Dame Jolie
52 O Cerco ao Inocente
Notas iniciais
Afrodite tão somente encarava Milo, seus olhos azul piscina vidrados como em um transe durante o qual mesmo seus batimentos cardíacos se extinguiram. Os lábios rubros entreabertos davam a impressão de que a qualquer momento uma réplica inflamada se elevaria ante a inesperada e terrível resolução do Conde de Saint-Doulchard.
O ex-camareiro, contudo, encontrava-se presa do horror ao que escutara, de tal forma que não conseguia articular palavra alguma. Somente quando viu os olhos azuis turquesa buscarem novamente a figura alheia de Giuseppe, sentiu a vida voltar ao seu corpo, bombeada com mais do que indignação pura, real furor.
— Perdeste a razão? O desespero minou-te o juízo, por certo – Proferiu entre dentes.
— Desespero? Sim, exatamente! – O conde voltou a mirá-lo, chispas febris de fera ensandecida a emanarem de suas íris. – Que haveria eu de experimentar sem conhecer o paradeiro de Camus, o que dele é feito... e obrigado a torturar meu melhor amigo?
— Não és “obrigado” a torturá-lo!
Milo deixou escapar um riso sardônico.
— Oh, não?!? Acaso algum de nós logrou obter qualquer resposta satisfatória de Shura através de mera conversa civilizada?
— Mas... Milo... ouviste a ti mesmo? Cogitas MATAR Giuseppe caso ele, ao auxiliar-te nos suplícios de Shura, venha a ouvir “o que não deveria” ouvir...?
— Conceberias algum outro jeito de manter o segredo intacto, uma vez que, por fim, arranquemos a verdade de Shura? Ou caso este resolva denunciar-me para Giuseppe?
— É da imolação de um INOCENTE de que estamos a falar!!! – Vociferou Afrodite, em claro enfrentamento.
Em um gesto brusco, Milo agarrou-o pela gola da túnica lavanda, puxando-o para um canto aos fundos do balcão e imprensou-o ali, contra a parede fria de granito.
— Cala-te! Quer que ele te ouça? É esse teu plano? Tencionas, com efeito, pôr-te em meu caminho? – Rosnou, qualquer coisa de alucinado deformando-lhe as feições de tal modo que Afrodite o temeu como nunca.
— Mi... Milo, e-estás a machucar-me...
— Farei MUITO PIOR se ousares atrapalhar meu intento.
— P-pois muito que bem... que si-sigas com teu estratagema... mas ouve-me...
Por alguma razão, a mão de Milo diminuiu a pressão. Recuperado um pouco de seu fôlego, o sueco pôs-se a elucidar:
— Hás de levar Giuseppe para a masmorra contigo... ele ajudar-te-á a supliciar Shura... e... e se Shura falar o que Giuseppe não pode saber... Giuseppe será morto a bem da manutenção do segredo de Camus...
O conde assentiu e o soltou de vez. Afrodite levou a mão ao pescoço; esfregou-o enquanto fitava o outro, sem qualquer submissão na expressão ainda desafiadora.
— Que pensas que Camus diria do teu proceder? Acaso consideras que Camus, o Camus que conhecemos, comprazer-se-ia em saber que seu resgate foi comprado com sangue inocente? – Questionou.
— Ele NÃO precisa saber. – Retrucou, ofegante. Afrodite reparou-lhe a estranha palidez do rosto.
— Não. Mas TU sempre o saberás. Estarás realmente disposto a carregar o peso desse pecado... desse ASSASSINATO pelo resto de teus dias?
— Que me importa? – A voz de Milo tornou-se baixa e rouca, dir-se-ia que um grunhido animal emergia de sua garganta. – O que MAIS me importa se Camus NÃO está aqui?
Ele abaixou a cabeça de repente, sacudindo-a ao mesmo tempo em que piscava os olhos com força. Parecia prestes a sucumbir a um mal-estar qualquer.
— Milo... que tens? – Indagou o sueco, preocupado.
— Se ele... e se ele estiver de fato MORTO? Com... com o que mais eu me importaria...?
Seu rosto empalideceu ainda mais. Milo vacilou a ponto de quase cair. Afrodite adiantou-se para ampará-lo. Quase acusatório, apontou:
— Cuido que te adoeces! Estás há dias sem te alimentar! Tampouco dormes à noite! Que esperavas tu como resultado?
