Dame Jolie

4 Reflexões noturnas


Notas iniciais
O passado de Camus, que começou a ser revelado pelo conde Henri d'Auvergne no capítulo passado, agora será vislumbrado através das lembranças do próprio. Nas notas finais vocês encontrarão a explicação dos termos marcados com asteriscos. Qualquer outra dúvida que surja, podem perguntar, bem como apontar qualquer incorreção. Como disse anteriormente, não sou especialista em História, estou estudando o referido período histórico para compor a fic, por vezes reproduzindo a verdade, por vezes generalizando uma característica de então... ou recorrendo à "liberdade poética", viva ela! XD Costumo utilizar itálico para grafar os pensamentos dos personagens Créditos da fanart ao fanartista. O link do tema do capítulo encontra-se nas notas finais, a linda "Emeraude", da banda italiana Ataraxia. Boa leitura!

Puxando o ar com sofreguidão, Camus acordou em meio a um sobressalto atordoante.

Agoniado, tirou de cima de si a pesada manta de lã de carneiro. Olhou ao redor, pouco enxergando do imenso quarto, parcamente iluminado por poucas velas ainda acesas. A lua ainda ia alta no céu, reinando naquela madrugada um tanto fria para uma primavera.

Ouviu uma tímida batida à porta de madeira nos fundos do aposento, ladeada por vistosas tapeçarias. Estalando a língua, disse:

—Pode vir, Afrodite.

A porta se abriu, e do âmago da escuridão, a bela figura do sueco, em trajes de dormir, surgiu. Como costume da época, certos criados costumavam dormir em células ligadas aos quartos de seus senhores. Em alguns casos, chegavam a dormir no chão dos aposentos senhoriais. Afrodite, contudo, dispunha de um compartimento independente do quarto do jovem a quem servia. Afinal, não se tratava mesmo de um criado comum...

— Perdoa-me, Camus. Pareceu-me que estavas a sofrer de algum mal... ouvi-te soluçar, e em seguida...

— Sinto muito por ter te acordado.

— Não digas isso – sorriu o loiro – Meu dever é zelar por ti. Mas... ao que parece... sonhavas, não? Talvez... um pesadelo.

O ruivo assentiu, desanimado.

— Sim.

— Sonhavas com ela, estou certo?

Camus esfregou algumas gotas de suor da fronte com a manga da túnica branca. Suspirou longamente antes de responder:

—Nunca deixei de sonhar com ela. No entanto... tem ficado mais frequente nos últimos tempos.

— Decerto estás sob grande pressão com o iminente casamento... – sugeriu Afrodite, tentando disfarçar a imensa piedade que sentia pelo rapaz sentado no leito desfeito. Sabia que Camus não se agradava nada daquilo. Mas... como não sentir?

Ignorando o ar compungido do camareiro, o filho do duque somente falou:

— Sonhos. Apenas sonhos. Eles não têm razão de vir.

— Por vezes, têm sim. Quer que te prepare um chá para...

— Não, Afrodite, estou bem, lamento ter interrompido teu sono. Volta a dormir, eu farei o mesmo.

Meneando a cabeça, o sueco sorriu docemente e retirou-se. Vendo-se só novamente, Camus voltou a deitar a cabeça pesada nos macios travesseiros de penas de ganso.

“Camille”.

Não que não pensasse na irmã morta. Não deixara de pensar nela um dia sequer dos últimos 13 anos.

Por que, contudo, recentemente, a lembrança daquela triste época retornava de forma tão palpável, dolorosa, como se fosse recente?

Há 13 anos sua vida tornara-se outra.

Tornara-se a vida de alguém que não mais vivia.

Esfregou os olhos rubros, lembrando-se daquele dia fatídico...

Naquela noite de 28 de setembro de 1179, Camus e suas irmãs, que se encontravam no dormitório feminino, entretidos com brincadeiras de pega-pega, viram a porta de madeira maciça ser aberta pelo duque de Turenne. Ante a imponente figura do pai, cujo rosto sombrio muito assustou as crianças, pararam imediatamente de correr.

