Dame Jolie

43 Esconderijos e Armadilhas


Notas iniciais
Gente, MIL PERDÕES pela demora RIDÍCULA! Ain, seis meses... tanta coisa aconteceu... estes seis meses equivaleram a um ano inteirinho para mim, tanta coisa... mas, bom, o que importa é que CÁ ESTÁ novo capítulo de Dame Jolie... espero que gostem. Apenas duas explicações no finalzinho, tá? Boa leitura!

No lado norte da cidade de Paris, um apressado Shura tentava não se deixar subjugar pelo mau cheiro esmagador que emanava das vielas caóticas por onde passava. Impressionante como a cada ano que passava, Paris conseguia ficar mais fétida! Estivera em vários cantos pelo mundo, e podia jurar por sua vida que não havia paragens que oferecessem maior suplício às narinas de um homem civilizado como o centro nervoso da França.

Tal particularidade devia-se justamente a isso: ser ali o centro nervoso da França. Não, urgia fazer-lhe justiça: da Europa. Prestes a se tornar a cidade mais populosa da Europa (1), dava mostras de não abarcar a responsabilidade de reunir sob suas asas tantas almas. Convertera-se capital durante o reinado de Luís VI, no início do século XII, o que atraíra multidões para aquela Canaã de oportunidades em uma era de renascimento (2). Com Filipe Augusto, o êxodo intensificou-se: o monarca erigiu muralhas cercando Paris, e a promessa de segurança permanente, atrelada à de prosperidade, promoveu novos êxodos à cidade. Nobres, burgueses, artesãos, camponeses, cortesãs, andarilhos, maltrapilhos, a variedade foi garantida, e quem caminhasse pela cidade podia senti-lo. Conviviam em grotesca simbiose ricas edificações e sobrados caindo aos pedaços, finas damas e andrajosas plebeias, elegantes cortesãs e espalhafatosas meretrizes, garbosos gentis-homens e nauseabundos mendicantes, nem sempre, claro, exclusivamente os extremos: em seu meio, comerciantes e trabalhadores que, nem lá nem cá, desfrutavam de relativa estabilidade, enquanto atiravam, sem cerimônia, às ruas, seus dejetos pelas janelas. Sim, seus urinóis eram assim esvaziados, como quem encontra moscas mortas em suas venezianas e as descarta no ar. O cheiro fazia-se insuportável! Shura sobraçava pacotes de encomendas feitas por Afrodite ao boticário da Rue Deux Champeaux, certo de que chamava a atenção dos transeuntes. De quando em quando, um deles interpelava o espanhol, ora com ofertas de serviços diversos, ora com pedidos de esmolas. Estes eram a grande maioria; o marquês acatou alguns, a fim de cumprir com seus deveres cristãos, contudo, viu-se na urgência de rumar logo para a residência que ocupava desde dezembro, com Afrodite, pois que, nem mesmo sua generosidade daria conta de TANTOS necessitados. Viu um açougueiro deitar ossos e vísceras aos cães que marcavam território defronte ao seu estabelecimento. Rapidamente, perto de uma dezena de seres humanos ali se acotovelaram, disputando com os esquálidos cachorros aqueles restos descartados. Shura franziu o cenho, em uma instintiva reação de piedade e repulsa. Como era possível, tanta miséria, justamente na capital francesa!

“Justamente por isso, por ser a capital. Como o melhor manjar do banquete atrai maior quantidade de moscas”, respondeu a si mesmo, evocando as delícias de sua cálida terra natal e também a pureza bucólica de Saint-Doulchard. Bem, teria que suportar aquela terra não muito agradável por pelo menos mais quatro anos, até que o amigo se formasse médico na Universidade de Paris.

O caminho foi-se tornando menos caótico, com residências mais arranjadas e pessoas mais respeitáveis nas ruas menos sujas. Das árvores que permeavam as alamedas caíam florezinhas roxas e lilases, indo juntar-se às que jaziam por entre as rachaduras do chão pedregoso. Shura divisou o solar, com alívio de um náufrago que em alto mar enxerga a terra firme. Cumprimentado pelos guardas, ganhou acesso pelo estreito pátio arborizado que levava ao interior da casa de trezentos anos. Pela escadaria de madeira finamente trabalhada pelos carpinteiros enviados por Milo, Shura chegou ao segundo pavimento. As paredes do corredor faziam-se alaranjadas pela luminosidade oferecida pelos coloridos vitrais. Foi até o quarto do amigo e, antes de abrir a porta, ouviu-lhe a voz, solene e melodiosa:

— ... creio, outrossim, que malgrado toda técnica de que disponha o cérebro humano, far-se-á sempre mister componentes de excelente procedência nas confecções dos medicamentos... destarte, a um bom médico há que comparecer um bom...

Parou de súbito ao notar-se observado. Voltou-se para onde Shura permanecia, com um discreto sorriso. Virou-se com presteza, temeroso por seus rubores, tão frequentes ante aqueles olhares provenientes do homem que secretamente amava.

— Oh, retornaste, meu bom Shura! Perdoa-me, não dei-me conta de tua chegada, de forma que continuei...

— Nada tens que te escusares, estavas ocupado, bem o vi... e ouvi.

— Com efeito, estava a repassar a palestra que hei de proferir na Academia.

— E estavas fazendo-o com distinção, pela... quarta vez? Quinta vez? – O marquês continuou a sorrir, depositando os embrulhos sobre a mesa de tampo marmóreo no canto do recinto.

— Nunca fiz nada semelhante, vejo-me na obrigação de treinar sem descanso. – Justificou-se o ex-camareiro.

— Poderia apostar meu espadim que já decoraste algumas passagens.

