Dame Jolie

21 O ocaso de um nobre


Notas iniciais
Antes de mais nada, muito obrigada às meninas que deram uma força valiosa lá no Facebook. Fiquei chateada por uma fala que, depois que a cabeça esfriou percebi, provavelmente não foi proferida por mal. Achei lindas as declarações, todas, todas, e quero dedicar este capítulo a vocês - sei que não é um capítulo bonito ou legal, mas... aquele meu mote: "é necessário" T.T Arte da capa - "Camus no lago", por Washu M. (ajoelha, cabeça no chão, ai, como levanta, academia tá me travando aquie) Link para o tema do capítulo e explicações dos trechos numerados (apenas duas) lá nas notas finais. Boa leitura... na medida do possível, porque NÉ :(

— Viram, amigos? Eu vos disse que não era fantasma algum... é um distinto cavalheiro... guardemos nossas espadas, pois... não precisaremos delas – zombou Joffrey, aparentemente o líder do bando que se aproximara de um incauto e agora surpreso Camus. Rindo, eles fizeram conforme ordenado. Evidentemente, queriam intimidar o rapaz, mostrando a que vinham.

— Não retribuís o cumprimento, jovem senhor?

— E eu achava que os nobres fossem pessoas bem educadas...

Assim caçoavam enquanto cercavam o ruivo, que permanecia em silêncio, controlando habilmente a tensão para estudar-lhes: apesar das roupas gastas, traziam consigo acessórios de valor, como jóias e peças incompatíveis com suas vestes e figuras mal cuidadas. Pareciam não tomar banho há muito, tinham cabelos desgrenhados e ensebados. O sotaque que permeava as falas zombeteiras indicava que não eram de Auvergne, e alguns deles nem mesmo da França.

Sem demonstrar receio algum, Camus perguntou, com indisfarçável acento de autoridade:

— Quem sois vós?

— Somos humildes viajantes, Alteza… posso chamar-vos assim, por certo?

— É, ele parece um príncipe mesmo! – exclamou o homem da barba cerrada, chamado Ramon. Este tinha sotaque espanhol, mas não castelhano como Shura.

— Eu nunca vi príncipe mais belo... – disse o loiro de cabelo espigado, mirando o jovem cuja túnica branca fazia-se quase transparente por estar molhada. Sob o sol, a pele alva, os cabelos igualmente molhados, os lábios entreabertos e aquela expressão de altivez quase provocante compunham uma imagem que impressionava a todos. A despeito disso, Joffrey reprovou-o:

— Contém tuas inclinações aberrantes... vais assustar o jovem senhor... – e voltou a falar com Camus – Como eu vos esclarecia, Alteza, andamos pelo mundo procurando meios de viver a vida...

— Não trabalhando, por certo – rebateu o ruivo, estreitando o olhar.

— Olha o rapazinho que nunca ergueu sequer uma pá de jardim falando de trabalho! – o bandido de cabelos até o ombro, Gaston, fez a troça com voz afetada. Seu sotaque, que fazia com que enunciasse as palavras de maneira áspera, não permitiu que o nobre identificasse sua origem. Nunca ouvira ninguém falar daquela forma.

Analisando as posições, sua e deles, Camus aguardava por uma brecha para correr: o maior e o menor se postaram à sua frente; Gaston postara-se ao seu lado direito e Ramon, ao direito. Haviam guardado as armas. Se fosse rápido...

Sabia nadar bem, mas não conhecia-lhes as habilidades nas águas.

— Por quem nos tomais, Alteza? – indagou o barbudo, com deboche – Somos trabalhadores sim! E nosso trabalho é duro, muito duro! Vede como estamos maltrapilhos!

“Não por falta de posses e sim por vagarem clandestinamente, escondendo-se. Talvez sejam fugitivos das galés ou de outro lugar... e agora vivem de roubos e pilhagens”, raciocinava Camus, mantendo-se sereno, malgrado estivesse realmente atemorizado.

— Pensamos que talvez poderíeis ajudar-nos, nobre senhor... vê-se que sois de outra categoria de pessoa... basta que vinde conosco e...

Àquelas palavras, Camus moveu o corpo, instintivamente; quando fez menção de correr, eles imediatamente abriram os braços, impedindo-o. Joffrey desembainhou a espada e Lambert, o loiro dos cabelos curtos espetados, apontou uma adaga na direção do ruivo, que paralisou no mesmo instante. Agora ele começava a experimentar real terror. Como poderia escapar de quatro homens, e armados?

Joffrey fitou-o com chispas cruéis nas íris negras, falando:

— Como vede, Alteza, não somos qualquer lacaio com que estais acostumado a lidar...

As lâminas apontadas para ele cintilaram sinistramente sob os raios do sol. Ao longe, as cigarras reiniciavam o canto que rivalizava com o dos pássaros. O líder dos bandidos continuou a brandir a espada para o jovem e inquiriu, agora ríspido:

— A que Casa pertenceis vós? Não sois camponês, tampouco outro trabalhador. Nenhum deles teria vossa aparência e modos refinados, tampouco estaria cá, desfrutando de tal ócio.

Sem obter resposta do ruivo, que limitou-se a encará-lo, apontou com a própria arma as roupas dobradas perto dali.

— Lambert, vai ver os pertences do nosso tímido aristocrata aqui! – ordenou.

O irmão assentiu e foi verificar. A primeira coisa que saltou à vista foi um estupendo colar de ouro com crucifixo cravejado de diamantes. Tomou o rico adorno entre as mãos peludas e mostrou-as, exultante, aos companheiros:

— Virgem Santa, vede isto, vede!!!

Eles quase perderam a fala. Ramon ia lhes mostrando mais jóias, que estavam por cima das vestimentas: gargantilhas de ouro com opalas, brincos de esmeraldas. Os criminosos arregalaram os olhos e deram risos roucos de euforia. Havia mais ali do que lograram conseguir em muito, muito tempo!

— Mas são jóias mais propícias a uma dama, por que as usa? – quis saber Lambert, coçando a cabeça imunda.

— Tolo desinformado, muitos nobres empoados sequer fazem distinção disso – riu Gaston, animado com o “lucro” – o importante é ostentar suas riquezas. É tudo que sabem fazer!

