Dame Jolie
44 O Dever de Um Cavaleiro
Notas iniciais
Camus.
Camus.
Camus.
CAMUS.
O nome do falecido filho do Duque de Borgonha aparecia amiúde naqueles escritos. Em nenhuma de suas linhas via-se o nome de “Camille”. Era como se Camille não existisse. Como se tão somente o finado Camus existisse nas vidas de Afrodite... e de Milo...
“Camille é uma FRAUDE. Quem ocupa seu lugar é CAMUS... o filho varão de Teobald II” pensou Shura, aterrado.
Mas... seria mesmo possível? Como? Por quê?
E quedou-se ainda mais boquiaberto ao lembrar-se do casamento de Milo… ao lembrar-se DE MILO…
Milo. Milo, o homem que era como seu irmão, desposara secretamente... um HOMEM!
O ar parecia faltar aos pulmões do marquês, a ponto de ele sentir dor para respirar.
“Camille... na verdade é Camus... NÃO EXISTE CAMILLE!”, e a cada vez que pensava, pior tornava-se sua respiração.
Deteve-se na leitura, procurando rememorar os fatos que conhecia: Camille, criada pelo Duque de Borgonha de maneira incomum... uma dama a quem fora-lhe ensinado esgrima, a cavalgar, a caçar, a lutar. Sempre creditara-o a excentricidades do Duque, assim como todos o fizeram. Agora, Shura vislumbrava a verdadeira razão! Teobald II não quisera deixar o filho, ainda que criado como mulher, sem a educação formal de um varão.
Um varão... criado como mulher! Como Teobald II incorrera em tamanha infâmia? A vida daquele seu rebento constituía a maior das infâmias! Chegava a sentir vertigens só de ir montando o hediondo quebra-cabeças à sua frente.
Enganaram a todos, os Turenne. Sim... isso explicava o enlace do amigo: o pobre Milo fora enganado... não fora? Mas, ora... ele certamente havia de ter descoberto durante as núpcias que “sua noiva”...
“Se ISTO for mesmo VERDADE, o que mantém Milo neste casamento? Certamente uma chantagem... ou um vultuoso acordo com Teobald II... não, por vantagem nenhuma Milo se sujeitaria a... “, Shura cogitava realmente que o amigo tivesse sido enganado. Um acordo com os Turenne parecia-lhe opção por demais vil! Sim, era a única explicação. Milo vivia sob alguma terrível ameaça para manter aquela hórrida farsa... que horror para Milo conviver com um travestido! Sem dúvida, alguma chantagem sórdida selara o destino do pobre amigo. Urgia que descobrisse mais sobre aquilo...
Shura finalmente tomou coragem para abrir outro volume das memórias de Afrodite. Folheou cautelosamente enquanto seus olhos ágeis buscavam palavras que apontasse, para alguma informação àquela terrível questão referente.
“Análogo a um parto, contemplo a mudança dos rumos das vidas de meu amigo Camus e de seu esposo, a quem considerei odioso, hoje não mais...”
“Mudança dos rumos da vida de Milo? A que este DESGRAÇADO se refere?”
“...Embora Camus esteja a passar pela pior provação de sua vida, desde o assassinato de sua querida irmã Camille, venturas impensáveis parecem por ele esperar, pois que o homem a quem ele devotou seu imaculado coração enfim admite por ele nutrir algum sentimento...”
NÃO, NÃO, NÃO! Que era aquilo que acabara de ler? O aberrante ser nutria sentimentos por Milo... e Milo...
“Milo, não, NÃO!!!”
“Para mim ficou claro que o conde tentou poupá-lo, e que outra razão teria para assim proceder que não fosse movida por amor... cristão, fraternal ou... romântico?”
“Não, engana-se, o maldito engana-se! Milo jamais...”
“... Triste é que a tragédia tenha rasgado os véus do mistério, que a dor tenha feito enfim emergir esse amor, o qual, percebo claramente, é poderoso e magnânimo.”
Ao chegar nesta parte da narrativa, Shura não mais suportou e, tomado de ira, atirou o livro ao chão. O volume desmantelou-se um pouco, mas ele não se importou.
