Dame Jolie

19 Retorno: Meu Lar, Teu Coração


Notas iniciais
SOCORRO, QUE CALOR! Ah... oi, gente o/ Eis aqui, em meio ao forno, o último capítulo... ...do ano (haha, enganou todo mundo, sqn). Foi muito lindo estar com vocês durante o difícil ano de 2016, a maior parte da força que obtive para enfrentar tudo veio daqui, de vocês, de seu apoio, que transcendeu o apoio à fic. Muito obrigada!!! Agradecimentos especiais à diva suprema (*curva, faz reverência, não é o bastante, fica prostrada no chão) Washu M., pela maravilhosa arte de capa do capítulo. É de babar até ficar seca :o- - - Ah, no capítulo anterior, havia esquecido de anexar as informações históricas nas notas finais, só o fiz dia destes, se interessarem, está lá agora xD Neste, não tem mesmo. Só havia uma explicação, acerca das feiras medievais; preferi deixá-la como parte da história. Link para o tema (uma música andaluza do século XII) nas notas finais. Boa leitura :)

Parecia que o conde de Saint-Doulchard havia sido acometido de algum frenesi místico: com o rosto transformado de uma forma que ninguém poderia entender, despediu-se rapidamente de apenas umas poucas pessoas, e tão somente por não ser tomado por rude ou ingrato. O duque de Valência insistiu em que seu afobado convidado esperasse ao menos que amanhecesse para partir.

Em vão.

Nada mais poderia segurar Milo, agora que resolvera assumir o amor que sentia por Camus. E só de pensar que ele estava tão longe, sua vontade era partir naquele exato instante, sem falar com ninguém...

Cerca de duas horas depois, o jovem encontrava-se diante da carruagem que o levaria ao porto de Alicante. De lá tomaria um barco para o sul da França. Pelos seus cálculos, estaria de volta ao lar e para seu esposo – como era doce pensar assim, agora! – em uma semana, mais ou menos. Tencionava parar em algumas feiras pelo caminho; sua ansiedade em reencontrar o ruivo teria que ser contida por um pouco, afinal, desejava comprar-lhe presentes. Já havia adquirido alguns produtos para o marido, mas desta vez queria, efetivamente, sentir que comprava presentes para alguém que se ama!

Não cabia em si de empolgação.

Natassia sorria ante aquele semblante, tomado por uma alegria quase infantil. Ela tinha ido até o Pátio Externo ver o novo amigo partir. Enquanto isso, a festa prosseguia. A alvorada sequer se pronunciara.

— Natassia – virou-se para ela – Eu nunca poderei agradecer-vos como se deve...

— Vós já me agradecestes por uma vida inteira, e uma bem longeva... se continuardes a fazê-lo, ficareis afônico e Camille não poderá ouvir sua tardia declaração de amor – brincou a marquesa, sorrindo com amabilidade.

O loiro sorriu de volta; fez-se subitamente melancólico.

— Duas pessoas muito caras a mim tentaram fazer-me abrir os olhos para o que eu sentia por minha esposa. Contudo, fostes vós quem logrou fazê-lo com efeito – enunciou, com um lampejo de tristeza no olhar.

A dama meneou a cabeça em uma negativa, ao falar:

— Na verdade, essas pessoas semearam a terra, cujas mudinhas teimosas eu arranquei do solo.

Milo assentiu, concordando. Evocou seu pai e Shura, e sorriu mais animado. Tomou as mãos da honrada nobre entre as suas e disse-lhe, gravemente:

— Natassia, tende em mim um fiel amigo para todo o sempre. Se precisardes de mim, de meu auxílio, para QUALQUER coisa, não hesiteis em contactar-me.

— Digo-vos o mesmo...

Ele balançou a cabeça.

— O que fizestes por mim suplanta quaisquer favores que pudessem me fazer nesta vida, juro-vos.

Natassia sorriu, quase emocionada.

— Rogo ao bom Deus que sejais feliz, senhor Milo. E que façais Camille feliz, enfim.

— Eu também rogo ao Altíssimo que sejais feliz, doce amiga. Visitai-me quando puderdes.

— O trabalho absorve-me por demasiado, mas prometo visitar-vos algum dia... e conhecer a afortunada Camille!

Inclinando-se, o cavaleiro beijou a mão da dama. Subiu no luxuoso veículo, que partiu em seguida. Da janela Milo acenou para Natassia, que correspondeu-lhe o gesto, pedindo em pensamento:

“Afortunada Camille, fazei vós também com que Milo seja feliz!”

