Dame Jolie
32 De Corpo e Alma
Notas iniciais

A lua emergia das nuvens por ela iluminadas, lançando réstias prateadas por sobre a cidade adormecida. Pouco passava das nove horas da noite, no entanto, pelas ruas já desertas esgueiravam-se tão somente alguns ébrios maltrapilhos, estudantes pândegos e desnorteados, rindo baixinho ante as abordagens de mulheres que ofereciam-lhes diversão em troca de moedas ou mesmo bebida. Por vezes, até comida e uma peça de roupa converter-se-ia em paga por seus préstimos lascivos...
Os citadinos em sua esmagadora maioria há muito se encerraram em seus lares, pois que o dia de trabalho, com poucas variações, iniciava-se por volta das quatro ou cinco da manhã. E em uma dessas casas um nobre e um artífice-mestre, ambos estrangeiros naquela terra, travavam um contato íntimo demais para dois homens que mal acabaram de se conhecer. Surpreendido pela audaciosa investida do jovem toscano que o convidara para jantar, Afrodite capitulara: beijavam-se em um recinto reservado, observados por dezenas de máscaras mortuárias de gesso. Nos primeiros segundos a reação do camareiro-mor fora intuitiva, compensatória: o frio de sua solidão evadira-se momentaneamente. Seus lábios eram invadidos, desvendados, acariciados, a ponto de ele perder o fôlego.
Contudo, os olhos da cor das mais límpidas safiras abriram-se; como que liberto de um feitiço, Afrodite deu-se conta do que estava a acontecer. Em um reflexo, desvencilhou-se do artífice, não sem certa brusquidão. Giuseppe também abriu seus olhos prateados, preso de grande surpresa.
— Detém-vos, senhor! Por quem me tomais? – Demandou o loiro, afastando-se, ofegante.
— Que tende vós? Pensei que estáveis apreciando... – Foi tudo que um atônito Giuseppe pôde dizer.
Com as faces afogueadas, o camareiro-mor esfregou os dedos nos lábios úmidos.
— Sois um homem, tal como o sou eu... que pretendeis?!? – Seu tom acusatório surpreendeu o anfitrião que, com ar indignado, respondeu:
— Que importa que sejais vós um homem? Desejo-vos desde o instante em que vos vi naquela capela. Sou sim um homem livre. Um homem que se lança sobre aquilo que almeja, sem reservas.
Boquiaberto, Afrodite recuou.
— Não imaginava que fôsseis um “invertido”. Vossa fama é de galanteador de mocinhas incautas...
— Incautas e belas. – Completou o toscano, sorrindo, provocante. – Sou um amante da beleza, caro senhor Afrodite. A beleza é o que move o mundo... é o que ME move. A força motriz de minha criação, de meu trabalho, de minha vida.
Abismado com o que ouvia, o sueco mantinha-se em silêncio.
— Eu amo a beleza. E vós sois a personificação da beleza. Tanto se me dá se sois homem... – Murmurava Giuseppe, ofegando de excitação.
— É apenas isso? É unicamente por minha beleza? – Indagou Afrodite, decepcionado. Arrependeu-se por demonstrar aquela decepção. E por mostrar-se tão pueril. Oras, haviam acabado de se conhecer! Por que outro motivo iria Giuseppe...
No fim das contas, era TUDO a beleza.
Uma beleza que, profetizara seu falecido iniciador e algoz, faria com que todos o amassem.
Todos.
Então por que Shura...
“Shura.”
— Entendestes-me mal, senhor Afrodite. Obviamente, o que primeiro me atraiu em vós foi vossa inigualável beleza. No entanto, após passar estas aprazíveis horas convosco, comprovei que vossos encantos incluem espírito fino e argúcia. Abrilhantam ainda mais a soberba beleza que ostentais.
Envolto em uma confusão de sentimentos, Afrodite considerou-o, ainda sob um paralisante mutismo. Percebendo-o, seu anfitrião logrou uma vez mais acercar-se dele. Sabia-o hesitante mas extraía do brilho nos olhos azuis e no rubor do lindo rosto um bom augúrio. Umedeceu os lábios e neste gesto confirmou a atração que exercia no visitante: este fitava-os com indisfarçável interesse. Diminuída a distância entre os dois, foi a deixa para que Giuseppe novamente empreendesse seu até então infalível ritual de sedução; nunca deixando de mirar sua “presa”, por entre os longos e curvados cílios o luzir de promessas arrebatadoras, aproximou sua boca entreaberta do níveo maxilar de Afrodite, depositando ali cândidos beijos, suaves como carícias ofertadas pelo vento. Enleado, o loiro suspirou, entre a dúvida e o deleite. Ao erguer o queixo, deu passagem a que o toscano percorresse sua língua por aquele longo pescoço, o mais encantador e perfumado que já experimentara.