“Não, ele se engana! Está desnorteado, o torpe Afrodite... POSSUÍDO, talvez! Até sobre mim declarou sandices... que ME AMA... não as cometeria com Milo? Milo JAMAIS se sujeitaria a algo tão PECAMINOSO!”
Sim, ainda havia AQUELA INFÂMIA de ser alvo da luxúria PAGÃ de um pederasta! Já admitia, tristemente, que Afrodite não passava de um pederasta!
Mas então... o que lera sobre Camus... sobre Milo...
Milo... seu amigo “mais chegado que um irmão”... casado como um homem... e, segundo relatos de Afrodite, correspondendo ao “amor” que lhe devotava o odioso Camus de Turenne.
Deixou-se cair, desolado, sobre uma cadeira. De tão abismado, esquecera o tempo... ficou ali, ruminando o que lera, até que ouviu batidas na porta, que quase explodiram seu coração!
— Mestre Shura, o Mestre Roderick já terminou o serviço na cozinha – Anunciou uma criada.
O marquês ergueu-se lentamente da cadeira. Atordoado, contemplou os livros, procurando voltar à realidade do momento. Sem perceber, sua resposta saiu em um brado:
— Já descerei para efetuar seu pagamento!
Correu a guardar os livros no baú. Trancou-o e empurrou-o de volta para o compartimento de onde fora retirado. Não sabia qual era a pedra sob a qual o ex-camareiro escondia a chave. Aborrecido, escondeu-a debaixo de uma qualquer. Tanto se lhe dava que Afrodite descobrisse que seus “tesouros” haviam sido encontrados... ele NÃO SAIRIA MAIS daquele sobrado. Não até Shura RESOLVER a situação.
O cavaleiro desceu rapidamente pelas escadas. Deu ao exterminador de pragas 8 moedas de ouro, o dobro do acertado. Mestre Roderick saiu da residência com um sorriso de orelha a orelha. Bem diferente do marquês, cujo semblante inspirou medo nos serviçais. Ninguém, contudo, ousaria interpelá-lo.
Sob olhares atemorizados, Shura cruzou o salão, rumo ao pátio do sobrado, onde se encontravam alguns guardas. Vendo-o, os sentinelas fizeram imediatamente suas mesuras.
— Tenho uma missão para vós. É crucial que sigam minhas ordens sem pestanejar. – Anunciou, impávido.
— Sim, senhor. – Responderam os guardas, a uma só voz.
Shura respirou fundo. Disse:
— Recebi uma preocupante mensagem, de fonte extremamente fidedigna: o Castelo de Saint-Doulchard está para ser atacado pelos normandos.
— Pelos normandos?
— Havia décadas que não investiam contra aquela região de França!
— O que será que...
— Calai-vos e ouvi-me! Pouco me importam vossas considerações. Devo partir hoje mesmo para auxiliar o Conde de Saint-Doulchard. Vós tereis a missão de manter aqui o senhor Afrodite. Ele fará de tudo para ir para o Castelo, entretanto, são ordens de Milo que ele fique AQUI, nem que tenhais que apelar para a FORÇA.
Os guardas entreolharam-se, surpresos e um tanto desconfortáveis com a possibilidade de terem que conter, à força, o amigo pessoal da Condessa de Saint-Doulchard.
— Dar-lhe-ei a notícia tão logo ele chegue; tentará de todas as formas sair desta casa. É vosso dever impedi-lo. Metei-lo em cativeiro, sem qualquer hesitação. É da integridade do futuro médico de Saint-Doulchard de que estamos falando, e de uma ordem expressa de Milo D’Auvergne.
— O senhor irá sozinho? Alguns de nós poderão escoltar-vos, e...
— Não é preciso, sei cuidar de mim mesmo. Obedecei-me, tão somente!
— Sim, senhor. – Assentiram os homens.
— Sede firmes. Metei-lo a chaves na pequena masmorra do subsolo. Sereis recompensados por vossa lealdade, prometo-vos. Isso é tudo.
— Sim, senhor!
Girando sobre os calcanhares, Shura dirigiu-se para o seu quarto. Pôs-se a fazer preparativos para uma viagem.
Iria a Saint-Doulchard averiguar a história.
