Dame Jolie

30 Tão Belo, Tão Só


Notas iniciais
Excepcionalmente, postando sem betagem. Posteriormente corrigirei os erros que certamente permeiam o texto. Perdoem-me, estou tocada pelo vinho, pelo frio, pela chuva, pela ventura de ouvir músicas inspiradoras... agradeço pelos comentários, os quais posteriormente responderei em sua integridade. Não encontrei o autor da fanart, nem pelo SauceNao, se porventura alguém souber o nome do autor, por favor me diga, para que lhe dê os devidos créditos. Boa leitura!

O clima ameno e descontraído até há pouco reinante na Grande Sala do Castelo de Saint-Doulchard fora substituído por um crivado de murmúrios e olhares interrogativos. O que deveria ser um anúncio animador parecia não ter sido nada bem recebido pelo casal de condes, e nem mesmo pelo camareiro-mor de “Camille”.

— Shura casar-se-á com a filha do duque de Alicante?

— É o que me diz o soberano de Valência, minha esposa.

Camus retrucou, incrédulo:

—Isso não faz sentido. O marquês de Aguillar é o teu melhor amigo. Ter-te-ia comunicado.

— Também estou a estranhar, até porque tínhamos um compromisso; Shura prometeu voltar para França tão logo resolvesse seus negócios de família em Castela. – Milo não disfarçava seu estupor. – A menos que...

— “A menos que” o quê? – Quis saber o ruivo, preocupado com o ar distante do amigo ao seu lado, até então abstendo-se de se pronunciar.

Franzindo levemente as sobrancelhas, Milo deu de ombros ao responder:

— A menos que ISTO fizesse parte das questões familiares que o retiveram em sua terra natal.

Um breve silêncio se estabeleceu entre os presentes que, percebendo a tensão que pairava entre seus senhores, chegaram a repousar os talheres em seus pratos e escudelas. A voz de Afrodite emergiu, baixa porém neutra:

—Será que ele já estava a par de tal demanda?

— Não o creio. Shura ter-me-ia dito. Acredito que somente diante do pai tenha vindo a saber dos intentos casadoiros entre as famílias negociantes...

O conde cessou de falar quando as lembranças de Andaluzia se manifestaram mais intensamente: viu-se no imenso e belíssimo pavilhão de Benacantil, caminhando por entre as majestosas palmeiras ao lado do amigo castelhano, com quem tivera o seguinte diálogo:

“- Esse casamento mudou-te, deveras. Faz-te sério, irritadiço, por vezes até mesmo ensimesmado.

— Por falar em casamento, não possuis tu intenção de unir-te em matrimônio com donzela de tua terra? Eu entenderia se te demorasses um pouco para retornares a Saint-Doulchard.

— Não vejo problema em desposar uma francesa. Prefiro que seja tudo a seu tempo.

— Vais me dizer que pretendes casar por amor? Não conhecia a faceta romântica de ‘Shura, o Justo’.

— Se não há sobre mim pressão alguma por parte de minha família, ou de nenhum soberano a quem eu deva obediência irrestrita... não seria de todo absurdo.

— Compreendo... também eu almejava casar-me por amor. É uma ideia tão nova mas tão avançada, se formos analisar...

— Mas tu AMAS Camille.

— O amor nem sempre passa por cima de tudo. Nem sempre dobra todas vicissitudes, ainda que poetas e trovadores assim o pretendam...

— Folgo em saber que já não o negas!

— Bom, tão logo termines de rir de mim, responde-me: não sendo tu do tipo sentimental, não seria melhor optar por algum contrato vantajoso...?

— Sabes que não sou ambicioso, pelo menos não a ponto de comprometer meu bem estar. Posso não ser rico como tu, contudo as posses de que disponho possibilitam-me continuar a viver livremente, como sempre me aprouve.

— É por isso que somos tão amigos.”

— Não faz sentido – repetiu, em um murmúrio intrigado – Shura parecia decidido a casar-se por amor, já que, não sendo primogênito dos Aguillar, não incidia sobre ele tal necessidade. Não entendo o que pode ter acontecido.

Àquela fala, Afrodite sentiu nova dor pungente no coração já ferido.

Shura... então Shura queria amar...

Shura tencionava casar-se por amor.

Ainda que não fosse, e que jamais viesse a ser, alvo daquele amor, sorriu por saber que Shura nutria tal anelo. Aquilo não se fazia comum entre os varões de seu tempo. Mais uma comprovação do homem admirável que era o espanhol. Todavia, conhecer o fato conferia ao seu sorriso, entre o orgulho do marquês, nuances de consternação.

— Neste caso, deve haver algum engano. – Arriscou um esperançoso Camus. Não queria ver o amigo sofrer! Embora não estivesse certo de que houvesse chances para o amor que o sueco cultivava, o matrimônio do espanhol seria um duro golpe para ele!

— Oras, se é o próprio pai da noiva que diz ter oferecido a mão da filha a Shura...

— Mas tu disseste que ele não se casaria por um mero acordo. Shura é um cavaleiro digno, eu acredito em sua palavra. – Insistiu o ruivo, com firmeza.

