Dame Jolie
53 O Dissipar de Negras Nuvens
Notas iniciais
O vozerio não arrefeceu nem mesmo com a chegada das rações matinais. Ao contrário, o alimento deu ânimo aos homens cujos corpos ainda ansiavam pela graça do repouso, à qual, entretanto, não mais teriam direito. Afinal, um novo dia iniciava-se na embarcação comandada por Saga, que se encontrava rumo ao Oriente. Alguém se empolgou além da conta e pôs-se a cantar. A canção preconizava conquistas futuras nas promissoras terras abundantes em artigos exóticos e tão disputados na Europa. Àquela voz, algumas outras se juntaram, principalmente quando enfim os canecos encheram-se de vinho. Isaak lançou um olhar à escudela pouco guarnecida e ao caneco vazio do jovem sentado ao seu lado.
˗ Não lhe deram vinho novamente? ˗ Indagou.
˗ Eu não quis. Preferi abster-me até o término da labuta. ˗ Camus mentiu, incerto de que o amigo acreditava. Com efeito, pois lia-se desconfiança no rosto de adolescente.
˗ Neste caso, por que não pediste ao menos um pouco de água? Nada vejo em teu copo! E, que os tritões me carreguem para o fundo dos mares, se não te deram ainda MENOS mingau que ontem!
˗ Isaak, cuida de te alimentares. Sou homem crescido já, ao contrário de ti. ˗ O ruivo respondeu com um sorriso no qual empregou real esforço.
O menino abocanhou um naco de seu pão, pesaroso pela ínfima refeição do mais velho. “Laurent” começava a definhar em virtude daquele inexplicável racionamento ao qual vinha sendo submetido havia semanas.
Por sua vez, Camus de Turenne sentia-se realmente fraco, cada vez mais fraco. Agora, além do vinho, do pão e da carne, retirados em sua totalidade, diminuíam-lhe paulatinamente a quantidade de mingau, sopa e cebolas. Mas o que o apavorou de verdade foi quando até à água passou a ter acesso limitado. Permitiam-lhe a ingestão do líquido unicamente quando do trabalho nas galés, e, ainda assim, com perverso controle. Percebeu que o capitão circulava pelo refeitório improvisado no convés. Malgrado o grego estivesse ali sob pretexto de verificar sua tripulação, não pôde deixar de encarar diretamente, à distância, o jovem ruivo que tão obstinadamente resistia-lhe às investidas. Este preferiu evitar encará-lo a enfrentá-lo com alguma mirada desafiadora que, sabia-o, de nada lhe adiantaria.
“Não hás de me vencer pela inanição, Saga, tampouco pela sede. Atirar-me-ia antes ao mar, já o revelei”, pensou, rememorando a conversa que tivera com o capitão dias atrás. Sim, submeter-se-ia à morte, antes de submeter seu corpo àquele homem. Fechou os olhos com um misto de repulsa e vergonha ante a lembrança dos lábios invasores do capitão sobre os seus. Do sangue do capitão. Do olhar entre sombrio e vitorioso do capitão. Ele REALMENTE cria que Camus de Turenne render-se-ia àquela infâmia!...
“Milo... se ao menos pudesses tomar conhecimento do que de mim é feito... terás, ao menos, descoberto que meu desaparecimento foi articulado pelo ardiloso Shura de Aguilar?”
Tentava bravamente não pensar em Shura. Por mais que a traição de tão próximo amigo aguilhoasse seu coração, por tortuosos pensamentos entendia-lhe a ação, dado o furor religioso e o apego aos dogmas que dominavam os sentidos do espanhol. Para ele, a instituição Igreja colocava-se acima do amor e da compaixão. Em nada se diferia de tantos, embora a consciência de que Deus era amor lhes escapasse em percepções que não se afigurassem em suas verdades impassíveis.
“Se Milo souber do que fez Shura, deve estar a experimentar excruciante aflição... ou mesmo o ódio”, refletiu, tristemente cônscio de que quaisquer sentimentos fossem vãos, para ambos. Por fim, abanou a cabeça em melancólica resignação. O que o levava a acreditar que o crime de Shura pudesse ter sido descoberto? O marquês procedera com notável astúcia, desde o começo. Mesmo tendo sido cativo e captor avistados pelo artífice-mestre de Saint-Doulchard não lhe garantira a salvação.
