Dame Jolie

10 Rumo a uma nova vida


Notas iniciais
Hello, hello, como vão? Espero que bem! E eis que a fic chega ao fim... ao fim de sua primeira fase, por assim dizer. Não por acaso, este capítulo ficou bem extenso, espero que compreendam, pois que resoluções se faziam necessárias, antes que Milo e Camus partissem, enfim... "Rumo a uma nova vida"!!! A você que acompanhou até aqui, lendo escondidinho, favoritando, comentando, mandando mensagens privadas por aqui ou pelo Facebook, eu só tenho a agradecer, de todo meu coração, e esperar que continue comigo nessa jornada. Gostaria de agradecer também à Daniella Siqueira (BelierGemini) que gentilmente me deu a permissão para que eu utilizasse um de seus belos poemas na fic, sob o título de "Amo-te odiando-te", "dado" por um dos personagens. Esse poema ela escreveu num comentário para o capítulo 8, "A Última Dança", e é, originalmente, o eu lírico do Milo mesmo!!! A maravilhosa arte que representa nossos protagonistas é de autoria da diva Washu M.... fiquei nas nuvens ao ver tal obra de arte inspirada nesta história *___* Perdoem-me pelos erros que porventura apareçam, betei apenas uma vez e passei o olho ao publicar. À medida que for descobrindo-os ao reler a história publicada, vou corrigindo. Nas notas finais, explicações para os termos numerados, e o link para o tema do capítulo, uma música que me deixa toda arrepiada... "The Song of the Stones", da banda espanhola "Trobar de Morte". Boa leitura!

Por mais que ele se esforçasse em não se concentrar na dor infligida pelo carrasco a mando do próprio pai, a cada chibatada temia sucumbir definitivamente. Em suas costas nuas, expostas por ter tido a túnica branca rasgada a lâmina de espada para que se realizasse a punição, a carne cobria-se de vergões. O jovem mordia o lábio inferior para não gritar, o que de forma alguma impedia os gemidos de elevarem-se pela câmara escura e fria...

Seus cabelos vermelhos como o sangue que espirrava pelo chão, estavam presos em uma trança espessa e comprida, jogada por sobre seu peito. Nela caíam lágrimas, e também saliva que escorria-lhe da boca arfante. Perdera a conta de quantas vezes fora atingido. Tentara contar: uma, duas, três, quarto, cinco… teria sido na sexta ou na sétima que sua mente turvara devido à dor lancinante? Não saberia dizer.

E mais uma vez.

E mais uma.

E mais uma...

Deus, quantas MAIS faltariam?

O duque de Borgonha perdoara, sim, as inflamadas instâncias de seu primogênito. Entretanto, julgara imperioso castigar a audácia com que as mesmas foram proferidas. A ingratidão de quem não lhe reconhecia o sacrifício em nome do amor paterno. Aquela rebeldia inédita TINHA que ser removida, arrancada pela raiz, tal qual erva daninha. Urgia, inclusive, que se castigasse a nefanda escolha do amado filho: arder-se por um HOMEM! Não, Camus não somente ardia-se por um homem. Ele BEIJARA um homem! Estava a AMAR um homem!

Teobald II não era nenhum néscio: via, perfeitamente, para seu tormento, que Camus AMAVA Milo.

O mínimo que deveria fazer era PUNIR Camus.

Pela audácia. Pela rebeldia. Pela ingratidão. Pelo próprio rapaz: arrancar as ervas daninhas de seu espírito manso e elevado... e, principalmente, por ter ele permitido o florescer daquele sentimento blasfemo.

— Aaahhh! – o ruivo não pôde mais aguentar: gritou, pressionando sua fronte na gélida coluna à qual estava acorrentado, braços para a frente, unidos pelos pulsos, circundados por grossas algemas de ferro. Rangeu os dentes, recriminando a si mesmo por se render àquela aviltante manifestação. Não obstante, uma vez que seu brado e seu pranto foram libertos, não haveria mais como aprisioná-los novamente... àqueles, outros se seguiram. Podia sentir seu sangue vertendo por sua pele ferida, escorrendo pelas costas, empapando as níveas vestes.

— Aaaah!! Unng!

Por quanto tempo aguentaria?

Por quanto tempo estava ali?

Por um breve momento, pensou em implorar por clemência ao duque, que sequer estava ali. Mas quem sabe, ante seu clamor, o verdugo cessasse de chicoteá-lo para averiguar junto ao nobre a possibilidade de perdão?

Seu orgulho, todavia, ainda falava mais alto que a dor.

Seria assim ATÉ QUANDO?

Súbito... gritos.

Por que os guardas que vigiavam a masmorra do lado de fora gritavam?

O carrasco cessou de brandir a chibata, entre assustado e surpreso. Um baque... outro... som de chaves... tanto Camus quanto seu supliciador voltaram os olhos atônitos para a porta, que se abriu após o que pareceu ser tentativas para descobrir a chave certa.

Um imponente jovem que parecia coroado pelo próprio Sol, tão reluzentes e cheios eram seus longos e dourados cabelos. Um par de olhos cuja cor rivalizava com a mais perfeita água-marinha da Terra cravou-se no homem que segurava o instrumento de tortura. Uma investida certeira da espada do recém-chegado, e o chicote jazia no chão... assim como a mão que o segurava.

Um berro inumano fez tangerem os nervos de Camus, até mais que o próprio martírio que sofria. Lançando-se em uma fuga desesperada, o carrasco abandonou seu posto, deixando a sós o rapaz (a quem cria ser uma dama) e o terrível justiceiro.

— Senhor... senhor Milo – balbuciou o prisioneiro, aturdido.

— Fiz certo em retornar a Turenne. Bem que meu pai tentou dissuadir-me da decisão. No entanto, eu desconfiava de que o poderoso duque de Borgonha não deixaria impune tua repentina ousadia – o cavaleiro declarou, aproximando-se do noivo imobilizado.

— Eu... eu... – todo e qualquer discurso extinguia-se na garganta do ruivo. Que poderia ele responder?

Milo posicionou-se atrás de Camus, e falou-lhe ao ouvido:

— Foi um erro do magnânimo senhor duque... pois que tu não mais a ele pertences... e sim A MIM. És MEU, Camus de Turenne.

— A que... te referes...? – murmurou o jovem, arrepiando-se dos pés à cabeça, tanto por aquelas palavras quanto pelo hálito quente do loiro em sua orelha.

— Refiro-me à LEI. Casar-te-á comigo. És minha propriedade, portanto.

— Não nos casamos ainda – rebateu o ruivo, levemente ultrajado.

— Mera trivialidade... de acordo com o rei de França, e com os contratos que nós e nossos pais assinamos, nosso matrimônio é uma realidade incontestável.

Milo levou as mãos ao pescoço de Camus, que retesou, mais aflito do que antes. Acariciou-o com as pontas dos dedos.

— E tu bem sabes que o marido é senhor absoluto de sua esposa... a ele ela pertencerá, de corpo e alma, a ele ela se sujeitará, até o final dos tempos... assim ordena a lei. (1)

— E vós bem sabeis que essa lei não se aplica à minha pessoa, pois que NÃO sou uma mulher – refutou o mais novo, entre dentes, esquivando-se como podia dos toques do outro.

— Sim, eu sei – sussurrou o loiro, a calidez de sua fala provocante enviando ao íntimo de Camus sensações as quais ele considerava inapropriadas para aquela situação – Sei que não és mulher. Contudo... perante o mundo és Camille... e perante o mundo, tenho total poder sobre ti. És meu, Camus de Turenne.

— Não me agrado do jeito de vos dirigirdes a mim. Pensei que fôsseis libertar-me, mas vejo que vossa real intenção é zombar de meu lamentável estado – desabafou, amargurado.

— Enganas-te. Eu VIM te salvar. Salvar de teu martírio, de teu pai... sobretudo, de TI mesmo – e enquanto proferia tais palavras, intrigantes para o ruivo, descia as mãos pelos flancos do jovem acorrentado, terminando por roçar-lhe a cintura por cima do tecido.

— Eu... n-não vos entendo – confessou Camus, com certa dificuldade. Aquela proximidade, aqueles toques, aquela voz... pouco a pouco convertiam-se em uma tortura, obviamente em um patamar bem diverso do que ocupava a que sofria há uns minutos.

— Far-te-ei entender...

Dito isto, Milo ergueu a túnica de Camus; este teve um sobressalto ao sentir, agora diretamente na pele, o calor das mãos do noivo a deslizarem pelo corpo desnudo.

— P-por Deus! Que estais a fazer?!?

— Queres isto tanto quanto eu, Camus.

— NÃO! Eu não... e-eu não...

Calou-se, antes que um gemido tomasse lugar da réplica; as mãos de Milo desciam e subiam pelas coxas do ruivo, estudando cuidadosamente a textura... constatando a maciez da pele, a rigidez das carnes... Auvergne sorriu, satisfeito com o que o tato lhe comunicara. Sem se preocupar com o sangue a empapar-lhe as ricas vestes de puro linho egípcio, encostou-se mais ao prisioneiro. Enquanto insinuava seu corpo junto ao do noivo, colou sua boca ávida àquela nuca, primeiramente aspirando-a, e em seguida, mordiscando-a.

Foi impossível para Camus segurar uma exclamação bem sonora, mista de surpresa, medo... e prazer.

Milo explorava incessantemente a sensível área com seus lábios e sua língua, sem deixar de acariciar o ruivo por baixo da túnica. Suas mãos subiram de vez pelas coxas, que lhe pareceram soberbamente moldadas, e alcançaram as nádegas firmes.

— Se...senhor Milo, NÃO, por favor, eu vos suplico!

— Por todos os santos, se não tens a bunda mais promissora que estas palmas já tiveram o privilégio de premir... a pele é lisa e macia, e a carne rija como poucas... – lambeu-lhe atrevidamente a junção entre o pescoço e o ombro, eriçando todos os pelos do noivo – aah, Camus, eu poderia fazer isto para o resto de minha vida...

— Em nome de Deus, detém-vos de... de t-tais atos ilícitos!

Ignorando mais aquele apelo, os dedos do cavaleiro traçaram os contornos das nádegas do rapaz, afundando-se com vontade na curva entre elas e o final das coxas. Chegou mesmo a separá-las, sutilmente, com os polegares. As correntes tilintaram ainda mais.