— E explorar o povo – ajuntou Joffrey, mostrando os dentes podres em um sorriso malévolo.

Camus engoliu em seco, apavorado. Agora não adiantava mais tentar ocultar que pertencia à nobreza. Olhou para as roupas e sua respiração dificultou-se.

Tomando fôlego com dificuldade, mirou-os resoluto, e enunciou:

— Muito que bem, cavalheiros. Tende convosco todas minhas jóias. Tomai-as e parti; com elas, podereis viver confortavelmente até o fim de vossos dias. É uma decisão mais sábia do que ficar aqui e correr o risco de serem apanhados pelos meus guardas, que seguramente vêm em meu encalço.

— Hehehehehehehe, Alteza... quem desistiria do baú do tesouro apenas por haver encontrado dele algumas moedas pelo caminho?

— Que queres dizer? – o ruivo indagou, embora já soubesse a resposta. Que foi dada pelo líder deles:

— Vossa família terá que nos PAGAR para vos ter de VOLTA, é isso que quero dizer.

Camus enregelou-se da cabeça aos pés. Tomado de súbito desespero, virou-se para se atirar de volta ao lago, mas foi prontamente agarrado por Gaston e Ramon. Debateu-se vigorosamente, e os criminosos seguraram-no com força, cada um agarrado a um de seus braços.

— SOLTAI-ME! Sereis severamente punidos, eu vos advirto!!! – vociferou, enfurecido.

— Tratai bem nosso convidado de honra, rapazes. Passará uma temporada conosco... – Joffrey disse, sarcástico.

Enquanto imobilizavam o ruivo, que debalde resistia àquela contenção, Lambert chamou-os:

— Ei, vede ISTO – mostrou o rico vestido de seda castanha com detalhes em ouro.

O coração de Camus parou, e até seus movimentos bruscos pararam.

— Mas... são roupas de MULHER! – eles se entreolharam, confusos.

Joffrey coçava o cavanhaque escuro, intrigado, questionando:

— Primeiro jóias de mulher e agora um vestido de mulher?

— Então havia uma moça com ele? – inquiriu Ramon. E torceu o braço de Camus de modo rude, fazendo-o gemer de dor entre os dentes cerrados – RESPONDEI-NOS, Alteza! Havia convosco uma dama aqui, ONDE ESTÁ ELA?

— Hahahahaha, o jovem senhor então estava em meio a bucólicos arrulhos românticos, hã? – Lambert ria, abrindo o vestido, fazendo gestos obscenos com a roupa. Dela caíram alguns aparatos. Pareciam panos, tiras...

Camus, que se negava a responder, sentiu o hálito da morte em sua nuca ao ver aquilo.

— Sois um nobre não muito bem educado, Alteza, o ideal é que se RESPONDA a quem vos indaga alguma coisa!

— Quem sabe a mocinha que estava a nadar com o mocinho aqui tenha aproveitado que ainda estava no meio do lago quando cá chegamos e...

— Sim, a vagabunda nos viu e fugiu pela água. Estávamos entretidos com esta beleza aqui – supôs Ramon, acariciando grosseiramente o queixo de Camus.

Joffrey foi até onde estava o irmão. Vira que alguma coisa caíra do vestido e foi sondar o que era. Olhou para o chão, e em seguida, para o comparsa a quem considerava acima dos demais – Que achas, Gaston?

— Neste caso... onde estão as roupas DELE?

Fez-se um silêncio significativo ante aquele questionamento.

— Não estão aqui. Não vi roupa alguma de varão – disse Lambert, erguendo os ombros.

— Não é estranho que só tenham roupas de mulher? – perguntou Ramon.

— Não. Eu vos direi por que – Joffrey aproximou-se do jovem imobilizado – Para começar, senhores... NÃO há mulher alguma.

E mostrou-lhes os moldes de silhueta e os enchimentos que descobrira aos pés do irmão.

— Que diabo é isso?

— Parecem... que o diabo me carregue! É o que estou pensando?

— Sim, Lambert. Enchimentos. PEITOS FALSOS. Corpete... enchimentos... creio que temos aqui um curioso depravado...

O tom carregado de malícia enjoou Camus. Nem assim cortou com eles contato visual: fazia questão de encará-los de maneira fria, desafiadora.

Aproximando-se do rosto do ruivo, Joffrey indagou, bem próximo à boca do rapaz:

— Por que estáveis travestido? É algum jogo de aristocratas pervertidos, hã? Na Normandia, sempre ouvimos falar de como são excêntricos, vós do sul...

A aviltante proximidade, a voz rouca, o odor putrefato da boca do meliante – uma mistura de carne podre, cebolas e vinho barato – fez Camus finalmente virar o rosto, cerrando os olhos, nauseado.

— Não fazes o tipo dele, irmão! Quem sabe ele não prefira loiros... – gargalhou Lambert, passando a mão pelos fios curtos e sujos. Os demais também riram.

Aquelas risadas pareciam fazer parte de um pesadelo que tragava o pobre nobre em um turbilhão de medo e horror.

— Amarrai nossa Alteza impudica. Braços para trás. E bem firme – o líder mandou. Ao sentir seus pulsos sendo atados por cordas ásperas, Camus finalmente pôs-se a bradar:

— PATIFES! Não escapareis impunes de tal infâmia, asseguro-vos! Soltai-me, corja imunda!!!

— Farei-o calar-se... – Ramon preparou-se para golpear o ruivo; foi, porém, impedido pelo líder:

— Detém-te, asno! Ele é um nobre, e a julgar pelas jóias, o de mais alta estirpe que caiu em nossas mãos. Não podemos entregá-lo machucado. Seremos caçados como cães! (1)

Gaston cingiu o prisioneiro pela cintura, rindo com perfídia, e ajuntou:

— Joffrey tem razão... está se vendo que ele é a PUTA de algum nobre pervertido que dá-lhe roupas e jóias dignas de imperatrizes... trata-o a pão de ló... vede como é encantador...

Camus tentava se esquivar daqueles abjetos toques, sem sucesso, quando foi amordaçado por Lambert.

— Pronto, pronto – disse, e, para o de cabelos compridos – Ei, para já com isso, se alguém vai se deliciar com este primor aqui serei EU, e não tu, seu...

