Dame Jolie
50 Sobre as Vagas do Destino
Notas iniciais
À medida que a tarde avançava, as instalações do solar pareciam mais frias. Curioso como, malgrado o verão se aproximasse, Paris estivesse tão fria naqueles dias. Milo perguntava-se se aquela sensação térmica seria real ou proveniente de seu estado de espírito. Pois que, a despeito do belo dia ensolarado, reinava em seu interior a mais profunda e densa treva. E esta aumentava seu insidioso alcance a cada objeto que o conde acondicionava na pequena arca de ébano.
Um açoite liso.
Um açoite dentado.
Um alicate próprio para extração de unhas.
Um próprio para extração de dentes.
Uma forquilha do herege. ( 1 )
Uma serra para decepamento.
Cerrou os olhos com força, presa de súbita vertigem. Foi preciso mesmo apoiar-se na mesa de carvalho escuro. Respirou pesadamente; teve mesmo dificuldade para fazê-lo.
Em um outro tempo... em uma outra época... em um outro lugar... era ELE, e não Shura, quem experimentava os agoniantes momentos de espera pela TORTURA.
E Shura...
... justamente Shura, que...
“Não! Eu NÃO devo pensar nisso!”
Empertigou-se, resoluto, em meio à inspiração que fê-lo erguer também a cabeça.
“Tudo que importa, agora, é CAMUS. É saber onde ele está, para onde Shura o levou! E se Shura recusa-se a me revelar, precisarei ARRANCAR-lhe a verdade!”, pensou, trincando os dentes, tamanha a tensão.
Um extirpador de córneas.
Uma tesoura.
Dois punhais médios.
Uma correia serrilhada.
Fechou a arca com um movimento brusco, o que provocou um barulho dramático. Ouviu batidas à porta, quase sem acreditar que alguém se atrevia a procurá-lo.
— Quem é? – Perguntou ríspido.
— Perdoa-me, Milo... sou eu, Afrodite.
O conde estalou a língua, impaciente.
— Que queres?
— Que achas que quero? Quero falar contigo.
— Não disponho de tempo para conversar agora, Afrodite.
— Por favor, deixa-me entrar. Prometo que não tomarei demasiado teu precioso tempo.
De má vontade, Milo foi abrir a porta. Tão logo o ex-camareiro adentrou o cômodo, o conde trancou a porta e demandou, autoritário:
— Pois bem, que sejas breve.
Os olhos de azul cristalino do sueco pousaram temerosos sobre a mesa do recinto: perto da arca fechada, distinguiu ferramentas e artefatos cuja mera visão fizeram-no arrepiar-se. Ao acompanhar o olhar do recém-chegado, Milo prontamente compreendeu-lhe o desconforto.
— Como estarei sozinho para... “cuidar” de que Shura abra a boca, somente itens que caibam nessa arca de mão poderão ser utilizados. – Falou em tom pausado, estranhamente impessoal.
Afrodite volveu o rosto assustado para Milo.
— Pretendes MESMO torturá-lo? – Indagou, sem disfarçar o tremor na voz.
— Eu deveria servir-me de TODOS os artefatos que ali estão, tão somente por Shura haver feito o que fez. – A calma de Milo ao enunciar tais palavras espantou Afrodite. – No entanto, como disse, não disponho de meios para me servir dos que não cabem AQUI. – E pôs as mãos sobre a arca negra.
— Milo... conseguirás, com efeito, seviciar alguém que... que foi teu amigo?
— Expressaste com correção, caro Afrodite: ele FOI meu amigo. Ademais, – Elevou o tom em clara irritação – dei-lhe a chance para que me revelasse o paradeiro... – Abaixou a voz. – de Camus. Recusa-se terminantemente, porém. De modo que não me deixou outra opção.
O sueco avançou até a mesa e postou-se bem defronte ao conde, encarando-o firmemente.
— Terás sangue frio para tal? Para infligir DOR a quem consideravas um IRMÃO?
— Por quem me tomas? – Vociferou Milo. – Tu, acima de TODAS PESSOAS, estás a par do que está em jogo aqui!
— EU SEI – Afrodite volveu, aflito. – Entretanto, é justamente por conhecer-te que SEI que tais torturas não serão infligidas apenas a ELE, como também a TI!
— Quantas sandices... – Rosnou o soberano de Saint-Doulchard, o belo rosto transtornado de ira... e também de angústia, Afrodite podia vê-lo!
— Milo...
— Que queres tu que eu faça? Se ele NÃO FALA, é mister que a DOR solte-lhe a língua!
— Deixa-me tentar, peço-te.
— O quê?
— Deixa-me ir ter com ele. Tentarei fazer com que Shura me conte o que é feito de Camus.
Bufando, Milo estreitou os olhos azuis turquesa. Mirou o outro com desdém e incredulidade.
— O que, em nome de Deus, te faz acreditar que conseguirás daquele homem o que EU, seu melhor amigo, não consegui? – Questionou com aspereza.
Abaixando o olhar úmido, o sueco respondeu:
— Não tenho certeza de que conseguirei. Não obstante, penso que seria válido tentar...
— TENTAR! TENTAR! Não há tempo para TENTATIVAS! Preciso encontrar...
— Não hás de encontrá-lo se Shura MORRER antes de o revelar.
— Subestimas minhas capacidades. Não sou tolo para exterminá-lo antes que ele solte a língua.
— No estado em que te encontras, poderás assegurá-lo?
Por uns instantes, Milo calou-se, o olhar atormentado, maníaco, fixo no ex-camareiro.
— Permite que eu vá falar com ele. Antes de tua... “visita”. – Insistiu firme, conquanto suavemente.
Piscando enquanto suspirava, o nobre afastou-se um pouco de seu interlocutor, como que para recuperar fôlego para replicar:
— Cria eu que tua amizade por Camus suplantasse quaisquer sentimentos que porventura tivessem em teu coração aflorado por Shura.
Afrodite quase caiu fulminado por aquelas palavras. Então... Milo percebera que...
— É claro que suplantam! – Enrubesceu com violência ao retrucar, entre magoado e envergonhado. – Não obstante, eu... Milo... não falto com a verdade quando digo que me preocupa em que estado há de adentrar teu espírito ao supliciar teu melhor amigo, por maior que seja teu amor por Camus!
— CALA-TE – A ordem, quase uma súplica, sibilou em um grunhido rouco.
O marido de Camus deu as costas para o ex-camareiro, caminhando até uma das janelas. Aspirou o fresco ar vespertino que irrompia pela estreita fresta por entre as pesadas venezianas de madeira. Inspirou longamente, como a encher-se de motivação para aquela, na sua concepção, absurda decisão:
— Está bem. Eu permito que vás ter com ele.
Antes que Afrodite pudesse pensar em erigir quaisquer esperanças, o governante de Saint-Doulchard acrescentou, virando-se enfim para ele:
— Cuida, porém, que ele dir-te-á o mesmo descalabro com que intentou desarmar-me: que MATOU Camus e que atirou-lhe ao mar o corpo.
Boquiaberto, o sueco jurou que seu coração cessara de funcionar.
— E-ele... ma-matou Ca...
— É mentira. – Cortou-o, impassível. – Conheço Shura, sei que está mentindo.
— Assim o crês porque deveras o conheces... ou porque...
— Não te deixes ser por ele ludibriado. – Retirou um molho de chaves do bolso e entregou-o a Afrodite. – Dar-te-ei MEIA HORA. Não mais que isso. Passado este tempo, dirigir-me-ei para a masmorra... – Apontou para a arca sobre a mesa. – com ISSO.
Afrodite engoliu em seco.
— Ta... talvez uma hora fosse...
— MEIA HORA. – Interrompeu-o Milo, sem se alterar, a despeito da rigidez de seus modos.
— S-sim.
— Chama o guarda que está de vigia no corredor. Mandarei que ele te escolte, caso contrário, os que às portas da masmorra se encontram não permitirão que por ela avances.
