Dame Jolie

11 O Guerreiro Mais Justo


Notas iniciais
Agradecimentos aos queridos que têm me acompanhado nesta empreitada, de todas as formas, e agradecimentos especiais a quem deixa um comentário, alimentando a vontade de prosseguir, malgrado tantas dificuldades... Créditos da fanart ao fanartista. Vamos à segunda fase de "Dame Jolie"... Saint-Doulchard nos aguarda! Nas notas finais, explicações e o tema deste capítulo. Tenham todos uma boa leitura!

— Ora... o diabo não era tão feio como pintavam!

Ao dizer isto, Aiolia pôs as mãos na cintura, rindo divertido. Milo pareceu incomodado com a reação gaiata do irmão ao contemplar o castelo de Saint-Doulchard pela lateral. O sol daquele início de tarde batia em cheio na fachada, de modo a evidenciar a vetusta austeridade da edificação.

— Do jeito que tu te referias ao teu novo lar, julguei que fosse bem pior do que o que estou a ver...

— Não serás tu a viver nesta imensa tumba, por isso te fazes pândego desse jeito...

— Não lembrava de seres tão exigente e dado a luxos. Um lar é um lar, e a propriedade é vasta e bela...

O mais velho suspirou, desolado.

— É difícil ter teu otmismo, creia-me... logo eu, que vislumbrei as maravilhas arquitetônicas do Oriente e que, enquanto cá na França estive, passei meus dias no castelo de Auvergne... – grunhiu.

Os irmãos estavam ao pé do cume sobre o qual erguia-se, feérico, o castelo de Saint-Doulchard. A fortaleza era a mais antiga das propriedades dos Auvergne; o início de sua construção remontava ao século VII, e sua forma definitiva, após algumas ampliações e reformas, datava dos primórdios do século XI.

Encontrava-se um tanto deteriorada. Ainda mais se comparada à suntuosidade de Turenne ou à grandeza de Auvergne. Muito se devia ao abandono a que fora relegada Saint-Doulchard: situada na região de mesmo nome, com poucas áreas produtivas devido à topografia complexa, sua importância era mais histórica e estratégica do que econômica. Histórica porque fora ali, 500 anos antes, que se iniciara oficialmente a dinastia dos Auvergne. Estratégica por se ver relativamente isolada, reservada, e de média dificuldade seu acesso. Edificada sobre um monte rochoso, seu sistema defensivo disso muito se valeu em um passado belicoso. Dividia-se em dois níveis: o inferior, no qual os jovens se encontravam, e o superior, onde ficavam as torres e a casa senhoril, bem como os pátios centrais. A estes, o acesso tanto era feito através de uma escada escavada quanto do outro lado do monte, mediante o caminho pelo qual cavaleiros e algumas carruagens e vagões podiam subir. A imponente muralha se adaptava ao desnível do terreno. De fato, seria como Aiolia bem observara, não tivesse sido gradativamente abandonada após perder sua função principal para uma família que já acumulara inúmeras riquezas e outros castelos mais aprazíveis pela França. Apenas um castelão local fazia as vezes de administrador, e algumas rondas sazonais cuidavam de averiguar que não haviam ocorrido invasões, como há algumas décadas...

— Por acaso estás receoso de que a bela Camille não vá aprovar o novo “lar, doce lar”? – brincou Aiolia, constatando que o ar preocupado de Milo não se desvanecia.

— Pouco se me dá se ela irá aprovar ou desaprovar qualquer coisa.

O caçula arrancou uma cebolinha-francesa de entre duas pedras, aspirando-a e levando à sua boca aquela aromática flor violeta.

— Nunca te referes à tua noiva de maneira que não seja depreciativa ou mesmo hostil. Venho percebendo isso desde que retornei.

O mais velho afastou a franja loira que caía-lhe revolta por sobre a fronte.

— Caso não o saibas, é um tanto desagradável fazer algo contra a própria vontade, irmãozinho.

— Tu não eras assim tão rebelde – observou Aiolia, balançando a cabeça – Vejo-te agora erguendo-te em franca revolta com a ordem natural das coisas. Afinal de contas... o que aconteceu de um mês para cá?

Obviamente, Milo não podia contar a verdade sobre seu matrimônio a Aiolia. Entretanto, reconhecia a pertinência no parecer do irmão. Não obstante, era mais forte do que ele, as falas ressentidas simplesmente saíam, sem que ele conseguisse freá-las. Repontou:

—Nada além do que foste informado... contudo, ainda se faz penoso que eu seja obrigado a casar com ela.

— Por quê? Tu a odeias tanto assim?

— Sim, eu a ODEIO... bem... não é que eu a odeie, talvez... talvez... seja por sermos tão incompatíveis.

— Pela excentricidade notória dela?

— Sim. Penso que seja isso...

— Quem sabe com o tempo tu não aprendes a gostar dela. É o usual! Camille é bonita, pelo que ouço dizer. É um bom começo. O convívio pode cuidar de mudar tuas ideias.

Milo abaixou-se para pegar uma pedrinha. Jogou-a duas vezes para o alto, pegou-a, e então atirou-a para longe.

— Não acredito que isso vá acontecer. Bem, chega de falar sobre este pobre desditoso, falemos de ti: estás com quase 19 anos. Não pensas em casamento?

Dando de ombros, o rapaz respondeu:

— Nosso pai foi bom para comigo, não pretende me obrigar a tomar esposa por acordo... (1)

— Privilégio do qual fui destituído...

— És o primogênito! – riu Aiolia – Já possuis privilégios demasiado. Era natural que pelo menos um a mim fosse destinado. Mas escuta-me... tua noiva possui três irmãs, hã? Achas que alguma me serviria?

Coçando a cabeça, o mais velho pôs-se a explicar:

— Bom, a segunda filha do duque, de cerca de dezoito anos, será enviada para convento... as outras são crianças ainda e...

— Uma donzela de dezoito anos? Tornar-se-á freira? Que há com ela? É defeituosa? Tem cara de ogro verruguento?

