Dame Jolie
3 Ruptura
Notas iniciais

Turenne, Borgonha. França, 7 de fevereiro de 1172
O castelo do duque de Borgonha está em polvorosa. Sua esposa encontra-se em trabalho de parto há pelo menos angustiantes oito horas. Criadas correm para lá e para cá com baldes de água limpa e quente, panos alvos, ervas, infusões e tinturas variadas. Os gritos da duquesa ecoam pelos frios corredores, cortando o coração do ansioso nobre; ele se põe a andar em círculos por seu escritório, observado pelo amigo de longa data, o conde de Auvergne, que se encontra acomodado em uma luxuosa poltrona, e a todo custo tenta acalmar o outro:
— Tem fé, homem! Sossega-te, vamos!
— Mas Henri, ouve! Maude certamente está em grande sofrimento... padece tanto, coitadinha! – Teobald enxugava o suor da testa com um fino lenço, malgrado estivessem em pleno inverno!
— Ela está sofrendo o destino que o Senhor Nosso Deus impôs a toda descendência feminina de Eva, meu caro, acalma-te. Pauline passou por isso três vezes, e lá está, firme e forte. Meus filhos, todos machos, não me deixam mentir.
— Queira Deus que a exemplo de tua senhora seja eu agraciado com um varão...
Um grito mais próximo do aposento em que se encontravam veio de encontro a seus ouvidos. Não era a voz da duquesa.
— Um menino! Senhor duque, é um menino, um menino!!! – a serva bradava, anunciando as boas novas.
Um enorme sorriso varreu toda a aflição do rosto rubro de Teobald II.
— Deus Todo Poderoso!!! – exclamou, não cabendo em si de euforia.
— Meus parabéns, amigo! – felicitou o conde, indo até ele para apertar-lhe a mão trêmula – foste abençoado como suplicaste, não vês? Andemos, vamos ver o herdeiro já!
Tomado de imensa felicidade, o duque assentiu e ambos se dirigiram para o quarto onde ocorria o parto. Uma criada pôs-se diante da porta antes que os dois nobres entrassem. Em seu rosto, uma preocupação que gelou o espírito do senhor.
— Meu senhor, esperai um pouco, peço-vos... pois que há mais um a caminho... – pediu a jovenzinha.
— Mais um? Que dizes!?
O conde imediatamente interpretou aqueles dizeres, pondo a mão no ombro do companheiro:
— Teobald... são GÊMEOS!
— Gêmeos? – assombrou-se o duque.
A criada assentiu, timidamente. Os dois amigos permaneceram de pé junto à porta, até que em meio aos gemidos da mulher ergueu-se um brado que arrepiou-lhes as espinhas.
— Nasceu, nasceu!!! – gritou a parteira, exultante – Deus seja louvado!
Quando eles entraram, se depararam com uma tocante imagem: a duquesa, ofegante e vermelha como sua vasta cabeleira, em meio a panos ensanguentados, e dois bebês igualmente rubros, nas mãos da parteira cuja face cansada não escondia o efeito da dura batalha travada.
— Parabéns, senhor duque... Deus agraciou-vos com dois rebentos ao mesmo tempo! – felicitou ela, olhando para o nobre.
— Uma bênção para tua senhora, principalmente! Ter dois filhos de uma só vez, poupando-a das agruras de outro parto! – observou Henri, divertindo-se com a expressão chocada de Teobald II.
— São gêmeos... meninos? São... são dois...?
A anciã balançou a cabeça em uma negativa, sustentando, porém, o sorriso cheio de dentes podres.
— Não, meu senhor. O primeiro foi o menino, e depois veio uma menina.
— Um menino e uma menina?
Seu rosto repuxou-se em um sorriso nervoso. Achou-se contente, mesmo tendo uma menina. Abraçou o amigo, e por pouco não abraçou as servas! Contemplou, de longe ainda, as duas pequenas criaturinhas, chorando alto nas mãos da parteira, que limpava-os apenas para tirar o excesso de sangue. Antes de cortar-lhes o cordão umbilical, contudo, a velha parteira pareceu se deter. Uma sombra passou pelo rosto enrugado, e ela parou de sorrir.
— Alguma coisa errada? – quis saber o duque, percebendo aquela súbita mudança de humor. Não sabia dizer o porquê, mas seu sangue pareceu gelar momentaneamente nas veias ao chocar-se com o olhar vidrado da anciã.
— Que tens? Que viste?
— O que vi… — ela olhou para a duquesa, que estava semi desfalecida. Voltou a olhar o patrão — ...os nós... os nós do cordão... eles...
— O que tem os nós do cordão, mulher?
Ela hesitou, visivelmente amedrontada. Vendo o amigo temeroso por aquela estranha reação, o conde tomou a fala:
— Dize-me, mulher, que viste nos nós do cordão umbilical? Sei que vós, velhas supersticiosas, creem que neles se vê o número de filhos destinado à mulher de quem retiram os rebentos.(* ) Que há de tão assustador nisso, para que perturbes assim o espírito de teu amo?
— Eu... eu vejo 4 filhos... em toda vida da senhora duquesa...
— Pois muito que bem, isso parece-me muito que bem – disse Henri, impaciente com a careta que virou o rosto da aldeã.
— Mas... mas daqui para frente... nascerão mais 3 meninas...
— Então não são 4 filhos, velha tola, são 5.
— N-não... 4 partos... 4 filhos... – balbuciou a parteira, tremendo.
— Como se deste nasceram DOIS, ignorante?!
— M-meu esposo?... Que se sucede, meu senhor? – murmurou Maude, voltando a si e notando aquele confabular.
O duque acercou-se dela, acariciando-lhe os cabelos sedosos.
— Nada, minha querida, descansa, tão somente. Descansa, pelo bem de nossos filhos.
— S-sim... nossos... filhos... – e pouco a pouco, rendia-se àquele sono monumental.
Puxando a parteira para um canto, Henri sacudiu-a pelos braços magrelos:
— Vamos, velha bruxa, diz-me: que viste assim de tão agourento? Teu olhar esbugalhado não oculta que viste algo sinistro – inquiriu em voz baixa.
— Apenas um dos gêmeos... apenas um dos gêmeos chegará à vida adulta…
— Que dizes?
— A morte prematura está destinada a um deles...
O conde apertou ainda mais os braços da mulher, que sufocou um grunhido de dor. Viu que o duque se aproximava, ansioso.
— Que viste nos nós? Diz, não importa que seja, ouvir-te-ei.
— Não ireis gostar do que tenho a dizer-vos, meu senhor...
— Gostarei menos ainda se mo esconderes. Se não queres ser punida, abre essa matraca desdentada agora mesmo! – Teobald mostrou-se mais rígido em sua ordem.
Engolindo em seco, a parteira não teve saída senão revelar:
— Vi que a duquesa ainda passará por três partos. Havia três nós... além do primeiro, que corresponde ao que acabei de realizar... porém em um deles havia um corte... simbolizando a morte...a morte precoce...
— Em qual deles?
— No primeiro – respondeu ela, mirando os bebês, agora nos braços de outra criada, junto à mãe – Um dos gêmeos...
— Mas... qual deles?
— Chega, chega de sandices – Henri interrompeu-os, querendo acabar aquele assunto funesto.
— N-não tenho como saber, meu senhor – respondeu a mulher ao duque — ... não aqui... não AGORA.
— Pago-te o que for preciso.
