Dame Jolie

45 "Serás a nossa ruína"


Notas iniciais
Boa noite, queridos e queridas! Para compensar longos meses de espera, mais uma atualização rapidinha... não há esclarecimentos nas notas finais, apenas aviso de LEMON Boa leitura!

Levou cerca de oito horas para que Afrodite emergisse das terras escuras da inconsciência. Não que disto o nobre fosse ter ciência. Apenas assolou-o, de imediato, a percepção de que muito tempo se passara. De que Shura já estivesse longe. Levantou-se do chão arenoso, ainda sob excruciantes dores. Viu que tinha os pés acorrentados. Aturdido, verificou onde se encontrava; uma pequena cela de paredes rochosas, o teto tão baixo que quase não podia ficar ereto. Barras de ferro separavam o cativeiro de uma escada estreita e alta, mal iluminada por escassas tochas. Essa era toda iluminação de que dispunha, e somente graças a ela pôde distinguir no canto da cela uma jarra de cerâmica e um prato de comida.

Aproximou-se da grade, a ela agarrando-se para berrar a plenos pulmões:

— Tirai-me daqui, suplico-vos! O senhor Milo corre perigo! É preciso que vinde libertar-me!

Seus apelos ecoaram na masmorra. Gritou ainda mais alto:

—Tirai-me daqui! Precisamos deter Shura! Em nome de todos os santos, libertai-me! Preciso avisar o Conde! Alguém!!! Em nome de Deus!!!

Os ecos reverberaram de tal forma que sua cabeça doeu. Ele esperou, esperou e esperou... até que veio-lhe a terrível constatação de que vãs haviam sido suas tentativas.

Ajoelhou-se, ainda agarrado às barras de ferro. Lágrimas vieram aos seus olhos esgazeados.

— Por favor... – Murmurou. – Milo... Camus... perdoai-me...

Chorou copiosamente na penumbra solitária de onde impossível seria a escapatória. Amaldiçoava a si próprio, em um doloroso autojulgamento:

“Será minha culpa… serei responsável pela desgraça deles... oh, meu Deus, o que foi que eu fiz?”

Pôs-se a berrar novamente, no afã de que alguém, ao menos, abrisse a porta no topo da escada para escutar o que ele tinha a dizer! Entretanto, o silêncio continuou sendo sua resposta.

“Estarão irremediavelmente perdidos... Shura denunciá-los-á à Igreja... oh, Shura, Shura, pensar que te amei... tu serás a nossa ruína...”

*************

A tempestade assolava a terra com fúria desmedida. As árvores pareciam prestes a ser arrancadas pelo vento, e dos céus tingidos de chumbo pesada chuva precipitava-se sem trégua. Através das nuvens cinzentas, como que serpentes de luz os raios cruzavam o firmamento, por vezes escolhendo descer à terra sacudida pela tormenta. Trovões ribombavam terrivelmente, triunfando sobre o som contínuo das águas incansáveis.

Ninguém que estivesse viajando pelas estradas prosseguiria em tais condições, de sorte que o cocheiro da carruagem que enfrentava aquele mau tempo uma vez mais gritou – não por destempero, mas por se fazer ser ouvido no temporal:

— Mestre Shura! Melhor seria que parássemos até essa tempestade passar! Não é seguro seguir viagem desse jeito, meu senhor!

O marquês de Aguilar meteu a cabeça à janela, sem se importar de se encharcar. Respondeu, igualmente aos gritos:

— É imperioso que cheguemos a Saint-Doulchard o mais rápido possível! Nada temas, Deus é conosco. Segue, pois, adiante!

Contrariado, o cocheiro serviu-se do barulho dos trovões para praguejar. Fustigou ainda mais os cavalos. Restava rezar para que chegassem inteiros ao destino, uma vez que desobedecer o nobre não era uma opção.

Shura pegou um lenço para enxugar-se. Mirou os céus caóticos através da janela, agora com os vidros cerrados, por sobre os quais tal qual cascata vertia a chuva. Não, nem mesmo aquela tempestade poderia detê-lo, não quando tanto estava em jogo! Manter-se-ia firme em seus objetivos, e a eles lançar-se-ia sem demora, ainda que os céus viessem abaixo!

“Primeiro, preciso atrair Camille até mim. Tirar a prova de que realmente não é quem diz ser... quem todos acreditam que seja”, raciocinava engendrando um plano.

Recostou-se ao macio assento, finalmente permitindo-se cerrar os olhos. Deixara Paris em um estado de tensão que poderia enfraquecer um homem comum.