Assim foi feito. Seguido pelo soldado, o ex-camareiro avançava rumo à escada, com todos os membros de seu corpo trêmulos de tensão. Quando descia pelos degraus iluminados pelos archotes, encontrou-se com Giuseppe, que por eles subia.
— Aí estás tu! Estava a procurar-te.
Detendo-se, o loiro explicou-se:
— E-eu... fui ter com o senhor Milo...
— Precisas retornar aos teus aposentos, ainda careces de repouso.
— Não, eu estou bem. – Apressou-se em assegurar. Por alguma razão incômoda, não queria que Giuseppe ficasse a par de onde estava prestes a ir. – Giuseppe, com a tua licença, eu... preciso ir resolver algo para o senhor Milo.
— Posso ajudar-te?
— Não é necessário, agradeço-te, mas...
— Pois a julgar por tua espantosa palidez e o suor que umedece-te o rosto aterrorizado, eu diria que precisas SIM de ajuda, e...
— POR FAVOR, não disponho de muito tempo! – Gritou o sueco, fora de si. – Aparta-te da minha frente, suplico-te, em nome de Deus!!!
Como que prontamente convertido em uma estátua de sal, o artífice-mestre não mais se manifestou. Boquiaberto, seus braços, antes parte ativa de sua expressão corporal durante o diálogo, quedaram-se inertes ao longo do corpo imóvel, que assim permaneceu à passagem de Afrodite. Este, sem interromper sua descida, acrescentou enérgico:
— Não ouses seguir-me; este guarda é testemunha de que apenas eu tenho permissão de ir para o local ao qual me dirijo.
O vigia assentiu, dardejando o toscano com um ameaçador olhar de aviso. Incapaz de articular qualquer resposta, Giuseppe limitou-se a assentir de volta, em uma resignada demonstração de que compreendera. Sob um peso atroz na alma e no coração, não pôde se furtar a deixar escapar um suspiro.
Afrodite.
Sabia EXATAMENTE para onde o bello estava indo.
Afrodite...
... jamais seria seu.
*************
Quantas horas haviam se passado?
Três, quatro, cinco, seis...?
Não.
Talvez NEM DUAS.
Era o esforço inédito, a sequência de movimentos repetitivos, extenuantes, que lhe davam tal impressão.
Remar, remar e remar.
Não seria capaz de decidir o que lhe doía mais; os ombros, os bíceps, os pulsos, as costas, o quadril, as nádegas como que pregadas àquela rija superfície de madeira ordinária, sem qualquer estofamento.
Seus braços juntavam-se a tantos outros na condução da Gemini através das vagas azuladas. Conquanto o sol houvesse se ocultado por detrás de algumas nuvens plúmbeas, e a brisa soprasse compassiva por aqueles trabalhadores do mar, sentia um calor incômodo, insistente. Arrependera-se de não ter prendido os cabelos, agora não poderia parar para fazê-lo... entendia – Não seria óbvio? Fora, de fato, assaz desatento. – por que todos os homens de cabelos compridos traziam-nos presos em tranças, rabos-de-cavalo ou sob lenços e bandanas... sentia os seus, mais longos que os de todos ali presentes, grudarem-se-lhe no rosto, no pescoço, a esquentar-lhes ainda mais as costas...
— As primeiras vezes são sempre as piores.
Ele olhou para o adolescente ao seu lado direito, que lhe dirigira aquele comentário.
— Depois de uns dias, acostumar-te-ás, asseguro-te. – Isaak sorriu, em uma simpática tentativa de animar o novato.
Camus resistiu à tentação de revirar os olhos. Com voz monótona, tornou:
— Está tão evidente assim?
— Tens o semblante de quem demanda a extrema-unção – Desta vez o jovem chegou a rir.
— Não haveria eu de temer tal. Seguramente, seria o melhor a acontecer-me.
— Ora, não sejas blasfemo. A vida é uma dádiva de Deus. Somente a Ele cabe decidir o momento de findá-la. Cabe a nós aceitar aquilo para o qual o Criador nos destinou. – Admoestou o norueguês, seus álacres olhos esverdeados a refletir o brilho do mar. – Ademais, ninguém nunca morreu no primeiro dia de trabalho aqui nas galés.
— Que dizes, Isaak? Então já te olvidaste daquele mísero genovês, de há apenas algumas semanas? – Um marujo de pele trigueira, bem atrás dos dois jovens, meteu-se na conversa, deixando entrever seus dentes quase esverdeados no riso zombeteiro. – O pobre diabo pereceu no primeiro dia em que se sentou nestes bancos de madeira podre em que repousam nossos indignos traseiros!
— Hahahahahahaha, bem lembrado, Adauto! E aquele turco com mais tatuagens no torso que fios de cabelo na cabeçorra, depois que deixamos Alicante? Expirou na décima remada! – Ajuntou outro homem, um pouco mais à frente deles.
— Calai-vos! – Isaak exaltou-se. – Ambos infelizes já padeciam de condições que mais cedo ou mais tarde levá-los-iam para o reino dos céus, ou do inferno, ou coisa que o valha!
— Acaso afirmas isso unicamente porque estavam esquálidos e desnutridos? Acaso ostenta o garboso Laurent compleição demasiado diversa?
Ao som das gargalhadas, Camus não pôde deixar de experimentar viva insegurança. Estaria ele tão magro? De aparência doentia como os mortos de quem falavam? Isaak tencionou aliviar-lhe a preocupação despertada por aqueles dizeres, visível no semblante do ruivo:
— Tolice. Não dês ouvidos a estes parvos, Laurent, tu nem de longe te assemelhas aos coitados de que estes ignóbeis estão a grulhar.
O nobre esboçou um leve sorriso ao responder:
— Não estou preocupa...
— LAURENT!!! – Berrou o capataz, a ponto de assustar os remadores; dirigiu-se aonde se encontrava o Novato. – Fadigas-me com tua tagarelice! Julgas que estás aqui para te entreteres com descontraídos colóquios?
Tomando cuidado de não parar o que fazia, Camus mirou um furibundo Dohko.
— Não, senhor. – Respondeu simplesmente. Então foi esbofeteado no rosto pelo chinês.
Pelo estupor nas expressões de todos, Camus não foi o único a ficar surpreso com aquela ação intempestiva, injustificável.
— Cala-te! Estás aqui para TRABALHAR, não para CONVERSAR animadamente como se estivesses em uma taberna! – Bradou Dohko.
— Por que é que o castigas?!? Que fez Laurent para merecer tua agressão? – Interveio Isaak, revoltado.
— És SURDO além de CAOLHO?!? Ele estava FALANDO durante o serviço!
— E desde quando isso é PROIBIDO? – Estranhou ninguém menos que Thor, na fileira vizinha. – Todos nós falamos durante o serviço.
— Por vezes, até cantamos – Ajuntou um jovem hirsuto, cujas espessas sobrancelhas ergueram-se enquanto falava.
Gesticulando, Dohko insistiu, aos brados:
— VÓS!!! VÓS!!! ELE NÃO... ELE NÃO PODE!!!
— E por que não? – Uma após a outra, vozes aleatórias inquiriam o que o chinês não poderia esclarecer. Olhando nervosamente ao redor, decidiu responder com outro golpe, ainda mais forte, no já ferido rosto de Camus. O ruivo precisou ser amparado por Isaak para não tombar ao convés. Ouviu-se exclamações, imprecações.
— Porque assim será – A despeito de seu imenso desconforto em proceder daquela forma, o capataz esforçou-se em parecer rígido, inflexível. – Que ninguém se dirija a ele ou fale com ele, senão...
Mostrou o chicote enrolado e pendurado em seu cinto.
Novas exclamações, risadas de escárnio. A voz cavernosa de Thor tornou a ser ouvida:
— Estás a nos ameaçar? Sob que justificativa?
Mais que rápido, Dohko apontou para o jovem, de cujos nariz e lábios o sangue vertia:
— A vós não. A ELE. A ele, tão somente.