*************

Despertara. Espreguiçando-se com langor, olhou, maquinalmente, para o lado. Há quase três meses... aquele espaço vazio...

“Eu acordo só. Milo provavelmente acorda com uma bela dama, despida e desfeita a seu lado”, refletiu Camus, o desânimo tentando-o a voltar para o mundo dos sonhos.

Um mundo em que Milo o amava.

Um mundo em que Milo era doce com ele.

Um mundo em que Milo o abrigava em seus braços, mirava fundo em seus olhos, o beijava...

No entanto, urgia que se levantasse. Um sem número de afazeres esperavam “pela condessa”: dentre os compromissos administrativos que deveria assumir na ausência do conde, a vistoria das obras de reforma do castelo, efetuadas pelos artífices italianos. Contava com assessoria de funcionários, claro. Precisava verificar também o estoque de alguns víveres, bem como passar revista aos pajens que faziam treinamento com alguns membros da guarda de elite do castelo.

Suspirou profundamente. Ergueu-se sem vontade alguma de “entrar no palco” por mais um dia. De uma forma absurda, a qual ele mesmo condenava, a presença de Milo tingira sua existência com cores inéditas. Por mais que fosse por ele odiado, desprezado, evitado... os momentos mais singulares de sua vida foram partilhados com aquele homem.

De pé diante do balcão, lançou o olhar para além das montanhas que cerceavam a floresta. Mergulhava nas cenas que se desvelavam...

Dançando com Milo... passeando com ele pelos jardins... sendo beijado por ele... tocado por ele... tomando banho com ele... sendo olhado por ele...

Seu peito encheu-se de perturbadora calidez.

“Foi por pouco tempo... entretanto, já não sei viver sem vós”, declarava, mentalmente, sem imaginar o quanto o esposo se regozijaria ao ouvir tais dizeres...

*************

O sol insistente não oferecia empecilhos a que o jovem conde de Saint Doulchard se detivesse em cada tenda da tradicional Feira de Santa Maria, próxima ao cais. Após séculos de estagnação econômica devido principalmente à instabilidade instaurada por sucessivas invasões e guerras, viviam um período de verdadeiro renascimento comercial, e os locais onde mais isso se verificava eram as feiras; realizadas próximas aos burgos, nas cercanias das cidades ou em seus centros, começaram como eventos de atividades comerciais locais, mas com o passar do tempo, cresceram e abarcaram oportunidades de negócios entre comerciantes e consumidores oriundos das mais diversas partes da Europa, do norte da África e da Ásia. Algumas das mais famosas, nos idos da era medieval, eram as de Flandres, Champahne, Gênova e Veneza. O intercâmbio cultural conduzindo ao desenvolvimento de um novo mundo... e de novos modos de organização política e social...

Milo já havia estado em algumas feiras com seu amigo e braço-direito Shura de Aguilar. Não obstante, a ida a esta possuía um objetivo bem distinto: procurava alegremente por mimos para Camus: carregadores a seu serviço sobraçavam caixas de madrepérola, conjuntos de papel, peles de castor e de arminho, chapéus, tinteiros de marfim, pentes de ouro, brocados de Damasco, sapatos finos, doces confeitados, sabonetes, perfumes, óleos, tapeçarias, porcelanas... muitos produtos já haviam sido despachados para a França, mas estes seriam entregues pessoalmente ao ruivo, como presentes. Um sorriso de expectativa não abandonava o rosto álacre de Milo. Achava-se bobo por se sentir tão eufórico em fazer aquilo. Bem, não podia evitar. Ouvira, em algum tempo passado, falar sobre aquela euforia típica dos apaixonados.

E ele... por Deus Todo misericordioso.

Ele estava irremediavelmente apaixonado!

Mais que isso... amava, pela primeira vez.

Sorria, fitando o céu da cor de seus olhos, que cintilavam de júbilo.

“Camus... Natassia disse que tu me amas... quero crer que me amas como eu te amo... contudo, talvez isso não seja possível. Tratei-te mal, bem o sei. Entretanto, amar-te-ei mesmo que não me ames, e não medirei esforços para que sejas feliz!”, reflexões como estas deixavam frouxo o fecho de sua algibeira...

Parou diante de uma venda de sedas de Bagdá. Uma delas, de tonalidade prateada, evocava a aura etérea de Camus. Tocou-o, comprazendo-se com a textura acolhedora. Em sua imaginação, o marido deixava-se envolver com aquela peça, convertia-se em um ente elevado e misterioso. Perto do tecido escolhido, um corte de magnífico veludo escarlate, com detalhes espiralados em ouro. Camus ficaria soberbo vestindo um traje feito daquele tesouro!

