Dame Jolie
31 Mortos São Nossos Amores
Notas iniciais

Os olhos cristalinos de Afrodite cravaram-se na figura que descia lentamente da galeria da pequena capela na qual adentrara. O homem cuja voz emergira no sacro recinto igualmente não deixava de fitar o sueco, que mantinha-se estático como as estátuas banhadas pelos coloridos reflexos dos vitrais.
Julgando-se inconveniente por ter atrapalhado o trabalho do desconhecido, Afrodite fez menção de se retirar:
— Perdoai-me, não tive intenção de interromper vosso labor. Com a vossa licença...
— Esperai. Não há necessidade de tão intempestiva partida. – Rebateu o estranho, um forte acento italiano no francês correto.
Livre dos disfarces das sombras, sua estampa foi melhor descoberta pelo camareiro-mor. Sim, não fora impressão, tinha ele cabelos prateados... mais alto do que Afrodite talvez quatro ou cinco centímetros, mediamente corpulento, era o que mostrava a túnica verde oliva apertada em seu largo peito, e a justa malha clara, que denunciou logo na descida a fartura das coxas, o belo molde das pernas. Os olhos, de um cinza metálico, pareciam sondar o loiro de um jeito quase atrevido.
— Eu estava a percorrer as dependências da abadia e acabei adentrando este santuário. Pensei que não houvesse ninguém aqui. – Explicou, vivamente constrangido, tanto pela impressão que aquele homem lhe causara quanto pela consciência de que lágrimas repousavam-lhe nas pálpebras. Abaixou a cabeça na esperança de que não fossem reparadas por seu interlocutor.
— Sossegai-vos, terminava a restauração de uma delicada iluminura. Dada a complexidade do serviço, preferi eu mesmo cuidar dele, e não delegá-lo a um de meus homens. – Esclareceu, acercando-se do sueco, a quem agora verdadeiramente barrava a passagem. – Eu sou Giuseppe D’Angelo, artífice mestre responsável pelas obras neste mosteiro.
— Oh, então sois o artífice mestre que...
Inconscientemente ergueu o rosto e perdeu-se na contemplação do rapaz à sua frente: fios frontais que escapavam do penteado rigidamente esculpido para trás caíam em finas e lisas mechas brilhantes por sobre a fronte alta e lisa. Malgrado a aparência de alguém em seus vinte e cinco anos, fazia-se completamente grisalho... o sorriso de lado deixava o sueco inexplicavelmente desconfortável. Achou-o bonito... e intrigante. A julgar pelo silêncio em meio se observavam, percebeu que despertava no outro semelhante admiração. Sem saber para onde mirar, acabou, por fim, apresentando-se também:
— Eu sou... Solveig. Solveig Olofsson.
— Nome diferente... germânico?
— Sueco.
— É a primeira vez que encontro um. Vosso francês é de nativo.
— Vim à França ainda menino. Talvez por isso...
Encararam-se por uns segundos, até que o artífice inquiriu:
— Perdoai-me a indiscrição, senhor Solveig... pronunciei corretamente?
— Sim. – Mentiu.
— ... percebo sinais de pranto em vossos fascinantes olhos. Acaso estais a padecer de algum mal estar?
Apressando-se em esfregar os olhos, Afrodite respondeu, encabulado:
— Oh, não, não...! Decerto alguma poeirinha entrou, quando passei pelas obras... somente alguma irritação passageira...
Giuseppe não acreditou; por cerca de cinco minutos estivera, do balcão acima do altar, a observar aquele lindo jovem. Notara de longe a tristeza no sentido cismar a que o recém chegado se entregara tão logo adentrara o sacrário.
— Então... o senhor Solveig estava a passear por estas paragens... viu a abadia em obras e decidiu conhecê-la por dentro...
— Sim, não deixa de sê-lo.
— Seria redundante pontuar que sois um nobre. – não foi difícil a D’Angelo presumi-lo: aquele jovem, além de ser o mais formoso que já vira, trajava-se com requinte aristocrático concernente, aliás, com seus modos refinados.
— Em verdade – suspirou fundo – sou filho de um duque em meu país... e também, penso eu, o futuro diretor deste vindouro hospital...
Após um assobio de surpresa, o efusivo riso do italiano ecoou pela nave:
— Oras! Poderia ser que, mísero que sou, esteja diante do notório Afrodite?
— Conheceis minha alcunha?
— Como não? O senhor meu tio, que no momento está a trabalhar no Castelo de Saint-Doulchard, falou-me acerca de vossa pessoa. Contou-me que o conde Milo tencionava tornar diretor deste futuro hospital ninguém menos que o camareiro-mor da digníssima condessa Camille, após esse tê-la salvado da morte quase certa! – falava, vibrante, andando ao redor do perplexo sueco – Disse-me também que, mesmo o camareiro-mor não sendo médico, atende aos acidentados e enfermos com muito mais eficiência e sabedoria do que qualquer experiente barbeiro-cirurgião!
— Pelo jeito, as notícias por Saint-Doulchard correm mais rápidas do que gamos selvagens – gracejou Afrodite, rindo – Mas, por Deus, cessai tais movimentos, estais a deixar-me tonto!...
— Todas as gentes comentam que, além de mui habilidoso no atendimento aos doentes, o tal camareiro é o homem mais belo da Terra. – Por fim, parou diante do aturdido jovem. – Bem vejo que não estavam a exagerar.
Afrodite pigarreou, sem jeito.
Curioso, estava tão acostumado à admiração que sua privilegiada aparência despertava nos outros que raramente deixava-se tocar por tal... contudo, perante Giuseppe, algo de diferente ocorria... longe de causar-lhe a habitual indiferença, o encantamento visível naquele rosto moreno aquecia-o por dentro. Sentiu que corava e, mentalmente, perguntou a si mesmo o que acontecia.
— Sois assaz cortês, senhor Giuseppe. Agradeço-vos. Entretanto, com a vossa licença, retirar-me-ei...
— Esperai! Madonna mia, agora, mais que por mera gentileza, tenho o DEVER de guiar-vos para mostrar os avanços das obras. Afinal de contas, é de VOSSO hospital que estou responsável por ora.
