Dame Jolie
51 Na Toca do Lobo
Notas iniciais
Somente a extrema fadiga possibilitara a Camus desfrutar do sono. Ainda que este, no final das contas, no decorrer do dia, mostrar-se-ia nada reparador. Afinal, não dispunha de instalações minimamente decentes para dormir: os trabalhadores que desempenhavam as funções menos prestigiadas da “Gemini” – categoria à qual o desafortunado nobre agora pertencia – dormiam nos porões da embarcação, em compartimentos úmidos e escuros. A ausência de luz não era a única desvantagem trazida pela falta de escotilhas nos miseráveis cômodos: eram por isso, também, bem abafados. A situação piorava com o número de homens amontoados pelos catres, cujos leitos de beliches não raro abrigavam dois marujos. A esses desconfortos, somava-se a higiene precária do local: banhos praticamente inexistiam, bem como demais abluções. Camus soube que quando chovia suficientemente forte para provocar um respeitável aguaceiro, mas não tão forte para encrespar demasiado o mar, o capitão Saga ordenava que os homens se limpassem na chuva, dando-lhes mesmo sabões de sebo animal. Fazia uma semana que Camus vivia a bordo da Gemini, e mal podia esperar por uma dessas chuvas. Saga tomava tais providências unicamente por sua louvável consciência de líder, os homens, porém, em sua grande maioria, não pareciam dar muita importância àquela imundície.
Para desânimo do ruivo, o tempo insistia em manter-se firme, ensolarado como seria de se esperar de um verão mediterrâneo.
E detestavelmente quente.
Conquanto imaginasse que o frio pudesse ser mais cruel para seres que vivessem em tão terríveis condições, molestava-o que os dias seguissem claros e quentes daquele jeito. Permanecer sujo daquele jeito convertia-se em verdadeiro suplício. Temendo vivamente pegar piolhos, passara a enrolar os cabelos e cobri-los com uma touca de pano que ele mesmo confeccionara, após obter a matéria-prima de Thor – era o pano deixado pelo escandinavo na tina com água e sal ofertada a ele para tratar os machucados causados por Dohko. Conseguira trocar um pão por um pouco de vinagre, o qual aplicara nos cabelos para salvá-los dos horríveis parasitos.
Toda essa descrição do ambiente insalubre a bordo é para enfatizar o quão auxiliadores do bom sono tornavam-se o trabalho exaustivo e as canecas de vinho servidas no jantar. Camus sabia que os trabalhadores de níveis superiores ao dos remadores dormiam em compartimentos similares, porém menos abarrotados. Alguns outros, de categorias mais elevadas ainda, improvisavam barracas forradas por mantas e tecidos variados no próprio convés do navio, livres do abafamento, das pragas e do fedor inominável reinante nos porões.
Camus não sabia se era tudo isso que lhe varrera das noites as graças oníricas que podiam levá-lo ao seu amado Milo D’Auvergne, ao menos em sonho.
Sim, ele simplesmente deixara de sonhar com todas as venturas de sua vida pré-Gemini.
Aquilo o entristecia deveras.
Nos primeiros dois ou três dias, ainda era agraciado com as visões da saudosa Borgonha, dos vastos campos floridos por onde passeava com suas irmãs, dos bosques frondosos onde treinava com seu pai, das montanhas banhadas pelo sol que admirava da janela de seu quarto em Saint-Doulchard, quando Milo o cingia por trás, tragando-o de volta ao enorme leito desfeito e perfumado...
Agora, somente as trevas de um sono sem sonhos, sem visões, sem lembranças.
Seria assim para sempre?
Tratar-se-ia de uma dádiva de alguma esquecida divindade oceânica para com aqueles que, para sempre, seriam seus prisioneiros?
Por mais de uma vez, tencionou perguntar a Isaak, que dividia a cama com ele, se costumava ter sonhos (ao menos, nunca o escutara falar durante o sono ou mesmo sentira-o se mexer). Desistia, contudo, receoso de que sua pergunta viesse a suscitar questionamentos que o nobre não queria nem poderia responder.
E assim estava sendo atravessada aquela sétima noite de Camus em alto-mar: escura e sem sonhos. Por isso, quando o ruivo sentiu a mão insinuante sob sua ordinária camisa, soube imediatamente que NÃO era nenhum sonho. O instinto fê-lo abrir os olhos, por mais inútil que se revelasse tal medida na obscuridade. Sua boca foi prontamente coberta por uma áspera e gigantesca mão. Tentou reagir se debatendo, mas foi contido, e, a seu ver, por MAIS de um homem.
Sentiu que o tiravam do beliche, apertando-o com força o bastante para imobilizá-lo. Emitiu um grunhido desesperado através da palma que o calava. Percebeu que era levado para o outro lado do dormitório.
Deitaram-no no chão ao mesmo tempo em que abafavam torpes risadinhas. A mão que lhe cobria a boca foi substituída por trapos ali enfiados grosseiramente. Uma súbita ânsia de vômito acometeu o nobre; fez grande esforço para não ceder, caso contrário, morreria sufocado. Continuou a grunhir, incessantemente. Línguas estranhas, abjetas, passearam-lhe pelo rosto, pelo nariz, queixo, pelo pescoço. Ergueram sua vestimenta superior, apalpando-o sem o menor cuidado no ventre, no peito, apertando-lhe dolorosamente os mamilos. Por mais que quisesse se debater, pouco conseguia, de fato, tamanha a força com que aqueles corpos o continham. Teve as pernas afastadas e seguradas por mãos e braços potentes como toras.
Talvez fossem TRÊS homens.
Ninguém o salvaria.
Ninguém se metia em atos daquela espécie, Camus já se encontrava a par da realidade das embarcações da época. Sem mulheres a bordo, atos como aquele não se faziam raros, tampouco condenáveis, de fato. Imperava a lei do silêncio.