Sorvendo o vinho com certa avidez, Milo estudava mentalmente todas possibilidades. Em seguida, fez vir ao conhecimento de todos o que nascera em seu raciocínio:

— De fato, Shura sempre me disse que esperava unir-se a uma mulher por legítimo amor. Sendo o segundo filho, a sucessão do nome e das riquezas não o contemplariam, segundo a tradição de sua terra. E, neste caso, dificilmente viria sobre si a obrigação de casar-se mediante conveniência. Pelo menos, era o que ELE achava. E se o pai resolveu mudar de ideia? O duque de Valência pode ter considerado Shura um bom marido para sua filha, que tampouco é primogênita. Em se tratando de uma proposta do homem mais rico de Espanha, o pai de Shura certamente obrigá-lo-ia...

— Ainda assim, confio em que Shura se mantivesse fiel aos seus ideais. – Camus estava irredutível; virou-se para o camareiro-mor, que parecia abismado com a hipótese de Milo. – Que achas, Afrodite?

Empertigando-se um pouco para disfarçar sua angústia, o sueco respondeu:

— Pelo pouco que conheci do marquês de Aguillar, eu também acredito que ele não se curvaria aos desígnios da família. Pareceu-me homem assaz fiel aos seus princípios, como bem observou minha senhora.

O conde levou a mão ao queixo, reflexivo.

— Sendo assim, só me resta imaginar se não acabou por manifestar algum interesse amoroso pela moça.

Camus e Afrodite entreolharam-se, tentando ao máximo dissimular a surpresa.

— Conhecemos os filhos do duque de Valência quando chegamos a Benacantil. O mais velho, Carlos, é um rapagão esbelto, arguto, bem apessoado, e suas irmãs mais novas seguiram-no no quesito formosura. Notadamente Isabel, a segunda filha, ainda mais bonita que a primeira, Eugênia...

— Andaste a reparar na beleza das filhas de teu anfitrião, pois? – Camus estreitou os olhos perigosamente.

— Não acabei eu de me referir em similares termos ao primogênito varão?

— Hunf...

Um tanto sem jeito, o conde prosseguiu, sob o olhar gélido “da esposa”:

— Isabel é bela... hã... obviamente não mais que tu, Camille... bem... tem bons modos, boa postura, um olhar inteligente e... é bem séria e comedida para seus 16 anos, mais que a irmã de 18, um tanto estouvada e coquete...

— São admiráveis tuas qualidades como observador de BELDADES – comentou Camus, seco como a sarça do deserto.

— Minha amada, estou apenas buscando razões para justificar a mudança nas ações de meu amigo!

“Dezesseis anos”, pensou Afrodite, com pesar.

A comida e o vinho tornaram-se insípidos para ele.

Não. Insípidos não.

INTRAGÁVEIS.

Camus ergueu o cálice, contemplando-o maquinalmente, enquanto ponderava, em tom glacial:

— Considerando que Shura tenha apreciado então a ideia de contrair matrimônio devido aos FENOMENAIS ATRIBUTOS da donzela, tão DETALHADAMENTE enumerados pelo senhor meu marido... isso faz dele alguém em cujas promessas não se pode fiar, visto que assegurou ao senhor conde que retornaria a Saint-Doulchard para assessorá-lo em seu governo.

— Quanto às promessas que faz – inconscientemente Milo segurava o próprio pescoço, fitando Camus de modo impetrante – Shura não é homem de as romper. Nunca o fez, e jamais o fará. Talvez... talvez planeje trazer Isabel PARA CÁ.

— O QUÊ?!? – exclamaram “a senhora” e seu camareiro, em uníssono.

O cavaleiro estranhou a reação dos dois, porém não se deteve nela, preferindo explicar rapidamente sua suposição:

— Por mais que o pai seja rico e poderoso, o dever da esposa é seguir seu marido. Se Shura se comprometeu em retornar para França, ele o fará. E se ele o fará estando casado, é certo de que Isabel virá com ele.

Um gosto inominável invadiu a boca de Afrodite. Um latejar constante na cabeça atordoava-o. Seus olhos queimavam de lágrimas que de maneira alguma poderiam ser derramadas. Fingiu assoar o nariz em seu lenço de seda para justificar o súbito brilho nas córneas e o vermelhidão no nariz. A tudo aquilo estava Camus atento, compadecido do sofrimento que o amigo estava a experimentar.

— Que bom, senhora condessa. Tereis uma companhia feminina, para variar. – Comentou o sueco, forçando um sorriso. O ruivo concordou, esforçando-se por não parecer preocupado:

— É verdade.

— E a julgar pela descrição do senhor conde, a personalidade da referida donzela parece ser compatível com a vossa, reservada e esclarecida.

— Afrodite... – Camus disse, encarando severamente o amigo. Queria pôr a mão sobre a dele, apertá-la, consolá-lo... um procedimento inadequado para a ocasião, naturalmente.

Um bolo se formou na garganta apertada do sueco. Seu peito ardia, algo expandia-se incomodamente ali dentro. Ergueu-se de súbito:

—Senhores, peço-vos licença para me retirar. O vinho não me caiu bem.

Milo lançou a ele um olhar duro.

— Pareces-me é agastado com o assunto da universidade, ainda.

— Não o nego, Excelência. – Afrodite aproveitou-se da impressão do conde para isentar seu visível desconforto. – Porém, ficais seguro de que hei de proceder conforme desejardes.

