Dame Jolie

54 Resoluções e Estratagemas


Notas iniciais
Hey you Desculpem-me pela demora em atualizar. Aproveito este retorno para desejar-lhes um Feliz Ano Novo, com muitas saúde, paz, alegrias e realizações. Obrigada a quem segue firme acompanhando a fic e prestigiando sempre :) Boa leitura!

Afrodite deteve-se defronte o leito, quase ofegante. Considerou o Conde de Saint-Doulchard ainda adormecido, o semblante quase pacífico, a despeito do que o conduzira àquele estado de inconsciência. Desejava que seu coração se acalmasse um pouco antes de dar início ao procedimento, o qual considerava arriscado por desconhecer-lhe as consequências. Entretanto, era imperioso que Milo D’Auvergne acordasse.

Pousou em uma mesinha de cabeceira a escudela que trazia nas mãos. No líquido escuro de seu interior mergulhou um pano macio; torceu-o para dele retirar o excesso. O cheiro pungente em suas afiladas narinas comunicou-lhe a eficácia esperada. E então, resoluto, pressionou o pano sobre o nariz de Milo.

Não demorou nada para os olhos azul turquesa se mostrarem. Prontamente o peito do conde arqueou-se. Quase em agonia, Milo tossiu diversas vezes antes de bufar e gemer. A fim de evitar receber qualquer golpe acidental ˗ ou não ˗ Afrodite afastou-se com presteza do homem que retornava à consciência.

˗ Deus seja louvado! O preparado funcionou!

˗ Q-quê? Afro... Afrodite...? ˗ Murmurou Milo, confuso, com lágrimas nos olhos de tanto tossir. Sua garganta ardia como brasas em uma lareira.

˗ Sim, sou eu, Milo!

˗ Que está havendo? ˗ Demandou fracamente. ˗ Onde é que eu estou?

Enxugou o rosto úmido com a manga da túnica

˗ Por que esfregaste esse... esse... eu não sei que diabos é isso... em minha cara?!?

˗ Estiveste desacordado por horas, Milo. Foste acometido por algum mal súbito enquanto conversávamos ˗ O ex-camareiro permitiu-se um sorriso irônico. ˗ Bem, melhor seria dizer, quando tencionavas esganar-me como a uma perdiz.

O conde considerou-o entre confuso e agastado. Afrodite prosseguiu:

˗ Preparei uma mistura de vinagre, vinho, hortelã, aguardente de maçã, claras de ovos de codorna, extrato de urtiga, sangue de ganso e urina de porco, a fim de interromper teu sono. Fico contente em constatar a eficácia do preparado, foi a primeira vez que o utilizei.

˗ A eficácia é proporcional ao fedor, meu caro. Creio que apenas um cadáver não seria acordado por esse cheiro infernal. Serei obrigado a banhar-me antes do planejado...

˗ Não há tempo para isso ˗ Interrompeu-o Afrodite. ˗ Acordei-te por uma razão urgente. Precisas partir para buscar Camus.

Milo arregalou os olhos. Foi como despertar uma segunda vez. Antes que questionasse o sentido das palavras de Afrodite, este revelou, com um sorriso:

˗ Shura confessou-me TUDO. Milo, Camus NÃO está morto. Exatamente como pensávamos! ˗ Pôs as mãos sobre os ombros do nobre ainda atônito. ˗ Camus está VIVO, Milo. VIVO!!!

˗ Vivo?... Camus está... vivo? ˗ Balbuciou, principiando a tremer. ˗ E-eu... eu SABIA, em meu coração eu SABIA, tanto é que... eu... mas...

Afastou as mãos do outro de si e perguntou vivamente:

˗ Que queres dizer com “Shura confessou”? Foste ter com ele na masmorra? Ele disse o que fez com Camus?

˗ Sim, ele enfim revelou o que fez com Camus. Contar-te-ei já. Antes, bebe água, meu amigo...

˗ Para o diabo com a água! Diz-me de uma vez por todas, com mil demônios!!!

˗ Certo... ˗ Afrodite tomou fôlego para esclarecer: ˗ O plano inicial de Shura era MATAR Camus. Ele considerava que o vosso relacionamento conduzir-te-ia à danação eterna. Como vossos laços de amizade suplantavam-lhe o senso do dever, decidiu eliminar Camus ao invés de denunciar a ti. Mas, tocado de alguma forma, decidiu afastá-lo de ti, tão somente...

˗ “Tão somente” ˗ Repetiu Milo, entre dentes. ˗ Devo agradecer-lhe pela gentileza com um banquete?

˗ Escuta com calma.

˗ Estou a escutar!

˗ Shura enviou uma carta falsa endereçada a Camille de Saint-Douchard. Supostamente era uma missiva do Duque de Borgonha, no entanto, seu conteúdo continha ameaças contra ti...

˗ Contra mim?

˗ Ele ameaçava denunciar teu relacionamento com um HOMEM, e um homem que serviu-se de uma identidade falsa por anos.

˗ Com isso condenaria não apenas a mim e a Camus, como também a nossas famílias ˗ Murmurou, rubro de ódio.

˗ Exatamente. Camus não viu outra saída a não ser proceder conforme as vis orientações da carta.

˗ Partiu ao encontro de Shura... e o maldito o raptou! Mas para onde o levou, afinal de contas? Onde está MEU Camus?!?

˗ Fala baixo, por Deus. Ameaçaste a vida de um inocente em prol da manutenção do segredo e agora intentas pô-lo a perigo?

Com expressão raivosa, Milo preferiu ignorar aquela menção.

