Dame Jolie

22 O Bem Mais Precioso


Notas iniciais
Olá a todos! Eu ia terminar de responder todos comentários antes de atualizar, mas minha grande amiga Sheilinha estará impossibilitada de ler a fic mais tarde e pediu para eu soltar logo o rojão, então cá está... se você não teve seu comentário respondido, don't worry, fá-lo-ei depois, com certeza ;) Quero agradecer de todo coração o lindo apoio que vocês têm dado a esta fic, isso me dá muita força para seguir em frente :') A ilustração que é capa do capítulo é de minha autoria; nem de longe aquela DIVOSIDADE DIVÔNICA da DIVA Washu M., mas é o que tinha pra hoje, relevem os erros, não sou exatamente uma praticante de desenho xc Link para o tema do capítulo e a única explicação numerada do capítulo lá nas notas finais. Ah... atenção: *********** CENAS DE VIOLÊNCIA EXPLÍCITA - DESCRIÇÃO DE ATOS VIOLENTOS **************** Aviso dado...! Boa leitura! :)

— Senhor Milo? Senhor Milo? – o castelão Pierre chamava-o, no afã de retirá-lo do súbito alheamento.

O conde mantinha o olhar esgazeado fixo na floresta distante, tingida pelas cores quentes de um escaldante dia que se findava.

O dia se findava.

Camus... CAMUS ESTAVA NA FLORESTA.

Justamente onde se alcovitavam os ladrões cruéis que estavam a atormentar os camponeses e os viajantes.

Não. Não “apenas” ladrões. Estupradores. Assassinos.

A mais vil espécime humana. Cinco deles, era o que lhe haviam dito.

— Excelência... – tentou o subalterno, mais uma vez. O nobre virou-se para ele, e, em seguida, considerou cada um dos presentes. Seu semblante começou a se transformar.

Contraindo os punhos e adquirindo feição resoluta, declarou:

— Nenhum de vós deixará o castelo. Leopold, Pierre, cuidai de acomodar esses senhores. Dirigir-me-ei para a floresta agora mesmo. Juro em nome de Deus que encontrarei e punirei os monstros que têm vos afligido. Não permitirei, em absoluto, que NINGUÉM ameace minha família e meu povo.

— Meu senhor, chamarei agora mesmo um grupo de cavaleiros para acompanhar-vos e...

— Não é necessário, Pierre. Posso cuidar disso sozinho. Tenho mesmo que ir procurar minha esposa. Ela está lá... na floresta...

Os humildes aldeões se alvoroçaram ao ouvir aquilo.

— Por Deus... não...

— A... a senhora condessa...

— Que Deus a proteja...

Sob olhares surpresos, o loiro deixou o escritório e foi até os aposentos que ocupava desde que deixara o quarto de casal senhorial. Tomou sua enorme espada de cruzado consigo. Rumou apressadamente para a biblioteca, fazendo o camareiro-mor se sobressaltar ante sua entrada intempestiva.

— Afrodite, preciso falar-te. Não ouses mentir – fechou a porta de madeira maciça – pelo bem de teu amo.

— Senhor Milo – ergueu-se de pronto da mesa repleta de livros e anotações.

Aproximando-se bem dele, o conde inquiriu:

— Tu estás ciente de que Camus foi para a floresta, não?

— Sim, estou...

— Ele disse EXATAMENTE para onde iria? O que iria fazer lá?

— Ele apenas disse que iria caminhar na floresta... mas...

— Não, não – impacientou-se Milo – Ele DEVE ter mencionado algo mais. Por que iria para lá, se iria a algum lugar específico, puxa da tua memória!

Afrodite chegou a se encolher, assustado com a atitude nervosa do soberano. Quase num murmúrio, revelou:

—Bom, ele… ele falou que não aguentava mais ficar neste castelo... que precisava respirar, andar em meio à natureza... e...

— E...? Diabos, abre logo essa boca de que tanto te serves!

— ... falou sobre ir até o lago...

— O lago, que lago? Há DEZENAS de lagos nessa maldita floresta! – bateu o punho na mesa, furioso, assustando mais o sueco.

— Ele se referia a um lago em cujas imediações fizemos um piquenique...

— Um piquenique? – arqueou as sobrancelhas.

O ex-pajem, por sua vez, franziu as suas.

— Sim. Naquele dia, em que vós retornastes de viagem... fizemos um piquenique após nossa ida à floresta para pegar mudas e sementes... o inocente passeio que vos fizeste brigar com ele.

Exasperado, o cavaleiro esfregou com a mão o rosto já banhado de suor. Vendo-o tão angustiado, Afrodite interpelou-o:

—O que está acontecendo, afinal? Exijo saber.

— Quem exige as coisas aqui sou EU, Afrodite, e...

— NÃO quando diz respeito ao MEU AMIGO – retrucou, desafiador.

Bufando, Milo demandou:

—Se queres tanto ajudar teu amigo, diz-me logo onde fica o maldito lago em que estivestes!

— “Ajudar”? – o tom rebelde do sueco deu lugar a um preocupado – Aconteceu algo com Camus?

