Dame Jolie
55 A Tormenta dos Homens
Notas iniciais
Não passava de um simples trajeto até o recinto onde era esperado, mas, para ele, equivalia ao derradeiro caminhar rumo a um cadafalso no qual todas suas esperanças findar-se-iam com a sumária execução. Apesar desse peso na alma, hesitação alguma acometeu-lhe o gesto de bater à porta.
Que tudo se acabasse de vez.
− Giuseppe... – O belo rosto de Afrodite apareceu diante de si. – entra, peço-te.
Assentindo, o artífice-mestre adentrou o quarto do sueco, sem deixar de lhe notar o ar ansioso.
− Por favor, toma assento. Aceitas um vinho, meu caro amigo?
Giuseppe teve ganas de suplicar que Afrodite se abstivesse de tratá-lo como “caro amigo”. Desnecessário aquele nada sutil lembrete de que fora, por fim, preterido, em favor do Marquês de Aguilar.
− Agradeço-te, “caro amigo” – Carregou a entonação com indisfarçável ressentimento. – Ao vinho, prefiro que sejas direto.
Um tanto desconfortável, Afrodite tratou de encher um copo para si mesmo.
− Considerei que merecias de mim uma satisfação, antes que eu... com ELES partisse. – Declarou, tentando ocultar um constrangimento cuja existência gostaria de não compreender.
Algumas réplicas amargas passaram pela cabeça do toscano. Contudo, ele preferiu refrear a língua. De que adiantaria, afinal? A batalha pelo coração do bello já estava vencida pelo detestável Shura. Esperou que o amado, agora longe de seu alcance de vez, prosseguisse:
− Por mais que teus sentimentos para com minha pessoa causem-me inenarrável lisonja, e por mais que eu tenha, crê-me, cogitado a eles corresponder... o que vai em meu peito... – Titubeou. − ... não posso fugir ao que sinto. Mesmo que seu destino esteja traçado, e este é MORRER pela espada de Milo... ainda amo Shura de Aguilar. E... Shura... Shura confessou sentir o mesmo.
Subitamente pálido, Giuseppe balbuciou:
− “O mesmo”? Que queres dizer...?
− Shura declarou seu amor por mim. – Os olhos azuis, cristalinos como as águas das mais puras fontes, baixaram-se, ligeiramente úmidos. – Sei que ele vai morrer, tão logo nos leve até o paradeiro de Camille, mas...
− Estás a dizer que, mesmo depois de tudo que aquele sevandija fez ao conde, à esposa dele e a ti, dedicar-te-ás a ELE?
− Faz-se imperioso ao meu ser, meu amigo...
− Cada vez que assim a mim te diriges, cravas uma lâmina em meu peito! – Volveu Giuseppe, extravasando seu vivo incômodo.
Afrodite esvaziou o cálice. Pensou em enchê-lo novamente.
Não.
Deveria enfrentar a situação sem quaisquer artifícios. Mirou o toscano firme e diretamente.
− Compreendo. Não mais o farei. Dispensas minha amizade e de forma alguma estás errado. Meu sentimento é que é errado. Não obstante, ele EXISTE. E, para mim, mais errado ainda seria enganar a ti, Giuseppe.
Em um gesto exasperado, Giuseppe pôs as mãos na cintura e bufou, virando-se para o lado.
− Realmente, tudo o que eu mais queria era voltar para a minha terra. Para os meus. Para o ofício que me valeu a alcunha de “Máscara da Morte”. Oxalá não tivesse recebido a incumbência do senhor Milo de atuar como seu representante em Paris, durante sua ausência.
− Abdicar-te-ias de tão honrosa função em virtude de tua insatisfação para comigo? Serás soberbamente recompensado, Milo é um homem generoso.
− Há no mundo coisas mais importantes que o ouro e a prata, e minha dignidade entre elas se encontra. – Foi a ríspida resposta que fez o loiro quase morder a língua. Ao vê-lo sem jeito, Giuseppe suspirou. Passou a mão pelos cabelos prateados, dedicando-se a recuperar a serenidade.
− Tua resposta foi-me honestamente dada, agradeço-te. Permites, pois, que me retire?
Com profundo e sincero pesar, o sueco encarou-o.
− Eu não poderia mesmo... contar com tua amizade? Tenho por ti grande estima...
− Tenho ou não tua permissão?
A insistência seca, acompanhada daquele olhar cortante, sinalizou a inutilidade da proposta de Afrodite. Este assentiu, pesaroso.
− Claro, podes retirar-te. Obrigado por me ouvir, e... obrigado por tudo...
Pouco antes da conclusão de tais dizeres, a porta se fechava, sem que deles Giuseppe fizesse qualquer caso. Encolhendo os ombros, Afrodite deu um longo suspiro. Fora-lhe custoso, porém proveitoso, aquele desenlace. Lamentava verdadeiramente que não tivesse sido agraciado pelo justo direcionamento de suas paixões. Entretanto, ter ouvido dos lábios de Shura a confissão de seu amor obliterava quaisquer racionalidades. Envergonhava-se por seu amigo Camus; fosse de fato leal, odiaria Shura por ter ameaçado a existência do filho de Turenne. No entanto, não podia refrear seu amor como quem lida com um cavalo de montaria. Infelizmente.
E, infelizmente, sentia-se feliz. Ainda que os dias do amado estivessem contados... com ele estaria, então.
*************
Diferentemente de Giuseppe ao ir ter com Afrodite, Milo não se furtou a entrar no quarto por Shura ocupado de maneira abrupta, deixando de lado a cerimônia de bater à porta. Encontrou o prisioneiro – poderia dessa forma, ainda, o chamar? – adormecido. A urgência de seu comunicado impelia-o a acordar o marquês, prescindindo de qualquer gentileza. Ele, porém, deteve-se para observá-lo, enquanto sentimentos torturantes se mesclavam em seu desgastado âmago. Tinha-lhe ódio tal que muito se regozijaria em cravar no peito que lentamente subia e descia a espada que trazia na bainha. Jamais perdoaria Shura por ter lhe subtraído Camus, jamais! Tremores de cólera sacudiam discretamente o conde. Olhou cuidadosamente o semblante coberto de manchas escuras, a fim de verificar se de fato dormia. Salvaguardado pelo profundo sono daquele a quem um dia considerara um irmão, analisou-o enquanto rememorava momentos do passado: Shura sendo apresentado a Henri D’Auvergne como aprendiz de cavaleiro; Shura cavalgando ao seu lado nas densas florestas do condado; Shura fitando-o com branda condescendência nas tavernas de Auvergne; o reencontro quando do chamado para a Cruzada; as batalhas a seu lado no Oriente; o resgate por ele empreendido quando caíra prisioneiro dos sarracenos, devido a um pérfido estratagema de Andreas de Turenne... tantos, tantos momentos... uma vida!
E então... ambos àquilo chegaram... irmãos que se converteram em inimigos mortais. Sim, pois que Shura, ao raptar Camus e atirá-lo a um destino do qual não se podia precisar a salvação, matara, de certa forma, a ele, Milo D’Auvergne. E Milo D’Auvergne seguramente mataria Shura de Aguilar tão logo o resgate, se Deus assim o permitisse, fosse concretizado.