— Eu… eu não adoeço... nunca... – Rebateu, a voz enfraquecida mal ocultando a raiva que era a única responsável por ele ainda ter resistido em pé até as vertigens lhe roubarem o foco, a energia. Desvencilhou-se do ex-camareiro com certa rispidez e foi nesse movimento que ele perdeu de vez o equilíbrio. Tombou sem sentidos, antes que Afrodite pudesse segurá-lo.
— Milo? MILO!!!
Apavorado, Afrodite debruçou-se por sobre o nobre desmaiado, chamando-o ininterruptamente enquanto o sacudia vigorosamente pelos braços, pelos ombros:
— Milo, acorda! Milo! Por favor, Milo, estás a escutar-me? MILO!!!
Pôs-se de pé e correu para a balaustrada do balcão de onde estiveram a observar o pátio. Gritou:
— Acudi! O senhor Milo perdeu os sentidos! ACUDI, EM NOME DE DEUS!!!
Giuseppe foi um dos que ouviram os apelos desesperados do camareiro e uns dos primeiros a chegar onde os dois aristocratas estavam. O italiano sequer esperou pelos soldados, ergueu em seus fortes braços o nobre inconsciente.
— Para onde eu o levo? – Indagou a Afrodite.
— Segue-me, melhor que fique aqui no térreo mesmo. Há um quarto desocupado no final deste corredor – Orientou, tomando a dianteira nervosamente.
Havia uma cama não muito grande, porém guarnecida com lençóis limpos. Ali o artífice-mestre depositou o corpo de seu senhor. Mirou-o alarmado e demandou:
— Afrodite, o que se sucedeu…?
Os soldados por trás do ex-camareiro também esperavam pela resposta do loiro. Este, porém, virou-se para eles e ordenou-lhes:
— Deixai-nos. Voltai aos seus postos. Cuidarei dele.
Assim que eles saíram, o sueco enxugou o suor que minava-lhe na fronte pálida e respondeu ao amigo:
— Estávamos a conversar naquela varanda do solar quando um súbito mal-estar levou-o a este estado que presencias.
— Mas o que poderia ser...?
— O imbecil não come tampouco dorme HÁ DIAS! Foi abatido por fim pela exaustão que já o cerceava desde quando tomou conhecimento do desaparecimento da senhora Camille...
— O que podemos fazer por ele?
Afrodite respondeu, retomando o controle de sua voz, até então embargada:
— Preparar-lhe-ei uma infusão a ser aspergida em sua fronte. Vê, ele tem febre. Tu ficas aqui, a vigiá-lo, peço-te.
— Sequer carecias que o pedisses – Disse o italiano, em tom firme.
— Não demoro. Por favor, cuida de o despir. – E precipitou-se para o corredor, rumo ao seu laboratório.
Tentando controlar ao máximo o tremor de suas mãos, Afrodite preparou uma infusão de vinho, angélica, melissa, cravo, alho esmagado e cascas de cebola em pó. Retornou aonde deixara Giuseppe cuidando de Milo, completamente desacordado. Umedeceu um pano limpo com o preparado e o dispôs sobre a fronte do conde. Tomou outro pano, repetiu o processo; este, pôs em cima do peito do nobre, já livre da túnica.
— Agora só nos resta esperar que ele receba os benefícios do remédio durante seu repouso, uma vez que suor ocasionado pela febre dilatou-lhe os poros. – O ex-camareiro lavava as mãos em uma bacia enquanto elucidava. – Obrigado por remover-lhe as roupas, Giuseppe.
— Não há de quê. Oh, toma. Estas chaves caíram de um dos bolsos da algibeira so senhor Milo quando a removi dele...
Afrodite quedou-se boquiaberto ao receber na palma aberta uma pequena argola de metal com três chaves.
As chaves da masmorra!
— Perdoa-me a indiscrição, no entanto, foi-me impossível não reparar em como as roupas do senhor conde estavam sujas de sangue... não lhe vi, porém, ferida alguma.
— Não podes inferi-lo? – O loiro retrucou, sombrio.
Giuseppe assentiu, intrigado.
— O Marquês de Aguilar?...