Contudo, a urgência de sua missão dissipava maior mal estar; teria de ser forte, caso o PIOR fosse necessário.

Denunciar seu próprio amigo... com quem lutara tantas batalhas em nome da Igreja... com quem vivera tantos momentos gloriosos... a quem queria como um irmão!

Cerrou os punhos, angustiado.

Abriu os olhos e voltou a olhar o céu em fúria, uma fúria que parecia corresponder à sua.

“Três dias neste ritmo e terei todas respostas necessárias para guiarem minhas ações”, pensou, determinado.

*************

De uma das varandas do Castelo de Saint-Doulchard, Camus contemplava a chuva. Milo chegou por trás dele, abraçando-o.

— Em que tanto pensas? – Indagou o loiro.

— Na verdade, estava tão absorto que nada povoava minha mente, exceto a impressão de que essa chuva é bem atípica para esta época.

— Tens razão. Parece mais um aguaceiro de verão, a não ser por sua durabilidade.

— Sim. Chove sem parar desde a madrugada. E pensar que ontem o dia estava tão diferente...

Milo depositou um beijo terno na fronte do esposo antes de dizer:

— Assim são as coisas, tudo pode mudar de uma hora para outra.

— Não me apraz tua filosofia. Parece de mau agouro.

O conde deu uma risadinha curta e cingiu-lhe a cintura.

— Perdoa-me, não foi minha intenção. Entretanto... saibas que existe algo no mundo que nunca, nunca há de mudar.

Camus já previa-lhe a conclusão, porém sorriu fingindo inocência.

— Deveras? O que haveria de ser?

O loiro virou-o para si, a fim de que ficassem um de frente para o outro. Respondeu:

— O meu amor por ti.

— Não é a única coisa que jamais mudará no mundo, meu marido: pois que também existe o MEU amor por ti.

— Então tornemo-lo em uma só coisa: o NOSSO amor. – Volveu o loiro, os olhos faiscantes de paixão.

Camus achou-o extraordinariamente belo e não resistiu a beijá-lo nos lábios, no que foi prontamente correspondido.

— Milo... – Sussurrou-lhe o ruivo, inebriado. – Quero-te agora...

— Vem, anjo meu, partamos para o nosso quarto, pois que ardo de desejo...

Ao contrário do que poderia se supor, Milo não ficou nem um pouco contrafeito pelo fato de aquele temporal adiar seus compromissos. Encerrou-se nos aposentos senhoris com seu consorte e lá ficaram durante todo o resto do dia...

*************

“Eis Saint-Doulchard”, constatou Shura, três dias depois, ao ver os altos muros da entrada da cidade. Ao fundo, as montanhas e a visão do enorme castelo do alto. Avistou a hospedaria de que se lembrava, bem nos limites. Um lugar perfeito para desfiar seu plano.

Mandou que o cocheiro parasse. Este obedeceu, sem deixar de estranhar que seu mestre preferisse parar naquele humilde estabelecimento ao invés de seguir rumo ao suntuoso castelo de Saint-Doulchard. Ah, decerto almejava um pouco de distração com uma companhia feminina, antes de ir para suas obrigações...

Mesmo distante de maiores concentrações, Shura cobriu-se com o capuz de seu manto negro. Deixou o veículo e entrou na hospedaria. Pediu um quarto. Concordou com o oferecimento de uma refeição, embora não tivesse fome alguma. Contentou-se com uma caneca de vinho e um pão de centeio com filetes de ganso assado. Satisfeito, rumou para o quarto alugado, no segundo pavimento.

Pela lógica, deveria descansar um pouco da longa viagem. A urgência de sua missão, contudo, exigia que agisse o quanto antes. Tirou de sua algibeira uma das páginas dos diários de Afrodite. Munindo-se de tinta, pena e papel, sentou-se à pequena mesa de madeira do recinto e pôs-se a treinar... a letra de Afrodite. Possuía caligrafia esmerada e habilidade para fazê-lo, acreditava. Bastava que treinasse um pouco...

Cerca de duas horas depois, pensou ter atingido o ponto esperado. Seria impossível a qualquer um, mesmo que conhecesse a fundo a grafia do sueco, encontrar diferenças entre as letras que Shura tracejava e as originais.

Poderia até mesmo enganar Camille de Turenne.

Redigiu, pois, a missiva pretendida, e selou-a, escrevendo por fora com a grafia falsificada:

“Aos cuidados da excelentíssima Condessa de Saint-Doulchard

De seu fiel criado, Afrodite”

Certo do sucesso esperado, espreguiçou-se, satisfeito.

Agora sim, poderia repousar.