Afrodite suprimiu um gemido, quase entregue àquele homem. Sim, queria-o... mergulhava em cálidas e inebriantes sensações ao ter sua pele saudosa de carinhos visitada por aquela boca, que lhe prometia indizíveis delícias.
— Senhor Afrodite, eu vos quero... – sussurrou Giuseppe, antes de capturar os trêmulos lábios do sueco em um abrasado beijo.
— Hum... – ciciou o jovem, recepcionando completamente a língua que invadia-lhe a boca sequiosa.
Súbito, algo pungiu dentro de si quando a imagem captada por entre suas pálpebras frementes não lhe revelou cabelos negros, nem uma alta e alva fronte...
“Shura...”
Por que, em nome de Deus, não podia esquecer do castelhano em um momento como aquele? Era por isso que se entregava, não? Para se esquecer…
Seu corpo precisava de um pouso, sua alma de um bálsamo... queria estreitar-se nos braços de Giuseppe e esquecer... entregar-se e fugir...
Mas não conseguia.
“Sou ridículo. Ele casar-se-á! Se não havia chances antes, tanto mais agora... agora que, possivelmente, casa-se por AMOR”, pensava, angustiado, em meio ao beijo.
Não obstante, a notícia do compromisso assumido com o marquês de Benacantil... NÃO fora redigida por Shura.
“Não é possível que esteja eu a construir fantasiosas conjecturas a respeito de... de um mal entendido!”
Amava-o.
E isso bastava-lhe.
De repente, seu ânimo resfriou-se por completo.
Giuseppe era belo, viril, ardoroso.
Porém... não era o homem por quem seu coração clamava. E este aplacou os anseios do corpo.
Discretamente, apartou-se do jovem artífice, o qual já notara-lhe o esfriamento.
— Sinto muito. Eu não posso. – Murmurou, quase às lágrimas.
— Por que não?
— Não está claro?
— Claro como o cerúleo de vossos olhos. Vosso coração pertence a outra pessoa... provavelmente a outro homem, visto a frustração de que vos encontrais cativo.
O loiro apenas assentiu em concordância, sem ter coragem de corresponder ao olhar que o sondava.
— Não estaríeis aqui se fôsseis correspondido. – Supôs o anfitrião, desconfiado,
— Não o sou.
Giuseppe soltou um grunhido insatisfeito.
— Poderia consolar-vos em meu leito. Far-vos-ia olvidar do néscio que ousa rejeitar a mais bela criatura da Terra.
— Não é que ele rejeite-me. Eu... – Fungou sentidamente, em um árduo esforço para não ceder ao pranto.
— Não posso acreditar que estais a amar em segredo!
Em um movimento gentil, Afrodite desvencilhou-se dele. Giuseppe não insistiu. Todavia, não se furtou a indagar:
—Se não podeis consumar vosso amor, por que vos abstendes de fruirdes deste nosso ato?
— Eu o amo, de corpo e alma. Por isso, eu... eu lamento profundamente... mas meu corpo não pode ser vosso, senhor Giuseppe.
O toscano suspirou esmorecido, passando as mãos pelos cabelos prateados. Vendo-o daquele jeito, Afrodite sentiu-se o último dos homens:
— Peço-vos perdão por...
— Por favor, detém-vos. Não vos desculpeis. – Interrompeu, se não ríspido, nada cortês.
Engolindo em seco, o camareiro-mor viu-se sem saber como agir. Nem mesmo ele se entendia. Era evidente que nutria desejo pelo artífice. Poderia ter desfrutado de seu leito, ter derretido sob seus braços fortes, sob o domínio daqueles lábios carnudos e promissores. Todavia, tudo obliterado se fazia ante a consciência de que não era Shura ali consigo. Quanta estolidez! Riu sem vontade alguma.
Por sua vez, ainda que Giuseppe lamentasse que aquele belo espécime lhe escapasse das mãos, não pôde deixar de por ele sentir laivos de compaixão. E Giuseppe não era homem de compaixão, absolutamente...