Sob olhares mistos de perplexidade e reprovação, o chinês tratou de se afastar, antes que os ânimos começassem a se inflamar. Afinal, era claramente INJUSTO aquele tratamento dispensado ao novato, e, uma injustiça cometida a um deles, era pelos marujos vista como uma possibilidade futura de desmandos sobre todos... e, por isso, perfeitamente cabível de ser rechaçada. Consciente que estivesse disso, tinha, porém, uma ordem a seguir, uma ordem de ninguém menos que seu capitão.
E ele a cumpriria, nem que fosse aos poucos...
Tornar a vida de Laurent nas galés um INFERNO.
*************
Até o presente momento, o frio da cela não lhe fora digno de nota. A despeito da origem ibérica, o Marquês de Aguilar sempre demonstrara a mesma indiferença às temperaturas que um filho das terras do Norte. Contudo, o silêncio e a expectativa pareceram imprimir percepções táteis àquele sentido.
Inconscientemente, uniu as mãos e as torceu, ao distinguir sons de passos vindo do corredor mal iluminado. Conquanto estivesse com os pulsos e os tornozelos agrilhoados à parede de pedra, empreendeu grande esforço para pôr-se de pé: seus membros formigavam… não importava... mostraria àquele que seria seu algoz que nada temia, que estava pronto, que a tudo enfrentaria...
Pela fé.
Pela amizade.
E, principalmente, por algo muito seu, algo que ainda não usufruía de um nome, mas que se manifestava ante a lembrança do rosto sereno de Camus, de sua postura impávida, de sua entrega abnegada.
Suspirou profundamente, desgostoso daquelas evocações.
Camus fora um pecador pérfido! Não merecia que ele sentisse AQUILO, nem por um segundo que fosse! Então... por que sentia?
“Talvez sua influência maligna esteja dessa maneira a se manifestar sobre minha pessoa.”
Mais uma razão pela qual deveria submeter-se, de peito aberto, com desprendimento e bravura, aos tormentos que em breve ser-lhe-iam infligidos.
No entanto, não foi o Conde de Saint-Doulchard quem apareceu por detrás das grades, e sim Afrodite. O ex-camareiro trajava roupas limpas; uma túnica em tom violáceo com detalhes em bordado de prata e calças justas em tom musgo, próximo às finas botas que calçava. Os longos cabelos loiros caíam-lhe em suaves ondas por sobre as espáduas. Shura sufocou uma exclamação; nunca dantes os dois personificaram tão abrupto contraste! Diante daquele que mais parecia um monarca, ali estava ele, roto, sujo, maltrapilho, ferido, alquebrado. Isso não o impediu que declarar, simulando desinteresse por aquela presença:
— Hum. És tu.
— Sim. Sou eu. – Murmurou o recém-chegado, seu rosto entristecido parcialmente oculto por sombras.
— Um estratagema peculiar de Milo, enviar a ti para estas nobres instalações... é o que parece que tenho diante de mim.
— Não é um estratagema de Milo. Foi um pedido MEU.
— Teu? – Surpreso, o marquês ergueu uma sobrancelha.
O sueco assentiu. Bem junto às barras de ferro enegrecido, disse calmamente:
— Convenci-o a deixar-me vir ter contigo antes de... bem... tu imaginas, creio eu.
— Antes de ele vir torturar-me.
— Sim.
— Vieste em vão, meu caro. Não há nada que tenha eu a dizer-te que já não o tenha dito a ele.
Afrodite respirou fundo e adiantou-se:
— Milo não acredita que tu tenhas matado Camus.
— Sim, ele mo disse.
— Tampouco eu o acredito.
— Não sei como isso possa ser de meu interesse. – Volveu o prisioneiro, glacial.
— Shura – O sueco segurou as barras da cela. – Tu levantaste a mão contra mim. Meteste-me nesta mesma prisão horrenda, deixaste-me cativo tal qual um animal pestilento, a despeito da camaradagem que nos unia, tu não te furtaste a proceder com frieza e brutalidade para comigo...
O marquês desviou dele o olhar. Não se arrependia de nada... então por que tais palavras molestavam-no como moscas insistentes? Bastava ignorá-las...
— ... não, não hesitaste em tratar-me de modo tão vil que julguei nunca mais erguer-me do leito e olhar para o sol outra vez... o que dar-me-ia motivos suficientes para crer que pudesses, com efeito, ter ASSASSINADO Camus. O fato é que eu, assim como Milo, TAMBÉM NÃO O CREIO.
— Repito que desconheço de que forma possam tuas crenças interessar-me.
— Shura, leste meu diário! Estás a par de tudo que se passou...
— Estou. – Cortou-o, friamente. – Foi precisamente o conhecimento de semelhantes disparates que levou-me à decisão da qual vós, de modo obstinado, duvidais.
— Sabes, pois, que a decisão de se passar por “Camille” NÃO foi de Camus! Que o casamento NÃO foi decisão de nenhum dos dois, AMIGOS TEUS, pessoas a quem amas! E sabes também que eu... que eu te...
— DETÉM-TE de prosseguires! – Vociferou Shura. – Não ouses pronunciar tamanha estultícia!
— És TU o estulto! O NÉSCIO, O TOLO, O CEGO, O SURDO! – Afrodite bradou de volta. – O único sentido de que dispões em tua magnânima existência é o do JULGAMENTO, mediante TUAS LEIS deslocadas da consideração dos FATOS, da COMPAIXÃO HUMANA!!!
Vivamente espantado, Shura calou-se. Afrodite tirou as chaves de seu bolso e abriu a porta da cela. Sob tremores, o espanhol viu-o parar diante de si, os olhos claros fulgurando na penumbra.
— É por ainda nutrir esse MALDITO AMOR por ti... o AMOR que desfigurou-me não apenas a face como minha própria alma... – A voz do sueco tremia malgrado a firmeza de sua altiva figura. – que venho suplicar a ti que contes a VERDADE que Milo tenciona extrair por intermédio da TORTURA.
Amor?
Afrodite AINDA o amava?
Seria possível?
O que seria aquele calor envolvendo seu coração palpitante, subitamente disparado, enlouquecido?
— E não apenas por isso – A voz de Afrodite firmou-se, agora mais baixa. – é pelos SENTIMENTOS de Milo. És como um IRMÃO para ele. Ama-te como se fosse carne de sua carne, parte de seu espírito! Não inferes, ó insensível, como será para ELE infligir-te sofrimento? Não percebes que hás de matá-lo por dentro, como o assassínio que insistes em haver cometido?
Hesitante, Shura buscou no rosto alvo precariamente iluminado pelas tochas a cicatriz.
A cicatriz de quem afirmava amá-lo.
De quem ainda o amava.
A cicatriz pela qual ELE era responsável.
Afrodite salvara-lhe a vida.
E ele... Shura... havia salvado a VIDA DE MILO.
Como seria para Milo torturar aquele que um dia salvara-lhe a vida?
Levou a mão ao coração, novamente invadido pela dor que sentira quando agredira Afrodite. Quando o prendera naquela mesma masmorra em que agora se encontrava.
Não tivera tempo para aquela dor. Sufocara-a no calor de seu dever. De sua devoção.
— Afrodite... – Murmurou, sem nem ao menos perceber que o fazia.
— NÃO é tarde demais, Shura. – O ex-camareiro diminuíra ainda mais a distância entre si. – Diz-me... diz-me ONDE está Camus.
O marquês estremeceu.
Camus...
Camus estava longe, tão longe!
Encontrava-se agora em condição análoga a de um ESCRAVO. Ele, que fora “Camille”, personalidade vivaz, espirituosa, afável, que angariara sua sincera afeição quando em dias tão felizes... agora pertencia a Saga. Onde se encontraria no momento? No oceano, rumo ao Marrocos, à Tunísia, ao Egito, à Sicília, a Bizâncio, à China... quem poderia saber?
E se o navio tivesse sucumbido a uma tormenta? Se tivesse afundado, se despedaçado aos corais, sido feito despojo de algum combate marítimo?
— Shura, por favor...