Súbito, uma certa estranheza se instalou no conde.

Ora... ele não estava a escolher tecidos para uma mulher.

Pelo que constava, Camus sequer apreciava viver como uma!

Longe das pessoas, fazia-se até “masculino”... e se ficasse ofendido com presentes de cunho feminino? Que lhe reforçassem o peso da vida a qual era obrigado a viver?

— Nobre excelência, vede esta pura seda persa, dourada como o ouro... estou certo de que dela vossa senhora agradar-se-á sobremaneira... será como vestir-se de Astro Rei! – o comerciante, um simpático turco, interrompeu seus devaneios. Segurava uma verdadeira obra de arte em forma de tecido.

— Sim, tens toda razão, meu bom homem. Eu o levarei também – ditou, em um gesto automático. Depois pensou: “Bom, ele TEM que se vestir como mulher. Que seja, então, com vestes à sua altura, com todo o luxo e pompa que ELE merece!”

“ELE”.

O seu grande amor.

Seu primeiro, grande, único e eterno amor.

Sabia-o bem!

Então não mais se prendeu àquelas ponderações. Saiu dali levando dezenas dos caríssimos tecidos.

Caminhando por entre a falante multidão, captou dentre miríades de cheiros um aroma sedutor de essências raras. Passava em frente a uma loja de perfumes. Parou diante dos frascos delicados, expostos sobre uma bancada deles repleta. Cada um deles assemelhava-se a uma pequena relíquia.

— Bons ventos vos trazem, “sahib” (senhor). – saudou o vendedor, muçulmano de ascendência indiana – procurais por algo específico?

— Bem... hã... um... perfume – respondeu, imediatamente reconhecendo a estupidez da resposta.

O vendedor sorriu. Estendeu a mão por sobre os perfumes e elucidou:

— Há duas maneiras de escolherdes, “sahib”. Uma delas é usando vosso belo e bem feito nariz de estátua grega e aspirar cada uma destas jóias diante de vós. A outra é perguntando-me quais possuem o preço que estais disposto a pagar. Contudo, vejo que não estais movido pela praticidade, tampouco pela comodidade, e sim por amor à dama a quem pretendeis ofertar o perfume.

O cavaleiro riu. Que aqueles mercadores possuíam astutas técnicas de comercializar seus produtos era-lhe notório. A maneira pela qual o comerciante o interpretava conduziria, seguramente, à transação menos econômica... decidiu entrar no jogo:

— Não te equivocas, mestre perfumista. Diz-me, pois, como devo proceder.


— Aham – pigarreou o homem – contai-me como é a valorosa senhora de vossas intenções amorosas, e eu, tal qual médico que escuta o paciente e a ele lhe prescreve o remédio, dar-vos-ei a melhor opção.

Assentindo, Milo pôs-se a enumerar, quase sonhador:

— Sua beleza é linda e misteriosa como o ocaso que mergulha no anoitecer... ela é fria e distante, orgulhosa, porém comedida... fala pouco, porém seu silêncio muito desvenda... é retraída, porém sensual. Malgrado mostre-se plácida, sei que tormentas revolvem-se-lhe no âmago...

— Pelos céus acima de nós, que, aliás, possuem a cor de vossos olhos, estais a amar verdadeiramente, “sahib” – o comerciante mostrou-lhe um frasco de cristal em cujo interior brilhava um líquido ambarino – este reúne sândalo, rosa damascena, jacinto e almíscar branco. Senti a poesia em forma de aroma...

O loiro aspirou-o, e ficou extasiado com tão sublime fragrância.

Ah, como não seria maravilhoso se o ruivo permitisse que ele lhe aspergisse o perfume nos pulsos, no colo, no pescoço, atrás das orelhas... acabaria não resistindo a mordiscar sensualmente o lóbulo de Camus, que gemeria com abandono e...

“Droga, não é o tipo de coisa em que devo pensar aqui, oras!”, pensou, entre excitado e divertido.

— Vou querer esse.

Muito que bem! Agora... para o porto, enfim, e...

“Rubis”, pensou, impressionado com o tamanho das gemas incrustadas em um esplêndido colar em ouro trançado que estava à mostra em uma venda de jóias.

Pouco depois, o mesmo se encontrava entre seus dedos esticados. Eram os mais espetaculares rubis que já vira!

“Camus... em seis dias, estarei colocando este adorno em teu pescoço e sussurrando ‘eu te amo’ ao teu ouvido.”