“Como o pobre rapaz teria percebido algo? Tanto eu quanto Shura estávamos disfarçados...”
˗ Que tens, Laurent?
˗ Hã?
˗ Tua comida já é escassa, e, ao invés dessa parca refeição te nutrires, metes-te a divagar.
Invadido por súbita ternura, Camus deu um sorriso desta vez sincero. A constante preocupação daquele menino, tão mais novo que ele, remeteu-o, naquele instante, às suas adoradas irmãzinhas Marin e Seika. Saudosas Marin e Seika! Saudoso pai! Saudosas tias! A despeito da animosidade que lhe devotava, não pôde se furtar a revisitar a desafortunada Hilda em suas recordações.
˗ Possuis tu irmãos, Isaak?
˗ Sim, dois ˗ Respondeu o rapaz, farelos de pão caindo-lhe da boca no afã de responder prontamente ao outro, que raro indagava-lhe sobre a vida de outrora. ˗ Ikki e Hyoga. Ikki é o mais velho de nós, e Hyoga, o mais novo.
˗ Que é deles? Disseste que foste vendido por tua própria família a esta embarcação...
Ante a expressão compungida de “Laurent”, Isaak empertigou-se para responder:
˗ Que poderiam eles fazer? A fome e a febre já há muito carregaram Hyoga para os céus. O infortúnio cercava-nos como um faminto lobo das montanhas.
˗ Eu não sabia. Sinto muito.
˗ Como eu disse, foi há muito tempo. O anjinho mal alcançou idade de 2 ou 3 anos.
˗ E quanto ao teu irmão mais velho?
˗ Além de contar com a sorte de que sempre foi o preferido de nossa pobre mãe, por ter notável vigor permaneceu como ajudante de meu pai na terra. A Noruega não é gentil para com os que dela vivem...
Com um suspiro cúmplice, Camus anuiu:
˗ Faço uma ideia. Mesmo a França sendo, de acordo com a expressão por ti utilizada. Mais “gentil para com os que dela vivem”, tempos há em que as condições tornam-se ferozmente atrozes para os honrados trabalhadores da terra.
Após considerar o mais velho com interesse, Isaak observar:
˗ Falas como se tivesses convivido com aldeões o suficiente para, não apenas reconhecer-lhes a existência, como também para respeitá-los. Não obstante, foste nobre de estirpe, antes de seres servo.
Camus evocou sua terra natal, a justa governança de seu pai, o amor da gente do povo pela Casa de Turenne, as festas realizadas nas vilas e aldeias das quais a nobre família participava, sem nunca deixar de receber auspiciosas homenagens. Parecia que havia décadas e décadas que crianças descalças e quase em andrajos ofertaram-lhe vistosos arranjos de flores campestres por ocasião do casamento da “Senhora Camille”.
“Camille”.
“Camille” parecia-lhe tão morta como a própria.
Como seu passado.
Como sua vida.
˗ Tive sim, algum contato com a gente simples dos campos, mesmo antes de me converter em um reles servo do Marquês de Aguilar. ˗ Disse, em tom baixo e notadamente conclusivo.
Do lado oposto onde se encontravam Camus e Isaak, quase oculto pelos vasilhames que transportava, Orfeu analisava a figura do jovem ruivo, bem como a refeição paupérrima à frente deste. Fora ordenado aos encarregados que diminuíssem ainda mais as porções de “Laurent”. Orfeu compreendia perfeitamente que tanto essa medida, quanto a crescente rigidez do capataz para com o novato, consistiam em manobras do capitão Saga para obter o que dele queria. Por mais que isso lhe causasse vil satisfação, logo em seguida atirava-o ao lodo da decepção.
Saga queria tanto assim aquele rapaz? Ora, então por que, como lhe era de direito, simplesmente não o tomava para si? O que o impedia? De que maneira Saga se via IMPEDIDO de consumar sua vontade? A vontade do capitão era a LEI! Sequer seria novidade, Saga já subjugara tripulantes entes e depois de si, o fidelíssimo Orfeu.
“A menos que por Laurent o capitão esteja realmente a nutrir sentimentos...”, a esse raciocínio a boca enchendo-se de amargor.
Seu olhar mortiço deteve-se sobre a imponente figura do capitão. A julgar pela direção exclusiva da insistente mirada do grego, Orfeu sabia que aquela revista nada mais era que mero pretexto: longe de estar alheio ao que Orfeu percebia, “Laurent” procurava abaixar a cabeça.