O aristocrata sentiu o coração gelar quando uma pressão nada gentil se fez entre suas pernas.
“Deus meu, hei de ser violado!”, gritava, horrorizado, em pensamento.
A mão que se enganchara firmemente em sua masculinidade agora forçava-lhe para baixo o cós da calça. Ao mesmo tempo, todo seu corpo era aviltado por toques hediondos, intrusos.
Julgava-se irremediavelmente perdido, quando os homens gritaram de repente, um grito perdido entre susto, nojo e horror. E então o fedor intensificou-se de forma quase palpável, um verdadeiro murro no olfato de todos.
— AAAAAAHHHH! – Berrou um, coberto de excremento humano, justamente o que tentava despir Camus. Ergueu-se em um pulo, correndo apavorado para longe dali, caindo várias vezes durante a fuga, pois que algo fazia-o escorregar.
Duas ou mais pessoas ergueram velas para iluminar um pouco o centro da confusão.
— MALDIÇÃO! COM MIL DEMÔNIOS! Quem... AAAH, seu maldito!!! – Gritou outro, o que cobrira a boca do ruivo. Pôs-se de pé, pulando de ira.
O próprio Camus, coitado, não escapou muito da repugnante ablução. Mas quem...
— ISAAK! Estás louco, seu pedaço de asno... aargh! Argh! – Resmungava o terceiro, tentando tirar de si fezes espessas e escorregadias.
Aterrado, Camus distinguiu a figura de seu jovem amigo. Segurava um grande balde de madeira, destinado às necessidades dos que não conseguiam chegar a tempo ao convés, para se aliviarem no costado do barco.
— Sois uns porcos, somente vos dei o que merecíeis! – Devolveu Isaak, em voz alta, a conseguir a atenção dos que ainda estavam a despertar com o escândalo.
— Isaak – Balbuciou o nobre, quase em estado de choque.
— Que diabos tens com isto, pequeno sacripanta dos infernos? Acaso és ama-seca do novato, agora?
— É como dizes, ele é um “novato”. Possuís a vosso dispor muitos outros aqui que não haveriam de se importar de vos satisfazer, seja por gosto ou por negócios – O adolescente retrucou, com um sorriso atrevido no rosto. – Deixai-o em paz, cobardes!
— Sorte tua que és um desprezível graveto, calhorda, pois que torna-te-ias uma opção neste instante – Resmungou o remanescente, os outros dois já haviam irrompido porta afora. – Isto não há de ficar sem resposta!
E tratou de empreender sua própria fuga, em meio a escorregões aqui e ali.
Isaak virou-se para um aturdido Camus.
— Perdão, Laurent, não havia outro meio mais eficaz de tirar os abutres de cima de ti. Como podes supor, eu não seria páreo para lutar com três varões!
— Por muito que eu deseje te agradecer, meu estado faz-me hesitar: estou COBERTO DE FEZES!
— Preferias estar coberto de sêmen?
— Eu preferia – Disse alguém, ao que seguiram-se gargalhadas.
— Tratai de limpar essa imundície, já não bastava o fino odor exalado por estes cavalheiros aqui presentes! – Berrou outro, o tom menos amistoso.
— Argh... uhn... n-não, claro que não... – Só então Camus conseguiu responder ao seu salvador. Tinha vontade de correr ao convés e atirar-se ao mar.
Isaak ajudou-o a levantar, ele mesmo com uma careta devido à fedentina atroz.
— Vem, ajuda-me a limpar isto, antes que sejamos atirados ao mar.
— Eu estava justamente a cogitar tal providência...
— Qual, deixa-te de ideias, Laurent.
— Preciso limpar-me antes, Isaak! – A voz lamentosa de Camus apenas inflamou ainda mais as risadas que sacudiam o ambiente.
Bom, se ele não tinha mais sonhos durante o sono, agora estava certo de viver um horrível pesadelo acordado.
Uma voz furiosa elevou-se acima da hilaridade geral:
— Com mil demônios, o sol ainda tarda a raiar, estais a nos subtrair preciosas horas de repouso, cães!
— És mesmo um bravo, se logras dormir com a fedentina infernal que se instalou em nosso aprazível castelo – Chasqueou alguém, quase engasgado com o próprio riso.
— Como se houvesse mudado grande coisa – Respondeu o iracundo sonolento.
Isaak puxou Camus pela mão. Insistiu, impaciente:
— Anda, tens de me ajudar, foi por tua causa que fiz esta sujeira aqui!
Vencido, o nobre aquiesceu. Providenciaram água, esfregões, areia e puseram-se a limpar, do jeito que podiam, o assoalho sobre o qual Camus fora subjugado de uma maneira que, no momento, ele não queria pensar.
A alvorada se aproximava quando os dois terminaram a limpeza. O dormitório mergulhara novamente no silêncio.
— Será que agora posso limpar A MIM? – Murmurou Camus, tão cansado que mal deixava transparecer o completo horror por estar daquele jeito.
— Bem, não sobrou nem uma gota d’água... teremos de ir novamente arrumar na cozinha.
— Deixa, irei sozinho, não te preocupes. Já fizeste bastante, e eu nem ao menos agradeci tua mui oportuna intervenção.
— Se já houver gente lá a preparar o desjejum, serás expulso como um rato. És a própria latrina, meu amigo.
Sem qualquer vontade, o ruivo riu fracamente.
— Neste caso, arranjas-me tu o balde com água e eu o carrego para onde possa limpar-me.
De fato, já havia homens a trabalhar na cozinha. Dentre eles, Orfeu, que, naquela semana, retornara ao seu antigo ofício. Tudo devido à chegada de um inconveniente condenado, que angariara de imediato a atenção de seu outrora protetor, o capitão Saga... logo, não foi nada surpreendente sua reação ante o pedido de Isaak e a visão de Camus encolhido no batente da porta: gargalhou sonoramente, a ponto de verter lágrimas. Foi com gosto que conclamou aos seus companheiros que não atendessem o atônito adolescente.
