Dame Jolie

46 A Jornada Final


Notas iniciais
Boa noite! Camus foi direto à cova do leão, ou seja, direto até Shura, que está disposto a denunciar o próprio amigo por viver em matrimônio com um homem. Que fará Camus para impedir a ação do Marquês de Aguilar? É do que se trata este tenso capítulo... Boa leitura! Obs.: obrigada pelos comentários, sejam aqui, sejam pelo Facebook! Obrigada mesmo.

“Denuciar-vos ei às autoridades, vós e TAMBÉM MILO!”

Camus simplesmente não podia acreditar no que estava ouvindo. Estaria em sua cama, tendo algum pesadelo? O PIOR de todos os pesadelos que tivera em sua vida, por certo! Aquilo não podia ser real! Milo logo o despertaria, e diria que estava tudo bem, como sempre estava tudo bem, seguro e em paz...

Mas o toque em sua pele não era oriunda dos dedos carinhosos do marido, e sim um contato bruto dos dedos de Shura em seu queixo, apertando-o, elevando seu rosto para que seus olhos se encontrassem, para que os olhos vidrados de Camus encontrassem o mar revolto dos olhos irascíveis do espanhol. Com dificuldade, Camus desvencilhou-se dele, dando passos para trás naquele ordinário quarto de pensão. Ofegante, encarou-o longamente antes de inquirir, perplexo:

— Eu ouvi direito? Dissestes que iríes denunciar-nos?

— Exatamente. – Confirmou, mirando-o com o mais genuíno ódio.

— Que queirais o meu mal por haver eu enganado-vos, posso muito bem entender. Mas cogitais denunciar Milo? Vosso próprio amigo?

— Milo está vivendo em pecado. Em se tratando de um varão, está cometendo o MAIOR dos pecados. Sua alma corrompeu-se. A salvação dele foi comprometida. A única forma de Milo livrar-se do castigo eterno é PAGANDO por seus crimes contra a natureza.

Balançando a cabeça com obstinação, o ruivo retrucou, aflito:

— Sabeis o que o espera se for denunciado à Igreja!!!

— Sim. A expiação necessária de seus pecados.

— E essa virá através de que expedientes? Prisão? Tortura? Morte? É ISSO que desejais para o vosso amigo?

— Milo NÃO será executado. Ele é um Auvergne. É primo de terceiro grau do Rei de França.

— Como podeis ter certeza de que isso será o suficiente para livrá-lo de tão funestas punições?

Os olhos de Shura estreitaram-se, zombeteiros.

— Parece-me que vossa preocupação concentra-se amiúde no destino de Milo. Vós tereis o MESMO destino. Talvez PIOR.

— Eu não me importo com o que aconteça comigo. Não permitirei que conduzais Milo à desgraça.

Furioso, o marquês replicou:

— Néscio! Ele JÁ ESTÁ em desgraça! Que desgraça é maior que perder a salvação eterna? Vós é que estais a conduzi-lo para o ABISMO, Camus de Turenne! Ao contrário de vós, quero SALVÁ-LO, não condená-lo!

— Detendes métodos singulares para tal. – Camus murmurou, irônico. – Não hei de deixar-vos sair daqui.

— Que ides fazer? Acaso intentais impedir-me? – Riu, sarcástico. – De que forma? Matando-me?

Camus tomou um pesado candelabro de ferro que estava sobre uma das mesas do aposento. Fitou o oponente com fria decisão no semblante transformado.

— Como eu disse, não me importo com o que aconteça comigo. Nunca chegareis a denunciar Milo...

Rápido como um raio, investiu contra o espanhol, visando acertá-lo na cabeça. Shura esquivou-se, evitando o golpe; segurou-lhe pelos braços e com um dos joelhos acertou-lhe o ventre. Gritando de dor, Camus deixou a arma improvisada cair. Antes que fosse atacado por Shura, girou com rapidez e desferiu-lhe uma forte joelhada na altura dos rins. O espanhol sentiu dolorosamente aquele golpe. Sem perder tempo, Camus deu-lhe um potente soco no estômago e, em seguida, outro no rosto.

O cavaleiro retrocedeu. Parecia SORRIR.

— Não é que o duque ensinou-vos MESMO a lutar? – Comentou, enxugando o nariz que vertia-lhe das narinas.