— Cessai de devassidões, nenhum de vós tocará nosso prêmio dessa forma! – disse o líder – Lambert, não estás a ver que Gaston graceja?

— Tenho cá minhas dúvidas – cuspiu, olhando o outro de lado.

— Seu rato amarelo, tu és o único amulherado fresco entre nós – Gaston devolveu, desdenhoso – Pederastazinho de merda...

— VAIS ENGOLIR ESSAS...

— CALAI-VOS! – todos emudeceram ante a imperiosa ordem do chefe. Este parou de frente ao jovem amordaçado e amarrado, em cujo olhar ainda ardia o impávido brio. Abrandando a voz, anunciou-lhe, muito sério — Certo, rapaz. Sede bonzinho e não vos machucareis. Vireis conosco, e quando estivermos convenientemente abrigados, vós contareis a quem devemos contactar... será um negócio limpo entre cavalheiros. Contar-nos-eis de que família sois... e nós a ela vos entregaremos, em troca de uma justa soma de dinheiro. Estamos entendidos? Temos um acordo?

Camus não respondeu. Em sua mente, um turbilhão de suposições tão nefastas quanto pertinentes. Sabia que NÃO se limitaria a um mero pagamento de resgate. Tão logo identificassem a Casa dos Auvergne, Milo seria chantageado em troca do silêncio dos bandidos. E quem garantiria que aquilo iria parar? Ou que terminasse com a denúncia de Camus, que prontamente resultaria na de Milo, por sodomia?

Apenas imaginar tal possibilidade fê-lo estremecer como ainda não havia estremecido até então.

“Irei morrer... senhor Milo, eu morrerei sem vos ter dito a verdade acerca de meus sentimentos! Morrerei após ter dito que vos odiava!”, pensava, trêmulo, a boca seca.

Sim, iria morrer.

Nem sob as mais atrozes torturas revelaria de onde viera. Os criminosos, forasteiros, não conheciam “Camille d’Auvergne, a condessa de Saint-Doulchard”, “esposa” do soberano da terra em que estavam de passagem para praticar seus crimes. Se o jovem dissesse, o segredo viria à tona, uma hora ou outra. Provavelmente quando Milo tivesse perdido tudo. E então, viria a denúncia... e a condenação... por sodomia e fraude...

NUNCA. Jamais.

Morreria, então; aceitava sua sentença.

— Estamos entendidos? – o normando repetiu a pergunta, puxando os cabelos do rapaz com rudeza. Este contorceu o rosto de dor e fez um gesto afirmativo, com dificuldade.

— Ótimo. Comportai-vos e tudo terminará bem. Temos mais interesse em vossas riquezas do que em vosso sofrimento.

Algo nos olhares maldosos, porém, desmentia parcialmente aquela declaração. Talvez tivessem interesse em AMBAS coisas...

Depois que o bando enfim reabasteceu seus cantis na nascente potável, eles galgaram a pequena ladeira que levava ao caminho do qual vieram. Riam, satisfeitos: quando imaginariam que a busca por água os levariam a uma oportunidade daquelas? Haviam chegado a Saint-Doulchard fazia alguns dias, vindos do oeste, e não tinha sido bom negócio. A região não era nada desenvolvida, quase não possuía comércio, a produção agrícola, incipiente, e poucos nobres passavam pela estrada e pelo bosque. Dos camponeses pouco obtiveram também, ainda que tivessem se divertido um pouco com eles...

Mesmo amarrado e amordaçado, Camus tinha os braços firmemente agarrados pelas mãos dos ladrões, que o puxavam com grosseria. Não lhe era fácil caminhar, pois estava descalço e a sola era maltratada por pedrinhas, lascas de madeira, dentre outros pelo chão. Seus sapatos, assim como suas roupas, foram guardados por seus sequestradores. Somente os trajes e calçados do rapaz já lhes garantiriam uma pequena fortuna.

Andaram em silêncio por cerca de 20 minutos, até que avistaram alguém sentado debaixo de um carvalho. Cinco cavalos estavam amarrados nos troncos das árvores perto daquela sob cuja sombra o homem dormitava. Ele despertou com os relinchos de alguns dos animais, percebendo que os companheiros retornavam.

— Com mil demônios, como demorastes! Eu estava a morrer de sede aqui... – após esfregar os olhos, arregalou-os ao ver junto aos comparsas uma encantadora criatura, pálida, amordaçada, pés nus, as formas do corpo sutilmente desvendadas pela túnica branca, devido ao tecido fino.

— E isso dava-te o direito de dormir, maldito imprestável? – rosnou Joffrey – Até os cavalos são melhores vigias que tu, pedaço de asno!

— Quem é essa preciosidade? – quis saber, a imagem do ruivo atraiu-o tanto que sequer ouvira a reprimenda do líder – É... é de verdade?

Estendeu para o jovem a mão; precisava tocá-lo, saber se era real! O dorso da mão levou um tapa de Lambert.

— Alto lá, não é para o teu bico, mandrião!

— Mas... é... é um garoto?!

— Sim, além de tonto tornaste-te cego? – escarneceu Ramon.

— Céus! Palavra de honra, nunca vi um ser tão intrigante... mas estais a sequestrá-lo?

— Ele é a nossa mina de ouro, velho Wilhelme... nossa mina de ouro!

— Ele é um nobre que se veste de mulher, podes imaginar algo assim? Já ouviste coisa semelhante?

— Como?

— Achamos que é protegido de algum despudorado nobre sodomita. Imaginas o quanto podemos ganhar com ele?

O líder cortou a conversação, autoritário:

— Cessai vossas parolagens, basta. Urge que encontremos um esconderijo. Com este “baú do tesouro” aqui – pôs a mão sobre a cabeça de Camus, que tentou se desvencilhar – não devemos simplesmente montar acampamento. Bom seria encontrarmos uma gruta.

— Tens razão. Melhor irmos agora mesmo. Alguém pode vir procurar por nossa Alteza...

— Gaston, tu levas o rapaz contigo em teu cavalo. Muito cuidado com ele.

— Por que não eu, Joffrey? – revoltou-se Lambert, choroso.

— Porque tu tens inclinações que vão contra a natureza de um homem, todos sabemos. Enquanto violamos mulheres, tu buscas os meninos. Faço vista grossa por ser tu meu irmão, e tudo que me restou de uma família.

