mãe não está mais entre nós... não pôde assistir ao caçula ascender ao altar. – O Conde de Saint Doulchard tentava justificar a atitude do irmão, considerada cômica, aos presentes.
Em um gesto de elegante condescendência, “Camille” balançou sutilmente a cabeça e retorquiu:
— Ora, senhor meu marido, ficai sabendo que também os homens possuem a faculdade de emocionar-se em um dia tão memorável...
Os que estavam próximos sorriram em anuência com o discurso “da condessa”. Sem que ninguém esperasse, a voz macia de Hilda fez-se ouvir:
— O senhor meu cunhado possivelmente não concorde com isso, querida irmã, uma vez que manteve-se sisudo durante todo vosso casamento...
Os sorrisos arrefeceram-se aos poucos, inclusive o de “Camille”. Milo dirigiu um olhar venenoso à cunhada. Perto dali, Andreas, que não pode deixar de escutar, sorriu deliciado. Não se enganara, aquela recatada noviça ainda trazia debaixo do santo hábito a serpente que atraíra para si a punição do velho duque. Hilda tinha sim, seu valor, afinal! Volveu o olhar estreito de maquinações para o rei, que cumprimentava os noivos e os pais destes.
“Há de dar certo, sei disso. Agora que Filipe está aqui, é certo de que conseguirei essa notável FERRAMENTA”, pensava, animado.
— Ocorre, senhorita Hilda, que nem todos fazem opção por demonstrar em público o que lhes vai no coração. – Retrucou Milo, fitando-o com desprezo nada disfarçado. – Outros, como a senhorita, já preferem ser inconvenientes e despejar o que de torpe se lhes vai no mesmo.
O clima por ali começou a ficar pesado... Camus abaixou a cabeça, momentaneamente sacudido pelas lembranças trazidas pelas ácidas palavras da irmã. À época de seu noivado, já nutria sentimentos por Milo, e por ele era odiado com fervorosa paixão... dirigiu o olhar subitamente apagado para Aiolia e Marin, que agora recebiam os presentes do rei. Como estavam felizes! Encaravam-se com alegria e amor, terminando por rirem como crianças agraciadas por mimos.
Não experimentara aquela ventura... sua união fora selada em meio ao ódio, ao repúdio, ao ressentimento... Aiolia comparecia às próprias bodas entusiasmado, radiante, ao passo que Milo nas suas sustentara o semblante de quem esperava a própria execução. E, ao que compareceria seriam os bordéis de Saint Doulchard... sentiu a mão do esposo apertar-se na sua. Alarmado, olhou para ele.
— É inacreditável que as palavras de tua irmã tenham logrado o intento de atingir-te. – Falou baixo, em tom de reprovação.
Forçando um sorriso, o ruivo mentiu:
— De jeito nenhum! Equivocas-te, garanto-te.
— Espero que sim...
Puxou a mão do consorte; levou-a até os lábios carnudos, que sussurraram:
— Eu te amo.
Um suave beijo foi depositado na pele branca. A mágoa repentina dissipou-se no brilho daquele olhar apaixonado. Concedendo-lhe um sorriso, desta vez franco, Camus respondeu baixinho:
— Eu também te amo.
Descontente com a cena idílica, Hilda virou o rosto. Deu com o olhar atento de Andreas. Virou rapidamente o rosto, perturbada. O primo desvendava-a com facilidade assustadora...
Finalmente, o cortejo seguiu para o interior da igreja. Diante do representante de Deus, selou-se o compromisso já oficializado entre as famílias Turenne e Auvergne.
Por pelo menos três dias, o Castelo do Duque de Borgonha seria palco de celebrações e banquetes.
*************
Não era a primeira vez que Shura andava pelos corredores da Universidade de Paris, mas sempre ficava admirado com a pompa de suas instalações. Homens velhos e novos passavam para lá e para cá, vestidos com togas negras. Alguns mantinham-se sisudos, outros faziam-se bem falantes. Dentre estes, um estudante destacou-se incrivelmente, malgrado trajasse a mesma veste austera. Seu rosto alvíssimo – bem mais que o usual – e perfeito, emoldurado por delicados cachos muito loiros, constituía o único adorno com que podia contar a indumentária. Shura percebeu que os magníficos olhos azuis claríssimos brilharam ainda mais quando cruzaram com seus escuros esverdeados. Chegou a engolir em seco o constrangimento causado pelo amigo, que, ao vê-lo, gritou eufórico:
— Shura! Shuraaa! – Afrodite apressou os passos, na verdade quase correu na direção do amigo. Este não pôde deixar pôde de notar dezenas de pares de olhos curiosos sobre si... e admirativos sobre o sueco.