— Senhor Milo, eu VOS IMPLORO! E-eu... vos imploro...

— A questão aqui é – tomou-lhe entre os lábios o lóbulo da orelha antes de ali sussurrar – PELO QUE imploras?

Camus respirava pesadamente, quase ofegante.

O som daquela respiração entrecortada fez o sorriso do loiro se alargar. Levou uma das mãos para a intimidade frontal do noivo. Camus quase gritou ao ter seu pênis meramente sondado por aqueles dedos curiosos.

— NÃO! DETÉM-VOS, JÁ! E-eu... eu v-vou gritar!!!

— Oh, sim, decerto que GRITARÁS... – Milo respondeu, jocosamente. Envolveu o sexo do prisioneiro em sua palma perscrutadora, apoiando-o firmemente ali. Iniciou um lento movimento, ascendente e descendente.

Ascendente e descendente.

Ascendente e descendente.

Ascendente e descendente.

Fechando os olhos em desespero... desespero que se convertia em resignação... resignação que se convertia em entrega... Camus suspirou.

Já fizera aquilo em si mesmo, algumas vezes, ao notar rígido e latejante seu membro... a ele levava a mão e...

Ascendente e descendente.

Ascendente e descendente.

Ascendente e descendente.

Não obstante... JAMAIS fora assim TÃO BOM.

Era infinitamente melhor... embora atemorizante.

E por que “atemorizante”? Sem dúvida porque PECAVA!

Não deveria se sentir assim!

Já era errado o bastante que fizesse AQUILO em si mesmo. Tanto mais ter um HOMEM a tocá-lo... massageá-lo daquela forma!

Mas ele NÃO TINHA ESCOLHA!

Estava PRESO, imobilizado, algemado...

— Aaah!! – gemeu, sua mente em um turbilhão, seu corpo em um temível frenesi.

— Eu te sinto crescer em minha mão, Camus... e devo dizer-te... o que meu tato está a revelar-me acerca do que tens entre as pernas impressiona-me...

— Uhhn... aaahn...

— ...compreendes que NÃO tenho como parar... não compreendes?

— Milo... pa...parai! E-eu não quero...!

— Não é o que sinto AQUI – e pôs-se a masturbá-lo vivamente, a intensidade em um crescente alucinante. Novamente colou seus lábios à nuca do jovem preso, conduzindo-o a um sôfrego delírio.

Em alguns minutos, percebeu que sua mão umedecia... o corpo que imprensava tremeu vigorosamente, contorcendo-se em êxtase.

— AAHHN!...

— É o momento adequado para te tomar, meu noivo.

— O... o q-quê... – gaguejou Camus, em meio à vertigem que o prazer lhe conduziu. Parecia ouvir sinos. Então, estremeceu ao notar o que Milo tencionava fazer.

Tomá-lo como se ele fosse UMA MULHER!

Começou a gritar, apavorado, debatendo-se a ponto de se ferir:

— NÃO! ISSO NÃO!!! DETÉM-VOS!!!

— Vais gostar, garanto-te...

— NÃO, NÃO, EU NÃO QUERO! – lágrimas escorreram em meio a uma dor inédita que se iniciava, seu corpo era enlaçado pelos braços fortes do cavaleiro, e de repente ele não sabia exatamente por que chorava... apenas esperava despedaçar-se...

Chorava de dor.

Chorava de prazer.

Chorava de culpa.

Chorava de...

Chorava.

Sentia.

Gemia.

Chamava...

— Milo...

Milo.

Onde... onde estava Milo?

Para onde fora?

Correndo os olhos pelo lugar viu as franjadas cortinas de veludo púrpura de seu dossel. As tapeçarias e os vitrais das janelas iluminados pelos candeeiros. A imagem da Virgem, munificiente, sem se importar com seu pecado, por cima da arca de carvalho.

Estava em seu quarto.

Em sua cama.

Ele queimava... arfava... suava... e...

“Oh, Deus Todo Poderoso!”, arrependeu-se de O invocar, mesmo que instintivamente, pois que não era digno... não deveria fazê-lo... não após O QUE OCORRERA...

Sentiu-se envergonhado. A mais baixa das criaturas.

“Preciso tomar um banho. Estou SUJO”, pensou, mortificado.

No entanto, deveria livrar-se antes do lençol e da roupa que usava, antes que alguma criada chegasse... a aurora não tardava.

Nenhum serviçal poderia ver o que HAVIA naquelas peças!

Ergueu-se do leito, arrancou a túnica do corpo, dobrou-a, não sem certo asco. Colocou-a no centro da cama; dirigiu-se até a tina cheia de água e limpou “as partes”. Em seguida, foi até um baú pegar uma túnica LIMPA. Então voltou ao leito, puxou o lençol do colchão e ali embrulhou a vestimenta. Pôs o emaranhado que fizera no chão, em um canto afastado, e foi se sentar na cadeira estofada perto de seu gabinete talhado em arabescos.

Tentou esvaziar a mente.

Assim ficou por longo tempo... até perceber a claridade da alvorada pincelando novas cores nos vitrais da janela. Mirou o bolo de panos no canto no extremo do recinto, entre constrangido e perplexo.

Lamentava-se por ter de acordar Afrodite, no entanto, não encontrou outra saída...bateu à porta nos fundos de seus vastos aposentos.

— Afrodite – chamou, timidamente – Afrodite, acorda, por favor.

Em menos de 15 segundos, o rosto sonolento do camareiro-mor surgiu diante de si.

— Camus. Que se sucede?

— Perdoa-me por despertar-te tão repentinamente... ocorre que preciso de ti... é uma emergência.

O sueco, que nem mesmo despertado de supetão deixava de se mostrar gentil e belo, apressou-se em dizer:

— Não é necessário que te escuses tanto, meu amigo. Que te ocorreu?

— Eu… bem… — o francês enrubesceu imediatamente – entra, é melhor que entres e...

Levou-o até um canto próximo a um antigo aparador merovíngio ( 2 ); nele, um amontoado, para o qual apontou o filho do duque.

— ... preciso que dês um fim a ISSO, antes que alguma criada venha arrumar meu quarto – orientou, sem coragem de encarar o ex-pajem.

— Mas o que é “isso”? – o sono embotava o raciocínio, normalmente rápido, do loiro.

— É meu... é o lençol que estava em minha cama... e... e a túnica que eu usava. Estão inutilizados... entendes, não? – tentou esclarecer o ruivo, as bochechas fazendo-se carmesim.

A compreensão aclarou o semblante do ruivo.

— Oh, entendo. Não te preocupes. Eu cuidarei disto. Primeiramente, porei um lençol similar em teu leito, para que a serviçal não estranhe a ausência da roupa de cama, ou a presença de outra totalmente diferente.

— Ah, claro... agradeço-te.

Após fazer conforme planejara, Afrodite enfiou as peças “inutilizadas” em uma cesta de vime. Tampou-a e, segurando-a nos braços. Antes de se retirar, anunciou para o amo:

—Sossega-te, livrar-me-ei de tudo sem deixar vestígios. Logo estarei de volta para irmos juntos tomar o desjejum.

Cruzando os braços, o jovem enunciou, evitando olhar o mais velho:

— Obrigado, mas ainda não tenho fome.

— Camus, não podes passar mais um dia enfurnado neste quarto!

— Não quero sair.

— Poderias pelo menos aceitar as refeições que te trago.

— Que posso fazer, Afrodite, se nada me apetece?

O camareiro-mor suspirou, consternado.

— Felizmente teu pai está a respeitar teu momento de isolamento. Todavia, não creio que isto será eterno.

O ruivo nada respondeu, incomodado. O outro sorriu e prometeu:

— Quando eu voltar, aplicarei um unguento em teu ferimento. Ainda está um pouco inchado.

— Muito obrigado, Afrodite – tentou devolver o sorriso, contudo, não foi bem sucedido. O mais velho fez uma mesura e retirou-se, fechando a porta e ganhando seu quarto.

O sueco depositou a cesta em uma mesa de cedro. Considerou-a: SABIA o que havia se passado.

Explorou seu conteúdo e descobriu a túnica de Camus. Desdobrou-a. Observou-a, imaginando, pesaroso, que seu amo certamente sonhara com Milo.

Permitiu-se abraçar o vestido descartado, aspirando com langor o aroma nele impregnado. Cerrou os olhos claríssimos, entregue àquela devoção... a qual sabia infrutífera... e ERRADA.

Tinha disso plena consciência.

*************

Naquela noite, a lua, que caminhava de cheia para minguante, resolvera se esconder por detrás das nuvens; felizmente, Milo cavalgava pela estrada rumo à cidade, pela qual distribuíam-se, de forma mais ou menos regular, tochas que iluminavam suficientemente o caminho.

Apesar de sua importância no cenário da França de então, Auvergne era desprovida de centros urbanos dignos de nota, de modo que o que se chamava ali de “cidade” tratava-se tão somente de vilarejos mais povoados e movimentados, não se comparando, em absoluto, de grandes centros como Flandres ou Champagne. Isso se devia a fatores como sua posição geográfica pouco favorável, longe de rotas de comércio e incrustada no centro montanhoso do país, e de sua topografia acidentada, que impedia construções e ocupações mais arrojadas. Auvergne era relativamente montanhosa, densamente florestada, e possuía abundantes vulcões inativos, o que conferiam curiosa particularidade a suas paisagens. Em plena época de intenso crescimento demográfico e renascimento comercial, a província parecia resistir como um reduto da Alta Idade Média, em sua solitude e bucolismo. Ainda que em 1095 tivesse sediado o Concílio de Clermont, que decidiu pela realização das Cruzadas ao Oriente, para “libertar a Terra Santa dos infiéis muçulmanos”. Foi a alavanca para a ascensão do clã dos Auvergne, antiga e tradicional casta de guerreiros, cujos feitos, cantados em trovas e contos da região, remontavam ao século VII. Agora, em 1192, ocupavam o lugar de destaque como representantes da nobreza guerreira, sem que nenhuma outra casa lhes fizesse concorrência.

As luzes da cidade ficaram mais próximas. A catedral parecia vigiar as demais construções, que se espalhavam pelas ruas ora de pedra ora de chão batido. O cavaleiro prosseguiu, atravessando alamedas por onde apenas uns poucos homens circulavam, a maior parte deles mendicantes. Era hora de o povo estar recolhido, se não em seus lares, em conventos, tavernas ou estalagens.