Era uma quinta-feira, e os dias em que o mensageiro subia ao castelo eram terças e sextas-feiras. Mandaria que o cocheiro mantivesse guarda, desde o raiar do dia, no caminho, para interceptá-lo, e entregar-lhe duas cartas – uma sua, para Milo, como disfarce. – com algumas moedas de prata em troca de sua discrição.

Estreitou os olhos, notando que sua excitação anulava qualquer sono ou cansaço que naturalmente deveria estar se manifestando.

Ajoelhou-se no assoalho para rezar.

Manteve-se em contrição até que o sono o vencesse, e, com efeito, isso não aconteceu antes do pôr do sol.

*************

No dia seguinte, os Condes de Saint-Doulchard faziam a refeição matinal, quando a chegada do mensageiro foi anunciada. Dele, Milo recebeu a correspondência; em seguida, ofereceu-lhe algumas moedas de prata. Após várias mesuras agradecidas, o mensageiro retirou-se.

— Oh, cá vejo uma carta de Shura para mim, e uma carta de Afrodite para ti. – Estendeu-a a Camus.

— Já não era sem tempo. Afrodite tem se mostrado assaz negligente nesse quesito.

— Shura sempre me diz nas cartas que ele ocupa-se por demais na Universidade, talvez seja por isso.

— Vou dizer-lhe que tu estás defendendo-o – Brincou o ruivo, rompendo o selo da missiva.

— Nem uma palavra sobre isso! O insolente há de ficar ainda mais insolente se souber que... ei, eu não estava defendendo-o!

Camus ainda sorria quando desdobrou o papel. Tornou:

— Estavas sim. Ele ficará muito...

Cessou seus dizeres ao encontrar uma caligrafia totalmente diferente da do amigo e o início da mensagem:

“Vosso segredo foi descoberto por este que vos escreve, Shura de Aguilar.”

Não estivesse Milo ocupado abrindo sua própria carta, teria percebido o súbito empalidecer do marido. Camus sentiu como se uma lança varasse-lhe o peito. Olhou rapidamente para o esposo, que já estava a ler a missiva enviada pelo amigo. Esforçou-se por manter o ar natural enquanto lia:

“Ocultai vossa identidade e vinde só, até a Hospedaria Crisântemo Azul, ao lado sul da Abadia de Saint-Père. Fica quase na saída da cidade. Obedecei-me com presteza e vosso segredo permanecerá seguro. Contai a Milo sobre esta mensagem e ambos sereis denunciados às autoridades pessoalmente por este que vos escreve.”

Desde a infância, Camus dominava a arte de dissimular suas emoções. Não obstante, jamais sentira tamanha dificuldade de fazê-lo quanto naquele momento. O ar faltou-lhe aos pulmões e ele tomou um pouco de vinho para tentar desfazer o nó que já se lhe formara na garganta.

— Hum. Shura fechou interessantes acordos em Paris. Queres ouvir?

— Sim, quero sim. – O ruivo seguiu disfarçando seu pânico o melhor que pôde.

Não ouviu nenhuma das palavras proferidas pelo consorte. Só tinha uma mensagem e uma ordem na mente:

“Vosso segredo foi descoberto por este que vos escreve, Shura de Aguilar”

“Ocultai vossa identidade e vinde só, até a Hospedaria Crisântemo Azul...”

Sentia as mãos transpirarem. Ele, que tão poucas vezes rezava, rogou a Deus que não pusesse uma gota sequer daquele suor em seu rosto. Passou a língua pelos lábios. Mordeu-os, nervosamente. Vinho. Devia ocupar-se com o vinho; sorveu mais demoradamente a bebida.

— ... não será ótimo? – Ouviu a voz de Milo como se viesse de um sonho que termina ao despertar. Apressou-se em responder:

— Será maravilhoso. Não há ninguém como Shura para fechar negócios, salvo tu, meu marido.

— E Afrodite, que diz ele? Está tudo bem?

Camus estremeceu. Teve medo que Milo quisesse vê-la. Mas era SUA carta, o esposo respeitava-lhe a privacidade. Não tinha o que temer. Lutou para aparentar a serenidade usual:

— Oh, sim. Não me conta nada além de seus feitos na Universidade de Paris. Mostra-se bastante entusiasmado.

— Alegro-me em ouvir isso. Quero um médico dedicado para dirigir o Hospital de Saint-Doulchard, o mais dedicado deles!

— Então hás de te satisfazer com ele, pois que já se expressa como um verdadeiro especialista.

— Bom, bom, muito bom.

O conde voltou a ocupar-se das demais cartas.