*************

Seis dias depois, a imponente imagem do castelo de Saint-Doulchard se delineava diante de seus olhos claros. Sorriu, antegozando o momento do reencontro com seu amado.

Graças ao Bom Deus, o retorno ao lar transcorrera tranquilamente, e ele regressava com ânimo incompatível com tantas horas de viagem. Bem, a maior parte desse ânimo devia-se à expectativa em rever Camus. Três meses! À medida que se aproximava da fortificação, perguntava-se como conseguira ficar tanto tempo longe de alguém que nunca deixava seus pensamentos.

A alegria que experimentava eclipsava a preocupação em relação à maneira com a qual iria se declarar ao marido. Cada fibra de seu ser vibrava de doce ansiedade, esfuziante esperança. Queria tanto, TANTO, que enfim pudessem viver em harmonia! E... não negava, almejava desvendá-lo por inteiro: seu coração, seu espírito e, claro, seu corpo. Lembrava como era belo, bem feito, nem forte nem débil, aquela tez imaculada, aqueles contornos encantadores... oh, tocá-lo seria como tocar tesouros celestiais, ouvi-lo dizer seu nome, quando entregue ao seu amor, seria como ouvir o cântico dos serafins...

A carruagem ascendia a colina íngreme. Logo atravessava os pórticos guardados por sentinelas a prestarem continência à sua passagem. O cocheiro fez os cavalos pararem quando o veículo ganhou o Pátio Principal, cercado pelos estabelecimentos contíguos à casa senhoril. Estava bem mais movimentado do que quando deixara a propriedade. Ferreiros, peleiros, marceneiros, padeiros, açougueiros, alfaiates, vários trabalhadores agora serviam Saint-Doulchard. Milo desceu da carruagem, contemplando com admiração a já nítida evolução do que um dia chamara de “mausoléu”. Distinguiu ao longo da edificação os artífices italianos, em seu árduo ofício de revitalizar o castelo. Tornou o rosto para o caminho que levava aos jardins e ao pomar que, por ficarem um nível abaixo da área central, não eram visíveis dali. Diferentemente de como estava antes de ele partir para a Espanha, pela alameda descendente distribuíam-se uma infinidade de flores.

— Sede bem vindo, senhor Milo – saudavam os funcionários e castelões que foram recepcionar o conde.

— Espero que tenhais feito boa viagem de volta ao vosso lar – cumprimentou Leopold.

— Sim, correu tudo muito bem – respondeu, sem olhar direito para nenhum deles, pois que procurava, em torno, por Camus.

— Por aqui, de igual maneira, correu tudo bem – comentou o castelão Pierre, sem que o amo tivesse lhe perguntado.

E o nobre não o fez porque sondava as imediações com o olhar, esperando que o ruivo aparecesse.

Servos descarregavam as carroças abarrotadas de mercadorias oriundas da extensa jornada, que vieram acompanhando a carruagem senhorial.

“Pela posição do sol, é perto de meio dia. Estará almoçando? Mas ele teria sido avisado de minha chegada… e sabe que ‘a esposa’ deve estar presente à chegada e à saída do marido”, questionava-se, intrigado. Camus agia rigorosamente de acordo com as convenções sociais, sempre em prol do disfarce vital.

— Onde está minha esposa? – perguntou, por fim, forjando neutralidade.

— A senhora condessa saiu pela manhã – respondeu Leopold, ligeiramente desconfortável.

— Saiu? – Milo sorriu, descrente. Os homens assentiram. Indagou de volta – Como “saiu”, saiu para onde?

— A senhora condessa foi para a floresta com o senhor Afrodite.

Pessoas mais observadoras teriam reparado o empalidecimento do rosto bronzeado do aristocrata. Seu sorriso murchara um pouco.

— Para a floresta?

— Sim, meu senhor – confirmou Leopold, percebendo a tensão no timbre do senhor – o senhor Afrodite tem coletado mudas e sementes pelos arredores, a fim de embelezar a propriedade... hoje, a senhora Camille foi com ele...

— Entendo – a despeito do nó que lhe travou a garganta a ponto de sufocar, Milo simulou serenidade com a explicação do subalterno. Mirou as altas copas verdejantes ao longe, resistindo ao ímpeto de cerrar os punhos.

— Bem, Leopold, faz-me um favor: assim que a senhora condessa retornar, diz a ela para que se dirija imediatamente aos aposentos senhoriais.

— Sim, meu senhor, darei vosso recado à senhora.