− De qualquer modo, matá-lo-ei, Shura de Aguilar. – Sussurrou Milo, sombrio, o pensamento saindo-lhe por entre os dentes cerrados.
Não saberia se tinha sido ouvido ou se sua presença pelo desacordado nobre fora sentida, fato é que Shura abriu os olhos de um misterioso tom de verde escuro.
− Já não era sem tempo. Não fosse a orientação de Afrodite, acordar-te-ia aos golpes de meus punhos.
− Estejas à vontade. – Foi a resposta fraca, desprovida de emoção.
− Não penses que estás a ser tratado com tal cortesia por perdão meu.
− Conheço a razão. Devo estar razoavelmente restabelecido a fim de ir contigo e Afrodite a Antioquia. – Disse o espanhol pausadamente. – Se te aprouveres, podemos partir agora mesmo.
Torcendo as feições com amargoso ódio, Milo pontuou:
− Afrodite recomenda que partamos à alvorada. Tu precisas de mais algumas horas sob seus cuidados, para que não sucumbas no caminho. – Caminhou até a janela, desejoso de que o ar fresco do fim de tarde aplacasse seu ardente desejo de trucidar o convalescente ali mesmo... acariciou o cabo frio da espada, as pálpebras ocultando momentaneamente as íris turquesa como o céu outonal sem nuvens.
Sem se voltar para o marquês, quis elucidar:
− Minha vontade era de dar um basta à tua existência, como o traidor que és, e partir sem delongas a Antioquia. Todavia, Afrodite considera que tua nefasta presença far-se-á crucial durante a negociação com o capitão da embarcação à qual atiraste o inocente Camus.
− Não faço caso de minha vida. Entregar-te-ia, sem pestanejar, meu pescoço à tua lâmina, pois que é o que mereço, depois de tão covarde vilania. Ocorre que Afrodite tem razão em considerar-me útil para que possas reaver teu Camus. Eu fiz o negócio com Saga, e EU devo desfazê-lo.
− Que tipo de homem é esse Saga? – Inquiriu Milo, temeroso pela resposta que ouviria. E se fosse alguém que procedia com crueldade desmedida para com seus forçados?
− É um homem assaz competente no comércio marítimo. Meu pai conheceu-lhe o pai, Castela abastecia seu castelo e comércio local com os produtos que Saga trazia do Oriente. Desde tenra idade, demonstrava ambição de prosseguir com o legado do pai.
Por muito que considerasse inadequado deixar à mostra tamanha insegurança, o conde não se furtou a indagar:
− Consideras que ele é... rigoroso com aqueles que lhe servem?
− Até onde sei, malgrado não seja particularmente maldoso como o irmão Kanon, é um capitão que procede, sim, com contumaz rigorosidade em seu ofício de comandar a Gemini e as dezenas de homens sob seus desígnios.
A insegurança advinda daquela resposta sobrepujou, por uns instantes, a raiva de Milo.
− Ele tem um irmão?
− Sim, um irmão gêmeo. Seu nome é Kanon.
− Disseste que é “maldoso”.
− Não no sentido que inferes. Sempre foi dado a maquinações. Foi corroído pela inveja de haver deixado a barriga da mãe minutos depois de Saga.
− Ele pode ser uma ameaça para Camus?
− Não imagino como. Que eu saiba, a única pessoa que Kanon gostaria de eliminar da face da Terra seria o próprio irmão.
Milo cruzou os braços, incerto do por que saber daquilo aumentava sua preocupação. Tanto se lhe dava se os tais gêmeos se odiassem, queria era saber de Camus! Mesmo assim, perguntou:
− Se o capitão lhe conhece as intenções, por que permite que um homem desses o acompanhe no mar?
− Pelo sangue. Foi o que determinou o pai dos gêmeos, Shion. Saga respeita demasiado a memória do pai. Além do quê, Kanon goza de prestígio junto à tripulação e a quem quer que o conheça, devido às suas força, habilidade e sagacidade. É mais carismático que o primogênito, penso que a única coisa que tirou de si o controle da Gemini foram os minutos que separaram seu nascimento do de Saga.
− Eu já me atormentava com o fato de Camus estar nas galés dessa maldita embarcação. Conhecer tais detalhes potencializam minhas apreensões. – Confessou Milo.
− Não posso assegurar que Camus esteja em segurança. Mas conhecendo-lhe a temperança, creio que havemos de resgatá-lo sem maiores complicações, desde que Saga seja indenizado generosamente. E, para isso, disponho de meus bens. Usa-os para recuperar Camus de Turenne.
− Dir-se-ia que estás arrependido. – Observou o conde, em tom zombeteiro.
− Assim o é. – Murmurou Shura, sem desviar o olhar como quis fazer.
Entregue a uma súbita recordação, Milo fechou os olhos.
Shura travando um feroz duelo com Saladino.
Desafiara o líder máximo dos mouros, disputando a posse do prisioneiro francês. Poemas foram compostos sobre o episódio, a vitória de Shura, o Justo, figurava, até os dias de então, em canções entoadas por menestréis e trovadores.
Por quê?
Por que o salvara, para, anos depois, condená-lo àquele sofrimento atroz? Para trair sua confiança?
− Shura, por que fizeste isso? – Antes que pudesse reprimir a indagação, ela saíra por seus lábios, mais ressentida que acusatória.
O espanhol lançou-lhe um olhar de cão acuado.
− Digo... sei as razões. Contaste-me na masmorra. Tu te arvoraste a ser o “salvador de minha pobre alma fadada à danação do inferno” – Ironizou Milo, ante o silêncio do outro. Fez-se sério, então. – Não quero ouvir toda aquela cantilena carola novamente. Quero saber por que te dispuseste a me fazer sofrer a pior das dores de minha vida.
− É como bem disseste: já expus as razões do meu proceder. Àquela ocasião, magoar-te pareceu-me um módico preço por tua salvação.
− Pois repito que preferia precipitar-me no Pélago a ter Camus arrancado de mim como fizeste!
− Não blasfemes – Pediu Shura, de modo consternado. – Eu reconheço meu erro. Agi precipitadamente, colocando-me no lugar de Deus, como o julgador de teu pecado. Ocorre que foi o próprio que me investiu do dever de executar Suas Leis.
− “Não matarás”? Se bem me recordo, é uma de “Suas Leis”.
− Abstém-te de ironias, Milo. Sabes que a sodomia é condenada pela Palavra.
− O que sei – O conde avançou para o leito e agarrou a túnica de Shura com violência. – é que o amor que sinto por Camus e o que ele sente por mim de forma alguma seria um pecado! É um sentimento puro, do qual jamais tiveste o mínimo vislumbre!
− Enganas-te.
Milo fitou-o, sem entender. Sacudiu-o, inquirindo:
− Sobre o que é que “me engano”? És quase um monge, sempre desprezaste o amor, nem mesmo a diversões no leito com as mais desprendidas parceiras cedeste durante toda a tua...
− Eu amo Afrodite.
Desta vez, o iracundo nobre tornou-se boquiaberto. Largou a túnica do interrogado, dando alguns passos para trás a fim de olhar bem o marquês.
− Que dizes?!
− Amo Afrodite, e aceitar que o amo fez-me ver o terrível equívoco que cometi.
− Um... um equívoco! – Milo sentiu-se até zonzo. Temeu desfalecer outra vez. – Podes ter cometido um HOMICÍDIO, isso sim! Se Camus não estiver vivo, eu...
