Dame Jolie

20 Sob o sol, sob a sombra


Notas iniciais
Buenas! Chegando a jato o capítulo 20, graças às férias e a preguiça desta que vos fala em sair de casa neste singelo calorzinho de 40 graus do Hell de Janeiro... Gostaria de agradecer o lindo apoio que vocês vêm dado a esta fic, e deixar meu muito obrigado especial a quem deixou comentários, isso muito anima e estimula o autor, além de por vezes até ajudar na obra, como já mencionei aqui. Dedico o capítulo de hoje à Kalynna Zor-El ... querida, desde que conversei contigo ontem, tive vontade de dedicar este capítulo a você, como uma forma de te animar um pouco. E... bem quando estou prestes a atualizar, você, que estava tão triste ontem, me manda um lindo soneto inspirado em Dame Jolie. Em meio a todas suas dores, você tece palavras tão belas, e muito me emocionou que minha humilde obra seja inspiração de poesias como as suas. E pode esperar, dias melhores sempre vêm... piores também... esta é a ciranda da vida. Enquanto nos servirmos de Arte, não desistiremos. Créditos da fanart: Kanan Pixiv ID: 54015590 Member: かなん Link para o tema, e explicações de trechos marcados nas notas finais. Boa leitura!

“Eu vos odeio, senhor Milo d’Auvergne.”

Aquelas palavras reverberavam num espaço escuro e gélido no qual ele sentia a pior das dores.

Sim, uma dor como jamais experimentara, trespassando brutalmente seu coração, a ponto de ele ficar sem ar.

Não poderiam ter sido proferidas de fato!

Não agora que ele ACEITARA aquele amor! Que estava disposto a vivê-lo!

Em seus sonhos, declarava-se a Camus, que semicerrava os olhos castanho-avermelhados, e em seguida, abaixava-os, em um gesto casto. O sorriso tímido e o rubor do belo rosto denotariam a aceitação. E este seria o sinal para que se curvasse sobre ele, para tomar aqueles lábios, os mais doces que provara...

Em sua realidade, o rubor do belo rosto, no entanto, fora conferido pela cólera, e os olhos faiscavam de ódio, todo ele uma dorida sentença de execução, pois que tudo, TUDO estava acabado!

E o que era pior... sequer havia começado!

— Camus... – murmurou o cavaleiro, estendendo a mão para o esposo, retraído contra a parede, completamente na defensiva.

Oh, como doía-lhe aquela visão!

— Tocai-me novamente, senhor Milo, e eu juro por Deus que não sereis capaz de gerar vossa descendência.

Detendo-se atordoado, o conde viu-o se afastar mais, saindo de perto da parede; naqueles lábios desejados, o rastro de seu sangue.

— Por que... – a voz do ruivo saiu tremida, sem que ele pudesse isso impedir ou controlar – Por que fazeis isso comigo? Eu nunca vos fiz mal algum... NUNCA VOS FIZ MAL ALGUM!

Sem saber o que dizer, o loiro limitou-se a presenciar a batalha do marido para não sucumbir ao pranto, sofrendo por si... sofrendo por ele...

Camus mirou-o gravemente ao dizer, o tom embargado de mágoa, ressentimento, revolta:

— Não foi escolha minha viver assim... enganando a todos... prendendo-vos em um acordo odioso como este casamento... não por acaso, nunca me opus a que continuásseis vivendo vossa liberdade de homem... nunca vos faltei com o respeito – soluços angustiosos sacudiam-no – ao passo que vós... vós sempre... sempre... uhn... uh!

Sua garganta constringiu-se ante aquele esforço por não chorar, de tal forma que ele não mais conseguiu falar. Parecia que a qualquer momento morreria sufocado. Sentia-se ultrajado... então povoara seu coração de amor puro e abnegado... para ser humilhado de forma tão vil? Para ter sua honra posta em dúvida? Suportara cheiro de fêmeas na alcova em que dormitava o amado... para ter a pureza de SEU corpo contestada? Vira-o retornar de encontros com mulheres para ser acusado de prostituir-se com o mais fiel dos companheiros?

— Camus... eu sei... EU SEI! – retorquiu o cavaleiro, entre arrependido e compadecido – Por Deus! És a melhor pessoa do mundo! A mais justa, nobre, pura que já conheci! Eu fui um tolo! Mais que um tolo, fui cruel para contigo! Eu...

Afastando-se ainda mais, o ruivo encarava-o, as ponderações aguilhoando-o. Tinha sua conduta denegrida por aquele homem que, muito longe dali, deleitava-se com carnes alheias, enquanto apenas por ele seu corpo e sua alma almejavam?

Como que fustigado por um inclemente vento invernal, pouco a pouco Camus tornava-se coberto por um manto de gelo. Seus olhos secavam-se àquela frialdade... secavam... secavam assim como secava seu coração. O tremor que o atormentava foi cessando, até que recobrasse sua costumeira postura plácida e impassível. Assombrado, Milo percebia a mudança no ser amado.

— Camus, ouve-me... fui o pior dos homens, perdoa-me... mas eu preciso dizer uma coisa...

— A única coisa de que precisais fazer é obter logo vossa concubina e deixar-me em paz. Pois que, repito-vos, a única coisa que desejo de vós é vossa DISTÂNCIA.

A mensagem, em tom baixo e monocórdio, soou mais devastadora do que se fosse enunciada aos gritos. A cena evocava um anjo da morte fitando um pecador moribundo... antes de tirar-lhe a vida.

— Apenas vós lucrastes com este matrimônio amaldiçoado – disparou Camus, implacável em sua calma – Eu nada exigi até então. Pois bem, a partir de agora, ordeno-vos que mantenhais distância de minha pessoa. Continuarei a cumprir as obrigações “da condessa de Saint Doulchard” e a simular boa convivência convosco. Em troca, vós constituireis vossa família o mais breve possível, para que cesses de distrair-vos com minhas humilhações.

Destroçado, Milo admitia que estava tudo perdido.

“Antes, responde-me: amas-me? Pois EU TE AMO! Eu te amo e quero contigo viver este amor que arde aqui dentro!” A súplica ecoava em seus pensamentos, pois seus lábios ensanguentados se recusavam a libertá-la.

— Compreendo – murmurou Milo, derrotado – Não te preocupes, assim será feito. Começarei instalando-me em outro quarto, no andar de baixo. Mandarei que Afrodite remova daqui meus pertences, a fim de que seja mantido o sigilo desta situação. Com a tua licença...

E se retirou, devastado, ferido no corpo e na alma.

Por sorte, não havia nenhum serviçal no corredor. Por mais que as espessas paredes de pedra abafassem bastante os sons, deve ter dado para perceberem que os senhores brigavam, e prontamente, se havia alguém por perto, afastou-se... nenhum dos criados iria querer ser flagrado prestando atenção em querela familiar dos aristocratas aos quais serviam!

Milo foi bater à porta do ex-pajem de Camus. Este quase soltou um grito de espanto, ao ver o estado do conde.

— Senhor Milo? Que vos sucedeu?!?

— Afrodite. Vai cuidar de teu amo. Ele precisa de ti – ordenou, sem rodeios. Parecia cansado, e sua ordem mais parecia um pedido... o que, vindo dele, fazia-se insólito.