— É inútil, Afrodite.
— SHURA!...
— Ao contrário do que crês, é SIM TARDE DEMAIS.
— Camus NÃO está morto, não é verdade? Tu não o mataste!
O silêncio de Shura inspirou esperanças em Afrodite. Iria insistir mais, quando a voz de Milo fez-se ouvir:
— Acabou-se o teu tempo, Afrodite.
Este voltou-se para o soberano; viu com pavor a arca de ébano nos braços do recém-chegado.
— Ele te disse onde está Camus?
— Não. – A resposta do sueco saiu num fio de voz.
— Não. – Repetiu Milo. – Pois muito que bem. Vai-te daqui. Pela lógica, eu teria DIREITO a ordenar que me auxiliasses com estes PROCEDIMENTOS...
— Oh... n-não... não me peças para q-que eu...
— Cala-te, estafermo, sei bem que seria desumano para contigo.
— M-Milo... – Lágrimas vieram aos olhos do ex-camareiro.
O conde adentrou a cela. Encarou demoradamente o prisioneiro e, em seguida, voltou-se para Afrodite ao concluir:
— A tortura seria muito mais sentida por TI do que por ELE. Mas tu também não estás alheio ao fato de que não me resta outra alternativa, decerto.
— Não. – Balbuciou Afrodite, trêmulo, sentindo o sangue gelar. – Não estou. Com a tua licença...
Retirou-se, por fim, esmagado por sua própria dor, pela dor de Milo e pela preocupação com Camus.
Milo tornou a olhar o amigo a ferros.
— Bem, sem mais delongas, iniciemos a nossa... entrevista. – Anunciou em tom controlado. – Por que motivo não quiseste revelar o que é de Camus para Afrodite?
— Porque estaria apenas repetindo o que disse a ti.
Em um sinal de fria resignação, Milo limitou-se a menear a cabeça. Depôs a arca no chão. Abriu-a, propositalmente ao alcance da visão de Shura, que àquilo não aparentou dar qualquer importância.
— Que devo eu fazer primeiro? Açoitar-te? Arrancar-te as unhas? Queimar-te as solas dos pés? Apertar-te o pescoço até que tua tez torne-se cerúlea como o céu ao alvorecer?
— Pouco se me dá. O que eu tinha a dizer-te, já foi dito. Teu PROSTITUTO está morto. – O marquês declarou, com acídia.
A mão de Milo afundou-se na arca e dela retirou um chicote de couro cru. Desenrolou-o enquanto proferia, de forma pausada:
— De fato, apenas repetes o que já foi dito. Diz-me, neste caso, onde o enterraste?
— Por certo intentas incorrer em mais um pecado. Queres tanto assim o cadáver de teu prostituto? Cuida que hei de julgar que ainda tencionas possuí-lo...
Com os dentes trincados de fúria e tensão, Milo desferiu um potente soco no maxilar do espanhol.
— ONDE ESTÁ ELE? – Gritou, colérico.
O silêncio de Shura demarcou o fim de qualquer clemência para consigo: o chicote abateu-se violentamente em seu peito. Ele mordeu os lábios para não deixar escapar nem mesmo um gemido.
— Responda-me, MALDITO, onde ele está?!? – Insistiu Milo, ao recolher o açoite.
— Tu bem o sabes... no fundo do mar.
Mais uma vez o conde chicoteou o amigo, que estremeceu, por sentir mais contundente o golpe. Outro veio horrivelmente sobre a região já ferida.
— FALA, ou estraçalhar-te-ei a carne!
— Faz como te aprouver, soberano de Saint-Doulchard... nada... nada mais tenho a revelar-te.
Milo chicoteou-lhe o peito, os flancos, o estômago, três, quatro, cinco vezes.
Na sexta vergastada, o marquês deixou escapar um grunhido de dor.
— Hei de continuar até que me respondas – Avisou Milo, rouco de ódio.
Cerrando os dentes, imerso em dor incandescente, Shura rebateu, fuzilando-o com um olhar sombrio:
— Neste caso, fá-lo-ás até que eu MORRA.
— QUE SEJA!!!
Não demorou para que o estoico Shura se rendesse, afinal, à dor, e seus gritos se elevassem às abóbodas centenárias das masmorras.
Milo sequer se importava em contar as chicotadas; empregava todo seu vigor em imprimi-las da forma mais brutal possível. Em seu rosto levemente bronzeado salpicos de sangue mesclaram-se ao suor.
Em determinado momento, teve a impressão de que o amigo desfalecera. Deteve-se momentaneamente para indagar:
— Será que estás disposto a colaborar, por fim? Sabes muito bem que isto não é algo que realizo com deleite!
Trêmulo, o moreno esforçou-se por erguer o rosto exausto e pincelado com o sangue proveniente de seus ombros e torso quase estraçalhados. Olhou para seu algoz e retrucou, em meio a um sorriso torvo:
— D-deveras? E-eu poderia seguramente afirmar o contrário...
— DIZ-ME ONDE ESTÁ CAMUS!!!
— No inferno.
Aquilo foi o suficiente para que Milo avançasse sobre ele, já esquecido do chicote, e desferisse-lhe uma saraivada de socos. Em um ímpeto irracional, quis sentir aquela carne em seus punhos, quis a irradiação daquela dor mais próxima de seu ser consumido pela cólera e pelo desespero. Ao vê-lo deixar pender a cabeça para frente enquanto todo seu corpo relaxava como que inerte, o loiro soube que o marquês havia perdido a consciência, fazendo tilintar as correntes que o prendia.
Os gritos, os gemidos, os grunhidos... cessaram completamente.
Atônito, caindo em si, Milo levou as mãos à cabeça. Agarrou os cabelos com fúria e caiu de joelhos no chão, aos gritos.
— NÃO! NÃO! NÃÃÃÃO! ACORDA, DESGRAÇADO!!! ACORDA, MALDITO! TENS DE REVELAR-ME... tens de me dizer... – seus apelos gradualmente converteram-se em balbucios débeis – tens de me dizer onde... o-onde está m-meu... meu Camus...
Deixou a fronte tocar o gélido chão rochoso, seu corpo sacudido pelos tremores de ira... e também de dor.
Cada chicotada em Shura imprimira-lhe uma marca.
Espalmou as mãos sobre o solo.
Tão frio quanto a cela em que ELE estivera preso.
Ergueu o rosto banhado de lágrimas para mirar o corpo dependurado, como se osso algum resistisse inteiro em seu interior. A ele... àquele homem, que agora resumia-se a uma figura massacrada, inanimada, devia sua própria EXISTÊNCIA. Se a sua existência se fazia real no mundo, devia-o a Shura... e eis que estivera ali, seviciando-o... mas como faria diferente, com Camus desaparecido? Sua razão de viver fora arrebatada por seu salvador! Isso contrariava todas as leis da razão que Milo pudesse compreender... por isso, cedera ao destempero... por outro lado, tentara sim arrancar a verdade de Shura por meio da dor.
Nem assim Shura cedera.
Não que esperasse que cedesse de primeira, conhecia-o muito bem.
A questão é que uma de suas crenças se arraigava mais e mais, a cada segundo: Shura NÃO temia a dor.
Nunca temera.
Foi exatamente por essa decantada característica que fora SALVO por ele.
As lembranças daqueles dias revolviam-lhe a mente atribulada. Não deixou que lhes roubassem, porém, o foco de sua empreitada. Do que era crucial no momento.
Descobrir o paradeiro de Camus.
Pôs-se de pé, enxugando furiosamente os olhos lacrimejantes. Mirou seu amigo... agora inimigo... sim. Não mais importava que Shura tivesse sido seu salvador em tempos idos.
Seu bem mais precioso se perdera... por causa de Shura... e urgia encontrá-lo, custasse o que custasse.
Suspirou, retomando a clareza necessária para agir.
