Dame Jolie

37 "Quão sós estamos!"


Notas iniciais
Skindô, skindô, a atualização de Dame chegou! Para quem viu no grupo das fics no Facebook não é novidade, mas pra quem não viu, a informação de que neste capítulo Milo e Camus não darão o ar da graça. A história aqui contada ocorre durante a viagem do casal principal a Auvergne, mais precisamente, tem seu início três dias após a partida dos condes de Saint Doulchard. Não há explicações de trechos numerados, tampouco avisos específicos. Peço desculpa pela demora em atualizar, e também para responder os comentários. Agradeço o carinho, o apoio a que dão a esta fic, seja lendo, favoritando e comentando. Arte da capa: R@書店委託中 (Pixiv) / kritic2 (Deviantart) Boa leitura!

Para alguém natural de Castela, Shura de Aguilar não teria razões para se impressionar vivamente com as obras na Abadia de Saint Père. Sua terra abundava em edificações suntuosas que atravessariam o tempo. Mesmo assim, os movimentos orquestrados de dezenas de trabalhadores em meio à delicada estrutura monastal provocavam frêmitos em seu senso de estética, ele, que era um homem fervorosamente religioso. A bem dizer, concentrava-se nas mãos da Santa Madre Igreja Católica a responsabilidade pelos enfermos e desvalidos. Naquele tempo, o que se considerava um hospital em grande parte da Europa costumava agregar funções de enfermaria, abrigo, dispensário, asilo e hospedaria – palavra da qual originar-se-ia “hospital”. Sendo as doenças vistas como punições divinas, em geral objetivava-se tratar antes o espírito do que a carne. Ver emergir um centro médico aos moldes dos avançados muçulmanos e orientais de uma casa do Senhor verdadeiramente o encantava. O cavaleiro bebera de fontes profícuas em suas numerosas jornadas pelo mundo, nele coabitavam placidamente o espiritual e o progressista.

Contemplava, reverente, as esculturas de pedra, cujos rostos beatificados pareciam voltados para os que ali labutavam. Oxalá estivessem a abençoá-los!

— Excelentíssimo Marquês Shura, que bons ventos vos trazem?

Virou-se na direção da inconfundível voz do artífice-mestre Giuseppe, a quem conhecera na celebração de aniversário de Milo. Meneou a cabeça com fria polidez ao responder:

— Muitos bons dias, senhor Giuseppe. Em verdade o que me traz aqui são deveres que detenho como representante do Conde de Saint-Doulchard, que se encontra em Auvergne por estes dias. Fui por ele incumbido de vir verificar o andamento das obras.

— Oh, sim, viestes inspecioná-las. – O toscano simulou uma neutralidade desmentida nos olhos cinzentos.

O moreno sorriu discretamente, olhando ao redor.

— “Inspecioná-las” é uma palavra deveras forte, senhor Giuseppe. Não sou técnico e não trago nenhum comigo hoje para que empreenda a ação. Em uma ocasião próxima, certamente. Por ora, vim mais para conhecê-las, mesmo. O conde manifestou tanto entusiasmo acerca de seu precioso hospital...

— Compreendo. Permiti que vos acompanhe...

— Não vos incomodeis, destacai um subalterno para tal. Não pretendo subtrair-vos o precioso tempo empregado em vosso árduo ofício.

— De modo algum tomaria por desperdício de tempo a honra de acompanhar o valoroso Marquês de Aguilar por estas galerias. – Insistiu o artífice, já tomando a dianteira e apontando para um corredor adiante. – Segui-me, por obséquio.

Shura deu um meio sorriso resignado e pôs-se a caminhar atrás dele.

À passagem dos dois homens, os trabalhadores não hesitavam em dar furtivas miradas. O mestre trajava roupas próprias do trabalho, confortáveis e funcionais, sem abrir mão de um luxo burguês: uma sobreveste vermelha de veludo, por sobre a qual reluziam alguns colares valiosos. O forasteiro, indubitavelmente um nobre, trazia por sobre a túnica de linho mostarda uma capa negra, presa por fivelas de ouro, que ia-lhe até os tornozelos. Seu caminhar por si só denotava-lhe a alta estirpe; ainda que andrajos o cobrissem, reconheceriam-no como aristocrata.

— Impressionante, eu não imaginava que já estivesse tudo adiantado assim. – Shura comentou, adentrando um vasto recinto. – Imagino que aqui será a enfermaria.

— Apenas uma delas, meu senhor.

— Seguramente poderá abrigar umas duas centenas de leitos!