— Ao contrário, é incrivelmente bela... no entanto... é uma longa história – franziu a sobrancelha, incomodado com a mera lembrança da loira.

— Inusitado... e... disseste que as outras duas são crianças?

— Exato, Marin tem 14 anos e Seika 12...

— Tantas se casam aos 14, 15! Não é tão criança assim, essa terceira filha. (2)

— Para mim é – retrucou Milo, sem perceber que já nutria por elas afeto de tio. Sorriu, lembrando-se das meninas – Marin e Seika. São muito vivas e graciosas. Serão lindas moças. E inteligentes... bom, isso já são!

— Que os ventos me levem se não te fazes já protetor de tuas sobrinhas – gracejou Aiolia, ao que Milo se constrangeu – Quem sabe não me agrado de Marin? Já que a segunda filha não poderá contrair matrimônio... é a próxima na linha dos esponsais. (3)

Secretamente, o loiro desejou que Aiolia realmente enamorasse-se da querida Marin. Gostava da adolescente, e achava que aqueles dois combinavam. Ambos eram extrovertidos, gentis e animados. Haviam de formar um bonito e harmônico casal.

— Se tu a considerares nova demais, poderá esperar dois ou três anos até que se desenvolva mais...

— Não sou como tu, que só almejas sereias perfeitas e voluptuosas – rebateu Aiolia, já sonhando com a donzela que iria conhecer – a mim interessa-me sobretudo as mentes vivas e espirituosas com as quais posso exercitar a minha...

— Hunf, falas isso porque eu te adiantei que a menina é graciosa...

Eles riram. O mais novo tornou a considerar o castelo:

— Mudando de assunto, penso que esse lugar carece realmente de alguma reforma ou restauração.

— Eu que não pretendo ocupar meu tempo com tais nulidades...

— Achas que uma dama nascida e criada em meio a uma família nobre e abastada como os Turenne apreciará que tudo permaneça como está?

— Se ela se incomodar, que construa sua própria casa, como os castores.

— Com mil diabos! Começo a ter pena de tua futura esposa! – Aiolia quedou-se boquiaberto – Tu, que até então demonstraras ser cortês para com as mulheres, pareces afrontoso justamente em relação àquela que desposará!

Milo ergueu os ombros, desinteressado. Considerando que nem seria ali que manteria sua “real família”, e sim em outro lugar, aquele não demandava maiores preocupações suas. Bastava prover Camus de afazeres e distrações, e ele teria a consciência plenamente desimpedida para procurar uma concubina com quem obteria sua desejada prole. Havia pensado naquilo nos últimos dias...

A propriedade mais próxima de Saint-Doulchard era Haute-Loire, a cerca de 12 horas de cavalgada dali. Lá sim, no simpático castelo do Loire, teria um lar. Já antevia, reunidos à mesa posta para o jantar, à sua espera, sua mulher e seus filhos. Imaginava-os uma bela camponesa loira de seios fartos, e machinhos corados, vivazes como esquilos. Sentar-se-ia com eles, refestelando-se com o calor da lareira e do amor dos seus, após horas frias em um castelo distante, em horas exaustivas de viagem para enfim com eles estar: sorriria ao ouvir os feitos de seus meninos, das primeiras lições de montaria, das brincadeiras com espadas de pau... seria confortado pelo doce sorriso da amante, no qual se via implícita uma promessa para a noite... iria amá-la e protegê-la, bem como sua frutuosa descendência...

— Ali, vê – seus devaneios foram interrompidos pelo irmão, que apontava para o vale – uma caravana se aproxima. Serão os Turenne?

— Provavelmente sim – o cavaleiro forçou a vista – melhor retornarmos agora. Nosso pai deseja-nos a postos para recebê-los.

Desceu da rocha na qual havia encarapitado. Puseram-se a caminho de volta à antiga fortaleza. Decerto Camus e os seus não teriam lá boa impressão da edificação, contudo, o mais importante é que ela se prestava com louvor àquela farsa: não seria nada inteligente que morassem em um local populoso, nas barbas da lei e de tantas línguas. Os irmãos subiram pelas escadas de pedra, e ao chegarem ao primeiro nível, atravessaram o pórtico principal. Passaram por alamedas mal cuidadas, a vegetação alta e desordenada. Há tempos Saint-Doulchard não dispunha de um jardineiro; as flores que ali estavam foram unicamente presenteadas pela natureza. Adiante, viram serviçais a trabalhar: haviam sido levados por Henri para limpar o castelo e agora cuidavam de sua área externa, a fim de preparar tudo para a festa; podavam as árvores e os arbustos, arrancavam ervas daninhas e parasitas dos troncos, livravam-se de galhos e folhas secas que cobriam o chão. Criados arrumavam mesas, faziam arranjos florais, enfeitavam os lugares já revitalizados pelo trabalho árduo dos responsáveis pela limpeza.

— Não está ficando nada mau... quando cá chegamos, há três dias, parecia uma terra mal assombrada – comentou Aiolia, após dar um assobio de admiração.

— Deveras. Mas o importante é que tenha vinho. Por falar nisso, era bem capaz de molhar a garganta agora. Acompanhas-me?

— Não acho boa ideia, Milo. O pai não gostará se recebermos os Turenne recendendo a álcool. Desprezas tanto assim tua noiva a ponto de ter que te embebedar para encontrá-la?

— Quase isso... – resmungou o cavaleiro, franzindo a testa.

— De minha parte, estou ansioso para conhecer a tal Marin. Tenho cá um pressentimento. Gostei da maneira com que a descreveste. E além do quê, seria interessante partilharmos da mesma Turenne, não?

— Marin ainda é uma criança, já o disse.

— Tu já estás a querer proteger a “sobrinha”! – riu – Podes até não gostar de Camille, mas bem se vê que te afeiçoaste à família dela.

O sorriso de Milo foi a silenciosa confirmação daquela observação. Os irmãos se encontraram com o pai, diante da casa senhoril, à espera da comitiva que chegava.