O filho do conde parou diante de um estabelecimento cuja placa com a figura de um cisne indicava uma taverna “de classe”; afinal, sendo o ganso uma carne nobre, consumida apenas pelos financeiramente privilegiados, simbolizava que ali era frequentado por nobres, clérigos ricos e comerciantes endinheirados. Entrementes, oferecia basicamente o mesmo que os de nível inferior, frequentados pelas camadas mais baixas, e pelos meliantes: comida, bebida, música, companhia, fosse esta de camaradagem ou de leito... em suma, tudo de que Milo precisava. Apeou de seu cavalo déstrier, confiando ao rapazinho responsável pela montaria dos clientes da bodega (3). Após lhe dar uma polpuda gorjeta, adentrou o lugar, disposto a se divertir até o amanhecer.

Da maneira que a Providência permitisse.

Esfregou as mãos, apreciando o reconfortante calor da taverna. Homens e algumas escassas mulheres ocupavam mesas retangulares cobertas por toalhas imaculadamente brancas, como se fazia usual em estabelecimentos mais selecionados. Degustavam finas iguarias e vinhos encorpados, servidos por moças de aventais e toucas brancas, de aceitável beleza. Pelas paredes de pedra havia brasões locais – o dos Auvergne, com o escorpião vermelho inclusive – tapeçarias elaboradas, cabeças de alce, urso e javali, e castiçais dourados que se prestavam francamente à ornamentação, já que a casa era iluminada por archotes e lareiras, diante das quais alguns nobres confabulavam. Competentes músicos executavam melodias, acompanhadas pelos mais empolgados pelo álcool, que cantavam, nem sempre com igual competência.

— Por todos os céus, se não é o Conde Milo d’Auvergne – fez-se ouvir uma voz animada. O loiro virou-se na direção dela e abriu um sorriso franco.

— Marquês Pierre d’Anjou! Conde Maurice Savillon! Conde Louis d’Aumont! Há quanto tempo não vos vejo! – saudou, indo juntar-se aos jovens nobres, que ocupavam a mesa com mais companheiros. Cumprimentaram-se efusivamente. De pronto foi trazido vinho para o recém-chegado.

— Desejais comer alguma coisa, meu senhor? – indagou uma atendente, solícita.

— Quem sabe, mais tarde... embora o que desejo comer, de fato, não sairá da cozinha, decerto.

Os rapazes gargalharam, proferindo graçolas de similar teor. A mocinha, ruborizada como um pimentão, tratou logo de sair dali...

Um acolhimento há dias almejado por Milo. Aqueles jovens eram conhecidos seus de anos, nobres como ele, com os quais treinara, lutara, estudara, frequentara bailes e farras. Havia entre eles cavaleiros, estudantes universitários, administradores de terras. Amantes do vinho e das mulheres, possuidores de espíritos cultos, ferinos e por vezes, até poéticos. Um alento para o loiro, que passara as duas últimas semanas atormentado com acontecimentos que escapavam de seu arbítrio.

Por um bom tempo, esqueceu-se de tudo. Ouviu e contou histórias, cantou com os companheiros, riu com chistes trocados entre eles. Os cálices nunca esvaziavam, bem como as bandejas de suculentos acepipes, tudo sempre reabastecido com presteza e interesse naqueles bolsos...

— Então, eis que Milo d’Auvergne, o maior guerreiro de nossa terra, retorna do Oriente depois de três longos anos e nem sequer nos faz uma visita – disse o conde Maurice, um simpático rapaz de bochechas vermelhas a contrastar com os cabelos negros – Parte logo para longe de nós, novamente!

Eles bateram os punhos na mesa, em concordância. O sorriso de Milo arrefeceu.

— Compromissos de família, meus caros. Nada de que pudesse eu tomar as rédeas, entendeis, creio – esclareceu, tentando não parecer desanimado.

— Deveras. Foste correndo ver a noiva que cairá em teu colo dentro de poucos dias – falou o marquês Ernest Chantal, em voz cantada.

— Bem, os aqui presentes que já foram laçados pelo laço do passarinheiro (4), digo, pelos laços do sagrado matrimônio, sabem que não exagero ao dizer que o compromisso escapou-se-lhe de minha vontade – retrucou, em tom de troça.

O barão Antoine Mayeux, o mais velho deles, contando 31 anos, já viúvo e nem por isso taciturno, quis saber:

— Diz, ó futuro genro do poderoso duque de Borgonha, ao menos a tua noiva é realmente bela como dizem?

O loiro respirou fundo antes de responder, forçando um sorriso:

— Oh, sim! Pelo menos nisso fui afortunado. Veremos se no resto continuarei sendo.

— Já é meio caminho andado. Asseguro-te que não é nada agradável acordar ao lado da minha valorosa Isabelle – relatou o marquês Armand Dosseau, fazendo uma cômica expressão de desespero – todas as manhãs, creio que acordei no estábulo e não em minha cama, tal feição de cavalo com a qual sou “presenteado” ao despertar!

Explodiram em risos.

— Deves acreditar que te tornaste sonâmbulo!

— E que assim saíste a procurar companhia que melhor te servisse!

Gargalharam a não poder mais. Contudo, malgrado Milo se pusesse a rir, dentro de si não residia nenhuma alegria, nenhuma hilaridade.

Bem, a esposa de Armand podia ser destituída de atrativos... mas pelo menos ERA UMA MULHER.

Ao contrário da PESSOA com que ele iria se casar... Deus Todo Poderoso, imagine se os presentes ali disto tomassem ciência!!!

Pierre d’Anjou ergueu-se, falando em tom professoral:

— Ora, faz-te cruel, Armand. A virtuosa Isabelle não é tão pouco bonita como tu lamentas. É verdade que possuiu uma cara alongada de equino, entretanto isso confere-lhe personalidade...

— Falas isso porque desposaste uma beleza delicada e mimosa como a tua Heloise...

— Ah, não te enganes, meu amigo. A criatura pode ser formosa, no entanto, ao abrir aquela linda boquinha rosada... juro-te pela Virgem Santíssima que chego a vê-la enfeada, tamanha parvoíce! Nunca se viu ser mais atoleimado sobre a Terra...

— E desde quando se faz necessário que a mulher seja inteligente? Sendo bela, é o que basta... – resmungou Armand, nada convencido.

— Queria ver se continuarias a pensar assim tendo teu ouvido massacrado sucessivamente com tantas frioleiras... cansa, acredite-me... o humor da palerma também não é lá dos melhores...

— Pois não vos lamenteis, nenhum de vós outros – Antoine brandiu seu cálice, conclamando a um brinde – Sempre podeis escapar para cá! Então bebamos, cantemos, vivamos... sem lamentações!

Rindo e urrando, brindaram, aprovando o discurso do experiente e vivido barão de Mayeux.

O coração de Milo não compactuava com o que o jovem simulava. Sentia-se à parte de todo aquele entusiasmo.

— Pois bem, prestigiar-vos-ei com um dos meus poemas – anunciou Maurice, pondo-se de pé, vacilando um pouco.

— Já não era sem tempo! Vejamos que tens para nós! – gritaram, eufóricos.

O conde empertigou-se, em meio ao repentino silêncio: os demais fregueses também queriam ouvir, e a música pausou.

— Aqui vai; chama-se “O Cisne Assado”. (5)

— Que diabos de título é esse? Compuseste-o quando padecias de fome?

— Silêncio, Jean, deixa-nos ouvir! – bronquearam, rindo. O rapaz calou-se, divertido.

Após pigarrear um pouco, recitou:

Num lago fiz moradia
quando era cisne um dia
e era belo e aperaltado.
Mas ai de mim! ai de mim!
que agora estou assim
negro e totalmente assado.


O assador gira gira
e eu pronto a sair da pira
vai-me servir o criado.
E ai de mim! ai de mim!
que agora estou assim
negro e totalmente assado.


Repouso num prato agora
já não voo como outrora
rangem dentes, estou tramado.
E ai de mim! ai de mim!
que agora estou assim
negro e totalmente assado.

Aplausos irromperam pelo salão, e Maurice agradeceu, curvando-se seguidamente. Quase caiu em uma de suas abaixadas.

— Decerto ou o compuseste com aquele apetite, ou a observar a placa desta aprazível birosca... ou a pensar na situação de alguns noivos aqui presentes – riu Milo, verdadeiramente associando-se à última explicação.

— Isso foi muito bom, Maurice, deverias tornar-te trovador de vez e largar os negócios!

— Aí eu não comeria mais cisne...

Riram, brindando; Antoine levantou-se, fazendo uma mesura antes de enunciar:

— Bem, sinto-me impelido a recitar um poema escrito em minha juventude.

— Não sabíamos que compunhas também, Antoine!!!

— Não mais – respondeu ele, certa melancolia nublando o belo e maduro rosto – como disse, “em minha juventude”...

— Certo, vamos a isso! Primeiro tivemos “cisne assado”, e agora... quem sabe, “perdizes fritas” – chasqueou um deles.

Estabelecido novamente o silêncio, o barão declamar, com voz suave e penetrante:

“Oh... uma canção sairá
Também em versos cantará
A magia envolvente de uma dança inocente
A pedidos dos curiosos, levantou até os ardilosos:
Feito, então ela dançou! Curiosamente me manifestou, a dúvida pairou.
Onde estou? Se foi inocente, por que então me envolveu tão loucamente?
Aos olhos rubros de puro desejos.
Deduzo sua lascívia por inteiro.
Pois um encantamento foi feito.
Ao me sentenciar ao um amor verdadeiro.
Pois, caído de desejos, meus nervos vibrou.
Agora preso estou.

De boa estirpe sou.
Honrado cavaleiro, ainda sou.
Pois o destino me reservou
A um amor inverso do que eu sou.
Rendido pelo plácido e fingido
Oh maldito!
Censurei o prazer concedido
Ao ousar tocar os meu dedos estendidos
Com lapso perfeito de seus gemidos.
Minha mente deduziu.
Pois sou homem viril!

Sobre defesas de homens, por que eu fui querer saber tanto?