Girou o corpo de uma forma que Camus não esperava, e da qual não pôde se defender, e acertou com tudo um chute em seu peito. O ruivo chocou-se fortemente contra a parede, nela logo sendo imprensado pelo oponente. Lutou arduamente para se libertar; os dois atracaram-se como feras selvagens. Shura agarrou-o e jogou-o contra a mesa, em cuja quina Camus bateu a fronte com força. Ele foi ao chão instantaneamente, e, neste momento, o marquês ficou sobre ele, acertando-o várias vezes. Camus lutou bravamente, mas não detinha a experiência combativa do cavaleiro. Conseguiu, ainda assim, acertá-lo em cheio no queixo, e rolar depressa pelo assoalho ao desprender-se do oponente. Foi a deixa para alcançar a jarra de cerâmica que continha água sobre um aparador e tentar usá-la como arma. Tentou acertar a cabeça de Shura, que habilmente desviou-se; a jarra espatifou-se ruidosamente na parede. Camus vacilou um pouco, seu equilíbrio já prejudicado pelo impacto na cabeça era ainda mais prejudicado pelo sangue que descia incessantemente. Por fim, o espanhol aproveitou-se daquela breve hesitação para desembainhar sua espada. Brandiu-a na direção de Camus, que subitamente parou seus movimentos. A luta, enfim, estava decidida.

Ouviram fortes batidas na porta.

— Que estais a fazer? Parece-me que empenhai-vos em destruir minha humilde hospedaria! – Gritou o proprietário.

Posicionando a lâmina frente ao rosto de Camus, Shura respondeu:

— Tranquiliza-vos, mestre hospedeiro. Tudo ser-vos-á pago, e com grande vantagem. Com o que hei de pagar-vos, heis de adquirir uma outra hospedaria na cidade.

Após alguns resmungos, ouviram passos, e depois mais nada. Minutos se passaram. Camus permanecia imóvel, rendido, e Shura permanecia com a espada em guarda contra seu oponente. Lentamente, o ruivo comentou, sarcástico:

— Será que o “Guerreiro mais Justo” haveria de se vangloriar da decisão de uma luta na qual ele era o único a portar uma arma?

— O que importa agora não são glórias... lutas justas ou não. O que importa agora é a salvação da alma de um amigo.

A raiva de Camus foi pouco a pouco substituída por um sentimento de perda. Decepção. Desilusão.

— Acreditais sinceramente nisso, não? – Murmurou.

— Mas é claro! No que é que eu deveria acreditar?

Eles se encararam por longos minutos, ambos feridos, ambos sangrando, em meio àquele quarto devastado. Sem abaixar a espada, Shura passou novamente a mão por onde vertia seu sangue, abaixo do nariz. Olhou para os dedos ensanguentados e deu uma risada curta.

— Deveis estar assaz desesperado por vossa vida, Camus de Turenne. Ninguém, nunca, acertou-me de jeito como vós.

— Sois terrivelmente ignorante. Então considerais, de fato, que resisti-vos por MINHA VIDA? Se eu vos matasse, o que esperaria por mim, despido de meu disfarce de “Camille”? Olhai para mim. Agora, sou menos que um homem do povo. Nem mesmo os pedintes sobre mim lançaram suas súplicas.

O sorriso de Shura desapareceu de seu rosto intrigado. Considerou as palavras do rapaz; matá-lo? Camus não teria conseguido, mas a questão não era essa. Nem em todas as batalhas de sua vida, o cavaleiro tivera seu sangue derramado em um combate corpo a corpo. Camus empregara todas suas forças e conseguira acertá-lo de jeito, mesmo com técnicas incipientes de quem não detinha um décimo de sua vivência beligerante. Com efeito, se Camus, por um milagre, o ferisse de morte, seria preso por atentar contra a vida de um nobre de estirpe. Plebeus que cometessem tal crime contra um membro da aristocracia praticamente não tinham um julgamento; eram logo arrastados para a praça, para serem enforcados ou, pior, levados às masmorras para serem supliciados até a morte. E o que Camus era no momento? Um reles plebeu, roto, esfarrapado, um homem vestido como o mais pobre dos homens, destituído da fachada elegante de “nobre dama”... sujo, ferido, decaído. Não era mais “a Condessa Camille”. Seria condenado à morte em questão de horas, talvez minutos.

Não. Camus não temia a morte... então, de fato, não mentia sobre...

— Faríeis de tudo para livrar Milo da denúncia, não é verdade? – Indagou o espanhol, mirando a lâmina no peito do jovem. Que nem assim deixou de encará-lo, dos olhos castanho-avermelhados como que labaredas crepitando.

— Sabeis que sim.

— Daríeis vossa vida pela dele?

Camus sequer pestanejou:

— Sem a menor hesitação.

— Por quê?

— Não vos é óbvio?

A mão de Shura estremeceu levemente. Encostou a lâmina no peito de Camus.

— Estais enganado. Não é AMOR o que vos une. É PECADO. Uma ilusão criada pelo Inimigo para ceifar vossas almas. – Rosnou.

—E vós? Que conheceis do amor para julgar-nos?!?