Em seu descontrole, desacordara o marquês, o que prejudicava tão somente a si mesmo. Isso não poderia se repetir! Shura tinha que ser torturado até dizer o que ele queria ouvir. Não até perder os sentidos! Calculara mal suas ações. Bem, com mil diabos, por mais que vidas tivessem encontrado seu fim sob o fio de sua espada, ele NÃO era um verdugo. Jamais tivera de torturar um homem, a despeito do sadismo que incontáveis vezes presenciara nos atos de alguns companheiros de guerra... como Andreas!
E, curiosamente, o nome de que se recordava agora pertencia ao mandante da emboscada que quase o vitimara... não fossem o Rei Ricardo Coração de Leão e... Shura...
“Basta de lembranças! Preciso concentrar-me no PRESENTE! Já sei o que devo fazer.”, resoluto, deixou a cela, não sem antes trancá-la bem. Subiu apressadamente as escadas, tarefa dificultada pela fadiga de seus membros. Surpreendia-o o quanto o processo de seviciar alguém tão resistente poderia exigir de seus músculos. Dirigiu-se até o quarto ocupado por Afrodite para restabelecer-se; com efeito, ali encontrou o ex-camereiro, pensativo em um canto de uma das janelas.
— Preciso de um favor teu. – Anunciou o conde, firme e direto.
Prontamente retirado de seus devaneios, o sueco assentiu, solícito.
— O que quiseres.
— Sei que há determinados... preparados capazes de retirar um homem do estado de inconsciência. Ou de, ao menos, impedir que ele nela mergulhe. És capaz de produzir algo semelhante?
Teve a nítida impressão de que o rosto de Afrodite perdera toda a cor.
— Shura...? Ele está...?
— Inconsciente. O que me é assaz prejudicial. Inconscientes não podem falar.
— Que lhe fizeste? – Afrodite ousou perguntar, assombrado.
— QUE ACHAS QUE FIZ? Estava a tentar fazer com que o miserável falasse!
— E... e o deixaste sem sentidos?
— Não é por outro motivo que perguntei-te acerca do tal preparado.
— Empregaste de violência desmedida para com ele...?
Quase se entregando a um riso de escárnio, Milo rebateu:
— “Violência desmedida”? Depois de TUDO que Shura fez contigo e com Camus, consideras que fui EU a proceder com “violência desmedida”?!?
— P-perdoa-me... e-eu não quis dizer...
Milo agarrou-lhe pelos braços e forçou-o a encará-lo.
— Ele não ouviu teus apelos. Ele não ouviu meus apelos. Afrodite, a única que Shura pode ouvir agora... é ESTA linguagem. E, Deus queira que não, temo que NEM MESMO ESTA ele ouça. Por isso, terei que ser EXTREMADO, porém CUIDADOSO.
Envergonhado de suas lágrimas, Afrodite virou o rosto. Ao contrário do que o próprio Milo poderia esperar àquela contrição por um AGORA inimigo, teve certa compaixão pelo sueco. Largou-o e disse, com voz baixa e pesarosa:
— Não há outro caminho a seguir. E não penses tu de que se trata de um caminho fácil para mim.
— Sei que não é! Ele é teu melhor amigo, e...
— Não é só por isso. Quero dizer, isso já seria por si só motivo suficiente. – Inspirou como a tomar coragem para prosseguir. – Shura... Shura salvou-me a vida em determinada ocasião. Arriscou a sua própria para me salvar. Devo-lhe a minha vida...
O ex-camareiro ergueu as sobrancelhas ao fitá-lo surpreso.
— Na guerra, dizes? Em campo de batalha?
—Não. Quando fui feito prisioneiro de Saladino (2), em Acre. Foi apenas pela bravura de Shura que hoje encontro-me aqui, diante desses teus olhos arregalados.
— E-eu não sabia disso. Nunca o disseste a mim e... creio que tampouco a Camus...
— Não considerei uma história condizente dos ouvidos de Camus. Ele já passou por dissabores demasiados nesta vida. Ademais, ela envolve um dos membros da família DELE.
— Da... família de Camus? – Surpreendeu-se Afrodite. – Mas quem...?
— Andreas. – E este nome saiu em meio a um sussurro repleto de ressentimento. – Andreas de Turenne.
— ANDREAS? De que forma teve Andreas a ver com tua captura? Não foste prisioneiro dos mouros?
Aparentemente cansado, Milo sacudiu a cabeça em uma clara desistência em aprofundar-se naquele assunto.
— É uma longa história. Contar-te-ei em momento oportuno. Bem, estou à espera de tua resposta... podes preparar algo que ajude a reanimar um homem desacordado?
— Preciso verificar em minhas anotações. Estou certo, contudo, de que há um meio.
— Não, não quero acordá-lo com água. Faz frio na masmorra, o maldito poderia contrair uma moléstia e morrer antes de me revelar o paradeiro de Camus.
— Não era a esse meio que me referia – O sueco acabou por dar uma risadinha curta. – Irei agora mesmo procurá-lo.
Com uma paciência que nem mesmo ele julgara possuir, Milo aguardou, sentado à janela, munido de um cálice de vinho, enquanto Afrodite consultava alguns manuscritos retirados de uma estante. Ao cabo de um quarto de hora, o jovem exclamou animado:
— Cá está! Eu sabia que estava dentre meus estudos de inverno!
— Deveras? Isso poderá reanimar Shura cada vez que ele estiver prestes a desfalecer? – O conde aproximou-se dele, ansioso.
— Bem, supostamente sim. Mas é como acabaste de dizer: quando ele estiver prestes a desfalecer. Não tenho certeza de que trouxesse um homem da inconsciência. Sempre pode-se experimentar, claro. Embora eu quisesse com todas minhas fibras que isso não fosse necessário.
— Tampouco eu – Bufou Milo, insatisfeito com o que quase chamou de “cantilena”. – No que consiste?
— Um elixir composto com alguns ingredientes de que disponho aqui, outros não, como álcool de quelidônia, bolsa-de-pastor, extrato de hipericão e...
— Poder-se-á adquirir os itens que faltam em algum boticário, por certo?
— Seguramente.
— Anda, vai dizer a Giuseppe do que precisas para confeccionar o tal elixir, pois.
— A... a Giuseppe?!?
O conde estranhou a reação do outro, claramente carregada de incompreensível receio.
— Sim, a Giuseppe.
— N-não podes tu ir ter com ele? Cá estão os ingredientes... – O sueco estendeu-lhe uma parte do pergaminho.
Franzindo as sobrancelhas, Milo demandou:
— Que tens? Pensei que fôsseis amigos. Agora, parece-me que tens medo de dirigir-lhe a palavra.
— Medo, EU? Saibas, ó grande Milo D’Auvergne, que eu não tenho medo de NADA, muito menos de Giuseppe. – Retrucou, cheio de si. Chegou a erguer o queixo e estufar o peito, para surpresa de Milo. – Irei já ter com ele.
— Espera, toma cá o dinheiro para...
— Não preciso de teu dinheiro, acaso pareço ser algum desvalido? Com a tua licença. – E em um volteio altivo, sem dar margem a qualquer réplica do conde, deixou o recinto.
Confuso, o marido de Camus coçou a cabeça ao pensar alto:
— E essa, agora? Que deu nele? Parece até o camareirozinho impertinente de outrora...
*************
Sentia os lábios secos de sede. Seu suor abundante levava de seu maltratado organismo a preciosa água de que tanto necessitava e não possuía ao alcance. Não ousava, contudo, pedir nada para beber. A dor que enchia-lhe o rosto contundido assim o admoestava.
— Vamos! Vamos! Estais vagarosos como lesmas do mar, homens! – Gritava um dos capatazes para os que remavam sem trégua. – Animai-vos, dentro de horas tereis a paga em pão e vinho!
— E um belo cozido de cordeiro com cebolas e mel, não te olvides, ó leal Cassius!