˗ Diz-me, para onde Shura o levou? Onde o prendeu? Ele há de estar preso em algum lugar, ONDE? ˗ Indagou em voz baixa, malgrado sua ânsia por respostas.

Afrodite suspirou, temeroso pela reação vindoura.

˗ Neste momento, encontra-se como um forçado nas galés de uma embarcação chamada Gemini. No Mar Vermelho, rumo ao Oriente.

O olhar de Milo esgazeou-se. Ele abriu a boca mas não foi capaz de nada proferir.

˗ Shura entregou-o ao capitão, sob alegação de que tratava-se de um criado em grave falta.

˗ O... o quê? Camus está... ele... Afrodite, estás a me dizer que Camus...

˗ Foi entregue como VARÃO, sob o nome falso de “Laurent”.

˗ Como... como Shura pôde... ˗ Estremeceu sob múltiplas emoções. A mais importante, contudo, prevaleceu; ele conteve-se, parou de tremer e, com firmeza na voz, demandou: ˗ e para onde dirige-se a tal embarcação?

˗ Para Antioquia. Ao menos foi o que informaram a Shura.

˗ Antioquia ˗ Pôs-se de pé, ajeitando a túnica amarfanhada. ˗ Que hei de fazer? Mesmo que eu parta agora para Marselha e tome um barco, os malditos terão chegado antes, bem antes, ao porto de Antioquia!...

˗ É uma embarcação comercial. Ficarão atracados por pelo menos o dobro de tempo que hás de levar em tua viagem, a fim de fazerem negócios na cidade e nas cidades próximas, Milo. Temos chances, sim, de chegar até Camus!

˗ Um navio mercante... mercadores em busca de produtos orientais... mas claro... ˗ Milo ponderou pensativo. ˗ Haverá tempo. Se eu partir AGORA.

˗ Não irás sozinho.

˗ É preciso. Sabes bem a razão.

˗ É sandice lançar-te a tal empreitada sozinho, Milo! Deves contar com, ao menos, dois homens para acompanhar-te e te amparar. Não sabemos de que jeito recepcionar-te-á o capitão Saga.

˗ Dois homens ˗ Milo arqueou uma sobrancelha. ˗ E quem seriam?

˗ Não te é evidente? ˗ O sueco deu um sorriso cúmplice. ˗ Eu e Shura.

Foi a um custo extremo que o conde não retrucou aos berros:

˗ Tu deliras! Crês que depois de TUDO que Shura fez, hei de confiar nele? E como acompanhante de viagem, ainda por cima?!?

˗ Milo, raciocina! Quem entregou o dito “criado Laurent” foi Shura! Quem melhor que a pessoa que fez o negócio com o capitão para desfazê-lo?

Enfurecido, Milo atirou a escudela com o remédio e o jarro de água ao chão com um gesto exasperado.

˗ Recuso-me! Recuso-me a contar com Shura de Aguilar novamente nesta vida! E por falar em vida, eu deveria MATÁ-LO AGORA MESMO por esse estratagema diabólico!

˗ Milo...

Em meio ao seu acesso de cólera, o conde agarrou os próprios cabelos, torcendo-os furiosamente.

˗ Nas galés, Afrodite! Podes imaginá-lo todos esses dias nas galés? O quanto ele deve estar sendo maltratado? Não é segredo para ninguém como lidam com os condenados às galés, invariavelmente escravos, prisioneiros, criminosos, desafetos de...

Com cuidado, Afrodite tomou-lhe as mãos contraídas, quase sem cor.

˗ Não será para sempre ˗ Disse, assertivo. ˗ Não se agirmos da forma correta, racional. É infinitamente melhor saber que Camus experimenta essa provação temporária do que sabê-lo MORTO, não concordas?

Lágrimas afluíram dos olhos semicerrados do conde. Ele assentiu, aceitando o apoio de Afrodite.

˗ Tens razão. Camus é forte. Sempre foi. O homem mais forte que já conheci ˗ Falou comovido. ˗ decerto que suportará esses dissabores até que o resgatemos.

˗ “Resgatemos” ˗ Ao repetir, o semblante de Afrodite iluminou-se. ˗ Queres dizer que acatas minha sugestão?

˗ Por Camus. ˗ Anuiu, sombrio. ˗ E tão logo Shura cumpra sua função de agenciador da devolução de Camus, matá-lo-ei com minhas próprias mãos.

Nem um pouco surpreso, Afrodite assentiu:

˗ Creio que ele não há de se opor a tal destino. Crucial é que esteja conosco ao negociarmos com o capitão da Gemini. Já adiantou-me que é um homem assaz ambicioso.

Notando certa amargura no tom do amigo, Milo considerou-o com indisfarçável desconfiança.

˗ Como foi que conseguiste a confissão de Shura? Duvido que tenha sido sob tortura...

˗ É uma história complicada... por ora, digo-te que o desenlace da mesma deve-se a Giuseppe.

˗ Giuseppe?

˗ Sim, o pobre diabo que tencionavas executar, caso da confissão de Shura emergisse o segredo que somente a nós compete conhecer.

Tomado de apreensão, o conde quis saber:

˗ Giuseppe... estava contigo na hora da confissão de...

˗ Não, não, sossega-te. Giuseppe nada sabe acerca de Camus.

˗ Então, qual a relação dele com tudo isto? Aliás, como é que adentraste a masmorra? Os guardas tinham ordens para...

˗ Milo, temos SEMANAS de viagem pela frente! Minha história poderá entreter-te durante a jornada. Urge que partamos, ou não?