— AS SAGRADAS ESCRITURAS! A PALAVRA SANTA DE DEUS! Conheço o AMOR DE DEUS!

— Que amor justifica enviar um amigo para a MORTE? Para a PRISÃO, que seja? Que amor justifica separar duas pessoas que se amam, que se amam incondicionalmente, como se uma fosse parte da outra?

— CALAI-VOS! – Tomado de fúria, Shura ergueu a espada e com um movimento veloz e até impensado, feriu Camus abaixo do ombro. O sangue afluiu imediatamente. Camus levou a mão direita até o ferimento, a dor fazendo cerrar os dentes e os olhos com força.

— Vós... vós corrompestes meu amigo... um amigo que era como um irmão para mim... adentrastes a vida dele como uma praga... uma maldição... – Bufava, quase fora de si. – É preciso que AMBOS sejam punidos.

Camus cambaleou, ao mesmo tempo que procurava manter pressão sobre o ombro ensanguentado. A espada foi apontada em sua direção outra vez.

— Vireis comigo, sem mais tentativas tolas. Ou matar-vos-ei instantaneamente.

— Pretendeis pôr-me em cativeiro antes de denunciar Milo?

— Vós sois a prova viva de que “Camille de Turenne” é uma farsa. Levar-vos-ei comigo até o Papa, e só então denunciarei Milo. Exércitos deverão ser destacados para prendê-lo.

Trêmulo, Camus começava a, efetivamente, não ver saída. O espanhol aproximou-se dele. Amarrou-lhe os pulsos, sem qualquer cuidado, apertando a ponto de morder-lhe a carne fina e delicada. Pôs uma corda em seu pescoço também, atando-a a uma com que circundara-lhe a cintura.

— Agora, sairemos desta hospedaria. Vinde sem maiores alardes ou furar-vos-ei o estômago. Sangrareis até morrer, e de modo bem sofrido.

Desceram as escadas, Shura sempre segurando as cordas e a espada. Ante os olhares interrogativos do dono da hospedaria e de mais uns poucos presentes, o marquês disse:

— Este rato imundo é um criado que estava a chantagear-me. Levá-lo-ei a julgamento. – Atirou um saco de moedas sobre o balcão – Aqui está. Pelo quarto, e por vossa discrição.

Ao verificar a quantidade de dinheiro, o rosto do proprietário iluminou-se. Riu nervosamente, enquanto agradecia a generosidade daquele gentil homem.

— Mestre Fillemont! Onde está o vinho que pedi? – Berrou um homem, com sotaque italiano, do outro lado do salão. Batia as canecas com impaciência sobre a mesa.

— Tem paciência, Giuseppe, estou terminando de resolver uma questão aqui!

“Giuseppe”, Camus pensou, alarmado.

O mestre de obras do Hospital!

O italiano ergueu-se da mesa e considerou os hóspedes que saíam. Shura puxou mais o capuz para não ser reconhecido. Camus queria tirar o seu, mas tinha as mãos atadas.

— Fizeram uma bagunça dos diabos lá em cima, hã? Caberá a mim ajeitar tudo, com os diabos. Pareciam quebrar tudo! – Giuseppe resmungou, gargalhando em seguida.

— O nobre senhor pagou tudo, cala-te, italiano dos infernos! – Berrou o dono da hospedaria.

— Dai-nos licença, nobre senhor – Demandou Shura.

A Giuseppe não passou despercebido que o acompanhante do nobre estivesse todo amarrado.

— Mas o que fez esse pobre diabo para merecer ser conduzido como um cão raivoso? – Indagou.

Nesse momento, Camus sacudiu a cabeça, deixando o capuz ir um pouco para trás. Shura não percebeu porque o puxava para a frente, com rudeza.

Então Giuseppe viu.

Olhos castanho-avermelhados.

Pele de porcelana.

Sobrancelhas bifurcadas.

Uma franja ruiva que se insinuava por baixo dos panos.

Os lábios do prisioneiro moveram-se sem som, mas Giuseppe compreendeu:

“MILO”.

Antes que o italiano se dispusesse a segui-los, o proprietário da hospedaria puxou-o com violência.

— Onde pensas que vais? Não deves seguir essa gente! O nobre é perigoso, parecia prestes a matar o criado.

— Disseste que... que era um criado?

— Sim, o nobre disse que era um criado que estava a chantageá-lo.

Giuseppe ouviu a carruagem partir, profundamente intrigado com a cena que se desenrolava. E mais ainda, com o que o “criado” lhe dissera.

“MILO”.

“Aquele criado me era muito familiar. Parecia muito com alguém que conheço”, pensou. Virou-se para o hospedeiro:

—Mestre Fillemont, quem era esse nobre?