Teobald II cravou o olhar sério no menino vestido de menina.

— Camille. Vem comigo – ordenou, tão somente.

O pequeno tremeu dos pés à cabeça. A farsa dos gêmeos teria sido descoberta? Assentindo medrosamente, acompanhou o pai, temendo pelo pior.

E foi como tudo se deu.

A ida à câmara subterrânea.

A visão da irmã morta.

O horror... o horror do sangue... da morte... da culpa... da ordem recebida pelo pai...

Parecia um pesadelo.

Não.

ERA um pesadelo. Não tinha como aquilo ser real!

“Tens de ser forte, Camus.”

“Tens de sobreviver, Camus.”

“Tens de ‘ser’ Camille... Camus.”

“Tens de ‘morrer’, Camus.”

“Tu já morreste para o mundo.”

A verdade só foi partilhada entre o próprio menino, seus pais e o conde de Auvergne.

Maude, a mãe de Camus, sofreu um aborto espontâneo no decorrer de tais acontecimentos. A dor de perder a filha amada, e de ver o filho condenado a um destino tão aviltante fora demais para ela. A pobre mulher nunca pôde se recuperar plenamente. Chorava dias e dias, sem mais conseguir olhar o primogênito. Um ano depois, deu à luz uma menininha, a qual chamou Seika... e um ano e meio depois, descia à sepultura, com o duque e quatro crianças vestidas de meninas a prantearem sua partida.

Cumpria-se a profecia da parteira.

Sem que isso revelasse a ninguém, Camus amargava a culpa pela morte da irmã e da mãe, bem como pelo visível sofrimento do pai.

Camille fora abatida por ele não ter sido firme em recusar que ela fosse em seu lugar à caçada. Pois bem, NUNCA MAIS deixaria de ser firme.

Sua mãe adoecera e definhara pela tristeza em ter perdido a filha e pelo desgosto em não ver mais seu filho como o varão que ele deveria ser. Pois bem, mesmo adquirindo a identidade de uma mulher, JAMAIS deixaria de ser um homem.

Seu pai sofria por infligir ao filho o tormento de ser criado como alguém que não era, e pior, como mulher. Pois bem, a fim de não fazer o pai sofrer mais que o necessário, JAMAIS demonstraria sua dor. E o melhor caminho para disfarçar a dor seria OCULTAR todo e qualquer sentimento. Deveria congelar TODOS seus sentimentos. Só conseguiria fazer com um o que soubesse fazer com TODOS.

Ele não deveria fraquejar.

Ele não deveria esquecer de que era um homem.

Ele não deveria sentir.

Assim, adquiriu permanentemente a capa de gelo pela qual ficou conhecido: “Alma de gelo, coração de pedra.”

Foram uma infância e uma adolescência difíceis para Camus (ainda que o conceito de “adolescência” não existisse na época): perante o mundo, era uma menina, e tinha que aprender os ofícios próprios de uma; cozinhar, cerzir, bordar, costurar... mas quis seu pai que ele não fosse totalmente destituído da formação destinada a um homem.

Ao contrário do que comumente ocorria com as moças, “Camille” aprendeu a ler e a escrever com preceptores contratados pelo duque de Borgonha. Aprendeu também Matemática, Filosofia, rudimentos de Ciências. Não contente com isso, Teobald II cuidou pessoalmente de ensinar “Camille” a lutar, a manejar a espada, e, não raro, ia treinar com “a filha” na floresta, à moda dos treinamentos dos cavaleiros. Assim havia treinado o duque com seu amigo Henri d’Auvergne na juventude; consistiam em corridas, alongamentos, cavalgadas, embates. A família, aldeões, empregados e os outros nobres creditavam aquelas insólitas ações a alguma mórbida excentricidade do pobre duque, cujo único filho varão fora tão precocemente da vida arrancado.