˗ Com efeito. Preparemo-nos, então. Deixarei Shura a teus cuidados. Eu... ˗ Virou-se para a janela. ˗ não quero vê-lo até nossa partida.

˗ Ele está em péssimas condições, mas posso cuidar disso. Sequer é certo que sobreviva a essa viagem, mas ˗ Procurou as palavras com cuidado. ˗ remediar o que fez é mais importante que sua vida agora.

˗ Acaso ele te disse isso?

O sueco informou inclinando a cabeça em uma afirmativa. Milo dirigiu-se para a porta, dizendo por fim:

˗ Conto contigo para que ele sobreviva até chegarmos a esse capitão Saga. Desempenhas ofício de médico já não é de hoje. O que acontecer com ele depois... não me importa.

Concluída sua fala, deixou o quarto. Afrodite esfregou os olhos com as mãos costas da alva mão, consciente de que tinha um árduo trabalho pela frente.

Aliás, DOIS árduos trabalhos.

“Giuseppe...”, pensou, a palma sobre o coração.

*************

Após a refeição matinal ˗ que para Camus não significou quase nada ˗ os marujos dirigiram-se aos seus postos de trabalho. O sol irrompia por entre as nuvens douradas, um portentoso anúncio de sua preponderância naquele dia.

Camus andava ao lado de Isaak, sem dar mostras de sua fraqueza. Havia dias que suas rações diminuíam paulatinamente. Tinha certeza de que só não o submetiam ao completo jejum porque era do interesse do capitão que suas artimanhas não ficassem tão evidentes aos olhos dos tripulantes. Não obstante, fazia-se impossível interpretar o tratamento dispensado a “Laurent” como imparcial. As longas miradas de Saga na direção do famélico novato, suas constantes procuras pelo rapaz e suas ordens para que lhe diminuíssem as refeições ou para tratamentos cada vez mais rígidos na galés aumentavam as desconfianças da tripulação. Disso se valia Kanon, angariando aliados aqui e ali para seu motim. A obsessão deixara Saga negligente, tanto para com seus deveres como capitão como para o complô que fervilhava ao seu redor. Kanon contava com o apoio de pelo menos um terço dos homens, era certo, mas cuidou de procurar os mais influentes e hábeis da embarcação. Durante o motim que explodiria em uma madrugada próxima, os dois terços restantes rapidamente convencer-se-iam de qual lado deveriam ficar.

Da proa do navio lançou um olhar cobiçoso para Dohko, que falava com alguns marujos. Seria excelente trazê-lo para seu lado. Homem de confiança de Saga, seria de inestimável préstimo tê-lo como aliado.

“Entretanto, é muito arriscado. O miserável é deveras fiel a Saga. Óbvio que todos têm um preço, porém... pode ser que o preço que EU tenha que pagar tentando comprá-lo torne-se deveras alto”, refletia. Reparou que Dohko deixou os homens com quem conversava e foi até “Laurent”, que começava a descer para as galés. Kanon apurou os ouvidos e pôde distinguir-lhes as frases:

˗ Laurent, o capitão chama por ti. Vai já até seu camarote.

O ruivo pareceu hesitar. Alguns homens já segurando os remos entreolharam-se.

˗ Não devo me juntar aos meus companheiros para...

˗ Deves obedecer-me! ˗ Dohko brandiu o chicote em claro aviso. ˗ Depois estes cães acusam-me de ser excessivamente rigoroso para contigo. Dás-me tu alternativa?!?

˗ Perdoa-me. Irei agora mesmo.

˗ Hunf. Pedes perdão sem, contudo, pareceres arrependido. És um dissimulado... ˗ Resmungou o chinês, forçando uma severidade que de fato não existia. No fundo, tinha pena do rapaz. Já vira aquele teatro antes. Nunca, porém, presenciara resistência tenaz como a de “Laurent”. Se ao menos o jovem fosse solícito como Orfeu e tantos antes deste...!

“Esse coitado ainda há de se converter em alimento de peixe”, pensou com um pesar de que ele sequer lembrara possuir. Seu olhar cruzou com o de Kanon. Disfarçou o mal-estar que experimentou em ser alvo daquela mirada. Não confiava no irmão do capitão. Conhecia-lhe a insatisfação por não ter herdado a liderança da Gemini, estivera lá quando o moribundo pai dos gêmeos delegou ao primogênito o seu legado. Imaginava que o recente comportamento do capitão, cujo foco atual era apenas “Laurent”, tornava-o cada vez mais vulnerável.

“Isso não há de acabar bem”, pensou, coçando a cabeça. Viu Orfeu se aproximar de Kanon. “Não mesmo”.

˗ Vim trazer-vos a resposta. ˗ O jovem anunciou ao irmão do capitão. Este sorriu, antegozando uma satisfação infinda.

˗ Três dias e três noites. És um mancebo de palavra.

Orfeu desviou o olhar. Aqueles sorrisos de Kanon feriam-lhe. Faziam-no lembrar dos sorrisos do capitão para si, e da traição que estava prestes a cometer contra aquele a quem tanto amava.

˗ Ao contrário de vosso irmão, sou.

˗ E qual é tua resposta, belo Orfeu?

Permitindo-se um sorriso, disse em voz baixa:

˗ Podeis contar com o meu apoio, futuro capitão.

Malgrado estivessem distantes de Dohko, mais especificamente na proa do navio, o capataz percebeu-lhes os sorrisos suspeitos. E mais uma vez, o olhar, agora desafiador, de Kanon encontrou o seu. Um arrepio gélido correu-lhe pela espinha.