Me repreendi, agora ando em meio sem fim.
Viajando na dança
Por quem amo tanto.
No baile eu adentrei,
Vendo a bela maldita, elevando o meu coração, emergindo o flanco em extrema paixão!!
Ainda que digo, não beijarei.
Aqueles lábios desejarei.
Por infidelidade do meu eu.
Porque descobri que apaixonado sou eu.”

( 6 )

Todos bateram palmas, um ribombar que abalou as estruturas de Milo, já estremecidas no decorrer das palavras de Antoine.

De algum modo, IDENTIFICARA-SE naquele poema. E isso o aterrorizou. Pela primeira vez, não conseguiu acompanhar a empolgação dos outros com um de seus sorrisos cênicos: aplaudia, aturdido, os olhos vidrados, a alma densa como chumbo.

“Pois o destino me reservou
A um amor inverso do que eu sou.”

— Isso foi excelente, Antoine! Por que escondeste essa preciosidade de nós? – indagou Maurice.

“A magia envolvente de uma dança inocente”

— És o pior dos avaros, negando ao mundo essa tua veia artística! – afirmou Pierre.

“Vendo a bela maldita, elevando o meu coração, emergindo o flanco em extrema paixão!!”

Reviu Camus dançando, à medida que os versos voltavam-lhe à lembrança.

— Oras, folgo em saber que o apreciastes – sorriu Antoine, molhando a garganta com vinho.

— Esqueceste, porém, de dizer-nos o título.

“Ainda que digo, não beijarei.
Aqueles lábios desejarei.
Por infidelidade do meu eu.
Porque descobri que apaixonado sou eu.”

— Oh, tens razão. Perdoai-me: o nome do poema é...


“Porque descobri que apaixonado sou eu.”

— ... “Amo-te odiando-te”.

Um súbito tremor sacudiu o corpo de Milo.

— Faz-se pertinente! Possivelmente, foi com obra semelhante que conquistaste tua finada Henriette?

— Bem, mesmo tendo nós sido prometidos um ao outro ainda em tenra infância, convivemos em maviosa harmonia... contudo, nem ela conheceu qualquer uma de minhas composições.

Milo permaneceu em silêncio, envolto em sua própria tormenta interior.

Por que aqueles versos falaram TANTO A ELE... e pareciam falar tanto DELE?

Foi quando captou a imagem de uma corpulenta mulher, vestida elegantemente em seda escura, o rosto coberto por um véu de renda negra.

Um de seus camaradas deu-lhe uma pequena cotovelada, apontando a figura recém chegada à taberna:

— Vê quem está ali... a “Abadessa”! ( 7 )

— Agora sim! – riu-se um dos rapazes, esfregando as mãos de contentamento.

— Falai por vós... estou a tratar-me de uma moléstia, provavelmente “presenteada” por uma das “damas” da “Abadessa”... – o marquês Ernest confidenciou, desanimado.

— Já falei para proteger-te ao te deitares com essas mulheres da vida, tonto... – falou Armand, estalando a língua, sem perder a “Abadessa” de vista.

— Quê? Vou lá eu enfiar tripas de carneiro no pau? ( 8 )

— Idiota, não quis tripas de carneiro no pau, e agora deves ter é coisa bem pior aí – zombou Antoine.

— Como vou usar algo que esteve no bucho de um animal?!?

— Há as proteções de linho, se te repugnas tanto usar as de intestino... e as de seda com óleo, são as que uso – disse Milo.

— Além de caríssimas, são difíceis de comprar. Por certo, trouxeste as tuas do Oriente, não?

Milo assentiu.

— Maldição, trouxeste aos milhares, creio eu. Não vais querer levar tais perigos à filha do homem mais poderoso de França, não é? – e todos riram, sem que Milo encontrasse qualquer graça...

Percebendo que era alvo das conversas do mais álacre grupo ali presente, a “Abadessa” Suzette, que era dona do bordel mais conceituado pelas redondezas, aproximou-se da mesa que ocupavam, fingindo dar uma volta despretensiosa pelo local, acenando para um e para outro.

— Cara Abadessa Suzette! Que bons ventos a trazem! – saudou-a o conde Louis d’Aumont, homem de 24 anos, mas que aparentava dez anos a mais. Parecia mais velho que o próprio Antoine, de 31.

Ela pretextou surpresa. Sorriu, amavelmente.

— Oras, muito boas noites, meus gentis senhores. Lembastes-vos desta humilde serva, é uma grande honra com que me agraciais – fez uma reverência respeitosa, tirando do rosto o véu; conquanto aparentasse envelhecimento precoce aos 32 anos, nada incomum às mulheres que tiravam o sustento do próprio corpo naquela época, via-se ainda ali traços de estonteante beleza. Não por acaso, virou “abadessa”, posto que apenas as prostitutas bem sucedidas e enriquecidas o conseguiam, ao aposentar-se. Há 6 anos exercia aquele ofício, e não tinha do que reclamar, oh, não senhor.

Pelo menos... não AGORA.

Maurice, já de pé, propôs aos amigos:

— Pois bem, acertemos as contas com o taberneiro e acompanhemos a “nobre dama” ao seu “castelo”, que tal?

— Parece-me excelente ideia – concordou Milo, atraindo a atenção da cafetina, que exclamou:

— Senhor Milo d’Auvergne? Por Nosso Senhor Jesus Cristo! Faz três anos que não vos vejo! Como é possível que estejais ainda mais belo?!?

— Devem ser esses teus corteses e afáveis olhos prateados, bela Suzette – riu o loiro, constatando em secreto que, por sua vez, a “Abadessa” deteriorara espantosamente.

— Não, meu senhor, meus olhos de prata polida podem ser corteses e afáveis, mas são, além disso, detentores de vista apurada como meu tino comercial...!

Dos oito jovens nobres, cinco, dentre eles Milo, deixaram a taberna e acompanharam a Abadessa até a casa de diversões masculinas que ela mantinha próxima dali.

Naquele tempo, a prostituição era relativamente bem aceita, o que não se verificou em séculos posteriores: o próprio Santo Agostinho apontara a atividade como “válvula de escape necessária aos mancebos”, que, sem aquilo, poderiam pôr a perder a inocência de incontáveis donzelas de bem... o que causaria profundos danos à sociedade, cimentada por acordos matrimoniais. Em alguns lugares, havia “bordelages” mantidos pela prefeitura e até mesmo pela Igreja.

A bordelage da Abadessa poderia ser tomada por mais uma taberna, não fossem as tabuletas com imagens de rosas, e a placa com uma flor entalhada... uma espécie de código local para o tipo de negócio ali realizado. Algumas vigas e colunas pintadas de vermelho, e a maior quantidade de jovens mulheres circulando pelo salão cuidavam de tirar quaisquer dúvidas residuais.

Como frequentadores do “La Rose Fraîche” (A Fresca Rosa), os companheiros de Milo sabiam exatamente para onde ir. Dois deles subiram as escadas, rumo às acomodações superiores, dois se dirigiram para os fundos da casa, desaparecendo na escuridão que antecedia as alcovas do térreo, ocupadas por estrangeiras. O filho do conde d’Auvergne, entretanto, considerava ao redor, como que procurando por algo especial. As moças que perambulavam pelo recinto encararam-no, cada uma alimentando a esperança de ser por ele escolhida. Tanto pelo dinheiro, quanto pela formidável formosura do rapaz.

— Diz-me, gentil Abadessa... não terias tu alguma... alguma RUIVA na casa?

A mulher fitou-o, surpresa. A preferência do nobre à sua frente sempre havia sido por loiras do tipo angelicais, conhecia-lhe o gosto devido a anos de frequência do jovem àquela “bordelage”. Houve ocasiões em que ele pedira por morenas à moda do sul da Espanha, mas poucas. Ruivas, jamais.

— Uma ruiva, meu senhor? Receio que não.

— Tens a certeza?

— Bom... que achas daquela ali, ao lado de Sylvie... é quase ruiva, não?

— É loira. Apenas o tom dos cabelos um pouco escuro, quase mel... eu queria uma ruiva – insistiu, sentindo-se ridículo, sem, contudo, refrear-se — Todas estas pequenas e tu não dispões de uma ruiva sequer?

Suzette gesticulou, como a desculpar-se, embora de forma um tanto displicente.

— Não sou a única pessoa que reluta em contratar ruivas, excelência. São rebeldes, indisciplinadas, difíceis de lidar. Algumas até irascíveis, o que é inadmissível para um negócio como este que mantenho, vós compreendeis, não? Aquela cor infernal de cabelos as tornam violentas e intratáveis.

— Compreendo – assentiu o loiro, mais para fazer calar a matraca da cafetina.

— Já que estais no espírito de algo inusual, que tal uma exuberante e sinuosa morena, de olhos fogosos como os ostentados pelas milenares encantadoras de serpentes?

Milo riu daquela definição.

— Não, deixa. Partirei, neste caso.

— O... o senhor... ides partir tão somente por não haver cá uma ruiva? Rejeitais companhia por isso?

Constrangido, o nobre apressou-se em dizer, com uma ponta de irritação:

— Se não tens o que quero, não vejo motivos para ficar.

— Esperai, senhor Milo. Seguindo a rua na direção à catedral, e detendo-vos em seus fundos, encontrareis uma charcutaria. À direita desta, há uma hospedaria... dirige-a o abade Bertrand. Sei que ele possui uma ruiva a seu serviço. De cabelos cor de fogo mesmo, alva como a neve... bonita até, a diaba. Dizei a ele que fui eu quem o indicou a vós... se o calhorda não for tão calhorda, depois dar-me-á um quinhão.

— Não seja por isso, toma – sorrindo, Milo tirou algumas moedas de ouro do bolso e entregou a Suzette, que arregalou os olhos acinzentados.

Ele saiu, seguindo apressadamente para o sítio indicado pela cafetina. Como a espantar a auto-acusação, que condenava aquela excentricidade despropositada, pensou “Que mal há? Quero apenas experimentar algo diferente. Em verdade, nunca possuí uma ruiva. Já tive em meu leito um sem número de loiras, várias morenas, algumas mouras, e até negras e amarelas...”.

Mera curiosidade.

Chegando à estalagem adentrou, decidido. Um homem de meia idade foi atendê-lo, percebendo-o um nobre de estirpe.

— Sede bem vindo à minha humilde hospedaria, meu senhor. Em que posso servir-vos?

