Dame Jolie
56 Sangue sob o Sol
Notas iniciais
− Milo? Quem é Milo?
Dada a condição de Camus, praticamente inconsciente devido à exaustão que o pusera naquele estado vulnerável, o capitão perguntava mais a si mesmo que ao infeliz que delirava. Fitava-o intrigado. Passou a mão pelo rosto quente de “Laurent” ao repetir a indagação:
− Quem é Milo? Responde-me, Laurent!
− Milo... onde estás? Milo... eu... eu te amo...
O toque de carícia tornou-se impaciente, pois que os dedos que antes trilhavam com delicadeza a pele do ruivo agora apertavam-lhe o queixo com rispidez. Sentindo-o, Camus deu um gemido baixo. Julgando que ele tivesse despertado, o grego demandou irritado:
− FALA, DESGRAÇADO! Quem é Milo? Quem estás tu a chamar?!?
Em vez de responder, o cativo gemeu novamente, ao que Saga o largou, bufando de raiva. Ergueu-se do leito e pôs a mão sobre a boca enquanto refletia:
“Essa palavra... ‘Milo’... em grego significa ‘maçã’. Em língua germânica, porém, sei que é nome de homem.” (nota da autora = forma antiga do nome germânico “Miles”, significa graça, amor ou bondade)
Sua respiração tornou-se profunda ao prosseguir as nefastas ponderações em pensamento:
“Pelos demônios do mar, ele... disse que AMA essa pessoa. Esse... HOMEM! Clama por ele! Será alguém da criadagem de Shura?”
Súbito, seu olhar extático fez-se focado.
Lembrava, SIM, de ALGUÉM com aquele nome.
Não de seu convívio ou que tivesse conhecido em qualquer ocasião. A ele chegara como mera menção, há muito ouvida.
“Eu só ouvi falar de UMA pessoa com esse nome... Milo D’Auvergne. É o nome do nobre com quem Shura foi ao Oriente... Milo D’Auvergne, filho do Conde Henri D’Auvergne! Eles são velhos conhecidos, amigos de longa data, lutaram contra os que chamaram ‘infiéis’. Foi o homem por quem Shura duelou com o grande Saladino, contam e cantam os trovadores e menestréis. Milo... será essa pessoa pela qual Laurent chama em seu delírio febril?”
Isso significava que a pessoa por quem “Laurent” lhe resistia obstinadamente... tratava-se de um HOMEM? Talvez a ignomiosa relação tivesse causado a punição que levara o ruivo até as galés. Claro! Decerto fora descoberta pelo seu senhor, e, devoto como era o Marquês de Aguilar... um paladino da fé e da lei não agiria diferente, mesmo que significasse apartar-se de um criado tão valioso... a julgar pelo notório estrito senso de justiça do nobre espanhol, Saga estranhava com sinceridade o fato de “Laurent” não ter sido sumariamente executado. Bem, quem sabe, daquela vez, a tão propagada caridade cristã não tivesse sobrepujado o rigor punitivo comum a tantos seguidores da Igreja...
− Isso quer dizer que o grande guerreiro da França, herdeiro de um dos maiores exércitos de Europa, é um sodomita? – Murmurou o capitão, resgatando lembranças do primogênito de Henri D’Auvergne. Aquilo havia de ser um segredo valiosíssimo, do qual simplesmente dependia a vida do Conde de Saint-Doulchard.
− Naturalmente, posso estar enganado. Tudo, porém, parece se encaixar como ripas de madeira em um barco. – Voltou a mirar o jovem inconsciente. – O grande amigo de Shura de Aguilar, seu irmão de armas, é a razão de tua recusa ao meu generoso oferecimento.