— Providenciarei um aposento para que pernoiteis, senhor Afrodite.
— Não vos molesteis por minha causa, senhor Giuseppe, partirei agora mesmo. Sou-vos grato pela amabilidade com que me recebestes em vosso lar, e principalmente, pela compreensão que dispensais, malgrado eu...
— Faz-se demasiado tarde, não é seguro. Ficai. Tomareis vosso caminho de volta tendo o sol como guia.
— Eu não poderia! – O loiro balançou a cabeça em negativa. – Mormente após haver eu vos rejeitado...
— Ora, então porque me repelistes hei de atirar-vos à estrada em plena noite? – Desta vez distinguiu-se em sua fala certa rispidez. – Façamos melhor: permanecereis neste quarto, irei eu para outro.
Afrodite tencionou insistir, porém concluiu que tal apenas exasperaria seu anfitrião. Percebia nele sinais iniciais de aborrecimento e lembrou-se do momento em que Giuseppe impacientou-se ruidosamente com Amapola. Não que o temesse, apenas desagradava-se de contendas. Assentiu, resignado. Com voz contida e firme disse:
—Permiti ao menos que vos agradeça mais uma vez por vossa hospitalidade. E perdão por não poder eu tirar de mim o amor que trago em secreto, nem mesmo para...
— Não era necessário que o fizesses. – Retrucou, seco. – Contudo, respeito vossas ações, conquanto não as compreenda... ou melhor, conquanto eu as reprove. Tende uma boa noite, senhor Afrodite.
O sueco aquiesceu, proferindo os mesmos votos ao rapaz, que se retirou em seguida. Quando a porta se fechou, suspirou longamente, invadido por imenso alívio. Os vapores do álcool deram lugar a um sono ao qual ele não tardaria se render. Foi fazer a higiene antes daquela rendição, estranhamente nada arrependido de sua decisão.
Não se trataria de “trair” Shura.
Tratar-se-ia de trair a si mesmo.
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— Hum! Milo! Apertaste em demasia!
— Perdoa-me – Desculpou-se o conde, afrouxando os laços do corpete que colocava no marido.
Camus cuidou de ajeitar, enquanto isso, a parte frontal, acondicionando os seios falsos no bojo da peça. Fechou o semblante, não pelo descuido do esposo, e sim por uma incômoda constatação, verbalizada por um divertido Milo:
— Tu engordaste um pouquinho, anjo meu.
— Noto-o. E isso é mau.
— Qual! Continuas esbelto, só que mais... – fungou-lhe o pescoço – apetitoso...
— Sinto-me um leitão por ti avaliado para o abate. – Resmungou o ruivo, em meio a arrepios.
— É normal que tenhas ganhado um pouco de peso, estás plenamente recuperado. E para tanto, foi necessária uma dieta fortificante...
— ...que avantajou-me as formas...
— Tolice.
— Não é tolice, Milo. O disfarce que sou obrigado a envergar prescinde de compleição robusta, tu bem o sabes.
O sorriso do cavaleiro desvaneceu-se sob tardia compreensão. Em um gesto cúmplice, abraçou-o por trás.
— Perdoa-me, Camus. A tolice, de fato, foi por mim gerada. Tolamente tomei por encantadora vaidade tua pertinente preocupação. Todavia, acalma-te: todos sabem que as mulheres engordam depois do casamento…
— Tu me pedes perdão e em seguida dardejas-me com tuas pilhérias? – indignou-se, desprendendo-se do abraço.
— Deus! NÃO foi uma pilhéria! Certo, ficou parecendo uma – coçou a cabeça, atrapalhado. Gesticulou ao tentar contornar a delicada situação. – O que intentei argumentar foi que teu disfarce não estaria ameaçado, pois que mulheres engordam depois de contraírem matrimônio, contudo novamente incorri em um erro. Escuta-me, falarei com Afrodite para modificar tua dieta, se estás tão perturbado com isso. Mas ouve-me bem, não quero que fiques débil como eras no passado, ouviste? Malgrado tu me sejas perfeito de qualquer jeito, por teu bem estar prefiro-te forte e saudável a doentio e tristonho.
— Sim, meu senhor. – Assentiu o ruivo, jocosamente.
Considerando tentadora aquela expressão de elegante sarcasmo, Milo não resistiu e tomou os lábios do esposo, ambos rindo em meio ao beijo. Antes que perdessem o fôlego, o loiro apartou-se e comentou, ajeitando-lhe umas mechas rubras bagunçadas pelo arroubo:
— Por falar no impertinente, soube que ele não dormiu no castelo.