— Como? Camus? Mas vós estais... – por que o conde mandava que fosse ver Camus, se exibia marcas de violência no rosto, se estava a sangrar, se...

O espanto do sueco converteu-se em horror. Cerrou os punhos à medida que a suposição do que ocorrera delineava-se em seu entendimento.

— Parece-me que estivestes em alguma luta corporal. É por isso que mandais que eu vá cuidar dele? – indagou, indignado – O que fizestes com Camus? Respondei-me!!!

— Eu...

— Juro por Deus, senhor Milo, se o tiverdes agredido, reportarei ao duque de Borgonha e...

— Cala-te – o cavaleiro interrompeu-o, sem qualquer energia – Se te preocupas tanto com ele, faz o que mandei. Vais cuidar de teu amo. E... depois... traz-me o que deixei lá. Instalar-me-ei em um cômodo inferior, ao lado de meu escritório. Prefiro que sejas tu a fazer isso, para que a criadagem não fique a fazer especulações.

O camareiro-mor viu-o se afastar, tal qual um alquebrado guerreiro egresso da guerra. O desânimo da fala do orgulhoso Milo d’Auvergne confundiu-o por uns instantes. Sem contar o conteúdo, incompreensível... não obstante, preferiu correr para os aposentos em que estava o amigo. Contrariando as normas, não bateu à porta nem se fez anunciar: entrou logo, procurando, aflito, pelo ruivo. Foi encontrá-lo em um cômodo anexo. Que dava para um balcão de onde se tinha a vista da propriedade. Camus estava desfeito no chão, ajoelhado, recostado ao mármore do recinto.

— Camus!

O chamado preocupado não foi o bastante para fazer o jovem olhar para o sueco.

— Camus... por Deus... estás ferido?!?

Com o olhar esgazeado, o ruivo seguia emudecido, nenhuma resposta saindo dos lábios sangrentos. Diante dele, Afrodite ajoelhou-se, aterrado. Tocou-lhe o rosto, ao que o outro reagiu com uma esquiva; doía-lhe o tapa desferido por Milo, inegavelmente mais forte que ele.

Entretanto, a dor maior não era exatamente na face magoada.

— Santo Deus, ele... ele te agrediu?! Aquele tirano! Eu sabia que ele não haveria de estar ferido à toa, bateu em ti e tu, com muita justiça, revidaste, não?

— Afrodite – enfim conseguira articular algo.

— Isso não vai ficar assim! Aquele calhorda, covarde, bárbaro! Enviarei imediatamente uma carta ao senhor Teobald II e...

— Afrodite, detém-te. Escuta-me... eu o agredi antes. Fui o primeiro a bater.

— Quê? – o loiro quedou-se boquiaberto.

— Sim – continuou, cansado – Em verdade, quem revidou a agressão foi ele. Eu lhe estapeei... ele estapeou-me de volta e... e...

— Camus – Afrodite estava perplexo; jamais esperaria algo semelhante daquele rapaz, sempre tão comedido – Como pudeste levantar a mão contra um cavaleiro? Foste assaz imprudente! Ele poderia ter...

Então reparou que, embora tivesse sido Camus a ter iniciado a luta, estava bem menos machucado que Milo. Aparentemente, o conde teria revidado e, em seguida, recebido mais agressões, sem contudo repetir o primeiro revide.

Por que razão ele não poderia imaginar.

— Não te preocupes. Este sangue não é meu – disse o ruivo, ao notar o olhar estarrecido do ex-pajem para sua boca.

— Cristo – exclamou Afrodite, terrificado – Tu o mordeste?!?

Preferindo se calar, o ruivo virou o rosto, nitidamente assolado. Afrodite achou por bem não insistir.

— Vem, vou cuidar disso. Ainda que ele esteja bem pior que tu, urge que tratemos de ti também, senão ostentarás um belo hematoma no banquete daqui a seis dias... com essa tua pele sensível...

— Banquete – repetiu Camus, mecanicamente.

— Sim, pelo retorno do soberano de Saint-Doulchard. Tu já estavas a par do evento – um leve acento de reprovação escapou no tom compungido do camareiro-mor.

Camus apenas concordou com um abaixar de cabeça, deixando-se a seguir conduzir pelo amigo.

Ficou a remoer a frase de Afrodite: “Ainda que ele esteja bem pior que tu...”. Mordeu o lábio inferior, sentindo o gosto do sangue de Milo. Lágrimas vieram aos seus olhos, e ele lutou para que elas não lhe caíssem pelo rosto, ou o amigo ficaria ainda mais preocupado. Ou, a julgar pela expressão insatisfeita com que o sueco lhe mirava... dar-lhe-ia uma bela reprimenda pelo que fizera. E ele, com toda a certeza, NÃO precisava daquilo: bastavam-lhe as acusações de sua própria consciência...

*************

Batidas à porta seriam sumariamente ignoradas, não fosse a enunciação abafada:

— Senhor Milo, sou eu, Afrodite.

O jovem ergueu-se do divã onde estivera como que em estado catatônico durante a última hora. Abriu a porta. O camareiro-mor trazia algumas roupas.

— Deixa tudo nesta mesa, guardo-as depois – disse Milo, mostrando uma peça de madeira lustrosa.

Após obedecê-lo, Afrodite tirou de si um alforje que carregava junto ao corpo e anunciou:

— Trarei mais coisas depois que cuidar de vossas feridas.

O cavaleiro sequer olhou para ele.

— Não é necessário, vai-te daqui e cumpre apenas o que te mandei – retrucou, um pouco ríspido.

— Senhor Milo... como vos apresentareis às pessoas com esses machucados?

— Que isso me importa? A mim nada mais importa, vai-te daqui, já!

A réplica saiu mais magoada que autoritária.

Em silêncio, o sueco observou o conde, que afastou-se, buscando ocultar o rosto.

— Que fazes aqui ainda, impertinente? Acaso és surdo?!? – perguntou Milo, exasperado, vendo que o outro continuava ali, e mais; retirava da bolsa de couro tiras de linho, ervas, álcool mineral e um pequeno pilão. Afrodite tirou dois outros frascos do bolso.

— Onde preferis ficar, enquanto faço a assepsia e os curativos?

— Eu direi onde TU irás ficar, caso não te retires daqui agora mesmo: na masmorra!

— Irei com prazer, se me deixardes fazer o que se deve. Ou pretendeis continuar a ferir Camus?

— O... o quê?

— Ele já deve estar se sentindo suficientemente mal por haver perdido a cabeça convosco, e vós desejais estender essa compulção ostentando vossos inchaços e hematomas por dias? É uma bela tática, se o que almejais, de fato, é atingi-lo.

Milo hesitou, considerando o pertinente raciocínio. Assentindo, sentou-se no divã. Afrodite preparou uma mistura de vinagre branco, mel e alho esmagado.

— E... e tu cuidaste do ferimento dele? – perguntou Milo, tentando disfarçar a ansiedade em saber.

— Sim, não vos preocupeis. Em vista dos vossos, o dele não é nada sério.

Deixou descansar o medicamento, enquanto aproximou-se do conde, tomando de uma gaze embebida em sumo de sálvia. Esfregou-a nas faces contundidas do cavaleiro, preparando novas à medida que a assepsia exigia.

— Por que deixastes que Camus vos batesse assim? Está claro para mim que vos furtastes a revidar os ataques.