— É o que pretendo averiguar, se abrires essa boca e dizer-me DE UMA VEZ POR TODAS o que estou a perguntar!

Mirando-o perplexo, o camareiro elucidou:

— Fica ao norte daqui... atravessando o bosque e a aldeia dos camponeses, cerca de duas horas e meia de caminhada... há uma nascente de água potável que deságua justamente no lago, cercado por...

— Já sei onde é. Estive lá quando cá cheguei, na semana que antecedeu o casamento. Meu pai e eu estudávamos a região para decidir onde seriam os alto fornos – Milo disse, mais para si mesmo do que para o outro.

Antes que deixasse o recinto, ouviu Afrodite pedir:

— Senhor Milo, eu vos suplico, contai-me o que está a se suceder! O que houve com Camus?

O conde considerou o amigo de seu esposo; sabia que era um bom homem, afinal. Suspirou, e elucidou:

— Acabei de saber pelos camponeses que exatamente na floresta, onde Camus se encontra, há um bando de cinco malfeitores muito perigosos.

— Oh, meu Deus – exclamou o ex-pajem, recusando-se a acreditar.

— Cometeram inúmeros crimes por estes arredores nos últimos dias, e agora, estão a se abrigar por lá... na floresta. Como Camus ainda não retornou, eu...

— Crede vós que... que ele possa estar em perigo?

— ...irei até lá – prosseguiu, optando por não responder. Afrodite pôs-se em sua frente, diante da porta.

— Eu irei convosco, sei onde é...

— Eu TAMBÉM sei. Escuta-me – Milo abrandou a voz – Quero que fiques no castelo. Pode ser que ele retorne, quem sabe vindo de outra direção... e... pode ser que ele PRECISE DE TI, quando aqui chegar.

— Mas vós ireis sozinho? Nenhum guarda vos acompanhará?

Após hesitar um pouco, pois que temia os próprios pensamentos, o cavaleiro esclareceu:

— Supondo que eu efetivamente encontre Camus... não sei em que condições ele estará – viu o outro arregalar os olhos claríssimos – não pode haver nenhuma testemunha que ponha em risco “o segredo”.

Ao ouvi-lo proferir tal raciocínio, o sueco fez-se ainda mais decidido em insistir:

— Dissestes que são cinco bandidos!

— Eu sou um guerreiro, posso muito bem dar conta de cinco malfeitores que...

— Eu TAMBÉM sou um cavaleiro, senhor Milo – o rapaz interrompeu-o, impetuosamente – vós vos esqueceis que vim à França não apenas para estudar Medicina, mas antes disso, como todo nobre, ser treinado desde a mais tenra idade nas artes da guerra! Posso não ter estado em batalhas como vós, porém posso muito bem lutar pelo MEU amigo, a quem tenho protegido por todos estes anos!

Calou-se tão somente porque as lágrimas o sufocaram. Cerrava os punhos e parecia disposto a enfrentar quem quer que fosse por Camus. Milo entendeu isso; mirou-o, admirado de tal manifestação de lealdade. E, surpreendentemente, pôs a mão no ombro do ex-pajem, que suprimiu um sobressalto com aquele toque. Afrodite encarou-o, atônito, enquanto o conde dizia, em tom compreensivo:

— Estou certo de que és um grande guerreiro, e que poderias lutar a meu lado com habilidade e galhardia. Contudo, a luta se faz em vários âmbitos, e o teu é aqui, para receber Camus, caso ele apareça. Como eu te disse, não sabemos em que estado ele se encontra. Vou em busca de teu amigo, entretanto, há sempre a possibilidade de que ele surja no castelo e... em verdade... é o que mais espero que aconteça.

— Se... senhor Milo – balbuciou o camareiro-mor, desarmado.

— Por isso, peço-te: FICA. Fica e o assessora. É igualmente uma missão.

Os olhos cristalinos de Afrodite perderam o furor de antes. Finalmente convencido, concordou:

—Está bem. Ficarei no castelo.

Com uma sinceridade dorida, Milo pontuou:

— Oxalá sejas tu o primeiro a vê-lo.

— Permiti que eu prepare vosso cavalo? – ofereceu-se, acompanhando-o pelo corredor. Apressadamente, ganharam as escadarias de pedra.

— Agradeço-te.

— Não considerais prudente levar os cães de caça?

— Não, os animais podem alertá-los de minha presença. A melhor tática, estando eles em maior número, será surpreendê-los. Não te preocupes, sei rastrear um inimigo.

Ganharam a área externa; Afrodite foi trazer o corcel Théophile, enquanto Milo dava as últimas ordens aos seus subalternos:

— Repito: proíbo-vos de deixar a propriedade até que eu esteja de volta.

Leopold, à frente de alguns guardas surpresos com sua dispensa, indagou:

— Mas, excelência, e se demorardes em demasia, nem mesmo assim poder-se-ia enviar os soldados em…?

— NEM MESMO ASSIM – reforçou, autoritário – Se eu souber que algum de vós, qualquer um, desobedeceu-me, eu o punirei pessoalmente com o fio desta espada que carrego.