— Por favor, imploro-vos, o coitado não pode ficar imundo do jeito que está! – Isaak uniu as mãos em súplica.
— Acaso foi algum de nós aqui que provocou tal situação? És o único culpado por Laurent ser, agora, um penico ambulante – Retrucou Orfeu, o que provocou risos entre os companheiros de trabalho. Da porta, Camus limitou-se a ouvir as zombarias de Orfeu. Este cravou no ruivo um olhar sarcástico ao acrescentar: – Ou melhor, não és o único culpado, Isaak. Teu amigo há de ter provocado os poltrões que julgas patifes. Afinal, já obtive provas de que SEDUZIR outros homens é um talento peculiar que o “criado traidor da confiança” de um gentil-homem ali detém...
Sem entender-lhe as palavras, o adolescente virou-se para Camus, amuado, e em seguida, para seu interlocutor mordaz.
— Basta, Orfeu! Não és dono da água da Gemini, por Deus!
— Que ele espere pela próxima chuva. E que Deus tenha piedade dos narizes dos que tiverem de remar a seu lado. – Riu, com deboche ferino. – Decerto Dohko tornar-se-á ainda mais severo com esse infeliz do que o vem sendo...
— O que é toda esta balbúrdia?
Todos os risos, vozes e gracejos morreram ante a indagação imperiosa de Kanon. Reconheciam-no pelas vestes, mais sóbrias que as do capitão, afeito a certos luxos. Ademais, àquela hora, Saga ainda dormia em seu camarote, ao passo que o irmão, principal encarregado da segurança no navio, desperto se fazia ao menor barulho incomum na embarcação.
— S-senhor Kanon, esses insolentes exigem que nós lhe entreguemos um balde de água para... para... o senhor há de ver por si mesmo! – Orfeu apontou para Camus, na extrema direção oposta à portinhola pela qual Kanon surgira. O grego ergueu as sobrancelhas divertido.
— Ora, Laurent, não lograste segurar-te até chegar à latrina ou à borda do navio? – Perguntou.
Todos voltaram a rir, e Camus apenas ruborizou, a humilhação como ferroadas na face. Isaak rapidamente explicou o ocorrido ao recém-chegado. Assentindo com ar pensativo, Kanon tornou a olhar Orfeu. Este deu de ombros ao argumentar:
— A água que temos ali nos barris destina-se à cozinha e à limpeza do barco. Não podemos gastá-la por causa dos infortúnios de quem sequer pode cuidar de si mesmo.
Camus cerrou os punhos, a ponto de finalmente explodir com o ex-camareiro de Saga. Tal não chegou a ocorrer, pois que o gêmeo do capitão deu seu parecer, em tom equilibrado de quem fora daquele insólito impasse feito juiz:
— Já que Laurent não pode dispor da água destas instalações, levá-lo-ei à cabine de Saga: meu irmão não se furtará a permitir que ele se banhe em seus aposentos. – Ante os olhares esgazeados de Camus e Orfeu, deu uma risadinha ao concluir: – Creio mesmo que meu benevolente irmão há de querer ajudar Laurent a se limpar.
O rubor de Camus intensificou-se. Antes que proferisse qualquer coisa, Orfeu cedeu passagem a Isaak.
— Anda, pega logo a tua água. – Rosnou, contrafeito. – Aliás, leva mais de um balde, apenas um não dará conta de tal imundície.
— Impressiona-me como mudaste rapidamente de ideia, Orfeu. Tornaste-te generoso, até. – Ironizou Kanon. E a Camus e Isaak exortou: – Fazei o que tendes de fazer sem demora, pois que logo o dia há de raiar. Ide para o convés, o cheiro há de se dissipar com mais facilidade.
Assim fizeram; o céu apenas começara a clarear, mas o dia já dava mostras de que seria, como os anteriores, quente e ensolarado. Sem qualquer constrangimento, Camus tirou de si as roupas emporcalhadas. Permitiu que Isaak o ajudasse a lavar os cabelos e a esfregar-lhe as costas. A despeito dos arrepios semeados pelo vento frio da aurora, o nobre friccionava furiosamente na pele o sabão por Isaak surrupiado da cozinha.
— Querias tanto um banho, estiveste a falar disso por todos estes dias – Brincou o rapaz. – eis que lograste, enfim, teu intento!
— Paguei um preço assaz elevado, contudo... Isaak, obrigado por me salvar daqueles homens.
— Se eu não estivesse dormindo ao teu lado, não teria de ti dado falta. Escutei-te os grunhidos e imaginei o que estava a suceder-te. A única saída que me ocorreu foi virar a caixa de excrementos naqueles patifes. Não tenho força nem tamanho para enfrentar nem mesmo um daqueles marujos, quanto mais três.
— Eu sei, caro amigo, agora compreendo. Perdoa-me a reação exacerbada. Agradeço-te do fundo de meu coração. – Virou-se para o adolescente. – Por que não aproveitas e te banhas também?
— E-eu? – A tez do norueguês tornou-se carmim. – N-não dispomos de tanta água assim. Além do quê, não preciso de banho no momento como tu precisavas.
— Qual, há água suficiente para que ambos fiquemos, ao menos, mais asseados. Anda, despe-te.
— ...!
— Como não precisas de banho, ora, respingou um tanto de dejetos em ti... anda, sejas higiênico, meu amigo, não me envergonhes. – Riu Camus, a encorajar o menino.
Relutante, Isaak despiu-se também. Camus retribuiu-lhe o favor fazendo o mesmo: lavara-lhe os cabelos e esfregara-lhe as costas com o pano e o sabão.