— Não é um recado, é uma ordem – corrigiu, secamente.

Os servos se entreolharam; ainda não haviam ouvido seu senhor falar daquela forma. Alguns foram seguindo o nobre, que caminhava para a entrada da residência.

Sem responder a quaisquer perguntas, o loiro irrompeu casa adentro, extremamente mal humorado. Um pequeno séquito o acompanhava, ainda que temeroso; o amo parecia furioso! No entanto, eles deveriam se pôr à sua disposição...

— Senhor conde, desejais banhar-vos agora ou depois da refeição?

— Fareis a refeição em vossos aposentos ou preferis...

— IDE – demandou, autoritário – não quero NINGUÉM por perto.

— Sim... sim, excelência! – murmuraram, nervosamente. Viram o jovem amo desaparecendo na curva da escada, certos de que sob hipótese alguma deveriam insistir em indagações.

Quando Milo chegou ao quarto senhorial, fechou-se ali, irado e decepcionado. Sonhara dias e dias com o momento em que chegaria ao lar... e lá estivesse Camus. Sonhara com a imagem de Camus, mãos unidas à frente do corpo, o sereno ainda que gélido olhar rubro, a atitude de esposa a esperar pelo marido... mas NÃO: Camus havia se embrenhado pelos matos com o tal… camareiro “extremamente bonito”.

Jamais se esqueceria daquela expressão, usada pelo ruivo ainda em Turenne.

Tirou do bolso o colar de rubis, que seria o primeiro presente de Camus.

Teve ganas de atirá-lo pela janela. Deixou-se cair pesadamente sobre o estofado aveludado da poltrona genovesa. Ficou a estudar a jóia, premindo-a entre os dedos.

Só lhe restava esperar...

*************

— O que houve, Camus?

O jovem nobre, sentado sobre a relva com uma maçã na mão, olhou para o ex-pajem.

— Hum?

— Eu te senti tenso, de repente… dirigiste o olhar espantado para Saint-Doulchard.

— Oh. Não... não foi nada. Impressão tua – e mordeu a fruta, procurando mascarar a súbita aflição.

Haviam acabado de almoçar. Após horas de agradável passeio e de proveitosa coleta de mudas silvestres, pararam em uma clareira perto de um lindo lago cercado de colorida vegetação. Afrodite estendeu no solo uma toalha branca e ali dispôs o que levara em uma cesta de vime: presunto, pão, queijo, torta de carne com cogumelos, pêras assadas com mel, vinho e frutas frescas. As montanhas vigiavam-nos, bem como os distantes contornos do castelo. Os dois amigos por vezes atiravam migalhas de pão aos pássaros que se aproximavam deles.

— Que lugar maravilhoso, Afrodite. E pensar que o senhor Milo me dizia que Saint-Doulchard era inóspita, sombria, repleta de pântanos perigosos...

— Queria intimidar-te, por certo. Se não é exuberante como a gloriosa Borgonha, inegavelmente tem seu encanto – sorriu o sueco, servindo-lhe vinho.

— Sim, vejo-o agora.

— Queres voltar?

O ruivo encarou-o, sem entender.

— Não paras de olhar na direção do castelo. Pareces preocupado.

— De fato. Nem mesmo eu compreendo o que seja... é algo como uma inquietação – confessou Camus, um tanto constrangido.

Afrodite assentiu e propôs:

—Por que não retornamos, então? Já vimos o espetáculo das damas-da-noite, obtivemos mudas e sementes, visitamos a floresta e nos refestelamos neste belo recanto. Penso que nada mais nos segura cá.

— Perdoa-me. Não sei o que se passa comigo.

— Hás de estar cansado, apenas. Partamos, pois. Foi proveitoso, não? – sorriu, compreensivo, já se levantando para arrumar as coisas. Seu amo, contudo, ficou consternado por interromper abruptamente aquela amena distração.

— Não fiques assim – o sueco tentou animá-lo – Pela posição do sol, passa do meio-dia. Estamos realmente há muito tempo fora.

O outro assentiu, agradecido.

Depois de tudo ajeitado, tomaram novamente os alforjes e caixas onde transportavam o que tinham ido buscar na natureza, e tomaram o caminho de volta ao castelo.


*************

Postado à janela do quarto senhorial, o conde de Saint-Doulchard mantinha fixos na floresta os olhos turquesa. Havia mais de duas horas que chegara ao lar; ainda trajava as vestes com que viajara, uma túnica que ia até a metade das coxas, em tecido azul como as calças, e também a capa, que sequer retirara. Destacava-se o dourado dos detalhes na roupa, no cinto, na parte superior do traje e na parte interna da longa capa. Um embate era travado dentro de si: a ansiedade por rever o homem a quem finalmente admitira amar e a raiva que sentia por este estar em uma situação tão idílica com o camareiro-mor.