Teobald II cuidava, entretanto, para que o ritmo dos exercícios de guerra não deixasse o corpo do jovem excessivamente musculoso. Para tal, monitorava atentamente a intensidade dos treinos; a alimentação também não escapava a um rigoroso controle. Camus deveria se manter sempre bem magro a bem dos artifícios de que se servia para moldar-lhe no corpo as formas necessárias. Mais de uma vez, o garoto desmaiara devido ou à má nutrição ou a severidade dos corpetes apertados em demasia. O duque a todos dizia que “a filha” padecia de uma forma grave e incurável de anemia... e justamente para dar-lhe vigor, submetia-a a tais procedimentos.

Ninguém estava interessado em contestar alguém tão poderoso. Julgavam-no, contudo, em secreto, um tanto desmiolado...

Assim crescia Camus, sendo “Camille” até mesmo para suas amadas irmãs Hilda, Marin e Seika. Embora as duas mais novas admirassem a “irmã mais velha”, e nela tivessem um verdadeiro exemplo, Hilda nutria ressentimentos pelo tratamento diferenciado dispensado “à primogênita”. Até em algumas viagens ele levava “Camille”! E “ela” tinha um quarto totalmente independente, só porque era “a gêmea do irmão morto”? Chegava a ouvir sobre tais privilégios, inéditos neste mundo do bom senhor, à boca miúda da criadagem, de visitantes, de castelões...

O ruivo não estava indiferente aos sentimentos da irmã. Por isso, não a condenava. Suportava, resignado, as implicâncias que se avolumavam através dos anos.

Através dos anos também conseguira seu pai declinar das propostas de casamento que recebia de famílias nobres de todas as partes... até mesmo alguns príncipes haviam demonstrado interesse “na filha do duque”, cujas beleza e personalidade ímpar galgaram fama. Falava-se de sua pele alva e imaculada, de sua altura incomum, de seus olhos em raro tom avermelhado, de sua forma esbelta e esguia de sílfide, e de sua aura de mistério, cunhada pela frieza e indiferença que emanava de si, não importasse quem estivesse à sua frente.

Isso sem contar a excelente chance de se ligarem à família do homem mais poderoso e influente da França.

Definitivamente, “Camille” poderia ser considerado o partido mais cobiçado à sua época.

Teobald II tentava ganhar tempo... obviamente NÃO iria entregar seu filho como “noiva” a ninguém!

A saída seria o convento.

Até porque, se não desse um destino a Camus perante a sociedade, Hilda não poderia contrair matrimônio.

Se pudesse encontrar um convento de confiança... deixaria o filho lá por um tempo... e depois, sob algum pretexto, fá-lo-ia voltar.

Eram tempos que não se admitia que os filhos ficassem em casa dos pais. Às mulheres havia apenas duas opções: o casamento ou o convento. Caso um médico atestasse, no convento, que a moça deveria voltar ao lar por motivos de saúde, assim seria feito. Eram, porém, casos raros, e que despendiam vultosos pagamentos.

A questão é que os conventos representavam um perigo para o segredo dos Turenne. A noção de privacidade, frágil em fins de século XII, eram praticamente nulas em ambiente monástico. Acabariam por descobrir que “aquela noviça” se tratava, na verdade, de um rapaz! Além do óbvio escândalo, seria caso de punição severa pela Igreja. Talvez... comprar o atestado de alguma doença que justificasse sua permanência em Turenne, antes mesmo de ele a deixar...

O duque procurava uma solução, sondando conventos mais isolados e quase desprovidos de ocupantes, bem como um médico de extrema confiança (o que complicava é que os bons invariavelmente tinham ligação com a corte, e deter o conhecimento de tal fraude poderia ser uma arma contra o duque). Foi durante estas considerações e maquinações que chegou a carta com o selo real.

A ordem direta do monarca Filipe II: a primogênita do duque de Borgonha deveria casar-se com o primogênito do conde de Auvergne.

Teobald II quase caiu para trás. Teve palpitações.

Uma ordem real NÃO poderia ser desobedecida. Por outro lado, a Providência parecia novamente atuar em favor de Camus: Henri d’Auvergne era um amigo de infância do duque, “amigo mais chegado que um irmão”, conforme escrito nas Sagradas Escrituras. Confiava cegamente nele... e Henri não apenas SABIA do segredo, como fora DELE a ideia!