Eles assentiram, apreensivos. O camareiro-mor surgiu, trazendo o magnífico déstrier pelas rédeas franjadas que entregou ao marido de seu amigo, assim que este montou no animal.

— Estaremos a rezar por vós e por vossa estimada esposa, meu senhor – falou Pierre, unindo as mãos enrugadas.

O conde meneou a cabeça. E então pôs-se a caminho, a galope veloz pelo largo pátio.

“Deus Todo Misericordioso, permiti que Camus regresse em segurança, assim como o senhor Milo!”, Afrodite implorava em pensamento.

Atravessou o pórtico principal e diminuiu o trote para descer pela rampa natural sem dificuldade. Tão logo alcançou a parte plana, bradou:

—HÁÁÁÁÁ! – fazendo Théophile correr em disparada rumo ao norte; o cavalo pareceu converter-se um raio negro, dirigindo-se sem pestanejar para onde indicara o sueco. Este, aliás, dissera a Milo que levava-se mais de duas horas para chegar ao lago. Andando. Na velocidade em que estava, se os céus assim o permitissem, estaria lá em um quarto do tempo.

Não que isso diminuísse suas preocupações. Passava das 17 horas e nada... nada de Camus chegar!

Em menos de duas horas, o sol se extinguiria no firmamento...

Percorreu velozmente o bosque, espantando inúmeras aves, que voaram em bandos. Atravessou lépido tal qual uma flecha a aldeia dos camponeses, àquela hora já deserta; haviam se recolhido, temerosos pelos acontecimentos recentes.

Ganhando as verdejantes planícies que antecediam a floresta, clamava em seu íntimo, desesperadamente:

“Camus! Espera por mim, meu amor! De onde quer que estejas... juro POR MINHA VIDA que te trarei de volta!!!”

*************

A pressa dos malfeitores em descerem pelo barranco fazia-os tropeçarem desajeitadamente de quando em quando. O jovem a quem haviam sequestrado jazia imóvel na parte mais baixa, após uma queda acidental. Quando alcançaram-no, detiveram-se, incertos ante a visão daquele corpo de lado; sobre ele, a rubra e comprida cabeleira espalhada, de maneira a cobrir-lhe parcialmente a face.

— Achas... achas que ele morreu? – ressabiado, Lambert perguntou ao irmão mais velho, líder dos ladrões.

— É o que pretendo averiguar...

Ao afastar as melenas da face do nobre, retesou de pavor, bem como o irmão mais novo. Do lado esquerdo da branca fronte do rapaz um ferimento profundo, do qual afluía um grosso filete de sangue escuro.

— Infernos, demônios, com mil diabos!!! – praguejou Joffrey, balançando os braços com vigor.

— E-ele... está morto, não está?!...

— Maldito sejas, pedaço de asno! – vociferou, dirigindo-se ao irmão – EU AVISEI para que não avançasses para ele!!!

— M-mas eu não... e-eu não... – o bandido menor tremia-se todo.

O chefe do bando continuou maldizendo a sorte, estalando a língua de raiva.

— É bem capaz de estar morto. Vê, o infeliz bateu a cabeça nesta pedra – abaixou-se e mostrou a pequena rocha, lisa e quase redonda.

— Que azar...

— Azar é ter TU como irmão! Vê o que fizeste. Nosso “baú do tesouro” agora, se não está morto, é capaz de estar inutilizado para todo o sempre – disse Joffrey, agastado.

— É, mas se tivesses me ouvido, não terias deixado Gaston responsável por ele! Se o garoto fugiu, foi por culpa daquele bávaro miserável!

— Eu sei – ciciou, consciente de que se enganara com “o seu braço direito”, que pusera tudo a perder. Tudo, TUDO! Quando teriam novamente uma oportunidade de ouro como aquela? Improvável! Ah, mas Gaston seria punido... exemplarmente punido!

Pôs a mão sobre o rosto do jovem; arregalou os olhos, estupefato.

— Ele está VIVO!

— Vivo? Tens a certeza? – Lambert ficou boquiaberto.

— Sim, ele respira...

Os dois se viram sem saber o que fazer. Se por um lado fora constatado que o refém ainda vivia, por outro não sabiam se poderiam esperar que acordasse novamente após um choque daqueles. E caso isso acontecesse, por milagre divino... em quanto tempo seria?

— Que achas, Joffrey? Matamos ele de vez e o deixamos aqui ou… se bem que antes… eu… — Lambert esfregava as mãos, antecipando a possibilidade de possuir o rapaz moribundo. Com mil demônios, não seria a primeira vez que o faria! Achava que aquilo tinha até uma graça especial...

— Claro que não. Há sempre a chance de que seja menos sério do que parece. Pode ser que ele volte a si em algumas horas. Wilhelme é mais experiente nesses aspectos, saberá nos orientar melhor. Vamos levá-lo conosco.

Dito isto, o chefe dos ladrões abaixou-se e tomou o nobre inconsciente nos braços.

— Vamos contornar pelo rio e voltar para a gruta. Será custoso ascender essa ladeira carregando o garoto, ele é grande.