— Milo... quais são teu planos para hoje?

— Devo ir com alguns técnicos até os alto-fornos. Tencionamos instalar mais alguns, até o inverno... por que perguntas?

— Eu gostaria de ir até a cidade fazer algumas compras.

Milo virou-se para ele, surpreso.

— Não poderias esperar até amanhã? Iríamos juntos.

Camus dirigiu-lhe um sorriso enigmático.

— Além de compras, gostaria de adquirir uma surpresa... para ti. Se vieres comigo, não será mais surpresa.

O conde fitou-o, desconfiado. Camus NUNCA manifestava desejo de ir à cidade, tanto mais desacompanhado.

— Que bicho te mordeu? Nunca te interessas por incursões do gênero. Já sei. É algo que Afrodite te disse nessa carta que seguras.

Instintivamente Camus dobrou a missiva, simulando neutralidade.

— Talves sim, talvez não. O que quero saber é: tenho tua permissão?

— És completamente livre para fazeres o que bem desejares – Respondeu Milo, levemente ofendido. – Apenas uma coisa exijo: que leves contigo guardas. Cinco homens, pelo menos.

“... vinde só...”

Perturbado, Camus hesitou. Não poderia desvencilhar-se de cinco guardas para entrar na hospedaria. Eles receberiam ordens expressas para não deixar “a condessa” sozinha um instante sequer. Era algo que fora instituído desde o terrível incidente com os fora da lei na floresta. Se Milo não estivesse por perto, um séquito sempre estaria...

— Pensei melhor, isso soa-me deveras impessoal. Aceito tua proposta para esperar até amanhã. – Disse o ruivo, a aflição a corroê-lo por dentro.

— Sabia que poderias ser razoável. Prefiro que seja eu a estar junto a ti, sempre. – Tomou-lhe a mão e a beijou suavemente. – Será, aliás, um divertimento para nós dois, asseguro-o.

— Sim. Foi justamente nisso que acabei de pensar.

Que deveria fazer?

Como poderia livrar-se da presença de Milo e da presença de guardas para ir ter com Shura de Aguilar em segredo?

O tempo corria, célere, e Camus não encontrava uma solução.

*************

Enquanto Milo estava fora, resolvendo a questão dos alto-fornos, o ruivo caminhou pelo castelo, tentando encontrar uma forma de escapar. Olhava em torno, e em todos os recantos, concentrado em buscar uma solução. Ideias, precisava de ideias. Estas poderiam vir com minuciosa observação do que havia em torno... andou andar por andar, cômodo por cômodo, até que parou defronte o laboratório de Afrodite. Adentrou-o. Pelas estantes de potes e frascos deixou passear o olhar atento, que, em seguida, caiu sobre as estantes de livros. Foi até a janela e considerou o exterior... o pátio... do alto, viu algumas crianças brincando no pátio. Corriam e gargalhavam, provavelmente escapando de algum trabalho imposto pelos pais, que eram servos. Observou-lhes as roupas simplórias, em nada diferentes das dos adultos.

Roupas.

Seu olhar pousou em cordas repletas de roupas. Sua atenção foi desviada para uma carroça repleta de feixes de trigo que avançava pelo pavilhão. Os camponeses levavam o trigo para a cozinha, assim como outras carroças iam e viam, ora de camponeses, ora de citadinos. Havia uma certa diferença nas vestes...

Uma ideia começou a se delinear em seu entendimento.

Seria arriscado, mas bem mais fácil do que ir até a cidade escoltado por guardas.

Voltou-se para os livros do laboratório.

Que Deus guiasse seus passos... porque ele já sabia o que fazer.

*************

Naquela noite, Milo poderia jurar que Camus intentava enlouquecê-lo. O ruivo estava desenvolto como nunca, provocativo a ponto de empurrá-lo para a cama e meter-se entre as suas pernas, sorrindo malicioso com um cálice de vinho na mão. Quase não pôde acreditar quando viu o esposo virar a bebida por sobre o seu membro. Chegou a experimentar um frêmito de frio e de surpresa. Então Camus pôs-se de quatro, voluptuosamente, e pôs a lamber o sexo encharcado de vinho. Milo quase urrou de prazer com aquela língua a sorver com luxúria tentadora cada gota da bebida por sobre seu pênis. Quando o ruivo empreendeu a felação propriamente dita, o conde sentiu-se mergulhar num prazer inenarrável. Gemia o nome do amado, sacudido pelas sensações que, em um crescente desvairado, desembocaram num orgasmo alucinado. Com o coração a bater violentamente, puxou o consorte para si; beijou-o longamente, sem se importar com os resquícios de gozo sob os lábios, no queixo. Tencionou fazer o mesmo com Camus, tinha que retribuir-lhe... tomando também de um cálice de vinho, encharcou o membro do ruivo, já plenamente excitado, rijo como pedra. Lutando contra a urgência de abocanhá-lo, Milo lambeu toda a extensão pulsante, sem deixar uma gota sequer, ainda que Camus já estivesse suplicando:

— Milo... por favor... vem possuir-me...