— Não sejas tolo. Eu nunca me furtaria a revidar ataques de quem quer que fosse – mentiu, revirando os olhos.

— Então o meu amigo, que apenas aprendeu rudimentos de luta com o pai, supera de tal forma o grande guerreiro dos Auvergne nas artes da guerra? – ironizou o sueco, permitindo-se um sorrisinho de canto.

O conde apenas fez um “hunf”, escolhendo o silêncio, pois que não sabia mentir, e em verdade, não possuía mais ânimo para tentar.

Era como dissera... nada mais lhe importava. Nada.

Se não poderia ter o amor de Camus... nada mais lhe importava.

— Tenho cá certas desconfianças, mas creio que mandaríeis cortar minha língua se eu as externasse – comentou Afrodite, agora aplicando o remédio.

— Então não o faças, se precisas de tua língua – resmungou, fazendo uma careta pelo ardor provocado pelo alho – E a julgar como te metes em tudo, deves considerar que precisas...

O sorriso contido escapou pelas narinas afiladas do sueco. Milo fuzilou-o com o olhar, sem que disso fizesse caso o subalterno.

— Se permitirdes que eu reaplique o unguento em vosso rosto mais algumas vezes, e que vos maquie, nenhuma marca será percebida pelos servos e por vossos funcionários.

— Guarda vossas maquiagens para ti e para Camus, jamais usarei tais frivolidades – rosnou.

— O preparado deve ser feito exatamente à hora da aplicação, portanto, voltarei em três horas. Estejais aqui, peço-vos – Afrodite nem fez caso do dito anterior.

— Hunf. Como sairei daqui, com toda esta lama que depositaste-me na cara?

Rindo, o sueco arrumou os utensílios na mesa, para que depois pudesse usá-los de novo.

— Até mais, senhor conde de Saint Doulchard, com a vossa licença – e retirou-se, sem disfarçar o ar quase jocoso.

— Impertinente, insolente, atrevido, desabrido... – ia desfilando impropérios quase rosnando, unicamente para as paredes ouvirem.

Atirou-se ao leito que, se não era vasto e luxuoso como o do quarto senhorial, era bem espaçoso e confortável. Com as mãos sob a cabeça, mirava o forro do dossel de cortinas esverdeadas enquanto pensava:

“Analisando bem o imbecil... não creio que pudesse mesmo tentar algo com Camus. Ele pode ser um procaz, um desfaçado... contudo, não parece ser do tipo desleal... Shura gosta dele, e Shura nunca se engana com ninguém”, infelizmente o raciocínio chegava demasiado tarde... e Camus... Camus era a honra em pessoa. Nunca se prestaria a semelhante infâmia.

“De que adianta tais ruminações? Agora está tudo perdido... irremediavelmente perdido...”, refletia, sentindo as lágrimas a permearem-lhes as pálpebras. Bom, nada de chorar... estragaria o trabalho do desaforado do Afrodite.

*************

Como era de praxe sempre que um senhor feudal retornava de viagem – dentre outras numerosas ocasiões – um banquete seria oferecido em celebração à sua volta. De forma que dezenas de nobres, meros conhecidos, vassalos, amigos, ex-companheiros de guerra de Milo, além dos que receberam o convite por simples cortesia, reuniam-se no Grande Salão, seis dias após o fatídico em que o cavaleiro viu naufragarem suas esperanças de viver uma vida harmônica com o amado esposo.

Seis dias havia que ambos viviam quase a não se falarem, salvo necessidade extrema, e sempre diante de outros: durante alguma visitação, uma refeição, uma questão domiciliar. Invariavelmente de maneira lacônica, e sem que seus olhares se cruzassem.

Foram dias difíceis. Se as contendas os feriam, tanto mais aquela separação, que aparentava ser permanente.

Diante um do outro, nada demonstravam; porém, na privacidade de seus aposentos, pungia-lhes a solidão e a frustração de tantos anseios.

Quando não ocupados por afazeres, cada qual dedicava-se a atividades que pudessem distraí-los de amargos pensamentos: Camus lia, praticava harpa, bordava tapeçarias, compunha. Milo lia, cavalgava, caçava, bebia... desta vez, contudo, sem ir a tavernas.

Então chegou o dia do festim em honra ao conde. Homens e mulheres ricamente trajados eram servidos por criados eficientes, escolhidos a dedo por Afrodite, que tomara a frente da organização da solenidade. Músicos executavam de modo primoroso canções que levavam alguns convidados a dançarem alegremente. A bem do disfarce, do qual jamais poderiam se ver livres, Milo chegou a dançar com Camus, tentando com ele contato visual; rechaçado, porém. Então “Camille” trocou de parceiro, e pôs-se a bailar com outros cavalheiros. Milo, sem outra escolha, valsou com algumas belas damas, nunca perdendo de vista o esposo: este mostrava-se esplêndido, trajando um vestido dourado tão refulgente quanto as chamas que ardiam nos círios. Seus longos cabelos vermelhos desciam trançados, com flores de ouro a enfeitarem-lhe o penteado. Se Camus não se mostrava solícito ou particularmente sociável, entretanto, não recusava nenhum convite para dança ou palestra.

Obviamente, queria manter-se ocupado... e longe da presença de Milo.

O cavaleiro cogitara, por várias vezes no decorrer daquela semana, falar com o marido, declarar-se, contudo, algo o segurava... não estava certo de ser orgulho. Medo, talvez? Não sabia... o que sabia é que sentia-se impedido, imobilizado por uma força invisível, que arrebatava-lhe a chance de estabelecer um relacionamento com o homem que amava... mas... como faria aquilo? Camus o odiava: declarara seu ódio, com paixão febril, desvairada... e depois cortantemente fria. Como atravessar a barreira daquele ódio? Daquele ressentimento? Tinha ele direito de demover a paz que Camus agora tanto exigia, a paz que, sabia-o, o pobre filho do duque de Borgonha tanto merecia?

Quanto ao ruivo... tinha consciência de que jamais teria paz enquanto nutrisse aquele amor por um homem que apenas o desprezava... ora... seria apenas desprezo? Talvez se Milo o desprezasse, prosseguiria livremente com a vida promíscua de sempre, e a qual o próprio contrato permitia, sem se importar com a existência do desgraçado nobre condenado a viver como mulher. Mas não, isso não era o bastante: comprazia-se em dele tripudiar, escarnecer, em provocá-lo, em machucá-lo... então sequer tratava-se de desprezo... era ódio, e um ódio que trazia consigo o anelo por vingança. Milo tencionava vingar-se dele, por ser obrigado àquele casamento infame. Urgia que mantivesse distância, portanto, e a máxima possível.

Durante a festa, sentaram-se próximos, por pura convenção, evitando o máximo de comunicação. Felizmente, o vinho abundava, e as línguas soltas concentravam-se em pilhérias, cantos, poesia, flertes, o que ocupavam as mentes... ninguém se importaria com a costumeira inexpressividade “da senhora condessa”. Era mesmo um dos pontos que aferiam-lhe a fama, não?