Foi a vez de Afrodite assentir. Apertou com força as chaves na mão. O artífice-mestre inquiriu:
— O Marquês de Aguilar tem participação no sumiço da senhora Camille, não tem? É por isso que o senhor Milo...
— Shura ainda não falou nada. Resiste a todas as torturas. Pudeste conferir pelas vestes de Milo o quanto ele está se esforçando – O tom do sueco saiu mais amargo do que ele gostaria de o demonstrar.
— Pensei que o marquês e o senhor conde fossem amigos... por que razão o senhor Shura haveria de intentar contra o...
— Giuseppe, permanece aqui – Súbito, interrompeu-o. – Preciso ir a um lugar.
O italiano arregalou os olhos.
— Não pensas em ir à masmorra, pensas?!?
— Poupa-me de teus inquéritos, apenas faz o que te pedi; cuida de Milo.
Resignado, o outro respondeu:
— Não te preocupes. Cuidarei dele como se minha própria vida disso dependesse.
Tais palavras se abateram como um punhal sobre o coração de Afrodite. Mal sabia Giuseppe que Milo tencionava tomar-lhe a vida em prol de informações sobre o paradeiro de Camus.
— Afrodite? Que tens?
— C-como?
— Tornaste-te pálido e alheado, de repente...
No afã de recobrar o controle, o ex-camareiro sacudiu a cabeça. Anunciou, por fim:
— Não hei de demorar-me.
Antes de sair, teve o antebraço agarrado pelo toscano. Voltou-se para ele, assustado. Giuseppe mirava-o com misto de ternura e preocupação.
— Toma cuidado, imploro-te... bello.
Um calor doce e bom invadiu o peito do loiro. Perdeu-se nos olhos cinzentos do homem por quem cogitava ainda ser amado. Sorriu ao assegurar:
— Sossega-te, hei de ser cuidadoso… meu amigo.
Giuseppe soltou-o, sorrindo-lhe de volta. Então Afrodite, sem mais demora, evadiu-se para o corredor, a passos rápidos rumo aos fundos do solar. Dois soldados guardavam a porta de acesso à escada subterrânea. O ex-camareiro postou-se diante deles e brandiu-lhes as chaves.
— Dai-me passagem, preciso ir ter com o prisioneiro.
— Sinto muito, senhor Afrodite, porém não recebemos quaisquer ordens do senhor conde para vos deixar acessar a masmorra.
— Não sabeis que o conde encontra-se enfermo no momento? Em seu lugar, prosseguirei com o interrogatório.
Os guardas trocaram um breve olhar repleto de incredulidade. Aquele nobre de feições feminis, trajado quase como uma dama, e maquiado e perfumado como uma... interrogar o prisioneiro?
Bem, se na aparência o sueco primava pela delicadeza, de seu gênio não se poderia dizer o mesmo:
— Acaso dirijo-me a dois mastros de madeira? Já que sois incapazes de articular respostas como seres pensantes, fazei conforme ordenei-vos: dai-me passagem AGORA MESMO! – Vociferou.
Ambos soldados pareceram intimidados com a atitude do rapaz. Um deles tartamudeou:
— M-mas senhor Afrodite, já vos dissemos q-que...
— Tenho ouvidos, parvos. Escolhei: obedecei-me ou esperai a devida punição do senhor conde quando esse recobrar as forças e ficar ciente de que NÃO obedecestes ao amigo pessoal e braço-direito de vosso soberano!!!
Novamente os guardas se entreolharam, mas desta vez divididos entre a dúvida e o receio. O receio venceu; afastaram-se da porta, cedendo passagem a Afrodite. Empertigado, dela ele se aproximou e a destrancou. Atravessou um corredor curto e estreito até chegar à escada. Desceu por seus degraus de pedra, os archotes a lhe iluminarem o triste caminho descendente. Chegou a um corredor mais comprido que o superior, embora de similar estreiteza. Caminhou rumo à cela, temeroso pelo que iria encontrar.