Quase meia hora depois, os Auvergne recebiam os Turenne. Ante a visão de “Camille”, Aiolia ficou perplexo: como o irmão podia desprezar semelhante beldade? Deu uma discreta cotovelada no braço do mais velho e sussurrou-lhe:

— Sofreste um acidente em alguma das batalhas no Oriente e ficaste ruim da cabeça, por certo... ela é um encanto!

— Nem tudo é o que parece ser – retrucou Milo, dando-se conta de que provara, a duras penas, a veracidade daquele conhecido dito.

Primeiro com “Camille”. Depois com Hilda.

O ruivo estava com um vestido bicolor verde oliva e verde claro, com detalhes bordados a ouro no busto, na saia e nas mangas compridas. Cobria-se com um manto claro para proteger-se do sol, assim como faziam suas irmãs e tias.

Milo achou-o ainda mais belo do que se lembrava. E aquilo muito o incomodava. Pensar em Camus, e no que sua imagem lhe causava, provocava-lhe quase uma dor. E uma ardente raiva de si mesmo. O filho do duque lançou-lhe um olhar vago, secretamente admirando-o. Nem mesmo uma ínfima centelha nas íris cujas dilatadas pupilas captaram a visão do cavaleiro vestido com uma túnica média cinza clara, que deixava um pouco à mostra as pernas modeladas pela malha justa cor de madeira. Calçava botas de couro e lã, o que lhe causou estranheza: fazia tanto calor!

— Sede bem vindos a Saint-Doulchard, nobre Casa de Turenne – o conde d`Auvergne os saudou, no que foi seguido por seus filhos, curvando-se em reverência. Camus, Marin e Seika fizeram o mesmo, bem como Agnes e Emilie.

— Oh, vejo que o caçula Aiolia está de volta! Como se vê crescido. Pensar que o vi pela última vez quando ele contava um ou dois anos de idade – comentou Teobald II, amistoso. O rapaz sorriu, um tanto sem graça, tanto pela fala do duque, quanto por perceber que era alvo dos grandes olhos castanhos da menina que cria ser Marin: era maior e mais desenvolvida do que a outra, que o estudava também, concentrada.

“É como Milo disse, realmente... não é mulher adulta, mas se vê bem graciosa. Tem um jeito doce. E como me olha...”, pensou, animado. Devolveu-lhe a mirada, o que fez a garota corar e abaixar o rosto. O coração de Marin bateu acelerado como nunca dantes. Então aquele era o irmão mais novo do senhor Milo? Era tão bonito!

Enquanto aqueles dois jovens descobriam-se mediante trocas de olhares encantados, Milo e Camus entreolhavam-se sob grande desconforto. Os acontecimentos de Turenne voltavam às suas mentes, dando a ambos um ar de hesitação confundido pelos ali presentes com amoroso recato. O loiro postou-se diante de Camus e, a contragosto, estendeu-lhe a mão. Ali o ruivo pousou a sua, para que o cavaleiro lhe beijasse o dorso enluvado.

— Como tens passado, minha estimada noiva?

— Muito bem, com a graça de Nosso Senhor, meu noivo. Regozijo-me em ver-vos bem, senhor Milo.

Os recém chegados todos reparavam, com indisfarçável assombro, no sombrio castelo. Percebendo-o, Henri pôs-se a elucidar:

—A aparência de Saint-Doulchard não se faz acolhedora ao primeiro contato, reconheço-o. Contudo, estava vazio há pelo menos 100 anos, e a decisão por fazer dele lar de Milo e Camille foi repentina. Todavia, não vos preocupeis, Teobald e Camille: há dias criados limpam e preparam o castelo para a instalação dos futures cônjuges – apontou para as torres escurecidas e gastas – quanto à parte exterior, rogo-vos que de igual maneira sossegai-vos: contratei hábeis artífices, para que restaurem a fachada, a muralha, as torres e tudo o mais que vossas vistas mal impressionadas estão a alcançar. E artífices italianos, os melhores!

— Folgo em sabê-lo, caro amigo. Não esperaria menos de ti, sempre prestativo e generoso – disse Teobald II – tenho plena certeza de que será uma morada digna de reis!

De modo furtivo, Milo procurou sondar a reação de Camus ante a tristonha visão do que seria seu lar dali em diante.

Não encontrou no semblante do ruivo decepção alguma, tampouco tristeza.

Estranhamente, Camus contemplava o castelo com algo de reverente na expressão plácida.

Os servos chegavam trazendo os numerosos pertences dos Turenne e dos que os acompanhavam. Abrindo os braços em um gesto receptivo, o conde propôs:

—Heis de estar cansados da longa viagem. Entrai, sereis conduzidos às vossas acomodações. Refeições serão servidas em vossos apartamentos. Refrescai-vos e repousai conforme vos aprouverdes. Ao cair da noite, reunir-mos-emos no Grande Salão, para o banquete de véspera de Bodas.

Alguns animaram-se com a expectativa de um banho decente após três cansativos dias de jornada, outros só queriam jogar-se em leitos macios, outros queriam mesmo era deliciar-se com uma boa refeição fresca e quente, e uns tantos outros esperavam satisfazer todas as vontades.

Como mandava a etiqueta, Milo ofereceu o braço direito “à sua noiva”; assentindo, Camus entrelaçou ali o seu braço esquerdo, sendo assim conduzido pelo pátio central, rumo ao palácio. Aiolia sorriu e ofereceu o braço direito a Marin. A adolescente arregalou os olhos, surpresa. Ante sua evidente dúvida, o jovem anuiu com a cabeça, como a encorajá-la. Ela buscou o pai com o olhar: Teobald II, um tanto desconcertado, fez um trejeito indicando permissão. Feliz, a ruiva aceitou a gentileza do filho do conde. Seguiram adiante. Seika cruzou os braços e fez um muxoxo.

— Ora essa! Camille vai de braços dados com Milo, e Marin vai com Aiolia... será que não há outro irmão que possa conduzir a enjeitada aqui?