— Chegaste mais cedo! As aulas acabaram de findar-se!
— A reunião que tive com fornecedores de vidro para Saint-Doulchard terminou antes do que eu esperava... atrapalho? Acaso tencionavas ir a algum lugar...?
— Dirigia-me à biblioteca, porém tão somente para esperar pela hora que chegarias. – Respondeu, nitidamente alegre.
— Tens a certeza? Se porventura algum trabalho demanda tua ida até lá, eu...
Em um gesto jovial e impensado, Afrodite tomou o braço do espanhol. Sorriu, garantindo:
— Uma vez que já aqui te encontras, minha presença lá não se faz necessária. Ademais, preciso descansar um pouco meu cérebro. Estão a exigir demasiado dele.
Conquanto o gesto do ex camareiro fosse comum no ambiente acadêmico, Shura sentiu um misto de ternura e constrangimento. A resposta veio revestida de cordialidade:
— Falas como se fosses algum desprovido de intelecto. Sabemos que é justamente o contrário. Tu deténs MUITO MAIS conhecimentos botânicos e terapêuticos do que teus próprios mestres.
Alarmado, Afrodite pôs o indicador em riste diante dos lábios carmesim.
— Shura, não deves proferir semelhantes estultícias em voz alta assim. – Sussurrou-lhe o ex camareiro, percebendo olhares de reprovação sobre os dois.
Sorrindo despreocupadamente, o cavaleiro rebateu:
— Não são estultícias. São verdades, e tu bem o sabes. Salvaste a vida de Camille, e também a minha.
— Bem... o caso de Camille foi delicado, com efeito. Já o teu... apenas colhi umas ervas e produzi um remédio...
— “Apenas”... – Repetiu o espanhol, irônico.
Logo calou-se, contemplando por uns instantes a cicatriz quase oculta por espessa maquiagem. Sentiu-se pesaroso, pois que nunca deixara de se culpar por aquela marca no rosto de Afrodite.
Atravessaram o pórtico que conduzia à área externa da universidade. As folhas das árvores balançavam suavemente à brisa primaveril, fazendo chover pétalas brancas das flores que adornavam as copas. Em meio ao burburinho que se elevava no pátio, o marquês encontrou coragem para dizer:
— A cicatriz em nada macula tua garbosa estampa. Desnecessário é que te cubras com tanto pó de pérolas: estás a parecer um fantasma.
Atônito, o ex camareiro parou de andar. Por um momento, Shura achou que tivesse ofendido o rapaz. Então uma sonora gargalhada irrompeu do loiro.
— Cheguei a acreditar que dirigias-me um elogio, mas eis que este tornou-se um chiste!
Ruborizado, Shura procurou justificar-se:
— Não era minha intenção... minha intenção era tão somente assegurar que és belo mesmo sem tais artifícios. Talvez até mais.
O coração de Afrodite comprimiu-se-lhe no peito. Rogou para que a pesada maquiagem escondesse o seu nascente rubor.
— Se assim o consideras... deixarei de me maquiar tanto.
— Perdoa-me se minha opinião de amigo ofendeu-te.
— Não! Qual! Na verdade... – Quase deixou escapar um “deixou-me assaz feliz”. Não importava que fosse, como dissera, uma opinião “de amigo”. Respirou fundo e completou. – ... é pertinente. Usar maquiagem em excesso com frequência não deixa a pele respirar.
Eles encararam-se por segundos que a Afrodite pareceram horas. Então Shura voltou ao assunto anterior:
— Falando em teus feitos, ter salvado a vida da Condessa de Saint-Doulchard através de uma trepanação, antes mesmo de teres iniciado teus estudos formais de médico, atesta singularmente teu notável dom...
— Perdoai-me a intromissão. – Um jovem estudante interpelou-os. – Não pude deixar de ouvir o que o cavalheiro acabou de proferir... o senhor Afrodite... realizou uma TREPANAÇÃO?
Outros estudantes ao redor viraram-se para eles, surpresos e curiosos. Começaram a acercar-se.
— Uma trepanação? O senhor Afrodite?
— Antes mesmo de vir para a Universidade?
— Nunca nos contastes isso, senhor Afrodite!
— Bom, foi uma situação extrema... uma emergência... – O sueco erguia as mãos, sem graça com a repentina aglomeração à sua volta.
— É uma técnica delicada e mui arriscada! Muitos médicos oficializados não a dominam! – Exclamou um dos estudantes.
— Contai-nos sobre a experiência, por favor!
— Sim, por favor, senhor Afrodite!