Sem anunciar-se, abriu a porta gradeada: acorrentado pelos pulsos e pelos tornozelos, Shura parecia adormecido, sua cabeça baixa pendendo por cima do torso desconjuntado para a frente. O ex-camareiro adentrou a fria câmara quase sem respirar, tanto pela tensão que lhe oprimia o peito quanto pelo odor nauseabundo reinante no lugar. Aproximou-se da figura silenciosa, que parecia não se dar conta da sua presença... ou não se importar. Forçou a vista em meio à penumbra, só precariamente tocada pela iluminação débil vinda dos archotes do corredor: tencionava encontrar um ângulo que pudesse lhe revelar o real estado do prisioneiro.
Teve de levar a mão à boca para não deixar ecoar seu grito de horror.
Somente a ciência de que o infeliz a ocupar aquela prisão tratava-se do Marquês de Aguilar serviria de pronta identificação a Afrodite. O rosto de Shura... oh, o belo rosto de Shura, o altivo rosto de Shura, o amado rosto de Shura... onde? Onde estava?
AQUILO não poderia ser Shura de Aguilar!!!
O prisioneiro estava desfigurado, tamanha a gravidade dos inchaços, edemas e ferimentos a destroçarem-lhe as nobres feições. Soube-o porque o espanhol ergueu vagarosamente a cabeça na direção dos ofegos e soluços do visitante horrorizado. Lágrimas ferventes vieram aos olhos vidrados de Afrodite, cujo corpo estremecia quase convulso. O sueco caiu de joelhos diante do farrapo humano acorrentado. As vestes ensanguentadas deste quase não mais existiam, tão esgarçadas, imundas e rasgadas estavam.
— Shura... oh, Shura – Balbuciou o ex-camareiro, trêmulo, chocado. Quis evitar olhar aquela massa disforme de sangue e sujeira, seu coração fremente de pura e genuína dor, uma dor quase sem identificação. Súbito, bradou: – Isso… isso NÃO pode continuar!
Apático, o marquês apenas o considerou, em silêncio.
— Por Deus, Shura, TENS de dizer a Milo onde Camus está, VIVO ou MORTO – Clamou, lutando bravamente para não se render a um dorido pranto. – Ele... Deus... olha para ti, Shura... Milo MATAR-TE-Á!
Finalmente um débil grunhido foi emitido pelo espanhol. Talvez fosse um riso, Afrodite não saberia afirmar. Um riso baixo e torvo, ou talvez um suspiro resignado.
— Milo sabe como seviciar um homem sem comprometer-lhe os pontos vitais – A despeito de sua aparência alquebrada, sua voz quase sussurrada fez-se firme e serena. – Não te precipites em tuas alarmadas conclusões... pode ser que eu aqui continue, a ser torturado por MESES... quem sabe... ANOS...
— Tu és apenas um HOMEM! – Gritou Afrodite, tentado ele mesmo a esbofetear Shura. – Julgas que poderás resistir por quanto tempo mais? Se não à morte, à DOR?
Teve a impressão de que o outro o encarava fixamente. No entanto, o hediondo inchaço que engoliam aqueles olhos diminutos não lhe permitia qualquer certeza.
— Um verdadeiro servo de Deus não teme a dor. – O moreno murmurou calmamente.
— Não teme nem mesmo infligir a dor em um ente querido?!?
— Um dia, Milo agradecer-me-á... quando sua alma for salva dos tormentos eternos, ele há de se esquecer dos naturais dissabores que está a experimentar por ora...
— “Naturais dissabores”? – Um riso nervoso se seguiu à réplica do sueco. – Por que achas que EU estou aqui, e NÃO ELE?
Breves instantes de hesitação por parte do prisioneiro. E então:
—Porque, devido a algum novo estratagema, ele enviou-te... ou para repousar, já que não faz muito tempo, esteve aqui a...
— Com efeito, Milo está ACAMADO, mas NÃO para repousar: um mal súbito o acometeu e ele desmaiou bem na minha frente! E nada o traz de volta à consciência!
— Milo...? Desmaiou? Mas… o que… – Notas de preocupação vibraram na voz incerta do marquês. – o que ele tem?
— Não sei ao certo, penso que uma exaustão profunda. Por teu ato sórdido, Milo não come, tampouco dorme há dias! Tua obstinação em não lhe dizer o que é feito de Camus segue minando-lhe as forças!
— Não obstante eu DISSE... disse-lhe que...