A seu lado, Afrodite riu, divertido.

— Se não te incomodares, pequenina... – e ofereceu-lhe o braço direito. A ruivinha aceitou imediatamente, empolgada.

— E eis que a enjeitada aqui entrará em Saint-Doulchard ao lado do cavalheiro mais belo, afinal! – gabava-se, fazendo o sueco e as tias rirem de sua postura empertigada.

*************

O crepúsculo estendia seu manto dourado por sobre o horizonte; o casamento havia de ser realizado em um airoso dia de primavera.

Com a aproximação da noite, mais caravanas chegavam a Saint-Doulchard. O banquete noturno seria uma prévia da cerimônia pela qual tantos nobres vieram das mais variadas partes da França e da Europa.

Afrodite ajudara Camus a se banhar com água aromatizada com rosas e peônias. Após secá-lo, esfregara óleo essencial de sândalo em sua pele clara e fresca. Ajudava o ruivo a se trocar, enquanto dizia:

—Deixemos os preparativos mais elaborados como depilação e a lavagem de teus cabelos para o início da manhã. Estarás mais descansado e teu sofrimento será menor.

— Fica a teu critério. Estou em tuas mãos.

O loiro mordeu o lábio inferior, fechando o corpete do vestido vermelho com que vestira o amo.

— Estás ansioso? – indagou, amarrando os laços.

— Não. Por que estaria?

— A ocasião demanda, não podes negar.

— Àqueles que por ela almejam, por certo. Não é o meu caso.

— Engana-te – retorquiu o sueco, trançando duas mechas dos longos cabelos vermelhos – mesmo os que se casam contra suas vontades, o que, admitamos, é o que comumente ocorre, se veem ansiosos antes do referido evento. Por que serias diferente?

— Porque SOU diferente – sorriu o ruivo, em um sarcasmo triste – acho que a forma pela qual sou obrigado a viver atesta isso, não?

— Camus...

— Não precisas fazer essa cara, Afrodite – a expressão compungida do amigo fora descoberta no reflexo do espelho diante do qual estavam – Há muitas pessoas bem mais desafortunadas do que eu: aqueles pobres camponeses que em minha honra fizeram aquela bela festa… aqueles pobres miseráveis que já se acotovelam pelas encostas do castelo, ansiando por despojos deste infeliz enlace ( 4 )... todos estes servos e criados que estão a labutar dia e noite, em prol de toda esta fútil ode à nossa “felicidade” de nobres...

Virou-se para o ex-pajem, que se mantinha mudo ao ouvi-lo.

— Não tenhas piedade de mim. Sabes que não me agrado disso – sentenciou o ruivo, friamente.

O sueco meneou a cabeça.

— Peço perdão se te passei essa impressão, Camus. De forma alguma encontro-me em posição para apiedar-me de ti.

— Isso não é verdade. És homem livre, belo, talentoso. Tudo podes. Ao contrário de mim. És, com efeito, mais afortunado do que o “amo” a que serves. Estás, sim, em posição de apiedar-te de mim. Rogo-te, porém, que não o faça.

Não havia autoritarismo naquela ordem, e sim pesar.

— Está bem, Camus. Não tornará a acontecer. Ocorre que acabo por fazê-lo por ter-te como amigo.

— Sei disso. Escuta... descansa agora. Não fizeste outra coisa senão cuidar de mim desde que chegamos. E depois, deves também preparar-te para o festim.

— Que pretendes fazer?

— Quero dar uma volta. Aproveitar que grande parte dos convidados estão repousando ou se preparando para a solenidade. Preciso respirar ar puro... preciso disso antes de atirar-me a mais uma... sessão de sorrisos cênicos e atitudes orquestradas – respondeu, amargo.

Afrodite pensou em se oferecer para acompanhar o amo. Chegou a abrir a boca, mas nada proferiu. Conhecia-lhe o apreço pelos momentos de solidão. Camus, que era naturalmente tão introspectivo, e que vivia a duelar em uma realidade de não ser ele mesmo.

— Compreendo. Estarei aqui, se precisares de mim. Por favor, não hesite em requisitar-me – reforçou, perdido no rosto do rapaz.

— Não hesitarei – garantiu, esforçando-se por sorrir, tão somente para tranquilizar o outro.

Saiu do apartamento e dirigiu-se para a escadaria. Os corredores de Saint-Doulchard eram frios e escuros, malgrado o dia estivesse claro e cálido. Algumas tochas foram colocadas, no entanto em número insuficiente para a largura e altura do caminho que o ruivo percorria. Sem mais se deter nisso, desceu os degraus de granito e enfim ganhou a área externa, agitada pela movimentação dos criados, empenhados em seus trabalhos.

Andou calmamente, sentindo o agradável vento daquelas paragens, atento ao trajeto que fazia, a fim de não se perder na hora de voltar. Afastando-se a esmo, desceu por escadas gastas de pedra, chegando a um lugar deserto, onde o mato ainda estava alto. Estátuas centenárias envolvidas por trepadeiras e tingidas de musgo recepcionaram-no. De alguns vasos escurecidos emergiam flores selvagens, obra unicamente da ação de pássaros e insetos. Seria o jardim de Saint-Doulchard? Ou melhor… teria sido? Encontrava-se há muito intocado por mãos humanas. Os derradeiros raios de sol derramavam-se pelo soturno lugar.

— Nem de longe é como o soberbo jardim de Turenne, não?

Assustado, Camus se virou na direção da voz de Milo, calma e desarmada: ele saía detrás de um carvalho pontilhado de orquídeas azuis. O ruivo ficou em dúvida se aquele encontro havia sido acidental... ou se... se...

“Ora, por que Milo me seguiria?”, reprovou-se em pensamento.

— Como seria? – devolveu, disfarçando a surpresa – Turenne dispõe de inúmeros serviçais que por ela estão permanentemente a zelar. Sem contar com Afrodite.

— Afrodite?

— Sim, meu camareiro-mor…

— Oh, sim, lembro-me agora. Falaste-me dele, já. Disseste que além de ele ser tua ama-seca, é exímio jardineiro.