Afrodite não conseguira que Camus lhe contasse, integralmente, o que havia acontecido uma semana antes. Sabia apenas que ambos entraram em luta corporal, esta surpreendentemente iniciada pelo amo, e que a relação entre ambos extinguira-se de vez. Sabia que Milo, após o primeiro revide, deixara-se ser golpeado por Camus sem reagir, o que intrigava-o sobremaneira. Conforme dissera ao conde, tinha suas desconfianças. E estas adquiriam reforço quando o sueco flagrava o cavaleiro contemplando o marido. Aqueles olhares sedimentavam as tais desconfianças. Mas não queria contá-las nem mesmo ao amigo.

De sua parte, já enfastiado de tantas conversas, gracejos e danças, o conde aproveitou o momento em que se retirara para se aliviar e encerrou-se em um gabinete no mesmo andar. Sentou-se em um divã de veludo marroquino, sonhando o pouco tempo em que dividira o leito com o marido. Passou a mão pelos cabelos dourados, soltos em anéis macios.

“É tão estranho, ter saudade do que nunca tive.”, pensava, amargurado. Nem sequer os torpores ébrios foram capazes de apaziguar aquela inquietude.

Batidas à porta fizeram-no franzir o cenho. Será possível que haviam seguido-o! E dera ordens expressas aos guardas para que não o incomodassem!

— Que se passa? – perguntou, impaciente, ao abrir a porta. E espantou-se ao ver Camus detrás do sentinela.

— Perdoai-me, excelência... a senhora condessa...

— Tolos, eu me referia às demais pessoas. Quantas vezes precisarei dizer que sendo a minha esposa NÃO é necessário que anuncieis?! Ela SEMPRE pode adentrar meus recintos, a hora que quiser, oras!

— Mil perdões, excelência – desculparam-se os dois guardas, curvando-se. Alheio àquela comoção, o ruivo entrou na sala. Em seu íntimo, no entanto, prendia-se ao que Milo acabara de dizer:

“Será verdade que ele diz isso mesmo? Que minha chegada não carece de ser anunciada?”

O loiro mirava-o, encantado. Por Deus, como estava lindo! Sem se importar com a aparente ausência de emoções do outro, não se furtou a admirar-lhe a bela estampa. Eufórico, pôs-se a oferecer:

—Fica à vontade, Camus. Senta onde te aprouver. Este divã é particularmente confortável, experimente. Aceitas um vinho? Um licor? Um…

— Não, agradeço-vos a gentileza, senhor Milo. Contudo, não tomarei vosso tempo em demasia, o que tenho a tratar convosco é coisa ligeira.

— Oh, entendo – desconcertou-se com a fria, ainda que polida, recusa – Bem, mesmo que seja um assunto rápido, não sei por que não podemos dele tratar com um mínimo de civilidade.

— Julgais que estou sendo rude?

— Certo, deixemos de lado as amenidades – ele andou pelo cômodo, tentando recobrar a serenidade – Diz o que te trouxe até aqui.

— Eu gostaria de saber se já escolhestes vossa concubina.

Milo olhou-o, sem acreditar no que escutara.

— Por que me perguntas isso?

Em tom professoral, Camus elucidou:

— Apenas pelo acordo nupcial que ambos assinamos. Acredito que tão logo instituís vossa família e com ela obtiverdes a satisfação que não possuís atado a mim, esquecereis de minha existência e não mais me atormentareis.

Tentando manter calma similar ao do esposo, Milo rebateu:

— Do jeito com que te expressas, parece até que tenho te atormentado por estes dias. Não tenho eu mantido de ti a distância que tanto reivindicaste?

— Ocorre, senhor Milo, que não confio em vós.

— Hunf, neste caso, sinto dizer-te, mas isso é tão somente um problema teu.

A réplica desdenhosa mascarava a angústia que reinava no cavaleiro. E logrou obter o efeito desejado, pois que o ruivo, sempre com uma resposta certeira na ponta na língua, ficou momentaneamente sem ação. Aproveitando aquele êxito, prosseguiu:

—Prometi não meter-me mais em tua vida, e tu deverias fazer o mesmo em relação à minha. É este o teu conceito de “distância”, vir até aqui e dizer o que tenho eu de fazer?

— Faço-o por um motivo, o de...

— De mais a mais, Camus – interrompeu-o, afetando prepotência – Talvez eu NÃO tome uma concubina.

— Não?

— Não.

Em meio àquela atmosfera sufocante fitaram-se longamente.

— E por que não tomaríeis uma concubina? De que forma tereis vossa sonhada família? Vossa almejada descendência? Vosso pouso de homem? – as indagações vinham de forma nitidamente aflitas, malgrado o tom inalterado de sua voz.

— Por que achas que te beijei dias atrás, Camus?

O ruivo calou-se. Suas palpitações desordenaram-se de vez. Algo estreitou em seu peito.

Não.

Não era possível que a vileza de Milo chegasse ÀQUELE ponto!

— Responde-me. Estavas tão eloquente há pouco, por que te calas?

Com cuidado, acercou-se do marido, paralisado pela tensão. Parou diante dele, percebendo-lhe a mudança no olhar rubro, antes altivo, agora confuso.

— Estou a esperar tua resposta.

— Fizestes aquilo para humilhar-me.

— Como, em nome de Deus, um beijo poderia humilhar alguém? – surpreendeu-se o loiro.

— Eu vos explico, senhor Milo d’Auvergne: queríeis atingir-me! Desconfiáveis de minha conduta, ao contrário da VOSSA, irrepreensível! Acusastes-me de me prostituir, quando éreis VÓS a vos prostituir, todo este tempo, com vossas messalinas! E como punição, tencionastes tratar-me como uma de vossas meretrizes...

Milo arregalou os olhos turquesas, admirado do julgamento de Camus. Havia, entretanto, uma paixão inédita naquelas acusações... uma espécie de furiosa mágoa, mas também de... seria possível que...

— Acreditas mesmo em tudo que disseste? Deveras? – testou-o, sem se aborrecer com o que ouvira.

Voltando a ostentar a fleuma com que conduzira a conversa até aquela cadeia de incriminações, o ruivo respondeu:

— Sim. É no que acredito.

Pondo as mãos para trás, o cavaleiro afastou-se dele, parando em frente a uma centenária tapeçaria bizantina.

— Que dirias se te revelasse que estou a amar uma pessoa?

O conde sequer compreendeu a forma com que preparou a declaração presa na garganta há dias. Achou-se vago e covarde, e quando ia esclarecer “E esta pessoa é você, Camus”, a resposta do esposo veio em um acento glacial:

— Eu diria que essa pessoa é a mais digna de pena deste mundo.

Milo ficou estupefato com o que acabara de ouvir.

— Ser amada por vós... considerando que sejais capaz de amar algo além de vós mesmo... possivelmente é a pior desgraça que pode se abater sobre uma pessoa.

Sem que o outro soubesse, Camus arrependeu-se de imediato com o que dissera, sentindo como se ele próprio tivesse sido alvo de tanto fel. O cavaleiro umedeceu os lábios e deu um curto suspiro, dissimulando a dor que o consumia; limitou-se a informar:

— Muito que bem. Estou satisfeito com tua resposta.

— E quanto à vossa?

— Fiques sossegado. Não tardarei a tomar uma bela mulher como concubina e com ela gozar venturas bem longe de ti.

— A julgar pelos doces olhares pousados sobre vossa figura durante este banquete, creio que não encontrareis empecilhos – retrucou o ruivo, com um sorriso forçado.