− Matar-me-ás, esteja Camus vivo ou não. Mas não creio que ele tenha sucumbido em dez dias. Camus há de estar vivo, eu creio. – Empreendeu esforço para sentar-se na cama. – Dispõe da minha vida como te aprouver. É minha penitência pelo que fiz a um irmão de alma.
− Tuas palavras não me comovem, Shura de Aguilar! E mais essa... inventar que amas Afrodite! Tencionas com isso despertar minha piedade?
− Ele também me ama.
− O quê?!? – Milo quase caiu para trás. – Como... acaso ele te disse isso? Hah, só pode tê-lo feito para conseguir tua confissão!
− Os diários de Afrodite. – Shura fechou lentamente os olhos cansados. – Recordaste deles, por certo.
Claro.
A causa de todo aquele martírio.
− Neles, além de registros sobre Camus, há recorrentes menções ao sentimento que ele nutre por mim.
− E resolveste servir-te desse artifício para tentar demover-me da tua execução? – Uma sobrancelha loira ergueu-se em franco descrédito.
− De forma alguma. Eu apenas... quero que saibas que reconhecer meu amor por Afrodite limpou meu coração. Fez-me entender a TI, Milo.
− Basta. Não quero mais ouvir esses disparates. Mandarei vir teu jantar. Come e dorme. Antes de amanhecer, partiremos.
Resoluto, o Conde de Saint-Doulchard deixou o aposento, uma raiva surda a nublar-lhe o entendimento. Da mesma forma tempestuosa, invadiu o quarto de Afrodite. O sueco sobressaltou-se, alguns objetos que guardava em uma canastra de viagem caíram-lhe das mãos no susto.
− É verdade que estás enamorado de Shura? – Disparou, sem qualquer rodeio.
Quase sufocado, Afrodite assentiu. Milo exasperou-se:
− Não posso acreditar. Que por ele nutrisses sentimentos quando de sua estada em Saint-Doulchard, posso entender. Mas depois de TUDO que o crápula a nós infligiu...?
− Milo, não possuo qualquer intenção de com ele estabelecer...
− Shura feriu a mim! Feriu a ti! Pode ter levado Camus, TEU amigo, para a MORTE! – Interrompeu exaltado. – Conheces Camus desde tenra idade, como pôde associar-te a semelhante traidor?
− Não me aliei a ninguém! – Afrodite também ergueu a voz, cansado dos julgamentos do conde. – Eu amava a Shura antes da decisão dele de apartar a vós, tu e Camus...!
− E continuou amando o desgraçado, a despeito da perfídia que ele cometeu!
− Que posso eu fazer? Acaso arrancamos sentimentos de nosso peito como quem arranca ervas daninhas da terra!?! Diz-me, Milo!
Para não ceder ao ímpeto feroz de agredir o sueco outra vez, Milo descontou sua fúria em alguns vasos de porcelana, jarras de cerâmica e outros adornos dispostos sobre a mesa e os aparadores do bem decorado espaço. Assustado, Afrodite retrocedeu, quase encostando-se à parede.
− Shura me TRAIU! Traiu a ti! Traiu a Camus!
− Abaixa tua voz, peço-te, sabes o motivo...
A muito custo, o nobre assim o fez. Aproximou-se do ex-camareiro e murmurou-lhe, rouco de raiva:
− Que Camus haverá de dizer quando souber que tu amas aquele o levou de nós?
− Ele SABE. Sempre soube, desde o início.
Pasmado, Milo encarou-o.
− Camus... SABIA?
− Como tu bem o disseste, eu e ele somos amigos de longa data.
Balançando a cabeça entre indignado e atordoado, o conde exclamou:
− Cristo! Tantos segredos debaixo de meu nariz...!
− Não era algo que a ti dizia respeito. Camus apenas foi fiel ao meu segredo.
− Logo a quem ele foi fiel, a quem lhe atirou o segredo à lama! A quem escolheu amar aquele que o levou embora!
Lágrimas de revolta surgiram nos olhos claros marcados pela dor.
− Eu NÃO escolhi amar Shura. Tampouco escolhi continuar amando-o, mesmo depois de todas suas artimanhas ímpias.
O esposo de Camus dirigiu-lhe um olhar gélido, repleto de desprezo e reprovação. Em tom seco, frio, atirou:
− Com isso, pode-se concluir, seguramente, que não foi apenas Shura que traiu Camus.
A essa declaração, o ex-camareiro paralisou, o pranto silencioso livre por suas faces descoradas.
− Ao primeiro sinal de alvorada, partiremos. – Com isso, Milo deu por encerrada aquela infrutífera discussão. Saiu do quarto de Afrodite, deixando este desfeito em seu choro de amargura e vergonha.
*************
Malgrado muito quisesse disfarçar, o esforço empregado por Camus para se dirigir às galés não passou despercebido pelo sempre presente Isaak, e nem mesmo para os marujos mais atentos. O jovem norueguês observava-o compadecido, com o cuidado de desviar rapidamente o olhar quando “Laurent” dava mostras de perceber que era observado. Sabia que o amigo lutava para parecer bem, o que, obviamente, há muito deixara de estar.
Naquela manhã, assim como as anteriores, alimento algum fora ofertado ao novato, tampouco no jantar tivera ele a permissão de se nutrir com um pedaço de pão seco e embolorado que fosse. Para piorar, nem água “Laurent” podia beber, tudo ordem do capitão Saga. Isaak mordeu o lábio inferior, presa de intensa insatisfação consigo mesmo. Por mais de uma vez, intentara dar ao desafortunado amigo algo de comer ou de beber. Contudo, sabia ser constantemente vigiado. Nem ao menos disfarçavam, os lacaios do capitão. Chegavam a pigarrear ou a sorrir com escárnio, enquanto cruzavam os braços fortes e hirsutos.
Não conseguia entender. Simplesmente não podia entender. Por que o capitão, um líder que deveria zelar, se não pelo conforto, ao menos por uma integridade que possibilitasse aos seus homens pela gloriosa Gemini labutar?
O súbito vacilar de “Laurent” roubou-lhe dos pensamentos a atenção; apressou-se em segurá-lo pelo braço. O ruivo deveria estar extremamente fraco, pois nem um murmúrio de protesto por ele foi proferido. Inconscientemente, Camus fechou os olhos, como quem se encontrava prestes a capitular.
− Laurent... é imperioso que bebas água – Disse Isaak, apreensivo. – e que comas alguma coisa...
− Deveras, pequenino, mas isso não é coisa que devas tu decidir – Zombou Jamian, surgindo por trás dos dois. Deu algumas cabriolas diante dos pobres rapazes. Isaak deu um rápido olhar ao redor. Os homens que sempre o vigiavam estavam milagrosamente distraídos, conversando entre si. Apontavam para o mar, em alguma discussão acalorada. Curvou-se para frente e sussurrou ao zombeteiro homem:
− Jamian, ouve-me, peço-te... sei que já tivemos nossas diferenças, mas...
− Ooooh, agora o meninote sabe meu nome... não sou mais o vil “Corvo”...
Camus, prevendo o que o adolescente tencionava fazer, tentou se desvencilhar do apoio e cambaleou, sendo pelo rapaz mais uma vez amparado.