Embora não tivesse gostado nem do tom nem do teor do comentário do loiro, fingiu não ter se importado com aquilo.

— Deves estar decepcionado com teu novo lar – supôs Milo, com leve acento de troça.

— Não possuo aspiração alguma na vida, senhor Milo, logo, não tenho como decepcionar-me – respondeu, sem qualquer emoção na voz e no olhar.

Um tanto perturbado por aquela declaração, o cavaleiro acabou por mirar fixamente aquele atraente rosto.

Sereno.

Impassível.

Imaculado.

Acabou deixando escapar pelos lábios o que lhe passou pela mente:

— Não ficou marca.

— Hum? – fez Camus, sem entender.

Tarde demais. Não havia remédio a não ser continuar, o que Milo fez de má vontade.

— Em teu rosto. Teu pai acertou-te com tanta violência. Surpreende-me que não tenha uma só marca...

“...em tua bela pele...”, completou, mentalmente.

Um tanto envergonhado, o ruivo levou uma das mãos à face. Esclareceu:

— Bem, já faz tempo. E Afrodite cuidou bem dos ferimentos. Se não fosse por seus préstimos, talvez tivesse, de fato, ficado alguma nódoa.

À menção do ex-pajem, Milo experimentou desagradável sensação... a qual não sabia identificar.

— Ah, claro, o “belo Afrodite”. Aquele que é “incrivelmente bonito”, o que lhe valeu tal alcunha. Aquele que sabe fazer DE TUDO. Foi por isso que quiseste trazê-lo afinal, não? – e imprimiu certo sarcasmo naquele enunciado, incompreensível para seu interlocutor.

Percebendo o noivo confuso, o loiro arrependeu-se de ter deixado transparecer o incômodo que o sueco lhe fazia sentir... SEMPRE.

Sem saber o que dizer, acabou calando-se de vez. Então o ruivo, unindo as mãos, disse:

— Gostaria de agradecer-vos por terdes ajudado-me naquela ocasião. Perdoai-me por não tê-lo feito então... – desviou o rosto – Creio que perdi o prumo.

Engolindo em seco, Milo balançou a cabeça, e volveu:

— Eu só cumpri com meu dever de cavaleiro...

Ambos se calaram, abandonados de vez pelo sol. O canto das cigarras reverberava em meio àquele silêncio que nenhum dos dois sabia como quebrar.

Ambos reviam-se sob a lua, vigiados pela floresta, unindo-se em um longo e profundo beijo, repleto de doce paixão, de dolorosa entrega, uma sensação que arrebatava-os a mistérios insondáveis...

— Camus... naquela noite, eu...

O som de uma trombeta roubou-lhes subitamente a atenção.

— Chegou alguém... e alguém importante – explicou Milo – Já que estás aqui, vem comigo recebê-lo. Temos mesmo que nos acostumar a essas convenções.

Sem nada emitir, o ruivo seguiu o noivo, os dois dirigindo-se para o pátio central. Um homem apeava de um magnífico corcel frísio negro, com pelos brancos nas patas, na cauda e na longa crina. Confiou o esplêndido animal ao escudeiro que lhe servia. Ajeitou a capa negra que cobria-lhe a túnica cor de sangue. Os cabelos escuros, curtos e arrepiados, contrastavam com a cútis pálida, cuja perfeição fazia sombra a de muitas damas. Os olhos rasgados adicionavam mais exotismo à sua figura. Trazia à cintura uma espada cujo formato Camus jamais havia visto.

— Shura! – exclamou Milo, eufórico – Valei-me todos os santos, és tu mesmo!

Adiantou-se para ele, rindo, contente. O recém chegado limitou-se a dar um sorriso tão discreto que se fazia quase imperceptível.

— Vieste mesmo, nem posso acreditar – ria o loiro, abraçando o homem.

— Não perderia o casamento do meu melhor amigo por nada neste mundo. Por quem me tomas, desmiolado?

— Pois sim, vieste rir de minha desgraça!

— Sempre proveitoso unir o útil ao agradável – espetou o moreno.

Camus ficou atônito ao presenciar aquela cena. Era a primeira vez em que via Milo sorrir com franqueza.

“Eu nunca o vi assim tão alegre.”, pensou, achando-o lindo daquele jeito. Sentindo as faces queimarem, temeu estar enrubescendo.

— Então é aqui que te esconderás com tua consorte... – falou Shura, considerando ao redor. E, ao perceber Camus – Ah, presumo que seja...

Milo notou a aproximação do ruivo.

— Ah, sim. É minha noiva.

— Perdoai-me. Não tive intenção de incomodar-vos – escusou-se o filho do duque, fazendo uma mesura polida.

O espanhol fez uma reverência diante “da moça”.

— Em nada incomodais, gentil senhora. Sou o marquês Shura Aguilar, do Reino de Castela, ao vosso dispor. É uma honra – anunciou, tomando a mão de Camus e beijando-a – Sois ainda mais bela do que me disseram.

— Lisonjeai-me com tamanha amabilidade, marquês de Aguilar – respondeu Camus, recolhendo a mão, enquanto pensava:

“Que sensação estranha...”

Os olhos escuros do marquês cravaram-se nos seus rubros. Foi quando o ruivo percebeu que não eram pretos, e sim verdes, mas não como os verdes de Aiolia: um verde escuro como as profundezas dos lagos. De algum modo inexplicável, sentiu-se vulnerável ante aquela mirada fixa... que NADA tinha de galanteadora.

Era mais como se estivesse sendo... analisado.

Um temor frio se apossou dele, sem que soubesse a razão.

— Se os senhores me permitirdes, retirar-me-ei. Devo dirigir-me ao salão com minhas irmãs. Preciso aferir se já se encontram prontas – pediu licença aos dois cavaleiros.

Mediante a permissão concedida, retirou-se, ocultando a aflição que rondava.

—Tua noiva é um primor, meu amigo. Não houve exageros nos boatos que a estes ouvidos chegaram.