Ao ouvirem a sineta para despertar a tripulação, deram o banho por encerrado. Como não possuíam outras roupas, foram obrigados a vestir as mesmas que usavam, precariamente lavadas com a mesma água do banho. Não era agradável vestir roupas molhadas, e não higienizadas com a devida propriedade, mas era tudo que podiam fazer. Por sorte, não estava tão frio, e o calor que certamente faria em algumas horas cuidaria de secá-las.
Pouco a pouco, o espaço antes desocupado do convés ia sendo preenchido pelos marujos prontos para se submeterem a mais um dia de labuta. Momentos depois, começaram a ser servidos pelos homens da cozinha e alguns ajudantes, que viravam em escudelas de madeira um caldo ralo chamado de mingau e as entregavam aos homens juntamente com um pedaço de pão. A despeito da fome que sentia, Camus não se permitiu animar muito, pois que esperava que acontecesse o mesmo que vinha lhe acontecendo nos últimos três dias...
— Por que Laurent recebeu menos mingau que eu e os outros, DE NOVO? – Isaak inquiriu a Jamian, que entregara-lhes o alimento.
— Por que não cuidas da TUA própria refeição, antes que fique sem ela, por me molestar? – Rebateu Jamian, com uma careta grotesca de desdém.
— Nem ao menos lhe deste pão!
— Deixa, Isaak, está tudo bem. – Interveio Camus, tranquilo.
— Vês? Ele se satisfaz com o que lhe damos. Apenas tu estás de melindres.
Quando Jamian preparava-se para se retirar, escutou Isaak dizer a Camus:
— Eu divido meu pão contigo...
— Atreve-te a tal, e retiro-o de ti! Não apenas o pão, como também a escudela de mingau!
Isaak olhou-o, estupefato.
— Por que estão a diminuir as rações de Laurent? Que fez ele de mal? Afinal, isso há de ser alguma punição, só não foi revelada a razão – Demandou, com grande esforço para não se alterar.
— Sabes muito bem que as quantidades de comida são meticulosamente calculadas. Esse homem quase não tem carnes, olha! Não precisa comer tanto quanto um homem forte como eu. – E ergueu o braço lívido e magro para o alto. – Ademais, Dohko relatou-nos que Laurent faz muito corpo mole nos remos.
— Isso não é verdade! Dohko é que tem sido muito rígido para com Laurent, e apenas para com ele, e...
O nobre ergueu a mão entre o adolescente e o renitente marujo.
— Isaak. Já chega. – Ordenou, resignado. – Daqui a pouco temos que assumir nosso posto nas galés. Come, tão somente.
— Escuta-o, ao menos um pouco de sensatez esse peralvilho detém. – E Jamian retirou-se por fim, rindo-se com o escárnio final.
Após um profundo suspiro, Isaak comentou:
— Eu não sei o que está a se suceder. Em geral, novatos realmente recebem um tratamento mais duro por parte da tripulação. Mas há algo DIFERENTE direcionado à tua pessoa.
Compungido, olhava de soslaio para as marcas da evidente perseguição de Dohko no corpo do ruivo: este ostentava hematomas pelos braços, rosto e pernas – ele dobrara as calças até a altura das panturrilhas, à maneira dos demais trabalhadores do mar.
— Não te atormentes, meu amigo. É como disseste: novatos recebem tratamento mais rígido. É somente questão de tempo. – Desconversou Camus, evitando olhar o jovem, como a não dar tanta importância àquelas ponderações.
— Espero que sim. Também eu passei por algumas provações, mas... nada como tu.
— Ora, quando nos conhecemos, disseste-me que recebeste uma surra em teu primeiro dia aqui, a ponto de perderes os sentidos.
— Ah, mas aquilo foi porque insurgi-me contra o “batismo” dos novatos. – O adolescente deu de ombros.
— Também eu assim procedi e, no entanto, fui poupado da violência que sofreste.
— Isso porque o capitão Saga interveio e livrou-te, encerrando-te na “gaiola”. Entendo que ficar ali por um dia e uma noite sem comer nem beber deva ser desagradável, mas assaz melhor que ser moído de pancadas, não?
— Sim, claro. Como disseste, graças à intervenção do capitão Saga – Murmurou Camus, estreitando o olhar ao encontrar a figura daquele sobre o qual falavam.
Lembrava-se da oferta do capitão.
De seu olhar cobiçoso.
Teve um breve sobressalto ao perceber que o grego interceptara seu olhar. Estremeceu de tal forma que teve medo de que Isaak percebesse.
— Tens certeza de que não queres um pedaço do meu pão? Dar-te-ei sem que ninguém o perceba...
— Poupa-te de desnecessárias represálias, Isaak. SEMPRE há olhos atentos sobre nós. – Respondeu, sustentando com bravura a mirada interceptada: Saga e ele se encararam por longos segundos, até que a atenção do capitão foi desviada para Dohko, que viera lhe falar qualquer coisa. Inconscientemente, o ruivo franziu o cenho, uma desconfiança que vinha lhe rondando tomava formas nítidas e bem delineadas. Viu que se retiraram para a popa do navio, entretidos em sua conversa.
Se ao menos pudesse ouvi-la...
As nuvens esparsas douravam-se ao toque do sol nascente. Uma brisa suave e cálida soprava, erguendo no ar algumas mechas da negra cabeleira do capitão. Longe de ouvidos indiscretos, Saga quis saber:
—Não lhe feriram, não é verdade?
— Asseguraram-me que não, meu senhor.
— E... mais importante... antes da intervenção do petiz, eles não consumaram QUALQUER ATO, pois sim?
— A ordem a eles dada foi de que apenas lhe dessem um susto.
— Mas será que REALMENTE não se aproveitaram para...
— Garantiram a mim que NÃO. E eu saberia se estivessem mentido. Farejo de longe quaisquer intenções desses pobres diabos, meu capitão.