Ignorando seus apelos, Milo passeou sua língua mais uma vez pelo pênis do esposo, até que decidiu abrigá-lo de vez em sua boca. Camus gritou, segurando os cabelos loiros, na verdade, quase puxando-os, em meio ao frenesi. Arqueou o corpo para sentir-se mais dentro de Milo, ansiando pelo momento em que Milo estaria dentro de si. Gozou ao cabo de extasiantes minutos em que julgou perder a sanidade. Sem mais poder suportar, o loiro posicionou-se para penetrá-lo lentamente. Camus agarrou-o com luxúria e desespero, gemendo em sua boca melada de gozo:

— Eu te amo, Milo, eu te amo, eu te amo...

— Eu também te amo, anjo meu... uhn... oh, és tão delicioso...

— Milo, amo-te mais que minha própria vida... és tudo de mais precioso que possuo... aahh!

O conde sorriu, aumentando o ritmo das estocadas, pensando em como o amado estava falante naquela noite. Havia de ser o vinho; percebera que Camus bebera mais do que o normal. Quisera até incluir a bebida em seus jogos amorosos!...

Alcançaram o clímax maravilhosamente juntos, uma sintonia única tocada pelo esplendoroso amor que os unia. Por muito tempos unidos, seus corações como um só, permaneceram até vir sobre eles o doce langor do posfácio.

Camus levantou-se do leito. Foi até o aparador pegar outra garrafa de vinho.

— Em nome de Deus... já bebeste o suficiente por três noites... que há contigo?

— Quero celebrar, tão somente. – Camus tomou de cima de outro aparador dois cálices limpos, ao menos... UM DELES...

Encheu-os com o rubro líquido. Levou uma taça para o marido e conclamou um brinde.

— O que tanto celebras hoje? – Sorridente, o conde quis saber.

— O que sempre deverei celebrar: minha vida contigo.

— Se eu não tivesse visto o quanto bebeste, julgaria que estavas te portando de modo deveras incomum...

Camus riu, forçando o brinde. Brindaram, enfim. E foi com intensa dor a rasgar-lhe a alma que Camus viu o esposo sorver, quase com volúpia, o vinho que lhe servira...

*************

Do leito desfeito, com meio corpo do conde sobre o seu, Camus viu a lua descer no céu estrelado. Acompanhava cada movimento descendente, calculando o avançar da madrugada. Milo ressonava de forma ritmada. O ruivo chamou-o, a princípio baixinho, em seguida um pouco mais alto:

— Milo. Milo, acorda. Pesas como chumbo.

Esperou. Sem obter nenhuma reação, tirou-o de cima de si, empurrando-o com delicadeza para o lado.

Milo continuou dormindo profundamente.

“O remédio fez efeito”, concluiu, olhando o cálice vazio no qual, antes de encher com vinho, aspergira pó de beladona e valeriana, que subtraíra do laboratório de Afrodite. Obviamente, teve o cuidado de checar as anotações do amigo e, de acordo com o que lera, aquela quantidade seria suficiente para fazer Milo dormir um dia inteiro.

Levantou-se com presteza, decidido a não fraquejar. Dirigiu-se ao cômodo anexo. De dentro de um de seus baús, retirou um saco de lona dentro do qual guardara roupas surrupiadas de varais pelo castelo.

Roupas de servos. Por sorte, ninguém vigiava-as. Tivera todo o dia para recolher o que queria, e foi bem sucedido em encontrar algumas secas. Preferiu trajes masculinos a fim de garantir sua segurança no trajeto; era sempre arriscado para “uma mulher” andar sozinha, tanto mais à aurora.

Enrolou várias vezes os longos cabelos em dois coques, um no alto da cabeça e um na nuca. Bem presos, atou-lhes um grande lenço que um dia fora branco e cobriu-os com um grosseiro chapéu de feltro encontrado num estábulo, tudo isso depois de vestir-se com uma túnica marrom ordinária de algodão cru. Mesmo depois de lavada, a roupa parecia suja. Colocou uma calça esgarçada, que, embora um tanto curta, serviu-lhe razoavelmente. Não conseguira arrumar calçados, de modo que resolveu usar botas de Milo. Calçados ricos como aqueles em tão lamentável figura causariam estranheza; enrolou o cano alto com uns trapos que sobraram. Meteu uma capa escura e ainda mal cheirosa por cima do corpo. Mirou-se ao espelho; irreconhecível!