— Não, não é preciso! Devo mesmo partir – girando sobre os calcanhares, Afrodite dirigiu-se, lépido, para a porta ogival. Seu coração agitava-se aos pulos, e o motivo... incompreensível!
— Senhor Afrodite... digo, Solveig... ah, não sei o que preferis! Não desejais mesmo conhecer o lugar pelo qual em breve VÓS sereis o responsável?
Detendo-se sob o umbral de mármore, o loiro apoiou a mão repleta de anéis naquela superfície álgida. Deu-se conta das próprias palavras, há pouco proferidas com plena segurança: afirmara-se como futuro diretor do hospital de Saint-Doulchard! Riu de si mesmo, sob olhar atento e curioso do italiano. E para ele se voltou, concordando, com um discreto sorriso:
— Se não vos incomodais de guiar-me por estas dependências, dar-me-ia gosto, sim, conhecê-las...
— Incomodar-me? – Giuseppe sorriu de volta, o que fez o coração do camareiro fremir novamente – É uma verdadeira honra que me concedeis.
Com um discreto sorriso, o outro assentiu.
Enquanto caminhavam pelos frios corredores do mosteiro, Giuseppe contava sobre a antiga edificação:
— A Abadia de Saint Pierre, mais conhecida como abadia de Saint-Doulchard, oficialmente é datada do ano de 954 de Nosso Senhor Jesus Cristo, contudo, sabe-se que sua estrutura basilar remonta ao século VIII. Possui dois pavimentos, duas capelas, a menor delas já conhecida por vós, enfermaria, pelo menos duas dúzias de células (1), refeitório, cozinha, escritórios de bom tamanho, adega, e uma considerável área externa dotada de moinho, estábulo, jardim, horta...
— Jardim e horta? Ah, sim, além de prover as despensas dos monásticos, forneciam-lhes matérias primas para seus artigos medicinais.
— Exatamente, senhor Solveig. Durante muito tempo, os padres daqui foram os únicos capazes de atuar como médicos da região, uma vez que faziam parte dos pouquíssimos letrados com acesso à literatura mundial especializada. – concordou o italiano, conduzindo o visitante pelas galerias abobadadas; homens trabalhavam aqui e ali, no processo de adaptar o outrora reduto clerical em refúgio de enfermos e feridos.
— Com o perdão de replicar-vos, senhor Giuseppe, malgrado seja essa a crença propagada no meio de esclarecidos como o que ocupamos... tais conhecimentos não são exclusividade dos consagrados ao serviço de Nosso Senhor Deus. A gente da terra também os possui, em especial as mulheres camponesas mais velhas...
Giuseppe considerou-o, erguendo uma sobrancelha.
— Vejo que não sois vós nenhum alheado, nobre Solveig... concordo plenamente com vossa observação. O que ocorre é que não são elas bem vistas pela sociedade por nós habitada. Alguns chamam-nas feiticeiras, embora de seus préstimos se sirvam amiúde.
— Hipocrisia nascida do progresso que estamos a vivenciar (2). Considera-se que avançar signifique cortar laços com certas tradições.
— Hipocrisia, como bem nomeastes. A essas sábias mulheres até os nobres recorrem, porém, à luz da opinião pública, são os primeiros a apontá-las como estrigas. – Concordou o artífice, tomando a frente para adentrar um vasto salão sustentadas por colunetas de granito claro. No teto alto, já desvaneciam-se imagens sacras. Como a construção do santuário precedera, e muito, o nascente estilo gótico, permeava em suas linhas de constituição o rigor e a simplicidade asceta da aurora do estilo românico. Mobiliário algum havia no lugar.
— O que é este espaço tão grande? Não vejo altares, bancos, tampouco mobília de qualquer espécie.
— Aqui ficava um dos primeiros dormitórios. À época em que foi o mosteiro concebido, os religiosos recolhiam-se todos em um mesmo e amplo cômodo. Ao ser adotada a cultura das células individuais, reservaram este local para neófitos e viajantes (3). Vê aquela porta aos fundos? Dá para a outra seção, de semelhante área.
— Comporta bastantes leitos. – Admirava-se o sueco, pela primeira vez tomando a frente de seu guia. – Imagino que a enfermaria seja deste tamanho?
— Em verdade é bem menor.
— Poderia ser aqui a enfermaria principal do hospital... a menor seria destinada a casos mais graves, e as células, a residentes do hospital... ou talvez o outro setor deste salão.
— É uma boa ideia. Hei de acrescentar vossas pertinentes ideias ao meu planejamento.
Meneando a cabeça, Afrodite pôs-se a andar vagarosamente pelo recinto, estudando-o com a atenção de quem um dia por aquele espaço seria responsável. Ainda que disso sequer se desse conta. O mesmo não se sucedeu com Giuseppe, que reparou na mudança de atitude do aristocrata; este percorreu cada recanto e reentrância em um silêncio quase solene.
— Guiar-vos-ei até a ala menor, tão logo cesseis vossa inspeção. – Ofereceu-se o italiano, perdido na visão de tão belo e concentrado jovem.
Assim foi feito. Não mais que monossílabos foram trocados no trajeto. Algo de indefinido passava a nortear os pensamentos de Afrodite. Cada vez que o artífice mostrava-lhe uma parte do que em breve seria o hospital almejado por Milo, aquele “algo definido” tomava forma e significado.
Um hospital. Não. O hospital... o hospital de Saint-Doulchard. SEU hospital.
Um dia aquele seria SEU hospital! E seria tão grande, tão magnífico! Sem dúvida, o maior de França!
“Será que é da vontade de Deus que seja EU, com efeito, diretor deste hospital?”
— Sim, meu senhor... um dia, quando estiver enfim pronto, acabado... tudo isto será vosso. O VOSSO hospital.
Assombrado, Afrodite virou-se para o homem ao seu lado, indagando:
— Como sabeis o que estou pensando?
Divertido, o italiano respondeu:
— Oras, pelos vossos olhos extasiados, vossos lábios entreabertos a suspender a expiração... tende o semblante de um pai que presencia o nascimento de um primogênito varão.
A princípio boquiaberto com a analogia, o loiro deixou escapar um riso sincero.