— Cordeiro com cebolas e mel? Crês tu que nosso convés é o grande salão de algum castelo, parvo? – Rebateu Cassius, homem de tamanho descomunal... e de descomunal feiura. De corpulência hercúlea, tinha os olhos esbugalhados como os de um peixe recém-pescado, tez acastanhada e um tufo de cabelos espigados e brancos no alto da cabeçorra. Seus dentes eram estranhamente pontiagudos, e Camus tinha a vívida impressão de que ele mesmo os havia serrilhado a fim de parecer ainda mais intimidante.
— Bom, eu soube que Orfeu voltou para a cozinha, então, podemos esperar algo mais digno que a lavagem que nos tem sido servida desde que ele tornou-se camareiro do capitão. – Comentou um dos marujos que cuidava de esfregar o convés ali perto, com risadinhas de deboche.
— A sério? O empertigado Orfeu, de volta ao borralho? – Riu-se um dos remadores.
— E ele, que estava a se achar superior a todos por seu prestigioso cargo de camareiro particular do capitão. – Zombou outro. – Quem sabe não tenha perdido um pouco daquela empáfia com essa queda!
Gargalhadas estouraram. Camus tentava se concentrar em desviar o foco da sede que sentia para outra coisa, e o assunto que acabara de nascer viera bem a calhar.
Então... Saga realmente depusera Orfeu do cargo que a ele fora proposto. Considerava, por acaso, que o lugar seria ocupado por... por ele?
— Abaixa a voz, Jabu! Se Orfeu te ouve, poderá se vingar colocando purgante em nosso jantar!
— O que tenho comido nos últimos meses não possui efeito lá muito diferente, crede-me!
Eles riram, às caçoadas e imprecações. Camus passou a língua pelos lábios; era como Thor dissera... TODOS conversavam durante o serviço. Por que apenas ELE não podia falar, sob risco de ser punido com severidade?
— Água! – Gritou um dos homens. Outros seguiram-no e pediram também. Um rapazinho passou por entre as fileiras, enchendo com água as escudelas, deixadas debaixo dos bancos de madeira, pelos trabalhadores que queria matar a sede estendidas. Camus apenas lançou um olhar sequioso ao menino. Isaak percebeu e tomou a escudela do ruivo, enchendo-a juntamente com a sua. O nobre mirou-o com nítida alegria. Isaak assentiu. E, em seguida, falou:
— Se quiseres mais, basta que assintas. Palavra alguma precisa sair de tua boca, já bem inchada, aliás.
Camus bebeu com sofreguidão. Assentiu, sinalizando que queria mais. Isaak pediu por ele. O Turenne sentiu-se invadido pelo frescor e pelo alívio, mas também por um sentimento agradável que fez até com que a dor fosse esquecida, ou, pelo menos, melhor suportada.
Perturbado com a cena, de que não passara despercebida a seus olhos sempre atentos, Dohko afastou-se dali. Dirigiu-se até o outro extremo do barco para pensar.
Aquela não fora a primeira vez em que procedera com rigor para com um dos serventes às galés; embora não usassem amiúde a palavra a bordo, tais trabalhadores eram quase como escravos. E escravos não careciam de ser tratados com condescendência. O que diferia, desta vez, era que ele castigara um homem sem que tivesse havido qualquer motivo. Dohko não se importava em usar de brutalidade quando necessário... ocorre que... qual fora, então a necessidade?
Por que Saga dera-lhe a ordem de transformar o trabalho de Laurent “um inferno”? A ocupação já era uma das mais árduas a bordo, e o jovem apenas acabara de assumi-la. Se o desejo de Saga por maltratá-lo fosse pela atitude do novato em resistir ao “batismo” dos veteranos... de que serviram as 24 horas sem comer nem beber na “gaiola”? E por que tirá-lo de lá, se não havia sido punido suficientemente?
“E se fosse por isso, ter-me-ia dito, não?”, pensava, perguntando a si mesmo o que não poderia responder. Bem, de uma coisa ele sabia: não lhe cabia interpelar as razões de seu capitão. Contestá-las, menos ainda.
Assim iam-lhe os pensamentos, enquanto servia-se de um pouco de vinho com especiarias em seu cantil, sempre a tiracolo, defronte ao vasto e esverdeado mar.
— Foste particularmente severo com o novato. – Disse Kanon, sentado à balaustrada, do mesmo modo servindo-se de um cantil. – Estou curioso para saber o que ele fez... DESTA VEZ.
Dohko fez um muxoxo, nada surpreendido pela presença do grego.
— É como todos dizem: nada escapa aos vossos olhos de rapina, Kanon.
— Estamos em um barco, não em uma cidade. Não é como se fosse difícil tudo presenciar e tudo ouvir – Volveu despreocupadamente o moreno.
— De fato. Mas intriga-me que, com tantos ofícios a zelar, lograis de tudo tomar ciência.
— Um desses “tantos ofícios” é justamente zelar pela segurança da Gemini, o que faz-se indissociável de minha acurada observação.
O chinês deu um largo sorriso em concordância.
— Sabes que tive a impressão de que meu irmão se agradou do novato? Creio que tu, caro Dohko, te arriscas em maltratá-lo gratuitamente.
— Como sabeis que foi “gratuitamente”?
— Pensas que os homens não têm boca? Logo espalhou-se que o puniste por haver ele falado com os companheiros durante o serviço.
— Ele devia trabalhar, não matraquear.
— Não é exatamente silêncio monástico que se verifica nas galés. Fala-se, grita-se, canta-se... por vezes, até alguma briga estoura...
— Sim, dei-lhe umas bofetadas. Ora, que são duas ou três bofetadas? É necessário um susto para pôr no lugar novatos empertigados como aquele.
Kanon alisou o queixo, fingindo considerar:
— É... podes estar certo.
— Se eu não estivesse, não teria esses homens sob minha responsabilidade.
— Claro, de pleno acordo... com a tua licença...
Com um último sorriso, Kanon desceu da balaustrada e afastou-se do lugar onde um pensativo Dohko permanecera. Sabia que também o irmão do capitão deixara o local em meio a pensamentos, esses infelizmente fora de seu alcance: “Laurent foi hostilizado sem nada ter feito. Meu irmão dispensou Orfeu do serviço de camareiro particular. Dohko procedeu de modo incomum, punindo em vão um de seus trabalhadores. Eventos singulares que a mim parecem, de maneira nem tão difusa assim, interligados...”, raciocinava o irmão mais novo de Saga, lançando ao ruivo um olhar perscrutador.
Todo e qualquer ocorrido fora do normal carecia de ser devidamente estudado, acondicionado em sua prodigiosa mente, há tempos ocupada em arquitetar aquele plano... aquele projeto. Saboreou seu vinho, sempre observando tudo ao seu redor... e conferindo especial atenção a Laurent.
Vendo o gêmeo do capitão ao longe, Dohko suspirou. Kanon nunca mudava. Desconfiava que o rapaz nunca se recuperara por ter sido preterido por Saga na condução da Gemini. Oras, que queria ele? Por mais que a diferença de idade entre ambos não sobrepujasse meros minutos... Saga era o primogênito. E que Deus os livrasse se não o fosse! Não garantiria o sucesso da embarcação nas mãos do frívolo Kanon... sempre dado a intrigas, tramoias, escândalos... quando estavam em terra firme, quase sempre precisam lidar com confusões causadas por ele... até da cadeia já tiveram que o tirar, certa vez!
Decididamente, a ordem de Saga, por mais estranha que fosse, não poderia ser revelada nem mesmo a Kanon. Analisando-lhe bem o perfil... principalmente a ele!
“Uma ordem de Saga é, para mim, como uma ordem de Deus. Ainda que eu tenha dó do tal Laurent, lá isso eu tenho...”, pensou, antes de voltar ao seu posto.
Ainda faltava muito para o dia teminar. O que queria dizer que teria de molestar o novato... era sua missão, afinal. Gostasse dela ou não.
*************
Afrodite desejaria do fundo de seu coração que Milo tivesse pedido somente uma lista por escrito do que precisaria mandar Giuseppe comprar. Bem, Milo não sairia tão cedo daquela masmorra. Logo, a ele cabia ir ter com o artífice-mestre para confiar-lhe a tarefa ditada pelo Conde de Saint-Doulchard.