Lambert estalou a língua, vendo com inveja Gaston tomar o ruivo nos braços e com ajuda de Ramon, montá-lo no cavalo, que Wilhelme desamarrara.

— Imbecis, têm que deixá-lo de lado, com uma túnica tão longa não há como montar assim! – disse o bandido, o mais velho dentre eles, com sotaque alemão.

— A menos que subam-lhe a barra da roupa até a altura das coxas – sugeriu Lambert, animado com a expectativa de ver mais daquela carne branca e tenra.

Entreolharam-se e decidiram tentar a sugestão do loiro. Alheios aos movimentos revoltos de Camus, subiram-lhe a barra até a parte superior de suas coxas. E assim puderam colocá-lo sobre o animal. Ao perceber o olhar cobiçoso do irmão, Joffrey fuzilou-o com reprovação. Foi até o nobre e ajeitou o pano para que cobrisse mais as partes alvo da mira do outro.

— Foi uma boa ideia, Lambert, embora com evidente objetivo lascivo – riu Gaston, montando atrás de Camus, segurando-o enquanto Ramon entregava-lhe as rédeas.

— És sangue do meu sangue, mas por vezes me envergonhas profundamente – o líder ajuntou, com desprezo.

— Sois uns grandes desmancha-prazeres!!!

Todos montaram em seus cavalos, que levavam atrelados compartimentos e bolsas em que os bandidos guardavam o resultado de seus roubos.

— Para o leste, rapazes! Háá! – e Joffrey pôs-se a caminho, sendo seguido pelos demais.

Camus percebeu que embrenhavam-se cada vez mais na floresta, o caminho ficando mais cerrado à medida que galopavam. Sabia que iam na direção oposta ao castelo e ao vilarejo, bem como à aldeia dos camponeses. Não apenas estes ficavam para trás, como também suas esperanças em escapar daquele hórrido pesadelo e rever Milo.

*************

— Sede bem vindo de volta, senhor Milo – o castelão Pierre saudou o conde, que apeava de seu cavalo – Como foram os negócios na cidade?

— Melhores impossíveis, Pierre, melhores impossíveis! – respondeu, animado – o hospital de Saint-Doulchard caminha para ser uma realidade.

— E a produção do primeiro alto-forno está a superar expectativas – ajuntou o contador de Milo, o barão de Fleury. Tinham quase a mesma idade, embora o contador aparentasse bem uns 10 anos a mais.

— Não é à toa que o senhor conde foi tão bem recebido pelo povo durante essa visita. Estão confiantes com as mudanças. E as doações feitas a eles garantiram muitos sorrisos hoje – completou um escudeiro de Milo.

— Sim, sim, tudo teria sido perfeito se não fosse este clima insuportável. Está excessivo, até para mim, que gosto de calor...

— Sim, meu senhor, tenho para mim que hoje é o dia mais quente em muitos, muitos anos. E vivo aqui desde que nasci – Pierre enxugava a testa e o rosto suados com um lenço enquanto comentava.

— Claro, Saint-Doulchard esperou que EU cá chegasse para que isso acontecesse – o loiro foi entrando no palácio juntando os longos cabelos com as mãos. Assim que os serviçais se apresentaram, prontamente ordenou:

— Preparai meu banho no pomar! (2) Trazei bastante ervas, pois cheiro pior que um pano mofado.

Nem os criados conseguiram segurar o riso. Divertido, o conde acrescentou:

—Levai também um bom vinho, que terá sido mergulhado em bastante água fresca. Ficarei marinando na tina tal qual um leitão gordo de ceia. Aliás, eles lá no chiqueiro devem estar a cheirar melhor do que eu, neste momento.

Eles se retiraram, rindo, cochichando entre si sobre como o amo se fazia mais agradável de bom humor. Milo se viu a sós com Pierre, já que os demais subalternos pediram-lhe licença para também irem se refrescar em seus alojamentos. Sentiu-se enfim à vontade para perguntar:

—Correu tudo bem por aqui?

O castelão ergueu uma sobrancelha grisalha, afinal, o soberano se ausentara por apenas umas cinco horas.

— Sim, meu senhor.

— A obra... algum problema?

— Não, meu senhor.

— Tudo tranquilo pelo castelo?

— Até onde sabemos, sim… ah! Com exceção do sapateiro-mestre: está atacado de hemorróidas, coitado...

“E eu lá quero saber disso?”, pensou o jovem, revirando os olhos.

— ...ele pede que o senhor Afrodite vá ajudá-lo.

— Ficarei extremamente feliz em transmitir tal recado ao camareiro-mor – sorriu, maroto, antegozando a vingança de fazer o sueco cuidar das hemorróidas do velho sapateiro, que cheirava permanentemente a couro e sebo de ovelha.

Olhou em torno e indagou:

— E... e quanto à minha esposa?

— Ela saiu, meu senhor. Foi andar na floresta, disse.

— O quê? – todo o bom humor do nobre feneceu com aquela informação.

De novo? Depois de tudo que aconteceu entre eles… Camus repetiu o gesto que tantos prejuízos trouxera aos dois!

“Não. Não foi seu gesto, e sim meus ciúmes irracionais... mas...”, ponderou, revoltado com a notícia e consigo mesmo.

— Afrodite... a acompanhou... novamente? – quis saber, quase em um murmúrio.

— Não, excelência.

— Ah, não? – entre aliviado e surpreso, insistiu – E o que está ele a fazer?

— Estava transcrevendo receitas na biblioteca. Creio que ainda está lá, meu senhor. Devo chamá-lo?

Sacudindo a mão e fazendo uma negativa com a cabeça, o loiro respondeu:

— Não, não. Deixa-o. Bom, irei banhar-me e depois atenderei os camponeses que Leopold ficou de trazer mais tarde para que comigo falassem.

— Compreendo, excelência. Deixarei o gabinete preparado para a audiência.

— Muito obrigado, Pierre. Saibas que tua eficiência satisfaz-me deveras.

Satisfazia-o, outrossim, com o progresso que vislumbrava para a terra pela qual já nutria afeição paternal... e com a atitude de Camus. Na certa, preferira ir sozinho para que Milo não se desagradasse novamente. Demonstrava deferência para com suas vontades, seus sentimentos! Será que poderia ter alguma esperança de algum dia...?