— Por Deus, que vislumbro o céu diante de vosso luminoso sorriso! – exclamou Giuseppe, deslumbrado com a cena.
— Senhor Giuseppe! – ralhou Afrodite, forçando-se a parar de rir. Entretanto, a expressão cômica do outro frustrou-lhe o intento.
— Bem, mencionastes a existência de um jardim e de uma horta – falou o sueco, tanto pela lembrança quanto para buscar assunto que lhe ajudasse a sair daquela situação. Sentiu que corava, e ele não queria aquilo... corar diante da gentileza de um outro homem não seria de bom tom.
— Sim, vinde comigo, peço-vos.
À medida que deixavam o claustro, a luz do dia que se despedia incidia sobre eles. Ao pé das muralhas, distinguiam-se armazéns, a granja, casinhas geminadas que possivelmente se destinavam a confecção de utensílios e tudo de que necessitasse o mosteiro.
— Este lugar é enorme... do lado de fora eu nunca poderia imaginar-lhe as reais dimensões.
— Deveras, meu senhor, as coisas nem sempre são aquilo que aparentam. – Retrucou Giuseppe, de maneira tão indecifrável que o sueco não foi capaz de inferir se ele falava a sério ou simplesmente para manter a prosa.
Alguns homens trabalhavam próximo a um poço. Havia de fato um pomar, algumas plantações resistiam ao abandono temporário. O jardim abundava de ervas daninhas, Afrodite logo viu.
— Aquilo é uma olaria, ali uma ferraria... esta casa é onde deixavam curtir a pouca carne permitida pelos superiores...
— É como se fosse um pequeno castelo – observou o camareiro-mor – pudera, faziam-se autossuficientes...
— As coisas começaram a mudar com a volta da utilização da moeda, e de sua crescente circulação, o que inclusive significou donativos em espécies dos fiéis... a Europa está, com efeito, mudando... se tais mudanças serão benéficas ou não o futuro dirá... quanto a mim, tenho me valido de tais modificações, e o polpudo contrato que assinei com o senhor conde de Saint-Doulchard é uma prova contumaz – dizia Giuseppe, que logo se desculpou – Perdoai-me, senhor, estou a tagarelar feito uma velhota tocada pelo vinho!
Afrodite sacudiu a cabeça, rindo.
— Qual! Aprecio ouvir-vos versar sobre tantos assuntos. Não vos furteis a fazê-lo. – E, um tanto ressentido, acrescentou – Em verdade, faz tempo que não desfruto de uma palestra como esta. Dias houve em que, não obstante, eu...
Calou-se. Antes que Giuseppe inquirisse acerca daquela súbita tristeza, o sueco apressou em dizer, retomando a animação de antes:
— Ademais, sois italiano, não? É um povo que tem a fama de dominar a arte dos colóquios.
— Que modo delicado de lembrar de que somos faladores – riu o jovem, levando Afrodite a fazer o mesmo.
— Longe de mim! Não foi esse meu intuito, juro-vos! Ah, eis o jardim... um tanto descuidado, como não poderia deixar de ser.
O nobre abaixou-se para conferir as tímidas flores que emergiam da terra seca.
— Tem tristonho aspecto agora devido à estação e à saída dos religiosos daqui. Mas dele e do pomar logo mais adiante saíam, além do sustento básico dos primeiros monásticos, o essencial para seus medicamentos, beberagens... e aguardentes.
— Sois assaz informado, senhor Giuseppe.
— Não é diferente de minha terra natal, ao contrário; alguns mosteiros de lá são famosos por produzirem vinhos de indiscutível qualidade, cobiçados em toda Europa.
— De onde vinde, especificamente?
— De um vilarejo chamado Pienza, localizado na Toscana. Vim com meu tio para cá para trabalharmos na fortificação do Conde d’Auvergne, há coisa de seis meses. Mas eu acabei sendo destacado para coordenar as obras nesta abadia, sob indicação de meu tio, que é mestre de obras no Castelo de Saint-Doulchard.
— Lembro-me de, em alguma ocasião, ter ouvido falar a respeito de vossa estupenda habilidade, o que garantiu-vos tal posto.
“Lembro-me também de terem mencionado acerca de suas frequentes aventuras amorosas pela cidade”, pensou, analisando seu interlocutor; tal análise explicava os rumores.
— Sereis vós também um estupendo administrador, senhor Solveig.
— Por que pensais isso?
— Percebo uma incipiente dedicação em vossos gestos e modos investigativos. Lograis certificar-vos de como serão as instalações que abrigarão aqueles que estarão sob vossos cuidados no porvir.
— Em suma, já estou a parecer um escrupuloso dono de negócio. – Gracejou.
— Absolutamente! Não foi minha intenção... se heis de dirigir o hospital, é compreensível vosso desvelo... tanto mais porque sois vós versado em Medicina...
— Não o sou. Ainda. Digo, não sou um médico ainda.
— Sim, meu tio falou que o notável camareiro da condessa, malgrado dominasse a Medicina, não era médico. Isso muito me intriga, algum motivo para ainda não o sê-lo?
Afrodite suspirou, recordando-se de que havia sido justamente aquilo razão para ali se encontrar.
— É uma longa história, caro Giuseppe...
— Eu não me importaria em ouvi-la.
— Mas eu me importaria em contá-la – conquanto proferira em tom sereno, o teor daquela réplica pareceu a si mesmo rude – Perdoai-me. É que o assunto faz-se abrolhado para mim. Bem, a hora avança... devo partir.
Coçando a cabeça, o italiano gesticulou para que o seguisse:
— Neste caso, permiti que eu vos acompanhe até a saída.
Fizeram todo o caminho pelo qual vieram, ganhando os átrios que precediam a entrada do monastério. Sob protestos de Afrodite, Giuseppe fez questão de acompanhá-lo até onde o sueco deixara a montaria. O céu escurecia pouco a pouco, o ocaso rosáceo a anunciar uma noite clara e fria.
— Muito obrigado por tudo, foi bastante proveitoso. – nitidamente insatisfeito por ter de ir embora, o sueco iniciou a despedida – Rogo a Nosso Senhor Deus que conceda ventura a vossos dias de labor.