E ocorria que tinha a dolorosa consciência de que Afrodite oferecia muito mais a Camus que ele.

“Ele não estaria errado em sucumbir a Afrodite, cujas qualidades superam as minhas: é mais bonito, mais gentil para com Camus, cuida dele como jamais me prontifiquei em cuidar... mas...”, contraiu os punhos sobre a bancada de granito, tomado de amargura e aflição.

“Droga, não estou sendo justo... Camus é honrado! Nunca se entregaria a outra pessoa, estando comigo casado!”

Sim, bem ao CONTRÁRIO dele.

Estavam atados por um casamento de aparências. Só por isso, a entrega de Camus seria justificável. Afora isto, ELE mesmo, Milo d’Auvergne, não havia sido um companheiro exemplar.

“Exemplar... eu nem ao menos fui minimamente agradável para com ele”, pensou, desolado.

E se Camus quisesse se VINGAR de tudo que Milo lhe fizera? Se decidisse se relacionar com o garboso e atencioso camareiro, sempre ao seu lado, sempre presente, sempre, sempre...

SEMPRE.

Seria plenamente compreensível!

Mas NÃO aceitável.

Não, ele NÃO aceitaria! Não agora que...

De repente, a visão de dois vultos atravessando os portões do Pátio Principal capturou sua atenção.

“Enfim chegaram...”, pensou, o semblante escurecendo à medida que a tempestade se anunciava dentro de si.

*************

Os dois jovens caminhavam pelo pavilhão, alegres pelo sucesso da busca. E também pelos deliciosos momentos de que desfrutaram em meio à natureza, longe dos exaustivos deveres que costumeiramente os absorviam no castelo. Embora estivesse mais fresco que os dias anteriores, fazia muito sol. Estavam ansiosos por se refrescarem e saciarem a sede que a escalada lhes provocara. Leopold interpelou-os antes de entrarem no palácio.

— Senhora condessa! O senhor conde... vos aguarda em vossos aposentos... – disse, sem quaisquer rodeios.

Ambos nobres estacaram, surpresos.

— O senhor meu marido? Ele… ele voltou?

— Sim, senhora.

— Quando? – indagou, quase nervoso.

— Há cerca de duas ou três horas, não sei ao certo, senhora...

Camus sentiu algo gelar em seu peito. E então uma onda energética de euforia varreu-o, de tal forma que sequer pôde conter um sorriso. O camponês assombrou-se: jamais havia visto a inexpressiva condessa sorrir daquele jeito.

— Hã... por favor, senhora... o... senhor vosso esposo vos espera... disse que fôsseis imediatamente.

— Sim, claro. Obrigada, Leopold... – entregou as caixas que segurava a Afrodite, olhando rapidamente para ele antes de ir, entusiasmado.

“Camus... nem conseguiu disfarçar!”, o sueco reparou, estupefato.

Em seguida, sorriu. Não era para menos! O amigo ficara três meses longe do amado, e este acabara de retornar! Era algo inédito na vida do ruivo. Foi então que, em meio ao seu contento, reparou o ar apreensivo de Leopold.

— Algo errado? – perguntou. O homem chegou a se sobressaltar.

— Não, meu senhor... nada errado – respondeu, nem um pouco convincente – com a vossa licença...

Retirou-se apressadamente, deixando um Afrodite ressabiado.

“Não... ALGUMA COISA acontece...”, pensou.

*************

Milo voltou-se na direção do barulho da porta.

Viu o esposo adentrar o quarto.

“Camus!” seu coração pulou de tal forma que temeu que lhe subisse pela garganta.

Deus. Como estava bonito! Ele se detivera, com uma expressão que Milo não sabia interpretar.

Surpresa? Medo? Decepção?

Sua cabeça latejava... ele estava tão bonito! Ainda não havia visto-o com trajes tão simples como aqueles, em cujas mangas e saia na cor ocre se sobrepunha uma estrutura presa por um cinto, como um vestido longo de cor laranja avermelhada. No pescoço, uma grossa faixa de mesma cor, com um camafeu dourado. Parecia um pouco ofegante... os lábios carmesim entreabertos... os cabelos soltos, brilhantes como se lembrava.

— Senhor Milo... – balbuciou o ruivo, cortando o silêncio que o marido não interrompera.