Afrodite fantasiara sobre um “possível amor” para com sua pessoa, poderia ser que estivesse fantasiando sobre todo o resto... quem poderia saber? A coisa toda parecia por demais inverossímil! Urgia que verificasse tudo... e, consoante a temível comprovação, caberia a ELE salvar o amigo da perdição eterna.
Rezaria durante todo o caminho para que tudo não passasse de devaneios do perturbado Afrodite. Só assim não teria que ENTREGAR Milo e... Camus... às autoridades. Expiar por tão nefastos pecados seria a única maneira de se livrarem do Inferno!
*************
Camus, montado em sua magnífica égua branca como a neve, Satine, e Milo, cavalgando seu fiel déstrier Theóphile, cruzaram mais uma imensa clareira banhada pelo sol daquele início de maio de 1193. Os bosques recendendo a flores receberam o casal naquela deliciosa tarde.
— Paremos por aqui – Disse Milo, quando chegaram à beira de um cristalino riacho cujo som potencializava a paz do momento. Apeou de seu imenso cavalo e foi ajudar Camus, que trajava um longo vestido verde-oliva com brocados de ouro.
— Escolheste este lugar pela beleza ou movido por tua vontade de tomar logo o maravilhoso vinho de Borgonha que trouxeste?
— Ofendes-me. Posso ser tão apreciador da natureza quanto tu. Desagrada-te, a localidade?
Camus olhou ao redor, aspirando profundamente o ar puro.
— Ao contrário. Escolheste um lugar muito aprazível para o nosso convescote, senhor meu marido. – Anuiu, sorrindo faceiro. Milo sorriu-lhe de volta, sem resistir a dar-lhe um furtivo beijo nos lábios. Isso porque sabia que o ruivo logo diria:
— Milo! Primeiro o dever, depois o lazer!
— Pois beijar-te é um de meus mais doces deveres, seguido de proporcionar-te prazer...
Camus riu e escapou, maroto, dos braços do outro, refugiando-se atrás de Satine.
— DEPOIS, eu já disse!
— Certo, certo, eu ouço e obedeço – O loiro fingiu resmungar.
Quase às margens floridas do riacho, Milo estendeu uma toalha vermelha com gravuras douradas. Sobre ela, dispôs a cesta que trouxera na garupa do corcel. Ajoelhando-se sobre a macia relva pontilhada de flores brancas, Camus pôs-se a retirar tudo quanto havia na cesta: vinho, vitela de cordeiro, ganso assado com trufas negras, pão, figos e uma bela torta de maçã.
— Finalmente gozarei eu também do privilégio de realizar um piquenique com “a senhora Condessa de Saint-Doulchard” – Falou um gaiato Milo, jogando-se sobre a relva. – Até hoje, somente Afrodite deteve a honra.
— Pois é chegada a hora de abandonar tal mágoa, grande ciumento. – Brincou Camus, enquanto enchia os cálices de vinho. – Tiveste a opção de convidares-me há mais tempo, não obstante, protelaste até hoje.
— Bem que gostaria de tê-lo feito “há mais tempo”. Contudo, ora o clima não se fazia propício, ora obrigações impediam-me, ou...
— Que importa, amado meu? Importante é que estamos aqui... AGORA. – Entregou uma taça ao esposo. Conclamou alegremente a um brinde.
Com um luminoso sorriso, Milo correspondeu-lhe ao gesto; brindaram e beberam com prazer o encorpado vinho trazido de Turenne. Poderiam jurar que não havia melhor no mundo!
— Tens razão. De fato, para mim, o mais importante são os momentos que passo contigo.
— Digo-te o mesmo. Agradeço-te por trazeres-me até aqui. Sinto-me tão bem em meio à natureza, Milo!
— Saber que sentes-te bem faz-me sentir ótimo.
— Ora, estou SEMPRE bem ao teu lado.
— Eu também, anjo meu...
Camus ergueu o rosto para o céu azul em que algumas nuvens violetas deslizavam morosamente. Anunciou:
— Fiz um poema para ti. Queres ouvir?
— Um poema? Para mim?
— Não tenho cá meu saltério, temi que trazê-lo estragaria a surpresa...
— Ouvir um poema para mim, de teus amados lábios, prescinde de qualquer acompanhamento, Camus!