Aflito pela febre que ainda o atormentava, Camus remexeu-se na cama, virando o rosto corado de um lado a outro. Como que lembrando do que fazia até ouvir o nome de Milo, Saga tornou a pressionar o pano molhado na têmpora de seu prisioneiro. Passou-o pelos pulsos e, por fim, pousou o trapo por sobre a testa do ruivo. Este ofegava, mas com menos intensidade agora. O capitão ergueu-se para pegar água em um recipiente nacarado. Segurou Camus pelo queixo de modo a forçá-lo a abrir a boca e deu-lhe de beber. Esperou pacientemente até que o rapaz engolisse o líquido precioso, o que somente se concretizou após algumas tossidas roucas.
− Que tipo de homem é o teu Milo, que permite que Shura te entregue a mim como um cavalo velho e sem valor? A despeito de sua covardia, aí estás tu, gemendo seu nome enquanto padeces...
Não resistiu a chupar-lhes dos lábios tépidos gotas que escapavam. Aprofundou o contato até tomar o nobre em um beijo tão urgente quanto invasivo. As mãos que percorriam os flancos emagrecidos pelo longo jejum detiveram-se ante a constatação de que aquela febre inspirava real preocupação. Se continuasse daquele jeito, “Laurent” por certo sucumbiria! Não, de jeito nenhum permitiria que aquilo acontecesse! Não agora que estava ali, a seu dispor, em seu leito, em seu poder. Abriu o recipiente que pegar havia pouco, abriu-o e besuntou os dedos com o unguento aromático que continha em seu interior. Tratou de esfregá-lo com vigor nas axilas, peito e pescoço do jovem. O ato de manusear aquele corpo voltou a despertar seu desejo com fúria desmedida; arrancou de vez do homem febril as vestes puídas, que de tão gastas praticamente se desfizeram entre as palmas ávidas do capitão. Os gestos bruscos sacudiram a percepção de Camus e ele acabou por despertar. Arregalou os olhos com horror ao ver o temível grego sobre si. Tentou se desvencilhar, mas seus pulsos... algemas? Grilhões? Não: eram as mãos fortes de Saga que os continham com firmeza de aço.
− Que fazeis? Apartai-vos de mim!
− Ora, julgas que podes me dar ordens? Cuido que ainda deliras...
− Soltai-me! – Camus debateu-se furiosamente. Esforço vão, pois não apenas o capitão excedia-lhe em força e tamanho, como também se valia da fraqueza em que se encontrava. Havia de estar doente, aquele mal-estar não podia ser outra coisa que não uma moléstia que o arrebatara após tantos dias naquela embarcação infernal.
− Detém-te de pretextar pudicícia, que já te sei não tão casto como tencionas pôr-te diante de mim. – Disse Saga, entre dentes.
Ante o olhar genuinamente interrogativo do ruivo, acusou sem mais delongas:
− Tens como amante o conde Milo D’Auvergne, amigo de Shura de Aguilar.
Camus tentou não demonstrar seu estupor, mas não havia como ser bem sucedido após ouvir tais palavras.
− Estás ainda mais lívido agora que DESVENDEI quem és.
Pensando que Saga se referia à “Condessa Camille de Saint-Doulchard”, forças misteriosas assomaram-se aos esforços de Camus por se libertar: preso pelos pulsos, levou a cabeça de encontro ao queixo do capitão com brusca violência. A urgência despertada pelo pavor de saber o segredo descoberto poupou-o de qualquer dor, ao menos naquele momento. Não foi o caso do grego, que o sentiu, e bastante. Em um reflexo, soltou os pulsos de “Laurent” quando, ante o golpe, seu corpo pendeu para trás. O impacto inesperado fê-lo morder o lábio e prontamente o sangue afluiu. Sequer teve tempo de se render ao instinto de levar a mão à boca, pois que fora atirado ao chão por um potente chute de Camus novamente em seu queixo. Desta vez, o grego tombou pesadamente no chão. Revigorado de um modo que só podia – acreditou ele − ser sobrenatural, o ruivo saltou até pegar a jarra de água e com ela golpear a cabeça de Saga. Finalmente o homem ficou imóvel, estirado. Ofegante, o nobre procurou colocar os pensamentos em ordem. Olhou ao redor; correu até um baú e dali tirou roupas apressadamente. Precisava ao menos vestir algo para não fugir nu. Contudo... fugir para onde?