Suspirou com pesar. Voltou para a alcova, para diante do leito onde fora tão feliz... Milo dormiria o resto do dia, se Deus concedesse a graça de ninguém vir importunar o senhor do castelo. Curvou-se sobre ele, beijando-o com delicadeza nos lábios. Não sabia como se despedir.

Seria um “até breve”?

Seria um “adeus”?

Preferiu tão somente dizer:

— Eu te amo.

Munindo-se de toda coragem que possuía, e rezando por mais um pouco, deixou o quarto. Olhou para os lados. O corredor estava vazio e não muito iluminado, poucas tochas ardiam. Dirigiu-se para os fundos, em direção oposta à escada principal, rumo a uma escada mais estreita e menos utilizada; esta dava diretamente para o pátio. Assim, pôde sair do palácio. Em tempo; alguns soldados que por ali faziam a ronda acabavam de voltar àquele posto. Descera na hora certa. Andou apressado, a fim de ganhar o pátio e misturar-se aos trabalhadores que já estavam de pé; por volta das quarto horas, muitos já davam início às suas atividades. Camus observou o movimento das carroças. Algumas entravam no castelo, outras dele saíam. Acompanhou uma sendo descarregada. Percebeu que não era de camponeses, e sim de mercadores da cidade. Aproximou-se e ofereceu ajuda para descarregar. Acreditando que tratava-se de um servo do castelo, os citadinos, dois homens simpáticos e falantes, aceitaram de bom grado. Quando a carroça foi esvaziada, e Camus viu que os homens recebiam o devido pagamento das mãos de um funcionário do castelo, tomou fôlego para perguntar, libertando o timbre masculino sempre ocultado:

— Perdoai-me, gentis senhores, mas poderíeis levar-me até a cidade? Meu cavalo ficou doente e preciso ir até o boticário adquirir um remédio para o meu filho, que está muito doente. É um medicamento do qual o barbeiro-cirurgião não dispõe, e sem o senhor Afrodite por aqui, só me resta descer até a cidade. – Estendeu duas moedas de prata. – Sei que não é muito, mas se este humilde pagamento vos convier...

Os mercadores entreolharam-se. Um deles tomou as moedas da mão de Camus. Examinou-as. Satisfeito com o que viu, respondeu-lhe:

— Pois não, homem, subi à carroceria. Partiremos já.

Mais que depressa, o ruivo obedeceu. Ninguém parecia reparar naquilo, assim mesmo, ele abaixou a cabeça enquanto o veículo atravessava o pátio rumo aos pórticos do castelo. A alvorada insinuava-se detrás das montanhas enevoadas. Ele virou-se para contemplar seu lar, que ficava para trás, com grande aperto no coração.

Seria a última vez que o fazia? Levou a mão ao peito, mergulhado naquela inquietante dúvida.

*************

Os limites da cidade ficavam bem distantes de onde os mercadores haviam-no deixado, precisamente em frente à loja do boticário. Mesmo assim, a economia de tempo e de energia fora imensa, e ele não ousou reclamar. Esperou que os mercadores partissem e seguiu na direção dos muros da cidade.

A ninguém despertava atenção o rapaz alto e maltrapilho que andava apressado, de cabeça baixa, mãos firmemente agarradas em sua capa puída. Mercador algum oferecia-lhe seus produtos, meretriz alguma oferecia seus préstimos, tampouco pedintes o importunavam, tão pobremente estava vestido. Não fosse a velocidade com que Camus singrava as ruas, também seria tomado por um pedinte.

Mais de uma hora de caminhada, o sol já alto, e ele avistou mais de perto os limites de Saint-Doulchard. Restava encontrar a hospedaria. Olhou para a Abadia de Saint-Père, da qual agora vislumbrava apenas o topo. Tirou a carta da algibeira que trazia por baixo da capa: não havia necessidade de ler outra vez, tantas vezes lera aquela aterrorizante mensagem que ele decorara cada linha. Não obstante, queria confirmar com seus próprios olhos, e não meramente com sua memória: Hospedaria Crisântemo Azul, ao sul da Abadia de Saint-Père.

Andou por mais uns minutos.

Lá estava.

Entalhada na madeira, a imagem de uma flor de crisântemo, pintada de azul celeste. Percebeu três carruagens à frente do estabelecimento.