— Deveras? Isso é incomum...
— Isso corrobora com a minha desconfiança. Desconfiança não: certeza.
— A que te referes?
— À resposta dele. Creio que Afrodite não aceitará ir para a Universidade de Paris tornar-se um médico, como eu almejava.
Da mesma forma que o conde ajeitou-lhe os cabelos, Camus cuidou de alguns cachos dourados em desalinho. Provocou:
— Estarei ouvindo bem? O poderoso conde de Saint-Doulchard está a admitir uma derrota?
Milo deu de ombros, fazendo-se conformado.
— Que te parece essa atitude? A mim, uma clara demonstração de seu desagrado para com a minha proposta.
— “Proposta” – riu Camus, brevemente – ora, admite que foi uma decisão unilateral.
— Que seja, já discutimos sobre isso. – Fez um muxoxo que quase fez o outro rir mais. – No entanto, ele pareceu compreender minhas razões, posteriormente, e prometeu-me uma resposta hoje. Que certamente será negativa.
— Eu penso diferente. – O olhar de Camus fez-se enigmático. – Creio que Afrodite aceitará ir.
— Quê? Tu presenciaste a reação furibunda do camareirozinho! Tomá-lo-iam por alguém que foi mandado para o cadafalso, não para a universidade, que, aliás, era o sonho do insolente...!
Os lábios do ruivo selaram-se, após o ímpeto inicial de responder. Camus sabia que a notícia do compromisso de Shura determinaria a decisão de Afrodite em partir para longe. Poderia ele permanecer no mesmo espaço que o amado, recém casado? Testemunhar trocas de olhares, mãos dadas, gestos de comunhão próprios daqueles que se amam? Pois a conjectura que vigorava era de que Shura só poderia estar a se casar por amor. Não declinaria de seu ideal de vida livre e aventureiro por outra razão! Portanto, Camus acreditava piamente que o sueco diria “sim” a Milo. Todavia, era óbvio que não poderia elucidar os motivos ao esposo.
— Façamos uma aposta, então.
— Uma aposta? – Camus arregalou os olhos castanho avermelhados.
— Julgo que Afrodite recusará minha proposta, por outro lado, tu crês que ele há de aceitá-la. Apostemos, pois. – Milo sorria, deixando transparecer certa malícia.
Camus considerou-o, hesitante. Nunca havia feito uma aposta com ninguém! Levou o indicador à boca, compondo uma instigante imagem de dúvida.
— Que é que me dizes? – insistiu o loiro, visivelmente excitado.
— O que apostaremos?
— Vejamos… hum… se o camareirozinho disser “não”, venço a aposta, e tu terás que ficar à minha inteira disposição por um dia inteiro.
— Que há de insólito nisso para que constitua um prêmio? – O ruivo revirou os olhos.
— Será diferente do usual... nesse dia, retirar-me-ei de todos meus compromissos, e não sairei desta alcova nem que os Quatro Cavaleiros do Apocalipse invadam Saint-Doulchard. Farás tudo que eu quiser, unicamente para o meu bel prazer.
— Quanta devassidão.
— Devassidão que tu muito aprecias.
— Hunf...
— E tu, meu lindo anjo – beijou-lhe a fronte, afetuosamente — que hás de querer em paga, caso o teu impertinente camareiro-mor diga “sim”?
— Que hei de querer? – Um brilho cintilou no olhar subitamente estreito. – Quero que sejas MEU.
Milo deu uma alegre risada antes de questionar:
— Que eu seja “teu”? Ora, meu doce amado, mas eu JÁ sou teu, de corpo e alma...
— Tu me entendeste.
O riso do loiro arrefecia à medida que o entendimento daquelas palavras se revelava.
— Creio que não estou a entender.
— És dotado não apenas de força e beleza como também de fina inteligência, estou certo de que compreendeste perfeitamente. – Foi a vez de Camus sorrir.
Estarrecido, o conde fitou o esposo, à espera da confirmação de que tudo não passava de uma troça. Como a confirmação não veio, balbuciou:
—Acaso… insinuas… insinuas que eu seja possuído por ti?!?
— Sabia que tinhas compreendido. – Respondeu de modo neutro, indiferente ao estupor estampado na face do cavaleiro.