Só se ele se atirasse ao mar...
Seria suicídio. Encontravam-se a milhas e milhas da costa. E havia os tubarões, os mesmos que se fartaram de Jamian e, provavelmente, dos outros desafortunados punidos por Saga também.
Mas chances... existiam.
Ali... nenhuma.
Súbito, um pensamento voltou-lhe à mente.
Saga descobrira sobre Milo.
Sobre aquele... segredo.
“Que devo fazer? Matá-lo? Se eu o matar, decerto que hei de ser trucidado pela tripulação.”
Seria o sacrifício derradeiro, enfim. Em prol da manutenção do segredo de vida e morte do Conde de Saint-Doulchard... de suas famílias... se aquele homem revelasse para o mundo o que inferira ao lhe ouvir os devaneios febris.
Bem, qualquer que fosse o seu destino, não o enfrentaria despido.
Vestiu calças de couro marrom ridiculamente largas para seu corpo emagrecido pelas provações recentes. Atou firmemente um cinto e jogou por cima de seu torso uma túnica branca com detalhes em arabescos dourados na gola e nos punhos. Não sabendo onde havia calçados, não fez deles caso, dirigindo-se rumo à porta. Nenhum plano se desenhava em seu entendimento, apenas o impulso o levava à saída.
Quando ganhou o corredor, ouviu um grito abafado e o som de algo tombando no assoalho de madeira. Olhou para trás a tempo de ver um corpo já imóvel e um homem dobrado de joelhos tendo a garganta cortada impiedosamente pela espada de alguém cujo rosto a penumbra não permitiu a identificação.
Não que isso importasse naquele momento.
Empreendeu grande esforço para sair de onde estava, pois que o horror quase o paralisara. Deu meia volta e tornou a entrar no camarote do capitão. Fechou o pesado trinco de ferro, duvidando em seu íntimo que aquilo segurasse a horda que em breve chegaria.
“Um motim”, pensou, desvendando as estranhas conversas avessas sobre Kanon.
Olhou ao redor, em busca de alguma arma. Levou apenas alguns segundos até que seus olhos caíssem sobre uma espada pendurada junto a um sabre e a uma cimitarra sobre um luxuoso aparador. Pegou-a, era o que sabia manusear, não que a necessidade não pudesse lhe ensinar a manusear as outras armas. Se já correria perigo em um motim estando nas galés, tanto maior era o risco estando ali, no quarto do capitão...
O capitão!
Chegou a se arrepender por tê-lo tirado de combate. Dois homens lutariam melhor que um apenas, mas agora...
Teve um sobressalto ao perceber que alguém do lado de fora tentava empurrar a porta. Deu alguns passos para trás, empunhando a espada, já se preparando para a luta.
− Uhh... aaah... maldito Laurent... como te atreveste... − Murmurou Saga, voltando a si. Sentou-se, esfregando a cabeça, zonzo e irritado. Seus olhos apertados se arregalaram ao notar Camus no meio do quarto com uma espada nas mãos, claramente à espera de um ataque.
− Que... que é que fazes?!?
− Apressai-vos, tomai vossas armas −Sussurrou o ruivo.
− Que se sucede?
− Um motim.
− QUÊ? A quem pensas que enganas, criatura vil? Esta é a Gemini! Jamais haveria um...
O barulho de tentativas agora abertamente enérgicas de abrir a porto fê-lo calar-se. Alerta, lançou um último olhar surpreso a Camus, antes de correr até onde deixara as duas espadas com as quais extinguira as vidas de quatro de seus homens naquele mesmo dia.
− Não posso acreditar que estão a se insurgir contra mim! − Disse o capitão, ainda impactado com o que acontecia.
Camus preferiu não responder. Já não dispunha de muita energia, precisava usar toda que lhe restava para a luta que logo explodiria no recinto. E nada demorou, pois lograram arrombar a porta; uma pulsante massa humana irrompeu aos gritos.