— Sei disso. Foi a razão de eu incumbir-te de mais essa tarefa.
— Quanto ao menino Isaak... o senhor quer que eu cuide dele? Por ele ter...
Saga ergueu a mão para um gesto negativo.
— Não, não. O pequeno talvez tenha me feito um favor. Não sei até que ponto os pretensamente “falsos violadores” de fato teriam resistido à tentação de tomar uma iguaria como Laurent à força.
Dohko disfarçou como pôde o desconforto ao ouvir aquilo. Já não tinha dúvidas de que o que seu superior temesse que fizessem a “Laurent” fosse, na verdade, sua própria vontade. Estranhava vivamente que Saga estivesse a se servir de tantos estratagemas para tomar o novato como queria. O capitão tinha todo e qualquer direito a bordo! Por que recorria a tais floreios para obter o que lhe era de direito, enfim? Poupá-lo-ia de continuar seviciando o pobre rapaz sem motivo algum, sob as ordens de seu superior. Este não estaria nas galés caso sua injustiça desatasse uma rebelião por parte dos marujos...
— Neste caso, quais são vossas orientações para hoje? Prossigo em meu papel de capataz implacável APENAS para com Laurent? – Indagou, fingindo indiferença.
Após um profundo suspiro, Saga empertigou-se ainda mais. Respondeu, o olhar cortante fixo em seu subalterno:
— Irei ter com ele. Dependendo dos rumos de minha conversa com Laurent, terei tua resposta.
— Ireis ter... com ele? Quando?
— Oras, “quando”... AGORA. Manda que ele compareça à minha cabine agora mesmo. Irei logo em seguida.
Meneando a cabeça em uma respeitável mesura, o chinês dirigiu-se para onde Camus estava. O nobre não pôde deixar de se surpreender com a aparição do capataz diante de si. Perguntou-se se agora levaria as bordoadas FORA das galés.
— O capitão deseja falar-te, Laurent. Vai-te para suas acomodações. AGORA.
Surpreso, Camus ousou retrucar:
— Posso ir até onde o senhor capitão está. Vejo que ele se encontra na popa, basta que eu...
— Acaso és surdo? Julgo eu que não, a despeito de tuas constantes insubordinações. – Rosnou o chinês. – Vai-te JÁ, antes que eu te ponha para caminhar a pontapés!
Hesitante, Camus lançou um olhar confuso para os fundos do navio: de costas para eles, Saga parecia contemplar o tapete macio do oceano profundamente azul. Assentiu em concordância para Dohko e, após olhar sereno para Isaak, no intuito de tranquilizá-lo, caminhou para o interior da embarcação.
*************
Os minutos pareciam multiplicar-se durante aquela espera ansiosa. De pé, sem se atrever a sentar em lugar algum, Camus torcia as mãos. Seus olhos castanhos pousavam de quando em quando na porta pela qual adentrara o bem-cuidado recinto. Quando esta se abriu, entretanto, seu olhar nervoso desviou para um ponto qualquer. Esforçou-se por mostrar-se calmo, despreocupado, sem contudo ostentar indiferença que pudesse ser tomada pelo capitão por descaso.
Ao fechar a porta, Saga considerou-o com ar intrigado.
— Por que encontras-te de pé como um mastro no meio de minha cabine? Não faltam aqui assentos, tens reservas de sentar-se em algum de meus móveis?
— De forma alguma, meu senhor. Eu... minhas roupas estão molhadas. Temo que tenha molhado um pouco vossos finos tapetes, ao entrar...
— Oh, sim, soube pelo meu irmão Kanon que não tiveste enfim de esperar pela chuva para tomar banho.
— Com efeito, fez-se forçosamente necessário. – Respondeu o nobre, como se não se importasse com o sorriso irônico do grego.
Alargando um pouco mais o sorriso, Saga rumou para um baú de carvalho. Abriu-o e dali retirou algumas peças de roupas. Atirou-as para o jovem, que as agarrou em um reflexo.
— Veste-te com isto. És menor que eu, porém, é melhor que conservares essas roupas molhadas sobre teu corpo por mais tempo.
— S-senhor capitão? E-eu… eu não ousaria...
— É uma ORDEM , Laurent. Não te perguntei sobre como te sentirias.
Vendo-o estupefato, imóvel com as vestimentas em seus braços, Saga suspirou e esclareceu, menos ríspido:
— Hás de adoecer se permaneceres mais tempo com essas roupas molhadas. Sem contar por teus cabelos, não deveria tê-los molhado. Um remador doente é totalmente indesejado nas galés.
— Eu... – Camus via-se incerto sobre o que fazer. O outro não dava mostras de dar-lhe privacidade para que se trocasse.
Como que adivinhando-lhes os pensamentos, o capitão deu uma risada curta antes de observar:
— Não te faças modesto, já vi tua nudez antes. Anda. Esperdiças nosso tempo.
Engolindo seco, o ruivo obedeceu. Sem demonstrar a grande perturbação que sentia, tirou de si as vestes molhadas, mais encardidas do que propriamente lavadas. Os olhos esverdeados de Saga nem por um segundo deixaram de acompanhar cada movimento, detendo-se sem qualquer reserva no corpo que tanto almejava. Viu que “Laurent” havia emagrecido. “Está menos apetitoso do que no dia que cá chegou, mas depois cuidarei disso.”, pensou, sem deixar de reparar as marcas do tratamento rigoroso de Dohko. Assim que viu-o vestido com a túnica branca e a calça justa de cor ocre, segura por uma faixa encarnada, comentou:
— Apesar de largas as roupas, estás bem mais elegante.
— Temo que estas vestes sejam finas demais para quem trabalha nas galés, contudo, agradeço-vos a gentileza. – Camus respondeu, aliviado por se ver vestido de novo, sem que o outro tivesse feito qualquer investida.