— Não é assim que quero que seja – replicou o cavaleiro, levantando-se também. – Vem comigo até meu escritório.

— Sim, meu senhor.

E os dois retiraram-se do recinto sob os olhares atônitos tanto “da condessa” quanto dos comensais. Camus respirou fundo, buscando ânimo de permanecer ali com aquelas pessoas, simulando total normalidade.

*************

O conde de Saint-Doulchard e o camareiro-mor de “sua esposa” encerraram-se no escritório do terceiro pavimento do castelo. Os círios ardiam permanentemente no lustre de puro ouro que pendia do teto de pedra, iluminando o ambiente ornado por tapeçarias centenárias e tapetes orientais, além das relíquias de família, dispostas em balcões sobre duas lareiras e sobre a extensa mesa de carvalho, sobre a qual repousavam além de códex e livros variados alguns castiçais.

Silencioso, Afrodite esperou pela reprimenda do aristocrata, que caminhou até a cadeira na qual se sentou, bem de frente à mesa de trabalho. Apontou para outra cadeira próxima.

— Toma assento, desejo falar-te.

O jovem fez conforme ordenado, já na defensiva, muito ereto e de cabeça erguida.

— Aceitas um vinho?

— Agradeço-vos o oferecimento, mas não...

— Não aceitas o vinho oferecido por teu próprio senhor? – Milo ergueu uma sombracelha, enchendo a taça diante de si.

— Como vos disse lá embaixo, o vinho fez-me mal e...

— Não, não foi o vinho que te fez mal. Em verdade, não foi nada do que bebeste ou comeste, e sim de que OUVISTE.

Um frio correu pela espinha do camareiro. Um estremecimento involuntário assaltou-lhe os membros.

— O que te fez mal foi saber que pretendo enviar-te para a Universidade de Paris.

Afrodite suspirou, aliviado; Milo tomou-o por um suspiro de desalento.

— Com efeito, sois notadamente observador, magnificente conde – declarou, destilando uma ironia quase imperceptível – Não sou capaz de enganar-vos.

Recostando-se no estofado aveludado, o cavaleiro tomou do vinho, fitando o rapaz.

— Afrodite, ao contrário do que pensas, não almejo proceder com arbitraridade acerca de teu destino. Tu ouviste Camus, nem ele sabia da carta que enviei ao reitor, requerendo para ti um lugar nos bancos de Medicina. Eu planejava fazer-vos uma surpresa...

— Lograstes êxito, meu senhor, pois que ficamos realmente surpresos.

— Não de um jeito positivo.

— De minha parte, não mesmo – admitiu, em um fio de voz.

— E da parte de Camus também, foi o que pareceu – murmurou o conde, soturno – Enfim, eu julguei que se tratava de um sonho teu. Disseste-me que tua vinda à França foi motivada pelo sonho de ingressar na Universidade, assim que se findassem os anos de formação como cavaleiro.

— Deveras. Era o meu sonho, mas...

— Mas o amor que sentias por Camus fez adormecer teu sonho.

Afrodite jurou que seu coração havia parado; fez-se boquiaberto, mas resposta alguma saiu-lhe dos lábios avermelhados. Seus músculos retesaram quase dolorosamente, não sabia se por temor ou por vergonha.

— Do que estais a falar? Se vos referis a um amor fraternal...

— Não. Tu sabes que NÃO me refiro a ESSE tipo de amor.

Trêmulo, o sueco deixou escapar uma exclamação, pretextando indignação. Levantou-se da cadeira, subitamente elevando a voz, amedrontado:

— Não tende o direito de supor semelhantes INFÂMIAS a meu respeito! Que decidais meu destino, posso entender-vos os desmandos, voluntarioso que sois!

— Eu não me refiro ao presente, Afrodite – rebateu Milo, surpreendentemente calmo – Entendo que hoje tu és um aliado leal de nosso relacionamento, e que tens nele um amigo. Refiro-me ao passado.

O sueco calou-se, respirando aos ofegos. Aproveitando-se disso, o cavaleiro foi até ele; em tom brando, continuou, quase aos sussurros:

— Houve um tempo em que eu desconfiava de ti. Cheguei a nutrir ciúmes que muito mal fizeram a mim... e ao próprio Camus. Contudo, eu não estava a usar a razão, pois que me encontrava perturbado pela negação de meus sentimentos por ele. Sei que ele sofreu demais, Afrodite... mas... também eu sofri.

— Eu imagino... – Afrodite, melhor que ninguém, sabia a dor causada por um amor reprimido. Pouco a pouco, acalmava-se mais.

— E quando a razão foi-me restabelecida, com ela foram restabelecidas as faculdades de sondar as intenções daqueles que comigo convivem. Não encontrei em ti desonestidade e cobiça – sorriu de leve – arrogância e empáfia talvez, mas...

— Juro-vos que não tenho para com Camus qualquer intenção amorosa.

— Acredito em ti. Não obstante, poderias jurar o mesmo em relação ao passado? Quando descobriste que Camus não era uma moça? Quando deixaste teus sonhos de lado para apoiá-lo em uma vida de provações?

— O d-duque... o duque de Borgonha pediu-me... q-que...

— Poderias ter negado sua proposta.

— E-eu não poderia – negou, aflito – eu havia descoberto... o duque estava preocupado e... e... eu não queria que ele temesse que eu os traísse...