“Uma delas há de ser de Shura”, pensou, arrepiado.

Entrou sem hesitar. Quiseram, porém, barrar-lhe a entrada na recepção. Ali era uma hospedaria respeitável, disseram-lhe, não um antro para tipos como aquele!

Ladeado por dois homens mal encarados, prontos a enxotá-lo dali, Camus dirigiu-se ao dono do lugar:

— Procuro por um viajante que cá encontra-se hospedado. Homem alto, olhos de mar revolto, sotaque espanhol. Talvez ele tenha avisado que eu viria. Por favor, dizei-lhe que a pessoa por quem ele espera está aqui.

O dono da hospedaria pareceu considerar. Fez sinal a um dos homens que barraram Camus; o empregado prontamente subiu as escadas de madeira, fazendo tanto barulho que parecia que iria parti-la a qualquer instante.

Alguns segundos depois, o homem descia pelas escadas. Disse algo ao ouvido do chefe; este virou-se para Camus:

— Ele está à vossa espera. Ao término dos degraus, é a segunda porta do corredor.

— Obrigado. – Agradeceu o ruivo, com o coração aos pulos.

Dirigiu-se até a porta indicada.

Inspirou profundamente antes de bater.

Sua mão trêmula parou no ar.

Não.

Bastava que desse meia volta... que retrocedesse... que voltasse ao castelo e contasse tudo a...

“Contai a Milo sobre esta mensagem e ambos sereis denunciados às autoridades pessoalmente por este que vos escreve.”

Mordeu o lábio inferior. Ao invés de bater na porta, simplesmente abriu-a.

Ali estava.

Shura de Aguilar. De pé, à sua espera. Trajava uma túnica negra de veludo e calças de mesma cor. A espada repousava em sua bainha, atravessada no quadril do espanhol. Camus não esperou que ele ordenasse, fechou a porta detrás de si e a trancou.

Eles encararam-se longamente, embora o rosto de Camus ainda estivesse quase todo coberto.

— Mostrai vosso rosto. – Demandou Shura, autoritário.

O recém chegado retirou o chapéu. Em seguida, o lenço. O movimento soltou alguns tufos do cabelo, vermelho como fogo. E como fogo eram os olhos que não deixavam de fitar o marquês. A capa deixou o corpo de Camus, revelando a parte de baixo do rosto oval e delicado.

Shura estremeceu.

ERA Camille... e ao mesmo tempo não era. Sem batom, brincos, maquiagem... aquele semblante não se fazia TÃO feminino assim. E havia uma dureza no olhar que, de forma alguma, pertenceria a uma dama.

Bem que quando se conheceram, percebera isso. Com o passar do tempo, porém, a impressão amainou... aquela pessoa conseguira enganá-lo, como conseguira a TODOS.

— Mostrai-me vossos cabelos.

Camus obedeceu-lhe. Soltou as compridas melenas, antes presas nos dois coques. A cabeleira ruiva caiu-lhe, sedosa e agora quase frisada, por sobre as costas, ultrapassando a cintura.

Ambos continuaram silenciosos, um de frente para o outro. Ao cabo de alguns minutos, o cavaleiro finalmente demandou:

— Dispai-vos.

Foi a vez de Camus estremecer. Tinha, contudo, ido longe demais. E para salvar Milo, iria ainda mais. Removeu de si a túnica e as calças esgarçadas, após tirar as botas de Milo.

— Senhor Deus Todo Poderoso – Balbuciou um assombrado Shura, tendo diante de si não uma mulher, mas um HOMEM, conforme sua plena nudez podia comprová-lo.

Optando por enfrentar seu destino com bravura, Camus não abaixou a cabeça, tampouco procurou cobrir suas partes pudendas.

— Senhor Deus Todo Poderoso – Shura repetiu, sentando-se na cadeira junto à mesa de madeira, pois que temeu cair. – Sois realmente um varão... Camus de Turenne...!

— Sim. – Assentiu, simplesmente. – Sou Camus de Turenne.

— M-mas... mas eu vi o... o casamento de Milo... vi como Milo... Deus... como Milo...

Por isso Milo parecia lutar TANTO contra o sentimento que nutria “pela esposa”, no início do matrimônio. Milo na verdade lutava porque estava a AMAR UM HOMEM...

Segurou o rosto entre as mãos. Camus percebeu que Shura tremia violentamente. Tomou coragem para perguntar:

— Como foi que tu descobriste?

— NÃO OUSEIS TUTEAR-ME! – Gritou o espanhol, fora de si.

Assustado com aquela reação, Camus recorreu ao mesmo tratamento impessoal para indagar:

— C-como foi que vós descobristes?