Tomando coragem, o italiano adiantou-se ao jovem, que já se preparava para subir no cavalo.
— Sei que não estou em posição de propô-lo, mas... gostaria de convidar-vos para vir à minha residência.
Admirado, Afrodite voltou-se para encará-lo.
— Deveras, dar-me-íeis excelsa honra se aceitásseis jantar comigo. Instalei-me perto daqui... não vos tomaria tempo demasiado.
— Perdão? – o loiro mal podia acreditar em tal ousadia – Senhor Giuseppe, fostes inegavelmente cortês, o que de modo algum legitima tão inoportuno convite.
O italiano tirou o chapéu e o segurou, pretextando um servilismo desmentido pelo atrevimento no olhar.
— Bem o sei eu. Peço-vos as mais sinceras desculpas por este descabimento.
Aplacando o tom de reprimenda, o camareiro-mor perguntou:
— O que vos levou a render-vos a ele?
— Prefiro abster-me de responder. Acabarei por ser novamente atrevido.
— Pois quero ouvir. – insistiu o loiro, estreitando os olhos claros.
Erguendo o rosto para encontrar o olhar inquisidor, o artífice respondeu:
— Vosso ar de quem não deseja retornar ao lar. Fizestes sombrio ao tomar as rédeas de vosso corcel.
Como pego em indefensável delito, Afrodite virou o rosto para o lado. Apressadamente, o italiano escusou-se:
—Eis que outra vez mais faço-me atrevido! Perdoai a empáfia deste vosso humilde servo!
— Sois observador, Giuseppe – para ele se convergiram os olhos espantados do artífice – É bem verdade que não possuo vontade alguma de voltar para casa.
Cuidadosamente, o outro repetiu o convite, agora menos afoito:
— Neste caso, vinde comigo. A criada que me serve é exímia cozinheira, prima de meu tio, toscana como eu. Lembrai-vos dos vinhos produzidos nas abadias de minha terra? Pois bem, tenho-os aos barris. Aquecer-vos-ão corpo e espírito, senhor Solveig.
Um laivo de dúvida delineou-se na resistência do sueco. Notando-o, Giuseppe argumentou, suavemente:
— Por que retornar a um lugar em que não almejais estar? Não tende vós o direito de deixar repousar vosso coração por meros instantes?
O sueco ponderava-lhes as palavras, as mãos nas rédeas franjadas já se afrouxando.
Sim, afinal de contas, por que é que ele deveria voltar para o castelo de Saint-Doulchard naquele exato momento? Não teria ele que suportar tormento suficiente quando Shura, seu amado Shura, para lá se mudasse... casado?
Sim. A ele estavam destinados muitos e muitos dias penosos no castelo... que necessidade havia de iniciar já?
— Estais coberto de razão, senhor Giuseppe... por que devo retornar tão célere a um lugar onde não quero estar?
Esfuziante, ao italiano foi impossível conter um largo sorriso, diante do qual Afrodite sentiu disparar o coração machucado.
*************
— Mi... Milo...
Aquele nome, enunciado em meio ao extremo prazer que Camus experimentava nos braços do amado, adquiria feições de sacralidade. As mãos acima da cabeça cuja rubra cabeleira se espalhava pelo leito desfeito se crisparam nos lençóis de seda. Como a acrescentar lenha em um braseiro, o conde deslizou mais demoradamente sua língua sobre a glande entumescida. Os gemidos do outro elevaram-se pela alcova, palco de sucessivos e ardentes intercursos aos quais os dois jovens se entregavam apaixonadamente. Uma potente e repentina sucção em seu membro fez Camus arquear-se; sua intimidade chocou-se com urgência contra a ávida boca do esposo. Este aproveitou-se daquele exaltado movimento para introduzir um segundo dedo na cavidade que já abrigava o indicador. Foi prontamente engolfado, a despeito do tremor que sacudia o corpo pálido; como uma lágrima, dali escorreu um fio do óleo de rosas utilizado como lubrificante.
— Aaaah!! Milo!! – gemia, quase rendido ao desespero a que sensações tão intensas lhe conduziam.
— Camus... não aguento mais ver-te assim... – o loiro abandonou o falo túrgido para anunciar – eu queimo... eu ardo... necessito de estar dentro de ti...
— Uuung... – ao jovem ruivo era impossível articular resposta. A voz do marido, repleta de desejo, o deleite que nublava-lhe o raciocínio, tudo levava-o a um único entendimento, a um único anelo:
— Milo... quero-te...
— Ouvir-te declarando isso deixa-me tomado de tal ânsia que temo não me controlar...
— Não quero que te controles! – retrucou, em tom de súplica, sacudido pelas ondas prazerosas que vibravam dentro de si; o “ponto do supra-suma” de seu interior fora atingido pelos dígitos do consorte. – Aaah!! E-eu morro... Milo...
— Tampouco tu pareces capaz de manter teu autocontrole por muito tempo... – provocava o loiro, passando a língua pelos lábios carnudos: o gosto de Camus suplantava os mais saborosos manjares, os mais saborosos licores!
— N-não continues a torturar-me!...
— É algo difícil de se atender, vendo-te assim tão excitado – respondeu o loiro, perdendo-se na contemplação do amado, inteiramente despido à sua espera, a tremer devido a massagem interna que só intensificava.
Por sua vez, Camus lambia os próprios lábios já inchados dos beijos demorados. Inflamava-se pela carícia em sua próstata e pela portentosa imagem do cavaleiro ajoelhado, as coxas vigorosas contraídas pela posição, os dourados cabelos a se colarem no torso moreno, os músculos desenvolvidos a conferir-lhe inevitável suculência... o avantajado membro, tão ereto e rijo que deixou-o ainda mais sequioso...
— Milo, e-eu... hei de...
— Perdoa-me, mas hás de gozar estando eu dentro de ti.
Sob lamentos aflitos, os dedos do conde abandonaram o calor do esposo. Camus, porém, não tardou a sentir-se preenchido, pois que o grosso pênis de Milo já o invadia, aos poucos.
— Ohh... Milo!! Aaah...
— Hunng... C-Camus... Camus! – suspirou profundamente contra o pescoço do ruivo, enquanto o agarrava, enlouquecido.