O outro concordou, e ambos retornaram ao esconderijo, levando no processo quase quarenta minutos. O velho Wilhelme e o ibérico Ramon respiraram aliviados ao ver que os comparsas voltavam, e trazendo com eles o fugitivo, fora de ação. Ao ver de perto o estado do ruivo, contudo, se horrorizaram.

— Maldição! Não me digas que o desgraçado morreu? Vós o matastes?!? – grunhiu o germânico.

— Não sejas tolo, por que iríamos eliminar aquela que seria nossa fonte de riquezas sem fim? – respondeu o líder ríspidamente, enquanto depositava o jovem desmaiado no chão – Ocorre que durante a fuga ele caiu do alto de um barranco e, para nosso infortúnio, bateu a cabeça em uma pedra.

— Isso parece sério – o ancião coçou a barba grisalha levemente amarelada.

— Será que ele não acorda...? – questionou Ramon, já experimentando a decepção por ver frustrados seus planos de enriquecimento.

Consideraram o rapaz ferido; sobre o solo gramado, com a túnica amarfanhada suja de terra e musgo, o rosto lívido igualmente sujo, o espesso sangue a empapar-lhe parte da franja, não parecia em nada o imponente aristocrata com o qual se depararam no lago. Tomá-lo-iam por um desventurado indigente, e não por um nobre de estirpe, como certamente deveria ser.

— Que achas, velho Wilhelme? Há chances de ele sobreviver de modo a que o utilizemos ainda para pedir o resgate?

Silenciosamente, o germânico ajoelhou-se perto de Camus e pôs-se a examiná-lo. Afastando os cabelos vermelhos da fronte, considerou o ferimento: sangrava pouco, e o que saía era um medonho sangue escuro, não o saudável vermelho vivo (1). A palidez excessiva do ruivo não lhe causou boa impressão. Notou que respirava fracamente. Com os dedos ossudos, entreabriu as pálpebras de um dos olhos do nobre; franziu o cenho ao ver a pupila dilatada, a falta de reação ocular.

Ergueu a cabeça para os companheiros, com expressão de desalento.

— Não há a menor chance de ele sobreviver. Nem sei como não morreu logo. Mas ESTÁ MORRENDO, com certeza. Questão de horas, ou talvez... de minutos – sentenciou, sombrio.

*************

“Eis o maldito lago!”, pensou Milo, apeando do déstrier negro. Olhou ao redor, comprovando que era mesmo o referido lugar. O sol começava a se pôr. O conde distinguiu algo branco a contrastar com a vegetação do solo, já úmida pela brusca queda de temperatura. Havia de estar perto das 18 horas.

Caminhou até descobrir que tratava-se de um pano...

Um lenço de seda marroquina. O qual reconheceu:

“Eu dei este lenço a Camus”, lembrou-se, presa de forte inquietação. Voltou a observar o lago. Correu para a faixa de terra que o margeava. Suprimiu uma exclamação ao desvendar algumas pegadas. Seguiu-as, prestando atenção em seus padrões. Eram recentes, pois que a terra macia ainda conservava os sulcos, mais profundos em algumas partes do que outras.

Muitas.

Certamente mais de três pessoas. Quem sabe... os cinco... ou... deteve-se ante um desnível mais longo e pronunciado. Como se alguém tivesse sido arrastado, e não apenas pisado ali.

Arrastado... levado à força.

As pegadas tornaram-se mais uniformes... notou que a escura terra que grudara em seus calçados mostrava, na relva, a direção tomada. Uma pequena elevação, conduzindo a uma clareira. Milo esforçava-se por se lembrar dos dias em que explorara aquela área com seu pai e seu irmão. Uma região cerrada, propícia a que se escondessem, contudo, justamente por isso, não muito amistosa.

“Os malditos são forasteiros. Não conhecem esta floresta. Não poderiam avançar pela mata a uma hora destas. Na certa, já se encontram acampados para passarem em segurança a noite que se aproxima.”, raciocinava, seguindo com destreza os rastros, guerreiro experiente que era. Após definir-lhes a direção, voltou a montar Theóphile e pôs-se a caminho. Sem acelerar em demasia o trote, estudava minuciosamente a clareira à qual chegara. Viu uma corda amarrada no tronco de uma árvore.

“Marcas das ferraduras”, observou, agradecendo a Deus pelo solo macio, que cuidava de preservar mais visível o rastro que agora sabia, com certeza, ser do bando. A desconfiança de que Camus tivesse caído nas mãos dos bandidos aumentara após ver sinais de luta na margem do lago.

“Com tantas árvores a bloquear-lhes o caminho, só poderiam mesmo ter vindo por esta estreita faixa... agora é ver algum sinal de fumaça, os calhordas já devem ter acendido uma fogueira para espantar os animais e cozer refeições.” Rezando para que a iluminação do crepúsculo ainda favorecesse sua busca, Milo fez o cavalo aumentar a velocidade.

“Deus Todo Poderoso, iluminai meus caminhos, dá-me visão necessária para encontrá-lo! Permiti, sobretudo, que ele volte para MIM!”, clamava fervorosamente, mergulhando no denso coração da floresta.

