Dame Jolie

5 A Chegada do Sol


Notas iniciais
Olá, como vão, queridos leitores? Espero que bem! Vamos a mais um capítulo de "Dame Jolie", que estava originalmente maior do que o que está sendo postado. O que ocorre é que este é o capítulo com mais itens a serem explicados nas notas finais até agora, e o excesso desses itens deixaria um tanto pesado, tanto para betar, quanto para postar, quanto para vocês mesmos lerem... lembrando que se houver alguma dúvida ou observação sobre algo que apareceu no decorrer da história, por favor, sintam-se à vontade para dizerem. Muito obrigada às belíssimas recomendações de Arurun e Sheilinha, foram verdadeiros presentes para esta que vos fala :') Quero agradecer a quem leu, favoritou, comentou, prestigiou, e mandar agradecimentos especiais à Olga Hazin, que me enviou links de sites de História para me ajudar nas constantes pesquisas, e de um deles saíram várias das coisas que o Camus e as tias falam no início. Créditos da fanart ao fanartista. Link do tema do capítulo, "Stella Splendens", da banda sueca Vox Vulgaris, especializada em músicas ao estilo medieval, nas notas finais. Boa leitura!

— Camille? Camille, estás a escutar-me?

Os olhos castanho-avermelhados do jovem nobre abandonaram os céus argênteos em que haviam estacionado há vários minutos. Desviaram-se da janela ovalada de seus aposentos e voltaram a pousar no rosto insatisfeito da tia Emilie.

— Sim, estou – mentiu ele, plácido.

— Oras, menina, estou aqui a falar, falar, e tu sequer prestas atenção!

— Então por que continuas?

A mulher bufou, indignada.

— Porque, sua rebelde, vais casar em alguns dias e é mister que aprendas de uma vez por todas a ser uma doce e dócil dama, o que certamente não o lograste ser até agora!

— Não o sou? – provocou Camus, erguendo uma sobrancelha.

Esforçando-se por parecer calma diante “da sobrinha” que nunca alterava aquele imponente ar fleumático, a ex-freira esclareceu:

— Não te iludas. Decerto que és prendada, educada e de temperamento agradavelmente sereno... porém, és fria em demasia, e tens esse verniz insensível que não é adequado a uma boa esposa.

— Ninguém é perfeito.

— Deves tentar sê-lo!

— Isso seria querer me igualar ao Criador – alfinetou o rapaz, displicente – não te pareceria uma blasfêmia?

— Não uses de teus astuciosos jogos de palavras comigo, jovenzinha, não sou nenhuma aldeã ignorante, estudei e li mais no convento em 25 anos que tu em tuas parcas primaveras! – sem perceber, a calma que esforçara-se por restituir esvaía-se ante “a rebelde”. Camus bocejou, e em seguida, repousou na mão o queixo levemente erguido.

— Já entendi tudo que queria ensinar-me, senhora minha tia...

— SEQUER COMECEI AS LIÇÕES!

O ruivo tamborilou os dedos sobre a mesa de carvalho forrada com uma toalha por ele mesmo bordada. À sua frente, sua tia estava sentada, na intenção de instruí-lo acerca da nova vida que se aproximava.

— Não saí do convento para que ficasses eternamente solteira, pois se não fizeres como estou a orientá-la, é o que acontecerá! – reclamou a parenta, gesticulando com o indicador em riste.

— Emilie, por favor, não se exalte – disse sua irmã mais nova, adentrando o quarto “da sobrinha” – Mandei que trouxessem sidra e bolos (*). Estais há horas metidas neste recinto.

— Pois ISSO é justamente a causa de minha exaltação, Agnes! Estou aqui há HORAS, e Camille não dá a menor importância aos ensinamentos que estou a transmitir-lhes!

— Tu exageras, cara tia – rebateu Camus, despreocupado. Enrolava uma mecha vermelha nos dedos.

— Então repete-os! Porque oras cochilas, oras brinca com esses teus cabelos, oras ficas a fitar o nada ou através da janela...!

— Já chega, Emilie, acalma-te, olha o coração.

— Mas, Agnes!... essa menina...

— Estou certa de que Camille pode repetir para nós alguns dos pontos de tuas valiosas instruções para uma donzela às portas do matrimônio – a tia mais nova, ao contrário de Emilie, fazia-se condescendente, de forma que angariava maior respeito e consideração por parte do ruivo.

— Pois não, minhas tias – ele respirou fundo e pôs-se a desfiar – A mulher deve ser submissa ao homem, assim como o homem é submisso a Deus; a seu marido pertencem seus coração, mente, espírito e alma e o corpo, sendo todos estes dispostos ao homem como bem lhe aprouver. Deve a esposa estar sempre bela e fresca, contudo sem exageros que denotem uma pecaminosa vaidade; deve a esposa zelar por seu marido de maneira integral, mesmo sendo nobre, verificará suas vestimentas, sua saúde, seu compromisso com a Igreja e com os pobres e desvalidos que dele dependem, como um espelho do próprio Senhor; deve a esposa zelar pela higiene tanto de si mesma quanto dos seus, a fim de se diferenciarem dos servos e demais subalternos (**); cabe também à senhora administrar a casa, o controle da criadagem, a primeira educação dos filhos (***), monitorar o recebimento de víveres e mantimentos; estando o marido ausente, deve a esposa tomar a frente de assuntos como pagamento de contas, construções, questões judiciais pendentes; ainda que seja a mais alta dama, deve ocupar-se do bordado e da tapeçaria, notadamente desta última, como parte do patrimônio histórico da casa; deve a esposa...

Uma serva chegou, trazendo em uma bandeja de prata a pequena refeição ordenada por Agnes. Camus ainda falava, em voz monocórdia e exalando profundo tédio, ante a expressão assombrada das duas tias. A criada servia-lhes a sidra fresca, adequada para aqueles dias primaveris, enquanto Emilie enfiou um dos pãezinhos de gengibre e mel na boca, sempre atenta “à sobrinha”.

— ... também deverá a mulher manter-se em constante oração a fim de manter a paz e a...

— Já chega – interrompeu a ex-religiosa, dividida entre a raiva e a satisfação – Muito que bem, vejo que não estavas tão alheia ao que eu dizia! Pelo visto, um pequeno exagero meu.

— Mas foi exatamente isso que eu disse, minha tia.