O cerco principiou-se a fechar, todos sequiosos pelas revelações do calouro genial. Shura pôs-se à frente de Afrodite, dardejando os estudantes com um olhar ameaçador. Demandou autoritário:
— Rogo-vos que cessai o parlatório. Estais a desnortear o senhor Afrodite. Por gentileza, deixai-nos passar.
— Com uma condição, distinto cavalheiro! – Uma voz elevou-se em meio ao ouriçado grupo. Surgiu um senhor de tez amorenada, cabelos e barba brancos como a neve e olhos de um negror impressionante.
— M-mestre Constantino!... – O sueco balbuciou.
— Exijo que honre esta magnânima instituição com uma palestra sobre vossa fabulosa experiência!
— QUÊ?
Os estudantes comemoraram, eufóricos. E como é que o ex camareiro poderia negar semelhante “pedido” feito por ninguém menos que o maior médico de França, quiçá da Europa, de origem moura como o sábio do século XI cujo nome adotara?
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A cerimônia na Catedral de Borgonha não se estendeu demasiado, como era o costume de então: o mais importante consistia no acordo entre as famílias, embora, contrariando o padrão da época, aquele fora um “casamento por amor”. Obviamente, a vontade dos dois jovens apaixonados constituíra o marco inicial dos esponsais. Contudo, sempre havia conveniências a serem observadas, afinal, os noivos pertenciam à aristocracia.
Dessa forma, tiveram continuidade os festejos no Castelo de Turenne, agora com a presença do rei e de sua já célebre acompanhante. Se Paris acostumava-se à existência de Inês de Merânia, o mesmo não poderia ser dito da Borgonha, onde a cortesã punha os mimosos pés pela primeira vez. A alta nobreza local não via com bons olhos a materialização dos insidiosos rumores reais bem ali, diante de sua tradicionalíssima sociedade. Não obstante, Teobald II esmerou-se em tratá-la como se fosse a rainha da França, tanto mais porque percebeu que a moça apreciava “Camille”; além dos numerosos presentes para os noivos, Inês presenteara “a primogênita” do duque com um espetacular colar de diamantes reluzentes. O pingente, um rubi um pouco menor que um punho fechado. A audiência quedou-se embasbacada com a demonstração de amizade que nem mesmo Camus conseguia entender. O jovem limitou-se a agradecer, incerto se deveria oferecer algo em troca ou não. Então, quando estavam a passear pelos luminosos jardins do castelo, juntamente com Seika, Hilda e algumas outras donzelas, Inês indagou a Camus:
— Que é daquele vosso camareiro, que mais assemelhava-se a um deus grego? Tinha até mesmo nome de um...
— Nome de uma deusa, na verdade. – Sorriu o ruivo, entendendo enfim o presente... – A deusa grega da beleza e do amor.
— Deveras condizente, inegável é que o constatemos. Não o vi desde que cá cheguei. Acaso o escondestes de mim?
As meninas olharam para “Camille”, sem compreender as palavras da visitante.
— Absolutamente – Camus esforçou-se para alargar o sorriso. – Ocorre que Afrodite não se encontra em Turenne. Tampouco é mais um “camareiro”. Atualmente, está a frequentar a Universidade para tornar-se um médico...
— Fabuloso! Estou assaz impressionada! E em qual Universidade encontra-se o prodígio sueco?
Camus hesitou. E se Inês fosse atrás de Afrodite em Paris?
— Na Universidade de Paris. – Seika respondeu, sem disfarçar o orgulho.
— Oh... fascinante... realmente fascinante... – Murmurou Inês, com um sorriso travesso.
Bem, tarde demais. Que Shura protegesse Afrodite de qualquer investida da infanta...
— Vede, vede quantas borboletas! – Uma das pequenas damas exclamou.
De fato, pelo menos uma dúzia delas adejavam graciosas diante do extasiado grupo. Provavelmente tinham intenção de sondar as miríades de flores que se espalhavam como um tapete multicor. Intenção abandonada pela presença das moçoilas, agora nitidamente nelas interessadas.
— Não aparecem tantas aqui há meses!
— São as bênçãos da primavera!
— Sigamo-nas!
As mais novas correram animadas. A vã perseguição às borboletas converteu-se em uma divertida brincadeira de pega-pega. “Camille”, Inês e Hilda observavam as animadas meninas. A amante do rei finalmente dirigiu-se a Hilda, que até então mantivera-se calada:
— Cumprimento-vos pela generosidade de alma, senhorita Hilda. Vossa vocação para o serviço religioso manifestou-se ainda em tenra infância?
— Oh, não, minha senhora, apenas no ano passado foi DECIDIDO que eu serviria ao Nosso Senhor de maneira integral.