Milo calou-se, encarando o rapaz com inédita compaixão. Mostrou-se paciente e disposto a esperar por que a verdade viesse à tona. Incapaz de lidar com aquilo por mais tempo, Afrodite acabou por confessar:

— Pois muito que bem. Eu amei Camus. Amei-o sim, contudo, nunca revelei a ele aquele amor.

O conde devolveu, sereno:

—Como poderia eu recriminá-lo? Conviver com semelhante criatura, tão intimamente, por anos... o que move minha curiosidade é: por que não lhe fizeste conhecer acerca de um amor que poderia tê-lo consolado de uma existência de infortúnios?

— Por quê? – perguntava a si mesmo, mais que meramente repetir o que lhe fora questionado – Teria sido como me aproveitar da situação. Se Camus me aceitasse, seria tão somente pelo que vós acabastes de dizer: um consolo. Uma compensação. Nunca por real sentimento. De mais a mais, Camus... não manifestava o mínimo interesse nem por mulheres nem por homens. Era como se... se ele se evadisse do mundo real, e de seus habitantes... ele, que não era nem Camille para si... e nem Camus para os outros. Era como se ele... se magnificasse em algo puro, além do alcance de quem quer que fosse. O próprio senhor Teobald II considerava-o detentor do ascetismo monástico. Cria-o mais abstêmio e elevado que qualquer sacerdote. Eu... eu acabei por considerar o mesmo, senhor Milo...

— Compreendo-te. Compreendo-te muito bem – murmurou o cavaleiro, profundamente apiedado, tanto pelo jovem diante de si, quanto do esposo.

— Quando percebi que ele estava a enamorar-se de vós, aquele amor ainda residia dentro de mim. Entretanto, gradualmente, o sentimento foi se transmutando em uma espécie distinta de amor. Um amor que queria vê-lo feliz, não à minha maneira... mas à maneira de Camus. E esta era unicamente ao vosso lado. Ah! – sorriu, cerrando os olhos para prender as lágrimas – Devo confessar, um novo amor que dominou meu ser cuidou de efetuar tal transmutação. Não hei de mentir, agora que despejei toda a verdade que sempre ocultei.

— Então... amas outra pessoa, agora?

— Sim – balbuciou, olhando para o chão. Prontamente ergueu o queixo e disse, resoluto – Todavia, espero que esta informação não queirais extrair de mim, senhor Milo.

Rindo, o conde foi até a mesa; encheu as taças de vinho, levando uma delas ao sueco, que desta vez aceitou.

— Contanto que não seja eu a vítima de teu novo amor, sossego.

— Qual – não pôde conter o riso, sentindo o coração de repente mais leve – Definitivamente não fazeis meu tipo, como tampouco faz meu tipo surrupiar algo de um amigo.

— Como se o pudesses – devolveu o gracejo, propondo um brinde, ao que Afrodite correspondeu.

Após o primeiro gole, o camareiro voltou a demonstrar preocupação.

— Senhor Milo... acaso... ide contar a ele que...

— Não te aflijas. Se nunca o fizeste, não serei eu a fazê-lo. Cá entre nós, considero mesmo desnecessário.

— Agradeço-vos.

— Quanto à Universidade, Afrodite... não tive a intenção de agir como déspota de tua vida. Tampouco forçar-te-ei a ir para lá. Sabes que eu, como soberano da terra em que vives, e do castelo onde resides, teria todos direitos de fazê-lo.

— Sim, eu sei – admitiu o sueco, apreensivo.

— Mas não o farei.

Sob o olhar desconcertado de Afrodite, Milo dirigiu-se até uma janela aberta, afastando as pesadas cortinas de veludo escarlate. Ganhou a vista iluminada até o longínquo e dourado horizonte, a contrastar com o manto escuro que era a floresta.

Umedeceu os lábios para contar:

— Exatamente aqui nesta sala, há coisa de três meses, eu ouvi dos camponeses acerca dos malfeitores que os atacavam. Exatamente daqui desta janela, ergui meus olhos para além da floresta, imediatamente consciente de que Camus corria perigo. Meu coração gritava-me isto, Afrodite.

O sueco engoliu em seco, atento e imóvel em seu lugar.

— A primeira vez em que experimentei genuíno pavor nesta vida não foi em um campo de batalha, onde o solo sob meus pés convertia-se em um rio de sangue. Não foi quando a doença e a peste carcomiam as faces de meus soldados e companheiros. Tampouco o conheci no cárcere, quando cheguei a ser torturado por aqueles aos quais eu chamava então “infiéis”.

Tomou fôlego, procurando não deixar a voz embargar:

— Foi quando encontrei Camus nas profundezas daquela mesma floresta, desfeito no chão, sem sentidos, quase despido, sujo de terra e musgo, com sangue negro a escorrer de sua cabeça – não foi bem sucedido no que tentou fazer ao pausar o relato – Camus não sabe, e eu te peço encarecidamente que não lho contes, mas até hoje, por vezes sonho com aquele hórrido momento. Acordo com um grito preso na garganta, as lágrimas a incendiar-me as órbitas, suor frio a cobrir-me a fronte... e eis que a agonia se vai quando o vejo ressonando a meu lado, belo, sereno, plácido... porque TU o salvaste.