Agnes cobriu a boca para ocultar o sorrisinho provocado pela cena travada ali. Emilie percebeu e torceu a boca em um bico franzido na direção dela.

Camus achou desnecessário esclarecer que tudo que havia enumerado fora lido em um livro (****) que encontrara na biblioteca de seu pai. Um tratado sobre a vida matrimonial, notadamente direcionado às moças... talvez tivesse pertencido à sua falecida mãe... sorriu com melancolia ante esta teoria. Emilie interpretou-lhe o discreto sorriso como uma provocação. Como a atirar à cara da ex-freira a vitória obtida há pouco. Franziu o cenho e resmungou:

—Não te ponhas sabichona, Camille! Vais acostumar-te a fazê-lo diante de teu marido, e a mulher nunca deve se mostrar superior ao homem!

— E por que não?

— Ora, porque Deus assim o ordenou!

— Quem disse?

— A Bíblia disse!

— Onde?

— Como assim, “onde”?

— Em qual versículo?

— E-em qual versículo? O-ora, de que adiantaria eu dizer, os... habitantes do mundo como tu não leem as Sagradas Escrituras! (*****)

— Eu li.

— Como? Impossível!

— Camille sabe além de nossa língua, o latim, o italiano e... – acudiu Agnes, querendo rir do rubor nervoso da irmã mais velha.

— ...estou aprendendo o espanhol... – Camus completou.

— É o fim do mundo! Eu avisei ao senhor duque! Daqui a pouco essa menina...

Agnes interpôs-se.

— Os ensinamentos que deves obter não se limitam aos expostos por Emilie, Camille. Há temas que talvez sejam melhor elucidados pela minha pessoa, já que fui casada...

— Hunf – a ex-religiosa fez um muxoxo – Eu iria chegar neles. Não penses que por teres vivido em pecado estejas mais apta do que eu a transmiti-los.

— Pois muito que bem. Vais começar pelo desfloramento? Pelo sangramento virginal? Pelo delito carnal? Pelas posições permitidas e proibidas ou...

— Cala-te, por Nosso Senhor! – o rosto da senhora fez-se ainda mais vermelho, e ela fez o sinal da cruz.

Ignorando a mais velha, a viúva sorriu docemente para o ruivo.

— Camille, é nosso dever como substitutas de tua mãe, a nossa querida Maude, que a ti observas do céu ladeada pelos anjos do Rei, guiar-te pelos meandros do casamento... TODOS eles.

Camus passava o olhar interrogativo de uma a outra.

— A começar pela... pela... pela... pela...

— Pela noite de núpcias – Agnes revirou os olhos. Tomou a palavra de Emilie, que pigarreava.

— Noite de núpcias – repetiu o jovem, vagamente.

— Sim. Ouve bem, minha sobrinha. Sabes que o casamento só será oficializado mediante certas comprovações a serem realizadas nessa “noite de núpcias” (+). Não entraremos no mérito de tua castidade, sabemos-te donzela, obviamente...

As poucas cores que haviam nas faces do ruivo começaram a abandoná-las de vez.

— ... ainda assim, terás de prová-la diante das testemunhas. Já presenciaste semelhante evento.

— Sim. O... lençol manchado de sangue – disse ele, desviando o olhar.

Pousando a mão branca sobre a grande mão do rapaz, Agnes prosseguiu:

— Toda donzela, ao conhecer varão (++) pela primeira vez, perde sangue no ato. Em outras palavras, quando teu noivo te desflorar, tu deixarás sangue no leito de amor...

— Precisas ser tão vulgar? – indagou, ultrajada, a mais velha, metendo bolinhos de amêndoas na boca.

— De que outra forma posso me fazer entender por menina tão pura e inocente? Deixa-te de histerias.

— NÃO SOU HISTÉRICA!!!

Camus engoliu em seco, premindo as pernas por baixo da longa saia. Não desconhecia o tema ao qual as tias se referiam: lia muito, o suficiente para pressupor no que consistia uma relação sexual. Entretanto, ouvir tais coisas associadas ao filho do conde de Auvergne deixara seu conhecimento sob uma ótica efetivamente... perturbadora. Emilie percebeu aquela súbita aflição; apressou-se em animá-lo:

— Não precisas temer em demasia, queridinha. Não ficarás machucada para sempre. Vê, também por isso passou tua mãe... e a mãe de tua mãe... e a mãe da mãe da mãe de tua... oh, pobrezinha, vê essa cara, minha irmã. Apavorada!

— Não estou apavorada – retrucou o jovem, desconfortável como nunca.

— Deixa-te de orgulhos. Não é pecado sentir vergonha diante de tal palestra, muito pelo contrário; mostra-te modesta. E disso se agrada Nosso Senhor.

Retomando a palavra, a tia viúva adoçou o quanto pôde o tom de sua enunciação:

— É o plano de Deus para a descendência de Eva. Semearás teu leito nupcial com o sangue e, consumado o ato, sereis marido e mulher perante o Pai Eterno.

— Compreendo – murmurou o ruivo, mordendo o lábio inferior.

— Tem mais, ouve: assim como já o viste em casamentos a que fomos nós e nossa família, em seguida, o senhor teu noivo estenderá o lençol por vós utilizado à sacada, para que todos que permanecem na festa possam ver... e se certificarem...

— Isso me parece tão constrangedor!

— O constrangimento é inevitável, contudo, bem pior é a AUSÊNCIA do sangue – observou Agnes, sombria.

— Por quê?

— Porque, meu anjo, isso seria a prova cabal de tua iniquidade. De que não mais... há pureza em teu corpo. (+++)

Emilie fez o sinal da cruz novamente, completando:

— E assim não aconteceria casamento algum!!!

O jovem ficou boquiaberto. Sim, já havia presenciado aquele ritual antes (++++), mas sua ausência de informações por parte dos adultos, sua inocência, sua falta de vivência entre os homens o deixaram à parte de uma compreensão plena.

— Nada tema, criança. És imaculada, tudo correrá como deve correr – Agnes quis tranquilizar “a sobrinha”.

— Sim, sim, creio que esse assunto já ficou devidamente esclarecido à nossa amada menina.

— Espera, Emilie, tem muito a ser dito, presumo. Falaste a Camille acerca das normas de conduta no quarto? Acerca do delito carnal? Das posições e do...

— Basta, fala tu, que de tais vulgaridades entendes, de fato, bem mais do que uma dama consagrada como eu!