— Sim, faz-se formosa, não?

— Entretanto... há algo estranho nela.

Milo encarou-o, apreensivo.

— Estranho?

— Sim.

— Estranho como?

— Abstenho-me de responder-te. Temo ofender-te.

— Eu insisto, diga-me – o loiro já não mais sorria.

— São os olhos dela.

— Ah... isso? – aliviou-se o filho do conde – Sim, eventualmente causam essa estranheza em quem os vê pela primeira vez. Parecem vermelhos, não? Eu também nunca havia visto esse raro tom de castanho até...

— Não me refiro à cor dos olhos, e sim à ESSÊNCIA deles.

— Essência?

— Não são olhos de mulher.

— Que dizes? – espantou-se Milo.

— Por certo sandices. Não obstante, foi a impressão que os olhos de tua Camille passaram.

O loiro esforçou-se por conter seu estarrecimento ante aquela enunciação. Sorriu sem vontade, colocando as mãos na cintura, e volveu:

—Vejo que o espírito investigativo do mais justo Guerreiro da Ordem segue ativo, mesmo em tempos de paz...

— A paz é um conceito volátil, meu caro...

— ... é de minha noiva que estás a falar – Milo fez-se sério.

— Eu sei. Peço-te perdão. Por isso disse que não queria te revelar o porquê de minha tola estranheza. Bem, há de ser o sol desta terra, o qual tive que enfrentar por tantos dias.

— Deveras. Auvergne tem as estações bem marcadas... invernos muito frios, verões bem quentes... no entanto, a primavera este ano dá mostras de querer antecipar o verão.

— Alguma razão para instalar-vos em Saint-Doulchard?

Tanto a veloz mudança de assunto quanto a tônica da indagação deixaram Milo aturdido. Shura refinou a ponderação:

—Desposarás a primogênita do homem mais poderoso de teu país e vens com ela morar em tão retirado sítio... e, ao que me parece, este não é um dos mais imponentes castelos de tua abastada família.

— Tenho planos de revitalizar o castelo, assim como a região; pretendo trazer o progresso a Saint-Doulchard. A área tem potencial, menosprezado devido a tantos anos de campanhas militares em que eu, meu pai e nossos antepassados estivemos no estrangeiro.

— Pensas tornar-te um governante, é isso? Ou um senhor de terras?

— Uma função não exclui a outra. Construirei uma nova Saint-Doulchard.

— Entendo. Podes contar com meu auxílio. Se precisares. Possuo outras aptidões, que não decapitar mouros e cristãos profanos.

— Essas, todavia, fazem-se as mais notórias, reconhece...

De fato, apenas Milo superava Shura como o mais implacável guerreiro em um campo de batalha.

Shura, porém, detinha a fama de “O Guerreiro Justo”, e nisso, ninguém lhe fazia frente. Preocupava-se com civis, e mais de uma vez, salvara “infiéis” que descuidadamente ficavam no raio de ação.

Os oponentes caíam como moscas sob o fio de sua espada. Contudo, também de sua lâmina provavam os companheiros que sucumbiram aos baixos instintos que a guerra por vezes desperta nas almas dos incautos; em outras palavras, aqueles que rendiam-se à crueldade gratuita, desmedida. Ocasiões houve em que, ao flagrar Cruzados violando mulheres, seviciando crianças, maltratando velhos e desvalidos por puro prazer, efetuara sua justiça, fazendo rolar de encontro às cabeças dos mouros as cabeças de cristãos.

Em quase todas as vezes, este havia sido o desfecho daqueles horríveis atos.

Quase todas.

Houve UM cristão em quem ele não pôde aplicar sua justiça. Por ser o maldito protegido do rei Filipe de França, um dos três patronos da Cruzada . Ouvia-se mesmo rumores sobre algo além de simples amizade. E com isso, aquele homem esteve livre para cometer as piores atrocidades, sem ser detido nem mesmo pelo mais justo dos Exércitos Santos.

Andreas de Turenne.

— Fiquei um tanto descomposto ao saber que entrarias para a família dos Turenne – confessou o marquês, caminhando ao lado do amigo para o interior do castelo.

— Foi tudo tão repentino! Podes ter a certeza de que não estou nem um pouco satisfeito com isso.

— Tu nem ao menos estavas prometido a alguém. E teu pai decide, de um dia para o outro, teu casamento... logo com A PRIMA de Andreas.

— O maldito sequer encontra-se em França. A última notícia que dele tive é que estava para se casar com uma duquesa da Estíria (5). Deve estar por aquelas bandas, desgraçando a vida de alguém...

Percorreram o corredor iluminado, seguindo o som das harpas e flautas. O festim principiara.

— Shura – Milo deteve-se, aproveitando-se de que ainda não havia ninguém perto deles – és meu melhor amigo, nada tenho a te esconder, portanto revelar-te-ei... meu matrimônio... foi ordem do próprio Filipe.

— Que dizes? – surpreendeu-se o moreno, deixando a inexpressividade de até então.

— Sim, meu caro. O rei mandou que eu desposasse a primogênita de Teobald II. É uma longa história, a qual não posso contar-te agora... vê: convivas já se aproximam – disse o loiro, em voz baixa.

— Mesmo sem contar-me, posso inferi-lo. É mesmo uma raposa astuciosa, teu monarca. Primeiro, escapa do campo de batalha (6), depois tenciona tomar para sua família aquela que a dele suplanta... com o perdão de minha fala. Afinal, és parente distante daquele...

— Shhh, cala-te sobre tais assuntos. Há muitos cortesãos aqui... conversaremos depois, prometo-te.

Assentindo despreocupadamente, Shura fez conforme o sugerido. E retomaram o caminho para o festim.

Minutos antes, Camus havia chegado à grande sala, atraindo olhares admirativos; estava incrivelmente belo, e todos se perguntavam como não haveria de estar no casamento... contudo, achava-se em certa aflição, de modo que não cumprimentou ninguém. Avançou sem pestanejar pelo ambiente, distraído. Percebendo-o, Afrodite, que já ali se encontrava, com as irmãs de seu amo, foi até ele, preocupado.