− Homessa! Acaso estará Laurent bêbado? Ou com sono? – Riu Jamian.
− Sabes muito bem qual é o problema dele – Murmurou Isaak. Com o queixo, apontou para a caneca que o pavoroso marujo tinha na mão lívida. – Se ainda há algo de cristão em teu ser, dá-me teu vinho.
− Já tiveste tua caneca matinal, queres mais ainda, cúpida criança?
Cauteloso, Isaak puxou Camus para debaixo de uma pequena cobertura de madeira, defronte a uma porta entreaberta. Com uma das mãos, puxou de dentro da túnica rota, um rutilante cordão.
− Se ma deres, pagar-te-ei com isso – Apenas o movimento dos lábios do adolescente cuidara de transmitir a perigosa mensagem.
Os olhos escuros de Jamian brilharam como as vagas do mar sob o sol que castigaria os trabalhadores no convés naquele dia. Tratava-se de uma interessante peça, o crucifixo dourado por entre os dedos do fedelho. Como deixaram-no ficar com aquilo? O miserável havia de tê-lo escondido com maestria até então... aproximou-se dos jovens, sem deixar de mirar a joia.
− Este colar pertencia à minha mãe. É tudo que possuo de minha família. É o que de mais precioso detenho nesta vida.
− Isaak... não... – Balbuciou Camus, tentando se livrar da contenção do rapaz. Em verdade, quase caía em cima deste.
Astuto, Jamian empurrou os dois para o interior do compartimento defronte ao qual haviam parado. Guardava algumas ferramentas para diversos fins e redes de pesca.
− Pretendes negociar algo comigo, bem o vejo... – Murmurou Jamian.
− É ouro puro. Será TEU, desde que entregues a ELE – Meneou a cabeça na direção de um quase desfalecido Camus. – teu vinho e teu bocado de pão e carne seca, que levas aí nesse bornal.
− C-como sabes...?
− Estás sempre a roer algo durante o dia, não sei como és esquálido desse jeito. Eu apostaria em pão, conserva-se, bem o sei; corvos, porém, não passam sem carne – Isaak sorriu em uma inevitável provocação, mas logo recobrou a seriedade. – Anda, olha que é pouco, bem pouco, o que te peço, em troca de tão belo tesouro.
Jamian hesitou por uns instantes. Tratou de fechar totalmente a porta detrás de si, que estava somente encostada.
− Não sei se devo. É ordem do capitão, deixar o ruivo à beira da inanição.
Camus recostou-se em um canto; não resistiu a ali escorregar e sentar por cima das redes fofas. Precisava economizar forças, sentia-se à beira de um desmaio.
− Qual o intuito do capitão em judiar de modo tão cruel de um pobre forçado que nada lhe fez, afinal? – Perguntou Isaak, sem disfarçar a indignação.
Mostrando os dentes, que de tão escuros pouco se viam na penumbra, num torvo sorriso, Jamian respondeu:
− Convencer esse ruivo teimoso a se tornar a “concubina” dele!
− Q-quê?! – A voz do adolescente saiu miúda, incrédula.
− Vamos logo com isso, demoramo-nos muito aqui, hão de procurar-nos! – Retirou a comida que levava no bolso largo da calça puída e a enfiou desajeitado na mão do norueguês. – Toma, toma!
− O vinho também!
− Dá-me o colar primeiro!
− Não ouses enganar-me...!
− Já não te dei o pão e a carne? Anda, dá-me essa porcaria de uma vez!
Isaak entregou seu único bem ao jubiloso homem; este, com efeito, deu a caneca ao garoto. Queria as mãos livres para apreciar aquela preciosidade.
− Foi bom fazer negócio contigo, pequeno. É uma pena que esse humilde banquete pouco há de durar no estômago do novato – Chasqueou, abrindo a porta devagar. – Mas isso não é problema meu...
E saiu.
Assim que a porta se fechou, Isaak procurou fazer com que enlanguescido amigo consumisse, enfim, o que a tão alto preço conseguira.
− Come, Laurent, rápido!
A fome e a sede misturavam-se com enjoo, desnorteavam o nobre de forma dolorosa. Isaak percebeu que sua a mão erguera-se trêmula para a caneca de vinho.
− Claro, que tolo sou, desejas aplacar a sede antes... toma...
Súbito, ambos tiveram um sobressalto ante o barulho da porta sendo escancarada de modo ríspido, bruto, pois que fora chutada com violência exatamente com o intuito de assustá-los. A caneca de vinho espatifou-se no chão. Sem qualquer chance de reação, os dois foram agarrados por truculentos homens e levados para o lado de fora, onde um dos gêmeos se encontrava, braços cruzados, sorriso trocista no rosto. Pelas roupas menos pomposas e mesmo pela expressão, via-se logo que se tratava de Kanon. Ao seu lado, com os olhos esbulhados de um peixe que acabara de ser fisgado, Jamian era contido por dois dos capangas de Saga que constantemente vigiavam Isaak e Camus.
− Eis os ratinhos que lograram esconder-se dos gatos domesticados pelo meu irmão... – Comentou, com ar de condescendência.
− Estávamos de olho neles, senhor Kanon!
− Sim, não os perdemos de vista nem por um instante sequer!
− Avistamos algumas barbatanas de tubarão e pensamos em vir pegar as redes, mas já tínhamos visto que eles...
− Calai-vos, velhacos! Se meu irmão souber que por vossa distração, seu infeliz escolhido quase quebrou o jejum por ele imposto – Arrancou o alimento das mãos do ruivo, em cujo semblante nada se via além de estupefação. – na certa, atirar-vos-ia aos tais tubarões!
Olhou para Camus enquanto atirava longe o pão e a carne. Inquiriu, com desdém:
− Diz-me, Laurent, vais enfim aceitar a proposta de Saga? Cessa com toda essa história de uma vez, por Deus! Tua recusa despropositada anda a afetar-lhe o juízo, não é segredo para ninguém da tripulação.
Os marujos que assistiam à cena entreolharam-se, surpresos com a audácia das palavras de Kanon. O ruivo, não obstante, limitou-se a encará-lo com uma altivez inesperada em alguém tão combalido.
− Senhor Kanon, ele já conhece minha resposta. E ela segue inalterada, se quereis mesmo saber.
Kanon deu um suspiro bem audível, não se saberia se por enfado ou por sarcasmo.
− E-eu ia denunciá-los, senhor Kanon, eu juro! – Bradava Jamian, no afã de salvar a própria pele. – O pirralho me deu ISTO em troca de meu vinho e de minha refeição, ele ergueu-se em franca revolta contra o capitão ao fazê-lo, pois planejava dá-los ao novato, e todos temos ordens de não deixá-lo comer nem beber!
A mão trêmula brandiu o colar na direção do irmão de saga. Este tomou-o, mirando o objeto com interesse. Volveu o olhar estreito para o adolescente ao falar:
− És um amigo deveras leal, pequenino. – E, surpreendentemente, entregou o cordão a um surpreso Isaak.
Todos suspenderam a respiração ante àquela inesperada ação. Kanon deu um meio sorriso ao explicar:
− Lealdade é uma qualidade que prezo sobremaneira.
− Que se sucede aqui?