De sua parte, estava emocionado, a ponto de respirar com dificuldade. Subira as escadas rapidamente, ávido por reencontrar logo o cavaleiro, e isso dificultava ainda mais. Admirou a beleza e a imponência do recém chegado, como se revivesse a primeira vez em que o viu; havia sido um instante em que ele tivera a plena certeza de que jamais vira homem tão atraente, tão instigante.

Camus e Milo permaneceram por longos segundos se encarando, incertos do que dizerem, incertos de como se sentiam.

— Senhor... senhor Milo… — incrivelmente o ruivo repetiu – Sede bem vindo.

Como se um estalo em sua mente desfizesse o transe, o conde disse, com esforço:

— Obrigado... eu... eu...

Camus esperou pelo que seria enunciado. Entretanto, o loiro fechou a boca novamente. Sem entender, o outro fitou-o interrogativo.

Milo perdera completamente o rumo de suas ações ao reencontrar o amado.

Só queria ficar ali contemplando-o... o sonho carnalizado à sua frente.

Percebendo, enfim, que Camus estava a estranhar sua atitude, apressou-se a tirar o colar de ouro com rubis do bolso.

— Tenho um presente para ti – anunciou.

— Um... presente?

— Sim – aproximou-se lentamente, mostrando a jóia. Sorriu – Gostas?

O ruivo não sorriu de volta.

Em verdade... apenas fitava-o incrédulo.

Incrédulo.

— Não apreciaste o presente que te trouxe? – indagou o conde, em meio ao sorriso que aos poucos arrefecia.

— Trouxestes... um presente para mim?

O sorriso esvaneceu-se de vez.

— Acaso crês que apenas TEU Afrodite é capaz de gestos gentis para contigo? – perguntou, seco.

Confuso, Camus balançou a cabeça em uma negativa.

— Perdoai-me. Apenas surpreendi-me. Nunca me... – calou-se, preferindo não concluir.

Não queria acusá-lo.

Não agora que o reencontrava... não agora que ele estava ali, ofertando-lhe um presente!

— Posso...? – Milo fez menção em colocar o adorno no pescoço do marido.

Ele assentiu, e o cavaleiro posicionou-se por trás do ruivo, que puxou os pesados cabelos para a frente, a fim de que Milo pudesse fechar o colar. Assim que o fez, Camus virou-se para ele, em um movimento fluido e gracioso.

— Combina tanto contigo... quando vi, sabia que era para ti... – murmurou Milo, apaixonadamente.

Ainda que sentisse que o outro estava diferente, a estranheza que ali pairava suspendia o entendimento de Camus.

— Muito obrigado – disse, em um fio de voz, incerto de como agir.

— Combina... combina com teus cabelos... teus olhos... pareces-me mesmo mais corado... não havia esse rubor em tuas faces quando parti.

Um sentimento mau veio macular a beleza daquele momento.

— De fato – sua voz fez-se menos macia – Tens mais cor... e mais corpo... eras tão magro... de fato, agora vejo-te com aparência mais saudável. Vejo que minha ausência fez-te bem.

— Como?

Milo afastou-se dele, algo formigava dentro de si...

Claro que estava corado! Era verão, e alguém que andasse amiúde ao ar livre... quantos “passeios” com Afrodite fizera? E aquele vestido... tão diferente dos luxuosos que usava... uma roupa prática para ações em meio à natureza, aos recantos aprazíveis dos pomares, dos bosques, das florestas...! Oh, e a costumeira falta de apetite havia de ter sido banida graças à melhora de humor... à alegria de viver...

...ao prazer...

Encarou o ruivo com súbita insatisfação.

— Que te falei sobre tomares cuidado com Afrodite, Camus?

— Afrodite?

— Sim, SIM, Afrodite, não é esta a alcunha por ele adotada, em função de ser ele “extremamente bonito”? – explicou, com desprezo – Por que não me obedeceste? Pretendes pôr-me em ridículo?

Agora um tom agressivo permeava a fala de Milo. Camus ficou na defensiva, sem entender a que o esposo se referia. Este chegou perigosamente perto.

— Não aceitarei que me ponhas em ridículo.

— Senhor Milo, do que estais a falar?

— Tu e esse Afrodite pelos cantos, pelos pomares, pelos jardins, pelos bosques, pela floresta – vociferou, por fim – quiçá diante dos servos e dos empregados!

— O quê? – começava a entender. E a revoltar-se, com o tom e o teor daquelas falas.

— Queres desmoralizar-me? Dar-me fama de chifrudo?