*************

O bando seguia a médio galope floresta adentro.

Joffrey e Wilhelme iam à frente, Gaston e Camus no meio, e atrás destes Lambert e Ramon. Não se via sinal de lugar algum no qual pudessem se abrigar totalmente das vistas de qualquer infeliz que por passasse.

O jovem nobre sentia-se enfraquecido de calor, de cansaço, de medo. Estremeceu ao sentir a respiração do bandido estrangeiro em seu ouvido, antes do odioso sussurro:

— Nunca interessei-me por varões, não sou um desviado como o afeminado do Lambert... mas confesso que sentir-vos contra meu corpo assim... parece-me que tende nádegas deliciosas... meu pau está a enrijecer-se...

Nauseado, o ruivo debateu-se violentamente, grunhindo através do tecido que tapava-lhe a boca.

— Shhhh, calminha, senão caireis do cavalo... sou obrigado a apertar-vos mais contra mim... segurar-vos melhor. Por vossa segurança – e assim o fez; segurando as rédeas com os punhos sobre as coxas brancas, esticou alguns dedos para fazer sobre elas carícias maliciosas.

Camus achou que morreria de nojo:

— HHHMMMMFF!!!

Lambert passou por eles, alcançando o irmão e pôs-se a acusar, apontando para Gaston:

— Vê, Joffrey! Atribuis a mim a pecha de sodomita. Entretanto teu confiável Gaston está a MOLESTAR o nosso refém!

O bandido tratou de disfarçar, como se nada estivesse fazendo com o prisioneiro.

— Cala-te, estouvado, teus gritos estão a fazer eco neste recanto – o líder sequer fez qualquer caso daquilo. Conhecia o caráter escandaloso do irmão, sequer acreditou nele – e não uses a palavra “refém”.

— O certo é “convidado” – ironizou o velho alemão.

— “Hóspede” – Ramon juntou-se à pilhéria.

— Seus... estou a falar SÉRIO e vós me ignorais!!!

— O bávaro gosta de mulheres, seu aluado, ao contrário de tu, que caíste de ponta-cabeça no chão ao nascer, e desde então tens o pensamento às avessas!

Seus risos grotescos espantaram um bando de perdizes para uns arbustos repletos de mirtilos.

— Ora, ora, eis que surge nosso jantar. E vede o que há também ali adiante.

A alguns metros, distinguiram por trás dos cipós e abundante vegetação, a entrada de uma gruta. Perto dali, uma pequenina nascente descia da rocha e desembocava em um riacho escuro.

— Não encontraremos lugar melhor antes do anoitecer. Vamos apear, rapazes.

Obedeceram; Ramon e Wilhelme seguravam e retiravam da montaria um arredio Camus, enquanto Gaston descia do cavalo. A respiração do nobre se fez árdua ao ver o local retirado em que estavam.

Jamais seriam encontrados!

— Ramon, Wilhelme, vós ide arrumar tantas perdizes quanto conseguirem. E qualquer outra caça que encontrarem. Não apenas para agora; com o sal que roubamos dos camponeses podemos secar a carne para abastecer-nos com propriedade. Não sabemos quanto tempo ficaremos aqui, e o menos que sairmos da caverna, melhor.

Eles assentiram às ordens de Joffrey, que prosseguiu:

— Eu e Lambert iremos ajeitar o abrigo e acender o fogo. Lambert, vai, descarrega os cavalos. Gaston, tu ficas com o rapaz. Se entrarmos todos, ficaremos acuados caso alguém apareça, e ele será descoberto. Fica perto de um cavalo; qualquer movimento estranho, sobe logo o garoto num animal e tira-o daqui.

— Confiarias mesmo na raposa para guardar tuas galinhas, hã? – Lambert assim se dirigiu ao irmão, que o estapeou com brutalidade.

— Ousas contestar minhas ordens?!?

Todos emudeceram, intimidados.

— Isto serve para TODOS vós – murmurou, indo para a gruta, carregando os alforjes com os objetos de mais valor. Dentre eles, obviamente as jóias de Camus.

Entreolharam-se em silêncio; os incumbidos pela caça retiraram-se. Lambert, esfregando o rosto dolorido, fitou Gaston com ódio. Para provocá-lo ainda mais, o bávaro puxou Camus para si, pela cintura. Levantou a barra da túnica do jovem, e pôs a mão entre suas pernas.

— HHHNNFF!!! – o ruivo tentou se desprender, mas o outro era mais forte e tinha uma adaga à cintura.

— Vê, Lambertinho... ouve... – e tocou a intimidade do prisioneiro, de maneira obscena, invasiva – ele gosta de mim, não de ti... hehehe... olha... é grande! Quem diria, hein? Nada mau...

— Desgraçado... – rosnou o comparsa enraivecido.

— LAMBERT! QUE ESTÁS A FAZER? – berrou Joffrey, da gruta.

Ele virou-se assustado, e voltou a encarar Gaston, bufando:

— Hás de me pagar, dissimulado!...

Pegou a carga sob sua responsabilidade, e a dos demais e vacilando pelo peso, retirou-se por fim.

Gaston riu, arrastando o refém para debaixo de uma árvore, ocultando aos dois.

— Hehehehe, o patrãzinho confia mesmo em mim, vistes – disse ao ouvido de Camus, que ainda se debatia – Vós deveríeis igualmente confiar, Alteza...

Passava a mão pelas coxas do ruivo, que cerrava os olhos lacrimejantes, desejando mais que tudo a morte imediata.

— O chefe não está errado... eu gosto de mulheres... mas vós tende algum poder sobre este meu mastro, senti-o – roçou sua virilha contra as nádegas do aristocrata – Senti-o... rijo como pedra, não?

— HUUUNNF!!!

— Eu adoraria ouvir-vos gemer de prazer... ouvir gemer de prazer “a puta” de um nobre... poder entender o que ELES têm... não deve ser em vão que sois “a puta” de um nobre, hã? Deveis entretê-lo bem, com vossa beleza... e com esta maravilha aqui... humm...

Aquelas imundícies eram proferidas em meio a sussurros roucos, repletos de um desejo inebriante desperto no criminoso.

À parte de terem causado asco em Camus... trouxeram-lhe uma ideia.