Por que Inês perguntara aquilo? A toda a alta sociedade francesa fazia-se notório o escândalo que se abateu sobre a Casa do Duque de Borgonha, bem quando dos esponsais “da primogênita”! E, por conseguinte, dos resultados que a ele advieram! Qual a razão de Inês inquirir semelhante tema à irmã? Indignado, Camus se perguntava incessantemente, nada alheio ao olhar ressentido que Hilda lhe dirigia.
— Admiro-vos – Prosseguiu Inês docemente. – É a ocupação mais honrosa de uma mulher na Terra. Mais até do que ser mãe.
A loira empalideceu a olhos vistos. Nunca abandonando a rosto compungido “da irmã”, disse secamente:
— Com efeito, eu não poderia almejar uma outra vida.
Risadas e palmas atraíram a atenção dos três jovens. Diante de uma grande fonte nacarada, um menestral cercado de moças e rapazes afinava seu instrumento de cordas. Seika veio correndo chamar:
— Vinde, o trovador Assis de Monteverde iniciará uma nova peça em instantes!
— Assis de Monteverde? Ele é talentosíssimo! Faz todos rirem com suas paródias! – Ajuntou uma das companheiras da ruivinha.
— Paródias...? O que aconteceu com as canções de amor? Estarão já fora de moda em vossa terra, minha amiga? – Brincou Inês, puxando Camus pela mão. – Vinde, há de ser divertido!
— Oh, com prazer... Hilda, não vens?
Contrastando com a explosão de cores e alegria, imóvel a jovem coberta de pesado manto negro permaneceu, uma mancha escura em todo aquele esplendor da juventude. Com voz lúgubre, ela respondeu:
—Divertimentos mundanos não me são lícitos, cara irmã. Aproveita TU, que tens a vida que não tenho.
E virou-se, retirando-se dali sem nem ao menos despedir-se de ninguém.
A expressão ferida de “Camille” não passou despercebida a Inês. Então, a decaída dos Turenne realmente culpava a mais velha por sua própria sentença de isolamento...
— Ânimo, minha amiga, não vos deixei enlaçar pelas mágoas de vossa irmã. Cuido que entendeis como deve se sentir uma donzela encerrada em um convento contra sua vontade.
Viva surpresa estampou-se no rosto do ruivo ao ouvir tais palavras vindas de Inês. Ora, se o sabia, por que então... Camus optou por não questionar aquela ação. Limitou-se a dizer, em tom monocórdio:
— Demonstrai sabedoria e piedade, senhora.
— E isso espanta-vos, por certo. – Riu a morena, piscando um olho. Seu riso ficava mais solto à medida que “Camille” ruborizava.
Seika caminhou resoluta até onde estavam. Com jeito sério e mãos na cintura, demandou:
— Como é? Vinde pois assistir ao trovador ou não?
— Sim, apressai-vos, ele há de começar em breve! – Ajuntaram eufóricas as meninas mais adiante.
Camus deixou que Inês o conduzisse pela mão, atento ao fato de que o gesto não o desconfortava como dantes. Partiram rumo ao ruidoso grupo que cercava o artista.
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Malgrado entretivessem-no belas damas que o rodeavam, Andreas, como de praxe, não deixava que nada à sua volta passasse-lhe despercebido. Um de seus grandes talentos como guerreiro cruzado fora permanecer sempre atento, fosse no campo de batalha ou fora deste. Essa habilidade não perecera com o fim das guerras. Desta forma, por trás de suas encantadoras interlocutoras, interessadíssimas no melhor partido ainda desimpedido de França, a figura de Hilda delineou-se, vagando como uma sombra perdida em meio àquele império de luzes. Acompanhou-a com os olhos avelã; viu-a sentar-se retraída à mesa de seus familiares, agora vazia, pois que todos se entretinham pela celebração. Polidamente, pediu licença às moças e foi ter com Filipe II, que no momento deliciava-se com a fina doçaria de Borgonha. Uma vez glutão, sempre glutão, pensou Andreas, com um cômico desdém.
— Majestade... – Curvou-se diante do rei, que sorriu abertamente àquela aproximação.
— Ei-lo, enfim, Duque de Estíria! Pensei que jamais abandonaria tuas admiradoras para vires ter com este velho amigo.
— Não quis importunar-vos, senhor meu rei. Chegastes há pouco de viagem, é mister nutrir-vos com propriedade, uma vez que...
— Ora, qual! Deixa-te de firulas! Somos mais que amigos, praticamente irmãos! Sempre terás livre acesso à minha pessoa, grande tolo! – Riu Augusto. Dirigiu um simples olhar ao Duque de Aquitânia, sentado do seu lado direito. O nobre prontamente entendeu a ordem muda. Ergueu-se, deixando vago o lugar no qual o recém chegado sentou-se.