— Apresentou-se como Conde de Belisário.

— Nunca ouvi falar.

— Talvez seja estrangeiro. Tinha um forte sotaque espanhol.

Desta vez, Giuseppe arregalou os olhos cinzentos.

— Disseste... sotaque espanhol?

—Sim, mas por que tantas perguntas? Achei que quisesses beber, talvez quem sabe aquecer-te com uma rotunda moçoila...

— Eu... sim. Sim... vamos a isso – Disse o mestre de obras, sem muita convicção. Algo estranho acontecera ali, e ele certamente se sentia muito estranho pelo que presenciara.

*************

No interior da carruagem que já partira, Camus, amarrado e bastante machucado pela luta que travara no quarto da hospedaria, enfim compreendeu que estava tudo perdido.

PARA ELE.

Porque POR MILO, jamais deixaria de lutar.

Shura removera o capuz. Com um lenço, procurava limpar o sangue de seu rosto. O primeiro a quebrar o silêncio foi o prisioneiro:

— Penso que estais certo, Shura.

O espanhol olhou-o, desconfiado.

— A razão está convosco. – Insistiu o ruivo. – EU corrompi Milo. Quem estava vivendo uma mentira, enganando a todos desde a tenra infância, fui EU. EU me fiz passar por mulher... e tencionei arrastar Milo para uma existência contrária à preconizada pelos preceitos sagrados...

— Que pretendeis com essa conversa? – Shura cortou-o, bruscamente.

— Não há necessidade de que Milo seja denunciado. A origem do pecado está em MIM. EU sou o Mal.

— Acaso disponde-vos a ser o único denunciado?

— Não. Se eu for denunciado, logo chegarão em Milo, denunciei-lo ou não. Estou me dispondo a ser PUNIDO... por vós.

Shura deu um riso entre curioso e petulante.

— Qual é o truque agora, Camus de Turenne? Sois mesmo o mestre deles...

— NÃO É UM TRUQUE!

O marquês calou-se, atônito. Fitou o homem à sua frente, uma determinação ímpar cintilando-lhe no olhar.

— Sois conhecido como o mais justo dos Cavaleiros. No fio de tua espada, julgamentos em nome da Igreja foram cumpridos, através de todos estes anos. Tendes autoridade para fazer-se cumprir a lei sob os desígnios de Nosso Senhor...

— Aonde almejais chegar?

—A um acordo que pretendo propor-vos.

— Pensais estar em condições de propor acordos? – Riu, com desdém.

Camus fitou-o firmemente.

— MATAI A MIM.

— O... o quê?

Muito sereno, o ruivo esclareceu:

— Sou a única sombra que paira sobre a virtude de Milo. Livrai-o de minha presença. Ele não precisa ser denunciado se eu não mais existir.

Aturdido com o que ouvia, Shura procurou evidências de que o homem alquebrado, ferido e amarrado à sua frente planejava alguma trapaça. Mas o que é que alguém naquele estado podia fazer contra ele? Instintivamente segurou o cabo da espada com firmeza ao questionar:

— Ofereceis vossa vida em troca de meu silêncio?

Camus assentiu.

— Espero que não estejais blefando. Não terei piedade de um veículo do Mal como vós, que ousastes arrastar meu amigo para a Danação Eterna. – Disse o espanhol, com frieza cortante.

— Se fordes adiante com vossa denúncia, arrastareis vosso amigo para a condenação em vida... para sua ruína... a dele e a de sua família... livrando-se de mim, também minha família estará a salvo. Não tenho por que blefar. – Fez força para que sua voz não embargasse no calor daquela emoção que já semeava lágrimas brilhantes sobre as pálpebras. – Sois como um arauto da justiça divina na Terra. Executai a mim e deixai livre Milo D’Auvergne. Se não mais viver em pecado comigo... ele certamente encontrará perdão em vida pelos anos em que viveu comigo em pecado.

Neste momento, suas lágrimas caíram livres, lágrimas que nem com toda bravura, Camus conseguira segurar. Estava sendo levado para longe de Milo, e, para salvar o amado, seria levado para mais longe ainda!

Com os lábios entreabertos e visivelmente surpreso, Shura analisava o que saíra dos lábios frementes de seu prisioneiro. Não podia dizer que não lhe tocava o fundo da alma tal demonstração de lealdade de Camus para com Milo. Sim, lealdade... não atinava que aquilo fosse amor! Amor só poderia existir entre homens e mulheres... somente! O que unia Camus e Milo, além da comprovada lealdade era sim lascívia... volúpia... instintos errôneos nascidos do mais vergonhoso dos pecados que um varão poderia cometer!