— Deus te ouça, meu caro. Assunto encerrado, creio eu, não?

— Certamente. Com vossa licença – deu meia volta: Milo anunciou:

— Espera, retornarei contigo para a Grande Sala.

— Não tenciono voltar para lá, senhor Milo. Recolher-me-ei.

— Tanto melhor – o loiro fingiu pouco caso – fico mais à vontade para escolher a moça adequada, neste festim mesmo.

— Como se minha presença vos intimidasse de alguma forma. Não vos furtastes a flertar com minha própria irmã, Hilda, e bem diante de minha pessoa...

Mordeu o lábio inferior. Por Deus... por que havia dito aquilo? Milo REALMENTE tirava sua razão!, pensava, aborrecido; por sua vez, o cavaleiro experimentava uma cálida sensação... ora... então...

— Tende excelente divertimento – lançou, irritado, e saiu da sala, deixando ali um Milo bem intrigado, que erguia uma sobrancelha ao analisar, mentalmente:

“... então ele se importava desde aquela época? Será que Camus nutre sentimentos por mim, afinal? E, se o nutre... seria desde Turenne?”

Santo Cristo.

Se Camus já estava a sentir algo por ele há tanto tempo... então havia de ter sido HORRÍVEL para com o rapaz! Fosse aquilo verdade, fizera-o sofrer ainda mais do que estivera a pensar...!

Neste caso... não haveria volta...

“Camus...”, pensou, desolado.

Restava-lhe apenas retornar ao salão. Muito embora não tivesse vontade alguma...

Enquanto isso, o ruivo chegava em seus aposentos, mais vastos e escuros do que nunca. Olhou ao redor, achando-se só, tão só!

A lembrança do rosto ferido de Milo vinha-lhe à mente.

Ferido quando o agredira com suas mãos.

Ferido quando o agredira com suas palavras.

Deitou-se no imenso leito, território noturno de sua perene solidão.

“Milo...!”, clamou em pensamento, cerrando os punhos sob seu peito dorido.

*************

Dias depois, o verão chegava ao seu auge. Estavam em fins de julho, uma esplendorosa manhã, a qual Milo contemplou da janela de seu novo quarto, espreguiçando-se. Feita a higiene matinal, vestiu um colete vinho por cima de uma túnica curta branca por sobre calças marrom escuro. Desceu para fazer a refeição, encontrando Camus já sentado à mesa, como convinha “à esposa” do senhor do castelo. Cumprimentaram-se laconicamente; enquanto tomava assento, o conde olhou furtivamente para o marido, que trajava um vestido castanho estampado sob fundo mais escuro, com o interior das mangas em um tom de mostarda. No detalhe do decote alto, flores douradas constituíam o contraponto da austeridade daquela vestimenta. Vestisse o que vestisse... sempre lindo. Abaixou a cabeça, levemente desanimado. Sobre ele, correram rapidamente olhos avermelhados, que registravam semelhante impressão...

Ao contrário do que ocorria normalmente, estavam a sós na mesa. Não tinham convidados naquele dia, e os funcionários de Milo que por vezes partilhavam da mesa com os condes ocupavam-se da jornada que fariam até a cidade com seu senhor. Quanto a Afrodite, tinha ido ver os filhos de uma cozinheira, que caíram enfermos após ingerirem cogumelos venenosos no bosque. Costumava tratar dos doentes com eficiência, de modo que já o chamavam diretamente, e não o barbeiro-cirurgião, quando necessitavam de cuidados médicos. O barbeiro-cirurgião, o bonachão Riquelme, não se importava: receber sem ter que trabalhar combinava com seu ideal de vida. Melhor ocupar-se de vinhos e boas comidas do que de chagas, escaras, bolhas, frieiras, flatos...

Serviam-se do alimento quando o castelão Pierre pediu-lhes licença da alta porta ogival.

— Bons dias, Pierre, senta-te, come conosco — o conde apontou uma cadeira.

— Agradeço vossa generosidade, excelência, porém encontro-me enjoado com o mingau que minha mulher fez-me engolir tão logo acordei.

— Deveras? Bem, vai ter com Afrodite quando ele voltar da casa de Marie. Saberá como tirar teu mal estar.

Camus considerou-o, desconfiado. Desde quando o marido confiava nas habilidades do sueco para tratar de seus subalternos?

— Muito obrigado, meu senhor, assim o farei.

— Vejo que me trazes correspondências.

— Sim, excelência; como estou a par de que ireis até a cidade após vosso desjejum, achei por bem trazê-las logo.

— Fizeste bem. Dá cá... roguemos a Deus que não haja nenhuma má notícia.

O ruivo queimava de vontade de perguntar para onde iria Milo. Resistiu bravamente, até que...

— Senhor conde, Leopold disse que os camponeses pleiteiam uma audiência convosco. Acrescentou que é em caráter emergencial e que gostariam de saber se poderia ser esta tarde...

— Leopold sabe que ausentar-me-ei até a tarde. Que venham outro dia – respondeu distraidamente, escolhendo qual carta abriria primeiro.

O castelão apertou as mãos.

— Perdoai-me a insistência, meu senhor, mas... ele adiantou-me que era assunto grave...

— Bom, se eu retornar antes do previsto da reunião que tenho com o arcebispo de Saint-Doulchard, pode ser que consiga atendê-los ainda hoje. Nada garanto.

— Perfeitamente, meu senhor.

— Manda que os guardas e os homens que acompanhar-me-ão ao vilarejo estejam a seus postos em uma hora.

— Pois não, senhor Milo. Com a vossa licença...

“Que assuntos tem ele com o arcebispo de Saint-Doulchard?”, questionava-se o ruivo em pensamento. Conformou-se em remoer-se de curiosidade, já que não intentava iniciar colóquio algum com o cavaleiro.

— Ora, é o selo de teu pai – comentou o loiro, angariando a atenção do ruivo – Notícias de Borgonha, hum? Tenho uma noção do que possa ser.

Removeu o lacre, abriu a missiva e pôs-se a ler: — Ah… exatamente o que pensava…

— Do que se trata? – Camus não resistiu. Era de sua família que se tratava, afinal!

— Um convite de casamento... Aiolia e Marin casar-se-ão em nove meses.

— Achei que esperariam mais.

— Por que esperariam “mais”? Aiolia estará com 20 anos, e tua irmã com 15. Há quem se case com 12, 13... e aqueles apaixonaram-se tão logo se viram. Melhor que vivam esse amor ao invés de se abrasarem, como dizem as Escrituras.

— Quanta indiscrição – resmungou Camus, ruborizando.

Milo não pôde evitar um riso. Ao ver que o outro continuava sério, interpelou-o:

— Não pareces feliz por tua irmã.

— É com VOSSO IRMÃO que ela se unirá em matrimônio.

— E o que tem isso?

A resposta não veio, contudo o silêncio instituído cuidou de fazer o conde entender.

— Temes que meu irmão seja como eu? Não temas, somos BEM diferentes – falou, irritado.

— Isso muito me conforta.

— De mais a mais, eles se amam.

— Sim, é um alento.

O loiro curvou-se para ele, desafiando-o com o olhar irônico.

— Sabes, eu TAMBÉM me preocupo. Ainda que eu goste muito dela, me pergunto quanto de TI terá a menina.