Em meio a um sorriso, o ruivo sorveu mais uns goles de vinho. Sentiu as bochechas queimarem e a coragem aumentar. Olhando o marido fixamente nos olhos, pôs-se a declamar:
“Prostrada, a soluçar, não vejo quem desejo,
e abraço tristemente as pedras contra o peito.
Do esposo privada, aqui, no duro leito,
não o posso abraçar, como era meu desejo.
Oh! Dize-me onde estás! Onde te encontrarei?
Em que terra seguir-te, aí de mim, sempre ignota?
Ou terei de buscar nos astros minha rota
a fim de te alcançar, meu senhor e meu rei?
Sem ti, a noite vem com as asas pesadas;
sem ti, mesmo com sol, o dia é escuridão.
O lírio, a rosa, o nardo, o narciso não são
capazes de florir minh’alma abandonada.
Na esp’rança de te ver, observo cada imagem,
mas amor faz-me errar no alto os olhos vagos.
Chego assim a supor que só ventos pressagos
dirão de meu senhor a exacta paragem…
Quero lavar a lage onde puseres os pés,
co’o cabelo enxugar o solo de teus templos.
Só doçura acharei nos mais duros exemplos
se por fim puder ver, meu senhor, quem tu és…” (1)
Ao término da declamação, Milo aplaudiu efusivamente, enquanto Camus corava a não poder mais.
— Sublime! Verdadeiramente sublime! Mas tenho eu, também, um poema para ti...
— Verdade, Milo?
— Só que preciso tomar mais uns dez cálices de vinho para poder ter coragem de declamá-lo. Escrevi-o há muito, muito tempo.
— Isso não é justo, quero ouvi-lo agora!
— Paciência, anjo meu, paciência.
Camus insistiu, atirando-se a ele.
— Quero ouvi-lo agora! E se é de torpor de que necessitas, ofereço meus lábios... sempre dizes que são inebriantes...
— Tornaste-te um verdadeiro sedutor, estou perdido!
O ruivo curvou-se sobre o marido, ganhando a boca já sequiosa pelas promessas venturosas. De fato, foi muito mais eficaz que os torpores etílicos, pois que, com Camus sobre os joelhos, Milo declamou, acariciando-lhe os contornos do rosto, o pescoço, os cabelos já desfeitos por tantos movimentos amorosos:
Com a doçura do novo tempo,
o bosque se cobre de folhas, e os pássaros
cantam, cada um em seu latim,
conforme o verso do novo canto,
quando está bem que cada um se torne
aquilo que mais deseja.
Do lugar que me parece bom e belo,
não vejo chegar nem carta, nem mensageiro.
Por isso, meu coração não dorme, nem ri,
nem me atrevo a seguir adiante
até que esteja certo do fim,
se ele será assim como eu desejo.
Com nosso amor ocorre o mesmo
que o galho branco do espinheiro
que está queimando sobre a árvore
de noite, com a chuva congelada,
até que, no dia seguinte, o Sol se ponha
pelas folhas verdes e a relva.
Ainda me lembro de uma manhã
em que nós pusemos fim à nossa guerra.
Ela me deu um dom tão grande
que se deu a mim como amante, e também seu anel.
Que Deus me deixe viver ainda,
para que eu ponha minhas mãos sob seu mantel!
Que eu não me preocupe com estranhos latidos
que me separem de meu Bom Vizinho.
Pois sei como as palavras vem e vão,
e, como diz um breve sermão,
"Que outros se gabem de seus amores,
que nós temos o pão e a faca." (2)
— Milo, adorei-o... nem sei como agradecer!
— Sabes sim...
Ergueu a saia do esposo, o suficiente para acessar-lhe entre as pernas. Camus gemeu langorosamente no ouvido de seu amado. Milo agarrou-lhe, ansioso, posicionando-se da melhor forma para possuí-lo naquela curiosa posição. Beijaram-se avidamente, estreitando o contato de seus corpos sequiosos. Por longos e delirantes minutos, vinho, comida, piquenique, natureza, tudo o mais foi esquecido...