O loiro olhou em torno; as instalações eram de mais baixo nível do que os estabelecimentos em que estivera antes, o ambiente escuro e tristonho. Música alguma ecoava, e muito menos poesia. Os frequentadores, provavelmente pequenos comerciantes, açougueiros, ferreiros, e outros das camadas mais baixas, bebiam em copos de cerâmica. A curiosidade despertada pela chegada de tão atípico freguês fez cessar a conversa entre eles.

— Procuro a ruiva que tens a teu serviço. Pago o que quiseres – fez-se direto.

Reparando no soberbo porte do cliente, e na riqueza de suas vestes e acessórios, o olhar de Bertrand cintilou, cúpido. Chamou um rapazote que servia cerveja a uma mesa, a ele ordenando:

— Vai chamar Colette.

Em poucos minutos, surgiu diante do cavaleiro uma jovem de seus 20 anos, mãos unidas à frente do corpo delgado e bem feito.

Pálida, olhos verdes, algumas sardas. Cabelos compridos e ondulados, bonitos porém opacos.

Ruivos.

— Onde a conseguiste? – indagou o nobre, analisando-a atentamente.

— Em minhas andanças pelo mundo costumo estar atento ao que posso adquirir para o meu humilde negócio, meu senhor. Ela é uma preciosidade, não?

Milo pagou adiantado pela garota. O valor excedeu em cinco vezes o que ele pagaria por uma prostituta na cidade.

Colette postou-se à sua frente, sorrindo.

— Permiti que vos conduza, meu senhor.

“O vermelho de seus cabelos é fosco... amadeirado... não é o fulgurante e sanguíneo escarlate dos cabelos de Camus... e nem de longe tão brilhantes”, observou, decepcionado.

Ora, que importância tinha aquilo?

Ela era atraente ao olhar, e seu corpo promissor. Seguiu-a até o andar superior. Em uma das alcovas destinadas aos idílios remunerados, encerraram-se os dois.

*************

Mais um dia havia se passado sem que Camus saísse de seu quarto.

Depois que Afrodite saíra para se livrar das “roupas inutilizadas”, banhara-se com esmero, vestira uma túnica cinzenta para esperar a volta do camareiro-mor, a fim de que fosse auxiliado para se trocar. Apesar de seu amo alegar que aquilo não mais era necessário, Afrodite aplicara-lhe na face um refrescante unguento anti-inflamatório à base de arnica e alfazema.

O filho do duque pôs um vestido bicolor ocre e vermelho, e um lenço foi-lhe estrategicamente atado ao pescoço; por sobre este, um colar de jade verde-escura. Como no dia anterior, recusara se alimentar. O sueco se preocupava grandemente com o amo, abatido como nunca. Camus dispensou o ex-pajem, alegando que queria ler. Assim, ficou lendo, recluso, até a noite.

Nem sempre a concentração se prendia àquelas páginas... frequentemente, memórias das quais tentava fugir se sobrepunham a poemas, tratados, narrativas.

Quando acreditava que a família dormia, ouviu uma curta batida à porta. Achou que fosse uma serva, ou as irmãzinhas, porém...

— Camille. Abre a porta. Desejo falar-te.

O ruivo ergueu-se em um salto. Por mais que soubesse que TINHA que atender, hesitou.

— Camille.

Não havia severidade na voz do pai. Chamava como que pedindo. Camus enfim obedeceu. O velho nobre entrou. O jovem trancou a porta e foi se juntar ao patriarca da família, que o aguardava perto do gabinete de estudos. Teobald II viu os livros abertos e papéis com anotações manuscritas.

— Respeitei teu desejo de recolhimento por dois longos dias. Agora é mister que nos falemos.

— Como quiserdes, senhor meu pai.

O duque mirou o rosto do filho; a marca das bofetadas... ainda ali... e bem sabia que Afrodite estava se esforçando por tratar aquela injúria. Levou até ali os dedos brancos, cheio de culpa, tocando de leve a face magoada. Camus resistiu ao impulso de recuar. Abaixou os olhos rubros ao requerer:

—Perdoai-me. Fui leviano e injusto para convosco.

— Não, sou EU quem deve pedir-te perdão. És capaz de perdoar-me?

— Sois meu pai. Estava em vosso direito corrigir-me.

— Não – Teobald II sacudiu a cabeça – Tuas palavras me feriram justamente por serem VERDADEIRAS. E por terem sido ocultas por tanto tempo. Decerto sofreste além do que eu imaginava...

— Não, meu pai! – Camus fitou o pai, contrito – Eu não sabia o que estava a dizer... não podeis achar que penso verdadeiramente de forma tão hostil a vosso respeito!

Sem qualquer aviso, o duque abraçou o filho. Camus surpreendeu-se.

— Sei que não. Sei que não, Camus. És bom. És puro. Tanto que nem minha loucura foi capaz de corromper-te. Tu deténs, sim, um espírito elevado, superior... mais até que os santos padres aos quais quis comparar-te.

— M-meu pai...

— Não importa que ames uma mulher. Não importa que ames um homem. A grandeza que reside em ti é perene. E eu creio piamente que tua vida, que até agora foi de privações de toda espécie, ao lado de Milo será melhor... será, finalmente, a TUA vida.

O jovem corou fortemente.

— Do que estais a falar, senhor meu pai?

— Saberás, meu filho. Saberás.

Preferindo não insistir, o ruivo preferiu inquirir:

— Senhor meu pai... se me permitis, gostaria de saber o que é feito de Hilda. Soube que foi encarcerada em uma das celas da torre norte.

— De fato, assim foi feito – respondeu o duque, libertando o filho de seu amplexo.

— E... por quanto tempo ficará lá?

— Até que eu retorne de tuas bodas.

— Mas... mas isso é daqui a quase duas semanas! — Camus mostrou-se boquiaberto.

— Assim o é.

Impactado, o rapaz ousou questionar:

— Senhor meu pai... perdoai-me o atrevimento... não será esse castigo demasiadamente... excessivo?

— Excessivo? Camus, conheço casos semelhantes que resultaram em EXECUÇÃO sumária da pecadora! Eu poderia lavar a honra de nossa família com SANGUE, após o escândalo que Hilda causou, bem o sabes! Nosso nome foi atirado à LAMA!

— Sim, eu compreendo... mas... e... e quanto ao noivado dela com o senhor Michel?

— Cancelado – a voz do pai fez-se sombria – O duque de Aquitânia cancelou o casamento, obviamente.

— Oh.

— De que outra forma poderia toda aquela insídia acabar? Tive que me desculpar como um cão que lambe os joanetes do dono, que humilhação – indignava-se Teobald II, cada lembrança que vinha, uma estocada certeira em seu orgulho como pai e como nobre que era.

— Eu sinto muito, senhor meu pai. Bem, ela ficará presa na torre. E depois?

— Depois será enviada para o convento. O mesmo do qual veio Emilie.

— Ao convento? Não... o sonho de Hilda... sempre foi se casar... Hilda SEMPRE quis se casar! Por favor, senhor meu pai, não creio que vais estender a punição de minha irmã POR TODA A VIDA! – indignou-se o rapaz.

— Esperas que depois do que ela fez eu poderei arranjar-lhe um marido? A indiscrição de tua irmã já é notícia até na corte! Quem seria o louco de desposar uma doidivanas que estava a se despir para o futuro cunhado, como a mais baixa das rameiras?

— Com o tempo esquecerão... novos escândalos surgirão... considerai, meu pai, eu vos peço...

— Não, Camus, está decidido. Admira-me que tenhas tal senso de misericórdia por quem só quis prejudicar-te! Por quem tenha maculado o nome dos Turenne!

Sem poder mais argumentar, o ruivo abaixou o olhar, compungido. Não podia negar: as atitudes de Hilda o atingiram mais do que ele demonstrara. Fizeram-no frustrado. Fizeram seu sangue ferver. Contudo, de alguma forma que não conseguiria explicar ao pai, sentia-se um pouco culpado pelo que havia se tornado a irmã.

— Está decidido – repetiu o duque, apertando afetuosamente o ombro do jovem – Não sofras por isto, teu fardo já é suficientemente pesado.

Em silêncio, Camus assentiu.

— Vem. Soube que tu estás em jejum por todo este tempo, vem cear comigo – o nobre intimou.

— Sim, senhor meu pai.

Embora o dissimulasse com tímidos sorrisos, seu interior estava contaminado pela comiseração. Durante a refeição, só tinha pensamentos para o infortúnio de Hilda:

“...almejava com tanto ardor casar-se... e eis que obrigá-la-ão a se tornar uma freira.”

Ele sabia que aquele triste destino nada mais era que a consequência dos atos sórdidos da irmã... todavia, a piedade que pungia-lhe o peito parecia ignorar tudo aquilo.

A despeito do longo jejum, nada à mesa lhe apetecia. Serviu-se frugalmente, sem sentir o gosto de coisa alguma.

*************

A alvorada insinuava-se por trás dos montes das proximidades do imenso castelo dos Auvergne. Milo cruzara seus pórticos, sendo saudado respeitosamente pelos guardas. Após atravessar o pavilhão que antecedia o pátio central, confiou seu destrier a um escudeiro. Galgou as escadas de mármore rumo à casa senhoril.

Mal adentrou a grande sala, deparou-se com a figura serena do conde d’Auvergne. Vestia-se com aprumo e tinha as mãos para trás, em uma postura um tanto perscrutadora. Milo fingiu nada perceber.

— Muitos bons dias, meu pai – cumprimentou, com voz um pouco arrastada. Ainda se encontrava meio bêbado; tentou disfarçar como pôde.

— Bons dias. Vejo-te bem disposto, apesar de ébrio.

— Corrigindo: estou bem disposto PORQUE estou ébrio – rebateu, bem humorado. O loiro estava um tanto desgrenhado e amarfanhado.

— Hum. Se estás, enfim, disposto, talvez agora possamos finalmente conversar.

O semblante relaxado de Milo endureceu no mesmo instante.

— Deves imaginar que estou cansado, e ansioso por me recolher...

— Acabaste de dizer que estavas bem disposto.

— Referia-me ao meu estado de espírito.

— Milo. Respeitei teu silêncio por três dias.

— Não podes respeitá-lo mais um pouco, pelo menos até que o sol nasça?