— Pois bem, ouve-me, Camille. É forçoso mesmo para mim, que já fui casada, que os céus tenham meu valoroso e finado esposo... bem, já entendeste que a mulher é inferior ao homem, e a ele submissa incondicionalmente... isso em todos aspectos.

— Sim, senhora.

— Os homens são, por isso, diferentes das mulheres. Acabam por manifestar características ausentes em nós. Eles possuem mais necessidades carnais que as mulheres. E devem ser saciados, não importa que suas esposas não queiram. Obviamente, praticar o ato, também chamado “delito carnal”, de forma leviana, é grave pecado contra Deus. O que é o “delito carnal” de forma leviana?

Camus sorveu a sidra, há muito intocada em suas mãos.

— É quando o homem e a mulher se deitam mas não para ter filhos, e sim prazer – respondeu.

— Precisas ser TÃO direta? Que vulgaridade!!! Somente rameiras falam desse jeito! (+++++)

O jovem encolheu os ombros:

— Mas... equivoco-me?

— Absolutamente, Camille, estás correta – respondeu Agnes, cômica – Mesmo sendo casados, não devereis arder entre vós com fins diversos do mandamento “crescei e multiplicai-vos” (#). Claro que tens de fazer toda e qualquer vontade de teu marido. Contudo, se perceberes que ele age movido por lascívia, entrega-te em jejum e oração, em busca do auxílio divino.

— E... o que é esse “auxílio divino”?

As mulheres se entreolharam.

— Bem, é quando Deus faz decrescer o desejo do homem... – explicou Agnes.

— Ah – fez o ruivo, considerando a medida bem pouco eficaz contra o ensejo de quem detinha todos direitos.

— Após o esfriamento concedido pela graça divina, o marido volta a ser puro como deve ser, e o casamento terá condições de ser abençoado.

— Emilie, necessito falar acerca das “regras do intercurso”... desejas permancer aqui ou...

— Prossegue, já sujei meus ouvidos em demasia – a ex-religiosa enxugou o suor que brotava-lhe na testa descorada – depois rezarei, farei minhas penitências...

— A escolha foi tua, não me interrompe, ouviste bem? – voltou-se para o rapaz – Camille, só há uma posição permitida na Lei para que unas-te a teu esposo na missão de procriar: de costas para ele, com a face voltada para a cama. Não deves mirar-lhe o rosto, tampouco ele o teu, a fim de evitarem abrasamentos pecaminosos. Entendeste?

— Em parte…

— O amor só possui a função de gerar filhos, nenhuma além dessa – sintetizou a viúva – mesmo casados, serão considerados adúlteros se forem dominados por desejos carnais... e se se entregarem a deleites vis.

— Estão terminantemente PROIBIDAS as demais posições nesse momento. TODAS elas, com exceção da que acabamos de dizer-te. (# #)

— Apenas UMA posição é a permitida... as demais são condenáveis, e pecado... é isso? – repetiu o ruivo, vendo ali uma impertinência sobre a qual de jeito algum discorreria no momento.

— Isso mesmo – disseram a uma só vez as duas mulheres, que fitavam o mais novo.

“Nada disso terá serventia em minha vida, mesmo... ainda assim, não posso deixar de lamentar o destino das mulheres...” pensou Camus, suspirando tristemente ante a consideração de que àquele mundo de submissão e subserviência fora atirado pelo seu próprio pai... arrependeu-se imediatamente de tal pensamento, julgando-se ingrato.

De mais a mais... no tocante às “posições do delito carnal”, nada daquilo teria de fato serventia em sua vida, não era verdade? Que importasse que estivesse para se unir com Milo d'Auvergne? Que fosse viver com ele para o resto de sua vida? Que algo dentro de si vibrava, dolorosa e indefinidamente, ante a lembrança do imponente loiro e do compromisso que se aproximava?

Ele era UM HOMEM.

E certamente... Milo não estava exatamente SATISFEITO com nada daquilo. Nem um pouco.

Ouviu-se batidas à porta. Após a permissão dada pelo filho do duque, ela foi aberta, e a bela figura do camareiro-mor surgiu.

— Afrodite – disse Camus.

— Senhorita Camille, senhoras – cumprimentou o sueco, fazendo uma mesura. Fitou o amo, sério – Senhorita, é vosso noivo... está em Turenne.

O coração de Camus bombeou com mais violência que o normal. As tias vibraram, eufóricas.

— Está chegando! Que maravilha! Já está no castelo? – quis saber Agnes, levantando da mesa. Emilie abocanhou um outro bolinho.

— Não, minha senhora, mas aproxima-se. Os camponeses avistaram-no a caminho. Deve chegar em alguns minutos.

O ruivo sentiu-se estremecer. Ainda assim, permaneceu impassível, a ponto de a tia Emilie bufar, injuriada, alguns farelos a cair da boca:

— Não faças ESSA CARA!

— Não estou a fazer cara alguma – retrucou o rapaz, imperturbável.

— Exatamente! Não estás a fazer cara alguma!!!

— Afinal, estou ou não estou?

— Não me confundas, Camille! O que quero dizer é que não deves manter essa expressão de total desinteresse! – a mulher explicou, visivelmente atrapalhada.

Camus ergueu-se da mesa e ajeitou o vestido. Caminhou até um grande espelho ovalado entalhado em ouro branco. Mirou-se, alheio às tias, que continuavam matraqueando:

—Não é porque não te deves mostrar atirada ou oferecida que precisas aparentar tamanho descaso pelo teu noivo! Ele é um cavaleiro de alta estirpe, e muito garboso, há de se incomodar! – ditou a tia Agnes.

— Camille, não te olhes tanto no espelho! Não sabe que podes sucumbir ao demônio da vaidade, menina? Camille, estás me escutando? – ralhou a tia Emilie.

O jovem apenas assentiu, maquinalmente, perguntando a si mesmo se estava realmente apresentável. Ajeitou os cabelos, soltos, adornados com duas tranças laterais que uniam-se nas costas, compondo um belo penteado. Não sabia que Milo já estava para chegar, senão teria colocado um vestido de cor mais viva que aquele verde que usava. No pescoço, inúmeros colares trespassados, e um crucifixo comprido que invadia o colo. Passou a mão pelo rosto um tanto macilento; o carmim dos lábios, conseguido com sumo de beterraba como lhe ensinara Afrodite, resistia.