Saga não se preocupou ao ver que enviados como a frente de batalha eram homens aos quais ele chamava “cães”: com exímia habilidade, girou suas espadas, atingindo de pronto vários que mal tiveram chance de se aproximar efetivamente do capitão. De sua parte, Camus não viu saída senão golpear com a espada aqueles que investiam contra si. De nada adiantaria argumentar que não era aliado do líder da Gemini, visto que se encontrava a seu lado, em seus aposentos. Volteava com perícia, acertando quem quer que tentasse chegar perto, ao mesmo tempo em que se esforçava para não se importar com os berros inumanos que se seguiam à chuva de sangue. Vários tombavam aos pés dos dois homens a quem foram emboscar, sem que isso significasse desfecho algum, uma vez que da porta não cessava de afluir marujos sedentos da conquista que os colocaria em bons termos perante o mandante do motim.
− Porcos! Malditos porcos, férulas mal-agradecidos! – Bradava Saga, alimentando suas lâminas com a carne e o sangue dos insurgentes. – Como ousais? Estais, pois, a serviço de meu irmão, a quem foi negado desde o berço o direito à Gemini?
− Falai menos, lutai mais – Admoestou-lhe Camus, enquanto se desvencilhava de pelo menos meia dúzia de homens, com uma habilidade que assombrava os que esperavam sua vez de exterminar “a concubina” do capitão. A este tampouco passou despercebida aquela técnica surpreendente de luta.
− Onde aprendeste a lutar desse jeito? – Saga não resistiu à curiosidade de indagar, mesmo ocupado em retalhar seus oponentes, que não paravam de chegar.
Camus resistiu ao impulso de rir ante a inconveniência de tal questão bem naquele momento. Ciente da superioridade de quem obtivera por anos treinamento marcial de ninguém menos que o Duque de Borgonha, cujas façanhas como cavaleiro pouco diferiam das do notório Conde D’Auvergne, abandonou a postura defensiva e passou a investir com tudo contra os revoltosos.
− Com mil lampreias, demônios marinhos! Parecem formigas a brotar de um formigueiro!! Formigas é o que são, e como formigas perecerão!!! – Praguejava o capitão, cujo tom evocava trovões aos ouvidos dos enviados de Kanon, sem um décimo da capacidade de Saga e mesmo de “Laurent”.
− Esse maldito ruivo!
− Como um reles servo escravizado pode lutar desse jeito?
− É um verdadeiro diabo! A cor de seus cabelos já o dizia!!
Questionamentos desesperados vindos das fileiras detrás daquelas que encontravam seu fim no fio da espada manuseada pelo “reles servo escravizado”. Vários eram abatidos sem que um fio daqueles cabelos vermelhos fosse partido por lâminas inimigas. Alguns homens detrás dos vencidos hesitaram e, ante um feroz ataque do nobre, tencionaram retroceder, o mesmo acontecendo com aqueles que digladiavam com o capitão. A tentativa de súbita retirada foi vã, pois que ambos não lhes permitiram a fuga, punindo-os com a morte pelas espadas. Os que estavam para entrar no quarto desistiram e empreenderam desesperada fuga.
Tudo ficou momentaneamente silencioso no camarote do capitão. No chão inundado de sangue, homens aos montes, mais de duas dezenas deles, alguns ainda gementes e lutando por se manterem no plano terrestre. Saga ocupou-se de abreviar-lhes aquela derradeira e inútil peleja, atravessando-lhes peito, pescoço e fronte com as espadas firmes em cada uma de suas mãos.
Ele tornou seu rosto rubro de sangue para seu prisioneiro, cujas faces de igual maneira se tingiam de vermelho. Camus, ofegante, parecia aguardar por uma nova leva de oponentes, o cabo prateado da espada nunca abandonando as mãos outrora macias, agora calejadas de remos. Saga mirou-o, impressionado e vivamente encantado. Nunca imaginou que “Laurent” pudesse se apresentar ainda mais belo do que já considerava. Não, o rapaz NÃO era um simples servo, se antes havia a desconfiança, agora havia certeza total.