Henri suspirou, forçosamente resignado.

— Está certo – concordou.

Quando Milo passou por ele, o conde não se furtou a comentar:

— Recendes a perfume barato e bebida ruim.

— Indícios de uma excelente noite, em suma – devolveu o loiro, irônico, chegando à escadaria. Quando ia subir, seu pai perguntou:

— Só me diz isto, Milo: como foi tua “primeira vez”?

Detendo-se sem se virar, o loiro riu, confuso:

— “Primeira vez”? Referes-te a minha “primeira vez” com uma mulher?

— Não. Refiro-me à primeira vez em que possuíste uma mulher enquanto pensava na pessoa que verdadeiramente amas.

Cessando o riso, Milo voltou-se para mirar o pai, sério.

— Não estou bem certo de entender-te, meu pai – franziu o cenho, sem apreciar o rumo que tomava aquela conversa.

— Eu SEI BEM o que é isso. Saciamos o corpo, mas não a alma. E nossa fome permanece... mais voraz ainda.

— Realmente NÃO ENTENDO o que estás querendo dizer-me!

— Tu AMAS Camus.

Aquela declaração varreu para longe a ebriedade do rapaz. Estreitou os olhos, fitos no pai. Indagou, com raiva contida:

—Não te satisfazes em desvirtuar a vida de teu próprio filho? Tens, também, que dele escarnecer?

O conde aproximou-se dele, e enunciou, benevolente:

— Tu és meu filho mais próximo. Vivemos juntos, lutamos juntos, triunfamos juntos, sofremos juntos, viajamos juntos... sempre juntos estivemos. Conheço-te como a mim mesmo.

— Se estás a tomar-me por pederasta por causa daquela história de beijo, repito que foi apenas um mal entendido. Achei que tudo tivesse sido esclarecido, o beijo não passou de uma reles simulação para que...

— Não me refiro ao beijo.

— PERFEITO! – berrou o loiro, abrindo os braços, exasperado – Então crês que eu seja um pederasta simplesmente por ter defendido um inocente de TEU amigo covarde!!!

— Julgas que Teobald tenha agido como um covarde? – astuto, Henri tencionou testá-lo.

— EVIDENTEMENTE! Estava a espancar o próprio filho, de uma forma que não se faz nem com um lacaio, sem que qualquer culpa pairasse sobre Camus... apenas cumpri meu dever primordial como cavaleiro. E tu me imputas semelhante infâmia por isso!

Henri observava atentamente as reações do filho. Revoltado, Milo agitava-se, revoltado com o que ouvia... ou com o que rememorava?

— Tu procedeste com inegável justiça. Deste-me profundo orgulho, repito-o.

— Folgo em sabê-lo – replicou, sarcástico, o jovem, ansioso pelo término daquele desconfortável colóquio.

— Ainda que te molestes, preciso dizer-te algo.

Consciente de que não se livraria tão facilmente, o loiro bufou:

— Estou a ouvir-te.

— Milo. Tu e Camus ireis morar em um lugar ermo, isolado até... pode parecer providencial para vós, e podeis sentir-vos deveras seguros em tão retirado recôndito. Tu, porém, não te esqueças de que mesmo nas grutas mais solitárias existem olhos... e ouvidos.

— Juro por Deus que não entendo o que quereis dizer!

— Neste caso OUVE, e no tempo certo, entenderás – tornou o conde, gravemente – vigiai, vós dois... mas principalmente TU, versado nas artes militares e, consequentemente, responsável inconteste por vossa segurança.

Boquiaberto, Milo ficou a encarar demoradamente o pai, sem nada proferir. Dominando-se com extrema força de vontade — pois que se deixasse a raiva eclodir, ameaçava incorrer em atitudes inapropriadas para um filho – perguntou, em voz baixa:

— Isso é tudo?

— Por hora sim. Podes recolher-te. E estejas plenamente recomposto à hora do almoço. Tua mãe deseja sair do leito unicamente para sentar-se à mesa contigo.

À menção da mãe, o loiro tornou-se brando.

— Não houve nenhuma melhora no estado dela, não é?

O conde meneou a cabeça, em uma triste negativa.

— Eu não tenho mais fé de que ela possa ir ao casamento, Milo. Não resistiria à viagem e ao desgaste de um evento como esse.

— Entendo. E eu jamais aprovaria que ela se arriscasse por algo pelo qual nem mesmo eu anseio – sorriu, acabrunhado – Até mais tarde, meu pai.

Henri assentiu, dando passagem ao rapaz enfastiado. Sorriu discretamente, diante da seguinte constatação, feita em pensamento: “Não está mais chamando-o de ‘aberração...’”

*************

Finalmente em seus aposentos, Milo livrou-se de suas vestes, não sem certa urgência. Testou a temperatura da água da tina próxima da lareira. Não chegava a estar fria. Provavelmente algum criado, consciente de que o amo iria querer se banhar ao chegar da “diversão noturna”, provera a banheira com água quente. Enfiou-se nela, praguejando bastante. Bem que gostaria que estivesse mais aquecida, porém sequer amanhecera, e Milo era um dos raros senhores a apiedar-se dos servos; não queria acordar nenhum tão cedo por algo frívolo daquele jeito. Enrolara os cabelos para o alto, a fim de não molhá-los em demasia, já que algumas mechas sempre escapavam.

Pôs-se a efetuar sua higiene, utilizando um sabonete de azeite de oliva e rosas brancas, artigo de luxo ora importado do Oriente, ora proveniente de apenas cinco lugares na Europa, dentre eles Marselha, na França.

Imagens e pensamentos começaram a vir à sua mente. Ele, contudo, não encontrou forças para lutar contra eles...

“Por que, meu Deus, por quê? Por que ao mirar os esverdeados olhos daquela moça, eu via os vermelhos de Camus? Por que seu rosto convertia no rosto de Camus? Os lábios de Colette, tão carnudos, cheios, experientes, feminis... e ainda assim, ao beijá-los... não senti o que senti com AQUELES lábios finos, inexperientes e ensanguentados... oh, Senhor Todo Poderoso, estarei eu a enlouquecer? Em que estrada da perdição puseram-me meu pai e o duque de Borgonha?!?”

Sim, ele a possuíra.

Sim, ele fora recompensado com o gozo.

Entretanto, aquele corpo fora apenas veículo do que seu desejo tecia em suas fantasias.

Fantasias inomináveis.

Imperdoáveis.

Suspirou, exausto.

Nunca fora homem de ficar se recriminando pelo que fazia. Dilemas morais, até então, tinham sido inéditos em sua vida.

Esticou as pernas, deliciado com a temperatura à qual se acostumara.

Tomava uma decisão: não sucumbiria àqueles devaneios, tampouco àquelas ponderações.

NÃO era um pederasta.

Cumprira seu dever de cavaleiro, ao defender um inocente. Comovera-se, sim, com a triste situação do jovem injustamente ferido, e isso devia ter se juntado à confusão mental causada pela torrente contínua de insólitos acontecimentos no último mês. Ele mal tivera tempo de se refazer de cada um deles! O vinho também tivera sua parcela de culpa, claro, mesmo que ele não tivesse se sentido embriagado... mas na festa, bebera desde a tarde até a noite, logo...

“Certo. Ao que parece, não há como remediar nada disto... e eis meu destino. Farei o que estiver ao meu alcance para ter uma vida razoável: arrumarei uma bela e distinta mulher, quem sabe, uma camponesa honesta e vigorosa... em um dos castelos dos Auvergne não muito distantes de Saint-Doulchard constituirei com ela uma família normal... terei filhos... serei o senhor de Saint-Doulchard e governarei a região no intuito de desenvolvê-la. Meu pai disse que Camus é estudado, dado às letras... organizarei uma grande biblioteca para bem servi-lo. Chamarei estudiosos, letrados, filósofos para com ele palestrar, irei providenciar tudo aquilo que puder confortá-lo do isolamento em que viverá. Não quero que ele sofra, tampouco quero eu sofrer. Tudo há de se arranjar.”

Uma paz imensa invadiu-o, e ele refestelou-se com aquela sensação prévia de dever cumprido. Sim, perdera o rumo por alguns dias, mas começava a se reencontrar com o “verdadeiro” Milo d’Auvergne: um homem prático, destemido, que nunca, NUNCA se dava por vencido, e que nunca se deixava dominar pela autopiedade. Muito menos pela autoflagelação.

Assim seria feito, com a graça de Deus...

*************

— Camus, reconsidera, peço-te. Temo que teu pai não se agrade se descobrir o que pretendes fazer...

O ruivo não se preocupou em responder. Uma vez que decidia por algo, nada poderia demovê-lo.

Continuou a subir os degraus da escada estreita que levava à torre norte. A escalada parecia não ter fim. Afrodite insistiu:

—Retrocedamos. É loucura…!

Não. Camus não iria retroceder; SABIA que iria se ferir. Não obstante, algo nele mudara naquelas últimas semanas.

Não estava mais disposto a fazer APENAS o que DEVIA fazer. O que ESPERAVAM que fizesse.

E estava prestes a fazer o que o SEU coração exigia. Mesmo que fosse, como seu camareiro-mor lhe alertava, “loucura”.

Chegaram ao cume da escadaria de pedra. O nobre francês abriu a porta que dava acesso a um corredor; para um dos lados, a parte externa da torre. Para o outro, um caminho interno que levava à cela na qual Hilda se encontrava. Respirando fundo, para lá se dirigiu o filho do duque, sendo seguido pelo claudicante Afrodite.

Um vigia, que guardava por fora o cativeiro da moça, prontamente se interpôs entre Camus e o cárcere.

— Senhorita Camille, eu sinto muito, mas vosso pai deu-me ordens expressas para não deixar ninguém se aproximar da...

— Como ele saberá que tu não o obedeceste se ninguém lhe contar? – o rapaz interrompeu, tranquilo porém firme.

— Senhorita...?

— Se me deixares logo fazer o que vim fazer, partirei sem demora.

Dando um passo à frente, o sueco ajuntou, em auxílio do amo:

— O duque de nada ficará sabendo, meu bom homem; encontra-se em reunião com alguns de seus vassalos, e assim deve ficar por toda a tarde. A senhorita quer apenas despedir-se da irmã.