— Estás linda, Camille – disse o sueco, adivinhando-lhe a preocupação.

Camus olhou para ele, inexpressivo. O mais velho, no entanto, já o conhecia bem, o suficiente para desvendar o que havia por trás daquela frieza...

— Oh, já ouço os clarins! – a viúva bateu palmas de animação – Devem estar a adentrar o pátio principal!

Com o coração aos pulos, o ruivo dirigiu-se à porta. Deixou o quarto, sendo seguido por seu fiel pajem e pelas insistentes parentas.

Sabia que o contexto daquele reencontro seria bem diferente do que se estabeleceu no dia em que se conheceram. O filho do conde se encantara com “Camille”. Confessara-lhe, até! Agora, porém...

Malgrado a apreensão que acelerava sua pulsação, não podia negar, nem para si mesmo: estava ansioso por vê-lo.

Desceu pelas escadas em espiral, as tochas nas paredes de pedra iluminando-lhe o caminho, o qual forçava-se a fazer devagar... ainda que sua vontade era saltar por aqueles degraus para chegar mais rápido!

Sim. QUERIA ver Milo.

Ao chegar na grande sala, deu com suas irmãs ruivas, que vinham até ele, quase correndo.

— Irmã Camille, é ele! Teu noivo está em Turenne! – falou Marin, sorridente.

— Irmã, ele é tão lindo! Parecia um anjo vindo de longe! Nunca se viu nada igual! – ajuntou Seika, quase pulando.

— Como se tivesses visto muitas coisas nesta vida, sua tolinha – zombou Hilda, juntando-se a elas, mais comedida.

Seika mostrou-lhe a língua. Camus pôs as mãos sobre as cabeças das menores, afetuosamente.

— Não deveis ficar correndo como esquilos na presença de visitantes. Nosso pai não se agradará disso – disse o jovem.

— Ele já está lá fora para receber os condes, irmã Camille!

— Irmã Camille, quem viu teu noivo se aproximando do castelo disse que parecia até que ele estava trazendo o sol de volta, pois foi só surgir no verdejante prado que as nuvens escuras se afastaram e o iluminaram! – Marin contou, tomando o braço do rapaz.

— De fato, imaginações sensíveis povoam esta Turenne – respondeu Camus, sorrindo levemente.

A irmã loira cruzou os braços diante de “Camille”.

— O meu marido há de ser ainda mais bonito do que o teu. Não te envaideças em demasia!

— Não o duvido, Hilda – respondeu ele, paciente – Agora, dá-me licença. Se eu demorar, nosso pai há de ficar desgostoso.

Quando o ruivo saiu, Hilda bateu o pé nervosamente. As menores assustaram-se.

— Por que, por quê? Por que ela tinha que conseguir um marido TÃO LINDO? – choramingou.

— Mas irmã Hilda, que te aborrece? Não disseste que teu marido há de ser mais bonito que o senhor Milo d’Auvergne? – a dúvida de Marin era legítima.

— Oh, cala-te, e sai da minha frente!!!

E pôs-se a caminho da área externa, após empurrar as caçulas. Elas ficaram se olhando e não puderam evitar o riso. Apressaram-se a sair do palácio, seguindo as mais velhas.

Ao sair do prédio principal, Camus fechou, subitamente, os olhos um tanto sensíveis à claridade. O céu, antes completamente nublado, conforme vira mais cedo da janela de seu quarto, agora descortinava em glória, réstias douradas incidindo sobre a terra, abarcando silhuetas móveis no centro do pavilhão semicircular. Servos, criados, cavaleiros, ferreiros, todos trabalhadores haviam parado o que faziam para presenciar a chegada dos condes de Auvergne.

Camus deteve-se, impressionado com a visão do noivo montado em um monumental corcel frísio.

Não, Milo não parecia ter trazido o sol.

ELE parecia o Sol.

ELE era o Sol.

Os longos e dourados cabelos ondulados luziam sob o Astro-Rei. Desciam suavemente por sobre as magníficas vestes de inspiração oriental; trajava uma longa túnica tão branca que era ofuscante ao olhar, cravejada de pérolas. Por cima da nívea vestimenta, mangas e um manto de puro veludo negro, luzidio como o pelo do animal no qual permanecia, imóvel tal qual a estátua de um antigo deus. Detalhes bordados em ouro e ricas pedrarias adornavam a peça superior, combinando com o largo cinto igualmente de ouro; este prendia um curioso punhal à moda dos mouros, em ouro e lápis-lázuli. Não havia como ficar indiferente ante tal aparição; todos estavam simplesmente boquiabertos com o recém chegado.

Inconscientemente, Camus mantinha os lábios entreabertos, paralisado à distância. Ao dar-se conta de sua presença, a expressão altiva de Milo deu lugar a uma de surpresa, e em seguida, de indisfarçável desagrado. Aquilo golpeou o espírito do ruivo.

Acompanhando a direção daquele sombrio olhar, o duque de Borgonha deparou-se com o filho, que não ousava dar um passo rumo a eles.

— Camille, minha filha – disse, interpretando o papel que lhe era devido – Enfim chegaste para saudar teu noivo. Vem, aproxima-te.

Sentindo a garganta estrangular, o ruivo caminhou devagar, até eles. Dir-se-ia que um ente santo, etéreo, caminhava por entre eles: as mechas soltas dos longos cabelos ruivos a trilharem caminho em sua esbelta figura, os olhos vermelhos sempre senhoris, os lábios finos e rubros selados, hirtos como os de uma estátua. Os condes d’Auvergne, ainda montados nos cavalos, esperaram o jovem chegar. Em expectativa, os presentes mantinham-se mudos, maravilhados com uma cena que parecia ter saído dos antigos contos de fadas.

Parando diante deles, Camus foi dardejado pelos olhos azuis de Milo, impregnados pelo mais autêntico desprezo do qual fora alvo na vida. Esforçou-se por continuar sereno. Segurando suas compridas saias, inclinou-se em uma elegante reverência.

— Sede bem vindos, senhores conde Henri d’Auvergne, meu noivo Milo d’Auvergne – saudou o ruivo, dosando a suavidade no tom da voz modulada.

— Camille, minha querida, como podes te encontrar ainda mais formosa que da última vez em que nos vimos? – cumprimentou Henri, sorrindo, simpático.

— Decerto são vossos olhos benevolentes, senhor meu padrinho.