*************

Camus revirou os olhos e soltou um suspiro curto antes de bater à porta. Esta foi aberta sem demora.

˗ És um homem estranho, Laurent! Para que bater, se ordenei que viesses até aqui? Se assim o fiz, é porque quero que entres logo ˗ Puxou o jovem pelo braço, fechando a porta em seguida.

Notou que o ruivo por pouco não se desequilibrou. Deu um meio sorriso, perversamente ciente da razão.

˗ Anda, toma assento.

Camus não fez objeção; sabia ser inútil. Sentou-se em um canapé marroquino, sentindo os músculos cansados.

˗ É a primeira vez que me obedeces de imediato, Laurent ˗ Observou exultante. ˗ Devo pensar que te tornas, enfim, sensato?

Em uma altivez gélida, o ruivo respondeu:

˗ Minha resposta a vós de forma alguma condiciona-se à minha condição física. Mesmo neste aspecto subjugado, recusar-vos-ei.

O grego tornou-se sério.

˗ Laurent, é meu ÚLTIMO aviso.

Foi a vez do prisioneiro sorrir.

˗ Então minha execução se aproxima? Pois pronto estou, que venha sem delongas.

˗ Tu ˗ Saga bufou ˗ realmente preferes a MORTE ao meu misericordioso e abnegado oferecimento?

˗ Creio que já vos dei essa resposta. Não compreendo por que... por que demandastes minha... presença aqui...

A voz finou-se na garganta seca. Uma vertigem apossou-se dele. Porquanto tentasse disfarçar, o capitão percebeu-lhe o mal-estar:

˗ Que tens? Acaso sentes-te indisposto, ou...

Camus prontamente pôs-se de pé, o que se revelou uma decisão inapropriada: vacilou como quem encontra-se prestes a desfalecer. Saga adiantou-se para segurá-lo.

˗ Estás fraco, Laurent.

˗ Soltai-me... ˗ Pediu, débil, sem por isso deixar de perceber o tom de satisfação do outro.

˗ Posso acabar com teus sofrimentos neste barco. Basta que me aceites como teu protetor e amante.

˗ Sabes muito bem... a QUEM prefiro...

˗ Preferes a MORTE a mim, bem o sei. Desnecessário é que o repitas. ˗ Saga franziu o cenho ao expressar-se com desagrado. ˗ Desconheces, Laurent, que poucos a mim resistiram, e os que assim intentaram, sucumbiram à minha força, de qualquer maneira.

Camus desvencilhou-se dele às custas de suas derradeiras forças. Volveu, mordaz:

˗ Em outras palavras, vós os violastes.

˗ Tu escolhes palavras a teu bel prazer... tenho todo o direito, tenho sobre MINHA tripulação direito de vida e morte!

˗ Pois que me agracieis com a MORTE, senhor capitão, pois a mim não tereis, nem que sejais revestido de divindade.

Aturdido, Saga permaneceu incapaz de responder por uns instantes.

Sim, se queria TANTO “Laurent”... por que simplesmente não TOMÁ-LO para si, do mesmo modo como já fizera anteriormente?...

Como se respondesse aos próprios pensamentos, elucidou ao ruivo em voz alta e firme:

˗ Ocorre que o que sinto por ti difere de tudo que já senti antes por qualquer pessoa. Não é a primeira vez que o revelo a ti. Por que segues a rejeitar-me tão veementemente?!?

˗ Porque jamais hei de corresponder-vos em tal sentimento.

Estreitando os olhos ao encará-lo, Saga observou:

˗ É certo que devotas imenso amor a alguém. Entretanto, esse alguém não mais o terá, Laurent. Nunca mais.

Ante aquelas palavras, mais uma vez Camus sentiu vertigem. Esperou em silêncio e imóvel, até que a mesma passasse, e, quando isso misericordiosamente ocorreu, indagou, de cabeça baixa:

˗ Permitis que agora eu retorne ao meu posto de trabalho?

Soltando bruscamente o fôlego que vinha prendendo nos últimos segundos, Saga pontuou, irritado:

˗ Da próxima vez, não te verei tão altivo, Laurent, tenho a certeza. Tem-na tu, também. Vai, aparta-te de mim!

Após uma curta mesura, Camus retirou-se dos aposentos do capitão. Este, em total fúria, derrubou vários objetos da mesa e do aparador; taças, garrafas, candelabros foram ao chão, alguns se despedaçando como suas esperanças em obter o que queria da maneira que tencionara. Chegou até a porta. Abriu-a esbaforido e gritou:

˗ Que alguém chame Dohko! Dohko deve vir até aqui! AGORA!!!

*************

˗ Mandastes chamar-me, excelência?

˗ Sim, Giuseppe, entra, por favor.

O toscano obedeceu e adentrou o rico gabinete. Reparou que o Conde de Saint-Doulchard tinha outro aspecto, algo nele irradiava uma força inédita. O nobre havia mudado de vestimentas, os trajes escuros, austeros e em detalhes de couro denotavam que, possivelmente, uma batalha ou uma jornada acabava de ser decidida. E adivinhou-lhe a razão, conquanto mantivesse a discrição.

˗ Serviste-me com irrepreensível lealdade durante este lamentável ocorrido com minha esposa. ˗ Começou Milo, fitando-o com gravidade. ˗ Ainda desconheço os pormenores de tua influência no desfecho do caso, mas Afrodite garante-me que devo a ti a confissão do Marquês de Aguilar.

Embora não lhe fosse de fato uma surpresa, Giuseppe não pôde deixar de arregalar os olhos.