Suas mãos agarravam-lhes os flancos, sustentando-se para efetuar as estocadas, lentas e constantes.
— Oooh, Cristo... – o ruivo erguia os quadris, ignorando a dor inicial pois que ambicionava o supremo êxtase que daquilo adviria. Suas pernas cruzaram-se sobre o corpo do amado, e a penetração fez-se ainda mais profunda.
Os lábios suplicantes foram cobertos pelo calor e pela maciez dos lábios de Milo, e àquele beijo ele correspondeu, à beira do fastígio. Em similar condição estava o conde, que por vezes procedia a uma torturante pausa, tão somente para penetrá-lo com movimentos mais contundentes, bruscos. Os gemidos vibravam em suas bocas unidas. Do pênis latejante de Camus aflorava, abundante, o pré-gozo; podia sentir dentro de si o latejar do falo de Milo, que parecia não parar de se expandir.
— Por tudo que é mais sagrado, C-Camus... Camus, eu te amo...
— Também te amo... amo-te muito, Milo...
— E-eu... aaah... não posso mais... n-não posso...
— Tampouco e-eu... Camus... irei... aaah... apertas-me tanto!
Com um grunhido surdo, o cavaleiro semeou os domínios de seu amado, o intenso orgasmo forçando-o a gemer mais alto; simultaneamente encontrou seu clímax o ruivo, mordendo o ombro do esposo a fim de que não gritasse. Agarrou-o pelas costas, sem perceber que arranhava-lhe a pele almiscarada. Os ventres de ambos batizados por jatos de esperma quente, expelidos pelo órgão muito avermelhado de Camus. Este temeu desfalecer, o mesmo ocorrendo com Milo.
Cada vez parecia melhor que a última, se é que isso poderia ser possível.
Sem a menor vontade de retirar-se daquele agradabilíssimo recôndito, Milo abraçou seu amado, que aconchegou-se a ele, pleno e feliz.
— Enfim, consegui tirar de ti aquele ar preocupado – murmurou o loiro, afundando o rosto nos perfumados cabelos vermelhos.
— Como não o farias? – volveu o marido, lânguido, a acariciar o peitoral em que se aninhara.
— Com efeito, tens melhor semblante. Não sabes como me desagrada saber que algo te aborrece.
— Não estava aborrecido, e sim preocupado, como bem observaste há pouco... Afrodite saiu daqui tão sorumbático...
— Verdade, eu nunca havia visto o camareirozinho daquele jeito. De que forma poderia eu imaginar que minha proposta de enviá-lo para a Universidade de Paris iria amofiná-lo tanto?
— “Proposta”? Milo, a expressão adequada não seria “decisão”?
— Eu não tencionava obrigá-lo, apenas quis fazer-lhe uma surpresa...
— Sim, já o disseste. De fato, foi uma surpresa, porém não do tipo agradável.
Um bocejo precedeu a fala de um entorpecido Milo:
— Tu também já o disseste. Tolo fui em acreditar que realizar um sonho faria todo homem feliz.
Sorrindo, o ruivo beijou-lhe o peito tépido.
— Não foste tolo. Jamais o és. Tiveste boa intenção.
— Bom, tanto se me dá. – resmungou, a letargia pós-coito pouco a pouco dominando-o – Que ele faça o que quiser. Não me preocupo...
Beijou-o carinhosamente nos lábios e ajuntou:
— Camus... tudo que realmente me inspira preocupação nesta vida é tua pessoa...
— Milo...
— A sério – murmurou, cerrando os olhos azuis – tudo que quero é que estejas bem, satisfeito, em segurança... comigo... para sempre...
— Já estou – sorriu o ruivo, abraçando-o.
— ... nunca mais... não quero nunca mais que fiques longe de mim... nunca... é este meu único medo, Camus... de te perder...
Aqueles dizeres, gradativamente a se extinguirem, fizeram as sobrancelhas escarlates se franzirem de leve.
— Por que dizes tais coisas?
“Soam estranhas”, pensou, sem coragem, contudo, de proferi-lo.
— Milo.
Resposta alguma veio, e ele percebeu que o marido fora vencido pelo sono.
Mirou-o, uma ternura infinda a envolvê-lo. Ainda que as últimas palavras estivessem a causar-lhe discreto desassossego. Tentou espantar aquela incômoda sensação lembrando-se de quanto vinho o loiro havia consumido antes de se amarem.
Aparentemente a estratégia foi bem sucedida, pois, passados alguns minutos, também Camus adormecera.
*************
— Senhor Giuseppe, não faltastes com a verdade ao louvar os méritos de vossa cozinheira! – comentou Afrodite, mergulhando os níveos dedos em um recipiente prateado que continha água de lavanda.
— Alegro-me que tenhais apreciado tão simplória refeição, a qual, embora modesta, contém toda a essência de minha amada terra...
— Qual! Palavra de honra, os acepipes de que me servi seguramente envergonhariam renomados cozinheiros dos mais ricos castelos! – o jovem ria, sinceramente satisfeito com tudo que degustara.
Ao lado de seu senhor, a servil Amapola, cuja bondade rivalizava-se com a voracidade responsável por suas avantajadas formas, sorria, embevecida pelo reconhecimento daquele distintíssimo visitante:
— Lisonjeais-me, gentil senhor. Tudo que preparo provém de receitas que estão na minha família há incontáveis gerações.
— Logo vi, amável senhora Amapola, o autêntico sabor das tradições fazia-se notar em cada uma das delícias que cá provei.
— Vinde quantas vezes desejardes à casa de Mestre Giuseppe e tantas vezes quanto quiserdes, hei de servir-vos com lambujens ainda mais elaborados e...
— Basta de tuas parlengas, ó intrometida Amapola! Agora te fazes senhora deste domicílio e fazes convites em meu lugar? – ralhou o toscano, mas logo se depreendia que não passava de uma pilhéria, pois que tanto ele quanto a serva riram. Afrodite achou-o um senhor amável por se fazer espirituoso com a serviçal.