Algo incomodava-o sobremaneira em ter de encontrar com Giuseppe logo após a última conversa entre eles travada...
“Conversa, pois sim. Eu GRITEI com ele.”, e só de se lembrar teve palpitações de ansiedade. Não obstante, percorreu, incontinenti, o solar, em busca do toscano.
Foi encontrá-lo na parte externa da edificação; Giuseppe estava a cuidar de seu cavalo, amarrado a um pessegueiro. Com o coração saltando como lebres selvagens, o sueco caminhou até ali, miríades de palavras a planar por sobre suas ideias: buscava, arduamente, a melhor maneira de iniciar uma conversa com o artífice-mestre.
— Com a tua licença, Giuseppe...
O toscano, que já havia percebido a aproximação do rapaz, apenas lançou-lhe um breve olhar vazio. Afrodite esperou que ele falasse algo, mas Giuseppe permaneceu quieto, à espera do que iria ouvir. Engoliu em seco e optou por anunciar, simplesmente:
— Trago uma ordem do Conde de Saint-Doulchard para ti.
— Uma ordem para mim? – Quis certificar-se.
— Sim. Deves procurar alguns produtos que cá estão nesta lista. – Entregou-lhe uma tira do pergaminho, desconfortável. Em seguida, deu-lhe algumas moedas de prata. – Eis o dinheiro.
Meneando a cabeça servilmente, Giuseppe colheu na palma as frias moedas. Enfiou-as na algibeira que trazia atravessada à túnica marrom clara.
— Pois bem. Pelo que vejo, são itens de boticário. Vi alguns no caminho. Sei aonde ir. – Comentou, em tom neutro.
— Eu agradeceria se fosses rápido em tua empreitada.
— Tão logo obtenha tudo, retornarei prontamente. Com a tua licença. – E, de imediato, deu as costas para Afrodite, estupefato por aquele tratamento tão distante.
Ora, com o que se surpreendia? Havia ele de esperar atitude diferente de Giuseppe? Apertou a mão ao peito vendo-o se afastar, rumo ao portão que se elevava ao fim da alameda bem cuidada e florida. Não conseguiu refrear a boca:
— Giuseppe, espera!
O toscano deteve-se. Teria Afrodite esquecido de algum item? O loiro andou com presteza até ele. Parou diante de Giuseppe, ainda incerto de como o dizer.
— Queiras desculpar-me por minha... manifestação destemperada para contigo, agora há pouco. – Soltou, em voz baixa, envergonhada.
— Agora...?
— Ah! Não “agora”; na escada... quando eu me dirigia à... – Calou-se, constrangido.
O jovem de cabelos prateados não deu mostras de àquela lembrança fazer caso.
— Não compreendo por que haverias tu de pedir desculpas à minha humilde pessoa. Procedi com impertinência ao impedir-te, conquanto involuntariamente, de seguir teu caminho.
Sacudindo a cabeça em uma negativa, o ex-camareiro insistiu:
— O errado fui EU. O impertinente fui EU. Permite que eu te peça perdão com propriedade.
A dureza no olhar cinzento do toscano arrefeceu um pouco. Desviou-o para pontuar:
— Tinhas pressa porque estavas preocupado com o Marquês de Aguilar. É compreensível.
— Como pode ser “compreensível” se ele está em falta com o conde, se ele me pôs na prisão...?
— É compreensível porque, apesar de todos seus feitos condenáveis, tu ainda o tens em alta conta.
— Não era apenas por isso – Quase mordeu a língua ao se dar conta de que confirmava a suposição de Giuseppe. – Eu... tinha pouco tempo para... para fazer uma certa tentativa.
— E lograste teu intento?
Os olhos claros como o mais alto ponto do céu baixaram até encontrarem o piso em granito marfim.
— Não.
— Shura não ouviu a ti... e agora o senhor Milo o tortura.
Sob visível estremecimento, o sueco balbuciou:
— És tão perspicaz que me pergunto o quanto da situação presente já não inferiste.
Por uns instantes, a expressão de Giuseppe tornou-se enigmática. Por muito que o tentasse, Afrodite não podia desvendá-la... e muito temia que algumas de suas suspeitas fizessem parte de uma realidade indesejada.
— Há algo que, por muito que tente, não sou capaz de inferir. Temo, contudo, ser indiscreto em revelá-lo. – Admitiu o toscano; Afrodite poderia jurar que paralisava ante seu olhar.
— N-nada temas... somos amigos, ainda... não somos?
Ao invés de responder, Giuseppe seguiu em seu intento:
— Como foi que feriste teu rosto?
Por puro instinto, Afrodite levou a mão até a face marcada. Desejou ardentemente que um raio o fuzilasse.
— Feri-me em Saint-Doulchard... no bosque... quando estava a colher plantas e frutos para... meu uso. Para minha senhora... meu senhor...
— Compreendo. Não que te afete a formosura, apenas não me recordava de que a tivesses quando da última vez que nos vimos, no castelo de Saint-Doulchard.
O sueco sentiu que corava. Lentamente, retirou da cicatriz a palma gelada.
— Com a tua licença – Mais uma vez o artífice-mestre pediu, e desta não foi impedido.
A mão de Afrodite retornou ao peito, enquanto ele via o toscano se afastar. Sobre o fino tecido de sua túnica violeta, seus dedos se fecharam com força.
“Camus... tenho que pensar antes em Camus! Para o inferno minhas insignificantes conjecturas... para o inferno meu insignificante coração!”, pensava, repleto de raiva de si mesmo. E, súbito, de raiva de Shura.
“Faz-te irredutível, ó orgulhoso amado meu... não vês o quanto fazes Milo sofrer? Não só pela perda do amado, como também por ter ele de torturar aquele que lhe salvou um dia? O quanto fazes A MIM sofrer, em ver o sofrimento de Milo, em desconhecer o paradeiro de Camus, em saber que TU padeces indizíveis suplícios nos subterrâneos desta ensolarada habitação? O quão mais prosseguirás com tua tola convicção?”, clamava em pensamentos, uma dor fina a trespassar-lhe o peito.
Ergueu os olhos úmidos para o céu, cujas esparsas nuvens cingiam-se das nuances purpúreas do vindouro ocaso.
“Camus... onde estás? Por favor, Shura… por ele… por Milo… por mim… por TI mesmo… REVELA-NOS!”, clamou em seu espírito, as lágrimas brilhantes enfim em queda pelo belo e atormentado rosto.
*************
O anil que se insinuara no topo do firmamento pôs-se a derramar-se rumo ao horizonte áureo. Dohko bradou:
—Muito bem, homens, findo é vosso dia de labuta!
Camus olhou de soslaio para Isaak, que imediatamente largara os remos. O adolescente olhou-o de volta e sorriu-lhe ao afirmar:
— Nosso trabalho acabou por hoje. Podes parar de remar.
— QUEM PERMITIU QUE ABRISSES A BOCA, LAURENT? – Berrou o chinês, já indo na direção do estupefato ruivo. Em um impulso, Isaak pôs-se na frente do novo amigo.
— Bateste a cabeça em algum mastro e te tornaste desmemoriado? Não reconheces mais a minha voz? – Bradou, e todos os marujos olharam para ele, “Laurent” e Dohko.
— Oras... claro que reconheço tua voz, menino insolente...
— Então por que avançavas no novato? – Inquiriu Jabu, erguendo uma sobrancelha e cruzando os braços morenos.
Consciente de que atraíra a atenção dos remadores de uma forma nada confortável, Dohko estalou a língua. Achou por bem argumentar:
—Vossas vozes assemelham-se, como grasnar de avezinhas ordinárias a pedir restos aos viajantes que singram os vastos mares. Foi apenas isso.
— De qualquer modo, nosso trabalho por hoje acabou. Disseste que não querias que Laurent falasse durante o serviço. Conquanto tivesse sido ELE a falar, não terias razão para que o punisses. – O adolescente rebateu corajosamente, alheio ao olhar intenso de Camus, que, em aflito silêncio, pedia que se calasse.