— Cala-te, não somos néscios! Sabemos que mentes! – Interrompeu-o, colérico. – E mesmo que o tivesses matado, que haveria de custar-te que revelasses o paradeiro do corpo? Tua “nobre missão” já estaria cumprida, de qualquer forma!
Incapaz de conter-se, Afrodite andava de um lado para o outro, gesticulando incessantemente ao falar. Parou para apontar o dedo na direção do estupefato prisioneiro.
— Que não te importes em matar Camus, é compreensível! Que não te importes em matar a TI MESMO, é compreensível! Eu não cria, porém, que menosprezarias, também, a vida de Milo!
Voltou a ajoelhar-se diante do espanhol boquiaberto.
— Shura, Milo há de MORRER se esta situação continuar como está. Ele definha a olhos vistos. Tem febre. Talvez esteja já enfermo há DIAS, sem que ninguém o tivesse notado. Por favor, reconsidera...!
Os lábios machucados, nos quais brilhava o sangue de seus suplícios, entreabriram-se. Moveram-se, trêmulos, como se palavras ameaçassem romper o silêncio instaurado após a súplica de Afrodite. No entanto, nada foi proferido.
Balançando a cabeça em claro sinal de decepção, o ex-camareiro pôs-se de pé. Encarou o outro com gravidade e, mais comedido, enunciou:
— Há uma OUTRA VIDA em jogo, Shura. Uma vida que pode vir a se extinguir se tu não me revelares AGORA onde está Camus.
— Uma outra vida em jogo?
— Sim, a vida de um inocente. A vida de alguém que nada tem a ver com nossas histórias, nossas ações.
Com ar legitimamente interrogativo, o marquês esperou que Afrodite o elucidasse. E com voz firme, o loiro o fez:
— Giuseppe.
— Quem?...
— Não te recordas do nome do artífice-mestre à frente das obras na Abadia de Saint-Pére? O construtor do Hospital de Saint-Doulchard?
— Sim, recordo-me agora... mas que tem ele com...?
— Explico-te: Milo trouxe-o de Paris para cá, Giuseppe tem auxiliado-o nas buscas à “condessa Camille”. Milo decidiu servir-se da força física dele para prosseguir com os... interrogatórios. Incapaz de fazer-te falar com os métodos utilizados até então, Milo resolveu que Giuseppe há de ajudá-lo, assim, poderá empreender novos... tipos de tortura...
Respirou fundo, a fim de reunir coragem para externar a terrível decisão do conde.
— Ocorre que Milo pretende MATAR Giuseppe, caso o inquérito enfim seja bem-sucedido e tu abras a boca para revelar o que é de Camus, adicionando à informação “o segredo”. Ora, uma vez que isso se suceda, Milo livrar-se-á de Giuseppe, que não poderia ficar a par do segredo, obviamente, pois que...
Foi interrompido pelo som de uma risada baixa, porém perfeitamente perceptível. Olhou com estupor para o prisioneiro, que parecia rir com real gosto.
— Estarei louco, a ver coisas? E-estás a RIR?
— Que te parece? Decerto que não pranteio – Volveu, em meio àquele riso odioso para o sueco.
— E qual a razão de tão ensandecida hilaridade?!?
É dito que a cólera embota a percepção de um homem, e isso se verificava com plenitude naquele momento, pois Afrodite não percebeu que agregado ao deboche daquele riso havia penosa amargura.
— Estiveste a ponto de enganar-me... reconheço-te o talento de tocar as fibras de certos sentimentos... – Disse Shura, ainda sorridente.
— Quê? A que te referes?!?
Estalando a língua com uma dramaticidade inédita a Afrodite, o marquês esclareceu, nunca abandonando o tom sarcástico:
— E eu aqui a pensar que o motivo de teu inflamado discurso fosse preocupação COMIGO... e com Milo... hehehe, agora compreendo bem a natureza de tal eloquência!
Afrodite estremeceu. O rosto pasmado e enrubescido voltou a ostentar genuína ira.
— É de uma vida INOCENTE de que estou a falar, Shura!
— Sim... a vida de TEU ADMIRADOR... – Volveu ácido, ferino. – Teríeis, enfim, chegado a algum termo?
— CALA-TE – Rosnou o loiro, cerrando os punhos com força desmedida. – Tu leste o meu diário, sabes MUITO BEM a quem devotei minha afeição por todo este tempo!!!