— Juro-te, tua graça é proporcional a tua modéstia – respondeu o conde; virou-se para o filho, como a mandar que dissesse também algo, já que o rapaz limitava-se a encarar “Camille” de maneira nada simpática.

Sob os olhares curiosos, com extrema dificuldade, o loiro articulou, secamente:

— Como tens passado, minha noiva?

— Muitíssimo bem, com a graça de Nosso Senhor – Camus respondeu, sentindo o peso da mirada hostil que recebia.

Aquilo não passou despercebido aos espectadores. Longe dali, debaixo do pórtico que dava para aquele pavilhão, Hilda cruzou os braços e riu, sarcasticamente.

— Oras... o noivo não parece tão feliz assim em reencontrar a noiva...

— Cala-te, Hilda! Se te ouvem? – falou Marin, arriscando-se a ganhar um cascudo da mais velha.

— Hunf, estou a dizer alguma inverdade? Olha a cara do belo cavaleiro...

— Ele... parece bravo mesmo, irmã Marin – observou Seika, intrigada, a mãozinha na boca.

— Há de estar cansado da longa viagem, Seika, só isso...

— Cansado, pois sim. Aquela cara é de algo bem diferente de cansaço... – insistiu a loira, divertida – não parece nada satisfeito em ver a incrível Camille... quem sabe a felicidade que demonstrou no dia do noivado não foi fruto de vapores ébrios?

— És verdadeiramente horrível, Hilda – indignou-se Marin, puxando a caçula pela mão – vem, Seika, vamos até lá!

As pequenas aproximaram-se dos adultos. Cada uma pegou uma das mãos de “Camille”, como a ampará-la naquela embaraçosa situação.

— Marin, Seika – murmurou Camus, as faces queimando de constrangimento.

Ambas se curvaram diante dos condes, que começavam a apear dos cavalos, auxiliados por seus escudeiros.

— Oh, como vão, pequenas? – cumprimentou Henri, simpático – Estais muito dispostas, posso ver! Trouxemos presentes para vós!

Elas sorriram para o nobre, que afagou-lhe as cabecinhas ruivas. Milo conservava-se frio. Camus encarou-o, sustentando o olhar inexpressivo... ainda que por dentro estivesse ferido por aquele desdém quase palpável. Entretanto, podia compreendê-lo. E em nada aquilo o surpreendia.

Sabia que Milo havia de odiá-lo.

Confirmava-o naquele momento.

O ruivo e o loiro agora estavam parados, bem diante um do outro, os olhares selados um no outro. Dir-se-ia que dali sairiam faíscas. Mas não de paixão...

— Entrai, entrai, peço-vos, creio que o sol e o calor cooperou para a fadiga que verifico em vossos semblantes – o duque assim falou, em voz bem alta, no afã de justificar a perturbadora expressão que não abandonava o rosto do noivo “da filha”.

— Estás coberto de razão, meu amigo, basta olhar esta cara – e bateu no ombro do loiro, com mais força do que um mero gesto de afeição paternal – Nem parece que enfrentou sóis muito mais abrasadores no Oriente!

— Peço-vos desculpas. Creio que seja uma combinação de fadiga... e estupefação diante da beleza de minha noiva – falou Milo, enfim sorrindo. Havia, porém, algo de duro naquele sorriso.

— Assim o imaginava – riu o conde, quase aliviado.

— Sim – o sorriso agora tornava-se... perverso – Estás bem diferente, minha noiva. Nem pareces a donzela que conheci. Tens algo de diferente. Eu diria mesmo MUDADO.

O mal estar estampava-se nas faces dos mais velhos, das crianças, dos que assistiam.

Exceto na face de Camus.

Corajosamente, ele sorriu.

— Eu diria o mesmo, senhor meu noivo. Estais também mudado. Como podeis ver... assim como podeis mudar, TAMBÉM o posso eu...

O sorriso de Milo arrefeceu.

— Eu não o duvido, bela Camille – retrucou, fuzilando o ruivo com o olhar cerúleo – Não mesmo. Será interessante desvendar todos os segredos que tens por trás de tua graciosa fachada.

— Vinde, vinde todos, esse sol principia a ficar verdadeiramente insuportável – o duque conclamou, sendo assessorado por vários serviçais que vieram escoltá-los, bem como carregar as bagagens dos hóspedes.

Os criados levaram o conde e seu filho até os aposentos que ocupariam por três dias. Era um apartamento no segundo andar, no qual se refrescariam e repousariam da longa viagem, até estarem dispostos para engendrar o compromisso para o qual vieram.

Quando se viram a sós em uma peça (# # #) localizada no terceiro andar do castelo, Henri voltou-se para Milo, visivelmente zangado.

— Que pretendias com aquela atitude lastimável que tomaste lá fora?

— O senhor não achava realmente que eu me atiraria apaixonado aos braços de um HOMEM, não? Será que agora almejas que me torne um pederasta?

— Cala-te! Eu NUNCA desejaria isso! Por Deus, achei que tivéssemos resolvido tudo, que tivesses entendido o que deverias fazer!

— Perdoa-me – o jovem cruzou os braços – foi mais forte do que eu. A visão do miserável ali, diante de mim, a mentir tão descaradamente, tão À VONTADE em seu papel aviltante!

— Fala baixo.

— Estou falando baixo.

O conde andou pelo suntuoso quarto, impacientemente. Havia dois grandes leitos encimados por dosseis acetinados, e em um deles, sentou-se, fatigado física e espiritualmente.

— Vais pôr tudo a perder? AQUI? Lançar a todos nós no abismo da desgraça? – perguntou, abruptamente, a voz baixa – Fala logo que é essa a tua intenção, pois corto imediatamente a minha garganta, e aconselho a Teobald e Camus que façam o mesmo... será mais RÁPIDO que o destino a que TU proporcionar-nos-á.

Milo parou ao ouvir tais palavras. Sabia-as certas. Abaixou a cabeça, contendo-se. Sentou-se ao lado do pai.

— Perdoa-me. Como disse, foi mais forte que eu...

— Deves ser o mais forte daqui em diante – cortou o nobre.

— Eu sei. Eu... eu serei.

— Vamos nos instalar e repousar um pouco. Esfria essa tua cabeça quente, pois esta tarde mesmo temos que nos reunir com Teobald e Camus.