— Por todos os santos, Teobald, não estás acreditando nisso, estás? – exasperou-se o conde, erguendo as mãos.
O duque, ao contrário do cético e viajado Henri, ainda mantinha lugar em sua devoção para as antigas crenças de sua terra, crenças que sobreviviam mesmo à dominação cristã, a bem dizer, recente em relação às tradições regionais... e místicas.
— Se algo que posso saber, exijo saber – insistiu, fitando maniacamente a velha parteira.
— Dai-me sete dias e seis noites. Voltarei com vossa resposta.
— Cristo – exclamou o conde, sacudindo a cabeça em reprovação.
— Estarei esperando, serás recompensada, não importa o que me digas – prometeu o duque.
A anciã fez uma mesura e voltou para cuidar dos recém-nascidos. Choravam ruidosamente, esperneando. No peito de Teobald II conviviam a ternura que já brotara por seus herdeiros... e o temor pelo destino a eles reservado.
*************
O prazo para a revelação expirara.
A lua cheia distribuía sua luz argêntea por toda Turenne, entranhando-se pelas frestas das janelas fechadas do grande salão onde Teobald II aguardava a insólita visita. Henri observava-o, preocupado com o amigo. Não lhe agradava que o duque, tão influente e poderoso, ainda fosse dado a tais superstições... felizmente, era um tempo em que a Igreja àquilo ainda fazia “vista grossa”, tolerando com indulgência as crendices que não interferissem nas polpudas contribuições.
Batidas na porta se fizeram ouvir.
— Entra – ordenou, depositando na mesa o cálice de conhaque que o aquecia naquela noite gelada.
A pequena anciã adentrou o salão. Um gabinete contíguo ao escritório do nobre, guarnecido de antigas tapeçarias e mobiliário de qualidade.
— Que resposta me trazes, velha feiticeira? Dize-me, e dar-te-ei o pagamento sem demora – foi direto ao assunto.
Suspirando longamente, a parteira começou, segura do que revelava:
— Meu amo e senhor, eu vi a vós em um sonho límpido como a água cristalina... o senhor e suas quatro filhas.
O duque começou a respirar mais rapidamente.
— “Filhas”? QUATRO? E… e meu FILHO? Meu filho VARÃO?
— Vi vossa esposa baixando à terra, e por ela pranteavam o senhor e quatro meninas... apenas... meninas...
— Não... não! – gemeu o duque – Dizes que... que meu filho...
— Não vi nenhuma criança vestida como menino convosco.
— NÃO! – o duque levou as mãos à cabeça, aflito – Que querer dizer?
— Teobald! – o conde chamou-o.
— Acaso dizes que meu único herdeiro HOMEM perderá a vida antes de me suceder? Que será de meu clã?!?
— Perecerá ainda criança... eu sinto muito, meu senhor.
— NÃO!!! – o nobre virou-se, as mãos na boca, aturdido. O amigo pegou a bolsa de moedas em cima da mesa e atirou-a à mulher.
— Vai-te logo daqui! Eu deveria varar-te a garganta com minha espada, bruxa maldita! – ordenou, colérico.
— Mas... m-meu senhor... e-eu apenas...
— SOME, CÃO DOS INFERNOS! JÁ!
Quase tropeçando na própria saia, a velha saiu correndo, garantindo a vida e o dinheiro. O conde amparava o tenso duque, dizendo:
—Que querias tu? Sabes como são agourentas tais figuras supersticiosas! Ah, eu deveria tê-la sangrado, deveras, por ter te deixado neste estado lamentável!!!
— Henri... o meu filho... e-eu não terei um filho homem a me substituir... minha linhagem... minha casa... está perdida – balbuciava Teobald II, quase em choque.
— Tolice! Vais de fato acreditar em uma pobre mendiga desdentada? É boa parteira, e dessa fama se vale, decerto, para se fazer passar por adivinha, oras...
Sem nada responder, ainda com o olhar aparvalhado, Teobald II deixou o recinto e foi até seu quarto, no mesmo corredor. Abrindo intempestivamente a porta, assustou a esposa e a criada que cuidavam dos dois bebês, junto ao seio da mãe.
— Querido? Algum problema? – perguntou Maude, os olhos verdes como esmeraldas fitos nele.
Aflito, ele não sabia se olhava para ela... ou para Camus... ou para Camille.
Camus e Camille.
A distinção dos dois pequenos seres somente se fazia pelas cores das mantas: Camus dormia envolto em uma de tecido azul escuro, e Camille, em uma de cor marfim. Os rostinhos adormecidos, a penugem avermelhada por sobre as frágeis cabecinhas... Camille fazia que ia chorar, enquanto Camus permanecia sereno.
— Camus não me dá trabalho algum. Já Camille – riu levemente a duquesa, enternecida com seus tesouros.
Cedendo a um meio sorriso, o duque se aproximou do leito. Acariciou o rosto da esposa tão amada, e contemplou, amorosamente, os filhinhos.
— Meu senhor... aconteceu alguma coisa?
Ele a beijou delicadamente nos lábios finos e vermelhos antes de responder, num sopro de voz:
— Não, minha adorada. Não aconteceu nada... nem vai acontecer.
*************
Sete anos haviam se passado. Ainda que por vezes a nefasta previsão sobre Camus lhe viesse à mente, e principalmente, figurasse em pesadelos, onde o duque via sua terra devastada e em meio às brumas do esquecimento, a vivacidade do menino não o deixava esmorecer. Ele apegava-se ainda à fé, rezando com fervor, e ajudando a Igreja com generosidade quase desmedida. Como Jesus crescera em graça e sabedoria, assim cresciam seus três filhos, os gêmeos Camus e Camille, e as menores Hilda, com cinco anos, e Marin, com apenas um ano de idade. Por vezes, ele se pegava olhando apreensivo para Camus, pensando se não teria um outro filho menino... apenas para fazer companhia ao seu primogênito, apenas isso, tentava se convencer... então aqueles tétricos pensamentos eram afastados para longe, ante a imagem de sua bela e saudável prole, bem como a da formosa esposa, cada dia mais linda e cheia de vida. Parecia ficar ainda mais bela a cada filho que nascia! Mesmo naqueles tempos em que o amor no casamento era como um trevo de quatro folhas em um humilde jardim, o duque nutria pela mulher um amor raro e verdadeiro.
As cartas que recebia de seu grande amigo Henri fortaleciam aquela paz que buscava estabelecer através do passar do tempo, que se esvaía sem que nada de ruim acontecesse. O conde Auvergne se preparava para partir por mais cinco anos em missão na Grécia, junto com o filho Milo. O mais novo, Aiolia, havia acabado de ser entregue aos cuidados de um preceptor beneditino, como era costume à época: quando o menino completava sete anos, fosse pobre fosse nobre, era entregue aos cuidados de uma outra família, para aprender um ofício, ou a um mosteiro, para aprender as letras, as ciências e filosofia. Milo ficara como escudeiro de um tio por dois anos, mas retornaria para ir com o pai ao Oriente, pôr em prática o que aprendera. Eram tempos em que se crescia depressa, pelo menos em responsabilidades... antes de partir para aquelas terras exóticas, entretanto, o conde de Auvergne prometeu ir a Turenne para participar da grande caçada de outono, evento tradicional na região.