*************

— Não pode ser! Isso é muito injusto! A boa sorte, então, nos abandonou? – reclamou Ramon, decepcionado.

— Que lástima! Estivemos a ponto de ter um “poderoso” em nossas mãos! – ajuntou Lambert.

— Sim, é lamentável – assentiu o ibérico, ainda mirando Camus sem sentidos – Ainda que ele sobreviva... não haveria jeito de usá-lo como moeda de troca. Como alguém que o tem como “concubina” iria querê-lo nesse estado precário?

— Não foi a sorte que nos abandonou – rosnou o líder – Foi Gaston que a atirou para longe de nós!

E os quatro direcionaram seus olhares sombrios para o bávaro, que, coincidentemente, começava a despertar.

— Sim, a culpa é toda do canalha... – murmurou Ramon, contraindo as negras sobrancelhas.

Joffrey desembainhou a espada, concordando:

— Por certo que é.

— Mano, mano! Deixa que eu...

— Cala-te, Lambert. Crês que acabarei com isto rapidamente?

— Então permitirás que eu também me vingue dele?

Sem responder, o chefe do bando caminhou até o homem que, ajoelhado, juntava forças para levantar. Viu-o pôr a mão na cabeça.

— Aaah... que dor... como dói... o que... Joffrey – tartamudeou, ao ver o enorme comparsa diante de si, com a intimidante arma em punho. Confuso, ora olhava para ela, ora para o semblante muito sério, os pequenos olhos negros anunciando algo terrível...

— Ah... v-vejo que trouxeste o astuto fujão... hehehe... és realmente...

A lâmina que, sem qualquer aviso, afundou-lhe no flanco direito por entre as costelas interrompeu-lhe a fala; um berro inumano se fez ouvir:

— AAAAAHHHHHHRR!!

Com habilidade própria dos que obtinham respeito através do sofrimento alheio, Joffrey não o ferira para matar. Fá-lo-ia experimentar dores atrozes antes de permitir que o bávaro partisse de vez para o inferno. Retirou da carne pulsante a espada sanguinolenta e a introduziu rudemente do outro lado. O bandido gritou:

—IAAAAARRRGH!

Por mais algumas vezes, sem manifestar qualquer piedade e nem mesmo satisfação ou alegria, Joffrey estocou aquele corpo convulso. Os berros ecoavam pelos ares.

— Eu faria isto por toda a noite. Mas devo deixar um pouco de ti para meu irmão também, de quem tripudiastes levianamente.

O bandido mais novo pulou de alegria.

— N-não... e-eu suplico... em no-nome de Deus... mise... misericórdia, Jo...ffrey – expeliu uma cascata de sangue pela boca trêmula.

— Eu vou varar a masculinidade dele, para que ele saiba quem é o “amulherado fresco” aqui – riu Lambert, tomando a espada que o irmão lhe entregava.

Ao ouvir aquilo, o bávaro pôs-se a gritar a plenos pulmões:

— NÃÃÃÃÃOOO!!! NÃÃÃÃÃÃOOO!!! PIEDAAAADEEEE!!! NÃÃÃÃÃÃOOO!!!

Estrebuchava enlouquecidamente, sangrando por toda parte, e daquilo o irmão mais novo do chefe apenas ria mais, aproximando-se devagar, a fim de semear no condenado genuíno pavor.

Os berros suplicantes alcançaram os ouvidos sensíveis de Milo, que imediatamente fez o cavalo parar. Seu coração gelou-se à constatação de que alguém GRITAVA.

GRITAVA MUITO.

“Não é Camus, não é, não é!!!” dizia obsessivamente para si mesmo, apeando do corcel. Ficou apenas a escutar os gritos horrendos, tenebrosos; dir-se-ia que ouvia sons oriundos do próprio inferno.

— Théophile, espera por mim aqui, com certeza são eles. Devo ir sozinho agora – falou ao cavalo, certo de que era compreendido... e muito provavelmente o fosse de fato, pois o animal permaneceu imóvel, observando o cavaleiro se afastar, seguindo na direção dos angustiosos berros.

— Cristo, nem eu teria coragem de fazer isso... – comentou Ramon, fazendo uma careta ante a cena dantesca diante de si; Lambert cumprira a promessa e enfiara a lâmina certeiramente na virilha do ex-companheiro de crimes, que agora urrava, ensandecido, por sobre uma enorme poça de sangue.

— Joffrey, penso que seja melhor liquidá-lo de uma vez por todas. Está a fazer muito barulho.

— Tem razão. Lambert, dá cá essa espada!

Satisfeito, o menor obedeceu. Olhou para Camus; fazer alguém sangrar e gritar despertara nele anseios que se juntavam ao desejo que nutria por aquele nobre.

Os gritos de Gaston se reduziram a ganidos bestiais; nenhum ponto vital fora atingido, deixariam-no sofrer de morte lenta e dolorosa. O abundante sangue na garganta impedia-lhe de berrar.