“É o joguinho do miserável que atiça o capitão”, Orfeu pensou, com raiva surda. Bem que as tramoias de Saga para convencer o ruivo de que melhor seria aceitar-lhe a corte podiam ter efeito adverso ao esperado.... se ao menos “Laurent” sucumbisse às privações a ele impostas...
˗ Orfeu, ao invés de ficares aí parado como um tronco mofado, poderia trazer-nos mais vinho ˗ Demandou um dos homens, limpando o queixo gorduroso com as costas da mão imunda.
˗ Já servi o designado para a refeição matutina.
˗ Mal deu para matar-nos a sede! ˗ Reclamou um outro.
˗ Se tens sede, posso trazer-te água, é tudo.
Um homem corpulento e trigueiro ergueu-se, assim como sua voz indignada:
˗ Que é que se sucede? Sempre recebemos pelo menos três canecas ao alvorecer, e eis que, há dias, temos que nos conformar com apenas uma!
Dando de ombros, Orfeu volveu:
˗ Procedo conforme as ordens que recebi. Se quereis mais vinho, aguardai pelo fim de vossos expedientes. ˗ E voltou a olhar Saga, ainda perdido na contemplação de “Laurent”.
“Por alguma razão que desconheço, não só as rações de Laurent, como também as nossas começam a diminuir. Obviamente, não estamos tão mal quanto o infame serviçal, contudo...”
A palma firme de Kanon pousou-lhe sobre o ombro teso.
˗ Deixa que estes homens te substituam por ora. ˗ Gesticulou para dois subalternos que o acompanhavam.
˗ Não é necessário, resta-me trabalho a fazer, e...
˗ Não foi uma sugestão, Orfeu.
O loiro compreendeu que se tratava de uma ordem expressa. Assentiu, livrando-se dos utensílios que carregava. Conforme ordenou-lhe o irmão do capitão, seguiu-o até a proa do navio. Nuvens escuras avolumavam-se no horizonte áureo. Uma brisa cálida recepcionou-os.
Por sobre os ombros, e através da muralha oferecida por três capangas que o seguiam, Kanon murmurou ao jovem:
˗ É boa hora para tratar contigo de certos assuntos. Meu irmãozinho encontra-se assaz concentrado em outras... coisas.
˗ Sim, não é difícil perceber ˗ Orfeu sussurrou, irritado.
˗ Vejo que tal atitude molesta-te.
˗ Como seria diferente? Creio que não seja segredo sequer para uma pulga deste barco que EU era o favorito do capitão. Mas agora, ele só tem olhos para o detestável Laurent ˗ Acabou por desabafar.
Kanon revirou os olhos dramaticamente.
˗ Deveras, uma injustiça para com tua notória lealdade. E, no mundo dos homens justos, injustiças não devem ser toleradas, e sim severamente punidas...
Com indisfarçável desconfiança, Orfeu replicou:
˗ Quereis chegar a algum lugar a mim desconhecido.
Kanon tomou a liberdade de passar o braço pelos ombros de seu relutante interlocutor.
˗ Meu irmão não tem contado com apoio irrestrito dos tripulantes. Tem-lhes diminuído o vinho e a carne. Os pagamentos por nossas recentes incursões pelo mar também diminuíram.
˗ Nada pelo qual não tenhamos passado antes. Nossas vidas no mar tornam-se como o mar, inconstantes e sujeitas a intempéries e calmarias. Em breve, tudo há de se estabilizar como outrora. E encrespar-se novamente. É a sina dos oceanos.
Kanon sorriu com indulgência.
˗ Orfeu, Orfeu... fiel, sempre fiel, até quando lhe chutam o focinho. Um perfeito cão.
Intenso rubor cobriu as faces de Orfeu. Cerrou os punhos ao retrucar colérico:
˗ Chamastes-me aqui para ofender-me, não vejo por que continuar a ouvir-vos! ˗ Mas, antes que se retirasse, teve o antebraço agarrado pela rápida mão do grego.
˗ Acalma-te. Não intento ofender-te e sim, recompensar-te.
˗ Recompensar-me...?
Algo no sorriso enigmático de Kanon prendeu Orfeu ali, ainda que soubesse que estava a enveredar por caminhos perigosos.