− Onde aprendeste a lutar desse modo? Dir-se-ia que recebeste treinamento de cavaleiro.
− Já vos disse. Sou oriundo de família nobre. Falida, porém nobre. Mas – Ergueu o rosto para o teto, como que sinalizando para o convés −Penso que, antes disso, deveríeis preocupar-vos com o que há de vir a seguir.
O grego assentiu em concordância.
− Kanon nunca dominou as artes da guerra. Contentou-se em enviar seus lacaios, o que se mostrou infrutífero. Havemos de prová-lo agora... para o convés! Ele está lá!
Intempestivo, deixou o camarote, seguido por Camus; este encontrava-se ciente de que uma vez que trilhava aquele caminho, não teria como voltar. Era até difícil andar pelo corredor, tantos corpos como obstáculos. Foi necessário empurrar com os pés alguns que obstruíam os degraus ensanguentados. Subiram pela escada: ao chegarem ao convés, a visão foi exatamente a esperada por ambos, não era mais um navio mercante e sim um campo de batalha, com homens se digladiando pelos que haviam escolhido como merecedor da Gemini. No centro daquele pandemônio, cercado por seus marujos de confiança, Kanon, de braços cruzados, uma postura insólita e displicente que só não destoava por completo porque Saga o conhecia muito bem. O amor fraterno que ao caçula devotara jamais fora ofuscado pela consciência da índole de Kanon, por mais que esta o primogênito tentara por toda a vida não enxergar.
− KANON!!! – Bradou o capitão, louco de fúria.
− Ei-lo vivo, como bem me contaram – Volveu o gêmeo mais novo, um sorriso tão luminoso quanto perverso. Voltou-se para Camus. – Muito graças a TI, como também me contaram. Os felizardos que a vós sobreviveram atribuem a ti faculdades feiticeiras... heh, quanto a mim... malgrado esteja surpreso, não acredito em sortilégios de qualquer natureza.
Camus não se dignou a proferir qualquer palavra. Segurou mais firmemente o cabo entre as mãos, que tentara em vão limpar do excesso de sangue na túnica que um dia fora branca. Estreitou os olhos ameaçadoramente, mais por uma ideia que luziu em seu entendimento do que por intenção de intimidar o mandante do motim.
Dando alguns passos na direção do irmão, Saga angariou a atenção dos que pelejavam.
Enfim, os gêmeos iriam lutar!
Entretanto...
− Cessai esta perfídia, Kanon, e perdoar-te-ei.
− Perdoar-me-ás com uma breve e indolor morte, permite que eu conclua teu óbvio ditame, irmão. – Retrucou, gesticulando de modo cômico.
Saga respirou fundo, seus olhos esverdeados considerando o entorno. Os homens pareciam divididos em número, a vitória não podia ser considerada certa, contudo...
− Não percebes que ao te insurgires contra mim, insurges-te contra nosso pai? É pela vontade dele que sou capitão da Gemini.
−Acaso podem os mortos ditar os desígnios do mundo dos vivos?
− A própria LEI delineou a decisão de nosso pai: somos gêmeos, sim, mas EU sou o primogênito!
− Cala-te! – Finalmente o sorriso abandonou o rosto de Kanon, tornando-o tão ou mais sombrio que o de Saga, considerou um atento Camus. Descruzou os braços e, com o dedo em riste para o mais velho, sentenciou: − Achaste-te em falta perante teus próprios homens, Saga... é um favor que faço ao velho: livrar o comando da Gemini de um tirano que não tem apreço pelos fiéis que o servem!
Uivos e palmas ecoaram e, em seguida, berros de apoio a Kanon. Em meio a estes, algumas vozes, cujos donos Camus conseguiu distinguir, também se fizeram ouvir:
− Capitão, estamos convosco!!!
− Havemos de lutar até o fim por vós!!!
Dohko e Thor, dentre mais outros defensores ferrenhos de Saga. Estimulado pela demonstração de tantos apoiadores, o capitão brandiu uma das espadas na direção do irmão.