*************
À hora em que Shura deveria buscar Afrodite na universidade, tudo estava pronto para a viagem a Saint-Doulchard. Suas modestas bagagens já repousavam nos fundos da carruagem, estrategicamente por ele à espera atrás do sobrado. Assim, de nada desconfiaria o sueco ao entrar no solar.
O sol brilhava como jamais vira brilhar em Paris; era o dia mais bonito que presenciara na cidade. Bem como poucas vezes a imagem de Afrodite, sorridente entre os companheiros de estudos, lhe parecera tão bela. Perturbava-lhe ter tal impressão de um homem tão repleto de pecados, e, possivelmente, por isso já destituído de sanidade. O rosto do ex-camareiro, iluminado pela claridade primaveril, ganhou novo fulgor ao ver o marquês. Afrodite despediu-se rapidamente dos colegas e apressou o passo na direção de Shura, que engoliu em seco ao ver, com novos olhos, aquele entusiasmo com que, aliás, era sempre recebido.
Então era devido a sentimentos pecaminosos.
Cerrou os punhos, decidido a manter a comédia da normalidade... o sueco parou diante do amigo, saudando-o, alegre e efusivo:
— Shura! Como é bom ver-te, caríssimo... vês que dia esplêndido está a fazer?
— Com efeito... o dia mais bonito que já vi aqui em Paris – Respondeu-lhe com um sorriso dolorosamente forçado.
Caminharam para além dos muros da universidade, em direção à rua movimentada.
— Poderíamos dar uma volta pela cidade antes de retornarmos à habitação, que achas? Ainda que daqui em diante dias como este tornem-se mais comuns, faz pena desperdiçar o que temos hoje.
Profundamente incomodado, Shura respondeu, seco:
— Infelizmente, terei de declinar à tua tentadora proposta... tenho alguns assuntos urgentes a resolver hoje.
— Assuntos urgentes? O que seriam?
— Nada com que devas te preocupar... questões referentes a negócios de Milo com alguns fornecedores parisienses...
— De quê?
— De quê? Várias coisas...
Afrodite franziu as loiras sobrancelhas. Encarou o amigo e disse:
— Pareces-me um tanto aflito. Não queres me contar o que se passa contigo?
— Impressão tua, apenas. Não há nada a afligir-me.
— Eu duvido muito. Está estampado em teu semblante. Experimentas grande perturbação, posso vê-lo, tão claramente quanto vejo o céu azul acima de nós.
Shura virou-se para o lado, desconfortável.
— Já disse que te enganas. Apenas andemos, por favor. Preciso de chegar à casa logo.
— Está bem. – O loiro deu de ombros, concordando. – Mas... sabes que podes confiar em mim. Somos amigos, afinal. Não há razão para sofreres em silêncio.
“Sofrer em silêncio”.
Um conceito amplamente abordado nas memórias daquele que lhe falava. O secreto permeava aquelas páginas: primeiro, o sentimento de Afrodite por Camus, e, depois, por ele, Shura. O sentimento de Camus por Milo e, em seguida, a suposta correspondência deste àquele amor proibido. Afrodite, no entanto, ficara no campo das idealizações. Por pior que tivessem sido suas confissões, não encontrara indícios de que suas perversões tivessem sido consumadas. Ao passo que Milo e... e Camus...
Supondo, claro, que se tratasse de ser TUDO AQUILO uma realidade!
— Estás deveras pálido – Observou Afrodite, preocupado.
— Há de ser o calor.
— Um calor assaz pífio para um filho da Andaluzia empalidecer-se. Mentes muito mal, meu amigo.
Shura estalou a língua, quase impaciente. Apressou o passo, forçando o loiro a fazer o mesmo.
— Estás mesmo com pressa. Hás de ter negócios verdadeiramente urgentes a resolver.
— Disso não tenhas dúvida.
Após uma caminhada apressada de dez minutos – normalmente faziam-na no dobro do tempo – chegaram até o sobrado; ganharam os átrios do solar, sob olhares atentos dos guardas. Shura fez-lhes um breve sinal com a cabeça... que não passou despercebido ao sueco. Este notou que o gesto diferia de uma saudação normal, tanto porque o costume era que os guardas os saudassem, não o contrário. Uma estranha sensação perpassou-lhe o âmago sensível.