— Não o faças, ficarás sem ele.

O espanhol deixou escapar uma risada curta.

— Aí está o que pediste.

— Eu disse que um serviçal poderia ir pegar...

— Um serviçal não seria de todo confiável para transportar tão importante carga. Sempre pedirás a mim. E se adulteram uma das substâncias para cometerem contra ti um motim? Ou se apoderam de um pouco de tais venenos para se insurgirem contra nós.

Desta vez foi Afrodite que riu.

— Não o sabia tão desconfiado de tudo e de todos!

— Desconfiado, não. Precavido.

— Bem, bem, és um cavaleiro, afinal, não poderia ser diferente. Mas creio que tu superas o que deles alguém poderia esperar no quesito “precaução”.

— És enviado do Conde de Saint-Doulchard, governante do Condado de Saint-Doulchard, genro de Teodoro II, homem mais rico de França. Não és apenas “Afrodite”, lembra-te disso.

O loiro fez um muxoxo.

— Claro, nunca me esqueço de minha insignificância.

— Não foi isso que quis dizer – A pressa em esclarecer, e a expressão constrangida de Shura encheram de calor o peito do ex-camareiro. Este sacudiu a cabeça, displicente, dizendo:

—Não careces de ficar com essa cara. Também eu não quis dizer isso para te diminuir. Escuta, Shura, tem outra coisa que desejo falar-te, e com urgência.

— Sou todo ouvidos.

— É sobre os ratos desta casa...

— Outra vez, apareceu algum?

— Algum! Três, somente no período em que fora estiveste. Palavra de honra, nunca vi nada igual, dá-me real pavor. Nunca vi tantos ratos em uma habitação.

— O problema não é da habitação. É desta cidade imunda. Certamente, há de ter uns dez ratos para cada habitante.

— Bom, não quero mais ver os sete que me restam hoje. Ontem vi bem mais que... oh, vê! – Gritou, apontando para a janela – Que te falo?!?

Um abjeto roedor ousada penetrar no quarto do sueco pela janela aberta, farejando no ar o que justificasse sua ousadia.

Shura tomou de uma cadeira e avançou para o animal, que escapou por onde veio. Praguejou vivamente, arrependido de não ter sacado da espada para abatê-lo. Mas, pela Virgem Maria, trespassar pelo fio de sua santa lâmina um reles rato...!

— Não tenho paz – Choramingou Afrodite – Logo, logo, há de aparecer outro desses demônios. Temo que um dia, me carreguem até o Sena!

— És um exagerado...

— Odeio-os!

— Acaso achas que são meus amigos?

— A julgar por tua complacência para com a presença destas bestas...

Sentiu o gato amarelo, gordo como um frade, esfregar-se-lhe nas pernas antes de responder:

— Que posso mais fazer? Trouxe-te este gato, que só faz engordar tal qual um porco para um casamento, e eis que não é capaz de pegar um único rato que apareceu-nos à luz do dia.

Afrodite pôs-se a acariciar o roliço animalzinho, que miou languidamente.

— Shura, Jeune está rotundo desta maneira exatamente por pegar tantos ratos. O coitado já deu deu conta de tantos que ficou assim. Foi a quantidade absurda de ratos nesta casa que deixaram-no assim, não o ócio ou gulodices, como estás a sugerir. – Esclareceu, em defesa do bicho ronronante.

— Bem, se foi demais para ele, podemos arrumar outro...

— Não quero outro gato, só não quero mais ver esses repulsivos ratos em meus aposentos! Chegará a noite em que não poderei sequer dormir aqui, tamanho pavor! – Manteve-se irredutível. O marquês disto tomou pronta ciência.

— Está bem. Verei o que posso fazer. Procurarei um exterminador de ratos amanhã mesmo...

— HOJE.

Shura ergueu as mãos para o céu, em desespero.

— As coisas não podem ser resolvidas assim de imediato! Não possuo muitos contatos na cidade, e necessitamos de um profissional idôneo. – Argumentou, afastando-se de Jeune, que deixava pelos em suas botas de feltro marrom.

— Bom, que seja o mais breve possível! De minha parte, recuso-me a pernoitar neste quarto enquanto estes ratos não forem totalmente aniquilados!

— Pois muito que bem, dormirás no meu quarto...

— O... o... o q-quê? – O sueco quase teve uma síncope ao ouvir tais palavras. Que logo tiveram sua complementação:

— ... e eu dormirei no teu. Estás satisfeito?

Corando como um pimentão, o ex-camareiro explodiu:

— Acaso uma simples troca de aposentos resolverá o problema destes malditos ratos?!?

— Decerto que não...

— Então por que o sugeris?!?

— Porque declaraste tua recusa em dormir aqui, a partir de hoje à noite.

Afrodite considerou-o, balançando a cabeça.

— És tão pragmático que beiras o ingênuo... ora, há de ter ratos eu teu quarto também.

— Sim, há.

— LOGO, CONCLUI-SE QUE DE NADA ADIANTARÁ TUA ESTAPAFÚRDIA IDEIA!

Não restou saída para Shura senão colocar as mãos nos ouvidos, a fim de protegê-los daquela iracunda réplica. Apressou-se em dizer:

— Está bem, está bem! Aí tens na mesa teus produtos botânicos e químicos. Sairei agora mesmo em busca de um exterminador de pragas.

— Sim, vai-te logo, já, imediatamente!!!

E, mais calmo:

— Admira-me que um homem civilizado e culto como tu não te molestes da presença de tais monstros.

— Tenho o sono pesado, a menos que eles não me acordem, não me incomodam.