˗ Então o Marquês de Aguilar revelou o que queríeis saber?

˗ A esta altura, imagino que saibas do que se trata. ˗ Arriscou Milo, com receosa cautela.

˗ O paradeiro da senhora condessa. A julgar pelos últimos acontecimentos, depreendo que, por algum motivo torpe, o qual ignoro, o marquês a raptou e a prendeu em algum lugar.

˗ Ignoras, então, o motivo? Sequer arriscas um palpite?

O artífice-mestre analisou aquele questionamento com estranheza. Respondeu o mais neutro que podia:

˗ Ou tencionava pedir-vos resgate pecuniário... ou cobiçava vossa consorte.

A resposta deu um pouco de alívio a Milo.

˗ O maldito revelou a Afrodite onde ela está. ˗ Anunciou, por fim. ˗ Partirei com Afrodite e Shura até seu cativeiro e a traremos de volta.

Giuseppe não escondeu seu estupor.

˗ Shura? O senhor... o senhor há de libertá-lo? Depois do que ele fez?!

˗ Afrodite considera que a presença dele é de suma importância para que recuperemos Camille, uma vez que é o único que conhece o local do cativeiro. Embora eu deteste admitir, Afrodite está certo.

“Claro. Afrodite já se pôs a interceder pela reabilitação de Shura.”, pensou, a mágoa pesando dolorosamente sobre seu coração.

˗ Levaremos semanas até nosso retorno. Chamei-te aqui porque quero delegar a ti a função de guardar o solar até lá.

˗ E-eu? Senhor, sou apenas um carpinteiro, não um oficial de tropas...

˗ Não me refiro à segurança e sim à parte diplomática e administrativa. És meu representante em minha ausência, a partir de agora. Meus assessores em Paris dar-te-ão todo anteparo necessário.

˗ Eu... de verdade, não sei o que fiz para merecer tamanha confiança, excelência. Confesso que preferia acompanhar-vos em vossa jornada, cometo a ousadia de questionar se é viável que depositeis alguma confiança no Marquês de Aguilar novamente. Ele traiu-vos de maneira por demais sórdida.

Um tanto cansado de argumentar, Milo disse:

˗ É verdade. Contudo, é assim que deve ser. Agradeço teu oferecimento, mas prefiro que procedas de acordo com a minha vontade.

˗ Sempre, excelência ˗ Giuseppe curvou-se profundamente, em sinal de que acatar-lhe-ia as ordens. Pensar que aquele nobre, que cogitara assassiná-lo, agora colocava em si tanta confiança!
˗ Partiremos rumo a Marselha e de lá embarcaremos para onde Camille se encontra.

A julgar pelo que o conde dizia, a pobre mulher havia de estar bem mais longe do que podia imaginar... por que o marquês fizera tudo aquilo? E com pessoas que o trataram como parte da família, sabia-o?

Bem, nada daquilo realmente dizia-lhe respeito. A eles devia subserviência, e assim procederia. A despeito do quão ferido lhe deixara a decisão de Afrodite.

Sim, pois mesmo que o bello ainda não lhe tivesse revelado, após a dita confissão do prisioneiro, sabia quem fora, no fim, o escolhido do ex-camareiro.

“Shura nunca saiu de seu coração, afinal.”

Seu desejo era abandonar de vez a França e voltar para sua terra. As ordens do soberano de Saint-Doulchard, porém, impediam-no.

Bem, ao menos, DEVERIAM impedir...

Seriam, de fato, suficientes para prendê-lo ali?

˗ Perdoai minha indiscrição, mas... onde se encontra o senhor Afrodite neste momento? ˗ Sequer saberia de onde viera a coragem para fazer tal pergunta.

A princípio, um lampejo de desagrado fez-se perceptível na expressão do conde. Considerando, todavia, que muito lhe fizera o artífice-mestre, dignou-se a responder:

˗ Está a cuidar dos ferimentos de Shura. O desgraçado precisará estar em condições suficientes para viajar conosco. Queira Deus que o Diabo venha apenas buscá-lo após encontrarmos Camille.

Em seu íntimo, Giuseppe desejou o mesmo. Não que lhe trouxesse qualquer vantagem.

Afrodite escolhera Shura.

Vivo ou morto, era Shura quem possuía o coração do bello.

E... talvez nem mesmo uma sombra de dúvida tenha pairado por sobre aquele coração, em momento algum.

Nada mais lhe restava ali, somente aquele senso de honra... o qual, na verdade, ele não saberia até quando existiria.

*************

˗ Chamastes por este humilde servo?

˗ Sim, entra, Dohko.

O capataz obedeceu ao capitão. Uma vez no interior do camarote, lançou um olhar espantado ao redor. Objetos espatifados, cadeiras derrubadas, cacos de vidro e de porcelana aqui e acolá, tapetes fora do lugar... inferiu prontamente que “Laurent” seguira incontinenti nas recusas às investidas de Saga.

˗ Laurent permanece irredutível! ˗ O capitão confirmou a suposição do recém-chegado. ˗ Escuta-me, Dohko, deves tratá-lo com particular severidade hoje. As galés devem se tornar insuportáveis para aquele ruivo teimoso!

O chinês engoliu em seco. Malgrado o receio por se mostrar intrometido, não pôde deixar de alertar:

˗ O rapaz já se encontra deveras debilitado. Temo que sucumba se eu usar de violência para com ele. E imagino que perdê-lo não é de vosso interesse.