— Trabalhas nas galés por vontade única e exclusiva TUA, bem o sabes.
O ruivo nada disse. Aguardava, com ardor, o momento em que o capitão o dispensaria. Em vez disso, Saga comentou:
—Soube do que te ocorreu. Alguns sevandijas tentaram sodomizar-te nos catres.
Tomando fôlego de modo breve, Camus assentiu ao responder:
— Com efeito. Isaak, que ajudou-me de um jeito inusitado, porém eficiente, alertou-me de que não se trata de um evento raro nas embarcações. Portanto, não foi nada que demandasse vossa munificente atenção.
— Hum. – Fez Saga, botando as mãos para trás e procurando ler a fundo a expressão indiferente do outro. – Deves imaginar que, a exemplo do que revelou teu prestativo amigo, é possível que tal infortúnio se repita.
— De agora em diante, serei precavido.
— Hás de distribuir armadilhas de urso ao redor de teu leito?
Aturdido, o nobre entreabriu os lábios em busca de uma resposta que demorou a vir, o suficiente para que o capitão retomasse a palavra:
— Em uma próxima vez, pode ser que ninguém venha em teu auxílio.
— Ficarei atento, darei um jeito para ficar permanentemente livre de tais investidas que, creio, não hão de se repetir.
— Uma hora teu sono tornar-se-á profundo, e não haverá nada que possas fazer.
— Sei me defender.
— Sim, a intervenção de um rapazote mirrado como um grilo assim o comprova. – Ironizou Saga, sem deixar de erguer as sobrancelhas.
Desarmado, Camus calou-se. Realmente não encontrava mais o que dizer. A passos lentos, o capitão caminhou ao redor do novato, tal qual uma fera a acossar sutilmente sua presa.
— Podes te livrar desses embaraços em definitivo. Sabes muito bem disso. Basta que aceites minha oferta. – Apresentou, de modo pausado.
— Tornar-me vosso camareiro.
— Sim. O porão não é lugar para alguém como tu. Estarás sempre sujeito a aves de rapina notívagas como as que intentaram contra tua honra.
— Senhor capitão, creio eu que minha resposta já vos foi dada. – Com estudada suavidade o ruivo tornou.
— Eu disse que poderias mudar de ideia. E que eu haveria de aceitar-te como meu empregado pessoal a qualquer momento. Pois bem, a julgar pelas circunstâncias que encontram-se a cercear-te, é ESTE o momento... Laurent. – Pôs as mãos sobre os ombros tensos de Camus.
“Circunstâncias”.
— Perdoai-me, meu senhor, eu... NÃO mudei de ideia.
Seguiram-se torturantes minutos de absoluto silêncio. Os dedos de Saga apertaram-se brevemente sobre os ombros de Camus. Em seguida, abandonaram-nos e tentaram deslizar, em vão, pelos cabelos molhados do ruivo. Antes que este protestasse, o que um discreto fremir dos músculos sugeriu-lhe que ocorreria, o grego disse:
— Espera – Foi até uma mesinha de pinho. Trouxe um pente nacarado e, para surpresa do nobre, pôs-se a pentear-lhe os cabelos.
— S-senhor capitão! Não é preciso que...
— Detém-te de moveres, senão hei de machucar-te. – Camus paralisou e, só com a conclusão da fala do outro, entendeu que não se tratava de uma ameaça. – Teu cabelo está horrivelmente emaranhado. Se ficares a te mexer, o mero ato de seres penteado converterá em um suplício para ti.
— Sim, meu senhor. – Murmurou o jovem, aflito como poucas vezes estivera.
— Intriga-me que Shura tenha permitido que um simples criado cultivasse tão longa cabeleira. É algo que nunca vi.
— Eu sempre a trazia presa em tranças, meu senhor. Não me atrapalhava verdadeiramente durante meus serviços.
— Conquanto estejam embaraçados, percebe-se que são bem tratados os teus cabelos. Como tuas mãos, no dia que aqui chegaste. Ainda que não fosses um criado de ofícios externos ou braçais, parece-me deveras insólito. Dir-se-ia que levavas uma vida de nobre, mesmo a serviço do marquês. Foste, com efeito, entregue a ele por tua família, uma Casa falida, não?
— Perfeitamente, meu senhor.
— A que Casa pertenceste?
— À família Montag. Meu pai era o Conde de Montag, no condado de mesmo nome, ao norte de França.
— Decerto não eras o primogênito. Não haveriam de se desfazer de ti. Embora, mesmo que fosses o décimo quarto varão... desfazerem-se de uma joia como tu me é assombroso.
Engolindo em seco, o ruivo prosseguiu com as mentiras:
— Sou o terceiro de cinco filhos. Os dois primeiros são homens, e as duas últimas, mulheres.
— Em que apuros meteu-se o Conde de Montag para despachar-te como um pacote para a Casa Aguilar?
— Disputas familiares e, posteriormente, uma guerra local. Passamos até fome, houve um tempo em que não mais havia distinção entre nós e os servos e camponeses de nosso condado.
— Tudo para a inaudita sorte de Shura, que arrebatou o melhor dos despojos dessas batalhas.
Aquelas palavras, ditas suavemente quase ao ouvido, aqueles toques em sua pele, o deslizar dos dentes de nácar por entre suas melenas, tudo conduzia Camus a um tenso estado de alerta.
— E... por acaso... antes de traíres teu mestre e por ele ser punido com o degredo... acaso não recebeste por parte dele alguma corte?
— Não, absolutamente – Negou, veemente.
— Nunca?
— Jamais.
— Bem, desde cedo ele manifestava mesmo o perfil de um celibatário, o carola fanático. – Saga riu entre dentes.
— Ademais – Camus sentiu-se audacioso em tecer tal comentário, mas este saiu antes que pudesse contê-lo. – a pederastia é um grave pecado.