O guarda olhou para Afrodite, considerando suas palavras. E olhou novamente para “Camille”. Após hesitar um pouco, deu passagem a quem cria ser a primogênita de Teobald II. E afastou-se dali, assim como fez o ex-pajem, para dar mais privacidade “às damas”.

Camus postou-se bem junto à porta de madeira maciça. Uma pequena abertura retangular e gradeada era tudo de que dispunha o rosto da prisioneira.

— Hilda. Hilda, sou eu, Camille.

— Camille?! – a voz tremida emergiu da enxovia, mal iluminada por escassas velas.

— Sim, sou eu.

— Irmã! Oh, minha irmã! – ouviu-se um baque à porta, pois a ela a menor atirara-se com sanha, ansiosa por finalmente falar com alguém, após mais de duas semanas de confinamento.

A garganta do ruivo constringiu-se. Teve medo de não conseguir falar... ou de falsear o tom de “Camille”.

— Hilda, eu vim despedir-me. Amanhã ao alvorecer... partirei para Auvergne.

— Oh, Camille... és tão boa... foste a única em todos estes dias que se dignou a vir me ver – choramingou a loira, colocando as mãos nas pequenas grades; o coração de Camus doeu ao vê-las tão sujas. Apressou-se em dizer:

— Nosso pai não permite que ninguém o faça, por isso ninguém veio, minha irmã. Senão, tia Emilie já teria vindo te trazer bolinhos e toda sorte de guloseimas.

A cativa riu e fungou ao mesmo tempo. O irmão soube que ela chorava em meio ao riso.

— E-eu lamento tanto, Camille... nem poderei ir ao teu casamento!

— Eu também lamento, Hilda... contudo... sabes que é consequência de teus atos tresloucados... despertaste a ira de nosso pai. Tu sabes que ele é bom e compassivo, porém rígido...

— Sim, eu sei – a moça soluçou, tristemente – Camille... e-eu nunca quis prejudicar-te... acredita-me...

O ruivo cerrou os olhos, tomado pela dor.

— Eu acredito – ele mentiu.

— Ocorre que eu... eu... a-agradei-me do senhor Milo e... s-sabia que tu NÃO gostavas dele... por isso, caí em tentação e acabei cometendo tamanha sandice... oh, como arrependo-me agora! Tudo que me resta é morrer em vida, Camille... nosso pai vai enviar-me para o convento! – rompeu em desesperado pranto.

— Sim, eu sei. Ele me contou...

— Oh, Camille, minha amada irmã, eu te peço, tenta demovê-lo dessa decisão cruel! Ele te tem em alta conta, certamente que te ouvirá, por favor, eu te peço, em nome de tudo que há de mais sagrado!

— Hilda... sabes que quando os pais decidem a vida dos filhos, nada se pode fazer a respeito... ainda mais sendo um mero... uma mera filha como eu... – respondeu, compadecido.

— Sim, eu sei... mas... mas eu... e-eu não quero me tornar uma freira, Camille! Sempre quis me casar, ter minha família, meus filhos... meu pai enterrar-me-á como fez com nosso irmão Camus!!!

O rapaz estremeceu. Sentiu as pálpebras inundarem-se de lágrimas. Pôs sobre os dedos enegrecidos da irmã os seus, levemente trêmulos.

— Não digas isso. Estás viva. Por um tempo, hás de te lamentar amiúde, mas Deus há de confortar teu coração – disse Camus, profundamente comovido – e-eu... eu irei visitar-te... e sempre... enviarei cartas...

— Então tu te conformas com meu aprisionamento perpétuo?! – indagou a loira, alterando-se.

— Não... não foi isso que quis dizer...

— Pois foi o que disseste! – vociferou – Que te importas afinal, não é mesmo? Casar-te-á com um belo e viril nobre, terás o teu castelo e a tua família... e eu terei como companhia a solidão e beatas carcomidas pelo esquecimento! O mesmo esquecimento que há de me engolir!!!

— Hilda... – o ruivo apertou seus dedos na mão da irmã, entretanto, foi repelido, com rispidez.

— Vai-te daqui! Não quero tua compaixão!!! – agora a mais nova estava dominada pela cólera – Eu queria uma VIDA! Uma vida FELIZ COMO A TUA!

— Não sou feliz como crês – retrucou Camus, agoniado com o que se tornara a sua despedida da irmã que, apesar de tudo, amava.

— Então tu és a maior ingrata debaixo dos céus! E neste caso, teu pecado é maior que o meu! Muito maior! Mereces o INFERNO, Camille, é o que mereces!!! O INFERNO!!! – gritou, fora de si.

Percebeu que Hilda rendia-se a uma crise nervosa. Não adiantava mais argumentar com ela. E por mais que aqueles berros não pudessem ser ouvidos de fora da torre, aquilo o deixava inseguro quanto à clandestinidade de seu ato.

— Eu partirei, Hilda. Fica com Deus.

— Vai! Vai para tua VIDA PERFEITA, vai!!! Eu continuarei aqui, entre estas paredes geladas, em meio ao frio, à escuridão, aos percevejos que estão a devorar-me a carne, e a nulidade do tempo!!!

— Nosso pai vai tirar-te daqui assim que regressar de Auvergne, aguenta mais uns dias – a voz do jovem saiu embargada.

— Tirar-me de uma prisão para me jogar em outra! Tirar-me daqui para encerrar-me em um mausoléu! Deveras, devo animar-me. Adeus, Camille.

— Hilda... eu... eu realmente sinto muito. Eu sinto tanto. Não imaginas como lamento, minha irmã...

A loira não mais estava à porta; afastara-se da abertura gradeada, onde ainda permanecia a mão de Camus. Apertando as pequenas barras de ferro, o jovem murmurou:

—Tudo poderia ter sido diferente…

Resposta alguma veio. Ele soube, então, que era hora de dizer, simplesmente:

— Adeus, Hilda.

E dali retirou-se, completamente arrasado.

Percebendo a aproximação de “Camille”, o guarda voltou de imediato ao seu posto. Camus agradeceu-lhe, e foi se juntar ao sueco, que aguardava por ele perto da saída. Ao ver-lhe a expressão destroçada, Afrodite deixou escapar:

—Eu sabia que tu irias te machucar…

O ruivo abaixou a cabeça; pôs-se a descer a longa escadaria, seguido pelo ex-pajem.

Chegando ao térreo, Camus virou-se para Afrodite:

— Quero ir a um lugar, mas desta vez sozinho.

— Aonde vais? – a pergunta revestia-se de preocupação.

— Despedi-me de uma irmã. Agora... devo me despedir de outra.

— Oh. Compreendo. Tens certeza de que... de que estás bem para ir sozinho?

O francês fez que “sim” com a cabeça.

— Como quiseres. Irei verificar nossas bagagens... certificar-me de que está tudo preparado para nossa partida amanhã.

— Por favor. Agradeço-te.

Separaram-se: Afrodite rumou para o palácio senhoril , e Camus para o cemitério da capela principal.

O jovem nobre caminhou por entre e por sobre seus antepassados, detendo-se diante do túmulo de sua mãe. E, ao lado deste, um outro, em cuja lápide se lia o nome de “Camus”.

Abelhas bailavam sobre as vistosas e delicadas margaridas brancas, depositadas recentemente. Ele SEMPRE mandava colocarem flores na sepultura onde a querida e saudosa irmã descansava.

Constatando de que não havia ninguém nos arredores, falou baixinho:

— Sei que já faz tempo que não venho aqui... perdoa-me por isto.

Ajoelhou-se, espalmando as mãos onde havia terra.

— Perdoa-me por isso. De qualquer maneira, estás sempre comigo... tu vives em mim... eu VIVO TUA VIDA, tu bem o sabes...

Lágrimas grossas e pesadas precipitaram-se.

Ele não mais as conteve.

Que fluíssem. Que se libertassem.

— Ainda assim, vim despedir-me de ti... Camille.

Algo partia-se dentro dele. Como um cristal trincando antes de quebrar-se por completo. Mordeu o lábio inferior, fungando sentidamente.

Fechou as mãos na terra, ao mesmo tempo em que se rendia ao primeiro pranto em treze longos anos.

E este veio com toda a urgência de algo que fora reprimido por tanto tempo.

Prostrado no solo fértil de sua amada terra, semeado pelo sangue de seu sangue, pela carne de sua carne, Camus chorou e chorou... finalmente chorou, como há muito ansiava sua alma...

*************

A condessa d’Auvergne repousava em seu leito, como era de praxe nos últimos seis meses. Definhava a olhos vistos, tal qual uma bela flor que murcha lentamente. A despeito da doença desconhecida que minava suas forças, aparentava pelo menos dez anos a menos que os seus 39 anos de idade. Belíssima, conservava nas faces lívidas e encovadas misteriosa jovialidade. A isso atribuíam a doçura e a mansidão que nem mesmo aquela perniciosa moléstia fora capaz de extinguir. Não importava a lassidão a que conduzia-lhe a permanente astenia, não importavam as dores que lhe acometiam: Sophie d'Auvergne sempre receberia com um lindo sorriso quem quer que fosse a seus aposentos. Familiares, amigos, criados, todos, sem distinção, eram agraciados com a expressão gentil daquela mulher que nunca se lamentava, por pior que fosse sua condição.

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Henri sentia-se privilegiado pela esposa que tinha, embora ambos soubessem que amor verdadeiro nunca houvera. Nutria, sim, respeito e carinho. Por isso, ainda que não a amasse – pois que seu coração nunca deixara de pertencer ao grande amor de sua juventude – não medira esforços para buscar-lhe uma cura.

Todas tentativas foram em vão. Restava ao conde proporcionar o que estivesse ao seu alcance em prol do conforto de Sophie... porém, de forma velada, todos esperavam a morte da matriarca.

Batidas à porta fizeram-na elevar-se nos travesseiros, e enunciar:

— Entrai, pela graça de Deus.

Seu rosto iluminou-se ao ver o primogênito adentrar o quarto.

— Milo, meu filho! Como é bom te ver.

— Como estás, minha mãe? – era mais um cumprimento do que uma pergunta – Senti tua falta ontem na hora do jantar...

— Estava um pouco preguiçosa – a dama riu, disfarçando a extrema fraqueza. Percebida, contudo, pelo atento rapaz.