Uma jogada arriscada. Não obstante, a única capaz de ser efetuada.

Camus de Turenne deveria se casar com Milo d’Auvergne.

Atordoado por aquela avalanche de recordações e pensamentos acerca do que iria lhe suceder, Camus ergueu-se da cama e pegou um copo de água da jarra de cerâmica, deixada sobre um aparador de ouro. Sorveu-a, em longos goles. Voltou a se deitar, as mãos entrelaçadas sobre o peito, enfim liberto das faixas com enchimento que era obrigado a usar. Por vezes, sua pele delicada ficava irritava por causa da fricção contínua dos materiais, e apenas os unguentos preparados por Afrodite aliviavam-na.

Afrodite. Que seria dele sem o jovem sueco que viera substituir Marcel, assassinado na mesma emboscada que vitimou Camille!

Vindo daquele distante país como pajem que almejava ir para a Universidade de Paris tão logo cumprisse os anos de serviço em casa dos Turenne, Afrodite, dois anos mais velho que Camus, descobrira por acaso que “sua ama” era um garoto.

Quando o filho do duque contava com 15 anos, teve uma de suas síncopes por conta da combinação de calor, má nutrição e espartilho apertado. Aquele verão de 1187 estava particularmente quente! “Camille” desmaiara enquanto corria pelo pátio externo, que ultrapassava os limites da casa senhorial, brincando com suas irmãs e algumas crianças aldeãs. Metera-se naquilo sob insistência de Marin e Seika, até que a exaustão o venceu. Afrodite, que a tudo acompanhava, correu a recolher “a menina caída”. “Camille” era surpreendentemente "alta para uma garota" de 15 anos, e o vigoroso Afrodite seguramente era bem mais apto a fazer aquilo que uma das criadas “da nobre”, que limitaram-se a ficar gritando histericamente. Que não se enganassem com sua aparência feminil; também Afrodite estava familiarizado com treinamentos destinados aos guerreiros desde tenra idade, antes mesmo de vir à França.

Adentrou o castelo, dirigindo-se para um aposento no térreo, reservado a hóspedes e visitantes, no momento desocupado. Depositou “Camille” num divã de rico veludo. Foi fechar a porta, pois que, antes do socorro, sua privacidade havia de ser garantida. Achou-“a” muito “pálida”, mais que o usual. Um tanto perturbado, porém considerando que o bem estar “da jovem dama” vinha em primeiro lugar, começou a desafrouxar, respeitosamente, as fitas da frente do vestido que prendiam o corpete. Parecia apertado demais, mais do que deveria... por quê? Na certa, aquilo contribuíra para aquele mal estar! Balançou a cabeça em reprovação... qual não foi sua surpresa quando viu “os seios” se deformando sob a estrutura! Assustou-se com aquilo, levantando-se, espantado.

Camus acordou ante aqueles movimentos. Ao sentir as roupas frouxas, sobressaltou-se, e, ao fazê-lo, levou as mãos ao peito, batendo ali sem jeito, e tirando “um deles do lugar”, que veio a rolar pelo chão. Ambos fitaram a semiesfera confeccionada em linho e revestida de grossa estopa, sem saber o que dizer.

— Estais... estais usando enchimentos, senhorita? Neste calor não é adequado... – perguntou Afrodite, confuso.

O ruivo encarou-o ferozmente, na defensiva. O loiro ergueu as mãos, constrangido:

— Perdoai minha indiscrição! Eu temi que o apertado corpete estivesse a sufocar-vos... já ouvi falar de damas que pereceram devido a tais procedimentos... m-minha intenção era tão somente ajudar-vos...

Dando-se conta de que o sueco descobrira que ele NÃO tinha peitos, Camus abaixou a cabeça, sem saber como proceder.

— Senhorita, não é vergonha alguma não ter atributos de mulher feita em vossa idade — alegou o loiro — Cada moça se desenvolve à sua maneira... algumas aos 13, outras aos 15, e outras...