Ao contrário do que muitos pensam, as caçadas eram praticadas tanto pelos humildes quanto pelos ricos, com a diferença de que as melhores áreas de caça, bem como os animais maiores e mais valiosos estavam reservados unicamente aos poderosos. Qualquer infração a essa regra era severamente punida, de modo que as zonas florestais acabavam por ser bem demarcadas. Em certas ocasiões, porém, nobres e plebeus podiam participar em conjunto de uma caçada mais cerimonial, como por exemplo as que marcavam início de alguma estação do ano. Delas participavam tanto homens e mulheres. Entretanto, apenas os homens podiam pôr-se em perseguição direta às feras, acompanhados de seus fiéis sabujos e mastins. As damas iam mais para passear em seus cavalos paramentados, mostrar-se ataviadas em busca de um olhar mais interessado dos gajos presentes e deles chamar a atenção...
Camus participava das caçadas desde os 4 anos de idade; as meninas somente o poderiam fazer a partir dos 8 anos. Quando voltava, contava as peripécias do dia às irmãs, que ouviam maravilhadas, ardentemente desejando fazer daquele mundo de aventuras em meio à natureza.
Era um acontecimento e tanto! Em cada uma das quatro estações do ano, nobres e plebeus de várias regiões se reuniam em Turenne, rodeada por uma extensa e cerrada floresta temperada. Às seis da manhã, realizavam um banquete à moda de piquenique em uma fresca clareira; fartavam-se com pães, queijos, presuntos, carnes, peixes secos, bolos confeitados, leite, vinho, cerveja. Músicos animavam ainda mais o ambiente com canções alegres, preparando os espíritos para a recreação que duraria todo um dia. A caça, diferentemente do que se verificou séculos depois, naquele período servia tanto para questões de segurança, ao livrar as imediações do vilarejo de possíveis feras perigosas na concepção deles, como para conseguir carne, pele, gordura para variados usos. A questão da vaidade humana em subjugar as criaturas selvagens obviamente já se encontrava presente, porém ela se tornaria a única razão para a atividade, anos mais tarde...
Finda a refeição em conjunto, soltavam os cachorros em busca de pistas... alguns traziam fezes secas para que seus donos averiguassem que tipo de animais haveria nas imediações. E então partiam mata adentro, deixando as mulheres e alguns mais idosos no local, que assemelhava-se a um verdadeiro acampamento.
O pequeno Camus corria feliz, mais contente por poder enfim se lançar àquela liberdade de assim poder fazer do que propriamente por caçar – sempre tinha tantas coisas a fazer, a treinar!, não era fácil ser primogênito de um duque poderoso... – a verdade é que ele até tinha penas dos bichos. Mas nunca que falaria aquilo a ninguém, seria ridicularizado e talvez punido pelo pai... há um ano, seguira a trilha de um pequeno cervo, e ao se deparar com o animal, pegou seu arco e flecha... porém, não teve coragem de atirar. Achou-o tão belo, à beira do lago iluminado pelas réstias que varavam as copas escuras das árvores, que ficou ali, apenas admirando... ao ouvir as vozes de outros caçadores se aproximando, apressou-se em espantar o cervo, fingindo que o perseguia. Conseguiu afastá-lo dali.
— É uma pena, senhor Camus, quase o pegou – lamentou-se Marcel, um rapaz loiro, filho de um conde da região, que o acompanhava como pajem.
— De fato, infelizmente ele foi mais rápido que eu.
— Não fiques triste, és pequeno ainda, só de ter podido seguir a trilha de um bicho tão veloz, já foi grande feito.
— Deveras... talvez seja melhor eu me contentar com um coelho, talvez – concordou o ruivinho, do alto de seus seis anos.
— Sim, venha comigo, no verão passado havia vários ao norte daqui! – encorajou-o o mais velho, e foi seguido pelo menino, satisfeito em ter livrado o cervo.
Ao cair da tarde, os caçadores retornavam com seus prêmios, e realizavam um grande banquete num dos átrios do castelo, onde se assavam as carnes de alguns dos animais caçados. Bebia-se, dançava-se, em suma, um dos raros momentos de descontração plena naqueles dias difíceis em que se era tão difícil sobreviver... aldeões participavam da festa e era um momento também de fazer alguns pedidos ao grande senhor Teobald II, que também o ouvia de seus vassalos, nobres de outras vizinhanças.
Quando Camus e Camille completaram sete anos, o duque de Borgonha viu que era hora de decidir para onde enviaria Camus. Estava em dúvida se o mandaria para um treinamento militar ou se o mandava para receber instruções mais intelectuais. Passeando a cavalo com o conde Henri d’Auvergne, recém chegado para a caçada do dia seguinte, quis ouvir dele a opinião, pois que o amigo já havia mandado dois de seus filhos para formação.
— Milo está há dois anos com um de meus irmãos, em Lyon, aprendendo os ofícios de cavaleiro. Aiolia acabei de enviar para o mosteiro do tio, em Alsácia. Achei-o mole demais para as artes da guerra, muito embora não me parecesse lá muito esperto, também – ria-se – Já Milo, não. Desde bem novo é ativo, combativo, belicoso até. Não vi outra saída para o diabinho.
— Saiu ao pai, é o que vejo – brincou Teobald, que lembrava-se de que o companheiro possuía as mesmas características na infância – Em teu caso é também bem providencial, Henri. Tens vastas tropas a controlar. Um de teus filhos pelo menos teria que ser também um guerreiro para cuidar delas daqui a um tempo.
— Pretendo que Aiolia também o faça, mas o pobre além de ser débil intelectual o é fisicamente... talvez daqui a uns 3 ou 4 anos eu o envie para ser escudeiro também.
— Fazes muito que bem. Quanto a meu Camus... percebo-o muito inclinado para as ciências do saber, e não do lutar; ainda que não seja exatamente mole como teu Aiolia, é, contudo, um tanto franzino...
— Vós o mimais em demasia, tu e tua esposa. Quem vê o pequeno e a irmã não sabe quem é quem. São paparicados igualmente, de forma que chegam a ser idênticos...
— São gêmeos, não haveria de ser de outra forma – gargalhou o duque, apressando o trote rumo a uma colina. O conde o seguiu.
— Tu me entendeste. Tens que endurecer o trato do pequeno. É esperto, vivaz e ágil: acho que daria, sim, um ótimo escudeiro. Por que não o envias para onde está meu Milo? Falo com meu irmão. Recebê-lo-á como se fosse de nossa própria família, eu o garanto.
Pararam no cume, de onde tinha-se a vista do castelo de Turenne, um dos lados mergulhado nas sombras vespertinas. As montanhas escarpadas emergiam da névoa outonal.
— Parece-me uma ótima ideia. Creio que já tenho, portanto, minha decisão – sorriu, satisfeito.
— Se quiseres, levo-o daqui ao término das caçadas – ofereceu-se o conde d’Auvergne.
— Eu agradeço de todo coração, meu bom amigo.
Decidido o destino do primogênito para os próximos anos, o duque sentiu-se leve. Tinha certeza de que o filho teria uma educação esmerada como cavaleiro no seio daquele clã de guerreiros nobres e honrados ao qual pertencia Henri. Seria bom também crescer ao lado do viril menino d’Auvergne, e não ficar sempre cercado de garotas, como até então vivera o ruivinho.
Naquela noite recolheram-se cedo para acordar às quatro da manhã e preparar-se para o grande evento. O castelo recebia inúmeras pessoas que haviam vindo para a ocasião; familiares do duque, nobres de perto e de longe, alguns clérigos, e um representante do rei de França, que se abstivera de vir em virtude de uma constipação.