˗ Quem falou de violência? ˗ Safa afetou indignação e, em seguida, sorriu ao explicar: ˗ Não é a essa severidade que me refiro. Com Laurent precisamos variar os métodos de “convencimento”. Ele já foi esbofeteado por ti, açoitado, molestado pelos meus homens, teve suas rações quase que totalmente retiradas e nada disso cuidou de dobrá-lo. Não obstante, como bem observaste, tais ações minaram-lhe o ânimo, deixaram-no debilitado. Pois bem, desta vez, não apenas quero que raciones sua água, quero que o impeças de bebê-la.

˗ Durante quanto tempo?

˗ O dia inteiro.

˗ Mas... hoje fará calor demasiado... Laurent já está fraco, sem água neste clima, ele...

˗ Não submeti meu plano à tua análise, Dohko ˗ Interrompeu-o secamente.

˗ Sei disso, meu senhor! Mas... se tais tratamentos continuarem, ele certamente não há de sobreviver por muito tempo! E, se o cobiçais tanto, não vejo sentido em...

˗ BASTA! ˗ Bradou Saga, tomando na mão direita seu próprio chicote, sempre a postos na cintura, a despeito das roupas finas. ˗ Faz conforme estou a ordenar, ou serás TU a experimentar DISTO!

Instintivamente, o chinês recuou, afastando-se do capitão. Gesticulou amedrontado ao clamar:

˗ Perdoai-me, perdoai-me! Prometo-vos cumprir vossas ordens para hoje...

˗ Para hoje não: até que ele capitule. Agora vai-te daqui. Não deixes de me informar a respeito dele. Laurent logo há de considerar que aceitar minha proposta é melhor que morrer aos poucos.

˗ Sim, como quiserdes ˗ Dohko curvou-se com reverência e deixou rapidamente o camarote, pesaroso por mais uma vez ter de ser o veículo daquela injustiça. Podia ser rigoroso, sim, por vezes excessivo até, ao desempenhar sua função nas galés. Mas aquilo não passava de puro capricho e, como tal, injusto. O único erro do pobre novato fora cair nas graças do capitão. “Espero que o tolo aceite logo de uma vez a proposta do capitão”, pensou, enquanto dirigia-se de volta às galés.

Alheio à completa desordem em que ficara seu aposento, sorriu perverso ao pensar: “Sim, como muitos homens de honra, Laurent alega preferir a morte ao que lhe é imposto. Não obstante, ao fazê-lo, tais homens contam com mortes heroicas, rápidas e violentas. Poucos suportam, verdadeiramente, a agonia de uma morte lenta. Ele acabará por se render a mim...”

Já ocupando seu posto junto aos remos, Isaak aproveitou a ausência de Dohko ˗ que não permitia que conversassem com o novato em serviço ˗ para inquirir ao amigo:

˗ Que tanto o capitão quer contigo, Laurent? Ele tem demandado com insólita frequência tua presença em seus aposentos.

˗ Não é nada ˗ Murmurou o ruivo, sem qualquer disposição para conversar.

˗ A sério que não imaginas? És mesmo um menininho inocente... ˗ Escarneceu Jamian, vigiando-os no lugar de Dohko.

˗ O que foi que disseste, cara de corvo?

˗ QUÊ? Com quem pensas que estás a falar, fedelho insolente?

˗ Isaak, não ˗ Foi tudo que Camus conseguiu proferir, ao erguer vagarosamente um braço à frente do adolescente, em um gesto patético para contê-lo. Em seguida, voltou a segurar os remos, a expressão tal que fez Isaak comentar:

˗ Pareces particularmente fraco hoje... creio que adoeces.

˗ Estou bem.

˗ Não, não estás! Por Deus, deverias denunciar ao capitão que estão a racionar severamente tuas porções de alimento e vinho!

A gargalhada rouca de Jamian deixou à mostra os dentes podres. Bradou para Isaak, divertido:

˗ És mesmo um fedelho inocente, como eu disse! Ou então, néscio como uma lesma do mar!

Em meio aos risos dos outros, Isaak pôs-se de pé ao rebater irado:

˗ Mais uma palavra e arranco-te as penas pretas, cara de corvo!!!

Furioso, Jamian caminhou na direção de Isaak, já brandindo o chicote. Camus fez menção de se interpor entre o amigo e o iracundo marujo, quase desfalecendo no processo. Um mero movimento brusco e a vertigem voltava... felizmente Dohko apareceu para cessar a confusão instaurada:

˗ BASTA! Nada de celeumas, quero todos empenhados tão somente em remar! Hoje está um dia propício a que singremos o máximo possível esse plácido oceano!

˗ Mas Dohko, esse cretininho estava a me provocar, merecia umas boas chibatadas no lombo para aprender!

˗ Jamian, quando eu digo “nada de celeumas”, dirijo-me também a ti.

˗ Hunf, como se eu fosse esses ratos com os quais lidas...

˗ Acaso ousas retrucar-me na frente destes RATOS?

Foi só o capataz erguer o chicote no ar para Jamian escapulir até o fundo da embarcação, exatamente como um rato... resolvida a questão, Dohko olhou para “Laurent”, que remava com dificuldade visivelmente maior que nos dias anteriores. Em seguida, lançou um olhar para o sol que se erguia, implacável, no firmamento agora desprovido de nuvens. Suspirou, lamentando a triste sorte do novato. Seus anos de experiência permitiam-lhe prever o desfecho do caso só de observar o estado lastimável do rapaz.

Bem, era seu trabalho e só lhe restava cumpri-lo.