— Se somos mais que amigos, dispensável é o título que herdei de minha falecida esposa, que Deus a tenha.
— Compraz-me teu apontamento. “Andreas” é, de fato, um nome mui belo para ser obliterado de nossas conversações...
Andreas sorriu do modo sedutor do qual Filipe jamais, jamais se esquecera. Serviu-se de vinho e despejou mais bebida na taça do monarca, que prosseguiu:
— Como tens passado? Imagino que prodigiosamente próspero e autossuficiente, afinal, tens prescindido amiúde de visitar a corte...
— Imaginava que estaríeis assaz atribulado com a questão de vossas bodas...
Filipe tornou-se sério.
— A rainha Ingeborg, na prisão, conta com mais simpatia de Roma do que eu cá fora, que tanto lutei pela França.
— Ela é amiga pessoal do Papa, soube-o.
— Bem, logo, podes inferir que tão cedo convidá-lo-ei para meu casamento com Inês.
— Confio em que tudo se dará conforme vossa vontade, esperai no Senhor. A Igreja, afinal de contas, está abaixo do Altíssimo.
Com um sorriso sincero, Augusto agradeceu a solidariedade do amigo. Este continuou:
— Ademais, o luto e as questões a ele advindas seguraram-me mais do que gostaria nas peregrinações entre Bourges e Estíria.
— Foram meros três ou quatro meses de casamento. É um luto admirável. Outrossim, agora dispões de toda a fortuna da falecida...
— Grandes venturas, grandes agruras. Mas... cá estou. E prometo estreitar nossos laços, inexoráveis, a despeito de qualquer negligência de minha parte. – Garantiu Andreas, com voz adocicada. Com um sorriso enigmático, apoiou na palma erguida o queixo levemente proeminente.
— Ademais, se mo permitis, creio que o que já experimentamos e partilhamos nesta vida deveria ser prova de minha estima por vós... – Dito isto em tom de irresistível intimidade, Andreas sorveu seu vinho, terminando por passar a língua lentamente pelos lábios rubros.
Filipe engoliu em seco ao vê-lo quase provocante como em tempos idos. Esforçou-se por parecer indiferente ao gesto do jovem ruivo. O recado, não obstante, fora plenamente transmitido.
— Homessa! Néscio seria eu se não o reconhecesse. Bem, diz-me, caro amigo, assim como a chuva cessa, um dia o luto termina. Há alguma pretendente em vista para o primogênito do Duque de Bourges?
— Regozijo-me ante a sensibilidade de Vossa Majestade em inquiri-lo. Gostaria mesmo de falar-vos sobre isso...
Foi a vez de Filipe sorver o vinho. E bem rápido.
— Sou todo ouvidos, Andreas.
— Vós e muitos outros. – Volveu o rapaz, alisando com os dedos a mecha que por vezes ocultava-lhe o olho esquerdo.
O rei pareceu pensar por uns instantes. Por fim, levantou-se, dizendo:
— Entendo. Bem, acompanha-me.
— Com muito gosto, Majestade.
Ambos retiraram-se da mesa de honra, e, seguidos por alguns homens da Guarda Real, dirigira-se a uma das saídas do Grande Salão.
Conquanto mantivesse sua atenção aos colóquios e pilhérias com seu irmão e com outros mancebos, Milo percebeu a saída do rei e do primo de Camus. Tinha conhecimento da grande amizade que os unia – em verdade, houvera bem mais que amizade no Oriente – mas isso não impediu a desconfortável sensação que vinha visitá-lo. Agora que um segredo de vida e morte residia em suas mãos, uma simples curiosidade ou mesmo uma condenação íntima convertia-se em apreensão. Tentou dizer para si mesmo que tal impressão não passava de reles cisma. Na certa, os dois haviam resolvido reviver devassidões do passado...
— Milo! O que há contigo, homem?
— P-perdão?
— O Marquês de Druroet fez-te uma pergunta. – Disse Aiolia, apontando o jovem nobre, um tanto constrangido por ter sido ignorado por Milo.
— Oh! Com mil perdões, senhor. Eu divagava momentaneamente...
— Pudemos averiguá-lo, crede-nos. – Brincou o Barão de Poitier. Eles, inclusive Milo, fingindo vergonha, riram da tirada. A verdade, porém, era que o conde nada mais sentia além de um incompreensível peso no coração. Quis sair dali, montar seu déstrier e procurar por Camus, para juntos arrancarem em uma cavalgada sem fim pelos campos do mundo. Irritava-o atualmente semelhantes ocasiões, embora fosse praticamente a única oportunidade de reencontrar alguns amigos e familiares. E por falar em Camus, onde se metera...?