˗ A vida como “preferido” conquistou-te. É-te impossível esquecer de teus dias de glória como amante do capitão... dias que ele, agora, tenciona dar a Laurent.
˗ Que posso eu fazer? ˗ Os olhos de Orfeu tornaram-se úmidos e brilhantes. ˗ Saga está enfeitiçado pelo desgraçado, e a resistência do calhorda tão somente atiça-lhe o fogo!
˗ Podes voltar a viver como naqueles bons e generosos tempos, caro Orfeu, basta que o queiras...
˗ Como...?
Mais uma vez, Kanon estudou ao redor. Viu somente seus homens, que cuidavam-lhe da retaguarda... por acaso, os mesmos homens que encenaram o ataque noturno a “Laurent”, a mando de Saga...
Artimanha por Kanos, sem que seu irmão soubesse, conhecida.
˗ Hei de tomar a Gemini de Saga em algumas luas. Se concederes a mim teu apoio e lealdade, assegurar-te-ei lugar de honra ao meu lado. Viverás, outra vez, como um autêntico nobre ao lado do capitão da Gemini. Do NOVO capitão...
Boquiaberto, Orfeu balbuciou:
˗ Como...? Planejas um motim?
˗ Prefiro referir-me a tal ação como um justo resgate de função. Meu pai outorgou a capitania da Gemini a Saga unicamente em virtude de uma primogenitura de patéticos seis minutos. Sou muito mais capaz que meu irmãozinho para levar a todos nós à fortuna. ˗ Curvou-se para sussurrar ao ouvido de Orfeu. ˗ Sem intempéries, apenas calmarias.
Em um tímido gesto para dele se desvencilhar, Orfeu permitiu-se acusar:
˗ Sabes que isso é impossível. Eu... eu... ˗ Estreitou o olhar corajosamente. ˗ Eu poderia denunciar-vos.
˗ Se não te agradas que teu coração ferido permaneça no lugar, adiante... denuncia-me ˗ Provocou, com um riso despreocupado.
˗ E agora ameaçais-me!
˗ Equivocas-te, pequeno... não se trata de ameaça e sim de um simples lembrete acerca de causas e consequências, meu amigo ˗ Propositalmente conferiu doçura à intimidante fala. ˗ Fica ao meu lado, na hora da tempestade... e permanecerás ao meu lado quando se fizer a bonança.
˗ Vós... vós assumir-me-íeis... tal qual Saga fez um dia? Mesmo sabendo que minh’alma a ele um dia pertenceu?
˗ Qual de nós perderia alguma coisa? Olha para mim ˗ Estreitou os olhos azulados. ˗ Sou a imagem de teu amado.
Um ar de hesitação tomou posse da renitente convicção de Orfeu.
˗ Que pretendeis? Digo... como pretendeis...?
˗ Explicar-te-ei os pormenores quando de tua resposta afirmativa.
Levou uma das mãos de Orfeu até os lábios; beijou-a com reverente suavidade. Quase arfando, Orfeu afastou-se.
˗ Eu... disponho ao menos de um tempo para pensar...? ˗ Indagou, inconscientemente já dando passos retrocedentes.
˗ Três dias e três noites. ˗ Respondeu Kanon, ao mesmo tempo que o vento levava-lhe ao rosto, agora sombrio, os negros cabelos.
Espalmou a mão sobre o próprio peito, em clara menção à ameaça de minutos antes.
Com o olhar esgazeado, Orfeu apressou-se em sair dali, quase esbarrando nos homens que os vigiavam.
Kanon sorriu, vendo-o se afastar. O triunfo já se afigurava no semblante álacre. Virou-se para o oceano, percebendo que as nuvens escuras se dissipavam.
O sol reinaria absoluto, mais uma vez, naquele dia...
*************
O tempo pareceu parar para Giuseppe. Não mais ouvia o derradeiro canto das aves, que se preparavam para se recolher com o partir do sol. Não mais percebeu os dentes-de-leão que planavam suavemente até jazerem no chão verdejante do jardim. Tudo que existia era o rosto suplicante de Afrodite.
Afrodite.
Seu Afrodite.
Seu “bello”.
O homem mais belo que já contemplara. E, decerto, a beleza de seu cerne sobrepujava a mera aparência, a beleza daquele ser irradiava de seu calor, de sua paixão...
Mas...
... desde quando aquela “paixão” fora para ele, Giuseppe, artífice-mestre do Hospital de Saint-Doulchard, o “Máscara da Morte”?