Ele nada teria a perder. Já se considerava à beira da morte, pois que jamais revelaria o nome de Milo. Iriam torturá-lo até a morte.

Então... por que não tentar... era algo que o enchia de desgosto por si mesmo... contudo, se configurasse a uma chance de se salvar... de voltar para Milo...

AQUELE era o momento.

E tinha que agir rápido!

Parou de se debater e de grunhir. À medida que o bandido estimulava seu órgão, incessantemente, porque de jeito algum reagia, Camus fingiu mudar de atitude; simulou uma respiração entrecortada, encostava-se mais a Gaston. Este lambeu os lábios, satisfeito:

—Ora… o que temos aqui…

O ruivo semicerrou os olhos e pousou a cabeça no ombro de Gaston, agora fingindo que gemia:

— Hmmmn...hhmm...

O som desta vez soou diferente ao ladrão, que sentiu o próprio membro latejar imperioso com aquilo.

— Oh, estais a gostar mesmo – balbuciou o homem, excitado – Ah, como queria ouvir-vos gemer melhor...

Os olhos castanho-avermelhados subitamente lânguidos fixos nos cinzentos foi o bastante para que Gaston levasse uma das mãos à mordaça de Camus.

— Preciso ouvir-vos gemer... mas se ousardes gritar, uso minha adaga em vossa carne, sem matar-vos... mas ferir-vos-ei dolorosamente...

Com três dedos, ele abaixou o pano...

— Agora posso ouvir vosso gemido gostoso...

Milo.

Tinha que pensar em Milo.

Pensar em Milo dava-lhe sangue-frio.

— Aaahnn... – gemeu baixinho, mas de forma tão erótica que o criminoso temeu gozar naquele exato instante.

— Oooh... muito melhor... – esfregou o pênis ereto e duro contra o jovem que masturbava.

Pensar em Milo dava-lhe astúcia.

— Aaahh... ooh...

— Sois delicioso, Alteza...

Pensar em Milo dava-lhe coragem.

— GASTON! Podeis vir, está tudo ajeitado – anunciou Joffrey, da gruta.

— Aaahhn!.. – Camus esfregou-se deliberadamente nele, controlando a ânsia de vômito.

— Nunca que saio daqui agora – resmungou Gaston, lambendo o pescoço do ruivo.

E ao fazê-lo, Gaston abaixou a cabeça... ao mesmo tempo, como sob intenso prazer, Camus curvou a sua para frente, gemendo... como se sentisse o que apenas MILO poderia lhe dar algum dia.

Algum dia...

Milo.

Pensar em Milo dava-lhe força.

Num gesto inesperado e surpreendente, Camus jogou com força a cabeça para trás, acertando em cheio a fronte de Gaston. O choque violento fez o bávaro grunhir; segurou o grito para não alertar os outros.

— M-mal...maldi...

Para Camus doeu como o inferno, mas dada a imediata moleza que se abateu sobre o criminoso, soube que o mais prejudicado havia sido seu molestador. Sentiu as mãos sobre si afrouxarem e, juntando toda energia que lhe restava, conseguiu efetuar novo golpe, de similar maneira, em cheio no queixo do adversário, ao girar o corpo e servir-se da proximidade que o próprio bávaro permitira. O duque havia ensinado-lhe, há tantos e tantos anos, nos treinos nos bosques de sua amada e saudosa Turenne, que um golpe naquela parte poderia até matar. Bom, ele não possuía a técnica suficiente para tal, mas talvez o pai ficasse orgulhoso ao ver que o filho conseguiu desacordar um inimigo claramente mais forte e mais experiente.

Antes mesmo que Gaston tocasse o chão, Camus disparou mata adentro, a mordaça agora em seu pescoço, o que lhe ajudava a tomar o fôlego de que precisaria para aquela fuga desesperada.

NÃO PODERIA CAIR POR NEM UMA VEZ SEQUER.

Não contava com suas mãos para se reerguer de pronto!

— JOFFREY! O RAPAZ!!! ONDE... – ouviu a voz esganiçada de Lambert ao longe, já saltando sobre as pedras do riacho, rezando a Deus que não o deixasse se desequilibrar.

— O DESGRAÇADO ESTÁ A FUGIR! ALI VAI ELE!

Soube com gélido pavor que o líder lançara-se em seu encalço.

Os gritos acordaram momentaneamente Gaston, que gemeu, atordoado:

— Uhnn... aah! – sua cabeça doía-lhe horrivelmente, e uma pontada deixou-o inconsciente de vez.

Ao ouvir o barulho, os que haviam ido caçar retornaram apressadamente. Quando viram o companheiro no chão e os dois irmãos correndo ao longe entenderam o que acontecera:

— Diabos, o garoto fugiu!

— Que faremos, Ramon? Vamos atrás?

— Tsc – fez o barbudo – eles já estão muito distantes. E não podemos abandonar nossas coisas aqui.

— Verdade...

— Fiquemos aqui e cuidemos de tudo.

— Certo – e quando o velho ia se abaixando para ajudar o companheiro inconsciente, foi impedido pelo ibérico, que elucidou, repleto de raiva:

— Eu não disse que cuidaríamos DELE. É por culpa desse excomungado que nossa presa fugiu.

Em seguida, desferiu um potente chute no estômago de Gaston, de cuja boca saiu uma espuma avermelhada.

— O menino está amarrado, e com os irmãos do demônio atrás dele. Ele não tem como escapar – observou Wilhelme, quase com pena do bávaro. Este também não teria como escapar da punição do chefe...

*************

Milo acabara de se vestir quando um de seus secretários anunciou a chegada dos camponeses. Revigorado pelo banho e pelo vinho, o jovem conde dirigiu-se para o escritório do terceiro pavimento do castelo. Enquanto caminhava pelo corredor, perguntou ao castelão, que os acompanhava:

— Camille já retornou?

— Não, meu senhor. A senhora condessa ainda não retornou.

— Não? – surpreendeu-se – Que horas são, Pierre?

— Quatro horas, excelência.

— Oras... aproxima-se da hora do jantar. Ela deve estar chegando – fingiu despreocupação. No entanto, algo se agitava dentro dele de forma desagradável.