Camus arrumava suas coisas para o grande dia, quando ouviu discretas batidas na porta de seu quarto, o qual ocupava sozinho, por ser o único filho homem. Abriu-a:
—Camille? Que fazes aqui? É muito tarde, deverias estar dormindo.
A menina entrou, sorridente. Camus fechou a porta, já revirando os olhos. Conhecia aquela expressão da espevitada irmã: tinha alguma traquinagem em mente.
—E Hilda?
—Dorme profundamente, contei-lhe algumas histórias bem sonolentas para vir ter contigo – respondeu a menina, sentando-se na cama do irmão, sem a menor cerimônia.
— Que se passa?
— Camus, lembra quando trocamos nossas vestes para enganar nossos pais no batizado de Marin?
— Como não iria lembrar... tens cada ideia – suspirou o menino, voltando-se para seus apetrechos de caça.
— Eu me diverti muito, foi engraçado enganar toda aquela gente, inclusive nossos próprios pais!
— Não posso afirmar o mesmo, vestir roupas de menina não foi lá muito agradável para o primogênito do duque – retrucou Camus, imitando a voz do pai. Camille caiu na gargalhada.
— Pois eu achei bem divertido ser um homenzinho, papai tratou-me tão diferente! Pôs-me naquele pônei ao voltarmos e deu-me palmadinhas nas costas, e também ofereceu-me doces e vinho...
— A mim só mandou-me que voltasse com mamãe e acabei tendo que fingir que cerzia. Furei meus dedos – espalmou a mão diante da garota, que riu ao ver os furinhos nos dedos.
— És um desastrado, eu sempre consigo fingir ser um menino, por que tu sempre tens dificuldades em representar teu papel em nossas farsas?
Ele deu de ombros.
— Talvez porque fique receoso de sermos pegos em tais travessuras. Dar-nos-iam uma surra daquelas... como homem, sou responsável por tuas sandices.
— Admita, tu te divertes! – ela deu-lhe um tapinha no braço. Ele riu, retribuindo.
— Escuta, Camus. Tenho vontade de ir à caçada. Nunca o fiz.
— Ano que vem farás oito anos e então poderás ir.
— Mas nunca poderei participar como vós, homens, correndo atrás dos bichos, embrenhando-me na floresta como ouço vós contando as histórias perto da fogueira, quando voltais das caçadas – falou a ruiva, balançando os braços finos metidos na camisola longa e branca.
— Camille, que queres? Estás a planejar algo...
— E se eu fosse em teu lugar?
Camus encarou a irmã, estupefato. Balançou a cabeça, quase bagunçando os cabelos vermelhos na altura dos ombros, assim como os da menina.
— Estás louca? Nunca! – respondeu, sério.
Ela fez um muxoxo choroso:
— Por quê?!?
— Isso não é como trocarmos de lugar para ir a um batizado, ou a um passeio de cavalo, ou a uma festa dos aldeões... é muito perigoso, Camille!
— Qual perigo tem? Acaso te atracas com as feras, ou as ataca com espadas ou com lanças?
Esticando o beicinho, ele respondeu:
— Ainda não... só pego uns coelhos... bom, peguei uma lebre quase do tamanho de um cachorro, uma vez.
— Vês? Não há perigo algum! Por favor, meu irmão, permita! Tu ficas no castelo, em meu lugar; visto-me como tu e vou à caçada de outono amanhã. Será formidável! – insistiu Camille, segurando as mãos do menino, ainda resoluto em negar aquela farsa.
— Por que não podes esperar até que possas ir de maneira segura?
— Tolice! Nunca poderei participar como vós, homens... e, Camus, estamos crescendo... logo, logo, não poderemos mais fazer nossos jogos de trocar de papeis.
— Assim eu o espero com ardor – replicou ele, afastando-se dela.
— Camus, por favor! Imploro-te! Se o permitires, eu prometo que será a última vez que proponho estas pequenas comédias.
Um tanto desconfiado, ele tornou os olhos avermelhados para ela, que unia as mãozinhas em súplica.
— Última vez?
— Sim.
— Tu o prometes, Camille?
— Sim, meu irmão, eu prometo, em nome da Virgem Santíssima, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristinho na Manjedoura...
Ele a fitou, incrédulo.
— Para sempre? Verdade?
— Sim, meu irmão... última vez.
A expressão dura do menino abrandou. Ele descruzou os braços. Confiante naquela promessa, resolveu ceder. Como sempre fazia, aliás... adorava a irmã, e tinha com ela estranha sintonia. Eram tão cúmplices que a alegria de um era a alegria de outro, e vê-la eufórica o enchia de cálida felicidade, ainda que fosse de sua índole mais discreta disfarçar.
“Unha e carne”, diziam. Os gêmeos do duque... tão idênticos que enganavam até mesmo os próprios pais.
— Então devemos nos trocar agora mesmo – disse ele, resignado.
Ela assentiu, sorrindo feliz. Pegou uma túnica que o irmão lhe estendia, foi até um canto, trocou de roupa, e entregou a camisola branca ao menino.
— Deixa-me te pentear, meu irmão, tens os cabelos embaraçados demais para uma pequena dama – ofereceu-se, ao vê-lo já com a vestimenta feminina. Prendeu o riso, sem grande sucesso. Ele franziu o cenho. Não importava quantas vezes fizessem aquela travessura, Camille sempre se dobrava de rir do pobre Camus... deixou-se pentear pela irmã, e logo estavam com os penteados exatamente iguais, sedosos e graciosamente arrumados.
— Não fiques tão sério, ou vão desconfiar – ela lembrou; à medida que o irmão crescia, percebia-o cada vez mais taciturno. Como o temperamento dela era completamente o inverso, havia de vigiar aquilo...
— Não será difícil, qual é minha grande aventura amanhã: bordar, coser ou brincar com minhas irmãzinhas?
Camille riu, piscando um olho.
— Tens sorte. Como encontram-se muitos visitantes em Turenne, a mãe ordenou que eu fique no quarto contando histórias a Hilda e a Marin, e depois rezar...
— Não sei contar histórias – resmungou o mais velho, ajeitando o longo camisolão.
— Bah, elas são pequenas, Marin só tem um aninho, nem vai entender nada, e à Hilda, conta qualquer besteira de príncipe salvador de donzelas aprisionadas em cavernas de ogros maus. Só não a assustes em demasia, ela desata a chorar mais que a própria Marin.
Ele levantou uma sobrancelha ante a agudeza de espírito da irmã. Admirava-a, em secreto. Seria tão inteligente quanto ela? Desejava-o, ardentemente, em segredo, que o fosse.
— Está certo – murmurou ele, de frente a ela – Toma cuidado... Camille.
— Digo-te o mesmo, aposto que precisarás mais do que eu... – respondeu ela, o olhar maroto arrancando um tímido sorriso do sisudo garoto. Camille beijou-o no rosto. Camus segurou-a pelo pulso, o que a assustou um pouco. Não era algo que costumasse fazer.
— Cuida de ti, irmã. Espero que te divirtas. Não te metas com os javalis – disse, em um fio de voz.
— Assim o farei. Trarei histórias ainda mais empolgantes que as tuas... e quem sabe uma raposa!