De máscaras, ele entendia.
Confeccionara centenas, no passado, para fins funerários; agora, como um lazer...
Como alguém poderia se oferecer para viver com ele, longe de tudo e de todos, com um semblante tão aterrorizado?
Como alguém confessava-lhe sentimentos com a expressão de quem tenciona evadir-se da forca?
Nos olhos cristalinos como as águas das mais puras fontes tremeluziam temores que suplantavam possíveis amores.
̶ Que tenhas concebido a possibilidade de que eu aceitasse abandonar o posto a mim outorgado pelo Conde de Saint-Doulchard, intriga-me deveras, confesso-o. Não obstante, ao te ofereceres para seguir o caminho a mim sugerido, meu estupor aumenta vivamente. ̶ Pontuou Giuseppe, polido e pausadamente.
O ex-camareiro arregalou os olhos, instintivamente dando um passo para trás.
̶ Acaso despertou no coração pertencente ao Marquês de Aguilar sentimento tal que te impeles a abandonar o senhor Milo, justamente em um momento como este? ̶ Foi quase com frieza que o questionamento, que atingiu o sueco como uma flecha envenenada, foi enunciado.
̶ A-abandonar Milo! Não, não é disso que se trata! Entendeste tudo errado!
̶ Oh, sim? Pois não se encontra ele acamado, vitimado por um súbito e misterioso mal-estar, talvez pelo fardo de torturar o próprio amigo, talvez pelo desaparecimento da esposa adorada, talvez por ambas cousas? E necessitado de teus préstimos?
Afrodite cerrou os punhos, dividido entre a ira e a vergonha.
̶ Por quem me tomas? Milo é meu amigo! E a condessa também...
Calou-se ao morder o lábio inferior antes de prosseguir.
Que verbo usar?
“É”?
“ERA”?
̶ Se os tem, de fato, em tão decantada consideração, por que propões que FUJAMOS... JUNTOS?
̶ E-eu já disse... tua vida corre perigo...
̶ E crês que decidir-me-ei pela fuga por TUA companhia?
Incapaz de responder, Afrodite desviou o rosto pálido.
̶ Tu não me amas. Não como amas o Marquês de Aguilar.
̶ Um sentimento estulto que não poderia impelir-me a observar passivamente tua danação.
“Ele admite. Sequer tentou negar... sua magnanimidade não vai tão longe.”, pensou o toscano, com dolente amargura.
̶ Milo tenciona executar-te. ̶ O loiro viu-se obrigado a abandonar os rodeios.
̶ Tuas ações sugeriram-me isso. ̶ Giuseppe replicou secamente. ̶ A razão é que ainda foge-me ao entendimento. No que o desagradei? No que lhe fui infiel?
Derrotado, Afrodite suspirou, antes de elucidar:
̶ Ele pretende usar tua força física como auxiliar nos... interrogatórios de Shura. Ele... não está obtendo êxito em tortura-lo, uma vez que Shura não lhe revela o que é preciso.
̶ O paradeiro da senhora condessa, não?
O silêncio do sueco cuidou de confirmá-lo.
̶ E por que seria eu merecedor da condenação do senhor conde, uma vez que eu tê-lo-ia ajudado?
̶ Para garantir teu silêncio. ̶ Afrodite admitiu em um murmúrio ressabiado.
̶ O que me leva a inferir que a confissão de Shura de Aguilar revelaria algo que NÃO posso saber, decerto.
̶ És perspicaz.
Giuseppe cruzou os braços e abaixou a cabeça. Pensativo, caminhou até onde jaziam os preciosos pertences do ex-camareiro. Abaixou-se e pôs-se a recolher, um por um. Imobilizado pela tensão, Afrodite viu-se incapaz de juntar-se àquela coleta. Ouviu o artífice-mestre raciocinar em voz alta:
̶ O marquês raptou a condessa. Ou, ao menos, mandou que a raptassem. O senhor Milo pretende que ele confesse e, para isso, espera recorrer à minha ajuda. Não poderei, contudo, viver, caso seu prisioneiro revele o que é feito da senhora Camille...
Após acondicionar todas as joias de volta à caixa de madrepérola ̶ agora rachada ̶ estendeu-a para Afrodite. Este hesitou em pegá-la. Sob forte emoção, por fim o fez.