A voz do capitão fez com que os espectadores do que se desenrolava estremecessem. Kanon meramente revirou os olhos esverdeados. Pôs as mãos na cintura e, displicente, esclareceu:
− Teus lacaios perderam tua valiosa presa de vista, e ela estava a um passo de fartar-se com despojos de Jamian.
O marujo mencionado pôs-se a tremer e tagarelar atrapalhado:
− Não é bem assim, senhor capitão, eu jamais haveria de desobedecer a uma ordem vossa! Com todo respeito ao honrado senhor Kanon, permiti que me explique: e-eu apenas fingi atender ao suborno do ardiloso Isaak, que... que... enfim, eu estava justamente a caminho de vosso camarote para contar sobre a tramoia dos dois calhordas...
− Então meus homens se distraíram... e esse putrefato corvo iria dar de comer e de beber a Laurent, hã?
Os capangas de Saga articulavam desculpas entre si, simultâneas aos clamores do desesperado Jamian. Camus levou a mão à testa e apoiou-se no jovem amigo, que prontamente o amparou. Tinha ganas de pedir a Saga ou a Kanon, a quem quer que fosse, que o executasse de uma misericordiosa vez.
No entanto, sabia que misericórdia não figurava entre os atributos daqueles que comandavam a Gemini... apesar dessa consciência, não pôde deixar de arregalar os olhos castanhos avermelhados ao ouvir a imperiosa voz do capitão:
− Atirai essa escória ao mar – Sentenciou friamente, apontando para Jamian, que berrou a plenos pulmões:
− PIEDADE, meu senhor, piedadee!!! Eu juro que ia denunciá-los, jurooo, pelo sangue do Cordeiro e pelas lágrimas da Virgem!!!
Isaak e Camus, agarrados um ao outro, testemunharam, com horror, o desditoso marujo ser alçado pelos lacaios do capitão. Um inseto perfurado por uma agulha debater-se-ia menos que aquele homem. Sob gritos e súplicas cruelmente ignoradas, Jamian foi jogado para as águas escuras do mar encapelado.
Os quatro homens de Saga, que perderam Camus e Isaak de vista, experimentaram grande alívio ao verem Jamian debater-se no oceano. O capitão escolhera-o para a punição exemplar, e, em breve, os tubarões que minutos antes viram, fartar-se-iam com aquele que na embarcação fora conhecido como Corvo.
− Quanto a vós, ajoelhai-vos. Tendes de pedir-me perdão por haverdes cedido à distração, quando por mim foi sumamente ordenado que vigiásseis Camus e seu jovem amigo.
Após um breve entreolhar, os quatro homens obedeceram e prostraram-se diante de Saga. Em um gesto tão rápido, que mais pareceu bruxaria que técnica pura e simples, Saga desembainhou duas espadas e, em golpes rápidos como os raios que cortavam os céus em furiosas tempestades no mar, feriu de morte aqueles que, por poucos e esperançosos segundos, julgaram-se a salvo da ira do capitão. Dois receberam a lâmina assassina do coração e dois, no pescoço. Kanon rangeu os dentes ante a hórrida execução. Isaak agarrou-se a Camus, tanto quanto este ao adolescente. O sangue voltou-lhe às faces, e a pulsação loucamente acelerada despertou-o de vez.
− ISTO é o que acontece àqueles que falham comigo! – Vociferou o grego, antes de desferir golpes de misericórdia nos arquejantes seres banhados de sangue.
− Por que fizeste isso? – Inquiriu Kanon, exasperado. – Encontramo-nos longe, ainda, de Antioquia, e eis que eliminas, por motivos ínfimos, CINCO de nossos homens!
Com o semblante transtornado pela insanidade, Saga voltou-se para o irmão, perigosamente sem baixar nenhuma das armas.
− Aquele que te ouvir haverá de inferir que discordas de meus desígnios... – Observou, ferino.
Kanon não titubeou em apresentar seu ponto de vista, muito mais para desmascarar a inépcia do capitão do que para interceder pelos tripulantes sob suas responsabilidades:
− Nossas fileiras já carecem de almas a serviço no mar, apenas considero que desperdiças braços necessários à Gemini em prol de desmandos incompreensíveis... – Teve a ousadia de encarar um pálido “Laurent”, enquanto imprimia uma ênfase sarcástica ao fim da réplica.
− Cuidado, Kanon, posso me desfazer de MAIS ALGUÉM que ousa desapontar-me...
A ameaça do capitão laureou as intenções do irmão mais novo. Malgrado permanecesse sério, Kanon gargalhava por dentro, pois que sentia sobre si e sobre o outro dezenas de olhos extáticos... e revoltados.
− Quanto a ti – Para horror de Camus, Saga dirigiu-se colérico a Isaak. – terás também a devida punição por haveres causado tudo isto!
Prontamente, Camus pôs-se à frente do rapaz petrificado de pavor.
− Poupai o pobre menino, rogo-vos!
− Em troca de QUÊ, Laurent?
Foi só o tempo de Camus engolir em seco, durante o processo de admitir sua derrota em troca da integridade do jovem, que este pôs-se a gritar:
− Não te curves a ele, Laurent! Posso muito bem cuidar de mim! Prefiro morrer a saber que te entregaste a ele para me salvar a pele!!!
− I... Isaak... – Balbuciou o ruivo, o sangue a abandonar-lhe o rosto. O adolescente foi rudemente agarrado por dois homens de inegável superioridade física. Não pôde suprimir um dorido exclamar ao ter os finos braços praticamente torcidos naquela desmedida contenção.
− Atirem-no à “gaiola”! Mas antes... deem-lhe chibatadas até exaurirem seu jovem e tolo espírito. – Ordenou o capitão, impiedoso.
− Não! Não, eu imploro... – Camus mais gania do que pedia.
Murmúrios que corriam pelos impactados espectadores tornaram-se audíveis protestos. Kanon olhou ao redor, maravilhado, embora sustentasse a expressão de quem se via impotente.
Ao ver o norueguês ser levado com brutalidade, Camus fez menção de ajudá-lo. Interceptando-o, o capitão golpeou-o no estômago. Sob violenta dor, o nobre vacilou e chegou a vomitar quase sobre os pés de seu agressor. Todos esperavam que o desafortunado ruivo, enfim, encontrava-se subjugado, e, como tal, cairia ao convés. Enquanto Saga gargalhava, Camus, de modo assombrosamente rápido, desferiu um potente soco no rosto do grego.
Não se saberia se o que fizera o capitão quase perder o equilíbrio fora a surpresa ou se fora, realmente, a força de “Laurent”: fato é que os homens não puderam se segurar mais e urraram, vibrando com a cena. Saga aprumou-se, esfregou a face e o queixo... e mirou o homem pelo qual vinha paulatinamente alterando seu proceder como líder do navio que herdada do pai. Por alguns instantes, todos esperavam que ele revidasse, com superioridade, o soco de “Laurent”, ainda que este estivesse quase de joelhos, pelo esforço empregado por seu tão enfraquecido corpo.
− Dohko – Chamou, sem deixar de esfregar o próprio rosto em aparente deleite. – Leva o novato para as galés. Que nem uma gota d’água ou migalha de pão de pão lhe seja ofertada.
Orfeu, que a tudo assistia, esperançoso de ver “Laurent” ir fazer companhia a Jamian, cujos gritos já não se ouviam, cerrou os punhos furioso: por que o capitão não punia o miserável novato como fizera com o pequeno norueguês? Claro, sua lascívia exigia-o inteiro, preservado, havia de ser isso...