O ruivo encarou-o, abismado.

— Sois ABSURDO! Ele é como um IRMÃO para mim!

O loiro soltou uma risada sarcástica. Ainda mais perto, pôs-se a falar com uma voz rouca e excitada:

— Tenho minhas dúvidas. Ele penteia teus cabelos... – acercou-se bem perto de Camus, olhando ora aqueles olhos espantados, ora aquela boca tentadora – te veste... te despe... te alisa a pele com óleos... te banha... te vê nu...

Foi interrompido por um violento tapa que se abateu por sobre sua face direita.

Levou a mão ao local atingido, e olhou perplexo para Camus, que não se afastara; antes ficou ali, encarando-o, impassível, soberbo.

Puxando o ar, Milo revidou o tapa desferido, com força inegavelmente superior. Apenas um gemido abafado foi ouvido do ruivo, que olhou-o, estupefato. O conde enunciou, em um acento desdenhoso e arrogante:

— Não penses que podes esbofetear um cavaleiro e escapares disto ileso. Não tenho por que não revidar: NÃO és uma mulher.

Foi só terminar de falar que novo tapa explodiu-lhe no rosto, agora do outro lado.

— Camus? – agora fez-se verdadeiramente chocado. Se nunca esperaria que ele lhe agredisse, esperaria menos ainda que REPETISSE a agressão!

E ainda estava a digerir o ocorrido, a pensar em como reagir, quando uma sucessão de murros se abateu sobre ele. Milo recuou, recebendo vários bofetões, pois que o mais novo continuava avançando, enquanto batia nele, sem trégua.

— Camus? Ca… — novo tapa – Camus! PARA!

Camus apenas bufava, arfava, grunhia: não iria parar, não, ele não iria parar, nunca mais iria parar, nunca mais...!

— CAMUS!

Já não havia razão nenhuma no jovem: assustado, Milo não reagia, apenas concentrava-se em se defender, por vezes sem muito sucesso.

— PARA! – gritou Milo, em vão. Cego de ódio, o ruivo somente batia, batia e batia... cerrava os dentes, rangia-os, gemia entre eles.

Em um movimento veloz e planejado, Milo conseguiu agarrar-lhe os pulsos e imobilizá-lo, o que, assombrava-o!, fora feito com grande dificuldade. A ira potencializara a força de Camus, que já não era nada desprezível. Girou o corpo e, consigo, trouxe o ruivo, que deu um pequeno grito ao bater as costas contra a parede; ali imprensado, foi finalmente contido pelo guerreiro. Bufava, sôfregamente, dir-se-ia que chorava, mas lágrima alguma descia-lhe pelo rosto enrubescido de cólera.

Fitaram-se, Camus com ódio no olhar, Milo, com oscilação. Ambos ofegavam... ambos tinham os lábios entreabertos... ambos feridos...

Sem mais poder aguentar, o loiro tomou a boca do marido na sua, impetuosamente, invadindo-a de modo urgente, sôfrego, dolorido como as almas de ambos... colou seu corpo ao corpo imobilizado, enquanto beijava ardorosamente aquele com o qual sonhara noites seguidas em uma terra distante...

— Uhhn!!! – grunhiu Milo, ante a intensa dor que sobreveio ao beijo. O gosto metálico do sangue invadiu-lhe a boca.

Camus... mordera-lhe a língua!

— Ca... Camus...? – murmurou, desconcertado, aparando o sangue com a mão. Soltara o esposo, e dele se afastara um pouco.

O mais novo arquejava, o cenho franzido, todo ele uma máscara de dor e fúria.

— Camus, eu te...

— Eu vos ODEIO!

Ante aquela declaração cuspida, o conde imobilizou. Boquiaberto, esperou despertar... TINHA QUE DESPERTAR.

Aquilo era um pesadelo... tinha que ser! Tentaria de novo, ainda que a garganta queimasse tanto!...

— Ouve-me, eu te...

— Eu vos odeio, senhor Milo d’Auvergne.

— Não queres ouvir o que tenho a dizer-te?

— Não.

Empertigou-se, desafiador. Ao contrário da primeira enunciação, esta saiu baixa e segura... e assustadoramente fria:

– Só há uma coisa que quero de vós: DISTÂNCIA.

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Notas finais
O que dizer? Sinceramente não sei... ;-; ...fico com os votos de um Feliz Ano Novo para todos vocês... até 2017, e o próximo capítulo... será que desenrola? Tema do capítulo https://www.youtube.com/watch?v=QjVFVB_8BLU