Mas o barulho que emitia ainda era suficiente para que Milo prosseguisse, sorrateiro; os grunhidos ecoavam no silêncio da mata.

E foi então que ele viu subir ao céu a fumaça...

— Acaba logo com isso, não quero ter que comer o guisado que preparo ouvindo esses horríveis lamentos – sugeriu Wilhelme, menos por piedade do que por praticidade.

Assentindo, o chefe do grupo cravou a espada bem no coração daquele a quem chegou a considerar seu mais eficiente homem. Após arquejar por mais uns segundos, Gaston parou de se mover.

— Bom, resolvida a questão... onde iremos enterrá-lo? – quis saber Ramon.

— Isso pode esperar. Descansemos um pouco, façamos a refeição. Como enterraremos dois corpos, será demorado. Por isso, melhor fazer isso quando estiver mais escuro.

— Dois corpos? Como assim, Joffrey? – estranhou Lambert.

O líder considerou seus comparsas, gravemente. Apontou o nobre inconsciente com a espada e explicou:

— Vamos matar o garoto.

— QUÊ? – fizeram Ramon e Lambert, em uníssono. O germânico, porém, assentiu em concordância. Cruzou os braços e ajuntou:

— Ele está mais morto que vivo. Caiu de um barranco e bateu com a cabeça em uma pedra, vós dissestes. Olhai para ele. Já tem cor de defunto. Se não morre de uma vez, pode levar bastante tempo até que volte a si. E ainda que o faça, o que duvido...

— Não podemos ficar aqui esperando por isso, tampouco transportá-lo conosco desse jeito. Vai nos dificultar a viagem. Não vos esqueçais de que fizemos alguns ganhos nesta terra e não é de todo improvável que nos procurem.

As palavras de Joffrey fizeram o irmão e o ibérico se entreolharem.

— Concordo contigo, chefe – falou Ramon – Além de tudo, assim que tiver passado muito tempo, o nobre será dado como desaparecido. E irão procurar por ele.

— E é aí que reside o perigo – reforçou Wilhelme – Estamos falando de membros da aristocracia nos caçando; cães farejadores, falcões, cavaleiros com bestas...

Tudo tingia-se de tons plúmbeos e azulados. O sol se fora. Grilos, sapos, rãs, iniciavam a orquestra que findava o período vespertino.

— Não olhemos para trás. Muito perdemos por conta de Gaston. Entretanto, não vos esqueceis das jóias do garoto – como um líder que se prezasse, tentava animar seus homens – Ele não exagerava quando disse que apenas elas nos garantirão fartura até o fim de nossos dias.

— Tens toda razão, Joffrey – anuíram Ramon e Wilhelme, forçosamente conformados.

— Espera, irmão.

— Que queres agora, Lambert?

Este ficou a torcer as mãos; pôs-se próximo a Camus, contemplando-o cobiçoso, antes de pedir:

— Já que o nobre será mesmo morto... permite que eu o possua antes de tirares a vida dele.

Um frêmito de surpresa passou por todos, não pelo ato em si – conforme o próprio Lambert rememorara antes, tal ato hediondo não era inédito para eles – e sim por se tratar a vítima almejada de um varão.

— És um caso perdido mesmo, não? – recriminou o chefe, suspirando desanimado.

— Não faço segredo de que agrado-me de rapazotes bonitos como ele, vós vos escandalizais porque não sabeis como é deleitoso enfiar vossos...

Erguendo a mão, Joffrey rosnou:

— Desnecessário é que nos fale acerca de teus gostos bestiais. Mas de fato, ele morrerá de qualquer maneira, portanto... faz dele o que quiseres.

Lambert mal pôde acreditar. Batia palmas de excitação.

— Afinal, por mais doentio que sejas, tens me servido melhor do que aquele maldito do Gaston, que arruinou nossas chances de ter um nobre aos nossos pés eternamente. Sirva-te dele, mas poupa-nos de ouvir teus abjetos alaridos – falou o líder, afastando-se, rumo à frente da gruta. Ali, em uma fogueira, fumegava no caldeirão a refeição preparada com a caça trazida por Ramon e Wilhelme.

Este último ficou a observar Camus, que tinha a túnica erguida pelo bandido.

— Não vens, velho? O guisado que preparas há de estar pronto. Deixa esse degenerado aí...

— Podes ir na frente, Ramon, eu ficarei... mais um pouco...

— Tsc, não vais me dizer que tu também...? – o barbudo encarou o ancião com indisfarçável reprovação.

— Bom, eu... eu já experimentei a sensação de entrar em menininhos... faz muito tempo...é deveras agradável, se queres saber...

— Não, não quero – o ibérico deu de ombros, desdenhoso.

— Wilhelme está certo, Ramon, tu que perdes por não experimentares! É bem melhor que possuir mulheres, asseguro-te, embora eu não as dispense também, principalmente se forem pequeninas como as miúdas de ontem – Lambert deixou os dentes podres à mostra naquele riso torvo. Ergueu mais a roupa de Camus, deixando-lhe o sexo à mostra. Wilhelme lambeu os lábios ressequidos e murchos.