Percebeu nos semblantes acusatórios dos marujos que a adesão aos intentos de Kanon fortificava-se naquele momento. A obsessão de Saga, de seu amado Saga, agora ODIADO Saga, tragá-lo-ia para o fundo do mar, junto com os infelizes que porventura o apoiassem, mesmo em meio àquela tormenta. Fizera certo em unir-se a Kanon. Os homens não mais confiariam em um capitão que não hesitasse em deles se desfazer, e por tão hórridos meios, tão somente por lhe atrapalharem o caminho até o detestável “Laurent”.
Pois bem, que ficasse com ele.
Daria um jeito de dar cabo do novato durante o motim de Kanon...
Depois que Saga se retirou do convés, Kanon fez questão de que seu olhar encontrasse, perscrutador, incisivo, cada olhar fulgurante, inquieto, daqueles rostos curtidos de sol. Sorriu, embevecido.
Os homens de Saga agora eram SEUS homens.
*************
Pelos cálculos de Milo, mais três dias de cavalgada e chegariam a Marselha. Isso não incluía paradas para descanso, que ele queria a todo custo evitar. Sabia, porém, que os cavalos não aguentariam se não o fizesse. De vez em quando, lançava um olhar cauteloso para Shura, que, a despeito de sua questionável recuperação de tantas sevícias, conduzia seu portentoso destrier negro com a ágil perícia de sempre; o espanhol não dava mostras de sentir qualquer desconforto, o rosto decidido sempre voltado para a frente, nunca tornando-se na direção do conde tampouco de Afrodite, cuja preocupação patente molestava sobremaneira o marido de Camus. Percebendo-lhe o mirar reprovador, o sueco tentava disfarçar e fustigava mais o cavalo, no afã de demonstrar o foco no que, de fato, era importante.
Atravessavam uma área florestada, há muito sem avistarem qualquer habitação. O sol principiara a ocultar-se por entre os enegrecidos troncos dos pinheiros e dos altivos carvalhos, em um melancólico prenúncio do crepúsculo.
− Milo, creio que devamos fazer uma pausa – Disse Afrodite, a voz elevada para ser ouvida em meio àquele incessante tropel. – Logo há de escurecer, e os cavalos estão seguramente fatigados.
“É deveras preocupação com o estado dos cavalos que gera tua preocupação?”, esteve a ponto de indagar o conde, com sarcasmo e impaciência. Não obstante, tinha consciência de que o ex-camareiro estava com a razão. Por isso, a considerável contragosto, assentiu e vocalizou para que o seu destrier branco parasse. Afrodite e Shura fizeram o mesmo.
O Conde Saint-Doulchard apeou do animal e considerou o entorno. Seguido pelos dois companheiros de viagem, caminhou até uma clareira. Decidiram, antes de cuidar de si mesmos, alimentar e dar de beber aos cavalos. Um lago cristalino próximo dali auxiliou-os na segunda ação. Escolhido o local do pouso, trataram de fazer uma fogueira, tanto para o aquecimento de seus corpos extenuados quanto para a cocção de algum alimento que conseguissem capturar. Assumindo para si essa função, Milo deixou no acampamento improvisado os dois homens para cujos rostos era-lhe assaz difícil olhar.
Certo de que o conde já se encontrava suficientemente afastado, Afrodite perguntou a Shura, que ajeitava uma grossa manta de peles sobre a relva:
− Como te sentes?
− Nada mal, em verdade. Decerto que não hei de perecer antes de chegarmos a Camus.
− O motivo de meu questionamento não é esse. Ao menos... não é o único. – Retrucou o loiro, desviando do espanhol o olhar, que sabia aflito.
− Será possível que, depois de TUDO que fiz, preocupa-te o meu estado?
O tom repleto de pesar machucou o coração do sueco. Este procurou destituir de qualquer inflexão sentimental a resposta quase imediata:
− Não és o único cristão aqui, malgrado não seja eu tão fervoroso como tu. Reconheço que não é algo de que deva me orgulhar, contudo...
− Vê aonde me levou tão decantado “fervor religioso”. – O marquês interrompeu-o, amargo. – Traí meu melhor amigo, posso ter condenado uma pessoa à morte... e decepcionei a primeira e última pessoa a quem poderia entregar meu coração.
Afrodite cerrou os olhos, decidido a não se emocionar com aquela declaração.
− Falas como se fosses morrer em breve – Observou, simulando neutralidade.
− Sabemos bem que é o que há de acontecer. Na verdade, se houver justiça neste mundo, é o que DEVE acontecer.
− De minha parte, não acredito que Camus haveria de concordar com tal sentença.
Shura fitou-o por uns instantes, ambos imersos no silêncio quebrado apenas pelo crepitar da fogueira. Pontos brilhantes ascendiam como se quisessem ir se juntar às estrelas que despontavam no topo do firmamento.
− Detém-te de nutrir esperanças nesse sentido. Mesmo que uma improvável misericórdia se apossasse de Milo, EU mesmo cuidaria de pagar com a VIDA pelo que fiz.
Impactado pelo que acabara de ouvir, o ex-camareiro exclamou:
− Que dizes?! Crês que por intermédio de um pecado maior livrar-te-ás das consequências de um pecado menor?
− Trair três pessoas amadas de modo algum parece-me um “pecado menor”...
Exaltado, Afrodite pôs-se de pé e bradou:
− Acaso pretendes expiá-lo condenando-te de vez ao inferno?
− Por que te incomodas tanto com minha decisão? – Retrucou Shura, desolado como nunca. – Não me digas... não me digas que crês em um FUTURO para nós?
− N-não se trata disso, em absoluto! Eu... eu apenas...
Calou-se, pois que escutara barulhos de folhas secas a estalarem, como que pisadas; provavelmente Milo retornava. Ambos aguardaram, silenciosos, que o conde surgisse entre eles. O que aconteceu quase meia hora depois. O que os pusera em alerta decerto fora algum animal correndo do caçador... vendo o seu senhor, Afrodite tratou de ir checar nas bagagens utensílios para preparar o que Milo trouxera. O total silêncio em que encontrara os dois acompanhantes de viagem deu a Milo a desconfiança de que algum colóquio fora estabelecido durante sua ausência. Resolveu não fazer daquilo caso e entregou a Afrodite as duas lebres que abatera havia pouco.
Sem proferir uma única palavra, dirigiu-se ao lago para limpar-se... e também para afastar-se novamente daquelas desconfortáveis presenças.
Pouco a pouco a lua cheia tomava seu domínio no céu estrelado. Fazia frio, mas não o suficiente para que Milo resistisse ao anseio de banhar seu corpo naquelas águas límpidas e calmas. Almejava tomar para si ao menos um pouco daquela tranquilidade. Despojou-se dos pesados trajes de couro, das botas rígidas e empoeiradas, e, sem qualquer hesitação, meteu-se com tudo na água gelada.
Foi como ser atravessada por miríades de lâminas álgidas. Mergulhou tal qual seta perdida na escuridão, até ganhar a superfície de novo. Resfolegando ao mesmo tempo que seus vigorosos músculos se contraíam em espasmos, mirou o ar condensado que saía por seus lábios trêmulos; ergueu o rosto para a magnífica lua, enquanto cenas de um passado maravilhoso e feliz visitaram-no.