Afrodite fez uma careta tão desgostosa que Shura pediu licença e saiu do quarto com incrível celeridade. Iria naquele exato instante buscar alguém que pudesse livrá-los dos indesejados roedores. Riu sozinho ao descer as escadas, pensando em como a cena passada assemelhava-se a uma comédia de casal unido pelo matrimônio. Afrodite, a dama voluntariosa e resmungona, e ele, o marido, que para desfazer-se de maiores incômodos, acata da mulher as ordens, por mais tirânicas que sejam.

*************

Em Turenne, a celebração pelas bodas de Aiolia e Marin findava-se a cada partida de uma comitiva. Os nobres e eclesiásticos partiam aos poucos; as núpcias do jovem casal foram efusivamente comemoradas, constituindo talvez o ponto máximo daqueles quatro dias de festas. As despedidas não se alongavam mais que o necessário, pois que faziam-se numerosas, e não era de bom-tom prender demasiado a atenção dos anfitriões, que ainda tinham que cuidar daqueles que permaneciam no Castelo.

Quando chegou a hora de Durval e seus filhos partirem, respirou-se aliviado entre os Turenne e os Auvergne. Infelizmente, em alguns meses, seriam obrigados a aturá-los mais uma vez, pois que a próxima a contrair casamento seria a caçula Seika, com o jovem marquês de Toulose, Michel. Trocaram beijos, abraços, recomendações. Andreas fitou sua prima Hilda e, ao invés de dizer-lhe “adeus”, disse-lhe “até breve”, o que a loira interpretou como uma crença do ruivo de que ela estaria presente no próximo grande evento familiar. Ledo engano, pensava ela: não tinha planos de sair de seu claustro tão cedo. Talvez nunca. Se em um primeiro momento, rejubilara-se por ter tido a oportunidade de ali estar, mais uma vez com os seus, em meio à fartura e a opulência, agora já não possuía semelhante ânimo. Esperava encerrar-se novamente na solidão e nunca mais dela sair. Deixava a felicidade e a ventura para suas irmãs. Ela jamais teria direito, e somente se subjugaria a maiores sofrimentos se imaginasse o contrário. Despediu-se friamente, quando chegou a sua hora de partir. Camus tentou não se envolver, sabendo que sua tristeza entristeceria Milo. Ao menos, tentou...

Ao cabo de seis dias, a carruagem do Conde de Saint-Doulchard atravessava os campos banhados de luz, por sobre os quais miríades de dentes-de-leão planavam rodopiantes. Percebendo o amado taciturno durante quase toda a viagem, Milo não empreendeu investidas lascivas sobre ele. Mas que não durasse muito; tinha já fome do corpo de seu ruivo, a quem certamente amaria muito, por horas e horas naquela noite de abril.

*************

— A esta altura, minha pequena Marin é uma mulher, e não mais uma menininha.

— Ressentes-te de não ter podido estar presente, pois não?

Afrodite pousou o copo de vinho sobre a mesa. Cerrou os olhos sonhadoramente antes de responder:

— Sim, seria impossível sentir-me de outro modo... vi a pequena crescer, e, das três irmãs, era a mais próxima a Camille. Entretanto, ser-me-ia contraproducente ausentar-me dos compromissos acadêmicos por tanto tempo.

Shura serviu-se de mais ganso ao molho de vinho e cogumelos.

— Ademais, com o negócio da palestra, tornaste-te ainda mais ocupado. – Arrematou.

— Com efeito, negócio no qual fui metido por TUA causa.

— Já pedi-te perdão.

— Eu sei. Mas nunca será suficiente.

— És mui pouco razoável – Riu o espanhol. Cortou outra fatia de pão de entregou-a ao amigo, que aceitou contrafeito. – Tal experiência far-te-ás mais visado e admirado como o grande profissional que já és.

— Dispenso tuas bajulações. E... oh. Escuta.

— O quê?

—Ratos. Posso ouvi-los zanzarem no andar de cima!

Após um longo suspiro, Shura ordenou a um dos empregados que alimentava o fogo próximo à mesa onde faziam a refeição:

— Antonin, vai ver se consegues dar cabo deste que está a passear lá em cima.

— Sim, meu senhor. – O rapaz, moreno e espadaúdo como um camponês, acatou, tomando uma vassoura nas mãos. Assim “armado”, desapareceu da cozinha, deixando os donos da casa e duas criadinhas que lhes serviam.

— Não poderemos contar eternamente com um gato obeso e vassouras. – Murmurou Afrodite.

— Eu já entrei em contato com uma pessoa que pode fazer o serviço.

— Verdade? – O rosto do loiro iluminou-se de esperança.

— Sim, contudo, teremos que aguardar alguns dias. O filho está para nascer por estes dias, e ele quer ficar em casa, certo de que finalmente ganhará a dádiva na figura de um filho homem.

Curioso, o sueco parou de mastigar.

— Como é isso?

— É conhecido do açougueiro Bernard, da Rue de La Mesure. Realiza trabalhos como exterminador de ratos, gambás, escorpiões, aranhas... fez uma promessa a Santa Edwiges para que o próximo rebento seja um varão. A esposa só lhe deu filhas mulheres. Sete...

— Isso assemelha-se a um conto. Sete mulheres e, por fim, o varão... por que é tão importante para essa gente que o filho seja isto ou aquilo?

— Bom, um filho varão tem muito mais valor que uma filha mulher.

Afrodite encarou-o, boquiaberto.

— Mais uma vez, surpreendes-me hoje. Não te cria tão ultrapassado!

— Não me refiro a aspectos humanísticos, e sim a patrimonias. O irmão também não teve filho varão. Há uma sina sobre a pobre família; somente mulheres nascem ali. O primeiro homem que dos mais velhos nascer, com certeza dirigirá os negócios da família.