Saga abriu um largo sorriso. Questionou:
— Deveras? Quem assim o determinou?
— Ora... Deus... o apóstolo Paulo...
— Paulo, por cujas palavras tantos foram sentenciados à morte pelos romanos... pelo que me lembre, as Escrituras dizem “não matarás” – Volveu o capitão, com nítido acento de sarcasmo na voz. – não apenas isso, também proíbem cobiçar a mulher do próximo, comer animais de patas fendidas, e o que mais os gentis-homens cristãos fazem?
Súbito, virou Camus para si, segurando-lhe firmemente os braços. Encarou o atônito ruivo ao demandar:
— Exijo que respondas-me agora. Trabalha junto a mim, como meu camareiro. Dormirás nesta cabina, não mais em um porão apinhado de homens mal-intencionados. Comerás os melhores manjares, não mais o mingau ralo que ceifa-te a vitalidade. Terás boas vestes, sapatos... até um pagamento.
Recuperando o sangue-frio, Camus encarou-o ao perguntar:
— Foi assim que convencestes o meu predecessor?
— A quem te referes? Orfeu?
Sem obter resposta do novato, firme em mirá-lo com frieza, Saga rendeu-se a um riso despojado.
— Que te fazes pensar que eu precisei CONVENCER Orfeu? Ele aceitou minha proposta no exato instante em que a fiz.
— E agora ele está de volta à cozinha. O posto anterior ao de “camareiro do capitão”, ao qual serviu com lealdade, creio.
— É isso que te preocupa? Que eu me canse de ti e te troque por outro?
Ciente de que não seria bem sucedido, ainda assim Camus esboçou um movimento no afã de libertar-se. Vendo sua empreitada revelar-se vã, respondeu:
— Nada me amedronta. Tão somente não posso furtar-me a cumprir a pena imposta imposta por meu mestre. É uma questão de honra.
Sem dar mostras de ter ouvido a resposta do subalterno, o capitão diminuiu a distância entre seus corpos, fitando Camus no fundo dos olhos gélidos e quase unindo suas bocas ao enunciar, com a voz rouca de intenso desejo:
— Eu NUNCA haverei de trocar-te, Laurent. Não há outro como ti, nunca haverá, eu sei. És o homem mais formoso que já vi. E tua formosura excede tua aparência. És culto, cordato, de temperamento singularmente altivo...
Enlaçou-o pela cintura, trazendo-o para junto de si. Apavorado, Camus tentou se desprender daquele amplexo forçado.
— Por favor, detém-vos de proferir tais palavras! – Pediu, cedendo a um legítimo terror. – Sois o magnânimo capitão deste navio, não é bom que incorrais em semelhantes desvarios...
— Desvario é essa tua resistência obstinada e sem sentido. – Rebateu, roçando o nariz na face de Camus. – Dar-te-ei uma vida que até um príncipe invejaria, além, é claro, de minha devoção eterna...
Beijou-lhe o lóbulo da orelha antes de ali sussurrar:
— ... ou será que causo-te repulsa tal que preferes negar tudo que te ofereço?
— Meu senhor, imploro-vos! Eu tenho uma dívida para com o Marquês de Aguilar, devo pagar pelos meus erros nas galés e não...
— Já disse-te que teu senhor agora sou EU, não é como chamas-me? Shura não é mais teu mestre – Redarguiu o capitão, assertivo. Procurou os lábios de Camus, que debatia-se sob seus braços fortes.
— Capitão Saga, isso é pecado! É contra a natureza humana!
— Não existe pecado nos oceanos, meu menino... aqui não há reis, não há impérios, não há Europa, não há Igreja... talvez não haja mesmo Deus...
— Capitão! Não blasfemeis! Vós...
Sua boca foi tomada com fúria pela boca ávida de Saga. Camus lutou contra o beijo, contra o corpo enorme e muito mais forte que espremia o seu. A mão de Saga apertou-lhe o maxilar, ao mesmo tempo em que sua língua forçava passagem. O nobre não viu outra saída a não ser morder o que o invadia. Em um movimento brusco, o capitão afastou-se dele, emitindo um curto balbucio de dor e raiva. Aproveitando-se daquilo, Camus afastou-se o quanto pôde, chegando a encostar-se na parede. Saga levou a mão à boca e colheu um pouco de sangue, que ficou a contemplar perplexo. Olhou para o ruivo e rosnou, ameaçador:
— Miserável... mordeste-me a língua... és algum tipo de cão?
Pela ira estampada no rosto rubro do capitão, Camus esperou pelo pior. Esperou que o grego o cobrisse de pancadas. Não o temeu, contudo. Por isso, ainda que trêmulo pela adrenalina da situação, manteve-se ereto, sem fugir à mirada hostil do outro.
— Sabes que por isto eu poderia surrar-te até a morte, não?
O nobre nada respondeu.
— Ou então atirar-te agora mesmo ao mar.
— Fazei como vos aprouver. – Disse o ruivo, erguendo o queixo em franco desafio.
— Preferes morrer a aceitar-me como teu macho e protetor.
— Sim, eu prefiro. – Estabilizou plenamente a voz. – Não importo-me com a maneira com a qual extirpais-me a vida. Não hei de subjugar-me a vós como desejais.
Boquiaberto, Saga perdeu momentaneamente a fala. Encarou o jovem, sinceramente impressionado com tamanha tenacidade.
— Não conheces nada sobre as leis do mar – Disse o capitão, controlado. – Alegas que o que te proponho vai contra as leis de Deus. Pois bem, garoto, dar-te-ei uma lição imprescindível para um miserável condenado às galés: o capitão é o DEUS de seu navio. Teu país, tua terra, teu mundo agora é a Gemini. O que EU quero é a lei...
Apontou para a alcova, guarnecida com uma bela cama forrada de peles lustrosas.