“Camus, por Deus, como podes tolerar essa água fria? Decerto que é um louco!”
“És mesmo como um gato para a água, senhor meu marido.”
“Para a água, não! Para a água FRIA! Prezo, sim, a higiene, contudo, desagrada-me demasiado a sensação de me meter nesse mar de gelo!”
“Não está tão gelada assim...”
“Não tentes me enganar, está frio AQUI fora, imagino como não está AÍ!”
“Não queres acompanhar-me?”
“Que ideia, viemos aqui observar as íris e glicínias às margens deste lago, e eis que tu nele te metes, com um frio desses!, quando dispomos de uma estupenda sala de banhos à mourisca...”
“Agrada-me sobremaneira a casa de banhos de teu soberbo Castelo de Haute-Loire. A natureza, porém, sempre haverá de suplantar as obras dos homens.”
“Não é MEU castelo, é NOSSO castelo, desde que nos casamos, oras...”
“Àquela época, planejavas destiná-lo para outro fim...”
“Peço-te que não tragas à tona minhas sandices de outrora.”
“Como queiras.”
“De volta ao tópico de agora... assombra-me tua desenvoltura com o frio. Não estavam errados teus conterrâneos que diziam ter ‘Camille’ olhos e coração de gelo!”
“Não estavam errados? Bem, vê se tão frias quanto meus olhos e coração são minhas mãos...”
“Camus, SOLTA-ME os pés! Cristo Crucificado! Tuas mãos estão como pedras de GELO!”
“Vem, amado esposo, quem sabe não hás de aquecer-me, por fim...”
“Camus! PARA! SOLTA-ME! Acabarei por cair nessa água se tu não...”
Fechou os olhos, no afã de adentrar ainda mais naquela lembrança.
O Castelo de Haute-Loire. A localidade preferida dos Auvergne durante os verões, a joia dos castelos da influente família. Levara Camus para lá logo após terem, enfim, consumado o amor que a tão duras penas foi pelo jovem conde admitido. Não era verão ainda, mal haviam chegado ao outono. Milo havia prometido que, um dia, Camus desfrutaria do verão em Haute-Loire. Promessa que não chegara a cumprir... chegaria a cumpri-la?
O Castelo de Haute-Loire. Para onde Milo, à época do enlace matrimonial, planejara formar sua “família clandestina”, com uma bela concubina e os loiros, saudáveis e rosados filhos que ela haveria de lhe dar... enquanto manteria com a falsa Camille um casamento de aparências. O matrimônio exigido pelo rei.
Não foi o que aconteceu. Ele sorriu ao rememorar.
Em Haute-Loire amaram-se, festejaram, brindaram... e também vivenciaram as cenas que a mente e o coração saudosos de Milo revisitaram.
“Prometi cuidar de ti para todo o sempre.”
“Não deves te preocupar em demasia comigo...”
“Nunca mais estarás sozinho. Camus, eu nunca, NUNCA mais te deixarei só!”
Ocorre que, a despeito de sua promessa, Camus, ESTAVA sozinho.
Sozinho e muito, muito distante.
Nem mesmo a lua parecia tão longe para Milo como Camus estava.
Como pudera fracassar de tão infame maneira com seu “bem mais precioso”?
− Camus... que é feito de ti? Como estarás vivendo teus dias, se é que... se é que VIVES ainda...?
Odiou a si mesmo por proferir aquilo, em voz baixa e consternada. Cerrou os punhos com força, sentindo as unhas perfurarem a palma enrugada pelo frio.
Fazia dez dias que Camus não mais personificava “Camille”.
Vivo, agora havia de se apresentar como um HOMEM perante um mundo que há quinze anos não mais o via como tal.
Como seria a vivência de Camus como um HOMEM? Como seria, para ele, após o resgate, voltar a viver como uma MULHER?
Milo ainda não havia pensado naquilo.
Certo, não fazia muito tempo que descobrira o que, de fato, fora feito do esposo. Mas, agora, erguia-se diante dele aquele questionamento perturbador.
E se por um acaso... Camus tivesse SE agradado da vida “como homem”? Era bem verdade que passara a viver na tal embarcação como um “forçado”, uma condição não tão distante da de um servo, ou, na pior das hipóteses, mesmo de um escravo. Mas poderia ter caído nas graças do dito capitão Saga, não considerava aquilo nada impossível: Era inteligente, educado, cortês e, seguramente, de forma alguma assemelhava-se a um “criado”, como Shura quisera fazer o dono da Gemini acreditar.
Talvez Camus estivesse em um mundo que, longe de ser aterrador, pudesse estar se revelando PROMISSOR.
A liberdade das amarras sociais às quais mulheres eram sentenciadas. A libertação de uma vida simulada, de um disfarce perene, de mentiras e mais mentiras... a possibilidade de, enfim, viver como o homem que era!...
“Que estou a pensar? Camus me ama! Jamais haveria de aceitar uma vida destituída de minha presença!”, pensou, revoltado consigo mesmo.
Soberba?
Não... apenas o pleno conhecimento de do coração de Camus. Da alma de Camus. Do espírito de Camus.
“Em alguns dias estarei contigo, meu amor. Espera-me, peço-te! Não desistas, não sucumbas, não esmoreças... estou a caminho!”, clamou em pensamento, suas lágrimas precipitando rumo às águas tingidas com o prata da lua, testemunha do febril juramento do Conde de Saint-Doulchard.
*************
“Eu não vou mais aguentar por muito tempo”, previa Camus, empreendendo todo esforço que podia para remar como seus companheiros de sina. Cada minúscula parte de seu corpo doía, pontadas horríveis na cabeça atormentavam-no, sentia que seus lábios se romperiam em chagas sanguinolentas a qualquer momento, tão secos estavam. Passava por eles sua língua igualmente seca, seca como a garganta ardida; julgava converter-se em uma estátua de sal, tal qual a mulher de Ló.
Por vezes, a vertigem apossava-se dele, fazendo-o cerrar com força os olhos destituídos de brilho. E então, sob a extrema fraqueza, envergava inconscientemente sua figura emagrecida para a frente, dando a quem presenciava seu lento martírio a impressão de que finalmente sucumbiria.
− Por que não se entrega logo a ele e acaba com isso de uma vez?
Seus olhos semicerrados abriram-se sem vontade ao ouvir a indagação sussurrada de Thor, na fileira do lado. O instinto levou-o a procurar Dohko com a visão meio embaçada: o capataz não estava próximo; conversava com alguns homens a certa distância.
− É por causa de tua obstinada resistência que o capitão perdeu o juízo – Havia um acento francamente acusatório na insistência do grandalhão.
− Se estivesses no meu lugar, render-te-ias? – Volveu o ruivo em sussurros, menos por precaução do que por seu estado alquebrado.
− Isso não vem ao caso. Não estou eu teu lugar. Quem se encontra na posição de mudar teu destino e o NOSSO és TU!
− E do pobre Isaak – Completou um dos “vizinhos de remo” do nobre.
− Isaak... – Murmurou Camus, pesaroso.