— Que tolice, há tantas mulheres que dirigem negócios. Soube que quem fornece corantes de tecidos finos a algumas famílias de nobres da Conciérge é uma mulher, uma nobre falida que vive justamente em tua terra...

— Deves estar a te referir de Natassia....

— Pois então. Mulher e bem sucedida. Independente, dona de seu próprio negócio. Em tais ramos, requer-se tutano, e não pênis ou vaginas.

Shura enrubesceu terrivelmente.

— Agora és tu quem me surpreendes... precisavas recorrer a tais termos?

Sentindo-se vingado, Afrodite riu bastante. Serviu-se de mais vinho, deliciado com aquela atmosfera tão íntima que vinha experimentando ao lado do Marquês de Aguillar. Conquanto lhe fossem saudosos Saint-Doulchard, Camus, Milo... estar vivendo a sós com Shura aqueles 5 meses já configurava a melhor época de sua vida.

— És deveras pudico para um homem que é o melhor amigo de Milo – Comentou, distraidamente. – Afora o fato de possuíres a cabeça dura como ele, não consigo perceber o que poderia atrair um no outro.

— Milo é impulsivo e descuidado, porém honrado, bravo e leal. A bem dizer, por mais que possas não acreditar, não eram qualidades abundantes nas Cruzadas.

Tomando um ar subitamente sério, o sueco acrescentou:

— Já percebi que ele não gosta de falar sobre tais épocas. Nem mesmo a Camille.

— Não são assuntos aprazíveis a serem tratados com damas.

— Camille não é exatamente uma dama comum – Sentiu-se descuidado ao dizer tais palavras, as quais, entretanto, eram tidas como uma notória verdade. – tu bem o sabes.

— É uma dama inteligente, versada em habilidades incomuns às mulheres normais, admito-o. – Shura referia-se principalmente a técnicas de esgrima, pelo Duque de Borgonha ensinadas, mas não se esquecia da exímia capacidade nos jogos de tabuleiro, na leitura e declamação, nas conversações quando “Camille” demonstrava domínio das ciências humanas “como um verdadeiro homem”.

Ele sorveu um pouco de vinho antes de concluir:

— Não obstante, ainda é uma mulher.

— E isso a desqualifica como confidente do esposo – Disparou Afrodite.

— Camille já é uma esposa como raras devem existir por sobre a Terra. Não precisa conhecer os pormenores sombrios da vida de seu consorte para ter sua fidelidade atestada.

— Pormenores... sombrios? Milo?

— Nada de que dependa a felicidade de ambos. Tudo deve ficar bem soterrado, como está... perfeitamente.

— Arre, que inundas-me de curiosidade! Agora quero EU saber desses “pormenores sombrios” de Milo, ora, se não quero – Afastou o cálice e a escudela para cruzar os braços sobre a mesa e dardejar sobre o marquês um olhar inquisidor.

Nada intimidado, Shura soltou, simplesmente:

— São segredos de Milo, não meus. Não cabe a minha pessoa revelá-los, a quem quer que seja...

— Ele tem mulher e filhos no Oriente?

— COMO? Não, não é nada disso!

— Com mil demônios, não me diga que ele portou-se como esses bestiais guerreiros em campo de batalha que se aproveitam das...

— Afrodite. Ou cessas o assunto, ou cesso meu colóquio contigo.

O loiro deteve-se, abismado. A fim de amenizar o mal estar instaurado, o espanhol argumentou:

— TODOS temos segredos. Estou certo de que também tu os tem, pois sim?

— Deveras... é que... bem. Espero que não seja nada que possa fazer Camille sofrer.

— Camille tem sido A CURA para esse sofrimento, tenho certeza.

— Por favor, cala-te, que ardo de curiosidade que não será sanada! – Fez um muxoxo; pegou a taça de volta e encheu-a quase até a borda. Shura riu levemente.

— Afrodite, lembra-te de que disse que levar-te-ia para conhecer minha terra no verão?

O coração do ex-camareiro disparou loucamente.

— Haverá algum empecilho?

—Não de minha parte! A Universidade estará fechada no alto verão. Teria eu imenso gosto – Fez o possível para não parecer empolgado demais, contudo, pelo sorriso de Shura, sabia que estava a fracassar em seu intento.

— Ademais, pretendo utilizar esse período para fazer uma nova reforma neste sobrado. Depois de exterminados os ratos, provavelmente algumas coisas terão de mudar...

— Não compreendo.

— O excelente exterminador de pragas, conhecido do açougueiro de que te falei, seu nome é Paul Roderick. Tão logo o filho nasça, virá. Vive a espantar animais indesejados das residências com suas misturas tidas como “milagrosas”.

— Poderá ser perigoso para Jeune?

— Não estou bem certo, mas, afinal, queres o gato e os ratos ou nenhum...?

Afrofite ergueu-se, procurando o gato amarelo. Não o via desde o dia anterior.

— Afeiçoei-me ao bichano, Shura, não quero que ele morra...

— Neste caso, terás que levá-lo embora. Roderick usa cicuta em suas misturas, se Jeune ingerir, será fatal.

— CICUTA? Bom, definitivamente, isso acabaria com os…

Afrodite deu um grito ao olhar atrás da porta. Shura, em um salto, chegou até ele, pensando se tratar de um rato.

Jeune jazia morto, estirado, crivado de mordidas. O sangue, escuro e endurecido, não deixava dúvidas de que já deveria estar ali há várias horas.