Respirou fundo antes de observar, agora sem sarcasmos ou desdém:

— Parece-me que estais falando a sério, Camus de Turenne.

— Espero que façais o mesmo, Shura de Aguilar.

— Não sou eu que vivo a enganar pessoas, meu caro; tudo que falo é a sério.

— Neste caso, dar-me-eis vossa palavra de honra?

— Minha... palavra de honra?

— Sim. De que não entregareis Milo às autoridades... se eu não mais estiver aqui. Minha vida por vosso silêncio.

Shura meneou a cabeça em concordância.

— Eu dou minha palavra de honra, Camus de Turenne. Minha palavra de cavaleiro. Livrarei Milo de vossa influência satânica e não direi nada sobre vossas vidas pregressas de então.

Com o alívio, veio a consciência de que seu fim estava próximo: Camus sentiu o peito doer terrivelmente. Levou até ele suas mãos amarradas, experimentando grande angústia.

Abrindo o vidro da janela, Shura meteu a cabeça para fora e ordenou ao cocheiro:

— Mudança de trajeto, Arlanc. Iremos para Marselha!

— Sim, meu senhor. PARA MARSELHA! IÁÁÁÁÁ! – Fustigou os cavalos.

Franzindo o cenho, Camus não se furtou a perguntar:

— Marselha? Por que Marselha?

Agora evitando o olhar do rapaz, Shura limitou-se a dizer:

— Preciso fazer isso onde vosso corpo não seja encontrado. JAMAIS.

“Marselha... o mar... “, pensou Camus, melancólico, “planeja matar-me e atirar meu corpo ao mar. Sim, dificilmente o cadáver de Camus de Turenne será encontrado uma vez que sepultado nas profundezas do oceano...”

Por várias horas, nenhum dos dois homens proferiu qualquer palavra no interior da carruagem que ganhava estradas rumo ao sul do país.

*************

DOIS DIAS ANTES

Afrodite sabia que uma hora, algum guarda apareceria para repor água e comida, por mais demorado que isso fosse. Sua paciência forçada foi recompensada quando enfim surgiu alguém no alto da escada. Não podia precisar quanto tempo passara. Certamente, Shura ainda deveria estar a caminho de Saint-Doulchard. Por mais atrasado que estivesse, ele precisava tentar!...

Quando o guarda aproximou-se da cela, o sueco demandou:

— Preciso de papel, selo e pena. Devo enviar uma carta urgente ao senhor Milo.

O homem olhou-o desconfiado. O ex camareiro argumentou:

— O Marquês de Aguilar mandou que não permitísseis minha saída do solar. Entretanto, menção alguma fez acerca de eu escrever cartas. Até os prisioneiros mais perigosos têm direito de enviar missivas.

Não parecia que aquilo tinha sido suficiente para convencer o guarda, pois que estava claramente em dúvida sobre como proceder. Afrodite puxou de dentro de sua túnica branca um lindo colar. Mostrou-o ao guarda:

— Vê! É ouro puro. E esta pedra aqui, uma autêntica esmeralda. Será teu, se me prestares o humilde favor que estou a pedir-te.

Os olhos do sentinela brilharam cobiçosos. Deixou a água e a comida por entre as barras da cela e apressou-se a ir buscar o que o prisioneiro queria.

Afrodite pegou o material requisitado. Não sem dificuldade, pois a iluminação era mínima, escreveu:

Senhor Milo

Shura descobriu segredos demais.

Que Deus Todo Poderoso guarde as vidas de Vossa Excelência e de Vossa Excelentíssima esposa, a Condessa Camille.

Afrodite

Teve o cuidado de redigir uma mensagem não tão reveladora. Mas que Milo entenderia. Selou a carta com cuidado. Entregou-a ao guarda, que esperava pacientemente.

— Se eu souber por Milo que esta carta realmente chegou ao seu destino, dar-te-ei outra de minhas joias, ainda mais valiosa do que esta. – Entregou o cordão ao guarda, que não cabia em si de euforia:

— Sim, meu senhor! Não vos preocupeis, irei agora mesmo enviá-la para Saint-Doulchard!

— Diz-me: estou aqui há mais de um dia?

— Há exatamente um dia, meu senhor.

“Ainda levam dois ou três dias para Shura chegar a Saint-Doulchard. Se esta carta realmente deixar Paris hoje, chegará com uns dias de diferença... não sei se será suficiente para alertá-los... mas algo preciso fazer!”, pensou.

O guarda retirou-se da masmorra. Ouvindo a grande porta de ferro sendo fechada, do alto da escada, o sueco pôs-se a roer as unhas, um hábito há muito abandonado.

Havia outro hábito há muito abandonado que ele decidiu resgatar: ajoelhou-se no chão da cela e começou a rezar fervorosamente.