— Afrodite, eu NÃO sou mulher.

Pasmado, o sueco arregalou os olhos, calando-se ante aquela declaração.

Sem erguer o rosto enrubescido, Camus continuou:

— Assim como tu pareces uma e não é... sou eu. Com a diferença que tu podes assumir-te macho e eu... eu... – sua voz falhou, ao pensar na reação do pai quando soubesse que dera com a língua nos dentes — ...eu... não...

Afrodite abaixou-se, recolhendo o molde do peito. Ergueu-se, e estendeu-o ao ruivo. Este o encarou, atônito. Deparou-se com um dos mais lindos sorrisos que já vira. Doce. Bom. Iluminado.

— Senhorita Camille, já que vos sentis melhor, ajeitai vosso corpete... creio que saiu um pouco do lugar quando vos carreguei...

Camus mirou o rapaz, sem nada proferir. Pegou o objeto, devolveu-o ao interior de suas vestes, enquanto o loiro prosseguia, elevando um pouco a voz:

— Não deveríeis correr debaixo de sol forte... aliás, vossa pele já está até avermelhada por isto! Não sabeis que uma dama de estirpe não deve se queimar? – assim ia falando, enquanto andava pelo recinto, verificando atrás de cortinas e de vãos entre as paredes; não havia ninguém.

O jovem ruivo entendeu. Afrodite piscou um olho.

— Vinde comigo, senhorita. Preparar-vos-ei uma bebida refrescante de maçã e hortelã – chamou o sueco, sorrindo, cúmplice.

— Afrodite... – balbuciou o adolescente, comovido com a discrição do mais velho.

Semanas se passaram e nada sobre aquilo veio à tona. Nem mesmo com Camus Afrodite comentava sobre o ocorrido, e o mesmo fazia o filho do duque.

Tempos depois, em conversa com o pai dentro do escritório, Camus acabou contando-lhe sobre a descoberta do pajem, e a consequente revelação por sua parte. Teobald II ficou furioso com o filho. Perdendo momentaneamente o controle que era obrigado a manter constantemente, esbofeteou o jovem com severidade. Sem emitir um único lamento, Camus apenas aprumou-se, tirando os cabelos do rosto. E continuou de frente para o pai, sem um único lampejo de raiva nos olhos mortiços. Teobald II, trêmulo, considerou-lhe a face já vermelha pelo tapa, a expressão tão digna que o fazia gigante perante ele... contraiu os punhos, já arrependido pelo que fizera. Atirou-se contra o menino, abraçando-o, emocionado.

— Meu filho!... – gemeu, apertando-o tão fortemente que o ruivo sentiu quase uma dor.

— Perdoai-me, pai. Ainda que eu não mereça vosso perdão... eu peço...

— Cala-te! Ah, se soubesses como temo por ti... arriscas-te muito ao confiar tal segredo a Afrodite!...

— Eu sei – reconheceu – entretanto... vi fidelidade nele, nem sei por quê.

— Porque te sentes pesado e cansado com tal fardo – acariciou a região magoada do belo rosto do filho – Afrodite tem nos servido com lealdade e presteza. Estavas fatigado pelo mal estar de que foste vítima.

O ruivo assentiu, apertando os ombros do pai.

— Falarei com ele. Vai chamá-lo.

— Senhor meu pai, por favor! Imploro-vos que não...

— Não te preocupes. Apenas vai.

Ainda que receoso pelo que aconteceria com o nobre pajem, Camus obedeceu. O que se sucedeu, no entanto, foi que o duque propôs um acordo ao sueco. Fê-lo jurar sobre a Bíblia nunca revelar aquele segredo. Afrodite o fez, unicamente por assim almejar seu senhor. Em seu íntimo, contudo, já havia se feito tal promessa. O loiro não era somente nobre no sangue, como o era, principalmente, na alma. Naquele distante dia de verão, mesmo sem entender o que prendia Camus a tal destino, compadeceu-se do menino que sempre lhe tratara tão bem. De alguma forma insólita, o duque confiou de fato no sueco. Aumentou seu soldo, prometeu-lhe terras, e tornou-o camareiro particular de Camus. O que, em termos práticos, significava ainda mais prosperidade do que se tornasse um médico, como ele ansiava.