— Não que o convite feito por esta delambida matrona esteja revogado, claro – disse Giuseppe, piscando para o sueco, que temeu ruborizar. E, curvando-se para o jovem, o artífice fingiu segredar – Não a bajuleis, aconselho-vos; despertará nela o violento instinto maternal das mammas de minha terra, e ela haverá de querer vos engordar como a um leitão. Já o tentou comigo.
Afrodite gargalhou, aceitando o vinho que mais uma vez lhe era servido. Amapola deu de ombros, fazendo os dois rapazes rirem com aquele gesto.
Era o vinho? Era a ocasião? Era a companhia? Era a necessidade impetrada por seu coração?
A verdade é que há muito tempo Afrodite não se sentia tão bem.
A casa ocupada por Giuseppe não distava significativamente da Abadia de Saint-Doulchard; bem localizada, no centro do vilarejo que ascendia à cidade, mostrava-se à altura de um homem que galgava posição social. Sim, conquanto não fosse da nobreza, em função dos proventos de seu ofício, talvez o mais importante daqueles tempos de restauração, o jovem toscano convertia-se no que começavam a chamar “burguês” (4). Sem berço, oriundo de uma aldeiazinha montanhesa, a herança das aptidões manuais no lugar de brasões aristocráticos conferia-lhe gradual enriquecimento através do suor de seu trabalho. E, a julgar pelas instalações de que desfrutava, o conde Milo havia de estar sendo generoso para com o artífice. A sala na qual se encontravam continha uma sóbria e prática elegância, com tapeçarias pelas paredes de pedra ocre, belas mobílias cobertas com toalhas rendadas brancas sobre as quais dispunham-se castiçais dourados e os mais variados enfeites. Tapetes aveludados cobriam o chão, colaborando para que o recinto se mantivesse aquecido, além de acolhedor. A lareira acesa contribuía não somente com o delicioso calor como também com uma benfazeja iluminação que chegava a todo o ambiente, nem tão pequeno, nem tão grande. O ideal para um rapaz sem esposa e filhos, do qual Afrodite já estava a par.
— Vossa residência é assaz aconchegante, senhor Giuseppe. Possuís inegável bom gosto. – Elogiou, angariando um sorriso brioso de seu anfitrião.
— Sou invadido pelo mais lídimo júbilo em saber que meu humilde lar é do vosso agrado...
— Para ser a legítima morada de um gentil homem só faltava que se desfizesse de uma vez por todas do passado de “Máscara da Morte”. – falou Amapola, trazendo outra garrafa de vinho.
— “Máscara da Morte”? – o sueco fez-se sério. – A que vos referis, boa Amapola?
O sorriso de Giuseppe arrefeceu-se. Naquele momento, a despeito de conservar a bela estampa, pareceu ganhar dez anos.
— Eu bem disse que não deverias receber elogios... – disse, entre dentes. – Torna-te prontamente desfaçada.
— Perdoai-me, mestre, tão somente vi a chance de lembrar-vos de que passa da hora de livrar-vos daquelas coisas. Dão-me arrepios!
Com um gesto tão brusco que Afrodite mal conteve um sobressalto, Giuseppe pôs-se de pé, elevando a voz ao repreender a assustada mulher:
— Arrepios? Arrepios tenho EU com essa tua impertinência de quem não se põe no devido lugar! Serves-te do fato de seres parenta de meu tio!
— Por isso mesmo, vossa parenta também, ainda que distante... !
— Tua língua daria a volta ao redor dessa tua grande barriga se eu a arrancasse de dentro de tua boca enorme!
A amistosa atmosfera de há pouco desfizera-se; aturdido, Afrodite olhava os dois italianos, agora a discutirem na língua pátria. Gesticulavam bastante. O barulho que faziam levou mesmo os cachorros, dois mastins napolitanos que se encontravam perto da porta, a latirem ansiosos.
Giuseppe não mais parecia o jovem simpático que o convencera a partilhar de sua mesa; os olhos metálicos se injetavam, e deles pequenas rugas irradiavam-se. Na lateral de sua testa amorenada saltava uma veia, o tom da voz, antes macio e envolvente tornara-se áspero, rascante. O que engendrara tamanha transformação no artífice? Por Deus, inflamava-se contra uma senhora que poderia ser sua mãe! Embora ela não abaixasse de todo a cabeça, via-se que temia uma reação ainda mais enérgica do que a que presenciava.
Tentando não se impressionar em demasia com aquilo, Afrodite concentrou-se para tentar entender do que falavam. O dialeto toscano era bastante próximo do latim, língua que qualquer pessoa bem letrada como ele compreendia. Distinguiu, alarmando-se com cada frase cuspida:
“Sabe Deus os calafrios que acometem esta pobre velha toda vez que preciso limpar aquelas coisas pavorosas!”
“Pavorosas são tuas crendices! Acaso não são elas parte das por ti tão adoradas tradições de nossa terra?”
“Não foram feitas para fins de ornamento, é quase um desrespeito para com os mortos!”
“Como és tola! Não fui eu a confeccionar cada uma delas? Qual a razão de tanta poltronaria? Um dia terás também a tua!” — e deu um riso sarcástico que estarreceu o camareiro-mor.
A mulher fez atrapalhadamente o sinal da cruz, tremendo-se toda. Choramingou:
“Tal dia é inevitável, mas em nome de Nosso Senhor, para que rememorá-lo? É de mau agouro, assim como aquelas máscaras!”
“Máscaras?”, a curiosidade impressionada de Afrodite só fazia crescer. Todavia, só lhe restava esperar pelo término daquela discussão.
“Tenho criados que podem limpá-las, se vais até lá é porque és uma grandissíssima intrometida!”
“Prometi a teu tio e à tua mãe que cuidaria de ti, grandissíssimo ingrato”, o camareiro-mor reparou que o tratamento honorífico extinguira-se. Provavelmente usavam-no apenas diante de visitas. “Contudo, poderia eu me calar diante de tão macabro hábito?”
“Ignorantona, a morte faz parte da vida! Mira teu crucifixo, o próprio Jesus precisou dela para aí estar, pendurado neste teu pescoço banhudo!”
Suficiente.