— Que quereis dizer?

— Oras… quem me garante que Marin não é como TU? Não duvidaria que, sendo ela irmã de quem é, fosse voluntariosa, insensível, assoberbada, fria, violenta e... – foi interrompido porque uma taça passou rente a ele: teve que se desviar antes que fosse nele que o objeto se espatifasse e não na parede atrás de si.

Antes que pudesse entender o que acontecera, mais objetos voaram em sua direção, deles logrando desviar-se: um prato, uma travessa cheia de ervilhas, um pão. Levantou-se em um salto:

—DETÉM-TE! Que significa isto? – desviou-se de outro pão. Confeitado com amêndoas.

— Não basta que vos comprazais em vilipendiar-me, ousais fazer o mesmo com gente de minha família? Não permitirei que vos refirais à minha irmã dessa forma leviana! – ameaçou Camus, tacando bolinhas de carne no esposo; estas acertaram-no porque eram muitas.

— PERDESTE A CABEÇA? – gritou o cavaleiro, pulando antes que um prato de porcelana o acertasse. Ao fazê-lo, recebeu, certeiro no rosto, um arenque seco. E ele odiava peixe!

— JÁ CHEGA! Não fico nem mais um segundo perto de alguém ensandecido como TU!

Praguejando, retirou-se da sala, irrompendo zangado pelos corredores vazios: ouvindo a confusão, os servos trataram de evaporar!

Bufando, Camus ajeitou o vestido, aprumou-se; em seguida, sentou-se e continuou a refeição, agora em uma mesa totalmente desarrumada.

Pelos cantos, os criados sussurravam uns aos outros “a condessa não é tão calma quanto aparenta, benza Deus!”. (*)

(*) Tenho para mim que essa expressão “benza Deus” é regionalismo brasileiro, e não caberia aqui, mas achei que combinava tanto, rsrs

*************

Aquela foi uma despedida “de casal em harmonia” bem custosa de se representar. Após se encararem brevemente, e com ressentimentos nos olhares, devido à recente briga – e esta com testemunhas auditivas! – Camus fez uma reverência, e Milo apenas um meneio com a cabeça. O cavaleiro montou em seu corcel frígio e partiu, seguido de seus acompanhantes. O olhar duro de Camus suavizava à medida que o pequeno grupo se afastava. Mirou o céu soberbamente azul e sentiu-se invadir por uma pesada melancolia. Os servos que sempre assistiam ao senhor partir começavam a se dispersar.

— Está tudo bem? – indagou Afrodite, percebendo-o desconfortável.

— Sim, só estou com calor.

— De fato, está bem quente – concordou o sueco, consciente de que, ainda que aquilo fosse verdade, não era a ÚNICA razão do desalento de seu amo – Entremos, pois, faz-se realmente escaldante aqui fora...

— Eu não quero entrar – declarou, apertando os olhos detrás da palma da mão direita. Esfregou o rosto, desanimado.

— Mas...

— Preciso de ar. Preciso ausentar-me um pouco deste castelo detestável. Estou farto deste lugar.

Afrodite não se lembrava de ter ouvido o amigo falar daquela maneira.

— Para onde desejar ir?

— Para a floresta. Quero caminhar em meio a um lugar de verdadeira paz... ir até aquele lago... pensar em minha vida.

E pôs-se a caminhar, em sentido contrário à casa. O ex-pajem o seguiu, prontificou-se:

— Irei contigo.

— Enlouqueceste? – ralhou o jovem, severo – Queres que as terríveis cenas daquele fatídico dia se repitam?

— Camus...

— O senhor Milo não nos quer a sós por aí. E eu não quero mais problemas. Deixa-me.

— Mas... eu sei, mas...

— De mais a mais, quero ficar só.

Sem mais nada dizer, rumou para o pórtico principal. Passou pelos guardas, que se curvaram à sua passagem. Tomou o caminho descendente, distanciando-se sob o olhar do camareiro, que debruçara-se em um dos torreões para vê-lo afastar-se.

Consternado, Afrodite deu um longo suspiro. Nada mais poderia fazer, apenas esperar pelo retorno do amigo.

“Tomara que pelo menos ele volte antes de Milo.”

*************

— Um hospital em Saint-Doulchard? Mas isso seria ótimo, excelência. Podeis contar com nosso apoio no que for necessário – o arcebispo Armand, sentado em uma grande poltrona vermelha diante da mesa com tampo de cristal, animou-se ao ouvir a proposta do novo governante.

Apesar da pouca idade, notava-se que Milo d’Auvergne possuía muito mais senso do dever do que seus antepassados, que não fizeram muito pela província de Saint-Doulchard, comumente vista como “ponto estratégico” durante as guerras, tão somente, de modo que poder-se-ia dizer que a mesma “parara no tempo”. Entretanto, aquele jovem tinha visão, garra, empatia por aquele que agora era “seu povo”. Em pouco tempo desde que chegara, já possibilitara a inauguração de novos estabelecimentos, a construção de um alto-forno para garantir a autossuficiência local no ramo da forja, e avanços técnicos nos campos. Tudo isso gerava trabalho, renda e autoconfiança, itens indispensáveis ao progresso. E agora, o aristocrata tencionava inaugurar um hospital! Deus enviara aquele rapaz, por certo, pensava o sacerdote: sua aparência de arcanjo não era em vão. Quando adentrava o vilarejo montado em seu corcel Theóphile, toda a gente parava para vê-lo passar, com profunda admiração. Já circulavam pelas praças e vielas trovadores cantando os feitos do conde e seu fiel cavalo...

— Em quase todos os lugares, as universidades são administradas por religiosos. Não é diferente com os hospitais: os homens de Deus, que tratam das enfermidades da alma, são os mais indicados a monitorar aqueles que tratam das enfermidades do corpo – enunciava Milo, aceitando o excelente vinho trazido por um simpático padre.

— De nossa parte, ficai sossegado, excelência, é uma honra poder servir-vos, e a este povo, até agora... desamparado – temeu que o aristocrata se ofendesse com o termo que se lhe escapou, contudo, o conde não fez daquilo caso algum.

— Penso que a abadia aos fundos do cemitério poderia ser um ponto de partida, já que uma nova está sendo construída próxima à praça. Obviamente, obras de ampliação seriam realizadas – sugeriu o nobre, recebendo gestos de aprovação por parte dos que acompanhavam a negociação na sala capitular da Abadia de Saint Doulchard, a principal na região.

— É uma sábia escolha, senhor Milo, pois que já atendemos muitos doentes que para lá acorrem em busca de cuidados. A ampliação seria uma verdadeira caridade vossa e uma benção dos céus – elevou as mãos, dramaticamente.

— Afora isso, deverei enviar uma pessoa em breve, que há de auxiliar-vos com presteza.

— Um médico? – o arcebispo arregalou os olhos; médicos legítimos, egressos do curso de Medicina, eram raridade à época, servindo majoritariamente a reis, príncipes e nobres de alta estirpe.

— Ele não tem formação oficial, mas já atestei seu grande talento para o ofício... além disso, possui notáveis conhecimentos em botânica com fins medicinais e confecção de tinturas, emplastros e unguentos. Penso que é um gênio não lapidado... futuramente, pretendo enviá-lo à Universidade. Não obstante, reitero que ele já se encontra em plenas condições de ajudar-vos.