— Está tudo bem?

Pego de surpresa, o ruivo assentiu:

— Sim, está – mentiu.

— O que aconteceu? Sabes que não podes mentir para mim – contestou, em tom afável.

Vendo o jovem hesitante, gentilmente tomou-o pelo braço e o conduziu até um canto mais afastado.

— Está estampado em teu rosto que aconteceu alguma coisa, o que é assaz incomum. Diz-me, pela graça de Deus. Faz-me desassossegado assim – requestou Afrodite, a voz baixa, o olhar cuidadoso.

Camus, de igual maneira, revelou:

— Acabei de conhecer o homem que, ao que parece, é o melhor amigo de Milo.

— Deveras? E foi isso que te deixou assim?

— Ele causou-me calafrios.

— Por que dizes isso? – franziu o cenho, já impaciente – Acaso faltou-te com o respeito?

— Não, ao contrário, fez-se extremamente cortês... entretanto... algo nele é estranho. A maneira com que me olhou...

— Ele te assediou na frente de teu noivo?

— Não foi um olhar desse tipo. Afrodite – pareceu procurar as palavras exatas – foi como se aquele homem vislumbrasse a minha alma.

— Como...?

— Eu senti como se… como se através de seu mero escrutínio, ele estivesse a descortinar o meu segredo.

— Não entendo como isso seria possível. Deves estar impressionado com...

— Vê, é ele que chega com Milo.

O camareiro-mor seguiu com seus olhos claros a direção apontada pelo menear de Camus. Os dois referidos cavaleiros surgiram no outro extremo do recinto, sendo cumprimentados por nobres que encontravam. Reparou atentamente no homem ao lado do loiro. As impressões de Camus encontravam fundamento na aura misteriosa que cercava o moreno.

Sentindo-se observado, Shura acabou por encontrar o olhar que o estudava. Afrodite estremeceu e prontamente virou o rosto, pretextando falar qualquer coisa a seu senhor.

— Quem é aquele com Camille? – o marquês quis saber.

— É Afrodite, o camareiro-mor dela. Seu “faz tudo” – respondeu Milo, contrariado só de vê-lo tão junto a Camus.

— “Afrodite”? Isso não é nome de mulher?

— Bem, olha a cara dele!...

Os olhos verde escuros do marquês cintilaram, fixos no sueco.

— Com efeito, não fossem as vestimentas, tomá-lo-ia por uma mulher. Uma belíssima mulher, aliás.

O filho do conde deu um riso meio sarcástico.

— Estás com a visão um tanto prejudicada, meu caro. Enxergas homem em uma mulher, e mulher em um homem – zombou; não obstante, Shura continuou a observar o insólito par, distante alguns metros.

— Não te incomodas que tua noiva tenha tão garboso mancebo a pajeá-la?

Milo piscou seguidamente, sem apreciar aquela pergunta.

— Em absoluto – respondeu, seco.

— És deveras seguro de ti.

— E por que não o seria?!

Abstendo-se de responder, o moreno preferiu pegar um cálice de vinho, servido por uma expedita criada. Convidou o amigo para brindar, no que anuiu o loiro: este sorveu o líquido, tentando não pensar no questionamento do outro.

Pouco a pouco, a grande sala se enchia de convidados para o banquete. Vinhos e licores finos abriam o apetite dos nobres, enquanto as mesas terminavam de ser abastecidas. Em relação a Turenne e a Auvergne, Saint-Doulchard fazia-se rústica, ainda que exalasse glórias que não podiam ser olvidadas: das paredes de pedra haviam sido retiradas as tapeçarias, pois estavam carcomidas pelo tempo, e assim, a sobriedade imperava. O único adorno digno de nota era um painel gravado diretamente em uma das paredes há pelo menos 300 anos, que ilustrava uma cena de caça. Cortinas de veludo vermelho foram providenciadas, de maneira a conferir cor e elegância ao ambiente. O que mais havia ali a enfeitar o salão fora levado de Auvergne: jarros orientais, vasos de ouro e de cobre, lanças e espadas que refletiam as luzes dos círios a arder em candelabros preciosos e finamente trabalhados.

Uma hora depois, quase todos os nobres hospedados em Saint-Doulchard já se espalhavam pelas mesas dispostas em duas grandes fileiras, uma de frente para a outra. Como era de se esperar, Milo encontrava-se ao lado de “sua noiva”, ambos esforçando-se por parecerem satisfeitos com a ocasião. O loiro viu Aiolia acenar para Marin.

“O que esse tonto está a fazer?”, pensou, injuriado. Viu a garota corresponder ao aceno, simpática.

“Essa não”, e ao pensar isso, balançou a cabeça, em reprovação. Aquele gesto atraiu a atenção de Camus; ante a expressão interrogativa do ruivo, acabou por contar-lhe ao ouvido:

— Parece-me que Aiolia interessou-se por Marin.

Camus arregalou os olhos, tornando-os, em seguida, para os dois de quem falava seu noivo.

Com efeito, sorriam faceiros um para o outro.

— Parece-me que o interesse é recíproco – observou o filho do duque.

— Pode ser que ele peça a meu pai para propor os “esponsais”...

— Hum.

— ... meu irmão gostou da menina assim que nela pôs os olhos.

— Hum.

— Não te importas que meu irmão queira desposar tua irmã?

— A menos que ele tenha vosso temperamento, não me importo nem um pouco.

— QUÊ? – fez o loiro, quase engasgando com o vinho.

Elegantemente, o ruivo sorveu a bebida, limpando os lábios rubros em uma pequena toalha de linho. O escarlate do cosmético avivou-se com o tom conferido pelo vinho.

— Estás a me provocar, eu, que estou a falar contigo civilizadamente!

— Civilidade não anula a verdade, senhor meu noivo.

— Vales-te dessa tua cara impassível de que não te importas com nada para me exasperar! — Milo rosnou, a ponto de trincar os dentes.