— Quando terás novamente a chance de ter uma preciosidade como esta diante de ti? – questionou Lambert, virando o jovem de bruços.

— Oras, fodei logo com esse morto-vivo e deixai-me em paz – rebateu, irritado, e saiu; para ele, nada aplacava a decepção de não poder mais efetuar “o negócio” que os deixaria ricos.

O germânico e o irmão do chefe ficaram a dar risinhos um para o outro, antegozando a violação do nobre.

— Olha isso, velho Wilhelme, olha essa pele, olha essas carnes... – admirava-se Lambert, abaixando as calças puídas. Começou a se masturbar, fitando cada parte do corpo vulnerável no chão.

— Hehehehe, mal posso esperar, não te demores muito, peço-te.

— Unng... estás louco? V-vou aproveitar cada... pedacinho desse... oh...

Sequer se importava de o outro estar testemunhando, afinal, era de praxe que cometessem semelhantes violências simultaneamente.

— Se me permites – o germânico tencionou fazer como o comparsa — vou me preparando também, hehehe...

— Huung... faz como te... oh, melhor eu... ir logo...

Abaixou-se, sentindo a exigente pressão no membro enquanto tocou as níveas nádegas de Camus com suas mãos calejadas e sujas. Tencionava afastá-las e, localizada a entrada rósea, arremeter-se de vez...

Isso ficou apenas na imaginação que durou meros átimos de segundos na existência terrena.

Se sentiu algo, jamais saberiam. Pois que, tal qual o portentoso Anjo da Morte, ele surgiu de trás de Lambert, e em um vigoroso golpe de sua pesada espada de cruzado, atingiu certeiramente o pescoço do bandido; a cabeça do malfeitor desprendeu-se do corpo ajoelhado.

O que não pôde fazer, Wilhelme fez por ele: gritou como jamais gritara. E jamais gritaria novamente.

— O QUE ESTÁ ACONTECENDO? – Joffrey e Ramon ergueram-se imediatamente.

— AAAAAAHHHHRRR...

— LAMBERT! – o irmão mais velho tomou de sua espada e correu para onde deixara tudo que restara de sua família, sendo seguido pelo ibérico, que empunhava um grande sabre.

Pararam, aterrorizados com o que parecia ser resquício de algum pesadelo; um homem alto, de longos cabelos anelados dourados como o ouro, retirava de dentro do peito de Wilhelme uma imensa espada tingida de escarlate. Eles prontamente reconheceram AQUELA espada.

Era própria dos guerreiros cruzados.

Um cavaleiro!...

Viram-no olhar para o jovem inconsciente no chão e juraram que labaredas crepitaram em seus olhos turquesas.

— MEU IRMÃO! ONDE... MEU DEUS!!!... – gritou Joffrey, vendo o guerreiro pegar pelos cabelos a cabeça de Lambert. Brandiu-a em sua direção, sem nada proferir.

— MEU IRMÃÃÃÃO!!! LAMBEEERT!!! – e investiu contra Milo, tomado de fúria demoníaca – MALDITOOO!!!

O conde atirou-lhe a cabeça de Lambert, ao que o chefe dos ladrões desviou, horrorizado. Mas prontamente Joffrey aprumou-se, direcionando sua lâmina contra o peito do recém-chegado. Encontrou a barreira do aço, sendo repelida com facilidade; a espada de Joffrey caiu longe dele. Virou-se para Ramon, estendendo a mão:

—TEU SABRE! DÁ-ME TEU SABRE!!! – ordenou, saltando para trás. Amedrontado, o ibérico entregou-lhe a arma espanhola. Joffrey preparou-se para atacar novamente o homem, que agora mantinha-se misteriosamente imóvel.

Não que fosse do conhecimento de corja como eles. Mas um verdadeiro guerreiro apenas lutava com adversários que tivessem uma arma nas mãos.

— Hás de pagar, amaldiçoado!!! TIRASTE A VIDA DE MEU IRMÃO! – vociferou, lançando-se contra Milo, que desviou sem qualquer dificuldade. E foi naquele volteio que o nobre posicionou-se ao lado do ladrão; no segundo seguinte enterrava sua lâmina na garganta do bandido, que apenas pôde emitir um ruído abafado... mais parecia um balido de ovelha.

Caiu ao chão, vivo ainda, o sangue a esguichar do pescoço aberto. Pisando o criminoso no peito, Milo, segurando a bainha com ambas mãos, fez a lâmina atravessar o crânio de Joffrey, por entre os olhos negros muito abertos.

Ouviu o som de folhas e gravetos sendo pisados; o quarto bandido lançara-se em fuga.

O loiro disparou atrás dele; não lutar com alguém desarmado era uma coisa. Não lutar com um covarde que OUSARA FERIR SEU CAMUS, e além disso, fugia da batalha era outra!

— Aaah... aargh... aaah... va-valhei-me, ó Deus!!! – suplicava Ramon, correndo desajeitadamente, tanto que suas pernas tremiam; por elas escorria urina quente.