Por SUA causa, o desafortunado rapaz fora tão severamente castigado. Como haveria de estar aquele que, sem qualquer sombra de dúvidas, havia se tornado tão fiel, leal AMIGO? Isaak... arriscara-se por ele... entregara tudo quanto possuía por ele... e, agora, sofria terrível punição na “gaiola”...
− Se fizeres o que o capitão exige, poderás pleitear misericórdia para o pequeno – Thor continuou, atento ao capataz, ainda fora do alcance daqueles arriscados colóquios. – Isaak está a sofrer por ter tentado ajudar a TI. Deverias demonstrar gratidão! Ou acaso achas que por seres superior a todos nós em modos, porte e maneiras, encontras-te à margem de tal dever?
− E-eu... eu não sou... supe...
O mundo começou a escurecer, malgrado o sol incidisse quase com fúria sobre aqueles torsos desnudos. O braço comprido de Thor adiantou-se para interceptar o corpo de “Laurent”, que precipitou-se rumo ao convés.
− Thor, não... n-não me ajudes... serás punido... – O ruivo balbuciou, amparado pelo enorme escandinavo.
− O capitão perdeu o juízo – Um homem repetiu as perigosas palavras de Thor. – Penso que nada perderemos em acatar a proposta de Kanon.
− Primeiro Jamian; depois Mustafá, Aleph, Otto e Pierre... agora Isaak e esse pobre diabo... qual de nós será a próxima vítima dos desmandos do capitão?
− Já está a nos deixar quase sem pão e vinho, a cada dia temos menos...
− Ele pretende fazer conosco o mesmo que está a fazer com Larent!
− Calai-vos, quereis ser denunciados? – Admoestou Thor, apontando para outros forçados, mais ao fundo das galés. – Nem todos concordariam com os planos senhor Kanon...
“Kanon... o irmão de saga! Acaso ele pretende...?”, Camus conseguia raciocinar enquanto lutava para manter-se consciente. Não foi, porém, bem sucedido por muito mais tempo; veio a perder os sentidos, ainda escorado no imenso nórdico. Percebendo, este o sacudiu, chamando em vão:
− Laurent? Que tens? Acorda! LAURENT!
Alguns ergueram-se a fim de acudir o novato. Era um DELES, afinal. Alguém na MESMA condição, escolhido ao acaso para padecer a bel prazer do capitão. Mesmo para o mais rústico dos lobos dos mares, aquilo era assaz fútil para que se mantivessem totalmente indiferentes.
− Que se sucede por aí? Estais a festejar, cães? – Dohko enfim deu-se conta de que algo fora do normal acontecia entre os remadores. Para lá retornou aos berros: − Quando meu chicote estalar nesses couros curtidos que chamais de pele, haveis de dançar e...
Deparou-se com a figura inerte do jovem ruivo amparado por Thor.
− Por todos os santos! Ele morreu?!?
− Não o sabemos – Respondeu Thor, confuso.
O chinês aproximou-se da figura desfalecida, a fim de verificar se respirava.
− Ele vive! Talvez por pouco tempo, contudo... – Pensou no que o capitão lhe dissera o que fizesse, caso Laurent sucumbisse, da forma que fosse. – Precisamos leva-lo até o camarote do senhor Saga.
− O... camarote do capitão?
− Sim, Thor, foi o que eu disse. Possuís alguma consideração acerca do dito?
O gigante escandinavo hesitou, sem demonstrar exatamente concordância. No entanto, nada havia que pudesse fazer. Suspirou e ergueu o “Laurent” nos braços. Seguiu o capataz até a ocupação do capitão. Em seu percurso, passou por um atento Orfeu, que, em seguida, lançou um olhar a Kanon, que “oportunamente” fazia a ronda por ali. Sempre atento ao que se passava no tombadilho, o mais novo dos influentes gêmeos gregos... Kanon sorriu para Orfeu, em uma clara mensagem.
“Laurent” seria excelente distração para o seu “grande e esperado momento”.
A compreensão foi imediata a Orfeu, que não se furtou a sorrir de volta para o idealizador de uma vingança que era SUA também, afinal...
Por mais que esperasse a qualquer hora por aquilo, Saga surpreendeu-se genuinamente com a chegada repentina de Dohko e de “Laurent”, este inconsciente e carregado por um dos forçados. Sinalizou que o jovem fosse colocado na cama do recinto. Sem conseguir disfarçar a reprovação no intenso olhar, Thor obedeceu. O capitão optou por ignorá-la, tamanha a satisfação em receber, como um valiosíssimo despojo de guerra, o objeto de sua incansável obsessão bem em seus domínios mais recônditos... dispensou Dohko e Thor com impaciência. E então, voltou o rosto ávido para a alcova.
− Eis que finalmente vens até mim... – Murmurou, com um largo sorriso.
Caminhou até o grande leito, no qual sua presa jazia, alheia à lenta aproximação do predador. Sobre o ruivo se debruçou, aspirando todo o seu cheiro: suor, sal, algo indefinido e algo doce, atraente, magnético.
− Eu poderia tomar-te à força, e nada haverias de perceber, pois que estás mais morto que vivo – Sussurrou-lhe ao ouvido.
Acariciou-lhe a face avermelhada pelo sol impávido dos mares.
− Mas se fosse essa minha real vontade não teria adiado tanto nosso enlace. Não. Não me interessa violar-te, como por tantas vezes o fiz, com outras pessoas... amo-te, recalcitrante Laurent...
Presa de profundo sono, Camus nada ouvia ou percebia. Sequer deu-se conta das mãos que delineavam-lhe o delicado perfil, que se enfiavam pelas bastas melenas rubras. Nem mesmo dos lábios que roçavam de leve os seus, ressequidos, imóveis.
− És tão belo, tão nobre, tão puro, tão altivo...
Ao encostar seus lábios nos do novato, Saga percebeu-os quentes além do que esperaria. Assustado, pôs a palma da mão sobre a fronte suada do jovem.
− Com mil demônios. Tens febre – Murmurou, entre preocupado e contrafeito.
Tratou de pegar uma jarra de água e molhar um pano. Pôs o tecido umedecido sobre a testa de Camus. Cuidou de espargir água fresca em seu peito desnudo e também em seus pulsos.
− Laurent, não quero de maneira alguma que pereças – Sussurrava, enternecido em seu egoísmo mortal. – tudo que fiz foi para que este momento ocorresse, para que viesses para perto de mim... para enfim ser MEU.
Molhou os pés do ruivo, cuidando de beijar-lhe cada um dos dedos. “Laurent” era SEU, afinal.
− Aceita-me, pois, meu bem amado. Vieste para mim, tão somente. Hei de cuidar de ti como a joia preciosa que és...
Considerou-o, achando-o belo, bela aquisição, belo prêmio... acariciou-lhe as faces ardentes pela febre, embevecido com tal tesouro. Mirou-lhe os finos lábios rachados, mas nem por isso menos tentadores, neles pousando um outro pano embebido em água fresca. Foi quando percebeu que se moviam débil, lentamente.
− Mi... Milo.
Deteve-se para melhor entender-lhe o chamado febril.
− Milo...
Paralisou ante aquele inconsciente clamor. Decerto que “Laurent” delirava. Mas o chamado continuou, plangente:
− M-Milo... Milo...
Saga olhou-o perturbado. Por fim, perguntou, mais para si mesmo do que para aquele que certamente não poderia ouvi-lo:
− Milo? Quem é Milo?
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