“O que o faz tardar tanto? Talvez tenha perdido a noção do tempo, pois que nesta época do ano o sol não vai embora antes das sete horas da noite... há de ser isso.”, tentava se convencer, incomodado.

*************

Empreendendo uma fuga alucinada, Camus corria pela floresta, desviando-se dos obstáculos naturais o melhor que podia. As mãos amarradas para trás atrapalhavam a que obtivesse posição adequada para potencializar a velocidade. Sequer sentia a dor nos pés que já sangravam, tampouco na cabeça, que usara para golpear o asqueroso ladrão que o molestara. Nem mesmo nisso pensava ele: concentrava-se tão somente em não perder o equilíbrio naquela escapada, contornando árvores, troncos, rochas. Toda sua energia convergia-se para seu instinto de sobrevivência. E este convergia-se para a esperança de reencontrar seu amado.

Não, não aceitava morrer enquanto o esposo acreditasse ser odiado! Jamais! O amor por Milo dava-lhe forças e neutralizava as dores.

Queria viver.

Queria voltar para casa.

Queria voltar para Milo!

Se a morte há alguns minutos era certa, por que não tentar...?

Atrás de si, o som das respirações pesadas, dos grunhidos, o barulho das folhas secas sendo pisadas... os perversos não desistiriam tão facilmente dele!

Atravessou outro córrego, desta vez pisando dentro d’água, pois não havia grandes rochas por onde passar. A barra do vestido molhado constituiu novo problema para o ruivo, pois que passou a tolher mais seus movimentos. Mesmo com mais esta dificuldade, contava com sua juventude e melhor condicionamento que aqueles marginais. Os treinamentos com o pai em um ambiente similar dava-lhe vantagem adicional.

O que não o ajudou foi a topografia do local.

Percebeu que o caminho para o qual seguia começava a se elevar; ascendia até o que julgou ser uma clareira, pois as árvores se espaçavam. Se não fosse por ele, teria que ir pela água... inviável! Com a túnica seca já havia-lhe sido suficientemente custoso correr. Sem melhor opção, pôs-se a subir pela acidentada colina, o mais rápido que podia.

Para o azar de Camus, não se tratava de uma clareira, e sim o alto de um barranco. Deteve-se: não conseguiria descer por um local tão íngreme sem poder contar com seu equilíbrio normal.

Se ao menos estivesse livre daquelas malditas cordas!

O suor escorria abundantemente por suas faces ruborizadas. Ofegava com sofreguidão, considerando a altura, e foi com horror que ouviu a voz do irmão do líder dos ladrões, que alcançara o cume:

— Agora vos pegamos, Alte...

— Não, estúpido!!! – Joffrey impediu que Lambert chegasse mais perto de Camus. E explicou ao irmão, que o fitou, sem entender – Não vês que se ele der apenas mais alguns passos, cairá pelo barranco abaixo?

Os três ficaram se encarando, tomando fôlego, a tensão pesada sobre eles.

— Escutai, meu senhor – o chefe tentava normalizar a respiração ao falar, com voz branda – Como vede, não há mais escapatória para vós. Sede razoável e vinde conosco.

O ruivo não respondeu. Tremia pelo esforço, pelo medo, pelo mal estar que a batida na cabeça lhe provocava.

Em verdade, parecia que sentia certa vertigem. Abriu mais os olhos para dissipar aquela impressão.

— Não tende mais o que temer, Gaston será punido por haver atentado contra vossa dignidade, eu prometo. Deveria ter ouvido meu irmão, reconheço...

O menor se empertigou, orgulhoso. E ajuntou:

—Sim, sim! Eu mesmo matarei o miserável! Arrancarei aquelas tripas pútridas de seu ventre suíno e...

— Cala-te. Não o assustes mais – rosnou Joffrey, vendo que o refém não parecia nada disposto em ir com eles. Suou frio ao vê-lo dar mais um passo para trás. Considerou a altura da elevação. Notou as pedras pela descida.

Se o jovem caísse ali, estaria tudo perdido!

Analisava a situação com cautela; não liderava aquele bando ordinário sem motivos! Amaciou ainda mais o timbre e continuou:

—Não tem que ser assim, nobre menino; vinde conosco, tratar-vos-emos bem, alimentar-vos-emos, deixar-vos-emos descansar. Assim que vossa família pagar o resgate por vós – coisa de pouca monta, asseguro-vos! – libertar-vos-emos... lembrais do nosso acordo?

Joffrey buscava com isso ganhar a confiança de Camus. Este olhou para trás, considerando a escarpa.

“Se cair, não conseguirei reerguer-me de forma alguma!”, pensou, aflito.

Lambert estendeu a mão para ele, o olhar sem disfarçar o desejo que sentia pelo ruivo:

— Vinde, jovem senhor, toma minha mão antes que percais o equilíbrio e...

Aquela mão.

Aquele olhar.

A vertigem voltou, simultânea ao inconsciente ato de escapar àquele toque abjeto. E foi neste movimento, mero reflexo, em que Camus pisou em uma parte solta do topo.

Foi tudo muito rápido.

Como se submergisse no oceano, afundou no ar, precipitando-se ribanceira abaixo. Sem poder usar as mãos para deter a queda ou se segurar em algum lugar, Camus rolou na terra árida, e, atingindo a parte plana, bateu a cabeça contra uma pedra.

Perdeu a consciência imediatamente.

*************

— Muito boas tardes, Leopold. Cavalheiros – cumprimentou Milo, adentrando o austero escritório, indo se sentar à mesa de carvalho perto da janela. À sua frente, o líder comunitário e seis camponeses, todos com semblantes apreensivos. Um deles chamou a atenção do loiro: chorava silenciosamente.

Fizeram uma polida reverência diante do nobre, que falou:

— Aqui estou, conforme requerestes. Em que posso ajudar-vos, senhores?

Um deles, com o chapéu de feltro na mão e em uma postura humilde, se adiantou e disse:

— Excelentíssimo senhor conde de Saint-Doulchard, tomamos a liberdade de pedir com urgência esta conferência, conscientes de nossa inconveniência, pois sabemos que sois assaz ocupado, e que tende, inclusive, feito muito por nós desde que a esta terra chegastes. Sabemos também que sois um guerreiro de Deus, que lutastes à frente de Seus exércitos nas...