— Sim, eu sei. Contudo, as coisas mudam. Principalmente quando o que desejamos a nós não se destina.
O tom ambíguo do espanhol aplacou razoavelmente a raiva de Afrodite. Recuperou pouco a pouco a calma necessária para negociar com alguém tão irredutível como Shura:
— Prefiro que atenhamo-nos ao perigo de tuas ações. Diz-me, sem mais delongas, onde está Camus. Se Milo despertar e trouxer Giuseppe cá à masmorra...
— Preocupas-te em vão com teu amado. Não hei de falar nada diferente do que tem saído até então destes lábios aviltados.
— Eu não teria tanta certeza. Tu não foste submetido às torturas que os dois infligir-lhe-ão em conjunto. Hás de sucumbir. E hás de condenar um INOCENTE à morte.
— Eu já MATEI inocentes em batalhas, Afrodite. Não seria novidade alguma para mim, a não ser pelo diferente veículo de aniquilamento: não terei de usar minha espada.
— Não te ressentes, pois, de ser responsável, em parte, pelo assassínio de Giuseppe?!?
— Não. – Foi a resposta seca e fria.
Afrodite engoliu em seco. Cerrou os olhos firmemente. E, em seguida, abriu-os, revelando uma expressão nova. Indecifrável.
— Pois muito que bem. Tu não me deixas outra opção.
— A que te referes?
Nenhuma resposta emergiu dos lábios sutilmente pintados. O sueco pôs-se de pé. Caminhou em silêncio até a porta da prisão. Após retirar-se, trancou-a, dizendo em um tom incrivelmente gélido:
— Até mais ver, Shura.
Pela primeira vez uma expressão diferente da vazia apatia apossou-se do rosto machucado do marquês. Este tentou mesmo se erguer, em uma inconsciente tentativa de reter o outro. Mas... por que o faria? E, sem chegar a nenhuma conclusão, limitou-se a ver o loiro afastar-se, um chamado preso nos lábios entumescidos, malgrado em seu íntimo ele o fizesse.
Após evadir-se da masmorra, Afrodite seguiu para seus aposentos. Lá, tomou nas mãos a maior caixa de joias que possuía. Retornou para o quarto onde deixara Giuseppe cuidando de Milo. Conforme o esperado, o conde ainda não recobrara a consciência. O italiano chegou a se surpreender com a expressão do recém-chegado, totalmente diferente daquela com que ele deixara o recinto antes de se evadir para o cárcere da edificação. O semblante de Afrodite tornara-se duro, enigmático, quase sombrio. Era a primeira vez que via o bello daquele jeito.
— Afrodite? Que te sucedeu? – Atreveu-se a indagar, preocupado. Aproximou-se, a fim de verificar-lhe a integridade física. – Diz-me, em nome de Deus, o Marquês de Aguilar fez-te alguma coisa?!?
— Como o haveria de fazer? Ele está a ferros. – A resposta viera sussurrada e amarga.
— O mal que ele te faz nem sempre é de natureza física, bem o sei eu.
O sueco encarou demoradamente Giuseppe, de tal forma que este não pôde deixar de franzir as sobrancelhas.
— Milo ainda demora a despertar. Vem comigo. – Conclamou o ex-camareiro, sem dar tempo ao outro de fazer qualquer pergunta.
Ao saírem do quarto, Afrodite fez sinal a um guarda próximo da porta. Este postou-se diante do nobre, que ordenou gravemente:
— Vigia o quarto de teu senhor. Se ele voltar a si, vem sem demora ao jardim avisar-me. Preciso de mais ervas para tratá-lo.
— Sim, senhor Afrodite. – Anuiu o soldado, curvando-se em sinal de respeito.
Giuseppe seguiu-o até o referido jardim, sem entender o que se passava. Se Afrodite precisava colher outras ervas para preparar algum medicamento, por que razão exigia sua presença?
Tão logo chegaram ao belo jardim, extensão de um completo e vistoso pomar, o ex-camareiro certificou-se de que estavam a sós. Ainda assim, achou por bem tomar o cuidado de se aproximar mais do artífice-mestre, que não parava de fitá-lo com ansiosa curiosidade. Como Afrodite tão somente o mirava, Giuseppe tomou a iniciativa:
— Desejas que te ajude a colher algum fruto ou flor em especial?