Ele riu levemente. E deixou seu próprio quarto, agora ocupado até a manhã pela irmã, que dali sairia para a grande aventura de sua vida. Foi para o aposento das meninas, cruzando o corredor iluminado por archotes. Entrou, pé ante pé, olhando de relance o leito onde dormia Hilda e o berço onde estava a pequena Marin. Dormiam profundamente. Meteu-se na cama da irmã gêmea, agradando-se do delicado perfume de rosas ali presente.
Lamentava não participar daquela caçada. Gostava tanto de participar delas, mais do que ir aos barulhentos festejos de aldeões no pátio, ou aos banquetes formais do pai. Mas... para deixar a querida Camille feliz, valeria a pena.
Pensando assim, não demorou a dormir, ao lado de bonecas de pano ricamente bordadas.
*************
As cornetas e trombetas soaram no alvorecer daquele 28 de setembro de 1179.
Os cães dispararam em meio às árvores, ziguezagueando por entre os troncos por onde subiram, assustados, alguns pequenos animais. O ruído das folhas secas partindo-se sob as vigorosas pegadas de sabujos e caçadores ouvia-se por todos os cantos. O pajem Marcel sinalizou para que o herdeiro do duque o acompanhasse. Camille, vestida com túnica verde musgo e calças marrom escuro, com um colete dourado por cima assentiu, o coraçãozinho batendo rapidamente. Seguiu-o, carregando uma azagaia (**) de puro ouro na mão esquerda. Era canhota como o irmão.
Adentrou a floresta, afoita com a aventura. Nunca estivera ali... achou-a mais misteriosa do que o que os contos populares sugeriam. O dia estava claro, porém nublava pouco a pouco, escurecendo os caminhos em alguns pontos mais fechados.
— Camus! – o duque chamou. E surgiu em meio das folhagens, o conde de Auvergne e mais dois nobres acompanhando-os. Um deles era seu tio, Durval, duque da Aquitânia, e o outro, o conde de Toulouse, chamado de Cristal por usar sempre adereços do mineral.
— Papai... digo... senhor meu pai – lembrou-se de disfarçar a voz, como o fizera até agora, alegando uma irritação sazonal (*** ).
— O que estás tramando?
A menina tremeu, segurando com toda força a respiração.
— Esqueceste teu arco e tuas flechas, pequeno Camus. Não deves contar apenas com a azagaia – disse Henri, simpático, estendendo-os à criança. Ela respirou, aliviada, e trespassou a bolsa com as armas pelo corpinho.
— Obrigado, senhor conde.
— Diga, pequeno Camus, não gostaria de te tornares um cavaleiro como meu filho Milo? Seriam bons amigos, tu e ele, ainda por cima.
Camille estremeceu levemente. Estava tratando do futuro de Camus ali! Queria ele ser um cavaleiro? O que deveria responder? A pequena, não obstante, era sagaz para a idade que tinha: sabia que uma vez que lhe falavam naqueles termos, é porque o duque havia decidido o destino do irmão. Entristeceu-a a constatação de que aproximava-se o momento de se separar de Camus. Durante pelo menos 7 anos iria ele ficar longe de Turenne, aprendendo algum ofício para a vida adulta.
— Que tens, pequeno? Não te agradas da proposta de teu padrinho? – indagou o pai, carinhoso, porém um tanto firme.
— De forma alguma, senhor meu pai. Seria uma honra poder me tornar um guerreiro ao lado do filho do nobre senhor conde – a garota apressou-se em dizer.
A voz fanha intrigou o pai. Conhecendo, porém, a frágil compleição do filho para as viradas das estações, não deu maior importância. Curioso que Camille não tinha tais vulnerabilidades.
— Andreas também já se encontra em treinamento, não é mesmo, Durval? – indagou Teobald II.
— Sim, há cinco anos; já ascendeu a cavaleiro tem alguns meses. Recebo boas notícias de seu desempenho – respondeu o duque, cujo filho, primo de Camus e Camille, se formava como guerreiro nas distantes terras de Flandres, no extremo norte da França. Durval era o terceiro irmão de Teobald II, e controlava a região da Aquitânia. Sua influência em França somente perdia para o irmão, e possuía dois filhos, Andreas e Surt. O segundo, ao contrário do mais velho, fora enviado para receber educação em um mosteiro em Bordeaux.
— Então, meu Camus será um guerreiro, como o primo Andreas, e meu filho Milo. É um quadro promissor, o de nossas famílias – comentou o conde d’Auvergne, sem perceber que os outros dois nobres o olhavam de soslaio, repletos de despeito. À viva Camille aquilo não passou despercebido, e ela não gostou nada. Apreciava o conde, ele era como um tio para ela e seus irmãos, muito mais que seu tio de sangue, o frio e arrogante Durval. Não se lembrava bem do primo Andreas, mas era capaz de ser igual ao pai... e se Milo, a quem também não conhecia, fosse igual ao pai, havia de ser um excelente rapaz. Quem sabe, desse até um bom marido no futuro! O conde tinha lindos olhos azuis, o jovem Milo havia de tê-los também...
“Isso não é hora para pensar nisso, Camille”, pensou, divertida.
A trombeta soou ao longe, mais aguda, um tanto tenebrosa para os ouvidos despreparados da menina.
— Um alce. E dos grandes – falou o conde de Toulose, franzindo as sobrancelhas – Talvez mais de um.
— Camus, não deves ir para onde iremos, siga a trilha de animais menores, compreendeste?
— Sim, senhor meu pai. Eu queria mesmo ir ao encalço de uma raposa.
— Tomas cuidado para não confundi-las com um lobo – gracejou o tio, e ela teve que ter muita força de vontade para não lhe mostrar a língua.
Teobald II virou-se para o pajem, que costumava acompanhar o menino nas caçadas e em alguns folguedos (*** ).
— Marcel, acompanha Camus.
— Sim, meu senhor, não vos preocupeis com o jovem amo.
Dito isto, os mais velhos tomaram caminho oposto, na direção de onde provinham mais alaridos.
O adolescente pôs-se adiante, sinalizando para um caminho mais fechado, por onde alguns cachorros correram, afobados.
— Por aqui, meu senhor! Há uma trilha de raposas... o senhor não queria uma raposa?
— Oh, sim – concordou ela – quero uma raposa!
Seria maravilhoso cumprir a promessa de levar uma raposa para Camus ver do que ela era capaz!
Adentraram a floresta, passando por arbustos de onde revoadas de perdizes emergiram, assustadas. Camille pensou se não poderia pegar algumas; isso, contudo, poderia retardá-la na busca à raposa. E era o que ela realmente queria!
Caminharam ligeiramente por uns longos minutos, os sons das cornetas cada vez se distanciando mais e mais. O sol começara a sair detrás das nuvens escuras e raios dourados varavam a paisagem sutilmente enevoada. Miríades de árvores se distribuíam à frente dos dois quase que de maneira sombriamente uniforme. A Camille parecia que a qualquer momento um monstro ou uma bruxa iria surgir perante eles. Fez-se corajosa, entretanto, seguindo adiante, passando por entre os troncos espessos e repletos de cogumelos. Achou o pajem um tanto preguiçoso; ele se atrasava, ficando para trás... que se sucedia?
— Marcel? Estás cansado, meu caro? Parece-me que até uma formiga é mais ligeira que tu! – brincou ela, saltitando, animada, por sobre as sinuosas raízes.
Sem nada responder, Marcel ia se retardando cada vez mais.