— Se é alguém de vossa confiança, já o é de toda nossa comunidade.

— Sei que os padres detêm semelhantes talentos, pois que são estudados e cultivam suas hortas tanto para fins alimentícios quanto para produção de medicamentos. Mas tenho certeza de que será uma interessante troca desses saberes, em prol de nossa Saint-Doulchard.

— Disto não temos a menor dúvida, senhor – concordou Armand, animado com a expectativa de ver melhorias para seu povo... e para seus bolsos aveludados; receberia da Casa dos Auvergne investimentos e honorários... ninguém disse que era pecado unir o útil ao agradável, disse?

Enquanto as conversações seguiam tarde adentro, bem longe dali, mais precisamente na floresta, ao norte, Camus embrenhava-se nos domínios desertos, temidos pelos homens e por ele amados.

Como seus ancestrais, encontrava mais paz na natureza do que na religião. Sua devoção fazia-se antes cultural que propriamente espiritual, ainda que se constrangesse por não ir amiúde à Igreja. Entretanto, a comunhão com o Altíssimo e a obtenção de seu refrigério advinha de retiros como aquele, e de cismares solitários. Milo possuía uma inclinação religiosa bem mais pronunciada, ainda que, como a maioria de seus contemporâneos, mais servia-se da Igreja em aspectos que lhe favoreciam do que cultivava uma alma autenticamente devota, como era o caso de Shura.

Sim, Camus encontrava mais paz nos bosques, nas florestas, no silêncio e nos cantos dos pássaros do que nos templos, nas orações, nos cânticos sacros. Por isso aquela incursão trazia-lhe à alma o alívio de que vinha necessitando... principalmente desde que dissera a Milo que o odiava. Aquilo estava a corroer-lhe por dentro... decerto que fazia-lhe sofrer tanto ou mais que o próprio alvo de tão cruel dito. Por pior que fosse alguém, ninguém gosta de ouvir que é odiado. Que dirá de alguém tão orgulhoso como o cavaleiro...

“Quem sou eu para afirmar ser ele orgulhoso? O que me impede de ir até ele, desmentir o que falei e pedir-lhe perdão, se não o orgulho?”, refletia, caminhando em meio à exuberante vegetação, de todos tons e cores que poderia imaginar.

O sol reinava absoluto em um firmamento destituído da mais ínfima nuvem. Cigarras cantavam tão alto que por vezes quase não se ouvia o chilrear dos pássaros. Com o avanço das horas, o calor aumentava significativamente. Sensível a altas temperaturas desde a infância, o jovem transpirava a ponto de ter os cabelos colados na testa e na nuca. Cometera a imprudência de não ter pedido a Afrodite que trançasse seus cabelos, ou que os prendesse sob uma touca... no entanto, não havia planejado aquela caminhada. Seus passos tornavam-se mais lentos. Procurou andar sob a sombra das árvores frondosas, suspirando aliviado pelo frescor obtido; este, porém, não se fazia suficiente para que se sentisse bem. Lembrou-se que perto do lago para o qual se direcionava havia uma fonte de água potável. Isso deu-lhe mais ânimo para prosseguir.

“Quando cá estive com Afrodite nem de longe estava tão quente”, pensou, enxugando o suor com um lenço de seda persa.

Um presente de Milo.

Mirou-o, enternecido. Em seguida, franziu as sobrancelhas e o atirou, em um movimento aborrecido, ao chão.

Procurou distrair-se com a linda paisagem à sua volta. Aspirou o suave perfume das flores que desabrochavam ao redor. Um amistoso vento beijou as vistosas plantas e, ao senti-lo, Camus fechou os olhos, deliciado. Todavia, a benfazeja brisa logo se extinguiu. E ao chegar à fonte, o jovem estava tão sedento que quase se atirou à água cristalina. Ajoelhou-se, e com as mãos em concha, saciou-se. Pôs-se de pé e contemplou o formoso lago de águas esverdeadas, cercado de árvores. Os reflexos do sol implacável tremulavam na superfície, plácida como a imagem que o nobre passava ao mundo.

Aproximou-se da margem brilhante, sentindo-se atraído pelo que parecia ser o espelho dos anjos.

Foi tomado por um imperioso desejo de nele se banhar.

Sem muito pensar, tirou seus colares e gargantilhas, os brincos, os sapatos italianos, o longo vestido; tirou a túnica branca – que era a roupa de baixo de então – o corpete, armações e moldes que acondicionavam-se sob ele. Daria um jeito de colocar tudo de volta, sem auxílio de ninguém. Talvez fosse mesmo hora de aprender... e se um dia não pudesse contar com Afrodite? Bom, melhor oportunidade não haveria de tentar, pois que tudo que queria naquele instante era se refrescar naquelas águas calmas. E assim elas o acolheram; como viera ao mundo, o jovem se entregou, lançando-se àquele deleite. Sorriu de pronto para o sol, os longos cabelos emergindo à sua volta. Tudo se fora... a dor se fora, o calor se fora, a mentira se fora.

Era ele mesmo, o Camus real, em meio à única verdade irrefutável do universo: a grandeza da natureza.

Mergulhou, ganhando um universo de doce escuridão, bem vindo silêncio. Imaginava-se voando no nada, e no nada queria se fundir... voltou à tona, tomando fôlego com alegria. Deliciado, nadou feliz, nada mais povoando sua mente naquele deleitoso momento.

Nem tanto por distração, talvez mais por sua falta de vivência fora das paredes dos castelos; dotado fosse dessa experiência, teria notado uma súbita revoada de aves de um mesmo ponto, próximo dali. E saberia que isso poderia indicar aproximação de algo... ou de alguém.

Antes da clareira que margeava o lago, em meio às abundantes árvores cujas sombras escureciam o caminho, quatro homens caminhavam.

Aparentemente há dias sem se banharem, trajavam roupas puídas, rasgadas em algumas partes, e por cima dessas vestes acessórios delas destoantes como gibão de veludo, colete brocado, jóias de ouro. Carregavam cantis de couro cru nas mãos e espadas nas cinturas. Um deles, de cerca de 1,80m, de barba negra tão cerrada que mal permitia que se lhe vissem a boca, perguntou a um mais baixo, loiro de cabelos espetados e ensebados que ia à sua frente:

— Tens a certeza de que essa maldita fonte é mesmo por aqui, Lambert?

— Já passamos por aqui antes, resmungão, e pela lógica, bastasse que tomássemos o caminho de volta como estamos a fazer agora, não? – respondeu, de mau humor.

— Estás com a língua demasiado afiada, meu amigo – retrucou o outro, ameaçador – creditarei isso a este calor infernal que molesta a mais santa das criaturas.

— Calai-vos – ordenou o maior deles, homenzarrão de olhos pequenos porém vívidos – Essa parolagem inútil apenas dar-vos-á mais sede. Olhai, já começo a ver o lago. A fonte é perto dele.

— Excelente – animou-se um homem moreno de cabelos que passavam dos ombros largos, quase tão alto quanto o que acabara de falar, talvez 1,90m — enchendo todos estes cantis, poderemos seguir viagem para longe destas paragens.

— Tens razão, Gaston – concordou o tal Lambert – Não vejo a hora de sairmos daqui... nossos lucros foram pífios! Ouvi dizer que a próxima cidade...