Pigarreando, Afrodite ergueu-se de sua cadeira. Constrangia-o intervir em um desentendimento entre pessoas que sequer conhecia, no entanto, tinha verdadeiro horror a brigas. Não deixara de rumar para o castelo para testemunhar semelhante pendenga. Os dois toscanos calaram-se imediatamente, dando-se conta da desagradável cena que protagonizaram diante de tão refinado nobre. Desculpando-se, a serviçal curvou-se em seguidas reverências:
—Perdoai esta pobre e atoleimada serva, meu senhor, perdoai! Não tive intenção de vos incomodar!
— De igual maneira, rogo por vosso perdão, senhor Solveig, o destempero a que esta parva me leva tira-me do sério... – o artífice uniu as mãos em súplica e suavizou a voz.
— Senhor Giuseppe, agradeço-vos por vossa amável hospitalidade, mas...
— Por tudo que é sagrado, não vos retireis assim! Descontrolei-me, é certo... não tornará a acontecer, prometo-vos!
— Fui a culpada, gentil senhor, meu pobre mestre estava cansado de um dia extenuante de trabalho e acabei por perturbá-lo o juízo com minhas tolices – Amapola tencionou auxiliar o sobrinho, notando nele o desespero que a intenção do visitante causara.
Afrodite deteve-se, observando-os.
— Ficai, não partis dessa forma. Partiria-me o coração que deixásseis meu lar com tão abominável impressão. – pediu o toscano, nitidamente envergonhado.
Hesitante, o camareiro-mor disse:
— Agora sou eu quem pedirá vosso perdão, senhor Giuseppe, pois que atrever-me-ei em requestar para que não volteis a bronquear com a pobre criada da maneira que presenciei. É mister respeitar-lhes os cabelos brancos.
— Ora, se também os tenho eu! – riu-se o artífice, apontando a própria cabeça, buscando descontrair. Mas o convidado não sorriu.
Limpando a garganta, Giuseppe ordenou a Amapola que retirasse a mesa. E, virando-se para Afrodite:
—Bebamos e esqueçamos este lamentável episódio.
O loiro assentiu, consciente de que precisava mesmo de uma bebida depois daquilo.
De mais a mais... verdadeiramente, não tinha vontade alguma de voltar para casa.
Passado algum tempo, a mesa já despida da prataria e das baixelas, e o local sem a presença da serva, Afrodite não se conteve:
— Faço-me indignamente indiscreto, mas... de que máscaras estáveis a falar? Reparei que esse tema constituía o cerne de vossa discussão.
— Oh, por favor, esqueçamos esse assunto... – servindo-se de mais vinho, virou-o no cálice do sueco.
— Vossa parenta utilizou um curioso termo... “Máscara da Morte.” De que deveríeis livrar-vos do “passado como ‘Máscara da Morte’. Do que se trata, afinal?
Giuseppe pareceu refletir, silenciosamente. Afrodite calou-se, à espera de uma resposta.
— Mostrar-vos-ei. Vinde. – o italiano pôs-se de pé, e rumou para a escada, sendo seguido pelo loiro. Ascenderam pelos degraus de madeira até o outro pavimento, iluminado por dezenas de velas.
Seguiram pelo corredor adornado com peles de animais, até que o artífice parou defronte de uma porta de madeira escura. Abriu-a, permitindo que o convidado entrasse primeiro. Ainda que receoso de encontrar algo assustador, devido às palavras de Amapola, o camareiro adentrou o recinto à meia luz.
— Ah, só um momento, não está claro o suficiente... – Giuseppe apressou-se em acender mais círios nos castiçais. À medida que o fazia, surgiam curiosas figuras nas paredes. Afrodite teve que forçar a vista, a princípio, para se certificar de que seus olhos não lhe pregavam nenhuma peça.
Sabia que não eram de verdade. Mas eis que diante do surpreso camareiro alumiaram-se vários rostos.
Vários.
Dezenas! Pareciam SAIR das paredes!
— Máscaras? – balbuciou, assombrado.
— Asseguro-vos que não são cabeças de verdade.
— São tantas!...
— Assustam-vos?
— Eu mentiria se negasse que me apavorei à primeira vista... mas, bem, sabendo que são máscaras...
— Máscaras mortuárias.
— Máscaras mortuárias? – Voltou a fitá-las. – Vós as esculpistes?
— Sim. Cada uma delas, ao longo de dez anos de minha vida, antes de acompanhar meu tio para Auvergne.
— Então, foi por isso que vossa serva... vossa tia chamou-vos “Máscara da Morte”?
— Foi um apelido maldoso com que os aldeões me presentearam, ao descobrirem que eu não apenas confeccionava as máscaras, como também guardava uma cópia comigo.
— Compreendo – murmurou o loiro, sem efetivamente compreender o que ouvia.
— Espero que não tenhais julgado-me um assassino que enfeitava as paredes de casa com as cabeças de suas vítimas – riu Giuseppe, acercando-se do visitante. Este quase deu um passo para trás; resistiu bravamente ao impulso.
— Jamais pensaria algo semelhante.
— E por que não? – Parou diante do sueco, o sorriso enigmático tingido pelo tremular das chamas dos candeeiros – As pessoas podem surpreender-nos das maneiras mais insólitas, senhor Solveig...
— Afrodite – balbuciou, mirando, sem perceber, os lábios moldados do italiano – Chamai-me Afrodite.
Ante a expressão interrogativa do toscano, explicou, disfarçando a estranha ansiedade que o invadira:
— Há muitos anos tem sido o nome pelo qual sou chamado. Acostumei-me a ele.
— Afrodite. A deusa grega da beleza – sussurrou Giuseppe, encontrando aquele olhar. – A despeito da singularidade que desperta uma alcunha feminina... faz justiça às vossas feições.
Afrodite engoliu em seco. Tivera aquela impressão antes, entretanto não se ateve a ela. Tudo bem que o artífice não era casado. Mas já escutara, da boca do próprio tio de Giuseppe, acerca da fama de galanteador de que gozava o rapaz grisalho. Poderia ser que além das ditas mocinhas o italiano...?
Não. Havia de ser mera impressão. Não era algo seguro por que se enveredar.
Ademais... havia Shura...
Shura.
“Não. Não há mais Shura”, pensou, amargurado. “Nunca houve.”