— JEUNE! JEUNE, oh, pobrezinho!!! Jeune... – Afrodite chorava, amparado pelo amigo. – Malditos ratos, oh, como eu os odeio, odeio mais do que NUNCA, quero TODOS MORTOS, Shura, custe o que custar!

— Não te preocupes, meu caro, amanhã mesmo Roderick estará aqui. Dir-lhe-ei que, se não vier, daremos o trabalho a outro. Quando retornares de tuas aulas, todos ratos estarão mortalmente envenenados.

Fungando tristemente, o sueco choramingou:

— Bom... agora não precisamos mais nos preocupar se o veneno fará mal a Jeune ou não... pobrezinho, Deus do céu!

— O pobre animal já não aguentava caçar tantos, foi uma presa fácil...

— Daqui a pouco, esses ratos hão de devorar a NÓS!!!

— Por favor, não chores mais, tudo há de ser resolvido...

O toque aveludado dos dedos do espanhol em seu rosto úmido enregelou a espinha de Afrodite. Este enrubesceu prontamente e procurou afastar-se, antes de que OUTRA reação pudesse ser notada pelo cavaleiro. Deus, que imundo... seu animalzinho morto e comido por ratos, e ele ali se excitando daquele jeito...!

— Será muito bom visitar tua terra. – Deixou escapar, sem saber exatamente por quê. – Não gosto tanto de Paris quanto julguei que haveria de gostar.

— Minha terra é como o sol, e Paris é como um pão embolorado. Hás de conferir por ti mesmo.

— Terá teu pai enfim arranjado-te uma noiva?

Shura encarou de maneira tão enigmática que logo se arrependeu por aquela indagação, muito sem propósito, aliás!

— Meu pai sabe que somente me casarei por amor. Casamentos arranjados não são para mim.

“Cogita, pois, casar-se um dia”, pensou o loiro, melancólico. Sorriu.

— Perdoa-me, não sei o que digo. Creio que foi o impacto da morte do meu querido bichano.

— Certamente que sim. – Shura apressou-se em concordar. – Bem, chamarei uma criada para cuidar desse cadaverzinho...

— NÃO vais descartá-lo como lixo qualquer! Quero enterrá-lo no jardim!

— E essa, agora... Afrodite, temos que cremar o bicho para não atrair mais pragas.

— Oh. Tens toda razão. – Concordou, num suspiro dolente.

E assim foi feito. Afrodite decidiu, como muitos que perdem um animalzinho de estimação, nunca mais ter nenhum enquanto vivesse...

*************

Em Saint-Doulchard, Camus e Milo dormiam sob a luz da lua, após terem se amado magistralmente até caírem de exaustão, tragados pelo sono no qual eram então embalados. A noite estava fresca, o suficiente para poderem deixar as janelas abertas, malgrado o verão ainda se encontrasse um pouco distante. O Conde de Saint-Doulchard remexeu-se um pouco sobre os lençóis, acordando logo em seguida. Respirou aliviado, vendo que seus movimentos não tinham despertado o amado. Contemplou-lhe a face adormecida, imaginando que um anjo dormitando por sobre as nuvens do céu tivesse semelhante aspecto. Teve uma sede atroz. Resolveu levantar-se para se servir de um copo de água. Dirigiu-se até uma mesa extensa próxima a uma das janelas, por onde uma suave brisa entrava, graciosamente sorrateira. Bebeu a grandes goles, ansioso por voltar para junto do homem que amava mais que sua própria vida. Por que a ansiedade? Ora... haveria um “porquê”? Camus era-lhe mais importante que o ar que respirava. PRECISAVA tanto dele, a cada minuto, a cada segundo...!

Malgrado tal resolução fosse-lhe lógica, viu-se perguntando “por que” se sentia daquela forma.

Como se fosse perder Camus.

Não era de agora.

Desde Turenne.

Foi algo que passou-lhe como um vento gelado que causa desagrado, que arrepia os braços... bem, uma hora o arrepio cessa. Os pelos voltam aos seus lugares.

Mas... eis que, novamente, o arrepio...

Desta vez era MESMO um vento gelado. Onde estava a brisa aprazível de segundos atrás...?

Lançou o olhar para a imensidão escura lá fora.

Não. Não tão escura.

A lua cheia iluminava as silhuetas das árvores, o dorso sinuoso das montanhas... os contornos da floresta...

— Milo?...

Virou-se, assustado como quem é pego em falta.

— Está tudo bem? – O ruivo permanecia deitado.

— Está sim, meu amor. Vim pegar um pouco de água... queres?

— Estou bem. Parecias preocupado com algo...

— Impressão causada pelo teu sono, anjo meu – Riu-se o loiro, voltando para o leito.

Abraçou o marido, cobrindo-o de beijos rápidos e provocantes. Em pouco tempo, estavam se amando outra vez...

*************

O dia da palestra de Afrodite havia chegado. E ele foi magistral explicando acerca da trepanação efetuada na senhora Condessa de Saint-Doulchard, cerca de nove meses antes. Da plateia maravilhada, Shura a tudo assistia, impressionado com os detalhes que, pela primeira vez, estava a conhecer. Que grande tribulação! Que tormentos não deve ter passado seu grande amigo Milo, e, é claro, a gentilíssima condessa! Médicos das mais variadas partes de França, e de fora de França, a tudo escutaram, embasbacados. Shura soube depois que ofereceram uma cadeira na Universidade a Afrodite, apenas por aquele grande feito, atestado pelo que ouviram alguns sábios orientais que dominavam a técnica. Estes sorriam satisfeitos vendo que o Ocidente não se esquecera de todo as grandes sabedorias ainda correntes em terras tão distantes. Vendo-o ovacionado, Shura não conseguia entender, mas sentia um grande orgulho... aquele homem que se sacrificara por ele, que maculara seu belíssimo rosto por ele... enaltecido por centenas e centenas...