— Possuís exímio senso espacial. – Elogiou Giuseppe, apontando duas portas ogivais ao fundo, ladeadas por colunas – Para lá, mais dois salões como este, já devidamente adaptados.

— Suplanta minhas expectativas. Este poderá ser o maior hospital de toda a França.

— Se não o maior, decerto será uma instituição de referência.

— O senhor Milo exortou-me a pedir-vos que me informeis a respeito de qualquer coisa de que preciseis.

— É muita generosidade do soberano. Até o presente momento, tudo que o senhor conde me entregou tem-me suprido com êxito.

Andaram mais pela abadia, conversando sobre detalhes técnicos das obras. Vagaram pela área externa, já entristecida pela aproximação do inverno. Retornaram para o interior do mosteiro. Quando julgou encerrado o colóquio sobre o futuro hospital, Giuseppe pigarreou e indagou, distraidamente:

— Como vai o senhor Afrodite?

Embora não encarasse diretamente o castelhano, teve a impressão de que este não recebera a pergunta de maneira neutra.

— Imagino que vá bem. Ter-me-iam avisado se não fosse.

— Oh, perdão. Julguei que estivésseis hospedado no castelo do senhor Milo...

— E estou.

— Mas... estais lá e... não sabeis do senhor Afrodite?

O moreno mirou-o com ar de pouco caso ao replicar:

— E por que razão deveria eu “saber do senhor Afrodite”?

O toscano deu de ombros, tencionando demonstrar semelhante descaso:

— Bom, justamente por estar hospedado onde vive o senhor Afrodite...

— Residência de MEU AMIGO Milo, é por isso que estou lá. – Retrucou secamente.

— Claro. É que como o senhor Afrodite também reside no local, considerei que pudésseis informar-me como ele está...

— Como disse, imagino que bem. Más notícias são as primeiras a chegar. Se nenhum criado reportou-me nada acerca de qualquer problema com o camareiro-mor, é sinal de que passa bem.

— Estais a dizer-me que não mantende contato com o senhor Afrodite? Não falais com ele?

Desta vez o castelhano parou de andar e deteve-se, sério, defronte de seu interlocutor.

— Não. – Confirmou, quase sombrio. – Posso saber por que isso parece causar-vos tamanha estupefação?

Estampando autêntica confusão no olhar, o toscano elucidou:

— Pensei que fôsseis amigos. Ele demonstrava ter-vos em tão alta conta... por isso surpreendeu-me vosso... desinteresse.

Os lábios finos do marquês se descolaram, e pela rigidez defensiva de sua postura esperar-se-ia uma réplica ácida. No entanto, Shura viu-se em dúvida sobre qual informação tocava mais o seu entendimento: se era o vívido interesse do artífice-mestre por Afrodite – ainda mais depois da cena suspeita que flagrara entre os dois no jardim do castelo – ou se era a ideia de que Afrodite revelara ao toscano sobre a estima a si dirigida.

Preferiu ater-se ao fato de que o sueco e o homem à sua frente haviam estabelecido amizade, e talvez, amizade ÍNTIMA, durante SUA ausência:

— Noto que constituístes sólida relação, vós e ele. Pareceis conhecê-lo bem. Ao que tudo indica, ao ponto de ouvirdes-lhe confidências.

— Sobre confidências estais correto. Sobre nossa relação ter se tornado sólida... equivocai-vos. Muito para o meu desgosto, atrevo-me a acrescentar.

Vendo a expressão interrogativa no semblante do outro, Giuseppe teve ganas de dizer-lhe “Cretino, grande cretino! Afrodite AMA A VÓS!”, contudo, malgrado tivesse sido rejeitado pelo loiro, não possuía intenção de causar-lhe contratempos. Além do quê, não cabia a si revelar os sentimentos do camareiro-mor para com o empertigado cavaleiro.

Podia nutrir ressentimentos para com Afrodite. Podia detestar Shura, por ousar esnobar o mais belo ser da Terra. Não obstante, um burguês também tinha honra. Honra não era um patrimônio exclusivo da aristocracia, por tanto que se apregoasse o contrário, com os diabos!

— Dissestes que ele... tinha-me em alta conta. – O marquês tencionou conferir à fala um tom casual. Giuseppe, porém, percebeu-lhe o interesse – Ele declarou-vos isto?

“Ora, será possível que esse enfatuado...”, pensou o toscano, antes de responder, em meio a um riso curto:

— Sou excelente artífice, restaurador e construtor. A vidência, contudo, ainda não domino.

O constrangimento de Shura aumentou, a ponto de ele bufar, inconscientemente. Quis sair dali, porém, havia de sustentar sua dignidade.