Dohko estreitou os olhos escuros, atitude meramente teatral: sabia que o rapaz estava com a razão. No entanto, era mister que se fizesse ameaçador... perderia o respeito... e, sob tantos olhares de reprovação, urgia que o mantivesse...
— Dobra essa tua língua, pequeno... – Retirou do cinto o chicote. – não te esqueças que te diriges a Dohko de...
Em um gesto brusco e inesperado, Camus interpôs-se entre o jovem norueguês e o capataz. Os homens ao redor suspenderam as respirações. Malgrado aquele ruivo permanecesse em silêncio, quanto diziam aqueles olhos quase da cor do poente que os engolfava!
— L-Laurent – Murmurou Isaak, temeroso de que o novato se engalfinhasse com Dohko. Que tolice! Sabia lidar com o chinês, conhecia-o há anos, ao passo que ele, Laurent... estava óbvio que não caíra nas graças do capataz. O motivo, desconhecia... ainda.
Atentos e imersos na expectativa de uma luta, os que serviam às galés e os demais trabalhadores que estavam no convés observavam o mudo embate entre o novato e o braço direito do capitão. Após fazer uma careta de desprezo, Dohko cuspiu no chão, quase nos pés de Camus. Anunciou, dando-lhe as costas:
— Muito bem, homens, dispensados sois! Comei, bebei, lembrai-vos, porém, parcimônia! Vosso dia, como sempre, inicia-se quando a aurora cospe nos confins do mar o nosso amigo sol!
E retirou-se daquele tenso ambiente. Alguns marujos fizeram muxoxo, outros pareceram relaxar, outros trocavam tapinhas nos ombros e costas. Camus teve a impressão de receber alguns olhares de simpatia. Claro, poderia ser mera impressão. Sentiu os braços agarrados: Isaak o virava para si.
— Detém-te de enfrentar a tudo e a todos, ou vais acabar com outros ferimentos além desses! Com mil diabos, precisamos tratar logo dessa tua cara, parece que tenho diante de mim um baiacu vermelho que escapou da rede.
— Não te preocupes, estou bem. – Camus não queria admitir, mas achou graça.
— Sim, sim, estás sempre bem – Isaak torceu a boca para baixo, imitando a voz de Camus de forma jocosa.
O nobre não aguentou mais e riu: logo se arrependeu, doeu como o inferno. Levou a mão à face horrivelmente dolorida. Sua maior preocupação era o nariz, temia que Dohko o tivesse quebrado.
— Isto não é nada – Insistiu o ruivo, em uma heroica tentativa de manter o sorriso.
— Novato. – Uma voz profunda o chamou.
Surpresos, Camus e Isaak viram o enorme Thor diante deles. Em um reflexo oriundo de suas recentes experiências, Camus quase deu um passo para trás. Deteve-se ao ver que o homenzarrão brandia-lhes uma pequena tina de madeira com um pano imerso em água.
— Água e sal. Aperta bem o pano contra as áreas contundidas. Evitará inchaço e infecção.
Hesitante, o ruivo aceitou o oferecimento. O grandalhão acrescentou, sempre sério:
— Para a dor, hás de contar tão somente com a bebida. Mas sugiro que forres antes esse teu corpo magro com um pouco de pão, ou hás de desabar tal qual uma gaivota abatida.
— Muito obrigado. – Agradeceu o aristocrata, com uma respeitosa mesura. O outro soltou um indecifrável grunhido e os deixou, sem mais nada proferir.
Vendo-o se afastar, Isaak tirou a pequena bacia das mãos de Camus e comentou, com um sorriso:
— Thor é grande como um urso, e quase tão forte como um, mas, a despeito dessa sua aparência amedrontadora, detesta injustiças. Creio que ganhaste outro amigo aqui.
— “Outro amigo”. Quem é o primeiro?
Recebeu no braço um pequeno soco do menor, entre risos.
— Ora, cala-te, ou far-te-ei engolir isto aqui!
— Eu dispenso, há de estragar-me o apetite para o jantar.
— Vês, já deliras, tu, tão sisudo, a proferir chistes! Vem cá, vou apertar este pano em teu rosto com muito prazer...
— AHH! Isaak, machuca-me mais que as bordoadas de Dohko!
Foi servida, então, a última refeição do dia, um cozido de peixe com cenouras, beterrabas e aveia. Malgrado estivessem famintos, esperavam muito mais pela distribuição do vinho.
Sentado no rústico convés, diante de uma ordinária escudela de um alimento ainda mais ordinário, Camus sentiu-se aquecido pela comida fumegante e pela bebida, muitíssimo bem vinda, ainda que não tivesse a qualidade dos vinhos aos quais estava acostumado... a princípio, desceu-lhe rascante e quase desagradável. A partir da terceira caneca, porém, a bebida tornou-se macia, acalentadora.
Lembrava-se das noites em seus aposentos no castelo de Saint-Doulchard, quando sorvia os mais finos e deliciosos vinhos, contemplando o rosto de seu amado, iluminado pelo fogo da lareira... então Milo sorria-lhe e o estreitava junto a si, em meio à paz e ao calor do ambiente, do amor que partilhavam e de seus corpos, que logo buscavam a unidade beatífica do sentimento que os ligava como um só ser...
— Uma moeda por teus pensamentos... se eu a possuísse. – Brincou Isaak, defronte à sua reflexiva figura.
Incapaz de revelá-los, o ruivo limitou-se a sorrir, em meio aos vapores iniciais do álcool.
— Decerto pensas no que houve hoje.
— Não, garanto-te que não. – Não mentia. Sorveu um novo e generoso gole.
— Juro por Deus que não compreendo a atitude de Dohko para contigo! Não que ele não seja duro para conosco, às vezes, mas foi a primeira vez que o vi agir dessa forma sem que nada tivesse...
— Isaak – Interrompeu-o com delicadeza. – Esquece-te disso. Come. Bebe. Descansa o corpo e o pensamento. Pois que estou a fazer o mesmo. – E recostou-se na estrutura de madeira, rosto plácido, sereno, na direção das misteriosas alturas.
O adolescente dirigiu-lhe um olhar admirado. Em seguida, sorriu com brandura. Tomou a caneca na mão conforme sugeria-lhe o novo amigo.
— És um homem singular, Laurent. Regozijo-me por haver conhecido-te.
Um homem.
Um HOMEM singular.
Ele.
Camus.
Por um momento, o tempo pareceu parar para o nobre.
“Eu sou um HOMEM.”, saboreou o pensamento.
Despojado de seu título de nobreza.
Despojado de poder.
Despojado de riquezas.
Despojado de todo luxo e privilégios.
Despojado até mesmo de seu maior bem, seu amado... ele sentia... sentia como se tivesse encontrado o seu EU.
Ou talvez... um outro “eu”. quem sabe... o verdadeiro?
Um “eu” extirpado da Terra havia tantos anos. O que deveria TER SIDO.
Bem, era Laurent.
Um cativo.
Praticamente um escravo.
Despojado de tudo... entretanto, de posse do que REALMENTE era.
Um HOMEM.
— Um homem... – Murmurou, como que em transe, os lábios formigando com a bebida barata.
— Hum? Disseste alguma coisa? – A cantoria recém-iniciada pelos marujos no convés abafava os ouvidos de Isaak.
— Eu sou um homem. – Disse Camus, com um sorriso; fizera questão de encarar Isaak para fazer aquela afirmação. E volveu os olhos igualmente risonhos para a imensidão do céu pontilhado de estrelas.
O adolescente julgou-o às portas da ebriedade. Rindo, deu de ombros e tornou a olhar, divertido, para os companheiros que efetuavam uma dança cômica e trôpega, ao som de canções desafinadas e uns poucos instrumentos pessimamente tocados.
A Gemini agora avançava lentamente pelo oceano tragado pela escuridão da noite, felizmente de céu límpido e calmo como as vagas sobre as quais tantas vidas deslizavam...
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