— Tens fome? Nellie preparou um formidável cordeiro com cebolas e tâmaras. Espalhou incrível cheiro pela casa. – Disse Shura, pendurando o gibão de pele atrás da porta de madeira da sala.
— Parece delicioso. Gostaria, outrossim, de banhar-me, antes.
— Fica à vontade, mandarei que arrumem a mesa. E que tragam o soberbo vinho de Turenne.
Afrodite dirigiu-se para a escada de mármore. A sensação estranha persistia. Olhou ao redor antes de subir: notou alguns móveis fora dos lugares usuais. Dois dos tapetes não estavam mais onde estiveram pela manhã, e o resto dos que estavam, pareciam um pouco tortos. Por sobre os aparadores de pinho, candelabros e estátuas também estavam com disposição diferente. Subiu apressadamente as escadas, o coração aos pulos pelo esforço... e por alguma coisa mais.
Adentrou seus aposentos. Ali parecia tudo em seus devidos lugares.
Exceto por uma folha no chão.
Aproximou-se, prendendo a respiração; apanhou-a. Sufocou um grito ao ler:
“...Embora Camus esteja a passar pela pior provação de sua vida, desde o assassinato de sua querida irmã Camille, venturas impensáveis parecem por ele esperar, pois que o homem a quem ele devotou seu imaculado coração enfim admite por ele nutrir algum sentimento...”
— Com a tua licença...
Virou-se, assustado. Shura estava à porta do quarto, já do lado de dentro. Encarava-o de forma fixa, perturbadora.
— Não te dei permissão de entrar! – Falou Afrodite, com voz tremida.
— Não és a pessoa mais indicada para ensinar-me bons modos, Afrodite.
— Quê?... Que queres dizer…? – Balbuciou o sueco, inconscientemente dando alguns passos para trás. Tremia tanto que deixou cair a folha de sua mãos. Olhou-a, aterrorizado. E, em seguida, olhou para Shura, que fechava a porta detrás de si. O espanhol tinha uma expressão sombria.
— Que eu saiba, respeitar a propriedade ALHEIA consta nos anais dos referidos “bons modos” – Disparou, entre dentes. Imperturbável, Shura rebateu:
— Tu sequer respeita as LEIS DE DEUS, como ousas admoestar-me acerca de “respeito” ao que quer que seja?
— O quanto... o quanto leste de meus segredos?
— O suficiente para saber que tu, Milo e... a pessoa que se passa por “Camille” estais a caminhar juntos para o Inferno.
Ao ouvir aquilo, Afrodite caiu de joelhos, as lágrimas já aflorando nos olhos azuis.
— Por favor, permite que eu explique!
— Oh, mas não é necessário! Teus diários já explicaram-me tudo muito bem! – Rebateu, zombeteiro.
— C-Camus... não... não tem culpa de... foi o pai dele que...
— Silêncio. Não quero ouvir nenhuma palavra de tua boca pecaminosa.
O loiro, em estado de choque, estremecia a cada frase cruel do homem que amava. Mirando-o com frio desdém, Shura acusou:
— Fizeste-me acreditar que possuías por mim fraterna e honrada amizade, quando na realidade, alimentavas antes sentimentos nefandos... sodomitas...
— Não é assim! Meus sentimentos por ti sempre foram os mais honrados possíveis! Eu...
— CALA-TE. Não quero erguer meus punhos contra ti.
De primeira, tal fala chocou-o. Então, desafiador, Afrodite pôs-se prontamente de pé. Rosnou, entre o pranto:
—POIS USA-OS. O que te impede?
—És um pecador da maior magnitude, contudo, salvaste-me a vida, arriscando a tua própria. E, a despeito de tua concupiscência para com a minha pessoa, jamais intentaste contra minha honra de varão.
O peito de Afrodite parecia prestes a explodir. Reuniu todas as forças para murmurar:
— Eu juro... juro que posso explicar...
— Diz-me apenas uma coisa: o que relataste acerca da pessoa de Camille… que ela é Camus de Turenne... é verdade ou obra de tua imaginação inspirada por Satã?
O ex-camareiro tremia dos pés à cabeça. Travou a mandíbula, decidido a não responder.