“Que Deus tenha piedade desse pobre diabo”, pensou, antes de berrar a plenos pulmões:

˗ Vamos! Eia, vamos! Estais mortos ou o quê? Creio que os mortos remariam com mais vigor! Obedecei-me, cães, ou quem há de falar convosco daqui em diante não mais serei eu, e sim o meu chicote!!!

*************

Imaginava estar planando por sobre as nuvens tocadas pela doce tepidez do sol, bem como as aves que tão grandiosas alturas alcançam. Ousou abrir os olhos a fim de contemplar as vastas paragens abaixo de si. A visão embotou-se até perceber que jazia por sobre a maciez da seda e sob o toque das mãos de um anjo...

˗ Vejo que despertas. Continua, contudo, parado. Auxiliar-me-á a terminar com isto.

˗ Q-quem... A... Afrodite? ˗ Ciciou confuso, ao dar-se com a realidade. Algo gélido, de aroma pungente, espalhava-se por suas costas. Soube de imediato que Afrodite aplicava-lhe algum de seus unguentos tidos como milagrosos. Notou que ataduras envolviam suas mãos até bem abaixo dos pulsos. E percebeu, maravilhado, que a dor o abandonara. Fez conforme lhe instruía o aprendiz de médico ˗ decerto bem mais capaz que muitos formados e renomados. Permaneceu imóvel e em total silêncio, tanto por obediência quanto por constrangimento.

Assim que o sueco uniu as ataduras cruzando-as e prendendo-as sobre a parte de trás do torso tantas vezes seviciado, disse:

˗ Pronto. Recomendo que permaneças deitado de lado, pois fiz curativos na área peitoral também.

Com certa dificuldade, o marquês posicionou-se do modo indicado.

˗ Agora cuidarei de teus pés. As queimaduras estão infeccionadas. Preferi, entretanto, tratar primeiramente dos ferimentos superiores, pois estavam em condições até piores. ˗ A voz de Afrodite soava estranhamente impessoal, quase fria.

Será que ele se recordava da declaração que por seus lábios feridos escapara na masmorra...?, era o que Shura pensava, aflito. Considerou o lugar onde se encontrava. As ricas tapeçarias pelas paredes regulares de pedra clara, os intrincados candelabros de ouro em suportes com entalhes esmerados... reconheceu o quarto que habitara antes... antes de... cerrou os olhos úmidos com força.

˗ Não me lembro de ter vindo para cá. ˗ Admitiu, perturbado.

˗ Foste trazido por guardas. Tiveste uma febre alta e, após tua confissão, perdeste a consciência. Um ato misericordioso do Nosso Bom Senhor.

˗ Minha... confissão...?

Afrodite encarou-o intrigado.

˗ Sim, tua confissão. Acaso não te lembras?

˗ Não, eu... eu me lembro sim... ˗ Balbuciou, colocando uma das mãos enfaixadas sobre os olhos sensíveis à luz. Pensou em pedir a Afrodite que fechasse as janelas, mas sabia que o ex-camareiro necessitava daquela claridade para desempenhar seu delicado trabalho.

˗ Lembras? ˗ Insistiu o loiro.

˗ Sim... Camus... a caminho da... da Antioquia... no barco Gemini.

˗ Isso mesmo. Milo já está ciente.

˗ Lembro-me também de... sobre...

˗ Shura, melhor seria que dormisses mais um pouco. Espero que não tenhas olvidado seu oferecimento.

˗ De forma alguma... acompanhar-vos-ei... até o porto de Antioquia ˗ Rememorava lenta mas firmemente. ˗ hei de fazer com que... o capitão restitua-me... Camus.

O ex-camareiro assentiu, aliviado. Pôs-se a amarrar faixas limpas de linho nos pés feridos do espanhol.

˗ Para isso, precisas descansar. Claro que teu completo restabelecimento demandaria dias, talvez semanas ˗ Observou Afrodite. ˗ Todavia, deves estar plenamente ciente de que não dispomos desse tempo.

˗ Eu compreendo ˗ Anuiu com voz cansada. ˗ eu haveria de ir agora mesmo, se vós o determinásseis.

˗ Oxalá fosse simples assim. Preciso garantir que não pereças até chegarmos a Camus.

˗ Não perecerei... até chegarmos a ele. Depois... podeis dispor de minha vida como bem aprouverdes.

Afrodite esboçou um sorriso amargo.

˗ Isso cabe a Milo decidir. Não duvido que ele, com efeito, decida por tua execução ao cabo do processo. ˗ Arrematou, em tom melancólico.

˗ Entregar-me-ei de bom grado à sua espada. Penso mesmo que somente dessa forma será feita a justiça. Devolver-lhe Camus será minha derradeira missão...

Percebendo que o marquês estava prestes a desfalecer, o sueco permitiu-se o que considerava um arroubo néscio:

˗ Quanto à OUTRA confissão... era a febre falando por ti? Ou...

Sobre sua mão contraída pousou uma das mãos enfaixadas. Estremeceu àquele toque. E seu tremor intensificou-se ante as últimas palavras de Shura antes deste se render ao sono que imperiosamente o tragava:

˗ Não. Não foi a febre que falou, Afrodite... foi o meu coração... eu te... eu sempre te...

Emocionado, Afrodite prendeu a respiração à espera de uma conclusão que não chegou. Tudo que ouviu a seguir foi o discreto ressonar do marquês adormecido. Malgrado tivesse tentado retê-las, deixou correr livres lágrimas quentes, que foram ao encontro de seus lábios trêmulos.