Sem dar importância àquilo, a menina prosseguia, quase gritando de euforia ao ver alguns coelhos. Ainda que não tencionasse abatê-los, ela se deteve por trás de um arbusto apinhado de mirtilos. Até pegou uns para comer. Ficou contemplando os bichinhos, extasiada. De repente, o som do apito de Marcel espantou os animais, e fez Camille se erguer, revoltada por ele ter acabado com a alegria dela em observá-los.
— Por que fizeste isso? Assustastes os animais que eu estava a olhar.
Marcel encarou-a, e soprou uma vez mais o apito; o som não era tão alto, mas aquilo intrigou a garota.
— Que queres fazer? Acaso pretendes atrair algum a…
O impacto de algo pesado, quente e ardido fez a palavra morrer na garganta da menina. Ela caiu imediatamente, sob uma dor excruciante, inédita na curta vida... que permaneceria, para todo o sempre... uma curta vida.
Camille agonizou por apenas alguns segundos, o sangue fluindo escuro de sua boquinha trêmula, aspergindo aquela terra.
Fora atingida mortalmente por uma flecha, mas não uma flecha comum, uma flecha de caça.
Seu peito fora varado pela seta de uma besta (****).
— S-senhor?... – balbuciou Marcel, ao ver a criança estirada. Olhou ao redor, apavorado. NÃO HAVIA MOTIVOS para ficar apavorado, havia?
Mesmo assim, o apito caiu de sua mão. Tremendo muito, ele deu um grito rouco, que quase não saiu:
— So...socorro... o senhor Camus... o senhor Camus!...
Virou-se para correr, contudo, também foi atingido por uma flecha, rápida como um raio. Mais algumas se seguiram, e após berrar como uma fera abatida, o adolescente sucumbiu a alguns passos do corpo da nobre criança.
Apenas horas depois, ao cair da tarde, repararam a demora do jovem duque e de seu pajem. Utilizando os cães farejadores, não foi muito difícil encontrá-los, até pelo cheiro magnético do sangue. Os primeiros a encontrá-los foram o conde d’Auvergne e dois clérigos que o acompanhavam.
— Santo Deus! – exclamou Henri, tomado de pânico, ao ver a flecha fincada no peito da criança.
O filho de seu amigo... não...
Correu até ela, quase tropeçando. Não foi sequer necessário tomar-lhe o pulso. A carne dilacerada, as vísceras, o sangue negro, os olhos abertos para o nada...
O PRIMOGÊNITO de seu amigo... o primogênito VARÃO... havia sido MORTO.
— Por Deus, não permitam que o duque chegue até...
Tarde demais.
Um berro inumano irrompeu, repleto de dor e desespero.
— Teobald!!! — O conde correu e segurou o amigo, que se debatia, loucamente, estendendo os braços trêmulos para o cadáver do que fora carne de sua carne.
— CAAAAMUUS! MEU FILHOOO! NÃÃÃO!!! OOH DEUS, OH, DEUS TODO PODEROSO!!!
Foram necessários três homens fortes para conter o nobre enlouquecido pela dor mais atroz que pode acometer um pai.
— Vasculhem a área! – ordenou o conde, enérgico – Procurem quem fez isso!!!
Vários servos que acompanharam os nobres nas buscas assentiram e distribuíram-se juntamente com seus senhores pela mata, atrás de quem havia ceifado aquelas vidas, especialmente a do jovem duque.
Libertando-se, o duque em doloroso pranto, jogou-se próximo ao corpinho inerte.
— Camus... Camus, meu filho, meu filho amado!!! – gemia, a voz partindo a alma de quem a ouvisse. Ajoelhado, tomou a cabecinha entre suas mãos e banhou-a com suas lágrimas. Beijou-lhe a testa suja de grama. Balbuciava palavras desconexas, embalando o corpo sem vida.
Não impediram-no. Não seriam capazes agora.
Nada afastaria o duque de seu mais precioso bem, que tão precocemente daquela existência havia partido.
*************
Buscas foram feitas sem sucesso. Não havia rastros de quem alvejara Camille e seu pajem Marcel.
O duque, completamente em choque, foi amparado por seu irmão Durval e outros nobres. O conde d’Auvergne, tendo experiências em abates do tipo em batalhas, cuidou do recolhimento dos corpos. O céu enegreceu e uma fina chuva começou a precipitar.
A carroça transportando os cadáveres entrou pelo pátio central do castelo. A chuva apertara.
— Não deixes que avisem minha mulher ainda – pediu Teobald, cabisbaixo, no interior da carroça, acariciando a fronte gelada da criança morta – Ela está em estágio avançado de gravidez. Tenho medo de que...
— Não te preocupes, meu amigo, deixa que cuido de tudo – garantiu Henri, comovido – Pedirei que levem os dois para um aposento no subsolo. Vou investigar os ferimentos para ver se consigo uma pista do maldito que fez essa atrocidade. Sou perito nisso, podes acreditar.
— Eu sei. Conto contigo... és mais meu irmão que meu irmão de sangue – declarou, entregando-se novamente ao pranto.
Os servos fizeram conforme o conde ordenara. Após tomar as medidas requeridas pelo duque, despachou os demais nobres, a fim de não alertarem a duquesa e as crianças precipitadamente, ficando apenas alguns mais próximos.
Adentrando a fria câmara, Henri encontrou os dois cadáveres dispostos por cima de duas bancadas de pedra. Trancou a porta de madeira detrás de si, respirou fundo e foi até o corpo do adolescente. Despiu-o totalmente, sob a tremulante luz das velas. Tomou um candelabro e direcionou a iluminação para as lacerações no pescoço e no tórax. Não se tratavam de flechas. Meras setas. Ainda estavam ali, bem como as que vitimaram a criança. Apalpou a superfície, verificando que foram disparadas a curta distância... talvez dez metros, no máximo.
Setas de bestas.
Marcel, assim como geralmente ocorria com os pajens, era de família nobre; não necessariamente tratavam-se de nobres empobrecidos, isso poderia acontecer, mas não era uma regra. Sua família havia de muito lamentar morte tão brutal. O pobre garoto não deveria passar dos quinze anos.
“Se foi a curta distância, teria ele visto quem atirou? Não importa, contra uma besta, e de tão perto... nem o mais ágil dos cavaleiros teria podido desviar ou se esquivar...”, ponderava o conde, jogando um lençol branco por cima do corpo de Marcel.
Olhou para o outro cadáver.
Esse seria mais difícil.
Engoliu em seco.
Vira Camus nascer. Camus e Camille. Presenciara o horror estampado nos olhos do amigo quando a parteira profetizara a morte prematura do rebento:
“A morte prematura está destinada a um deles...”
E eis que agora... ali... mesmo seu coração cético comprimiu-se.
Caminhou para o outro corpo hirto. Lágrimas vieram-lhe aos olhos azuis. Pensou em seus próprios filhos, e em como desejara que Camus e Milo se conhecessem... que se tornassem amigos... não mais aconteceria.
Contemplou o rostinho infante como que adormecido. Haviam limpado-lhe as faces sujas de terra. Acariciou ternamente os cabelos vermelhos, murmurando:
—É tão lamentável, pequeno, tão lamentável!
Pôs-se a desabotoar o colete encharcado de sangue. O peito havia sido atingido por uma única seta, e esta perfurara certeira o coração. Henri estudou a arma, franzindo as grossas sobrancelhas loiras.
Conhecera setas como aquelas... chamadas de virotes...
A exemplo do que fizera com Marcel, despiu a criança, a fim de avaliar propriamente os danos e se havia outros ferimentos.