*************

Camus e Afrodite entraram nos aposentos do ruivo, que cruzou os braços, sem demonstrar o receio que o invadia. O sueco encheu-se de coragem (pois que não gostava de deixar evidente o quanto ele enxergava através da máscara do amo) e disse:

— Não me agradou a maneira como o cavaleiro te olhou lá fora, diante de todos. E menos ainda de como falou contigo.

Sem denotar preocupação alguma, o filho do duque questionou:

— Que querias tu? Que ele estivesse satisfeito em desposar um varão que se faz passar por mulher?

— Camus – aproximou-se, sussurrando – Eu temo por ti.

— Como? – o ruivo franziu as sobrancelhas.

— Esse homem... não tem boa intenção para contigo. Não viu a ira tremular naqueles olhos?

— O que temes? O que há de fazer o senhor Milo comigo aqui em Turenne?

— Aqui, nada. Ele não se atreveria. Mas... e depois?

— Depois do quê?

— Depois de se casarem, oras! Camus, eu não me engano com as pessoas. Esse homem VAI TE FAZER SOFRER.

— Afrodite...

— Eu irei contigo. Para onde quer que vás depois do casamento, acompanhar-te-ei. Não te deixarei à mercê de alguém que te mira com tamanho ódio! – o ex-pajem sentou ao lado do rapaz, tomando sua mão.

— Tu exageras – ele se desvencilhou daquele contato, sem que, entretanto, parecesse ríspido – esqueces que não sou exatamente “uma donzela indefesa”, meu caro.

O loiro apertou os lábios, tenso. Contraiu os punhos sobre as coxas.

— Eu sei. Mas tu esqueces que jurei a teu pai zelar por ti, sempre. E algo me diz que a vida que te espera... é a etapa em que mais vais precisar de zelo, meu amigo – elucidou, com voz baixa.

O ruivo considerou-o por uns instantes. Ergueu-se, pois contato e proximidade física com outros sempre o deixavam desconfortável... ainda que ele tivesse afeição pelos que esses estabeleciam.

— Sou-te agradecido, Afrodite. Sossega-te... obviamente necessitarei de teus préstimos, temo que... perpetuamente – sorriu, com amargura – afinal, minha insólita condição exige um camareiro leal, discreto... e amigo.

Um lindo e aliviado sorriso brotou nos lábios bem feitos do sueco.

— Sempre o terás em mim, Camus. Podes acreditar... – e brandiu o punho no ar – e ai desse empertigado se ousar te fazer qualquer mal que seja! Sei manipular plantas e ervas, tanto para o bem quanto para o mal... coloco um veneninho na bebida que ele nem vai sentir...

Camus balançou a cabeça, seu sorriso abandonando o ar amargo e tornando-se quase cômico. O loiro se comoveu ao ver que quase o fez rir.

— És bom para mim, Afrodite. Receio que eu esteja aprisionando-te. Tinhas planos que abandonaste, por causa do acordo que fizeste com meu pai. E agora, provavelmente terás que ir para Auvergne, após acostumar-te a viver aqui...

— Teu pai é generoso para comigo, e eu preocupo-me contigo. Nada me é forçoso. Não poderia jamais comparar minha situação com a tua. Meu sonho agora é minimizar o teu sofrer – pôs a mão no ombro do ruivo, não se demorando ali, por sabê-lo avesso a toques.

**************

Sentados à grande mesa circular de cedro lustroso que ficava ao centro de uma das salas do palácio, o duque de Borgonha e seu filho aguardavam pelos condes de Auvergne. Mantinham-se silenciosos, experimentando certa tensão no ar. Teobald II mirava o jovem, paramentado como uma fina dama, de cabeça baixa e postura serena.

Entretanto, era como Milo bem dissera.

Tão somente uma fachada.

Camus revia a cada segundo o olhar flamejante e rancoroso do nobre a quem iria desposar. Daquele por quem, para seu horror, já principiava a nutrir sentimentos inadequados.

Batidas à porta; o criado que servia-lhes vinho foi abrir. Um servo ricamente vestido adentrou, anunciando:

— Senhores Condes de Auvergne, Suas Excelências Henri d’Auvergne e Milo d’Auvergne.

Eles se cumprimentaram, instalando-se em seguida. Milo fez questão de sentar sem deixar de fitar fixamente o ruivo, que não desviou o olhar, resistindo bravamente ao impulso de fazê-lo. Vinho foi servido aos recém chegados. O duque dispensou os serviçais. Quando os quatro se viram a sós, Teobald II procedeu ao início da reunião:

— Senhores, reunimo-nos aqui, sob as graças de Deus Nosso Senhor, a fim de firmarmos o contrato dos jovens aqui presentes, no tocante a pormenores que unicamente a nós cabem. Diante de vós encontra-se, lavrado em cartório e no aguardo de nossos selos nobiliárquicos, o documento oficial no qual podeis averiguar cláusulas e acordos imprescindíveis ao matrimônio. Ao final deste encontro, todos deveremos assiná-lo.

Os três ouvintes assentiram. Teobald II tomou nas mãos o manuscrito e considerou cada um dos itens grafados a pena: direito de herança plenamente garantidos aos dois rapazes, em razão de suas primogenituras; um substancioso dote pela mão de Camus à Casa de Auvergne, parte dele configurado por numerosas extensões de terras, a real riqueza daquele tempo; cessão de parte dos exércitos de Auvergne, a mais alta casta militar da França, a Turenne; aliança com a Casa Real fortalecida por incentivos fiscais e acordos protecionistas a Borgonha...

Por vários minutos, foram expostos pontos burocráticos daquele contrato. Assim eram os casamentos daquela época, meros negócios... não que o deixariam de sê-lo nos próximos séculos...

— Bem, falei demasiado... meu caro Henri... – o duque passou a palavra ao amigo, que encarou com gravidade os dois noivos.

— Vós ireis residir em uma de minhas propriedades, o castelo de Saint-Doulchard, em Bourges...

— Perdão, meu pai? Estás a gracejar, decerto – Milo interrompeu-o, a estupefação ocupando lugar da irritação que até então não cedera.

— Ofendes-me se crês em tal leviandade de minha parte – rebateu o pai, ríspido.

O loiro não se intimidou:

— Já não o sei! Pois que esse é um lugar dos mais ermos, inóspitos e quase nunca lembrado em teus inventários ou considerações. Falas daquele castelo caindo aos pedaços no meio do nada, personificado pelas florestas mais densas e montanhas mais solitárias que assolam aqueles domínios?