Esta foi, aliás, mais uma das ações do pai a revoltar a invejosa Hilda. Um camareiro particular! Compreendia que, como primogênita, “Camille” tinha direito a algumas regalias... mas aquilo era demais! Apenas as mais ricas nobres casadas dispunham de um camareiro particular!

Assim Afrodite não partiu para Paris, a fim de ingressar na universidade, como seria o esperado ao chegar à vida adulta. Apenas voltou à Suécia duas vezes, para resolver assuntos de família, e retornou à Borgonha.

As medidas que o loiro logo tomou em prol de seu jovem senhor foi confeccionar-lhe novos moldes, mais naturais e anatômicos, para simular as formas femininas sob o corpete. Também mandou remodelar estas estruturas, e passou a cuidar pessoalmente de apertá-los, o que antes era feito, e de modo exagerado, pelo próprio duque. Desta maneira, o desconforto do ruivo diminuiu sobremaneira. Servindo-se de seus conhecimentos sobre plantas e ervas, preparava-lhe infusões, chás, e remédios naturais, que aliviaram grandemente os males da má nutrição de que sofria o rapaz, em razão da dieta rigorosa que seguia. Disso também ocupou-se Afrodite. Em suma, foi a grande bênção em muito tempo na vida de Camus, e o mais próximo que o ruivo conheceria por amigo, de tal maneira que, tempos depois, Camus pediu que não mais Afrodite o tratasse por "vós". Ainda assim, o primogênito dos Turenne conservava-se hermético, conforme decidira ser a fim de preservar seu pai e a si mesmo de maiores sofrimentos.

Sua índole nada passional facilitou tal processo.

Foi desse jeito que se passaram os anos.

Permitiu-se escandalizar a família ao decidir ensinar as irmãs a ler e a escrever. As tias que viviam no castelo, vindas após a morte de Maude, não aprovavam aquilo: mulheres NÃO precisavam ler nem escrever! Apenas os homens, que governavam o mundo! Não obstante, “Camille” dava de ombros para elas, e para quem mais achasse estranho.

— Vistes o que fizestes, senhor meu cunhado? Deixastes que Camille aprendesse tais excentricidades e agora a menina está a disseminar semelhantes futilidades para as irmãs inocentes – chilreava de um lado Emilie, segunda irmã mais nova de Maude, ligeiramente manca devido a uma queda na juventude.

— Vós a mimastes em demasia, meu senhor. Se continuar altiva desse jeito, Camille não conseguirá um bom casamento – ciciava Agnes, a caçula da família da falecida duquesa.

— Estais deslocadas no tempo, senhoras – o duque sequer erguia os olhos de seus inventários, querendo mais que tudo que as tagarelas o deixassem em paz... era paciente, ninguém podia negar – Hoje em dia, às damas mais abastadas é facultativo o ensino das letras, assim como o das artes, conquanto o seja no lar...

— Então contratai um preceptor, assim como o fizestes para a rebelde, pois daqui a pouco vão comentar que a primogênita do duque de Borgonha está TRABALHANDO! – insistiu Agnes, cruzando os braços roliços.

Teobald II revirou os olhos, contando de um até dez.

— Camille gosta de fazê-lo. Ocupa-se assim – disse, desinteressado.

— Moças não devem fazer o que gostam – retrucou Emilie, balançando a cabeça de um lado a outro – Camille já tem fama de difícil! Se a esta se juntar a de excêntrica, meter-vos-ei em problemas...

— Meus problemas atuais são vossas presenças em meu gabinete a grasnar ininterruptamente. Chispai-vos daqui, ide! – ordenou, mais enfastiado que propriamente zangado.

As mulheres saíram, atabalhoadas.