Afrodite desviou do conde os olhos marejados, ao replicar:

— Vós o salvastes antes.

— Se não fosse por ti, ele não teria sobrevivido, mesmo tendo eu o resgatado. Fiquei impressionado com o procedimento que realizaste naquela noite tenebrosa. Sei que muitos médicos não seriam capazes de fazer o que tu fizeste sem estudo algum. Tens um dom excepcional, único, Afrodite. Não podes esperdiçá-lo. Pelo que Deus a ti concedeu, pelo bem de Saint-Doulchard, pelo sonho que acalentas desde a tenra infância... aceita a admissão na Universidade.

Cruzando os braços, o camareiro-mor admitiu, sincero:

— Talvez eu tenha sido pouco polido para convosco. Entendai-me, suplico-vos... eu nunca... desde que conheci Camus... nunca fiquei longe dele por mais tempo que aquelas duas semanas em que estivestes em Haute-Loire. Serão três anos dedicados ao curso de Medicina! Como fará ele para manter o disfarce do qual depende para viver sem minha presença, sem minha assessoria? Reconheço que, recentemente, tende executado o que sempre foi meu ofício com primor tal que ele vem dispensando meus serviços.

— Se me comprometi a cuidar dele para o resto da vida, era o mínimo que eu deveria fazer, aprender a auxiliá-lo. Prometo-te em nome de Nosso Senhor que seguirei nesta empreitada até que tu retornes para Saint-Doulchard.

— Eu não sei – murmurou Afrodite, sua guarda baixando cada vez mais. Suspirou longamente. Fitou o conde e indagou – Senhor Milo, eu poderia pensar um pouco a respeito de vossa proposta?

O cavaleiro assentiu, sorrindo brandamente.

— É claro que sim. Peço-te apenas que não tardes em fazer-me conhecer tua resposta.

— Eu a terei amanhã, asseguro-vos.

— Está bem.

— Eu... eu gostaria de ir à cidade. Ver o hospital. Concedeis-me permissão para conhecê-lo?

— Seguramente! Tens minha permissão. Ainda não está pronto, porém as obras estão a meio caminho andado.

Afrodite meneou a cabeça, despreocupado em dissimular o desânimo que insistia em nele reinar. Pediu licença para se retirar; Milo a concedeu, ficando a sós com seus pensamentos, que abundavam...

Percorrendo o longo corredor alumiado por centenas de lamparinas, o camareiro-mor encontrava-se como que desnorteado. Quando chegou à escadaria vigiada por guerreiros nas tapeçarias centenárias, deu com a bela figura de Camus, que por ela ascendia, provavelmente no afã de com o amigo se encontrar.

Miraram-se longamente, em meio ao mutismo dos que buscam quebrá-lo sem contudo encontrar um meio. Incontinenti, o loiro fez menção de prosseguir. Desceu alguns andares; ao emparelhar-se com o ruivo, ouviu dele a voz baixa:

— Eu não sabia que Milo pretendia enviar-te a Paris.

Detendo-se, Afrodite falou, secamente:

— Sei disso.

— Então por que ainda pareces aborrecido comigo?

— Estou aborrecido sim, mas não contigo. E nem mesmo com o senhor Milo, malgrado ele tenha procedido como um estólido.

— Estás aborrecido com Shura...?

— Que te parece? – replicou, quase impaciente. Voltou a descer os degraus. O outro seguiu-o, ambos dialogando aos sussurros.

— Eu sinto por ti, Afrodite. Sei que esperavas pelo retorno dele...

— Eu deveria saber que se tratava de um devaneio, um anseio inviável, infrutífero. Mereço a decepção!

Camus balançou a cabeça em uma consternada negativa:

— Enganas-te. Uma pessoa boa como tu não merece decepções!

— Oh, não? – Um riso sardônico fez-se ouvir – Penso que quem estás a se enganar aqui és TU, meu amigo... pois que parece ser meu destino.

— Afrodite...

— A despeito desta minha tão decantada beleza, fadado a não ter para mim aqueles a quem amo...

— “Aqueles”? – Estranhando aqueles dizeres, Camus parou e puxou o sueco pelo braço, forçando-o a interromper sua descida.

— Deixa-me, por Deus!...

— A quem te referes? Usaste o pronome no plural – demandou, firme.

— Isso não vem ao caso, Camus, não tem a menor importância – rebateu, com cansaço – Solta-me, peço-te...

— Nunca te vi desse jeito. Acaso não confias mais em mim?

Afrodite olhou-o de esguelha, sem dar mostras de se render. Um tanto hesitante, Camus o soltou.

— Aonde vais?

— À cidade. Quero andar por lá, ver o bendito hospital, sair um pouco, respirar...

— Se ao menos um conselho puderes aceitar de mim, não acho que estejas em condições de sair, Afrodite.

Este virou-se para o outro, dardejando-o com o brilho das lágrimas tremulantes sob a luz dos archotes. Camus sentiu-se profundamente comovido ao ver o estado desamparado daquele a quem sempre vira esfuziante e animado.

— Não é que eu alimentasse qualquer esperança. A possibilidade de que Shura correspondesse aos meus sentimentos era ínfima, sei. Quiçá inexistente. Mas sua mera presença alentava-me. Esperava reviver as venturas daqueles dias felizes. Um devaneio vão: agora… ele voltará casado.