*************



˗ Que os diabos me carreguem para as profundezas do glorioso mar se não vos assemelhais a matronas que ocupam-se de cerzir toucas! ˗ Dohko fustigava os forçados aos berros. ˗ Remai, remai, pois que dentro em pouco, desse jeito, estareis a roncar!

Os homens empregavam toda força de que dispunham. Sob o sol no topo límpido, costas e torsos brilhavam de suor, como estrelas fulgurantes a cada movimento frenético.

˗ Maldição, este é seguramente o dia mais quente desde que saímos de Marselha! ˗ praguejava o nórdico Thor, mesmo ele o mais forte fisicamente ali experimentando imenso desconforto devido à temperatura que se elevava ˗ Ó Corvo, traz-me água, por todos os santos!

Jamian torceu o rosto macilento em uma careta de desagrado. Ficou tentado a ignorar aquele pedido, mas ele que não iria querer conflito com um homenzarrão de mais de 2 metros de altura... e com músculos como rochas esculpidas. Encheu um copo de barro com a água potável de uma grande tina de madeira destinada àquele fim. Entregou-o a Thor, que tudo bebeu em praticamente uma só golada.

˗ Serve-me também, Corvo! ˗ Pediu outro dos homens.

˗ Ei, tenho nome, sabias? Se quiseres molhar tua garganta antes que eu a aperte, lembra-o ˗ Revidou arrogante, pois que o pedinte desta vez não possuía nem de longe a compleição física de Thor...

˗ Também quero água, estou com a goela seca como o deserto! ˗ Demandou mais um.

Dohko bateu o pé irritado ao exclamar:

˗ ÊÊÊÊ, o que se passa aqui? Se todos os senhores se refestelarem ao mesmo tempo, quem é que toca o barco, afinal?

Isaak lançou um olhar preocupado para “Laurent”. O amigo já demonstrava não estar em boas condições antes mesmo de se submeterem àquela provação de remar tão vigorosamente sob aquele sol escaldante. “Laurent” transpirava em profusão, gotas de seu suor despencando uma após a outra de seu rosto vermelho, cuja expressão traía pura exaustão.

˗ Tu precisas beber água também ˗ Sussurrou-lhe o adolescente. ˗ Por que não pedes?

Cerrando os dentes sob o violento esforço e calor, Camus escolheu ignorar o jovem. Este, contudo, insistiu:

˗ Pedirei por ti, está bem? Sei que preferes falar ao capataz o mínimo possível, portanto...

˗ Acaso queres algo, Isaak? ˗ Dohko surgiu de repente perto do rapaz. ˗ Tua boca não para de se mover.

Os olhos verdes volveram ingênuos para o capataz.

˗ Eu... eu gostaria de um pouco de água, senhor Dohko.

˗ Mas é claro! Jamian, atende o menino!

Isaak só não esperava que Dohko continuasse parado ali, junto a ele...

˗ Que esperas para servir-te da água, menino? ˗ O chinês obviamente percebera-lhe a intenção. ˗ Tua sede passou, por acaso?

˗ Ah... não... não senhor... ˗ Isaak não viu outra solução que não tomar a água. Olhou para “Laurent”, que procurava não manter contato visual com nenhum dos dois. Quando Isaak terminou, dirigiu-se a Dohko com respeito hesitante:

˗ Senhor, perdoai-me, mas... penso que Laurent também precisa de um pouco de água.

˗ Se ele precisasse, ele PEDIRIA. Não certo, Laurent?

Camus resistiu ao ímpeto de devolver-lhe o sarcasmo com desprezo. Acabou por encará-lo da maneira mais neutra que pudesse simular.

˗ Decerto que sim, senhor Dohko.

Ostentando um sorriso satisfeito, o chinês se afastou. Abismado, Isaak virou-se para o ruivo e perguntou em voz baixa:

˗ Por que não pediste a água?

Um menear quase imperceptível de cabeça assinalou o desinteresse de “Laurent” em prosseguir com qualquer interação comunicativa. Havia muito que compreendera as medidas tomadas pelos tripulantes para com ele: peças do jogo sórdido de Saga para convencê-lo a aceitar-lhe a vil proposta.

Tornar-se amante do capitão... “uma concubina”, oras. Sim, o grego tencionava claramente tornar-lhe a vida nas galés um inferno, do qual, para escapar, “Laurent” acabaria por subjugar-se... abdicar de sua honra, de seus ideais. O mentecapto só não contava com a maior razão da resistência do “novato Laurent”.

“Milo... antes de trair a Milo, hei de entregar minha vida com prazer. Mas nunca, jamais... JAMAIS o meu corpo!”, pensou, fechando os olhos para reter a imagem evocada. O semblante luminoso, belo, amado... simplesmente não combinava com o tétrico cenário em que se encontrava.

˗ Laurent, que tens? Sentes-te mal?

˗ Estou bem. ˗ Murmurou, um pouco irritado, pois viu-se obrigado a abrir os olhos e deixar ir a lembrança do esposo.

Isaak até quis insistir, mas achou melhor não fazê-lo. Mordeu o lábio inferior e voltou a se concentrar em seu árduo ofício.

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Notas finais
Enfim, em Paris, Milo e Afrodite preparam-se para ir em busca de Camus, juntamente com a improvável companhia do agora (aparentemente) arrependido Shura. Conseguirão resgatar o ruivo, antes que este sucumba ante o vil estratagema de Saga? É o que saberemos no próximo capítulo... até lá... fiquem bem, e, mais uma vez, feliz Ano Novo! Grupo de minhas fics no Facebook https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/?multi_permalinks=2941505926100568&notif_id=1640743321860662&notif_t=feedback_reaction_generic&ref=notif