— Mas eu... eu NUNCA...
— Também eu nunca havia sido possuído, até que tu me tomaste.
— É DIFERENTE!
— Por quê? – O ruivo indignou-se levemente. – Sou tão homem como tu. Se podes possuir-me, também eu possuo essa capacidade.
— EU SEI. E é isso que me apavora... digo... bem... – desceu os olhos azuis pelas partes desnudas do marido – não és exatamente “pequeno”.
— Tu tampouco. E ainda assim não me concedes trégua. – Cruzou os braços, resoluto.
— Não estava a par de que eu te molestava a tal nível.
— Tu não me molestas! Eu apenas... gostaria de experimentar... – como não conseguia concluir, o esposo tomou a palavra, ressentido:
— ... experimentar algo diferente porque não estou mais a te satisfazer.
Foi a vez de Camus quedar-se boquiaberto. Ao invés de se enraivecer, porém, fez-se compassivo diante da súbita insegurança do esposo. Revestindo-se de condescendência, explanou:
—Tu te equivocas, Milo. É justamente porque tu me satisfazes copiosamente que eu gostaria de tentar oferecer-te o mesmo... fazer com que experimentes a plenitude que me invade quando tu adentras meu corpo. Tu te deleitas dessa forma, contudo, acredito que seja um deleite distinto do que o que usufruo. Pois bem, quero experimentar o que tu sentes, e, em contrapartida, oferecer-te o que sinto. É a minha prenda, caso vença a aposta.
— Expressas-te como o mais hábil dos juristas, juro por Deus. – Resmungou o loiro, ao que o consorte riu, e gracejou:
— Já que é assim, envia a mim para a Universidade de Paris...
— Eu morro antes de te ter afastado de mim. – Achegou-se ao marido, cingindo-o pela cintura.
— Então, que me dizes?
— Maldição, sentir a extensão de teu membro junto a mim dificulta-me ainda mais dizer “sim”... mas... sim, aceito teus termos.
Ao ver a euforia pairar no belo rosto próximo ao seu, acrescentou, sério:
— NÃO OBSTANTE... SOMENTE se eu PERDER a aposta. Não adianta fazer essa expressão, Camus. Ter-me-ás como almejas... SE o camareirozinho anuir com meu pedido.
— Por ora, está de bom tamanho. – Rebateu o ruivo, continuando a rir por dentro, pois SABIA que Afrodite aceitaria para fugir à presença de um Shura casado.
— Eu nunca iria imaginar que semelhante anelo desenvolvia-se em ti. – Observou o loiro, franzindo os lábios num cômico bico.
— Pensei que não visses uma mulher em mim.
— E não vejo. É só que... ah, não importa. Não vencerás a aposta, em todo caso. – Riu-se, afinal, a última conversa que tivera com o sueco deixara-lhe assaz patente a indisposição do insolente em partir. Ademais, Afrodite era reconhecidamente turrão, não mudaria de ideia.
Acrescentaria aquela audácia de Camus à conta que dele cobraria no dia em que o teria “à sua total disposição”. Terminou de ajudá-lo a se vestir e juntos desceram para o desjejum, cada qual já se sentindo vitorioso. Tomaram seus lugares à mesa repleta de acepipes para os quais o ruivo lançou olhares pesarosos... o bocado de cervo ao molho de nabo e gengibre que lhe foi servido ele partiu ao meio. E recusou o vinho, preferindo somente água. Pediu a uma criada que lhe preparasse água de maçãs com canela; sabia que controlava a fome! O conde encarou-o, entre apreensivo e severo.
— Não há necessidade de privar-te dessa forma. – Pontuou, aproximando-se do ouvido do ruivo. – Eu já disse que solicitarei a Afrodite que reformule tua dieta.
Camus sorriu ante a percepção do amado. Este cobriu-lhe a mão branca com a sua morena, acrescentando, doce:
— Outrossim, já te disse que estás perfeito do jeito que estás.
Sorriram amorosamente um para o outro. Quando iam trocar um suave beijo, a voz do criado-mensageiro fez-se ouvir:
— Excelentíssimo senhor conde de Saint-Doulchard, trago-vos as correspondências de hoje.
— Oh, traz-mas, meu bom Rémy, traz-mas.