− O número de nossos seguidores equivale-se; tu, porém, não deténs a mesma habilidade na espada que detenho eu, e eu tenho a meu lado, ainda, o maior guerreiro que já encontrei em vida, teus lacaios podem atestá-lo.
− Com efeito. Meus homens testemunharam ter enfrentado um autêntico Cruzado. Quem sabe não foi com um que teu irresistível “Laurent” treinou? Ou... quem sabe – Encarando-o de modo fixo, Kanon completou: − não tenha sido ELE MESMO um Cruzado...?
Os lábios de Camus entreabriram-se ante a ponderação.
Quem sabe... se ele não tivesse sido criado como MULHER... como CAMILLE...
Teria ido à Terceira Cruzada com Milo e mesmo com Shura.
Shura.
Se não tivesse sido por ele... não estaria ali. Algo queimava dentro de si.
“Agora sou um HOMEM. Há dias sou um HOMEM. E... possivelmente vou morrer como um homem. Mas meu amor por Milo suplanta TUDO, e por ele, de TUDO serei capaz...”
− Já que não cessas esta disputa, hei de duelar contigo pela Gemini. −Saga anunciou, seguro de sua superioridade.
− Não preciso lutar contigo, irmão. Pode ser que nossos homens sejam equivalentes em número, no entanto, os meus hão de possuir mais fervor para combater os que continuam ao lado de um capitão que sacrifica os próprios homens por causa de caprichos ególatras.
− Imagino que serias mais respeitado como novo capitão se me derrotasses SOZINHO... sem intermediários. – Argumentou Saga, alto o suficiente para que todos ouvissem.
Kanon fitou-o sério.
− Que tal, irmão? Enfrenta-me de igual para igual diante de teus seguidores. Ou preferes, como o que fiz, segundo ti, sacrificá-los em nome de teus caprichos? Não serias em nada diferente de mim.
Virou-se para Camus.
− Lembra-te de que, se optares por enviar terceiros para pelejar comigo, tenho a meu lado Laurent, de cuja capacidade estás plenamente cônscio... e a quem certamente teus ratos temerão como ao próprio diabo.
Perturbado, Kanon viu que era verdade pois percebera o velado temor nos semblantes de seus aliados. Entreolhavam-se, quase encolhidos, após considerar outra vez mais, o ruivo, coberto de sangue; o olhar deste, outrora mortiço, brilhava de viva fúria, ardor de quem lutaria até o fim pelo capitão.
Com orgulho visível no sorriso cúmplice, Saga pontuou, olhando para “Laurent”:
− És até mais hábil que eu. É nítido que não és um mero servo. O que, aliás, corrobora com minhas descobertas na alcova...
Ouvir aquilo sacudiu todas as fibras do ser do nobre. Sob o escaldante sol daquela tarde clara, Camus deu dois passos à frente, diminuindo a distância entre si e um, agora, quase reticente Kanon. Todos quedaram-se imóveis, esperando que o ruivo investisse contra Kanon num rompante assassino. Invocando uma força que julgara morta dentro de si, Camus elevou a voz para o irmão do capitão:
− Dar-vos-ei o comando da Gemini. Que haveis de dar-me em troca?
Uma onda de murmúrios e exclamações correu entre a tripulação antes belicosa, agora em estado de animação suspensa ante tais palavras. A surpresa indignada de Saga àquele burburinho se sobrepôs:
− Que estais a dizer, Laurent?!? Que jogo é esse?
Igualmente estupefato, Kanon recebeu sobre si o olhar frio e resoluto do ruivo. Pouco a pouco recobrou o ar superior e ousou sorrir ao propor, em tom límpido:
− Muito que bem, caro Laurent. Se lograres o que me ofereces... dar-te-ei a LIBERDADE.
Uma vez mais vozes se assomaram entre os marujos.
− Perdoai-me, todavia considero insuficiente: exijo a liberdade de Isaac também.