— Senhor Afrodite?
— Hum?
— Por um segundo, achei-vos distante... triste.
Esforçando-se para sorrir, balançou a cabeça em negativa e comentou:
— Aqui em França, tal costume parece perdurar apenas nas classes mais abastadas. Sendo vós e vossos conterrâneos filhos de Roma, onde as máscaras mortuárias alcançaram talvez o seu ápice, atrás, talvez, dos antecessores helênicos... não é de se estranhar que cultivásseis tal hábito.
— Por certo. Não apenas pessoas humildes, aldeões, a gente da terra, mas muitos aristocratas, membros do clero, vários serviram-se desta minha habilidade para eternizar seus entes amados em efígies de cera ou de gesso. As que aqui estão são do segundo material. É bem mais duradouro.
— Hoje sois artífice, tal qual o senhor vosso tio.
— Em verdade, foi meu primeiro ofício – caminhou até uma mesa, tomando de uma jarra e dois copos – Meu pai era um mestre carpinteiro em Toscana, assim como o foi o pai dele, e o avô, e o pai do avô... ministrou-me as primeiras lições quando completei cinco ou seis anos. Meus irmãos igualmente aprenderam com ele e com seu irmão, o homem que hoje é mestre de obras no castelo do conde Milo. Apesar de não ser eu o primogênito, fui o que mais se destacou... aos onze anos já trabalhava junto com meu pai e meu tio não apenas no nosso vilarejo, como também em cidades vizinhas e mais desenvolvidas.
Serviu o sueco, que a tudo escutava, atento.
— Aos quatorze anos conheci Helena. Meu primeiro amor. – falou, observando o fundo da taça, perdido nas lembranças. – Helena... olhos verdes como as oliveiras das colinas pelas quais tantas vezes passeamos, mãos entrelaçadas, seu róseo rosto a enrubescer pelo sol e pelo recato... casar-nos-íamos, era tão certo quanto o céu estrelado que tantas vezes contemplamos juntos...
A descrição poética, a voz suave, o semblante sonhador imerso em doces recordações, tudo conduzia Afrodite a um afrouxamento das próprias emoções.
— O que houve com ela? – perguntou, consciente de que aquele amor juvenil há tempos se dissipara; não era Giuseppe homem sozinho?
— Ela morreu aos quinze anos. Uma doença nos pulmões a vitimou.
— Eu... eu sinto muito!...
O toscano sorriu levemente, agradecido por aquela consternação.
— Não vos mortifiqueis por um fato que se consumou há dez anos. A família de Helena consentira em nosso matrimônio... e tudo de que partilhamos foi seu funeral. Antes que Helena fosse encerrada naquele pobre caixão, ofereci-me para fazer-lhe uma máscara mortuária. Eu nunca havia feito nada igual, mas sabia trabalhar com gesso, imaginei que não seria tão difícil. Havia de ser um presente para a família de minha amada, que sempre me acolheu com cordialidade. Então... foi-me revelado que Deus havia me concedido um dom... um dom ainda inédito entre os meus, pois que tal habilidade diferia daquela pela qual minha família era conhecida.
Sorvendo devagar o vinho encorpado, Afrodite aguardou que seu anfitrião terminasse a taça que virou, avidamente.
— A luz divina da inspiração nasceu da dor que experimentei em tocar as faces geladas de minha amada Helena, estando ela não em nosso leito nupcial, mas sobre uma mesa de madeira apodrecida e carunchosa. Foi como se o próprio Deus, que moldou o homem do barro, guiasse minhas mãos... ficou perfeita. Perfeita. Quereis ver?
Sem conseguir abrir a boca, o loiro assentiu, concordando. Seguiu Giuseppe, até o centro do cômodo; ali, na parede repleta dos artefatos, ele apontou uma máscara de delicada fisionomia.
Helena.
— É... é linda.
— Foi a primeira de centenas... e desde a primeira, tornou-se regra que eu fizesse uma cópia para guardar comigo. Eu não me conformava com a ideia de que a Helena que meus dedos esculpiram ficasse apenas entre os seus... quis que seu semblante, não apenas sua lembrança, me acompanhasse...
O sueco travou a garganta, temeroso por sentir marejarem os olhos cristalinos.
— Impressionados com meu trabalho, diversos comerciantes, nobres, religiosos passaram a me contratar como artesão mortuário. Conforme elucidei, acabei adquirindo a norma de guardar para mim uma cópia de todos meus trabalhos. E assim foi, até que, dois atrás, meu tio chamou-me para vir com ele à França, trabalhar para o conde Henri d’Auvergne. E o mesmo designou-nos para vir a Saint-Doulchard... hoje, o que deu-me a alcunha de “Máscara da Morte” em Pienza, são meros adornos... lembranças de um tempo que se foi. Vede – mostrou a parede – todos que originaram estas máscaras amados foram... Foi com o meu amor morto que aprendi a eternizar os entes amados de outros...
Calou-se ao perceber o reluzir das lágrimas que vertiam pelo rosto de seu convidado.
— Senhor Afrodite?...
Sentia ele alguma dor? O nobre mantinha o olhar esgazeado nos imotos rostos de gesso.
— Senhor Afrodite? Que tende vós? – quis saber, sinceramente preocupado.
— Também eu tenho um amor morto, senhor Giuseppe... – murmurou, sentido – ... eu... eu não queria que fosse morto o meu amor... mas ele é...
— Senhor Afrodite – sussurrou o italiano, segurando-lhe o alvo rosto com uma das mãos. Pôs-se a acariciar-lhe o contorno, comovido tanto com aquela tristeza... quanto com aquela beleza.
— ... ele é tão morto quanto o vosso...
Mais não pôde proferir; sobre seus lábios úmidos de lágrimas pousaram os lábios de Giuseppe, adocicados pelo vinho.
Tão quente.
Tão bom.
“Não... não é certo! Shura... eu amo Shura!”
Mas não acabara de dizer que seu amor estava morto?
“Shura...”, pensou, cerrando os olhos ao se sentir estreitado em fortes e vigorosos braços que vinham arrancá-lo de sua intermitente solidão.
*************
Fale com o autor