Os poucos comensais com os quais o casal partilhava a refeição seguiram com seus colóquios, a fim de conceder privacidade ao senhor do castelo, que pôs-se a abrir as missivas. Leu a primeira, brevemente, e logo um ar entristecido foi pelo ruivo notado. Este nada perguntou, a despeito da curiosidade. Felizmente, o nobre não demorou a revelar-lhe o conteúdo da mensagem:
— Meu pai e meu irmão não poderão vir aos festejos de meu aniversário. Minha mãe piorou da enfermidade...
Murmúrios condoídos correram por entre os presentes. Com a voz de “Camille”, Camus declarou:
— Eu sinto muitíssimo, senhor meu marido. Tanto pelo estado delicado em que se encontra a senhora tua mãe, quanto pela ausência de teus estimados pai e irmão em tão auspiciosa ocasião.
O jovem não exagerava: o costume de celebrar aniversários tinha origem na Antiguidade, segundo alguns registros na Roma Antiga acendia-se velas para espantar espíritos que viessem se apossar do aniversariante no referido dia... o Cristianismo, em seus primeiros tempos, tencionou sufocar a tradição pagã, curiosamente trazida novamente à tona pela própria Igreja Católica, entre os séculos IV e VI da era cristã. É bem verdade que a Igreja restituiu a celebração do aniversário em virtude de passar a comemorar o nascimento de Jesus Cristo, mas muitas pessoas se agradaram da ideia, desde a gente simples até os aristocratas mais abastados. E os últimos não mediam esforços para fazer do evento um grande acontecimento, fosse pela diversão, fosse por ostentar prestígio e influência. Vários aproveitavam para reforçar laços e acordos. À parte disso, juntamente com casamentos e funerais, tornavam-se parte das escassas oportunidades de se reunirem familiares e parentes distantes.
— Não te inquietes, minha querida esposa. Prefiro que fiquem com ela. Pode ser que sejam os derradeiros momentos de minha mãe neste mundo. Quisera eu poder ir ter com eles, entretanto, não posso simplesmente desmarcar todo o festejo, às vésperas do mesmo. Até o rei estará presente...
— Podemos ir até Auvergne, tão logo se finde a celebração de teus anos.
— É uma ótima ideia, senhora condessa. – Pierre, o castelão, acudiu, solícito. – Vós podeis partir despreocupadamente, cuidarei de tudo por aqui, juntamente com os senhores funcionários e chefes da guarda do castelo.
— Destarte, está combinado. Assim que o rei se for, partiremos nós ao castelo de Auvergne, Camille. – Decidiu Milo, acatando as sugestões.
Um pouco mais animado, rompeu o lacre da segunda carta. De novo, não se identificou alegria em seu semblante.
— Eu sinto muito, Camille. Teu pai tampouco poderá comparecer. Partiu para resolver importantes negócios com o duque de Aquitânia.
— O duque de Aquitânia? Ele teria sido o sogro de Hilda, se ela não tivesse... – Não ousou prosseguir, trespassado por uma cortante tristeza, o que sempre ocorria ao se lembrar da irmã desgraçada...
— E como tem a ver com Seika, também tuas irmãs e tias não virão. Trata-se dos esponsais da pequena.
— Seika? Ela é tão nova... meu pai já irá entregá-la em casamento?
— Lamento dizer isto, mas talvez até devido ao episódio com Hilda. O escândalo da conduta de tua irmã, já prometida a Michel, filho do duque, espalhou-se como fogo pela corte. Seria uma forma de meu estimado padrinho compensar...
Camus fez-se taciturno. Que triste destino, o das mulheres... serem meras peças no intrincado jogo de poderes do mundo dos homens! Ao menos Marin fora presenteada com melhor sorte; agradara-se do noivo e este dela! Só lhe restava esperar que a irmãzinha viesse a gostar do rapaz... e ele dela...
— Michel é um bom rapaz, acalma teu coração. – Milo procurou dissipar a preocupação que tomara conta do consorte. – É inteligente, culto, amante das artes. E tem boa figura. Seika há de ser feliz com ele.
Embora não pudesse considerar bastantes aqueles predicados, Camus anuiu em concordância. Experimentava de tal maneira o amor em seu casamento que não atinava a falta dele nos demais matrimônios.
— Será que um dia as pessoas poderão se casar por razões que não contratos e conveniências? – perguntou-se baixinho, enfim servindo-se do vinho.
— Perdão, o que foi que disseste, minha senhora? – o conde havia se distraído com o remetente da terceira carta, e não o escutara.