Naquele momento, não podia contar com mais nada. Em meio às preces, lágrimas abundantes afluíam, e nem a comida, nem a água foram tocadas por muito, muito tempo.

*************

O guarda que levara a carta de Afrodite considerava o papel em suas mãos, enquanto caminhava pelos corredores do sobrado. Dirigia-se para a saída, quando, por algum motivo deteve-se. Olhou novamente a carta em suas mãos. Voltou por onde viera, dirigindo-se agora à cozinha.

Um caldeirão com conteúdo fumegante não era vigiado por ninguém, no momento. Provavelmente a cozinheira retirara-se para buscar alguma coisa. Ele aproximou-se do fogo e nele jogou a carta de Afrodite. Viu-a arder e desaparecer enquanto pensava, resoluto:

“Não sou louco de me meter em intriga de nobres. Nada quero que ter com isso”. Tirou o colar do bolso e considerou-o com prazer, julgando-se finalmente um sortudo na vida.

*************

DOIS DIAS DEPOIS

O crepúsculo tingia o horizonte de púrpura. As aves, em debandada, voltavam ruidosamente para os seus abrigos, e os trabalhadores recolhiam suas ferramentas, seus animais, suas carroças, antes que a escuridão da noite os surpreendesse. No quarto senhorial do Castelo de Saint-Doulchard, o soberano dormia a sono profundo, quase sem ressonar. Um sono como a morte, sem sonhos, sem interrupções, a total inconsciência fruto da sedação ministrada por Camus. Milo não dava mostras de que iria acordar naquele final de dia... talvez nem mesmo naquela noite.

*************

A carruagem de Shura somente fez uma parada quando a lua ia alta no céu, e quando distavam significativamente de qualquer agrupamento humano. Não teria sido prudente parar em hospedarias, tampouco pedir abrigo em alguma habitação, pensava o espanhol, tendo em seu poder um homem maltrapilho todo amarrado. O local escolhido foi uma clareira em um bosque ermo, suficientemente protegido por árvores, vegetação e altos morros.

O cocheiro acendeu uma fogueira e providenciou um acampamento para passarem a noite; arrumou três lugares para dormir, forrados com peles grossas e mantos espessos, pois que fazia bastante frio. Da carruagem, Shura viu o que ele fazia; saiu, elevando a voz:

— Não é preciso que arrumes três leitos. – E chutou um dos leitos improvisados, sob grande espanto do cocheiro.

— Desculpe, meu senhor... pensei que vosso prisioneiro... então ele vai dormir na carruagem?

— Sim, mas não do jeito que imaginas.

Abriu a porta do veículo e puxou Camus pelo braço, com rudeza. O ruivo chegou a cair no chão, pois que, amarrado como estava, não tinha muita mobilidade. Entregou uma corda ao cocheiro.

— Amarre-o pelo o pescoço e pelo tronco a uma das rodas traseiras. Se ele imprimir qualquer movimento estranho, os cavalos assustar-se-ão. – E dirigiu-se a Camus, aterrado com o tratamento que recebia. – Sereis arrastado como um saco de centeio por este bosque. Gritareis de dor ao chocar-vos contra pedras, paus e troncos, e eu punir-vos-ei sem misericórdia alguma. De acordo?

Atônito com tamanha crueldade, Camus fez que sim com a cabeça. Não era à toa que Shura fora um cavaleiro tão temido. Por baixo daquela calma aparentemente inabalável, reuniam-se as ideias mais impiedosas para tratar com os inimigos. Viu o cocheiro retirar provisões de uma bolsa. Ele e Shura alimentaram-se, enquanto Camus apenas observava, maldizendo-se por sentir fome e sede também.

Mas o pior era o frio.

Longe como estava da fogueira, e sem poder contar com o abrigo daqueles mantos, restava-lhe contentar-se com suas pobres roupas finas de camponês. Tentou não pensar nisso. Elevou o olhar para o céu pontilhado de estrelas, lembrando de quando as contemplara junto com Milo.

Seu grande amor, Milo.

Tudo suportaria por Milo.

Frio, fome, sede, dor... até a MORTE.

Estava prestes a dormir quando reparou uma figura diante de si, enegrecida contra a luz do fogo.

Shura abaixou-se diante dele. Trazia um pão e um pequeno odre de vinho.

— Tende fome e sede, por certo. – Disse, em um tom estranhamente neutro.

Camus não respondeu. Virou o rosto, em uma recusa muda.

— Vossas mãos estão amarradas, portanto, abri vossa boca para que eu possa alimentá-lo.

Aquilo era demais! O ruivo preferia morrer a aceitar aquela humilhação! Que lhe importava o que acontecesse mais? Seria morto, isso era tudo. Virou ainda mais o rosto.