̶ ... afinal, tal segredo não pode deixar aquela câmara. ̶ Acrescentou.
̶ Entendes por que tens de fugir? ̶ Balbuciou o sueco. ̶ Por favor, não percas mais tempo... Milo não demora a recuperar-se, e tu serás obrigado a atendê-lo. Por isso...
̶ O senhor Milo trouxe-me cá pois julgou-me de utilidade para a resolução de seu caso, isso depois de eu ter lhe contado acerca do que presenciei na taverna perto dos limites de Saint-Doulchard...
̶ Oxalá jamais tivesses visto nada!
̶ Mas vi. E o que vi, está claro, agora, era o senhor Shura contendo a pobre senhora Camille. Ela estava disfarçada de homem, um sagaz artifício de seu ímpio captor, o que não me impediu de reconhecê-la, ainda que tal consciência tenha tardado a chegar-me.
Um violento estremecimento apoderou-se de Afrodite.
̶ O taberneiro e todos presentes garantiram que o prisioneiro do também disfarçado algoz com sotaque espanhol tratava-se de um RAPAZ.
̶ Como bem inferiste, tratava-se de um disfarce ̶ O ex-camareiro apressou-se em falar.
̶ Não obstante, ainda desconheço a razão para o Conde de Saint-Doulchard desejar meu extermínio quando de uma possível confissão do Marquês de Aguilar que possa, efetivamente, levá-lo a conhecer que é feito da estimada condessa.
̶ Isso, infelizmente, não posso precisar. O que posso garantir é que a sua vida está em perigo. E por esse motivo, tens de sair da França, JÁ.
O artífice-mestre estreitou os olhos cinzentos ao encarar seu interlocutor.
̶ E estarias, de fato, disposto a vir comigo? Ou tal afirmação seria tão somente para convencer-me?
̶ Que diferença isso faz?
̶ Fugirias com alguém que não amas unicamente para salvar-lhe a vida?
̶ Fazes com que percamos tempo aqui, deveras. ̶ Murmurou Afrodite, agastado.
̶ Mesmo que o ato signifique abandonar três pessoas que amas?
̶ “Três pessoas”...?
̶ É dispensável que cite-lhes os nomes.
̶ Não quero que pereças, isso é tudo ̶ O loiro admitiu.
A expressão endurecida de Giuseppe suavizou-se.
̶ Eu seria muito egoísta se aceitasse tua proposta. ̶ Ponderou, com voz quase embargada.
“Talvez em meu ‘altruísmo’ também eu esteja sendo egoísta.”, Afrodite pensou, com esmagadora tristeza.
̶ Entretanto... penso que “ser egoísta” é uma característica paradoxal dos que amam. ̶ Disse Giuseppe. E tocou com suavidade as alvas mãos que seguravam o cofre de joias, ao acrescentar: ̶ E eu amo-te como nunca amei nada nem ninguém de semelhante forma.
̶ Giuseppe...
̶ Aceito fugir contigo, meu adorado Afrodite.
Desta vez ele tomou a iniciativa do beijo, que selava o discutido pacto. Afrodite sentiu que não tinha volta. Era uma vida que estava tentando salvar!
Abandonava três pessoas que amava?
Decerto que sim.
Porém...
Milo odiava-o e nunca mais confiaria nele.
Shura desprezava-o e zombara de seu amor.
Camus...
Bem, talvez Camus estivesse mesmo MORTO.
Caso contrário... a descoberta de seu paradeiro valeria uma vida inocente?
Mas...
... a julgar pela tenacidade de Shura...
“Talvez Camus esteja mesmo morto.”, pensou, novamente. E, a essa tardia aceitação, seus olhos encheram-se de lágrimas.
̶ Giuseppe, precisamos partir já ̶ Sentenciou, quase em um sussurro. ̶ Sinto que Milo não demore a...
̶ Peço-te algo antes.
̶ Que me pedes?
O toscano fitou-o com gravidade.
̶ Conta o que pretendes ao Marquês de Aguilar.
Boquiaberto, o ex-camareiro mirou-o com incredulidade.
̶ Como? Que é que me pedes? Por que eu... qual seria a serventia de tal ação?...
̶ Faça-o, apenas. Poderá surpreender-te. ̶ Respondeu com um ar pesaroso, incógnito a Afrodite.
̶ Mas... Giuseppe... que pretendes?