Camus apenas ouvia, curioso acerca do que falavam. O conde molhou a goela com o vinho, antes de responder ao insolente herdeiro:

— Pensas que podereis vos estabelecer em algum lugar por muitos frequentado, e por muitos habitado, em vossas condições clandestinas? Achavas de fato, Milo, que iríeis para onde seríeis alvo fácil de observadores?

— Mas pai – o jovem gesticulou, indignado – Atira-me ao fundo de charnecas, brejos e a escuridão longe de qualquer traço de civilização!...

— Há outras casas nas imediações onde poderias constituir a família de sangue que tanto almejas... em que outro retiro seriam possíveis tais facilidades, e tão privativas da forma de que necessitarás?

Ouvindo isto, o ruivo ergueu mais a cabeça e mirou diretamente os condes, sem disfarçar a curiosidade então despertada. Percebendo aquilo, Henri adiantou-se:

—Estará assegurado a Milo o direito de estabelecer UMA FAMÍLIA, através do sistema de concubinato.

A respiração de Camus aprofundou-se. Continuou a encarar o padrinho, como se nada daquilo o atingisse.

— Ele acordará com a mulher escolhida as devidas vantagens pecuniárias. O primogênito que desta união for gerado não será bastardo, e sim filho legítimo... de Milo... e de ti também... Camus.

Pela primeira vez deste o início da pequena cúpula, o ruivo deixou abrir a boca e arregalar os olhos escarlates, nitidamente surpreso com aquela decisão. Teobald II prosseguiu, um tanto sombrio:

—Obviamente não haverá objeções da parte de Camus. Da mesma forma que não haverá necessidade de Milo abster-se de seus planos e anseios como homem, não haverá necessidade de erguer-se em quaisquer represálias contra meu filho.

O loiro deixou escapar um riso rouco. Mirou desdenhosamente o ruivo, caprichando no tom sarcástico com que questionou o duque:

— Acaso pensais que pretendo vingar-me do destino ignóbil a que me atirais, vingando-me do vosso filho?

— Milo!

— Deixa, Henri – Teobald II não se alterou; antes encarou firmemente o filho do amigo – Saibas, caro rapaz, que não passou despercebido teu desagrado e, ouso dizer, tua HOSTILIDADE, direcionados para Camus, que, asseguro-te, é destituído da culpa que tu pareces imputar-lhe.

Apenas o respeito filial, que proibia que interrompesse o pai, ou que falasse sem permissão, impedia que o ruivo se defendesse por si mesmo. Limitou-se a engolir seu orgulho, ferido por aquele embate em seu nome.

Desarmando-se aos poucos, o jovem cavaleiro desculpou-se, sem real arrependimento, contudo:

— Peço-vos perdão por não ter sido capaz de disfarçar o que ia em meu espírito.

— Deves ser capaz de disfarçar tudo que possa levantar suspeitas sobre vosso casamento – ditou o duque, gravemente – creio que teu pai já adiantou suficientemente as demandas sob as quais vivereis a partir de então. É de NOSSA segurança... e também da TUA de que estamos tratando.

O loiro mordeu o lábio inferior, ultrajado pelo tom de reprimenda que lhe era dirigido. Reconhecia, porém, que fora merecido.

Se aquela farsa viesse à tona, Camus, seu pai e o duque de Borgonha estariam irremediavelmente perdidos... todavia, não estava ele em situação diferente, estava?

Ora, que salvação haveria para um homem a quem se descobrira ter se unido em sagrado matrimônio... a OUTRO HOMEM?

— Saibas que nos puseste em maus bocados. Havia muitas testemunhas de teu estranho comportamento.

— Creio que o senhor Milo já entendeu, meu pai – finalmente, Camus se manifestara, consciente da afronta para com o duque.

Só de ter escutado o timbre da voz do rapaz, Milo sentiu o sangue borbulhar de genuíno ódio. Chegou a ranger os dentes, antes de praticamente rosnar para ele:

—Não preciso que me defendas, indigno ser.

— MILO! Já chega! Não há necessidade de te dirigires assim a Camus!

— Mas, pai, ele É uma criatura indigna – defendeu-se o loiro, friamente – que queres que eu diga?

Camus puxou o ar, prestes a responder algo. Foi cortado pela ordem do pai:

— Basta. Senhores, assinemos o contrato.

Um após o outro, tomaram da pena e imprimiram suas assinaturas no documento, atestando concordância com todos os termos ali contidos.

— Brindemos, pois, a este acordo que, se por um lado é fatídico, não é de todo prejudicial – conclamou o duque, erguendo a taça.

Cúmplice, o conde completou:

—Verdade, caro amigo. Esta aliança de jeito algum é destituída de vantagens... para ambos lados.

As palavras dos nobres soaram cáusticas aos ouvidos de seus filhos. Os quatro brandiram seus cálices cheios de vinho, encostando-os. Sorveram a encorpada bebida, como de praxe em reuniões de negócios. Nada era realizado, nada era acordado, sem a presença do melhor vinho da terra. Os jovens se entreolharam, mascarando suas emoções, unicamente denunciadas pelo fulgor em suas orbes.

— Bem, rapazes, ide agora. Henri e eu ainda temos muitos assuntos a tratar. Inclusive a respeito da festa, a ser realizada em vossa nova residência. Receberemos fornecedores, realizaremos pagamentos, acertaremos o banquete, as atrações...

— Aproveitai para desfazer a má impressão deixada por este meu filho imprudente em Turenne – ordenou o conde de Auvergne, batendo no ombro do loiro, que virou-se para ele, sem entender.

— Que queres dizer? – indagou Milo.

— Simulai um passeio de noivos pelas imediações.

— O quê?!? – a estupefação foi demonstrada em uníssono.

Henri explicou, paciente:

—Admira-me que tu, meu filho, ávido leitor desses romances de cavalaria, dessas obras que cantam “o amor cortês” (# # # #), não saibas que é tradição o passeio de enamorados pelo pomares e pelos jardins dos palácios. Poderás desfazer a estranheza por ti despertada entre os habitantes de Turenne, e assim, refrear desde o início, a língua do povo...

— Que é deveras perigosa – concordou, pensativo, Teobald II – Aproveitai para estabelecerem boas relações. Viverão JUNTOS, e melhor seria se fosse como amigos... ou planejam fazê-lo como INIMIGOS?