— Nada de importante, divagações tão somente. Em outra hora falar-te-ei... e essa epístola, de quem é?
— De teu primo Andreas.
— Andreas? – Assustou-se o ruivo. – Por que Andreas haveria de enviar-te uma carta?
— Porque eu o convidei para a festa.
— Convidaste Andreas para vir à nossa casa? Depois de haver ele afrontado-te na véspera de nossas bodas?!?
Instintivamente todos se encolheram ao ouvir “a condessa”, cujo tom prenunciava verdadeira tormenta. Até os criados se entreolharam, na expectativa de presenciar alguma querela entre os senhores.
— Se chamei o rei, ficaria estranho não chamar Andreas, é dele muito próximo, mais até que de mim, que sou seu parente. – O conde argumentou, sem se impacientar. Continuou a partir o manjar sangrento em seu prato.
— Desde quando te converteste a convenções sociais que nada acrescentam em nossas vidas?
— Desde que me tornei governante de uma das maiores províncias de França, senhora. – O tratamento firme revelava insatisfação com a fala de Camus. Prosseguiu, no mesmo tom rígido: — Além do que, causou má impressão o senhor teu pai não ter convidado Durval, Andreas e Surt para o nosso enlace. Sei que até hoje tal atitude é rememorada na corte.
— Seria uma compensação. – Falou o ruivo, entre dentes.
— Perfeitamente. – Disse, apenas, e pôs-se a romper o lacre da missiva.
O ruivo largou a faca em seu prato, ruidosamente, Esforçou-se por não enfrentar o marido diante dos comensais. Limitou-se, pois, a um murmúrio contrariado:
— Não me avisaste que convidaria meu tio e meus primos para teu aniversário. Perdoa-me se minha reação assemelhou-se a um enfrentamento. Ocorre que eu não os suporto, que Deus me perdoe.
— Tua inquietação é desnecessária, caríssima esposa. – Milo terminou de ler a carta e a atirou sobre a mesa, displicente. – Eles não virão. Encontram-se na Estíria e não chegariam a tempo para a festa.
— Folgo em sabê-lo.
— Mudarás de ideia ao saber a razão: a esposa de Andreas faleceu.
— Que dizes...?!?
Milo voltou a se servir do vinho, enquanto contava:
— Teu tio e teu primo Surt foram para os funerais da duquesa de Estíria. Morreu há algumas semanas e desde então lá eles se encontram, resolvendo questões referentes ao fatídico acontecimento.
A mão de Camus tremeu levemente sobre a toalha rendada.
Como em uma cínica represália às avessas, ele e o esposo haviam sido convidados para o casamento de Andreas, realizado em fins de agosto. O conde não havia considerado isso na decisão de deixar a Andaluzia, mas mesmo que o tivesse feito, jamais poderiam ter ido: àquela época, Camus encontrava-se convalescente, vitimado pelo terrível acidente que sofrera na floresta, por culpa dos detestáveis malfeitores que o sequestraram. Milo enviara uma carta, desculpando-se pela ausência, pretextando “uma doença da esposa”. Não mais pensou no assunto, exceto em meados de setembro, quando enviou a Andreas um convite para o festejo de seu aniversário, a ser realizado no dia 8 de novembro.
— De que teria perecido moça tão jovem? Pelo que me lembre, a duquesa de Estíria mal tinha seus 20 anos.
— Bom, a mensagem não informa a causa da morte, Camille. Em todo caso, é uma pena. Pobre dama.
— O pobre duque também deve estar consternado, por certo. – Comentou Leopold, cordial.
— Referi-vos ao pai dela, decerto. – Rebateu o ruivo, mirando o nada.
— Ah... eu me referia ao esposo... mas sim, o pai da dama certamente há de estar mortificado com tão lamentável perda...
“Só se for o pai da infeliz falecida, porque Andreas... não o imagino em semelhante situação.”, refletiu, ao mesmo tempo sentindo-se injusto por julgar o primo tão somente pela má impressão de que dele mantinha.
— Deveras. Rogo a Deus que conforte meu primo e seus sogros nessa hora tão difícil. – Mentiu, sentindo-se quase blasfemo.
Conhecia pouco Andreas.
O suficiente para ter acerca dele impressões nada complacentes. “Que Deus em sua infinita misericórdia possa perdoar-me, mas estou aliviado que ele não venha a Saint-Doulchard.”, pensou, sorvendo o vinho encorpado. Algo pesou em seu peito.