— Eu lamento tanto, Afrodite...

— Aprecio tua consideração – murmurou, lasso – Com a tua licença, retirar-me-ei. Até mais tarde.

— Até mais tarde... vai em paz.

Após afastar-se do ruivo, Afrodite submergiu no fundo da escada. Desconfortável sensação oprimia Camus; quis a companhia de Milo para se aquecer do frio daquela impressão. Subiu os degraus e ganhou o corredor, indo apressadamente até o escritório do marido.

— Oh. És tu – falou o loiro, sendo retirado de seus cismares pela adorada imagem do recém chegado.

Camus fechou a porta, cuidando para puxar o trinco de ferro. Foi até o esposo, em silêncio.

— Possuis um olhar recriminador. – Observou Milo, pouco à vontade.

— És perspicaz.

— Reprovas-me por tão somente ter querido fazer a vós uma surpresa?

— O senhor meu marido decerto falhou em escolher uma surpresa adequada.

— Eu julgava que o sonho do impertinente fosse se tornar médico. – Defendeu-se, caminhando pelo recinto, agastado.

— E era. – Camus abaixou a cabeça, o bafejar da culpa sobre si – Acabou sublimando-o por minha causa. Deixou todos seus anseios de lado para cuidar de mim, sob ordens de meu pai.

— Não deverias culpar-te assim. Pelo que sei, o senhor duque foi bem generoso para com ele. Ademais... Afrodite pode fazer frente a miríades de nobres de estirpe, e a despeito disto, preferiu servir a ti. – Ponderou as palavras para não deixar escapar demasiado de sua boca – Ele te tem em alta conta, Camus...

— Sim, eu sei...

— Sabes?

O ruivo mirou-o, sem compreender a entonação utilizada.

— Oras... como não o saberia?

Temendo descuidar da língua, o loiro mordeu o lábio inferior. Que tolice, o esposo ignorava totalmente o tipo de amor a ele outrora dirigido pelo camareiro-mor! Deu uma volta, nervoso, indo parar defronte à janela aberta. Por trás dele, veio o amado, demandando:

—Milo, por que me pareceu que tu te desagradaste da notícia do casamento de Shura?

O conde deu de ombros, sem se virar.

— Já te disse: contava com ele para prestar-me um favor, antes que se instalasse em definitivo aqui em Saint-Doulchard.

— E qual seria? Pois que tu ficaste decepcionado, via-se claramente.

O conde revirou os olhos, irritado. Não por causa da curiosidade do marido; ao contrário, lisonjeava-o ver Camus interessado em seus assuntos, de certa forma.

— Pois bem, dir-te-ei, embora seja inútil que o saibas, pois que com esse casamento, isso, por certo, não mais acontecerá: esperançoso de que meu pedido fosse atendido... eu pedi a Shura que fosse para Paris com Afrodite.

— Tu fizeste O QUÊ? – Camus quase caiu para trás.

— Eu precisava de um exímio guerreiro para acompanhar o camareirozinho nesta jornada, afinal, fazia-se mister alguém além de qualificado, de confiança, e... por Deus, de que estás RINDO?

Certamente, aquele riso não se devia a qualquer alegria brotada em momento tão peculiar: o jovem ruivo estava a rir de nervoso. De puro nervoso!

Ocorre que o sorriso, e acima deste, o riso de Camus não era algo tão frequente, mesmo durante aqueles dias felizes, logo, Milo não poderia desvendá-lo a princípio.

— Não entendo por que minha decisão diverte-te tanto. Shura seria o mais capacitado para essa missão. Não havia de se tratar meramente de proteger teu amigo doidivanas, e sim, salvaguardar o futuro diretor do hospital o qual espero tornar um dos melhores da Europa... o melhor da França!

Tapando a boca com a mão, o consorte buscou conter-se. Aprumando-se sem demora, garantiu, serenamente:

— Perdoa-me. Não foi minha intenção tripudiar de teus intentos ou de contestar os inegáveis méritos do valoroso Marquês de Aguillar.

— Então...? – Milo ficou confuso.

— Como tu mesmo disseste… agora tudo é inútil. – ciciou, melancólico. Calou-se, pensando “Ah, meu amigo... lamento que tão auspicioso porvir tenha de ti sido arrebatado por uma injusta reviravolta do destino!...”

— Que tens? – o conde acercou-se do amado, percebendo o súbito ar entristecido.

— Esquece.

Milo tomou-o pela cintura delgada, afundando o rosto nos rubros e perfumados cabelos, propondo:

— Vem para nossa alcova. Deixemos o impertinente por ora. Vem...

— Por que ele foi até o hospital?

— Como hei de saber? Talvez tenha tido ganas de conferir pessoalmente o hospital, a fim de pensar na resposta que ficou de me dar até amanhã.

“Sabendo que Shura voltará acompanhado da moça Isabel, não duvido que ele decida por partir...”, refletia o ruivo, sendo sutilmente conduzido pelo cavaleiro.

*************

Ele dispensara a carruagem. Melhor seria cavalgar, sentir o vento frio em suas faces congestionadas de frustração, em seus cabelos claros como os primeiros raios de sol de uma manhã de outono. Distanciava-se cada vez mais do colossal castelo, mergulhando no bosque de cores desmaiadas. Sob os cascos do corcel branco veloz, cada esmagar das folhas secas evocava o que acontecia no coração do ressentido mancebo.