—Distintos companheiros, perdoai a indelicadeza de meu irmão. Se a esposa não estiver por perto, é como se o coitado despojado fosse do hausto vital!
O comentário de Aiolia provocou novos risos, com os quais o Conde de Saint-Doulchard não se importou nem um pouco. A bem dizer, onde estava a inverdade naquela declaração? Suavemente rebateu:
— Ri-te enquanto podes, querido irmãozinho, a partir de amanhã serás tu a vivenciar o que agora causa-te hilaridade.
— Qual! Sou autossuficiente, não um cordeiro que se compraz no apascentamento, como tu...
— Por falar nisso, onde está vossa esposa, senhor Aiolia? Faz tempo que não a vejo. Nem ela nem minha irmãzinha, a espevitada Juliette. – Falou o Conde de Bourbon.
— Tampouco vejo minha doce noiva ruivinha. – Michel ajuntou, procurando por Seika com o olhar atento.
O sorridente Barão de Poitier cuidou de eliminar o mistério; soubera pela própria esposa que algumas jovens, juntamente com as moçoilas fora do alcance da visão dos rapazes, retiraram-se para os jardins do castelo.
— Mulheres! – Exclamou o recém casado, com ar de pouco caso. – Toda a diversão está aqui: comida, bebida, música, danças, mágicos, acrobatas... NÓS...
— De fato, mas vos esquecei de que também nos jardins abundam atrações, como trovadores habilidosos a entreterem os convidados com canções de amor e de amigo... – Lembrou Milo, braços cruzados e ar despreocupado.
— Disseste “trovadores”? – Aiolia arregalou os olhos. Histórias de trovadores que caíam nas graças das damas às quais se apresentavam faziam-se comuns então...
— Oh, é verdade! Soube que até o famosíssimo Assis de Monteverde veio demonstrar seus dotes! – Michel comentou, em sua inocência sem entender o semblante colérico do futuro cunhado... dando uma risadinha perversa, Milo pôs a mão no ombro do adolescente, assentindo:
— Sim, caro Michel, não vos equivocais... lá nos jardins de Turenne está a se apresentar o virtuoso Assis de Monteverde, a cujos dotes, por vós já mencionados, assomam-se um par de olhos da cor do mel, e cabelos de semelhante tom, que caem-lhe com harmonia por sobre as espáduas apolíneas e...
Aiolia foi o primeiro a sair correndo, sem quaisquer avisos ou escusas. Seguiu-o igualmente apressado Michel e mais cinco mancebos. Milo e os que ficaram gargalharam a não poder mais.
— Sois cruel, Conde de Saint-Doulchard! E quanto à vossa consorte, não vos preocupais que esteja ela diante de uma criatura tal qual descrevestes?
Ele piscou um olho maroto.
— Confio em Camille como confio em mim mesmo. É mais leal e virtuosa das companheiras.
— Assim o é propagado. – Anuiu o Conde de Chandon.
— Aliás, com todo o respeito, Conde Milo, a Condessa de Saint-Doulchard está a cada dia mais bela.
— Deveras. – Concordou o Duque de Rouen. – Pouquíssimas damas fazem-lhe sombra.
— Não permitis que vossa esposa ouça isso. – Riu Milo, entre divertido e orgulhoso.
— Também as irmãs da Condessa são graciosas. Sobretudo a senhorita Hilda, não acham?
Chandon suspirou sonhadoramente:
— Lastimável é que tenha se perdido. Agora, somente a solidão do claustro a enlaçará nas noites frias...
Milo sentiu-se subitamente incomodado com o rumo da conversa. Os nobres, entretanto, não abandonaram o tópico surgido:
— De fato, é um desperdício monumental. Penso que o Duque de Borgonha procedeu com severidade desmedida. Moça tão jovem e formosa, condenada a viver para sempre em um convento! Que pensais, senhor Milo?
— Penso que vossa piedosa complacência deve-se unicamente à aparência da dama em questão.
Os rapazes entreolharam-se, visivelmente constrangidos. Não querendo dar-se por vencido, um deles deu de ombros e ciciou:
— Arre, não há como negar que o fato beira o desperdício, sim, como habilmente avaliou-o o Duque de Rouen.
— Desperdício de quê? – Retrucou Milo, quase cedendo à impaciência. – Acaso alguém contrairia matrimônio depois do escândalo protagonizado pela senhorita Hilda?
— Com dama tão soberbamente formosa? Não duvideis.
— Eu mesmo não me importaria demasiado com rumores do passado, frente àquela beldade...
— Tampouco eu, crede-me.
Tais demonstrações alarmaram Milo. Resmungou, contrafeito:
— Não vos cria frívolos a esse ponto.
A ideia de Hilda fora do convento preocupava-o, não por si, e sim por Camus.