Nenhum dos dois conseguiu articular uma resposta. Evitavam até respirar.

— Quisera eu que desenvolvessem entre si os laços que tenho com Teobald. Contudo... creio que seja pedir demais – reconheceu o pai do loiro, suspirando, desanimado – Bom, que pelo menos mantenham a devida cordialidade, própria de cavalheiros que são.

— Assim, Camus poderá mostrar a Milo o que, a partir do casamento, também pertencer-lhe-á.

Emudecidos, os jovens se olharam brevemente. Desviaram os olhares, e, após assentirem, obedientes, retiraram-se do gabinete.

Desceram, sempre silenciosos, pela escada em caracol, até chegar a escada de corrimão e acessarem ao térreo. Os criados, escudeiros, vassalos e demais funcionários do castelo curvavam-se à passagem do “casal”.

Ganharam a área externa, e Camus, sem nada dizer, guiou Milo para o lado oposto ao pavilhão por onde a comitiva de Auvergne entrara, horas antes. Na parte de trás da torre principal, se localizavam as áreas arborizadas, o pomar, os jardins, deliciosos recantos propícios à corte e ao amor...

... e para lá dirigiam-se, não como em um romântico passeio, e sim como que rumo a um cortejo fúnebre.

Ou melhor dizendo... a uma legítima condenação. Por crimes que não haviam cometido.

Era chegada a hora de, finalmente, ficarem a sós.

*************

Notas finais
(*) sidra - bebida alcóolica fermentada de maçãs. Na primeira versão, a criada leva chá com bolos para Camus e suas tias, mas o chá só vai chegar à Europa no século XVII! Então vi que em dias mais quentes em muitos lugares da França se bebia sidra, considerada mais refrescante e "menos forte" que o vinho, perfeita para esse momento do "lanchinho" no quarto do ruivo. (**) Ao contrário do que sempre se propaga, a falta de higiene absoluta no período é contestada por muitos historiadores. Grande parte deles afirma que notadamente a alta nobreza, até como uma forma de se diferenciar da classe empobrecida, banhava-se regularmente. Era algo que apenas gente muito rica podia fazer, tanto por causa da dificuldade em se ter água tratada, quanto pela dificuldade em aquecê-la. Para os pobres, a lenha tinha que ser reservada para cozinhar e aquecer a casa, ou seja, usá-la para aquecer água e tomar banho sempre era um luxo inimaginável para eles. Há tratados inteiros sobre o assunto: na Baixa Idade Média, tomar banho, em alguns lugares, dava status e... existia até "a festa do banho"! JURO QUE VOU USAR ESSA XD (***) Sobre isto, já foi falado, mas relembrando: fosse rico ou pobre, o menino ficava na casa dos pais até idade de 7 anos, e depois passava anos em casa de outra família, treinando para a ocupação futura. A menina permanecia com a família até menstruar, e ser considerada apta para se casar, ou ir para o convento. (****) Os livros ainda não tinham plenamente a forma que conhecemos hoje. Artesanais, com folhas de pergaminho (material bem caro), cada volume produzido a mão por religiosos e escribas, eram artigos de luxo. Na França, poucos anos depois do que está nossa história no momento, o preço dos livros vai diminuir graças ao advento do papel chiffon. (*****) "habitantes do mundo como tu não leem as Sagradas Escrituras!" Emilie diz isso a Camus porque praticamente apenas os eclesiásticos tinham acesso à Bíblia, primeiro porque a esmagadora maioria da população era analfabeta, segundo porque era toda escrita em Latim, por isso os sacerdotes tinham o dever de nas missas "falarem a todos o que estava na Palavra de Deus". Mas Camus aprendeu latim. Há! (+) A noite de núpcias ANTECEDIA o casamento. Sim, pois o homem só se casaria se a virgindade da noiva fosse confirmada e, podem não acreditar, mas em alguns lugares, se o homem fosse impotente, a mulher também poderia pedir a anulação do casamento! Mas cá entre nós, acho que só ela sendo MUITO rica e poderosa, viu... pois se a família quisesse... não havia muita escapatória, afora o convento... aff. (++) "conhecer" varão - o verbo aqui está sendo usado da mesma forma que encontra-se em versões mais tradicionais da Bíblia: conhecer = ter relações sexuais. (+++) Naquela época (e até não muito tempo atrás) acreditava-se que ao se relacionar sexualmente pela primeira vez a menina SEMPRE perdia sangue. Ou seja, se não ficasse sangue no lençol, o casamento não seria oficializado. (++++) A tradição de estender o lençol manchado de sangue na janela para que todos atestassem a pureza da noiva teve sua origem em Roma, talvez século I d.C. Aqui usei de licença poética; não vi relatos de que isso era feito na França dos século XII / XIII, entretanto ocorria em outros lugares da Europa, logo, deixei acontecer onde Camus e Milo vivem também, pois a história pedia. A título de curiosidade... isso era feito AQUI no Brasil, no período colonial, mais nas áreas e províncias rurais. (+++++) rameiras - prostitutas (#) "crescei e multiplicai-vos" - essa passagem da Bíblia foi a deixa para que nesse período o sexo fosse somente vinculado ao ato de procriar. Ter relações sexuais, só para ter filhos. E o prazer era grave pecado. Principalmente o da mulher... mas há registros de orientações no sentido de que "se um homem amar muito sua mulher, também estará pecando". (# #) Apenas uma posição sexual era "permitida" pela Igreja - e CLARO, com fins de procriação! - mulher de costas para o homem, a fim de que não contemplassem as faces em êxtase um do outro, que "poderia abrasá-los mais". Sexo vaginal, sempre, e apenas. (# # #) peça - outra maneira de se referir aos quartos de um castelo. (# # # # ) amor cortês - conceito surgido em fins do século XI, na França, caracterizado principalmente pela idealização da figura feminina e por atitudes servis por parte dos homens. Base do ideal cavalheiresco de ser. Popularizado entre os nobres pela poesia, pelos romances e canções. ************* Tema deste capítulo: "Stella Splendens", Vox Vulgaris https://www.youtube.com/watch?v=TkP2Z73Rm7w Ufa... viram porque não dava para deixar mais texto? Seriam mais itens nas notas finais... XD E, pela primeira vez até então na história, os noivos ENFIM SÓS. Que sairá desse encontro? Espero vocês no próximo capítulo. Obrigada por prestigiarem... forte abraço!