“Shura... Shura casar-se-á!”, ecoava insistentemente em sua alma alanceada.

Não é como se não esperava que aquilo não viesse a se suceder algum dia.

Não.

Shura era garboso, galante, viril, honrado.

Impossível que nunca se envolvesse com alguém.

“Mas eu o esperava... ele prometeu... ele ME prometeu!”, apertou os olhos úmidos, apertando as rédeas nas mãos até ferir as palmas róseas.

Reviu em sua mente o dia em que Shura partira para Andaluzia... minutos antes, caminharam lado a lado, atrás de Milo e Camus, para onde a comitiva aguardava o conde e o marquês, e mantiveram o diálogo que reverberou junto com o vento daquelas paragens... o castelhano reparara em seu mutismo:

“- Estiveste silencioso durante a refeição matinal.

— Impressão tua...

— Será mesmo?

— Bem, não estou exatamente feliz com teu exílio. Perdoa minha puerilidade” – confessara, sentindo as maçãs do rosto queimarem. O outro dera um risinho, e ele se envergonhara ainda mais.

“- Não será por muito tempo. Lembra-te de que fiquei de ajudar Milo em sua administração de Saint-Doulchard?

— Isso intriga-me... és marquês em tua terra... por que...

— Afrodite, eu não sou o primogênito” – havia parado de andar. O sueco também se detivera, ficando ambos no topo da escada, a qual os demais já haviam descido.

“- Então...

— Não tive a sorte de Aiolia, cujo pai deu-lhe praticamente tratamento de filho mais velho. Não é o que ocorre em minha terra. À parte de ter minhas posses, a maior parte delas conquistadas por minhas missões e pelas graças que obtive do rei de Castela, o normal é que nós, que viemos depois do mais velho, busquemos os louros da vida em outras instâncias. E foi o que fiz. A exemplo de Teobald II, conquistei meu lugar ao sol. E nele pretendo ficar. E ele é ao lado de Milo d’Auvergne, que, conforme está escrito nas Escrituras, é-me ‘amigo mais chegado que um irmão’.

— Então retornarás mesmo?

— Pensaste que eu estava a mentir?

— Não... mas... bem...

— Estás vermelho como os cabelos de Camille.

— Oh –“ ele rira, feliz e envergonhado.

Shura sorrira-lhe, amistosamente.

“- Alegra-me que me dirijas tua amizade. Ela me é muito cara, Afrodite. Tenho por ti igual sentimento.”

E voltara a andar, deixando-o para trás, atônito. Sentindo os olhos arderem por lágrimas ardentes, as quais segurou com muito custo, naquele instante dera por si:

“Amizade... então é isso... mas... claro! Tolo!!! Que tolo eu sou... como seria diferente, por Deus?”

Sim, por Deus.

Em nome de Deus... por que havia ele se esquecido daquilo?!?

Por que permitira que continuasse a arder a chama de uma paixão infértil em seu jovem e sequioso peito?

Porque via a si e ao marquês conversando animadamente diante da lareira, sorvendo vinhos e finos licores, cavalgando por aqueles mesmos bosques, então verdejantes, palestrando nos jardins e pomares... ainda que Shura não tivesse dado nenhum sinal de que pudesse apreciar nele algo além da amizade, tinha sido tão bom desfrutar de sua companhia, de sua camaradagem e atenção! Como queria viver tudo aquilo de novo... mesmo que seu amor perpetuasse oculto, sufocado, amordaçado, ter Shura só para si, como em muitos momentos quando da estada do moreno em Saint-Doulchard... seria o supra-sumo de sua existência.

Lágrimas atiraram-se ao vento.

“Shura... por que fui te amar? Eu, que por anos amei Camus, tinha agora que amar MAIS uma pessoa que jamais seria efetivamente destinada a MIM?”

Odiava-se.

Odiava-se porque ele era apenas amor.

Sofrera porque amara a família.

Sofrera porque amara quem o havia ferido.

Sofrera porque amara um grande amigo.

Sofrera porque amava, enfim, o verdadeiro amor.

Tomou o caminho para o vilarejo, desviando-se daquele que levava à floresta.

Isabel. A futura esposa de Shura. Milo descrevera a jovem como bela, culta, de maneiras discretas, contidas.

Parecia destinada ao marquês... o temperamento dele ajustava-se àquela descrição!

Dezesseis anos. Na flor da idade. Donzela. Pura, casta, perfeita.

Perfeita...

Cerrou os olhos, dos quais o pranto verteu, ainda mais abundantemente.

“Nem em meus sonhos eu teria a chance de fazer frente a semelhante criatura”, analisava, magoado. Atravessou um pequeno riacho, em cuja superfície cristalina refletia-se o plúmbeo céu do entardecer.

Sim, era verdade que o consideravam o mais belo homem da Terra. Quem quer que nele pousasse os olhos concordava com a louvável proposição.

Tão belo... e tão só.

Sempre só.

Para todo o sempre... só.

Ele e sua magnânima beleza.

*************

A tarde derramava-se morosa por sobre o vilarejo apinhado de pessoas, apressadas em seus afazeres, pois que o sol já cedo abandoná-los-ia. Deveria ser por volta de 15 horas.