— Se eu quiser arrastar-te até ali e tomar-te À FORÇA, sabe o que haveria de me impedir? NADA.
Em meio ao seu silêncio obstinado, Camus pensou “Mas eu lutarei ATÉ A MORTE. Não importa que eu seja menor e esteja mais fraco. Não terás o corpo que somente a Milo pertence, ao menos NÃO VIVO.”
— Ofereço-te proteção, cuidado, amizade, pagamento. Recusas. Posso então tomar-te como ESCRAVO. Não são poucos os capitães que possuem escravos ou escravas. Ocorre, Laurent... – Crispou os punhos ao modular a voz. – ocorre que NÃO é assim que eu te quero.
Quase sem respirar, o ruivo franziu as sobrancelhas, confuso.
— Laurent, afeiçoei-me a ti, é a verdade. Quero-te como meu COMPANHEIRO.
*************
Milo deixou a cela com misto de desânimo e fadiga. Suas pernas pesavam como blocos de pedra ao galgarem os degraus que conduziam à saída da masmorra.
Por ele esperava Afrodite, aflito. Viu-o surgir à claridade do pavimento. Sufocou uma exclamação de horror: o conde estava coberto de sangue.
Não ousou indagar que tipo de suplício infligira a Shura. Tampouco perguntaria se a sessão obtivera o êxito almejado: na expressão alquebrada do nobre lia-se claramente que não. Na ausência do que poderia enunciar, anunciou solícito:
— Oh. Eu… e-eu vou mandar que preparem-te um banho…
— Depois. Preciso de um ar – Disse, simplesmente, passando por ele.
— Mas... estás... hã... tuas roupas, rosto e mãos estão...
Milo nem sequer respondeu-lhe com as imprecações usuais daqueles dias. Dirigiu-se para um balcão de mármore clara que dava para o jardim do solar. Ali postou-se, considerando uma verdadeira afronta contra seu estado de espírito a beleza e a frescura do recanto, repleto de flores e plantas vistosas sobre as quais borboletas adejavam languidamente. As cores magnificadas eram pelo sol reinante em um céu sem nuvens.
— Milo... – O sueco aproximou-se com cautela.
O conde suspirou profundamente. Abaixou a cabeça, desalentado. Uma terrível desconfiança passou por Afrodite. Teria Milo MATADO Shura?
Como se tivesse-lhe lido os pensamentos, o Conde de Saint-Doulchard revelou, enfastiado:
— Não sei mais o que fazer, Afrodite. Acabarei por MATÁ-LO. De um morto, porém, não se consegue obter respostas.
— Milo...
Exasperado, Milo ergueu os olhos úmidos para o firmamento. Lutava contra a chegada de um pranto que em nada iria ajudá-lo.
— Eu o cria tenaz, mas nunca pensei que pudesse, com efeito, suportar... por dias a fio... estava errado. Preciso mudar de tática.
— Que pretendes?
Milo volveu o olhar para seu interlocutor, considerando-o grave.
— Tens de descer à masmorra comigo. Há outras maneiras de seviciá-lo, contudo, para estas, precisarei de auxílio.
Chocado, Afrodite balbuciou:
— Q-queres eu EU te ajude a TORTURAR Shura?
— Ciente de teus sentimentos para com ele, tencionei poupar-te. Entretanto, não posso mais... não às custas de... de Camus... – Fez uma pausa para engolir o pranto que ameaçava subir-lhe pelo peito no afã de romper-se. – Terei que apelar para outras modalidades... o berço-de-judas, o cavalete, a purificação dos pés, a cadeira suspensa...
Quase sem ar, o sueco interrompeu-o:
— Não! Eu? E-eu não poderia, jamais!...
— Nem por Camus?
— Por favor, não me peças isso!
— Sabes que possuo pleno direito de mesmo OBRIGAR-TE.
O ex-camareiro levou as mãos à cabeça, angustiado.
— Eu SEI BEM DISSO! SEI que sou o culpado por Shura ter descoberto TUDO... mas eu não conseguiria de modo algum vê-lo sendo torturado, quanto mais AJUDAR em semelhante procedimento...
— Se te recusas a auxiliar-me, arranjar-me-ei com outra pessoa. – O conde sentenciou, subitamente frio.
— Outra pessoa?! Mas… quem…?
O silêncio de Milo levou Afrodite a seguir-lhe o olhar, agora fixo, para a área externa do solar. Imaginou que teria sua resposta daquela maneira. E teve, ao dar-se conta de que o nobre cravara os olhos claros em um jovem recém-trazido a todo aquele drama humano, que, ao longe, encontrava-se ocupado em restaurar uma mesa de carvalho, peça do mobiliário da residência.
— Giuseppe? – O ex-camareiro murmurou, aterrado.
— Ele mesmo.
— A sério? Giuseppe? Ajudar-te a interrogar Shura?!?
De braços cruzados, nunca deixando seu olhar analítico abandonar a figura alheia àquela conversa, Milo acrescentou:
— Agora que estou a observá-lo com atenção, percebo-lhe a robusta compleição, nitidamente superior à tua em vigor. Conseguirá imprimir a força necessária para manusear os instrumentos de que passarei a me servir.
Foi preciso extremo controle emocional para que Afrodite não levantasse a voz para o governante de Saint-Doulchard:
— Perdeste a razão? Se lograres teu intento, que é fazer Shura FALAR, Giuseppe há de CONHECER o segredo de...!
— Considero que vale a pena correr esse risco. Um risco facilmente remediável, em troca de descobrir onde está Camus.
— “Um risco facilmente remediável”? Que queres dizer com isso? – Apesar do medo em perguntar, o sueco não pôde se furtar a fazê-lo.
Virando-se lentamente para ele, Milo dardejou-o com um olhar gélido ao responder:
— Após obter a resposta de Shura, hei de dar cabo da vida de Giuseppe.
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