Agnes era viúva, e preferiu ir para Turenne ajudar o cunhado na criação das quatro filhas, já que ela mesma não tivera filhos. Melhor dizendo, tivera dois, ambos morreram ainda crianças... Emilie saíra do convento onde se encontrava desde os 15 anos, com o mesmo propósito.

O duque era-lhes agradecido, embora em ocasiões como aquela, limitava-se a abanar as mãos como a espantar moscas...

**********

... não, nem mesmo as tias palpiteiras incomodavam Camus.

Nada realmente perturbava-lhe o espírito.

Ou pelo menos, assim ele não o permitia.

Congelara suas emoções.

E com maestria... até aqueles dias... o dia em que soube ao que estaria destinado... e o dia em que seus olhos no homem a quem deveria desposar.

“Milo...”, pensou, cerrando os olhos vermelhos. Virou-se de bruços, agarrando o travesseiro, desejoso de que o sono viesse, enfim lhe abençoar.

Já havia recebido olhares admirativos, cobiçosos até, de muitos e muitos nobres, através dos anos.

Fossem belos, jovens, imponentes, poderosos, gentis, garbosos... a todos respondia com gélido desinteresse.

Malgrado fosse homem, não nutria desejo algum por mulheres. Quando as via, belas e ataviadas, em bailes, banquetes, festas, nas andanças com o pai... nada sentia.

Preocupado com a “saúde física e mental” do filho, o duque chegou a partilhar com ele o plano de comprar uma mocinha estrangeira, surda-muda ainda por cima, bem encantadora até, oriunda das terras boêmias (*), de quem o jovem poderia dispor, sempre que o desejasse.

— Uma escrava (**), o senhor diz? – indagou o ruivo, abismado com o que ouvia.

— É a única forma de dar vazão a teus anseios carnais, sem que corras perigo de... não, não faças essa cara, Camus. Tu dizes que não os sentes, mas isso não é possível, filho...

— Eu jamais concordaria com tamanha maldade.

— A rapariga seria tratada a pão de ló, garanto-lhe que teria aqui melhor destino que qualquer outro reservado a uma enjeitada como ela – argumentou o pai, pasmo com a recusa fria do rapaz.

Camus armava-se de paciência e explicava-lhe que NÃO possuía tais necessidades. Ao ver o pai horrorizar-se, apressou-se em esclarecer, permitindo-se um leve sorriso:

— Sossegai-vos. Tampouco me agrado de mancebos, se é o que temeis.

Teobald II começou a questionar se Camus não era como os padres deveriam – e como bem poucos deles o logravam – ser: um homem de espírito superior e elevado a ponto de não se arder por pulsões humanas.

E Camus NÃO mentia para o pai.

Escondera por semanas a descoberta de Afrodite, e o fato de que a ele revelara o seu segredo.

Escondia dele seus reais sentimentos.

Escondia sua dor.

Porém NÃO mentia para seu pai. NUNCA.

Não amava as mulheres, contudo não amava os homens.

Mulher alguma, homem algum, provocara a menor alteração em seus batimentos cardíacos. Seu coração por nenhum deles jamais disparara, seu peito por nenhum deles jamais arfara...

... até ter diante de si aquele cavaleiro, cujos olhos azuis tão intensos nele se cravaram como a desnudá-lo...

Não entendeu o que lhe ocorreu, a princípio.

Disfarçou com a habitual destreza gélida. Contudo... por que seu peito parecia vibrar a ponto de dificultar-lhe a respiração?

À mesa, sentado, os olhos fitos nele, fazendo-o corar (Deus, sentia-o! As bochechas, o pescoço... nada bom!) ... seu noivo.

SEU NOIVO... Milo d’Auvergne.

Iria se CASAR com aquele homem!

Fez uma mesura respeitosa, evitando mirar o cavaleiro outra vez.

Os músicos principiaram a tocar um popular virelai (***) de sua terra, “Dame Jolie”. Milo veio até ele... o que era aquilo?

Por que sua visão se turvava?

Por que sentiu vertigem?

Milo estendeu sua mão. Ali depositou a sua.

Sua pele... sentiu-a queimar!

Nunca, em tantos anos, encontrou tanta necessidade em disfarçar o que sentia!