Foi então que paralisou, atônito.
Tão logo viu... cobriu-lhe as partes, tremendo, chocado.
— S-senhor Deus todo p-poderoso – balbuciou. Enxugou o suor que empapava-lhe a barba aloirada, sentindo uma pontada na cabeça. Respirou fundo e, acreditando se tratar de uma peça pregada por seus sentidos impressionados pelos tristes acontecimentos, descobriu o corpo e analisou-o, atentamente.
— Mas... mas o que significa isso – grossas lágrimas rolaram pelo rosto confuso do nobre. Ele vestiu a menina morta, evitando olhar para ela, fechando cuidadosamente cada botão, cada fivela. Cobriu-a com o lençol.
Saiu da câmara, trancando-a. A passos controlados sob grande esforço, foi ter com Teobald II que recebia assistência de religiosos.
Ao ver o conde, o duque pediu licença e foi ter com o companheiro. Este tomou-lhe o braço, dizendo:
—Vem comigo.
Foram até o escritório do segundo andar do castelo. Trancando a porta cuidadosamente e olhando ao redor, e até mesmo pela janela, o conde abraçou o amigo, que agora chorava placidamente. Breves soluços marcavam-lhe o silêncio impregnado de sofrimento. Henri sussurrou-lhe ao ouvido:
—Ouve o que direi e não o repitas, não eleves a voz: NÃO é teu filho que jaz lá na câmara subterrânea.
O duque arregalou os olhos acinzentados.
— Que dizes? – murmurou, atordoado.
— O que ouves. Não é Camus que está morto, Teobald. É Camille... tua FILHA Camille.
Precisou segurar mais o homem que vacilou em seus braços. Sentou-o no divã aveludado e prosseguiu:
— Averiguei como disse que o faria. Camille estava se fazendo passar por Camus. É tua filha quem jaz morta sobre aquela pedra, Teobald!
— C-Camille... D-Deus...e-eles... os dois... já haviam... fe-feito isso antes... – o duque parecia à beira de um colapso. Encarou o conde – então... então é... Camille...
O conde assentiu, tristemente.
— O que... o que...
— Teobald.
— ...como isso aconteceu... c-como...
— Teobald – repetiu Henri – NÃO foi um acidente. Foi um ASSASSINATO.
— O quê?
— A arma utilizada não foi uma flecha de arco e sim um virote, uma seta de besta. Além de as bestas não serem utilizadas em caçadas, foram proibidas pelo próprio Papa de serem usadas, até mesmo em batalhas, contra cristãos.
— E-então...
— Foi um assassinato.
— M-mas quem iria querer matar uma criança! Por quê??
— Fale baixo.
— Por que não tentar matar A MIM? Por que a uma criança?!?
— Não o vês?!?
O conde esperou que o amigo controlasse a respiração e explicou, calmamente:
— Quem fez isso quer a extinção de teu clã, mas necessita de ti VIVO ainda. Quer acabar com o ducado de Borgonha, mas de forma definitiva e segura, não urgente e descuidada. Seja lá quem for, vale-se de tuas existência e influência. Queriam eliminar teu herdeiro... para garantir futuramente que tua casa caia no momento certo.
Aterrado, o duque mantinha a boca aberta, como que incrédulo. Entretanto... as palavras do conde d’Auvergne faziam todo sentido. Suas mãos tremiam sobre os joelhos.
— Acharam... como todos nós achamos... que fosse Camus...
— ... Marcel o levou até o assassino – prontamente interpretou.
Assentindo com a cabeça, Henri demonstrou concordância com aquela suposição.
— Não o duvido.
— M-mas... por Deus... o que faço agora, Henri?
— Só tem uma coisa a fazer, Teobald. NÃO revele a ninguém que foi Camille, e não Camus, que morreu. Estás me entendendo, não?
O duque ergueu-se, surpreso.
—Sugeres que eu finja que foi realmente Camus quem perdeu a vida?
— O objetivo era matar teu filho VARÃO. O herdeiro. Se tu assumires para o mundo que ele ainda está vivo... tentarão uma outra vez mais – raciocinou o conde, abaixando ainda mais a voz.
— A profecia... quando ele nasceu... – divagou o duque, pondo-se a andar sobre o tapete – lembra-te do que disse a parteira...
— Em sua visão, ela só via crianças vestidas de meninas contigo.
— N-não... não podes estar sugerindo que...
— Creio que me entendeu, Teobald. Quem deve baixar à sepultura, para todos os efeitos... é “Camus”. A fim de enganar teus inimigos... até que os neutralizemos – disse o conde, fitando-o gravemente.
— Assombras-me! Acaso diz-me para... para fazer... FAZER CAMUS SE PASSAR POR CAMILLE?
Agarrando-o pelos ombros, o conde sussurrou, um tanto ríspido:
— É lamentável que tua filha tenha perecido, mas não percebes o que a Providência fez? SALVOU tua casa, tua descendência e, principalmente, teu filho... queres tu atirá-lo ao perigo novamente?
Embasbacado, o duque considerou longamente o amigo. Malgrado parecesse mais que uma loucura, parecesse uma blasfêmia... sabia-o o maior estrategista de França. O detentor do maior poderio militar, guerreiro experiente versado em armas e batalhas das mais variadas espécies...
...o maior estrategista de França.
Ele não se enganaria em se tratando de ludibriar um inimigo.
Relaxando pouco a pouco os braços, Teobald II puxou o ar antes de indagar:
— Achas que isso pode ser feito?
— Eles enganaram os próprios pais. Logo, Camus pode enganar os inimigos. E prossigamos nesse ditado: “Se queres enganar os inimigos, tens de começar enganando os amigos”.
— Que queres dizer?
— Quero dizer que apenas tua esposa pode saber. Não permitas que nem mesmo as irmãs o saibam. Separemos já as crianças, e falemos com o pequeno. Não há tempo a perder. Ele precisará se tornar “Camille” JÁ. Em nome da própria segurança. Em nome da preservação da família.
Deixando-se cair pesadamente novamente sobre o divã, o duque sentiu a própria vida esvair-se. Tudo convertia-se em um redemoinho aterrorizante, suas convicções, sua razão, num torvelinho incessante... reviu o rosto da velha curandeira.
Não.
Faria de tudo para manter seu filho a salvo. Não apenas por sua casta, por sua descendência, mas porque o amava. Amava-o demais! Já perdera sua amada Camille, NÃO PERDERIA Camus, custasse o que custasse!
Seu olhar, antes mortiço, adquiriu um brilho decidido, belicoso.
— Que me dizes, Teobald? – quis saber Henri, atento àquela mudança no semblante do amigo.
— Vou agora mesmo buscar Camus. Ele deve estar no quarto das irmãs.
— Sim. Traz o menino aqui, cuidado para que mais ninguém o siga. Ele já deve estar disfarçado. Não mais poderá desse disfarce se desfazer. Teobald... tem sangue frio. Por ti. Por teu filho. Por tua família.
O duque aquiesceu, mais conformado.
Faria de tudo para salvar o filho amado.
DE TUDO.
E que Deus o perdoasse.
*************
Milo tinha os dedos entrelaçados sob o queixo, os olhos vidrados sobre a mesa onde esfriavam os mais saborosos manjares.
— Tu... a ideia... partiu de ti... – murmurou, aturdido.
— Sim. Teobald estava com a cabeça quente. Poria o filho em risco caso a farsa dos irmãos viesse à tona.