Havia de ser esta a razão.

*************

Dois dias depois daquela bem sucedida palestra, Shura tinha diante de si um evento não tão grandioso...

— Quer dizer que este veneno dará cabo dos ratos? Pelo odor que de teu frasco emana, podê-lo-ia facilmente atestar...

O homenzinho atarracado e rosado sorriu para o marquês como se tivesse ouvido o maior dos elogios.

— Sim, com este preparado, molharei os pedaços de pão e queijo, já dispostos nesta frasqueira – Apontou. – e esses bombocados fatais livrar-vos-ão dos malditos roedores!

— Não duvido – Shura resistia ao infame impulso de tapar o nariz. – O que tem mesmo aí?

— Vinagre, extrato de alho, vinho, cicuta, sumo de cebola, chumbo e extrato de beladonna. Poderia matar dragões, meu senhor, DRAGÕES!

— Estou certo de que foram extintos por essa mistura... bem, fica à vontade, mestre Roderick.

— Mestre Aguillar, os armários dos quartos estão vazios? Os baús? Pretendo espalhar migalhas desta aniquilação por TODOS os cantinhos desta casa.

Shura suspirou, contrafeito.

— Não, não pensamos nisso. – Pensou em que Afrodite ainda levaria horas para chegar. Teria que cuidar de esvaziar o quarto do amigo... – Começa o extermínio aqui por baixo. Prepararei tudo no segundo pavimento para ti, agora.

— Perfeitamente – O homenzinho pareceu aborrecido. Que gente era aquela que não sabia como preparar uma casa para o extermínio de ratos? – Bom, mandai que algum criado cuide disso!

— Prefiro eu mesmo cuidar – Falou, pensando em como Afrodite ficaria furioso se encontrasse algum tubo, frasco ou vidro de seus pertences quebrado por causa da manipulação incauta daqueles criados, que considerava um tanto apressados e atrevidos... ao menos, se comparasse com os de Castela e com os de Saint-Doulchard, Borgonha, Auvergne... pudera, tudo em Paris era muito mais agitado que nesses lugares, e isso se refletia nas pessoas, impressionante...!

Pôs-se a subir pelas escadas, decidindo esvaziar primeiramente os compartimentos de seu quarto. Afinal, supunha com tranquilidade que a quantidade de pertences de Afrodite sobrepujava com folga o que possuía. Levou pouco tempo, com efeito, a ponto de ver-se admirado com a pouca variedade de vestimentas de que dispunha... assim que fosse possível, seria bom providenciar mais roupas. Não caía bem andar como um simplório qualquer perto do majestoso amigo. E se Afrodite dele tivesse vergonha?

“Apesar de parecer, Afrodite não é nada fútil”, respondeu a si mesmo, considerando os baús e armários vazios. Parecer? E por que Afrodite “parecia” fútil? Na certa, por ser muito formoso e bem cuidado, o que, via de regra, acabava por ser interpretado como futilidade em se tratando de um homem. Bem, Milo também o era, mas... havia alguma coisa diferente.

“Ele é um tanto afetado, convenhamos”, pensou, rindo consigo. Curioso como uma característica em um homem que outrora o exasperaria, em Afrodite tornava-se encantadora e até divertida. A mulher com quem o amigo se casasse haveria de ser muito feliz.

“Embora ele não dê mostras de apreciar mulheres”, conjecturou, sem aprofundar-se nesse novo pensamento, enquanto se dirigia para o quarto do sueco. Mal abriu a porta, viu um rato correndo para debaixo da cama. Suspirou, imaginando se não era justamente o excesso de mobília e objetos que conferiam aos roedores esconderijo mais sedutor que seus austeros aposentos. Olhou ao redor, incerto de por onde começar. Iniciou esvaziando gavetas dos aparadores, armários e dos dois grandes baús. Uma imensa pilha de roupas, calçados, acessórios avolumava-se na cama e também sobre a mesa do quarto do ex-camareiro. O exterminador apareceu no recinto.

— Já cuidei de vosso quarto, meu senhor. Posso começar a trabalhar aqui?

— Fica à vontade, mestre Roderick.

— Com a vossa licença – Disse o homenzinho, adentrando os aposentos de Afrodite; Shura não pôde deixar de notar-lhe o olhar espantado para a enorme montanha de pertences no leito e sobre a mesa.

— Palavra de honra, meu senhor, dir-se-ia que um verdadeiro rei reside convosco cá nesta habitação.

— Se o visses, apostarias tua vida que ele o seria.

— Bem! Bem! Comecemos, pois que os ratos não respeitam nem mesmo reis. E não falo por falar; já prestei meus serviços até mesmo à Nossa Majestade, ficai sabendo.

— Então estamos em boas mãos.

— “Estamos”?

— Sim, eu e o pretenso “rei” que comigo cá habita.

— Sim, sim... observai! Em um dia, só vereis estas abjetas criaturas mortas. Depois, nem mais isso.

Shura viu Mestre Roderick, de origem germânica, retirar pequenos bocados de sua frasqueira; eram os pedaços de pão e de queijo embebidos na mistura supostamente fatal para os ratos. Bem, sê-lo-ia para um homem, por que não para um rato? Por isso, o espanhol tinha fé. Observou-o dispor os pedacinhos pelo interior dos armários, dos baús vazios, pelos cantos do cômodo, por todas frestas que encontrava, pelos cantos das janelas, debaixo da cama...

— Meu senhor, sugiro que esvazie este baú também – Falou o exterminador, de baixo do leito extenso de Afrodite.