As cenas de Andreas cortejando a cunhada vieram-lhe à mente. E, em seguida, a imagem do mesmo retirando-se para um particular com o rei...
Seu cismar intensificara-se tanto que seu olhar tornara-se sombrio de tal forma que os jovens resolveram mudar de assunto.
Todos sabiam que não era nada sábio enfurecer o Conde de Saint-Doulchard...
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O mais suntuoso dos apartamentos do Castelo de Turenne fora obviamente reservado para o rei e sua sua amante (para ele, sua noiva). Tapetes orientais macios com as crinas dos mais preciosos corcéis adornavam paredes e assoalho, conferindo agradável tepidez ao aconchegante ambiente. Estatuetas de jade enfileiravam-se por finos aparadores de eucalipto entalhados em ouro. Suave perfume desprendia-se dos círios que ardiam morosamente em candelabros de prata. Defronte à lareira adornada por relíquias variadas, Filipe Augusto deixava-se servir pelo amigo de longa data... e outrora... um amante circunstancial... estirado no canapé marroquino forrado de veludo púrpura, ele suspirou com lânguido prazer.
— Palavra de honra, fizeste-me grande favor retirando-me um pouco da festa. Sequer tive tempo de descansar...
— Vossa Majestade deveria perder a mania de sempre chegar aos eventos em cima da hora. Tivesses vindo anteontem ou pelo menos ontem, terias repousado com propriedade. – A sós, Andreas assumia postura mais relaxada com o monarca, chegando a dispensar o tratamento mais polido.
— Hábito seguramente forçoso, admito-o. – Respondeu Augusto, rindo de modo jovial. Brindou com o ruivo, que mantinha-se em pé.
— E bem sei que não deténs a menor intenção de mudá-lo.
Andreas tinha um dos joelhos apoiado displicentemente na cama. Encarando-o, Augusto disse:
— Continuas perspicaz. Perspicaz e belo... – Pigarreou. Não tinha intenções para com o rapaz. Não mais, nunca mais... – Querias falar-me em particular. Cá estamos. Sozinhos.
A palavra semeou-lhe arrepios pelo corpo. Consciente do efeito que provocava no rei, Andreas sentou-se displicentemente na cama, tomando o cuidado de separar bastante as pernas. Apenas quando percebeu que angariara a lúbrica atenção de Augusto, respondeu:
— Não pretendo estender-me demasiado. Acredito que nem mesmo tu disso agradar-te-ias...
— Não mesmo... – Simplesmente não conseguia desviar o olhar daquela protuberante região, revelada pela justeza das calças vermelhas por baixo da túnica cerúlea.
— Pois bem, eis minha demanda: já que em tua sagacidade de raposa veloz arrebataste-me a primogênita do titio Teobald, bem poderias compensar-me com a filhinha perdida do velho, não?
Somente aquelas palavras fizeram Filipe desviar a atenção das partes íntimas de Andreas para seu semblante quase sereno.
— Que dizes? Estás interessado na moça? A filha de Teobald que caiu em desgraça?
— Estou. Não como imaginas, mas estou.
— Receio não estar a compreender.
Andreas levantou-se. Foi até a jarra de vinho. Serviu-se de mais, e desistiu de fazer o mesmo por Filipe ao ver que o cálice nas mãos do rei ainda estava cheio.
— Não acuso-te. Faria o mesmo. Contudo, também eu tencionava entrar para a mais influente família de França, providencialmente destituída de herdeiro varão. O filho de teu primo distante garantiu-te a primazia, e devo parabenizar-te pelo expediente. Inspirou-me, a bem dizer. Agora que sou desimpedido, quero desposar a segunda filha do Duque de Borgonha.
Estupefato, Filipe ergueu-se do canapé, esquecendo-se do vinho.
— Andreas, a moça é uma NOVIÇA. Será freira! Teobald encerrou-a em um convento... de que forma desposarás uma mulher consagrada à Santa Madre Igreja?
— Tu és meu amigo... mas antes... tu és O REI. Estou certo de que podes fazer algo em meu favor. – Falou o ruivo, encarando-o de maneira quase dominadora.
— Sim, eu sou o rei... mas até o rei deve prestar contas à Igreja! E... e a questão de Ingeborg deixou minhas relações estremecidas com a sacrossanta instituição...
— ÉS O REI – Insistiu Andreas, enfático. – Estou certo de que és capaz de um ato simples como retirar uma donzela que, inclusive, está CONTRA A SUA VONTADE encarcerada em um convento.