Andreas transmitia-lhe algo perverso. Não podia olvidar daquele olhar pernicioso, daquela empáfia para com Milo, daquelas maneiras prepotentes, do invasivo assédio sofrido por Afrodite – lembrava-se do que o amigo lhe contara: não fosse por Shura, certamente teria havido um escândalo, pois o sueco não era homem de tolerar tal ultraje passivamente! E mais ainda, não podia se esquecer de QUEM ele era o primogênito: do homem que, sabia-o, assassinara Camille. Provas não existiam, não obstante...
— Bem, convidá-lo-ei para o TEU aniversário, pois.
— Quê? – Espantou-se Camus, quase derrubando a bebida de seu copo. – Senhor meu marido, rogo-te que NÃO o faças. Ademais, eu dispenso comemorações dessa espécie.
— Mas será teu primeiro aniversário aqui no castelo, Camille, o primeiro em Saint-Doulchard! De que modo poderia eu negligenciar tal data?
— Prefiro que não negligencies minha vontade. – Rebateu secamente, dirigindo-lhe um olhar gélido que não admitia contrariedade; todos na mesa assim o interpretaram. Lamentaram em silêncio que lhes fosse arrebatada a chance de tão grandioso evento. Se havia algo de que se agradavam os medievos era de uma boa festa! Além da comilança, bebedeira e atrações variadas, obtinham dias de folga... e tão árduos eram seus dias...
— De acordo, minha esposa, se é de tua vontade, não faremos celebração alguma. – Concordou Milo, em tom ameno.
— Agradeço-te.
Neste instante, a atenção dos presentes voltou-se para um ilustre recém chegado a adentrar a vasta sala de banquetes.
— Muitos bons dias, senhores. Senhoras. – Afrodite cumprimentou-os, com uma polida mesura, ao que foi correspondido. Todavia, Milo limitou-se a erguer uma sobrancelha, convidando, irônico:
— Vejo que retornas de uma bem sucedida esbórnia noturna. Senta-te e come, um homem deve alimentar-se propriamente após tais farras.
— Não houve farra alguma, digníssimo conde de Saint-Doulchard. – Replicou calmamente, tomando assento perto do casal. – Aceitarei apenas um ou dois cálices de vinho, já fiz a refeição matinal.
— Oras, se essa noitada não foi ainda mais rentosa do que essas tuas olheiras me sugerem! – Chasqueou o aristocrata. Enquanto isso, Camus apenas estudava o amigo, tentando depreender o que se passara. Reparando que era por ele observado, o sueco escusou-se:
— Perdoai a minha demora, senhora Camille.
— Não careces de te desculpares. Ver-te bem é o que me importa.
Elevando a voz dramaticamente, Milo inquiriu:
— Muito que bem, senhor Afrodite, prometeste-me uma resposta tão logo rompesse o sol, e esse já vai alto por sobre nossas cabeças. Diz-me, que decidiste acerca de tua ida para a Universidade de Paris?
Não houve quem não olhasse para o sueco, tão fresco e elegante como havia dali saído na noite anterior; dir-se-ia que não gozara de “farra” alguma, como supunha o soberano. O camareiro-mor ergueu o queixo, ajeitou uma mecha claríssima para trás de uma das orelhas rosadas e, sorrindo graciosamente, enunciou:
— A minha resposta, meu gentil senhor... é SIM. Partirei rumo à Universidade de Paris, conforme é de vosso intento, assim que vós o desejardes e... por que me parece que não estais satisfeito com o meu pronunciamento? Eu jurava que vos regozijaria, mas heis que pareceis indisposto com ele!
— A mim, parece-me que o senhor conde está REALMENTE indisposto – observou o capitão da guarda, preocupado com os olhos vidrados do nobre, que levou a mão ao pescoço, como que engasgado.
— Será que ele irá regurgitar? Ó, rapaz, traz o vomitório!! – o barbeiro-cirurgião gritou para um aflito servo.
— O senhor conde torna-se tão lívido! Terá sido algo que comeu?! – Desesperava-se o secretário do conde, levantando-se para acudi-lo.
— Senhor Milo! Senhor Milo! Oh, ele padece! Ajudai-o!!! – Exaltou-se a esposa de Pierre, erguendo-se também, balançando os braços roliços que se ondularam como flâmulas.
A despeito da preocupação e correria de todos, “Camille” seguia “serena”, tomando seu vinho tranquilamente...
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