Tropeçou nas raízes de uma árvore centenária; apavorado que estava, não tinha mais qualquer coordenação. Antes que se reerguesse, Milo cortou-lhe a cabeça com ferocidade digna dos campos de guerra.

O sangue espalhava-se pelas folhas que balouçavam suavemente ao sabor da brisa. O único de pé agora era o guerreiro, o sangue de suas vítimas a macular suas vestes. Até em sua face direita residia uma nódoa. Então, tomado de pavor, o conde correu para onde estava o que mais lhe importava na vida.

— CAMUS!!! – chamou-o, sem saber que o esposo de modo algum podia ouvi-lo.

Viu o velho germânico se mover ainda sobre a relva agora vermelha; perto dali um outro bandido, aparentemente morto. Afundou sua espada novamente em Wilhelme, bem na base do pescoço. E, para garantir, fez o mesmo com Gaston, no mesmo local.

Respirando pesadamente, constatou: cinco homens… todos mortos agora.

— Camus, responde-me! Camus!! – elevou a voz e dirigiu-se para ele. Viu-o de bruços, a túnica levantada até suas nádegas, seus braços para trás, os pulsos restritos por apertadas cordas.

Deteve-se, processando enfim DO QUE REALMENTE salvara o marido. Todas as fibras de seu ser fremiram de ardente ira. A espada chegou a cair de sua mão.

— Malditos... porcos... PORCOS INFAMES – grunhiu, entre dentes.

Será que... que haviam logrado o odioso intento...?

— Camus!... – chamou novamente, abaixando-se e virando o jovem desfeito para cima – Camus, pode me ouv...

Segurando-o, pôde enfim entender por que Camus NÃO o respondia.

— OH, DEUS... DEUS, NÃO – bradou, o peito congelando; ele estava FERIDO… ferido…

— Senhor Deus! Camus... CAMUS – repetia, maquinalmente, amparando o marido, pelo tronco e pela nuca.

Nenhuma reação.

Temendo mais que temeria a própria morte, chegou seu rosto muito perto dos lábios descorados e entreabertos do amado; respirava! Oh, ele respirava!

Tinha que tirá-lo dali o quanto antes.

O mais importante agora era aquele ferimento na cabeça.

— Camus, eu vim te buscar, meu amor – murmurou, com voz embargada, ainda na esperança de ouvir-lhe a voz.

Não podia pensar... não podia pensar em sua intimidade exposta. Em seu profundo ferimento do lado esquerdo da fronte. No livor de sua pele. No estado de seu corpo, de suas roupas.

Com um pequeno punhal que trazia consigo, Milo cortou as amarras que uniam os pulsos magoados do esposo.

“Suas roupas... onde...? Não há tempo...” olhou em torno; viu a gruta onde estavam os pertences dos bandidos. Pegou uma manta, repleto de repulsa. Envolveu nela Camus, certo de que, embora fosse deveras desagradável que seu amado fosse envolto por qualquer peça pertencente àqueles abomináveis, fazia-se necessário mantê-lo aquecido... e disfarçada a ausência de formas femininas. Cobriu-o até o queixo. Devidamente protegido, ergueu-o do chão e carregou-o apressadamente até onde deixara Théophile. Tudo à sua volta era banhado pelas matizes cerúleas que precediam as trevas da noite.

Segurando firmemente o jovem desmaiado, conseguiu subir até a sela, e, ajeitando o ruivo de forma a ficar bem junto a ele, amparado e protegido, Milo instigou o cavalo a disparar pela floresta:

— HÁÁÁÁÁ!!! PARA O CASTELO!!!

Atravessando as cerradas trilhas, o cavaleiro segurava as rédeas de forma a nunca deixar de amparar sua preciosa carga.

O seu bem mais precioso.

— Camus, tudo ficará bem, asseguro-te! Em nome de Deus, tudo ficará bem contigo – o loiro ia falando, segurando com valentia um pranto que já lhe ardia na garganta.

Em uma velocidade espantosa, o estupendo déstrier negro corria agora pelas planícies que precediam os bosques; Milo resolvera tomar um caminho que não passaria pela aldeia dos camponeses, chegando pela ala sudoeste da fortificação. O vento cortante fustigava seu rosto transtornado pelo medo.

O medo de perder Camus.

De quando em quando, conseguia abaixar o olhar aflito para o sujo, ferido, e ainda assim, belo semblante que emergia do cobertor fétido.

“Camus! Não me deixes, meu amor, não me deixes! Misericordioso Deus que estais assentado no Trono Celestial, Senhor de toda a Terra, rogo-vos... não o leveis de mim, NÃO O LEVEIS DE MIM...”

— NÃO O LEVEIS DE MIM!!! – bradou, elevando sua súplica desesperada aos céus escuros.

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Notas finais
Ah, agora posso falar... a Yumi Bartinik previu este capítulo em seu comentário anterior: "Cadê Milo que não aparece com a espada na mão cortando cabeças?" xD Bem, Camus está salvo dos malfeitores, graças a seu anjo salvador, o conde Milo d'Auvergne... mas estará ele A SALVO? É o que veremos no próximo capítulo. Até lá! E obrigada por prestigiarem o/