Desta vez até palmas de euforia foram ouvidas em meio aos berros e assobios. Orfeu irrompeu, revoltado, entre os negociantes:
− Kanon! Não hás de dar ouvidos a esse aprendiz de meretriz, por certo!!
Despreocupado em responder, Kanon apenas ergueu a mão, em um claro sinal para que o jovem loiro se calasse.
− Laurent... que é que pretendes?
Ignorando a pergunta, feita em tom incrédulo para ele por Saga, Camus empunhou sua espada. Atônito, o capitão arregalou os olhos.
− É um TRUQUE, Kanon! Será que não o percebes?? Estavam JUNTOS no camarote, e após pelejarem, por certo...
− Meu querido Orfeu, se tu não podes derrotar Saga e muito menos Laurent... nem EU... assim como nenhum dos homens que enviei aos aposentos dele puderam... – De modo quase majestoso, Kanon caminhou até um tamborete e nele se sentou, surpreendentemente tranquilo. − BEBIDA!!!
Breves instantes de estupefação precederam a corrida de alguns prestimosos para obedecer à ordem de Kanon: até ele foi levado um cálice, que foi enchido até a boca de vinho. O irmão caçula de Saga ergueu-o como em uma saudação para o prodigioso servo ruivo:
− Aceito teus termos, valoroso Laurent. Eia, que me sinto um verdadeiro suserano diante de seu vassalo! – Riu com vontade. – Tua liberdade e a do pequeno Isaac pela vida do meu mais não necessário irmão Saga.
Armas caíram ao tombadilho, baldes e ferramentas foram atiradas ao ar, durante a cacofonia de urros, uivos, assobios e gargalhadas. Espantado, Saga encarou “Laurent”, que já assumia uma ameaçadora postura de ataque.
− Enlouqueceste!!! Sabes que não podes me vencer... ainda que possas sobrepujar-me em técnica, minha experiência seguramente suplanta a tua!
− Em guarda, capitão Saga. Dispenso uma vitória favorecida por vossa desatenção.
Nem um golpe frontal seria capaz de conferir ao capitão a expressão que anuviava seu rosto lívido.
− Haveis, pois, de lutar COMIGO... é isso? – Foi quase um balbucio.
Indiferente àquele tom ferido, Camus novamente se dirigiu a Kanon:
− Há algo mais que gostaria de incluir no meu preço, senhor.
− Diz-me, pois... pelo que vejo, concupiscência é outro de teus atributos, não, Laurent? – Ironizou, mais divertido que contrafeito.
− Nenhum homem mais há de ser sacrificado, nesta embarcação, em prol da querela entre vós dois.
Simulando um muxoxo de descaso, Kanon assentiu:
− Eis que demonstras possuir o espírito de um mouro infiel, que se compraz em aumentar o preço de tudo em uma negociação honesta entre cavalheiros... bem, bem, estou de acordo, asseguro-te. Acaba com Saga e, em troca, terás a tua liberdade, Isaac a dele e a VIDA de todos aqui presentes será preservada, juro-te.
Foi como uma verdadeira explosão. Toda a tripulação vibrava eufórica. Não mais cairiam ao tombadilho ou mesmo ao mar corpos de marujos a serviço dos irmãos gregos que por toda vida disputaram o domínio da Gemini. O novato resolveria tudo por eles!
Lentamente, Camus virou-se para Saga. Este rangeu os dentes ao mesmo tempo em que apertava as espadas nas mãos.
− Hei de fazer com que te arrependas amargamente desta traição – Rosnou o capitão, repleto de um ódio inédito em sua conturbada existência. – Logo, pedaços de teu belo corpo hão de servir de alimento às criaturas marinhas, Laurent.
− Confesso que me vejo ansioso por averiguar se sois tão eficiente com as espadas como sois com vossa tagarelice – Tornou Camus friamente e, ao mesmo tempo, envolto em um fogo inédito na alma.
Levantando-se do tamborete, Kanon ergueu a mão direita rumo ao céu azul antes de sentenciar, em um brado imperioso:
− Ao meu sinal... SEM REGRAS... AGORA!!!
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