Afrodite havia feito o cavalo diminuir a marcha para conhecer bem o lugar, no qual pisava pela primeira vez desde que àquela província chegara. Consciente dos insistentes olhares sobre sua figura, não fez deles caso, optando por manter-se alheio à inevitável admiração que sempre suscitava nas gentes... moças apontavam-no maravilhadas, julgando-no um príncipe estrangeiro; senhoras acorriam às janelas, boquiabertas, suspirando; homens levavam as mãos às cinturas, alguns despeitados, outros... desejosos.

Percorreu as vielas acidentadas, algumas sem qualquer calçamento, outras em processo de modernização por ordem de seu novo governante... viu algumas lojas em construção, trabalhadores findando seus trabalhos, a concentração destes somente suspensa ante a passagem do formoso e imponente forasteiro.

“Não se pode negar que Milo está sendo um bom governante. Vê-se que só agora este local se encontra em processo de mudanças.”

Milo.

Gostava do conde. Não guardava-lhe rancor pela atitude precipitada de decidir-lhe o futuro.

“O idiota achou que seria uma surpresa agradável, apenas isso.”, sorriu, o que refrescou-lhe a fisionomia, até há pouco carregada pelo pranto a que se rendera no caminho.

“Regozijo-me por ele e por Camus. Ambos deram um ao outro a felicidade que até hoje não haviam conhecido.”, refletia, contemplando o cemitério; sabia que ao final deste ficava o tal hospital em construção.

Lá estava ele.

Uma antiga abadia que em breve se converteria no centro de atendimento aos doentes da região.

“É maior do que imaginei”, surpreendeu-se diante da grandeza da edificação, rara naquela localidade tão desprovida de monumentos dignos de nota.

Fazia sentido: a Abadia de Saint Pierre fora erigida em meados do século X, quando a mente criativa e empreendedora da arquitetura de então voltava-se quase que exclusivamente para igrejas e afins. Erguia-se majestosa em mais de um andar, com suas cúpulas ogivais rumo aos céus, guardadas por santos finamente esculpidos, por sobre as entradas das quais afluíam carpinteiros.

Apeou do cavalo, que amarrou a um frondoso carvalho sob o qual havia ervas que ele sabia apetitosas para o animal. Acariciou-lhe a crina sedosa, dizendo-lhe carinhosamente:

— Desculpe-me por fazer-te andar tanto. Descansa e serve-te.

Chamou um rapazote que carregava madeiras rumo às obras.

— Dou-te algumas moedas para que dês de beber ao meu cavalo. – Anunciou.

O adolescente sorriu feliz e foi correndo buscar um balde de água. Afrodite agradeceu, o que era raro para um raro que pagasse por algum serviço. Encantado com o pagamento e com a aparência do recém-chegado, o pequeno marceneiro ficou a observar extasiado o aristocrata que se dirigiu, a seguir, para o interior da abadia em obras.

Os operários fizeram reverências, certos de ser ele algum enviado do soberano. Ganhando o santo abrigo, o sueco percebeu que as obras encontravam-se razoavelmente avançadas. Dava para notar que ampliações concederam um maior número de aposentos e saletas ao lugar. O chão, certamente outrora de pedra como as paredes, feito de piso liso em pastilhas de mosaico.

Adentrou o que pensou ser uma capela, talvez a única parte preservada em sua forma original. Atrás do púlpito cingido por um manto púrpura, uma monumental madona abria os braços como a recepcioná-lo em sua morada.

A imagem causou-lhe viva impressão. Acima dela, em nichos ricamente ornados em estilo pré-gótico, anjos e santos miravam-no, compassivos. Pareciam por ele aguardar há séculos... e, de fato, há séculos estavam ali... impávidos, serenos, a guardarem, por certo, segredos celestiais.

Ao longe, o clangor das ferramentas, as vozes dos operários, o canto de algum deles... tudo se distanciava.

Ninguém havia ali, com exceção do jovem sueco.

“Tão belos... belos... tudo é belo, e tão silencioso... tão belo e só...”

Sentiu o ardor das lágrimas novamente a assomar-lhes as pálpebras já doridas.

“De que vale a beleza se a solidão a consome? De que vale ser o mais belo dos homens, conforme dizem, se tudo a isto destinado é a decepção? De que vale ser tão belo... tão só?”

Ergueu o rosto, banhado pela luz colorida dos vitrais iluminados pelo pré-ocaso. Foi quando uma sombra no balcão superior, próximo à nave sobre o altar principal, deixou de ser imóvel.

Distinguiu um homem de cabelos curtos e prateados, que para ele direcionou o olhar tão fulgurante tão penetrante. O coração de Afrodite deu um salto, e ele instintivamente deu um passo para trás.

Auxiliada pela acústica daquele santuário, a voz do estranho ecoou, profunda e quase atrevida:

— Se não estivésseis a vos mover, senhor, eu poderia jurar que um destes anjos que aqui repousam há séculos havia acabado de despertar para a vida...

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Notas finais
Link para o tema do capítulo - "Later"- Lycia Sei, sei, cadê as músicas medievais? Mas... esta música me passou tanto os sentimentos de Dite... https://www.youtube.com/watch?v=QiaBlFnguJU&spfreload=5 Obrigada por lerem... desculpem por não falar muito... o vinho me domina no momento...