Afrodite umedeceu os lábios e inspirou longamente para falar:
— Dar-te-ei uma ordem e exijo que obedeças sem questionar-me. Tudo que posso dizer-te é que o faço em função de tua própria vida.
— Não compreendo-te...
— Ouve-me!
Giuseppe calou-se, à espera da referida ordem. Afrodite fez-se firme, direto:
— Deves partir agora mesmo. Sai de Paris imediatamente e dirige-te para o mais longe que puderes.
— O quê?
—E não me refiro à França. Deixa esta terra, se queres continuar a viver. – Insistiu, os olhos claríssimos a fulgurar como estrelas novas.
— Que estás a ordenar-me? Mandas que eu FUJA de França? Por quê?
Batendo o pé injuriado o loiro insistiu:
— Exigi que não me questionasses!!!
— Mas...
Uma caixa de madrepérola ricamente trabalhada foi empurrada contra o peito do toscano. Ele a segurou apenas para que ela não caísse, pois o loiro prontamente a soltou em suas mãos.
— Com o que tem no interior dessa caixa, poderás começar nova vida em tua terra natal... ou em qualquer outro lugar para o qual desejares te retirar.
Surpreso, o italiano abriu a caixa: joias! As mais finas, ricas, brilhantes e preciosas joias que já cintilaram perante seus olhos cinzentos.
— Pedes-me que não te faça perguntas, mas como posso acatar a uma ordem dessas? A deixar meu posto de artífice-mestre? A abandonar o senhor Milo? E a despojar teu tesouro? – Empurrou a caixa de volta para as mãos do ex-camareiro. – Por que razão?
— Já te disse... por tua vida! – E durante a exclamação, a caixa foi ao chão.
— Minha vida?...
— Sim, tua vida corre perigo! – Tornou aflito.
— Mas quem se interessaria pela vida de um humilde artífice-mestre como eu? O que dizes não faz nenhum sentido!
— É porque mais não posso explicar! Apenas faz o que te ordeno, peço-te!
— Bello... por muito que eu te ame... que meu corpo, coração e alma estejam inteiramente à tua disposição... devo lealdade ao Conde de Saint-Doulchard. Não importam os perigos que estejam a rondar-me, de forma alguma serei um desertor.
— Giuseppe... – Afrodite viu-se sem fôlego ao ouvir tais palavras. Então não era impressão... Giuseppe ainda nutria sentimentos por ele.
Giuseppe o amava.
Como se escutasse-lhe os pensamentos, o italiano tomou-lhe as mãos e ajuntou, mirando-o fundo nos olhos:
— Deus Nosso Senhor é testemunha de que nunca, nunca deixei de te amar, nem por um instante sequer. Outrossim, de ti não seria homem digno se me acovardasse e menosprezasse a hierarquia deste mundo. Pouco me importa a minha vida se por ela eu tiver de me tornar um homem indigno, bello. Milo de Auvergne é o senhor a quem sirvo abaixo do Altíssimo. Virar as costas ao meu dever seria virar as costas ao próprio Deus, pois que Ele a isso me destinou. E, que Nosso Senhor me perdoe, mas... acima de tudo... jamais poderia ir para longe de ti. Que eu morra esta noite, seja lá por que razão for. Ser-me-á menos lamentável que abandonar-te.
Com a respiração suspensa no peito aquecido como que pelo próprio sol, Afrodite encarava-o, lágrimas afluindo aos seus olhos de água-marinha. Em um ímpeto, atirou-se para o italiano, buscando sua boca com urgência. A completa surpresa não impediu Giuseppe de corresponder com igual presteza ao beijo inesperado. Seus lábios logo cederam espaço a que o contato se aprofundasse, quente, voraz, intenso. Após muito tempo, que lhe pareceu quase nada, na verdade, o sueco desvencilhou-se do artífice-mestre. Ofegante, propôs, seus olhos úmidos como seus lábios nunca abandonando os olhos de prata luzidia:
— Pois muito que bem. Hei de partir contigo. Fujamos para a Itália, Giuseppe. JUNTOS. Viveremos juntos até os fins de nossos dias, longe, muito longe daqui. Que me dizes?
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