— Sim, eu lutei nas Cruzadas, por que não vais direto ao assunto, homem? – a preocupação com Camus minava sua paciência. Tornava-se inquieto e de mau humor.

— Sim, senhor, perdoai-me a falta de modos – o camponês assentiu – Viemos suplicar por vossa intervenção em um problema que está nos ameaçando há dias: um bando de criminosos forasteiros estão a disseminar o terror nos arredores de nossa aldeia.

— Criminosos? Que tipo de criminosos? Que estão a fazer? – desta vez a atenção de Milo fora conquistada totalmente.

— Há cerca de uma semana alguns de nós relatam estar sendo atacados nos bosques e na estrada, retornando do vilarejo. Os bandidos levam o que puderem subtrair no momento, o que, vindo de nós, nunca é grande coisa, de forma que, enfurecidos com o fato, tornam-se agressivos e agem com violência – explicou o homem.

Os demais foram relatando:

— Sim, excelência, alguns dos nossos foram cruelmente espancados... meu irmão mesmo está com a testa rachada de tanto que apanhou, por ter resistido a entregar um colar herança de nosso pai...

— Soubemos de um mercador a quem acolhemos, também vítima deles, que esses ladrões andam atacando mascates e viajantes pela estrada. Disse ele que os companheiros com quem vinha pela estrada haviam sido mortos, e apenas ele escapado por se fazer de morto e rastejar-se até nossa aldeia. Não pôde vir conosco, porque ainda está acamado, muito ferido.

O aristocrata uniu as mãos, os cotovelos sobre a mesa. Sua expressão modificara-se completamente.

— O filho do Albert ali – apontou o homem que vertia as lágrimas em silêncio, amparado por um amigo – foi morto ontem por eles! Voltava da cidade com o lucro da venda dos chapéus e cestas que os pais confeccionam... eles... eles estriparam o pobre rapaz!

— Cristo – exclamou o conde, horrorizado.

— E minhas filhas – um outro explodiu em soluços – duas de minhas filhas foram violadas por esses cães do inferno! Estavam a colher framboesas e mirtilos nos bosques quando foram surpreendidas e... e... uuhn!

Rompendo em pranto, restou a Leopold concluir, sombrio:

— Uma delas está entre a vida e a morte. A caçula... muito franzina... bem... cinco homens... foram muito brutos com ela.

Milo ergueu-se da mesa, revoltado:

— Por que não viestes logo avisar-me de tais horrores?!?

— Temíamos que pudessem estar de tocaia pelo caminho que traz ao vosso castelo, senhor. Leopold não retornou à vila esta semana, aqui ficando, não tínhamos como saber.

— E eu fui até a vila ontem, escoltado por vossos guardas, senhor... só então fiquei eu também a par de tudo isso. Tomei a liberdade de destacar soldados para trazerem meus companheiros para vos transmitir as notícias – ajuntou o próprio líder comunitário.

— Malditos – murmurou o conde, encolerizado – E não encontraste evidências da presença deles pelo bosque, Leopold?

— Na verdade, sabe-se que foram se refugiar na floresta, provavelmente por ela escapando para o norte em busca de mais ganhos na aldeia de...

— Disseste que foram para a floresta? – indagou o nobre, subitamente espantado.

— Sim, excelência.

— QUANDO? – pareceu aterrado, e não mais imponente como segundos antes.

— N-não temos certeza – o homem assustou-se com a reação do amo – T-talvez... ontem... após matarem o... o filho de Albert... e de ter violentado as meninas...

A tez bronzeada do senhor empalideceu; semelhante reação viu-se no rosto do castelão Pierre, que buscou o olhar do amo, compreendendo-lhe o temor.

— Parece que há dois estrangeiros entre eles. Os outros são de outras regiões da França mas...

— Um deles é grande como um ogro, é o chefe do bando!

— São muito perigosos!...

Em meio ao falatório, Milo, aturdido, só processava cinco frases, repetidamente, em seu cérebro:

“Ela saiu, meu senhor. Foi andar na floresta, disse.”

“A senhora condessa ainda não voltou.”

“...foram se refugiar na floresta...”

“Foram muito brutos com ela.”

“São muito perigosos!”

Aproximando-se da janela, apoiou-se, trêmulo, na beirada. Dirigiu o olhar angustiado para a floresta, banhada pelo sol que começava a descer para as montanhas, clamando em pensamento:

“Camus...”

Notas finais
(1) O sequestro era um crime tratado de forma um tanto diferente da de hoje. Um nobre como Camus, que tivesse caído nas mãos de sequestradores, era comumente culpabilizado por seu descuido - lembrando que os nobres pertenciam à classe guerreira, ser raptado era realmente indigno, desonroso. Pago o resgate, não se procurava pelos criminosos. A exceção era se o nobre fosse ferido... aí sim os bandidos poderiam esperar que seriam seguramente perseguidos. Morto então, nem se fala. Por isso a fala do líder dos bandidos. (2) No verão, era comum o "banho no pomar", um momento conforme o que aparece na fic: o nobre tomava vinho enquanto era banhado pelos criados, ao ar livre. Podia-se até mesmo fazer refeições na tina e ou partilhá-la com outras pessoas da família. *************** Desnecessário dizer que a fic chega em seu ponto mais crítico até agora, não? Foi bem tenso escrever este capítulo, quem me conhece sabe que me entrego muito na hora da criação, chego a dizer as falas em voz alta, fazer os movimentos para saber se são plausíveis, etc, tipo Camus se levantar com as mão amarradas para trás caso caísse. Possível é, mas um pouco difícil, e em uma fuga ele não poderia perder UM SEGUNDO sequer. Infelizmente... seus esforços não lograram ser bem sucedidos :( Link para os temas do capítulo - na verdade fiquei em dúvida, porque um para mim é a fuga do Camus, assemelha-se a uma música de batalha, e o outro são as cenas mais paradas, tensas, tipo Milo ouvindo falar dos criminosos e Camus no alto da ribanceira, antes de cair. (trilha da ação) https://www.youtube.com/watch?v=_R8viSgLTVM (trilha do suspense) https://www.youtube.com/watch?v=fQaeh1VPGEg Grupo das fics no Facebook https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/ Obrigada por prestigiarem... até a próxima, e uma boa semana a todos o/