— Não queres responder-me. Não importa: partirei para Saint-Doulchard averiguar toda essa história POR MIM MESMO.
— C-como assim?
— Primeiro, tirarei a prova de que Camille é mesmo Camus, conforme repetidamente dizes em tuas satânicas páginas. Se confirmar...
— NÃO... NÃO SE APROXIMES DE... NÃO OUSES TOCAR EM...
— Oh, de choroso tornaste-te bravio! – Zombou. – Acaso ainda nutres por essa pessoa o tal “amor de cinco anos”? Disseste que não...
— Vinga-te de mim! Deixa os condes de Saint-Douchard EM PAZ!
Shura agarrou-o pela gola, ameaçador.
— TOLO! É PELA PAZ DELES QUE ESTOU INDO AGIR! Se tuas hórridas palavras forem verdadeiras... a única maneira de os dois se livrarem da danação eterna... é EXPIANDO SEUS PECADOS!
— Q-que estás a dizer...? Acaso pretendes... não... NÃO PODES FAZER ISSO...
— Denunciá-los-ei às autoridades.
— NÃO! NÃO PODES fazer isso! – Gritou o loiro, tentando desesperadamente se desvencilhar. – Estás LOUCO? Eles serão MORTOS pela Igreja!
— Bem se vê que és um infiel. Uma vez pagão, sempre pagão – Shura agarrou-o com mais violência ainda. – São NOBRES de estirpe. Se confessarem seus pecados, serão APENAS PRESOS.
Em um violento solavanco, Afrodite livrou-se. Levando a mão ao pescoço dolorido, bufou:
— Como podes ter tanta certeza? Como afirmas ser AMIGO de Milo? Vais CONDENÁ-LO A...
— Melhor ser condenado pelo tribunal dos homens do que pelo Tribunal dos Céus.
— ELES SE AMAM! – Bradou, enfurecido. – Não poderás destruir o AMOR deles!!!
— Quero destruir o PECADO deles. E agradece-me por não denunciar A TI. Tua sorte é que nada vi acerca de tu levares a termo tua pederastia oculta.
Afrodite aproximou-se e cuspiu no rosto de Shura. O espanhol esfregou a parte atingida com as costas da mão, o semblante completamente vazio de emoção. Foi com assombro que o sueco viu-o chamar:
— GUARDAS!
Levou alguns segundos para seis sentinelas devidamente paramentados adentrarem o quarto do ex-camareiro. Este pôs-se a bradar:
— O que significa isto?
—Não te preocupes, ficarás aqui mesmo, até que eu volte de Saint-Doulchard. Poupar-te-ei de maiores sofrimentos.
— MALDITO! Não deixar-te-ei partir para lá! Guardas! PRENDEI SHURA! Ele pretende...
Não pôde terminar; foi golpeado pelo espanhol, um soco certeiramente desferido no queixo, que o desacordou de imediato. Tombou inconsciente no chão.
Shura abaixou-se para averiguar-lhe a inconsciência. Tocou-lhe o rosto, sentindo o coração doer como não poderia esperar. A despeito daquela dor no peito, sua voz saiu completamente destituída de emoção:
— Ponde-lo a ferros. Não o deixeis sem comer nem beber. Dir-vos-á sandices para ver-se livre. Não lhes deis ouvidos.
Os homens assentiram e carregaram o loiro para fora do quarto. Sozinho no recinto, Shura apertou fortemente o punho com que golpeara Afrodite. À medida que o apertava, apertava-se-lhe também o coração. Trincou os dentes, já arrependido do que fizera. Contudo... se fosse para salvar a alma de Milo, nem mesmo sua amizade com Afrodite poderia...
Camus.
A culpa TODA era de Camus.
“Não devo me entregar a arroubos emocionais agora. Tenho que partir. PRECISO tirar a limpo essa história absurda. E o primeiro passo será atrair para mim Camille de Turenne. A cada minuto que passa, Milo pode estar afundando mais e mais no pior dos pecados... consequentemente, descendo cada vez mais rapidamente ao Inferno! PRECISO SALVÁ-LO.”, refletiu. Deixou os aposentos do sueco, agora dirigindo-se, decidido, para a carruagem que o esperava.
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