— Vosso orgulho é despropositado e mais uma prova de vosso coração pecaminoso. Não sabeis que foi o orgulho que causou a queda de Lúcifer dos céus? – Disse Shura, calmamente, empurrando um bocado de pão na boca de Camus. – O orgulho é o pai de todos os pecados, por assim dizer.

Prendendo o pão entre os dentes, Camus pareceu mastigar, até que o cuspiu para o lado. Murmurou, com distinta amargura:

— Gostaria, sim, de provar logo de vossa lâmina justiceira, de uma vez.

Shura suspirou. Encarou-o de modo quase inexpressivo:

— Não hei de arriscar-me a enterrar vosso corpo por aí. Milo há de procurar-vos pelos quatro cantos do mundo, quando der conta de vosso desaparecimento.

— Por isso estamos indo para o mar, não é? Pretendeis atirar meu cadáver às águas profundas e revoltas, onde seres marinhos darão fim a esta carne.

— Parece muito cruel expondo dessa forma, mas, vede... nada sentireis.

Camus suspirou pesaroso, derrotado. O gargalo do vinho foi-lhe oferecido. Desta vez não negou. Decidiu não mais se manifestar, até porque com o frio que fazia, melhor seria economizar sua energia. Shura ergueu-se e voltou para perto do fogo, alimentado pelo fiel cocheiro. Este serviu vinho ao amo. De quando em quando, olhava para o rapaz preso à roda, em condições lastimáveis. Via o ar condensar-se a cada frêmito de frio do pobre prisioneiro. Tudo com que o cativo podia contar era com suas ordinárias vestes de servo, uma túnica puída e fina, calças esgarçadas e botas destoantes de todo o miserável conjunto.

— O que é que tanto olhas o indigente, Arlanc?

O cocheiro teve um sobressalto assustado ao ouvir a rude pergunta do marquês. Temeroso, balbuciou:

— P-perdão, meu senhor... e-eu... eu tive a impressão de que ele padecia de frio...

— Não te incomodes com ele. Logo logo, tais padecimentos desaparecerão de sua vida pérfida. – Lançou o nobre, virando-se para encarar Camus, sem um resquício de compaixão.

De fato, o jovem tiritava, seu corpo convulsionava de quando em quando pelos rigores do frio. A névoa cobria os campos e o canto das aves noturnas aumentava a ambientação feérica. Shura cobriu-se com um pesado manto de pele. Aquecia-se ainda mais com o vinho, ao passo que Camus sofria estoicamente, sem nada pedir, sem nem ao menos dirigir-lhe um olhar.

Alheio ao martírio do filho dos Turenne, o espanhol bocejou seguidas vezes. A madrugada avançava. Esticou-se sobre o leito improvisado, cobrindo-se com espessos mantos. O cocheiro fez o mesmo, feliz por finalmente poder descansar.

Respirando com dificuldade, sentindo o nariz dolorido, Camus pensava como não seria libertador morrer de frio. Sim, até o romper da aurora, se ele continuasse naquela situação...

Talvez fosse mesmo o que Shura desejasse.

Talvez não quisesse sujar sua lâmina com o sangue de um pederasta.

Entregava-o aos rigores da natureza. Tudo que precisaria fazer seria descartar seu corpo no oceano, como planejava.

“Milo”, pensava com profunda tristeza. Teve vontade de chorar, porém, seria uma péssima ação naquele frio. A dor em suas narinas aumentaria, e suas faces congelariam dolorosamente. Gemia baixinho, o som saindo trêmulo pela austereza do clima.

“Milo... que teu amor me aqueça. Que a graça de Deus me aqueça. Que o amor de meu pai, de minhas irmãs, de Afrodite, me aqueçam... com todas agruras que experimentei nesta existência, eu conheci a felicidade convosco... conduzi-me ao fim em meio ao calor de vossas doces recordações...”, esforçava-se em pensar. Sabia que se dormisse, poderia não mais acordar. Seria libertador. Não seria?

Shura já havia dado sua palavra de Cavaleiro que não entregaria Milo. A Palavra de um Cavaleiro era o que de mais honroso havia na vida de um... neste caso, que teria a temer?

Afrodite.

Pobre Afrodite.

Deveria estar se sentindo péssimo por ter tido seus segredos desvendados pelo Marquês de Aguilar. Quanta dor deveria estar experimentando!

E Milo...

Como sofreria com seu desaparecimento. Nunca viria a entender! Talvez Shura e ele continuassem mesmo a ser amigos, e seria Shura mais um a carregar um segredo até o fim de seus dias...