— Shhhh – fez o maior, dos olhos pequenos. Sinalizou que parassem.

— Que se passa, Joffrey? – sussurrou o barbudo.

— É o que quero descobrir – respondeu, em voz igualmente baixa – acho que tem alguém no lago.

Eles se entreolharam.

— Isso é impossível, quem viria para o meio de uma floresta como esta? (1)

— Estamos há dias aqui e não vimos viva alma.

— Sabe-se lá se é de fato uma “viva alma”... (2)

— Maldição, não nos assustes, cão!

— Idiota, assombrações são coisas da noite, não do dia.

— Mas há as criaturas que...

— Calai-vos. Aproximemo-nos para averiguar. Nada descobriremos nos cagando aqui.

— Pois eu prefiro cagar a morrer...

— Ou ser amaldiçoado...

— Covardes, eu chegarei mais perto para ver, ficai aqui e sujai vossas calças à vontade – resmungou Joffrey. Adiantou-se alguns passos, silenciosamente, e, abrigado por um espesso tronco, espiou o lago.

Seus pequeninos olhos nunca ficaram tão grandes.

Virou-se para os demais e chamou-os, gesticulando apenas. Obedeceram e foi então que distinguiram uma figura longilínea de longos cabelos vermelhos como o fogo em meio às águas. Como a “figura” estava de costas para eles, cogitaram tratar-se de um ser sobrenatural. Arrepiaram-se, fazendo o sinal da cruz e balbuciando, atemorizados:

— Valhei-nos, Nosso Senhor!

— Um gênio da floresta...!

— Será uma fada?

— Possivelmente… com aquela cor de cabelo, anjo é que não é...

— Se for uma bruxa?!?

— Cruz credo!

— Esperai um pouco, antes de encomendar vossas almas ao capeta... olhai bem... – cochichou Joffrey, reparando nas formas do “ser”: a maior parte estava de baixo d’água, o que dificultava-lhe a identificação certeira – Estou cá a achar que é uma mulher.

— Achas... achas que é uma mulher?

Trocaram olhares arguciosos entre si.

— Isso seria sorte demais...

— E não temos tido muita neste lugar... mas quem sabe, bem agora que estávamos a deixá-lo?...

Sorrisos alargaram-se nos lábios sequiosos de água e agora de lascívia.

— Vede, vede! Começa a sair da água.

— Estamos com sorte! É uma mulher! É uma mulher! – comemoravam, aos murmúrios, esfregando as mãos.

Os longos cabelos a cobrirem o tórax e o peito de Camus deram-lhes aquela impressão. Mas tão logo ele ergueu os braços para puxar algumas mechas para trás, e alcançou a parte mais rasa do lago...

— Por Deus – espantou-se o de cabelos compridos – é um homem.

— Sim, não há dúvida – murmurou o barbudo, coçando a barba – e se quereis saber... não tem jeito de camponês.

— Não mesmo. Tem a aparência muito bem cuidada para ser um.

— Ademais, o que camponês estaria cá a se refrescar em um lago ao invés de estar labutando nos campos agora, debaixo do sol, que é tudo que os cães sabem fazer?

Lambert mirou-os, ansioso:

—Achais que é um nobre?

— É o que iremos descobrir, irmãozinho – respondeu Joffrey, sorrindo maliciosamente.

Camus saiu revigorado do banho, sem perceber que era atentamente observado. Torceu os cabelos para retirar-lhes o excesso de água. Sob o sol, a alvura de sua pele imaculada quase reluzia.Os homens escondidos repararam, em silêncio extático, a inegável beleza do jovem. No íntimo de cada um deles, uma constatação: jamais haviam visto homem tão belo.

— Já vistes alguém como ele? – indagou Gaston.

— Nunca – tartamudeou o loiro de cabelo ensebado, a boca seca.

— Há de ser um nobre, sem dúvida...

Ramon riu baixinho, alisando novamente a barba negra:

— Se for, podemos fazer um ganho e tanto, hein, Joffrey? Que achas?

— Sim… a julgar pela aparência, é de família que pagará uma boa soma por ele...

Alheio ao perigo iminente, o ruivo pôs a túnica branca que usava debaixo do vestido. Os moldes e demais aparatos ficavam, em geral, debaixo daquela vestimenta; desta vez, preferiu vesti-la antes, pois que com o corpo molhado seria difícil que as tiras aderissem direito à pele. E não queria ficar nu ao vento; se ficasse resfriado, receberia um sermão daqueles de Afrodite. Depois tentaria colocar tudo por cima... se não conseguisse, procederia como o usual. Sentou-se na relva, observando os pássaros que mergulhavam nas águas novamente plácidas. Expondo-se ao sol, na certa se secaria rapidamente.

— Muitos bons dias, jovem senhor.

O sobressalto violento quase fez o coração de Camus parar; virou-se para trás, de onde viera a voz, profunda e sarcástica.

Quatro homens caminhavam em sua direção. A percepção do nobre de pronto fixou-se nas espadas em suas mãos e na zombeteira hilaridade de seus semblantes. Instintivamente, ergueu-se, em um gesto brusco, assustado. Ao fazê-lo, notou que se separaram uns dos outros, cercando-o.

Em seus rostos, sorrisos maldosos anunciavam a má intenção da aproximação.

Malgrado a luminosidade gloriosa reinasse naquele dia de verão, Camus viu a sombra do Mal pairar sobre si.

*************

Notas finais
(1) A floresta era um ambiente temido pelo homem medieval, por inúmeros motivos. Para começar, simbolizava o desconhecido, e o desconhecido era palco do sobrenatural, que convivia com as pessoas de então de uma forma que jamais poderemos compreender. Fosse por crenças pagãs que resistiam, fosse por temor calcado na cristandade, a floresta era habitada por seres fantásticos, entes da natureza, demônios, bruxas, ogros, lobisomens, dentre outros. Além do aspecto místico, havia o temor do real, ou seja, da violência. Valendo-se do medo da maioria em acessar tais espaços, constituíam esconderijos de criminosos, refúgio e meio de vida de ladrões que assaltavam viajantes, pilhavam aldeias, e para lá iam se esconder. Não podemos esquecer que a parte da floresta onde abundava a caça "nobre" era propriedade dos aristocratas, e uma pessoa que fosse pega nessas áreas, caçando "o que pertencia ao dono das terras" era punido, por vezes com rigor... em suma, um lugar perigoso. Apesar disso, tratada pela literatura que se desenvolvia à época - romances de cavalaria, por exemplo - como local de refúgio espiritual, onde o homem se encontra e se purifica, o que vai de encontro com o sentimento de Camus em caminhar por ela. Esse aspecto de exaltação da Natureza será retomado na arte nos séculos XVIII (Arcadismo) e, principalmente, no XIX (Romantismo). (2) Acreditava-se que, além dos entes fantásticos, andavam pelas florestas almas penadas, daí a fala do ladrão. *********** Agora vocês entendem por que eu disse que estava me dando agonia escrever este capítulo, não? "Sob o sol... e a sombra" Estará Camus em perigo? Espero vocês no próximo capítulo... tensão e ação... a história chega a um ponto crítico... preparem-se. Tema do capítulo https://www.youtube.com/watch?v=2l1C9fnV2b4