Gesticulando, Filipe não cedeu:
— Não posso mais me indispor com Roma! Entenda-me, quero CASAR-ME com Inês, e isso já está rendendo-me contendas suficientes com a Igreja! Não será enfrentando-a abertamente, para satisfazer à vossa justa porém infrutífera vontade, que conseguirei dobrar o Papa...
— Queres mesmo casar com a fedelha? – Zombou Andreas, tirando o gibão de veludo marrom de cima de sua túnica. – Por ela, então, hás de menosprezar a súplica de um amigo fiel e somente A TI dedicado?
— Eu a AMO, Andreas! Não permito que te refiras a ela dessa forma!!!
Em um gesto arrogante, Andreas chegou mais perto do rei agarrando-o pelos colares.
— E acaso aquela criança pode dar-te o que já te dei? Pode, Filipe Augusto?
O rei titubeou ante aquela aproximação. Pôde sentir o calor do corpo que por tantas vezes, em um passado não tão distante, sobrepôs-se ao seu e o levou a deleites inimagináveis. Entreabriu os lábios trêmulos, inebriado pelo cheiro almiscarado do Duque de Estíria.
— Ela é bem hábil nas artes do amor... – Murmurou, quase sem fôlego. – Além de verdadeiramente espirituosa e admirável... por que seria tão difícil acreditar que eu poderia amá-la? Estou arriscando minhas relações com a Igreja por ela!
— Eu não exigiria tanto. – Andreas sussurrou perto da boca de Filipe. – Peço apenas que utilize de sua autoridade de monarca para que tire Hilda do convento e ma entregue.
Sentindo-se fraquejar, o rei semicerrou os olhos ao sentir sobre os seus os lábios do jovem. Ondas de calor percorreram-lhe a espinha e o ventre. Sabia que capitularia. Por mais que amasse Inês... seu corpo ainda tinha impregnado em si a saudade do cavaleiro que o fizera gemer e gritar nos acampamentos do Oriente.
— Pretendes comprar meu favor com tuas seduções? – Ciciou, tão logo libertou-se do beijo do audaz ruivo.
Andreas sequer respondeu. Dominou o monarca de tal maneira que em segundos estavam despidos na enorme cama do luxuoso quarto. Não foi nada custoso possuir o governante de França, custoso foi para Filipe conter os gritos que gostaria de ter libertado mediante o estrondoso prazer a que o duque o conduzia.
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Quando Camus retornou ao Grande Salão com suas acompanhantes, deparou-se com a expressão sombria de Milo, que estava de braços cruzados em um canto, distante de tudo e de todos. Preocupado, foi até ele. Será que estava aborrecido com sua demorada ausência?
— Milo? Está tudo bem?
O cavaleiro virou-se para ele, sem que suas feições se suavizassem.
— Milo? – Repetiu o marido, intrigado.
“Eu não sei. Eu verdadeiramente não sei. Parece-me que há uma sombra sobre nós.”, foi a resposta mental de Milo. Mas a que saiu de sua boca foi:
— Está sim. Divertiu-se no jardim?
Um sorriso terno de Camus antecedeu a doce resposta:
— Sabes que sem ti isso não é possível.
— Então por que te demoraste tanto? – Volveu, irritado, em um tom tão abrupto que assustou o ruivo. Respondeu, a surpresa sobrepondo-se a qualquer indignação que poderia nascer:
— Eu estava com minhas irmãs, apenas por isso.
Milo fitou-o de modo indefinido. Então abraçou-o fortemente. Camus nada compreendeu. Correspondeu ao abraço, confuso. Sentiu os dedos de Milo fechando-se em seus cabelos.
— Promete-me, eu te suplico... – O loiro sussurrou ao seu ouvido. – Promete-me...
— Qualquer coisa – Balbuciou Camus, cada vez mais intrigado.
— Promete-me que nunca irás para longe de mim... promete-me que sempre hás de deixar que EU te proteja.
“Por que está me pedindo isso? O que está acontecendo?”, foi a resposta mental de Camus. Mas a que saiu de sua boca foi:
— Eu prometo. Nunca, em nenhuma circunstância irei para longe de ti. NUNCA.
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Hipnotizado pelo sólido e vigoroso corpo nu desfeito entre os lençóis, Filipe quase não ouviu a indagação, murmurada pelos lábios nos quais vislumbrava-se resquícios de gozo ressequido:
— Qual é, enfim, tua resposta?
O monarca resistiu ao ímpeto de atirar-se novamente sobre ele. Sorriu debilmente ao responder, ainda ofegante pelos sucessivos e inigualáveis orgasmos:
— Tens minha palavra: hei de entregar-te a senhorita Hilda. Será meu próprio presente de casamento.
Andreas puxou-o para si, sorrindo com dúbia malícia.
— Eu não poderia almejar melhor presente, Majestade...
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