— Espero que estejas satisfeito – o loiro se ergueu, atirando longe o cálice que espatifou na parede – Pois agora atira-me aos braços da aberração que TU criaste!!!
— Camus NÃO é uma aberração!
— Não é? Ora, morri e nasci em um outro mundo, porque na terra onde EU vivia, um homem se passar por mulher era considerado uma ABERRAÇÃO!
O conde uniu as mãos sobre o rosto, esfregando-o.
— Ele não fez isso porque quis!
— Não, mas aceitou! Aceitou o que o pai louco quis que fizesse! – Bateu as mãos com força sobre a mesa; sua vontade era socar tudo. Quebrar tudo.
Respirando demoradamente, o nobre fitou o filho, entristecido com aquela falta de empatia. Abaixou a voz, sob forte emoção:
— Louco? Chamas de louco a um pai que lançou mão do orgulho de ter um herdeiro varão para SALVÁ-LO?
Rindo nervosamente, o loiro balançou a cabeça, irredutível. Proferiu, ácido:
— Se fosse da vontade de Deus que Camus morresse, teria sido apenas o destino. O duque usou de um estratagema tão sórdido meramente por querer burlar um fato natural e iminente a todos os homens e...
— “Natural”? NÃO É NATURAL um homem ENTERRAR SEU FILHO!!! – bradou o conde, cedendo à exasperação que tentava controlar. Milo calou-se, espantado.
— Um filho enterrar um pai É A ORDEM NATURAL do mundo. Não o contrário... – e abaixou o tom, como que cansado — ...não o contrário.
O jovem cavaleiro procurou se acalmar; porém, não estava disposto a compactuar com AQUILO. Indagou, amargo:
— E por isso... devo fazer parte dessa comédia insana?
— Milo, filho meu... eu nunca imaginaria que o rei ordenaria que eu casasse meu filho com “a primogênita” do duque de Borgonha! Como poderia sabê-lo? – defendeu-se o velho nobre, gesticulando.
— Tu podes impedir essa infâmia, basta que recuses! Dizei, vós, nobres farsantes e blasfemos, que a “graciosa Camille” prefere ir para um convento, como o fazem as donzelas que se recusam a contrair matrimônio!
— Camus NÃO pode ir para um convento, ele seria descoberto! Imaginas o que aconteceria com o rapaz se isso ocorresse?
— Não é de minha conta! – gritou o cavaleiro, revoltado – Merecia ser executado por se fazer passar por mulher! É a maior baixeza de que já ouvi falar!
— Milo, proíbo-te de proferir tamanhas iniquidades! – indignou-se o conde, pondo-se diante do filho – Sabes que não seria apenas Camus a ser executado! Teobald seria denunciado... e quem sabe... até mesmo eu! Quem garante que torturas não fariam o pobre homem entregar a MIM, que deu a ideia a ele?!?
— Dobrar-se a torturas... grande nobre seria ele – desdenhou Milo, andando pela sala, afobado como uma fera enjaulada.
— Quem pode prever o espírito de um homem? E... Milo... não te importarias MESMO com a execução daquele pobre jovem?
— Não se ele se presta a semelhante papel vil e a ele tenciona arrastar-me.
— Ele é INOCENTE! – bradou o conde, cedendo à indignação – Ele NÃO tem culpa do que houve! Ele NÃO escolheu passar por isso!
— E eu, pai, EU ESCOLHI? – retrucou o jovem, cuidando para não gritar mais que o pai. Abriu os braços, num misto de desespero e fúria – EU ESCOLHI? Devo PAGAR por isso?
— Chegamos a isto, meu filho – respondeu o conde, a indignação sendo substituída pela consternação – Achas que me comprazo em entregar meu primogênito varão a OUTRO varão, ainda que seja um casamento de aparências? Ainda que seja para salvar a TODOS nós?
— Pai… e o meu sonho? Casar com uma bela mulher a quem devote minha vida? Ter filhos? Ter uma vida honesta e plena?
Henri endureceu a postura, disposto a encerrar o desagradável embate. Deu de ombros e ergueu a voz:
—Tu te deitaste com um sem número de mulheres, daqui e do estrangeiro, e agora arvora-te honesto... continua teu caminho como homem que és, não tem os clérigos e tantos outros nobres suas famílias clandestinamente? Alguns nem mesmo as tem tão clandestinamente. Temos dezenas de propriedades, instala em uma delas uma bela moça... estabelece ali tua almejada família, sem que isso fique exageradamente público... e toca tua vida. Salvas a todos nós, e melhoras a condição de todos nós, simultaneamente. Qual o grande problema nisso?
Milo balançava lentamente a cabeça, de um lado a outro, mirando o pai.
— Não posso acreditar que estejas a me dizer isso – falou, quase sufocando de ódio.
— Eu que não posso acreditar que estejas a ser tão egoísta... estás em melhor posição que o pobre Camus! Tu ainda podes ter uma família! Camus NÃO!
— Camus – rosnou o loiro – Já não posso mais ouvir esse odioso nome.
— Eu esperava que vós pudessem se tornar amigos... estarão debaixo do mesmo teto, sob o mesmo disfarce...
— AMIGOS? EU, amigo daquele… daquele embuste?
— Milo...
— O maldito ZOMBOU de mim! Decerto ainda RI de mim, porque... porque mostrei-me... interessado – falou, entre a vergonha e a raiva.
— Não, decerto foi apenas impressão tu... Milo, ele estava a REPRESENTAR um papel, que querias tu que...
— Eu sei o que vi. E o que vi – dirigiu-se para a porta, abruptamente.
— Filho, espera.
Rangendo os dentes, Milo irrompeu porta afora, sem dar ouvidos ao pai, que o seguiu até o umbral, chamando-o:
— Milo! Meu filho, aonde vais? MILO!!!
Sem responder, ele correu, desceu quase aos pulos a comprida escadaria que o levaria ao pátio externo. Ganhou o ar noturno e pôs-se a correr pelo vale, tão rápido como se estivesse em um campo de batalha. Correu e correu, até chegar a algumas árvores que marcavam o início do bosque. Parou ali, apoiando-se num tronco de carvalho, respirando pesadamente, quase gemendo, em meio a miríades de pensamentos:
“O maldito... o maldito ainda quis me enganar... decerto se divertia... se DIVERTIA ao me ver tão SATISFEITO com... com ELE! Demonstrei diante de TODOS o quanto me agradei de “Camille”... MALDITO!”
Num ímpeto irracional, socou com força a árvore.
“Eu BEIJEI sua mão... disse que estava feliz por “ela” ser minha futura esposa!”
Desferiu novo golpe, cego de ódio, sequer notando o sangue que desprendera do punho nu.
“Sim, Camus, você se DIVERTIA... em me ver... preso aos seus encantos... ao seu espírito único... DIVERTIA-SE por me ver imediatamente APAIXONADO por SUA FARSA, percebeste, não foi...”
— ... MALDITO!!!! – gritou, a mais ardente ira fazendo-o socar seguidas vezes o resistente tronco.
E assim o fez, seguidamente, até que os nós dos dedos estivessem totalmente ensanguentados.
Voltou a apoiar-se, ofegante, no centenário carvalho. Ergueu o rosto afogueado para a lua; lágrimas pesadas rolaram, enquanto, em um sussurro rancoroso, ele declarou:
— Odeio-te... Camus de Turenne... odeio-te de todo meu coração. Hás de me pagar por isto!!!
*************
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