— Vosso amigo Afrodite... digamos que ele é um péssimo guardião de segredos alheios... – Desta vez o cavaleiro esforçou-se por dar um sorriso sarcástico.

— Ele... ele contou a vós?

— Não da maneira que imaginais... mas... sim, contou-me.

— E-eu... eu n-não posso acreditar... – O ruivo sacudiu a cabeça, entre incrédulo e decepcionado.

— Eu é que não posso acreditar que Milo tenha... – Abaixou a voz. – ... se casado com um... com um HOMEM! Como foi que isso aconteceu?

Camus também abaixou a voz, a voz que não mais disfarçava:

— Vós conheceis a história. Como amigo de Milo, ele deve ter-vos contado. O rei ordenou que vosso amigo desposasse a primogênita do Duque de Borgonha. Um acordo visando ao aumento do poderio da família real, uma vez que Filipe é primo de terceiro grau de Henri D’Auverne.

— A “primogênita do Duque” éreis vós... CRIADO COMO MULHER! Por quê?!?

— Afrodite não vos contou?

—Quero saber de VÓS.

Sentindo-se incrivelmente cansado, Camus suspirou:

— É uma longa história.

— Posso presumi-la. A criança morta durante a caçada não foi Camus, e sim CAMILLE de Turenne. O velho Teobald criou toda essa FARSA ABJETA para que seu clã não sofresse novo atentado, já que ele nunca acreditou que aquilo tivesse sido um acidente.

— Possuís notável perspicácia. – O ruivo falou, não sem um tom de ironia.

Shura dirigiu-lhe um olhar terrivelmente gélido. Ergueu-se de súbito da cadeira, ordenando:

— Vesti-vos.

— Que pretendeis fazer, agora que sabeis de toda a verdade? – Era tudo que Camus queria saber.

Shura pareceu não tê-lo ouvido:

— Dizei-me: houve alguma chantagem da parte dos Turenne para que Milo aceitasse esse… essa IGNOMÍNIA?

— Chantagem dos Turenne? NÓS fomos envolvidos nisso! Foram ORDENS de Filipe! Nosso enlace foi uma tramoia real, não uma manobra dos Turenne!

— Mas Filipe desconhece que sois...

— É CLARO QUE DESCONHECE.

— Por isso Milo fugia... por isso lutou tanto, no início...

— No início? No início de quê?

O marquês dardejou-o com um olhar cortante de desprezo enquanto falava:

— No início de vosso casamento, ele dava mostras de EVITAR o sentimento que nascia... o sentimento por “Camille”.

— Milo...?

— Ele tentava fugir de todas as formas, malgrado, eu percebia, já estivesse a amar “a esposa”. Lutava contra esse amor. Agora entendo o porquê de um conflito que, a mim, parecia sem sentido. – Disse, sombrio. Aproximou-se de Camus, que corajosamente não deu um passo para trás. – Depois que ele passou a amar-vos abertamente... vós consumistes o pecado maior, pois sim?

— Foi um casamento de conveniência. De aparências.

— Não. Vós dois vos amais. Estava tudo escrito nos diários de Afrodite. Então não era uma fantasia dele.

— Diários de Afrodite? – O ruivo arregalou os olhos.

— Sim, através deles, pude descobrir todas as infâmias de vosso viver, Camus de Turenne. E, lamentavelmente, de meu amigo Milo.

Camus cerrou os punhos, indignado. Acusou, trêmulo de raiva:

— Como ousastes?... Traístes a confiança de tão leal amigo, que por vós quase perdeu a vida?

Aquilo atingiu em cheio o cavaleiro. Furioso por saber que o outro tinha razão, gritou:

—CALAI-VOS! Não serei admoestado por um pecador sórdido como vós!!!

Sem dar mostras de se intimidar com aquela explosão, Camus ergueu o rosto e inquiriu, desafiador:

— Bem, este “pecador sórdido” muito se agradaria em conhecer vossos próximos passos, virtuoso senhor Shura.

— Meus próximos passos? – Agarrou o rosto de Camus com rispidez e respondeu, o ódio tornando-lhe rouca a voz. – DENUNCIAR-VOS-EI, Camus de Turenne. Denunciar-vos-ei às autoridades, vós... e também Milo!

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Notas finais
Shura enfim obtém a prova de que "Camille" é mesmo Camus de Turenne. Ele parece irredutível em sua decisão de denunciar Milo e Camus. O que fará Camus para contornar essa situação? É o que veremos no próximo capítulo. Até lá, e obrigada por prestigiarem!