Milo conduziu-o em uma lenta valsa pelo salão, e ele se viu em um sonho, no qual flutuava, no qual um anjo o guiava em uma dança por sobre as níveas nuvens do esquecimento... a mão de Milo em sua cintura... algo formigou em seu ventre...

Camus já havia lido sobre tais sensações. Constavam em romances de cavalaria, em cantigas de amigo e em cantigas de amor... em cantigas, trovas e contos populares em langue d’oil (***) que abundavam na terra... a consciência de tudo aquilo nascia em meio ao medo...

Medo! Há exatos anos não sabia o que era medo! E aquele medo suplantara o que sentira ao ouvir de seu pai a notícia de que deveria se casar.

Quantas vezes, nos últimos dias, não revivera, nos recônditos secretos de sua mente, aquele momento no jardim...

... quando lábios ardentes conduziram chamas através de sua pele fria...

— Maldição – praguejou, erguendo-se, nervosamente resoluto. Foi até a tina cheia d’água (*****) e, após arrancar de si a túnica, enfiou-se ali, sem sequer se preocupar em prender os longos cabelos. A água gelada acolheu seu corpo, dissolvendo ardores indesejados e proibidos.

Sim, proibidos.

Não é porque iria se casar com Milo que algum DAQUELES DESEJOS iria se concretizar.

Faltavam 7 dias para a chegada dos Auvergne a Turenne. Iriam para lá selar oficial e legalmente o acordo, refinar cláusulas, assinar contratos... estabelecer mais concretamente os termos da singular união.

Veria Milo novamente.

“Provavelmente, a esta altura, Milo odeia-me”, pensava o ruivo, jogando a cabeça mais para trás: as baixas temperaturas nunca o desagradaram, pelo contrário; pareciam entrar em sintonia com a algidez de seu interior.

Precisava delas... mais do que nunca.

Como seria o reencontro com Milo… agora que o jovem conde SABIA que “a noiva”, a quem tão apaixonadamente confessara dela ter se agradado... era um HOMEM?

“Odeia-me... odeia-me?”

*************

Notas finais
Tema do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=sH-KmbJAYMY (*) Terras boêmias - antiga expressão para designar uma extensa região europeia, hoje ocupada por parte de países como Alemanha, Polônia, República Checa e Áustria. (**) Escrava - Apesar de em menor número que os ditos servos, havia escravos na Europa medieval. Poderiam tornar-se escravos pessoas endividadas, abandonadas ou vendidas pela própria família, prisioneiras de guerra, sequestradas, etc. Não se revela, mas tudo leva a crer que o duque de Borgonha, ainda que não tivesse escravos em Turenne, sabia muito bem onde adquiri-los. A ponto de ter "pesquisado uma aquisição" para o filho "se aliviar". OK, achei isso bem horrível também. (***) virelai - antiga forma poética e musical francesa, que teve seu auge a partir do século XII ou XIII, derivada do "lai"; assemelha-se à tradicional "ballada" italiana. (****) langue d'oil - Na França medieval, havia dois grandes ramos de dialetos: a "langue d'oc" (provençal e sul) e a "langue d'oil" (partes setentrional e norte). O francês moderno vem da "langue d'oil", que por isso é chamada de "francês antigo". Já a "langue d'oc" virou o provençal, hoje tido pelos franceses como "um dialeto caipira". (*****) Mesmo que alguns dos castelos (veja bem, ALGUNS) dispusessem de salas de banho próprias, era comum manter nos quartos das pessoas mais importantes uma grande tina cheia de água para qualquer eventualidade. A tina poderia também estar vazia, a fim de receber água esquentada por criados. Bem, ao que parece, Camus está conscientizando-se cada vez mais dos sentimentos que Milo despertou nele... e isso o enche de temor e angústia. Terá razão ele em se sentir apreensivo assim? O próximo capítulo dirá... o reencontro dos noivos. Im-per-dí-vel, vou logo dizendo XD Espero que tenham gostado. Obrigada por lerem, e até o próximo capítulo!