Tossiu um pouco, a garganta e o peito doendo pelo ar gélido da madrugada. Foi quando viu o cocheiro levantar-se. Viu-o pegar dos mantos desprezados por Shura. Trouxe-os até a carruagem. Quando Camus percebeu que ele fazia menção de cobri-lo, protestou, em voz baixa:

— Não, não faças isso! Se me ajudares, teu amo há de punir-te!

O cocheiro, homem de seus trinta e poucos anos, marcado por chagas de alguma doença antiga, deu um sorriso falho, no qual alguns dentes faltavam. Sussurrou ao prisioneiro:

— Arlanc não se importa. Arlanc já foi muito castigado na vida. Mais um castigo não fará diferença.

— Não, ele pode causar-te um mal irremediável, não me ajudes! – Camus implorava em vão, o homem já o envolvia com o abrigo quente, confortável como um sonho.

— Não te preocupes, pobre rapaz. Mestre Shura não há de se livrar do único cocheiro que trouxe consigo. Precisa de mim para levá-lo a Marselha.

— Marselha... – Murmurou o ruivo. – É para lá que vamos...

O cocheiro assentiu. Piscou um olho.

— Espera. Dar-te-ei um pouco de vinho. Ajudar-te-á a manter-te aquecido.

Camus não pôde evitar de sorrir. O homem foi, pé ante pé, pegar um jarro, e voltou, abaixado como quem comete um crime, para junto da carruagem. Posicionou o gargalo na boca do prisioneiro e deu-lhe de beber. O ruivo bebeu com avidez, quase chorando de felicidade ao sentir o interior de seu corpo expandir-se em deliciosa calidez.

— Muito obrigado, Arlanc. És um bom homem. Um dos melhores que conheci nesta vida, prestes a findar-se... mas, responda-me... o que tem em Marselha? Por que Shura está se dirigindo para lá? O intuito dele é livrar-se de mim... no mar. Há cidades mais próximas com mar. Por que me levaria para Marselha?

— O senhor não sabe? – Os olhos negros de Arlanc arregalaram-se sinistramente, o que semeou ainda mais pavor na alma de Camus.

— E-eu sei que ele... quer dar cabo de minha existência...

— E é o que o Mestre Shura pretende. O senhor perguntou-me o que tem em Marselha. Arlanc responder-te-á: AS GALÉS.

Camus sentiu o coração parar de bater. Arregalou os olhos, à beira de um estado de choque.

As GALÉS.

Os NAVIOS-PRISÃO.

Os que nele eram encerrados, em geral homens condenados, possuíam apenas dois destinos: morrerem durante as viagens, vitimados pelos castigos ou pelas condições sub-humanas de trabalho... ou desaparecerem para todo o sempre, longe de qualquer contato com a civilização, sepultados para sempre nos porões infernais dos navios que nunca, nunca, jamais deixavam de singrar as vagas infindas dos oceanos...

As galés... Shura entregá-lo-ia às galés!

Neste momento, Arlanc foi golpeado pelas costas, um vigoroso chute fê-lo quase voar para perto de Camus, que sequer percebera a aproximação de Shura, tão abismado estava com aquela revelação.

— P-perdão! Perdão, meu senhor! – Berrou o cocheiro, tentando proteger o rosto de novos golpes, trêmulo. – Eu tive pena do pobre rapaz, morrendo de frio!...

Shura agarrou-o pela gola da túnica e jogou-o ao chão novamente.

— Volta para teu lugar, rato imundo. – Ordenou ao cocheiro apenas, fitando Camus com imenso desprezo.

— Covarde! Agredis um homem que somente quis ser piedoso! – Rosnou o ruivo, debatendo-se, querendo mais que tudo libertar-se para acertar o espanhol.

— Poupai vossos esforços, ou derrubareis o manto que tão gentilmente recebestes. Deixarei que fique com ele. – Virou-se para voltar ao acampamento. – Também posso ser piedoso, bem o sabeis.

— Vossa prova de piedade é entregando-me às galés, ao invés de matar-me?!? – Bradou Camus.

Lentamente, o marquês voltou-se para ele.

— Uma vez nas galés, vossa existência terá desaparecido da vida de Milo.. Não era este nosso acordo?

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Notas finais
Shura pretende entregar Camus como prisioneiro às galés, navios movidos a remos, tipo de punição que inclusive existiu no Brasil até 1891. Mais sobre isso veremos nos próximos capítulos. Enquanto isso, Milo continua adormecido no castelo, e Afrodite, preso em Paris. Giuseppe, porém, crê ter visto algo de muito suspeito... por que o "criado" castigado do misterioso nobre disse-lhe "Milo"? Muitas emoções nos aguardam nos próximos capítulos... até lá! Obrigada por prestigiarem! Forte abraço, e tenham uma boa semana!