— Melhor seria que vos acalmásseis. Os convidados podem notar vosso descomedimento.

— Hás de provar meu “descomedimento” quando estivermos a sós e eu puder acertar-te a cara de gesso!

O ruivo lançou-lhe um olhar cínico ao sussurrar, displicentemente:

— Não alimenteis a esperança de que isso venha a acontecer algum dia, senhor Milo. Debaixo destas minhas saias tenho o mesmo que possuís entre vossas rijas pernas...

Milo desconcertou-se a tal ponto que quase derramou sua bebida, de tanto que apertou em seus dedos tensos a haste da taça. Lembrou-se do que Aiolia havia dito a respeito das “singulares habilidades de luta de Camille”. Mas com que vulgaridade fizera alusão àquilo! E sem alterar EM NADA aquela máscara de inabalável serenidade! Sentiu as maçãs do rosto em brasas. Ameaçou baixinho:

— Maldito...que o diabo me carregue se eu não te...

Neste exato instante, a música cessou para que fosse anunciada a chegada de importantes convidados. Um serviçal postou defronte as mesas e proferiu:

—Sua Alteza, o duque de Bourges, Durval de Turenne, e seus ilustres filhos, senhores Andreas e Surt de Turenne!

Em meio ao silêncio instaurado, respirações foram suspensas.

Shura contraiu a mandíbula.

Milo franziu as sobrancelhas.

Teobald II arregalou os olhos.

Henri cerrou os punhos.

Vestido como um verdadeiro rei, de ouro da cabeça aos pés, Durval adentrou, parando diante de todos, os dois jovens filhos atrás de si, igualmente pomposos, como príncipes. Em tom álacre, o irmão do duque de Borgonha saudou os presentes:

— Minhas nobres senhoras, meus nobres senhores, boas noites... perdoai nosso atraso.

— Durval, meu irmão – tartamudeou o duque de Borgonha, visivelmente surpreso.

O duque de Bourges considerou a cada um dos rostos voltados para ele, comprazendo-se em ser o centro das atenções. Enunciou, grandiloquente:

— Como tem passado, Teobald? Reconheço que sou impertinente em aqui me encontrar, sem ter sido convidado. Contudo, hás de entender que, como membro zeloso da família, eu não poderia deixar de comparecer às bodas de minha sobrinha amada... ainda que tu tenhas declinado da minha proposta de uni-la em matrimônio com meu filho Andreas...

*************

Notas finais
(1) De acordo com minhas pesquisas, havia casos em que o homem não era obrigado a contrair matrimônio por acordo, ainda mais se não fosse o filho mais velho, que é o caso do Aiolia. Entretanto, isso era menos comum do que os contratos de casamento. E raro em se tratando das mulheres. Há uns poucos casos documentados de mulheres que, extremamente abastadas, puderam comprar junto ao rei o "direito de se casar com quem quisesse". Lembrando que esses casos não eram comuns. (2) "Marin tem 14 anos, não é tão criança assim para casar" Por mais chocante que possa parecer à nossa concepção atual, isso era bem verdadeiro na Idade Média. Muitas meninas casavam ainda mais novas, com 12 ou 13 anos. Logo, não é que Aiolia seja "pedófilo", o personagem está pensando como um homem do período medievo. Eu até usei de licença poética - porque ainda que saiba que fosse assim, dá nervosinho - fazendo com que ele decida "esperar ela se desenvolver um pouco mais". "Camille" então estaria "velha" demais para casar? Mais ou menos sim ^^ algumas nobres casavam depois dos 20, mas eram a minoria, e quase nunca depois dos 24. (3) Esponsais - fase precedente ao casamento; noivado. O nome também se refere à solenidade em que se firma o contrato de noivado. (4) Camus se refere aqui a uma tradição da época: quando havia um casamento entre nobres, dezenas, por vezes centenas de pobres e miseráveis ficavam nas imediações de onde aconteceria a festa, pois era costume os noivos darem comida e esmolas para os desvalidos. Alguns convidados também davam esmolas aos que "acampavam" perto do local do casório. Ao que parece, chegou a haver insólitos casos em que os nobres deixaram os pobres participarem da festa. Legais esses, não? (5) Estíria - região da Áustria, muito importante nesta época. Conhecida como "o coração verde da Áustria". Pesquisando, vi que é um lugar fantástico, lindo pra se visitar... mas, ah é, sou professora T.T (6) Shura se refere ao fato de que o rei da França Filipe II (em alguns lugares Felipe Augusto) se retirou da Tereceira Cruzada antes de a guerra terminar, segundo consta, por motivos de saúde. Essa Cruzada (1189-1192), de que Henri, Milo e Shura participaram, ficou conhecida como "A Cruzada dos Reis", porque dela participaram os três mais poderosos reis cristãos da Europa: o já mencionado Filipe II, Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, e Frederico "Barba Ruiva" (ou "Barba Roxa"), rei do Sacro Império Romano-Germânico. Frederico morreu no Oriente, pois caiu em um rio ao tentar atravessá-lo e, não conseguindo se levantar devido ao peso da armadura que vestia, morreu afogado. Logo, apenas o rei inglês permaneceu até o fim da guerra. Não encontrei menção à enfermidade que forçou Filipe a sair da Cruzada. Aqui na história, Shura dá a perceber que não acredita na "doença" do rei de França... ************* Eis que chegam os novos personagens: Shura, tido como o Guerreiro mais Justo dos Exércitos da terceira Grande Cruzada; Durval, o tio de Camus, cuja entrada na Grande Sala causou grande surpresa ao duque, ao conde, a Milo e a Shura; os irmãos Andreas e Surt, que até agora não se manifestaram. E, ao que parece, "Camille" recebeu proposta para se casar com seu próprio primo, no passado! Por que Durval traz isso à tona, e bem na véspera das bodas de Milo e Camus? Saberemos no próximo capítulo. Aguardo-vos lá... beijos!!! Tema do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=BI_pg7Utpgg