— Oh, não sabia que havia um aí.

Assim o fez.

As joias de Afrodite.

Shura depositou-as com cuidado sobre a mesa, cobrindo-as com um manto de pele de marta.

— Alguma porta secreta?

— Porta secreta?

— Sim, é muito comum neste tipo de habitação. Achou que fosse somente nos castelos?

Shura coçou o queixo ao admitir:

— Com efeito, sempre estive em castelos. Desconheço a dinâmica deste tipo de habitação.

— Os burgueses não têm castelos, mas fazem o possível para deixar seus sobrados assemelhados com um. Este não é diferente, vê-se logo. Os ratos gostam particularmente das entradas secretas e esconderijos. Encontrei dois em uma portinhola secreta em teu quarto.

— Ora, vejam só! Eu nem sabia de sua existência... bem, se tiver, o local estará com som oco...

Bateu em alguns lugares da parede, quase ascultando-as. Foi removendo uma antiga armadura e fazendo o mesmo procedimento que percebeu o som diferente.

— Encontrei-a, mestre Roderick.

Empurrou-a com certa dificuldade. A pedra falsa cedeu e deu espaço à visão de um diminuto espaço, no qual havia um outro baú.

— Oh, encontrastes! Mas o que vejo, um baú? Tão escondido? – Mestre Roderick assobiou, já puxando-o – Bem, há de ser algo de muito valor! Mas para os ratos isso não tem importância, a menos que esteja trancado, devemos esvaziá-lo...

Shura verificou.

— Está mesmo trancado. – Disse, franzindo o cenho. Seriam mais joias? Mas tão maior que o encontrado debaixo da cama?... e se guardara jóias ali, por que não guardara todas juntas? E, o mais perturbador: por que Afrodite esconderia joias de tal maneira? Acaso não confiava nele?

Contudo, se fosse por isso, jamais deixaria TANTAS simplesmente debaixo da cama.

A menos...

... que aquilo não fossem joias.

Bom, estava trancado. Jamais saberia.

— Meu senhor, eis aqui a chave!

O peito de Shura comprimiu-se, sem que ele soubesse exatamente a razão.

— Onde...?

— Quando eu estava a espalhar as armadilhas, encontrei-a sob umas pedras.

— Sob... sob pedras...?

O rosto avermelhado do germânico tornou-se um pouco pálido.

— Mestre Shura, estava escondida. O que quer que seja, seu dono não quer que o interior deste baú seja conhecido. Por mim, não o abrimos.

— Mas... e os ratos...?

—Bem, sempre temo que os ratos possam roer os baús e profanar seus interiores, por isso peço que os proprietários os esvaziem para que eu coloque minhas armadilhas neles também. Mas, se o senhor vosso amigo deseja tão ardentemente que o conteúdo deste baú permaneça desconhecido, eu...

— Abre-o – Ordenou Shura, movido por algo indizível. Uma curiosidade, uma raiva, um senso do dever. De mais a mais, estava pagando muito caro pelos préstimos de Mestre Roderick, que o serviço fosse COMPLETO!

A chave venceu a tranca rígida. O baú foi aberto. O conteúdo provocou surpresa,

— Livros?

— Sim... livros – Mestre Roderick arregalou os olhos. – Devem ser livros MUITO valiosos para vosso amigo. Por favor, ajudai-me a retirá-los, são muitos...

Não eram muitos, porém eram imensos. Shura os pôs sobre o leito, curiosíssimo acerca de que tipo de livros mereceriam tamanho segredo por parte de Afrodite. Por que não estavam na biblioteca? Por que estavam tão escondidos? Que grandes mistérios continham que justificasse aquele ocultamento...?

Dali em diante foi difícil prestar atenção no que fazia ou dizia o exterminador de ratos; Shura os observava, resoluto a respeitar a privacidade do amigo. Não obstante, em seu interior, um feroz embate era travado.

Afrodite escondera LIVROS.

O conteúdo daqueles livros era algo que Afrodite NÃO queria que viesse à tona.

Tratar-se-ia de livros hereges?

Começou a pensar em que o amigo não se mostrava o católico mais fervoroso que conhecia. Somente ia à Igreja para acompanhar Shura, e ainda assim, parecia bem desinteressado nos assuntos de Deus. Vinha de um país que ainda guardava muito de pagão...

— Está terminado, meu senhor. – O anúncio de Mestre Roderick arrancou-o das divagações.

— Oh, sim... vai para a cozinha... os criados já estão à tua espera. Eu já desço.

— Como quiserdes, excelência.

O homem retirou-se. Quase voando, Shura trancou a porta do quarto e correu para os livros, com os corações aos pulos. Estava apavorado ante a possibilidade do amigo querido ser um herege!

Abriu os livros apenas para fazer reconhecimento da letra.

Era de Afrodite!

“Mas... o que quer que seja... foi escrito por Afrodite... este também... e este também...”

Então seus olhos passaram a fixar-se no texto de forma a DECODIFICAR o que nele havia, aqui e ali...

““Creio ter com isto sonhado em algum momento. Não obstante, não pretendo de forma alguma aproveitar-me da ausência do detestável conde Milo para investir sobre Camus. Em algumas fantasias recônditas tal ocorreu, porém o mesmo seria inviável no plano real. Os motivos? Primeiramente, e sempre, sempre, o compromisso que tenho para com os Turenne, os quais considero mais minha família do que a verdadeira, que segue se engalfinhando pela supremacia do poder.”

CAMUS?

Não era o nome do irmão ASSASSINADO de Camille? Morto havia 14 anos? O que o nome de MILO tinha a ver com relatos sobre CAMUS, como se o houvesse conhecido?