— Não vais descer hoje para almoçar conosco? Partirei amanhã para Saint-Doulchard...

— Perdoa-me, meu querido, tua mãe ainda se encontra bastante preguiçosa hoje. Um verdadeiro pecado, eu sei!...

Considerando-a com ternura, ele sentou-se na cadeira estofada junto à cama. Tomou sua mão, achando-a terrivelmente gelada... e fazia calor aquele dia!...

— Então pedirei que tragam-nos a refeição para cá, que tal? Assim, almoçamos juntos – dirigiu-se à criada que cerzia no recinto – ouviste, Pauline? Traga-nos o almoço, sim?

— Certamente, senhor Milo – a mocinha ergueu-se do banco, diligente.

Sophie balançou a cabeça, em débil recusa:

— Não, meu filho, não é preciso, não tenho fome...

— Mas precisas alimentar-te! Vais almoçar, SIM, nem que seja uma sopa ou um caldo – insistiu ele, com doce firmeza. A condessa riu, apertando a mão do filho.

— Acho que não tenho como refutar tal ordem...

— Não mesmo.

— Que me tragam apenas um caldo então... não muito temperado... enjoam-me certos temperos, sabes?

— Por isso te manténs tão esbelta – brincou ele, e para a serviçal já perto da saída – Pauline, traz o almoço para mim, e para esta vaidosa senhora aqui, um caldo de carne com legumes, com pouco tempero.

— Pauline, pede ajuda pois vais trazer dois almoços... e estou faminto, adianto-te! – uma nova voz fez-se ouvir à entrada da alcova.

— AIOLIA!!! – surpreendeu-se Milo, erguendo-se de pronto para abraçar o irmão mais novo, que correspondeu com igual alegria.

— Há! Te fazes de contente ao me ver, mas estavas de partida sem esperar teu irmãozinho querido aqui?

— Pensei que não chegarias a tempo... uma tartaruga já teria chegado!

Riram, gracejando um com o outro. Os olhos de Sophie encheram-se de lágrimas ao ver seus meninos juntos de novo, após tanto tempo. Apressou-se em enxugá-los, antes que daquilo se dessem conta.

— Agora, dá-me licença que devo cumprimentar a mais bela dama do mundo – disse o recém-chegado, tomando lugar na cadeira. Deu um beijo na testa da mãe, tentando não se ater ao choque em vê-la tão alquebrada. Fora comunicado por cartas sobre a enfermidade, mas não imaginava que ela estivesse naquele estado tão fragilizado.

— Aiolia, meu filho querido! Enfim retornaste de teus treinamentos... espero que não tenham sido muito duros para ti.

— Oh, foram... foram, sim! Entretanto, não nego que foram proveitosos.

— Percebo-o – falou o mais velho – estás robusto, tu que eras franzino como um gato esfaimado.

De fato, Aiolia tornara-se um rapaz forte e corpulento como o irmão mais velho, e de igual estatura, medindo os mesmos 1,85m. Os cabelos, agora mantidos curtos e em camadas lisas, tiveram seu tom de loiro um pouco escurecido em relação aos de Milo. Seus olhos esverdeados brilhavam eufóricos por estar de volta ao lar. Não escondia o fato de que desagradavam-no os árduos trabalhos em prol de sua educação formal como cavaleiro, exceto pelo fato de que moldaram-no um homem de porte inegavelmente intimidante.

— Fiquei sabendo que não irás conosco ao casamento.

— Estou temporariamente impossibilitada, meu filho. Tão logo me restabeleça, visitarei Milo e sua esposa em Saint-Doulchard – respondeu Sophie – Ah, como queria ver a “famosa” Camille! Espero que ela te faça muito feliz, Milo.

— Dizem que é bonita, porém um tanto excêntrica – Aiolia falou, enrolando os cabelos da mãe nos dedos.

— “Excêntrica”? – fez Milo.

— Ouvi dizer que não se faz amável como as donzelas comuns... que é distante, fria, extremamente culta e estudada, e que... não, isso eu acho que são boatos MESMO...

— O quê? – quis saber a dama, curiosa.

— Dizem que ela foi educada pelo pai como se fosse um homem.

Aquela declaração assustou o irmão mais velho:

— Quê? Como assim? – via-se atônito.

Aiolia prosseguiu, arqueando dramaticamente as sobrancelhas:

— Vais desposá-la e não o sabes? O duque teria, pessoalmente, ensinado-lhe artes militares: luta corporal, manejo de espadas, como cavalgar cavalos de batalha... cuidado ao brigar com ela – e caiu na gargalhada. A mãe riu, cobrindo a boca com a mão.

Milo deixou escapar um suspiro, que só ele sabia ser de alívio. Então aquelas loucuras de Teobald II acabaram por se tornar notórias... pudera!

— Acho isso notável! – comentou Sophie, sorrindo, empolgada – Ela me parece fascinante... a mulher perfeita para o meu Milo!

— Oras, não digas isso... – resmungou o jovem, incomodado.

— Então está a se realizar aqui uma reunião e nem sequer convidado fui? – Henri surgiu, segurando um singelo lírio branco salpicado de rosa.

— Sê bem vindo,meu marido, fica à vontade, estes nobres rapazes estavam a alegrar o meu dia – disse Sophie, o coração fraco transbordante de uma felicidade há muito não experimentada.

Revia-se nos claros e belos dias do passado, à relva, sob o sol, com seu esposo e seus dois lindos e rechonchudos filhinhos, ainda infantes.

— Isto é para senhora – Henri entregou a flor à esposa. Beijou-lhe a fronte, carinhosamente.

Passaram horas deliciosas ali naquele quarto. Os quatro conscientes de que tratava-se de uma despedida...

*************

Ao romper da aurora partia do castelo de Turenne a comitiva rumo a Saint-Doulchard, região pertencente a Auvergne.( 9 )

Carruagens ( 10 ) com as bagagens “da noiva” e de seu camareiro-mor, com presentes para o casal, transportando a família do duque, a família do castelão, carroças levando servos, pajens e criados, escudeiros e guardas a cavalo, à frente de todos sentinelas com estandartes nos quais tremulavam o brasão dos Turenne, um escudo ladeado por lírios.

No interior da mais luxuosa carruagem Camus, Marin, Seika, Afrodite e as tias Agnes e Emilie contemplavam o magnífico castelo, envolto em névoa, banhado na luz alaranjada do amanhecer.

Em pensamento, o ruivo despedia-se:

“Adeus, Turenne. Adeus, minha mãe, Camille, Hilda... adeus, minha terra.”

Em algumas dezenas de horas, tornar-se-ia “a nova condessa de Auvergne”. (11)

*************

Notas finais
( 1 ) Milo refere-se ao “pater familias”, estatuto existente desde a Roma Antiga, e ainda vigente na Europa medieval. Segundo ele, o pai de família tinha direito de vida e morte sobre a esposa, e os filhos, exercendo sobre eles domínio total e irrestrito. Sendo “esposo de Camille”, nada há de figurado na fala do loiro. ( 2 ) aparador merovíngio – espécie de cômoda feita durante o período merovíngio, que durou do século V até o século VIII na França. Logo, uma relíquia que Camus possui. ( 3 ) bodega – apesar de no Brasil a palavra se referir a mercearias e bares no interior, é outro vocábulo para“taberna” à época, ou “taverna”, ambas grafias são aceitas pela norma padrão. ( 4 ) “laço do passarinheiro” – armadilha mecânica para pegar aves ou pequenos animais. Na Bíblia, em Salmos 91, a expressão aparece como metáfora de algo ameaçador e mau ao homem, por alguns sendo associado a armadilhas do próprio diabo. Esse é, com certeza, o sentido que Milo quis dar à sua fala, ao fazer o trocadilho com “laços do matrimônio”... ( 5 ) “O Cisne Assado “ – poema presente na compilação “Carmina Burana”, uma série de poemas profanos e textos dramáticos, escritos entre os séculos XI e XIII, compostos em médio-alto alemão (“mistura” entre alemão e bávaro, ancestral do alemão moderno), francês antigo (provençal), latim medieval. Imaginemos que Maurice deu a sua contribuição para a famosa obra, já que o autor de “O Cisne Assado” não é conhecido. ( 6 ) Este poema é de autoria de Daniella Siqueira; eu dei o título apenas para combinar com o que vai no coração de Milo. ( 7 ) Abadessa / Abade – Era como se referiam nesta época aos gerentes de bordéis. Por vezes circulavam pelas tabernas ou estalagens e hospedarias (onde também podiam oferecer “suas meninas”) para encontrar mais garotas ou para arrumar mais clientes. Sua atividade passou a ser proibida a partir do século XVI. ( 8 ) As camisinhas remontam à antiguidade, cerca de 1300 a.C., no Egito. Na época da fic eram feitas de linho com óleos essenciais, intestinos de porco, de carneiros, de tartaruga, e até bexigas de cabra. As referidas por Milo, de seda, são de origem chinesa, e eram comercializadas pelos árabes. ( 9 ) A Saint-Doulchard real fica em Bourges, próxima a Auvergne. Aqui na fic, “batizei” uma região da própria Auvergne com esse nome. Afinal, não é incomum que nomes de cidades se repitam dentro do mesmo estado, do país. ( 10 ) As carruagens luxuosas, como eu imaginei para a fic, ao que parece, só surgiram mesmo no século XIII... como estamos no finalzinho do século XII e não há data certa para seu aparecimento, fiz com que já existissem. ( 11 ) “Camille”, se tornar “Condessa d’Auvergne”? Estando a Condessa d'Auvergne viva, não teria como uma filha ter esse título, o que não ocorria com a mulher que desposasse o primogênito do conde d’Auvergne. A isso chamava-se “título por cortesia”. Da mesma forma, enquanto solteiro, Milo não era, por isso, chamado de “conde”, embora o fosse por hereditariedade. ************* E eis que a primeira etapa da fic tem aqui o seu fim: a partir do próximo capítulo, novos cenários e novas situações, e também teremos a chegada de novos personagens. Aiolia já deu o ar de sua graça :) Este é o link para o tema deste capítulo, "The Song of The Stones", da banda espanhola Trobar de Morte: https://www.youtube.com/watch?v=PVS2vl4jMTs Muito obrigada por prestigiarem, e... até Saint-Doulchard... até o casamento!!! ;)