̶ Anda, faz o que te peço. Antes que eu use esse pedido como uma condição para aceitar teu insólito plano.
Um sorriso estranho e triste sucedeu-se àquele enigmático apelo. Desarmado, Afrodite assentiu.
̶ Irei. Já que me pedes com tamanha insistência... bem, vai preparar teus pertences para nossa partida. ̶ Dito isto, correu para o interior do solar. Giuseppe acompanhou-o com o olhar melancólico, em cujo fundo luziu um ambíguo triunfo.
Como já havia estado ali fazia pouco tempo, os guardas da masmorra não fizeram menção de impedir Afrodite de entrar na prisão do espanhol.
Tão alquebrado, a ponto de não animar-se a erguer a cabeça para olhar diretamente o recém-chegado, Shura limitou-se a mirar-lhe os finos calçados e esperar que ele recomeçasse as exaustivas exortações. Como que adivinhando-lhe o pensamento, Afrodite anunciou, em tom altivo:
̶ Não hei de incomodar-te mais com minhas súplicas. Vim tão somente despedir-me.
̶ Oh, sim? ̶ O cativo murmurou, desinteressado.
̶ Partirei com Giuseppe agora mesmo para longe daqui. Para longe da espada homicida de Milo.
Lentamente, o marquês levantou o rosto, como para averiguar a seriedade do jovem.
Não viu no belo semblante qualquer indício de blefe.
̶ Que estás a dizer? Fugirás com o serviçal de Milo, é isso? ̶ Uma careta de dor precedeu uma ácida expressão de desdém. ̶ Tua paixão ímpia pelo carpinteiro oblitera, então, tua lealdade a Milo...
Uma risada rouca escapou-se-lhe dos lábios feridos. Afrodite não se intimidou:
̶ Enganas-te. Não existe paixão alguma. Infelizmente, eu NÃO amo Giuseppe.
Shura fez-se subitamente sério.
̶ Não posso permitir que uma pessoa perca a vida por um erro que foi MEU, em primeiro lugar. ̶ Elucidou Afrodite.
̶ Mas... não entendo ̶ A voz de Shura vacilou perceptivelmente. ̶ Se não o amas, por que decidiste ir com ele...?
O ex-camareiro ergueu as sobrancelhas. Dardejou o prisioneiro com uma impertinente mirada.
“Giuseppe... será possível que tu...”, pensou, incerto. Foi com certa empáfia que respondeu ao homem acorrentado:
̶ É o único jeito de convencê-lo a escapar da cruel artimanha de Milo. Ele é fiel a Milo... e ao amor que, em vão, a mim devota.
̶ E, no entanto, tu não o amas.
̶ Não. Como eu disse... INFELIZMENTE não amo Giuseppe. ̶ Concordou, em tom amargo. ̶ O amor não é algo que consigamos arrancar do peito por mera vontade.
̶ Ora... Afrodite, não me digas que tu... tu ainda...
O sueco queria continuar ostentando a fachada altiva, contudo, lágrimas esquentavam suas órbitas.
̶ Sim, Shura. Meu tolo coração ainda pertence a ti. ̶ Admitiu, reprimindo a custo o iminente pranto.
Sem poder acreditar no que ouvia, Shura balançou a cabeça, os olhos escuros arregalados ao balbuciar:
̶ Não. Não, tu não podes falar a sério.
As lágrimas ganharam livre curso com o cerrar das pálpebras de Afrodite.
̶ Assim bem o quisera eu. ̶ Sua voz quase inaudível provocou arrepios na pele magoada do marquês. Este bradou com súbita indignação:
̶ Depois de TUDO que te fiz?
̶ Nunca fez, com efeito, qualquer diferença, Shura. Meu sentimento não morreu, nem sob as circunstâncias, nem sob a minha vontade. E, de mais a mais, retirar-me-ei de vez de tua presença.
Com dificuldade, porém com firme obstinação, Shura pôs-se de pé. Impressionado com seu esforço, Afrodite contemplou-o, cônscio de que o tempo escoava como areia em uma ampulheta. Mas... sentia-se incapaz de se mover o mínimo que fosse.
˗ Mesmo debaixo dessa maquiagem, posso ver ˗ Tartamudeou o espanhol. ˗ a cicatriz... maculaste teu rosto para salvar-me a vida. Enquanto eu fenecia no leito e minha alma cerceava os portões da Morte, arriscavas-te por MIM naquelas inóspitas montanhas de Saint-Doulchard... sacrificaste tua beleza divinal pela minha vida...