“ Mesmo que por sobre isso eu ousasse passar, esbarraria no amor que Camus sente por Milo, amor este que em seu coração puro e inexperiente, e com certeza até por isso, instalou-se desde o instante em que conheceu o infame conde. Machuca-me a alma vê-lo apaixonado por quem só lhe faz o mal... por quem não o trata como ele merece... que estou a dizer! Mais sincero e objetivo seria dizer: por quem o destrata!”

Com a cabeça latejando, Shura deixou-se cair sobre uma das cadeiras, o livro ainda aberto. Suas mãos tremiam. Ele não compreendia o sentido do que sua mente entendia. A data... 1192... um ano antes... o que significava aquelas palavras, O QUÊ, EM NOME DE DEUS?

“...amor que Camus sente por Milo...”

A despeito do ardor em seus olhos, ele continuou a ler:

“Contudo, por alguma razão que desconheço, Camus o ama. Se ao menos não o amasse, eu ousaria declarar-me, e viveríamos em bem vinda clandestinidade o amor que Milo se nega com ele partilhar. Tenho certeza de que ser-lhe-ia conveniente, até. Afinal, pelo contrato de casamento, Milo poderá tomar para si uma concubina e com ela formar uma família. Apenas assim poderá vir ao mundo a criança que se possa passar pelo herdeiro de meu amo e do odioso Milo.”

“O contrato de casamento de Milo! Casamento de Milo... Camus... morto há muito... por que não vejo o nome de CAMILLE? LEREI TUDO NOVAMENTE. O Diabo está a me confundir, por certo!...”, pensou, presa de uma vertigem que o amendrontava, mas não a ponto de fazê-lo retroceder o que iniciara.

“Mas eis que surge também Shura.”

Sufocou uma exclamação ao ver seu nome no relato. Levou a mão direita à boca escancarada, temendo vocalizar seu estupor.

“ Constringe meu coração a ideia de que ele me reprovaria por esse meu ato. Se ele descobrisse, oh, isso eu temeria muito mais que a descoberta por parte de Milo... só de pensar, resfria-me a alma. Não sei por qual motivo a imagem que Shura faz de mim me é tão importante. A despeito do pouco tempo que nos conhecemos, sinto que somos muito mais do que o que somos agora. Não sei se ele sente o mesmo; embora seja amável para comigo, não sei até que ponto trata-se de mera cordialidade social. Sequer entendo como alguém tão refinado pode ser o melhor amigo do vil Milo d’Auvergne! Sim, em verdade, mesmo que ele jamais viesse a descobrir meus intentos para com Camus, só de imaginar que ele os desaprovaria, perco neles o interesse...”

— Senhor Deus Todo Poderoso – Murmurou, os lábios trêmulos ante o que continuou a ler...

“não digo que deixo de amar Camus. Mas, suprema sandice!, digo que gostaria de ser amado por Shura. E isso deve ser tão impossível quanto ser amado por Camus. Talvez seja a sina à qual estou destinado... Amar e não ser amado. Nem quando amava Camus. Nem amando Shura. Oras... escrevi “amava” Camus. Shura o substituiu em meu coração? Será leviandade minha? Um amor de menos de um mês tomar lugar de um amor de 5 anos?”

Shura ergueu-se tão de repente que quase caiu da cadeira. Afastou-se dos livros como se estes fossem mordê-lo como uma serpente das mais peçonhentas.

“Senhor Deus Todo Poderoso”, clamou, agora em pensamento, pois que a fala morrera em sua garganta seca. Sentiu as pernas vacilarem, a cabeça pesar...

Informações demasiadas!

Demasiadas!

Não sabia qual processar primeiro. Mas quando soube, soube qual era a mais grave...

“Camille... por todos os santos, Camille, na verdade, É CAMUS!”

*************

Notas finais
Para quem se interessar sobre por que Paris já estar com essa bola toda em 1193: (1) A cidade se torna um importante centro de ensino religioso desde o século XI. O poder real se fixa progressivamente em Paris, que volta a ser a capital do reino, a partir de Luís VI (1108-1137) e mais ainda sob Filipe Augusto (1179–1223), que a cercou com uma muralha. O comércio enriquece Paris, a qual tira vantagem da sua posição na convergência de grandes rotas comerciais. O trigo entra pela Rue Saint-Honoré; os tecidos do Norte pela Rue Saint-Denis e o pescado do Mar do Norte e da Mancha pela Rue des Poissonniers. A importância do seu mercado, junto com a feira do Lendit em Saint-Denis, demanda uma praça num lugar menos abarrotado do que a île de la Cité: Luís VI a instala em cerca de 1137 no lugar chamado "Les Champeaux" (as campinazinhas); os Halles de Paris (Mercado Municipal) lá permaneceriam por mais de oito séculos. Em 1163, o bispo Maurice de Sully empreende a edificação da Catedral de Notre-Dame de Paris sobre a île de la Cité. A importância da cidade aumenta, tanto no plano político como no financeiro e comercial. Os órgãos centrais do governo dela fazem a sua sede (...)" Wikipedia (2) O período de relativa paz e crescimento econômico verificado entre os séculos XI e XIII [foi chamado por alguns historiadores de "Primeiro Renascimento". O Renascimento propriamente dito começa, oficialmente, no século XIV. ************* GENTE O SHURA ENCONTROU OS BENDITOS DIÁRIOS DO DITE... e descobriu, DESCOBRIU QUE CAMILLE, NA VERDADE, É CAMUS! Eu avisei que a calmaria estava para acabar... Até o próximo capítulo! Obrigada por prestigiarem!!! E, mais uma vez, desculpe pela demora!