˗ Certa vez, disseste-me que minha beleza não me abandonara nem mesmo após desditoso incidente. ˗ O loiro permitiu-se um sorriso em meio à melancolia.
˗ Não menti. Ainda és a mais bela criatura em que pus meus olhos desgraçados.
Um calor terno avolumou-se no peito dolorido de Afrodite. Malgrado se condenasse por sentir aquilo, de modo algum ser-lhe-ia controlá-lo.
˗ Nasceste para sacrificar-te pelos outros. Por Camus... por mim... e, agora, por Giuseppe... és muito mais próximo de Cristo do que eu, que sempre me arvorei seu fidelíssimo seguidor.
Cerrando os punhos com força, o sueco tencionou desprender-se daquela arriscada atmosfera a envolvê-lo.
Não podia, não podia retroceder.
Por uma vida!...
˗ Eu preciso ir. Adeus, Shura.
E antes que alcançasse a porta gradeada, ouviu:
˗ Não podes ir, Afrodite. Não quero que vás. Não quero que desapareças pelo mundo com Giuseppe!
Sabendo-se néscio, o ex-camareiro estacou. Não pôde controlar os pés, que fincaram-se imóveis no chão de pedra. Teve medo de sua própria pergunta:
˗ E... por que não posso, Marquês de Aguilar?
Shura sentiu todo seu corpo formigar. A garganta tencionou fechar-se como um punho, a fim de impedir a libertação de palavras que, havia tempos, rondavam-lhe o entendimento. Algo se descortinava. Ao invés das esperadas trevas, porém, uma luz intensa o cegava.
Cegava... e abria-lhe os olhos.
Seus lábios trêmulos moveram-se lentamente.
“Vai. Vai-te daqui AGORA, por Deus!”, uma voz gritava na cabeça de Afrodite. Em um gesto brusco, fez menção de partir.
˗ Eu te amo, Afrodite.
Quem?...
Quem dissera aquilo?
Delirava?
Sua imaginação NÃO podia lhe pregar peças, não agora!...
˗ Não vás embora. Não partas com Giuseppe.
Não, então não era ele que delirava, e sim, Shura!
˗ Decerto padeces de febre severa... eis que deliras... ˗ Murmurou o ex-camareiro.
˗ Não há febre alguma, oxalá houvesse uma que me arrebatasse desta existência! Estou irremediavelmente perdido, e não me refiro ao meu destino nas mãos de Milo!
A respiração de Afrodite tornou-se irregular. Não se atrevia a virar-se para o cativo.
˗ Devo confessar-me, antes que me deixes. Que deixes Milo. Que deixes Camus.
Temendo cair de joelhos, para ele Afrodite voltou-se de vez.
˗ Shura... que dizes...?
˗ Dir-te-ei que é feito de Camus.
O jovem loiro aguardou, entre ansioso e incrédulo.
˗ Camus está VIVO, como vós, tu e Milo, supúnheis.
˗ O QUÊ?!? ˗ Afrodite enfim caiu de joelhos.
˗ Pelo menos, ESTAVA, quando o despachei para onde, creio eu, ele certamente ainda há de se encontrar.
˗ Shura... p-por quê? ˗ O pranto do ex-camareiro afluiu, quente, rio fervente de alívio e angústia.
Unindo as mãos, o prisioneiro estremeceu ao dizer:
˗ E-eu não espero que me perdoes, ou que aceites meu sentimento, tampouco hei de empreender qualquer barganha torpe em troca de minha confissão, não te preocupes!
Sem pensar, Afrodite atirou-se aos seus pés.
˗ Não deliras, por acaso? Deixa-me verificar... ˗ Ergueu-se atrapalhado, espalmando a mão sobre a fronte de Shura. ˗ Deus, não, estás gelado como neve... Shura, contar-me-ás onde está Camus? Juras-me?!?
Conquanto não se considerasse digno de tocar o rapaz, Shura tomou-lhe a mão, a mesma que pousara-lhe sobre a fronte.
˗ Pelo meu amor a ti... um amor maldito, que não espero ver correspondido depois de tudo que fiz... um amor que vale o inferno ao qual minha alma há de se precipitar... juro-te. Dir-te-ei onde está Camus de Turenne.
*************
Fale com o autor