— Sim, ele falou-me que vos preza grandemente. Confessou mesmo sentir saudades de vossa pessoa. – Disse Giuseppe, pretensamente amigável.

— Compreendo.

— Outrossim, vejo que tal afeição não é recíproca.

— Por que dizeis isso?

— Porque é o que vossas atitudes denotam... primeiramente, testemunho vossa frieza ao reencontrá-lo depois de passar tempos no estrangeiro, a despeito do claro júbilo que ele experimentou ao ver-vos de volta. E há pouco admitistes que não vos comunicais com o senhor Afrodite, mesmo estando no Castelo de Saint-Doulchard.

— Tenho estado ocupado... – Murmurou, dando-se conta de que vinha deliberadamente evitando o sueco. Mal lhe dirigia a palavra, até durante as refeições. E quando pouco se falavam, a iniciativa partira do loiro.

Súbito, viu-se no absurdo de estar prestando satisfações a um quase desconhecido, e, pior!, um reles plebeu! Aprumou-se e recobrou a gélida altivez com que vinha tratando o artífice:

— Devo observar que não prezais pela discrição, senhor Giuseppe. Gostaria imenso de entender o que vos confere o direito de analisar os meus atos.

Conquanto inatingível por qualquer reprimenda, o mestre de obras balançou a cabeça e as mãos, e contestou:

— Por Deus, perdoai este humilde servo se ele vos deu tal impressão! Palestrávamos tão naturalmente que acabei por render-me à ousadia de fazer tais apontamentos... perdoai-me!

Incerto a respeito da sinceridade daquelas palavras, o castelhano conformou-se em assentir, vagamente. Com voz baixa e inexpressiva, perguntou:

— A julgar por vosso discurso, partilhais estreita amizade com o senhor Afrodite. Neste caso, se sois tão amigo dele, por que partistes de forma tão repentina da festa do Conde de Saint-Doulchard?

Giuseppe fez-se sério como em nenhum instante anterior.

— Perdoai-me, senhor Marquês de Aguilar. Ocorre que isso diz respeito apenas a mim e ao senhor Afrodite.

Intocado pela esquivada, Shura continuou:

— Tive forte impressão de que éreis mais que amigos... de que éreis assaz ÍNTIMOS. Então vós desaparecestes subitamente do banquete, deixando-o só.

— Tivestes tal impressão? E acaso… esta incomodou-vos?

O cavaleiro recebeu aquela indagação como uma ferroada. Esforçando-se para conter sua irritação, volveu com desprezo:

— Por que haveria de me incomodar?

Fitando-o longamente, o artífice respondeu:

— Creio que essa é uma pergunta cuja resposta conheceis, excelentíssimo senhor.

Dito isto, retomou o caminho pelo corredor, sendo prontamente seguido pelo visitante. Como Shura não mais se manifestasse verbalmente, a conversa parecia encerrada. Ganharam a saída da abadia, recepcionados pelo vento cortante de fins de outono.

— Apreciei deveras vossa visita, senhor Shura. Espero que não tardeis em prestigiar-me com vossa magnânima presença. – Giuseppe rompia assim o protocolo de deixar o início da despedida ao indivíduo de nível hierárquico superior.

— Advirto-vos que em minha próxima vinda havemos de nos concentrar em assuntos mais técnicos e pertinentes à construção do hospital.

— Será igualmente um prazer. – Mostrou os dentes alvos em um sorriso despreocupado.

Dando uma última olhada para os operários trabalhando arduamente, o marquês acrescentou:

— Preparai um relatório dos últimos dois meses de obras, uma relação de materiais requeridos, e de profissionais para assessorar-vos no acabamento de tudo.

— Ocupar-me-ei imediatamente dessa demanda, excelentíssimo senhor. Aguardarei vosso retorno.

Shura tossiu um pouco. Considerou Giuseppe por alguns instantes, dando ao toscano a nítida impressão de que hesitava. Sustentando um tom impessoal, sugeriu:

—Deveríeis visitá-lo. Se sois tão amigo dele, como aparentais ser, por que não compareceis ao Castelo de Saint-Doulchard algum dia desses?

— Creio que resida aí a prova da amizade que devoto ao senhor Afrodite... – Disse, em voz baixa, como que reflexivo. – Apesar de tudo.

Se o visitante entendeu-lhe a resposta, jamais viria a saber. Pois que ao invés de uma nova fala, o castelhano levou a mão à boca e teve um acesso de tosse. Chegaram até onde estava preso o destrier do nobre. Antes de montá-lo, Shura tossiu mais.

— Estais bem, senhor Shura? Talvez a poeira levantada pela obra tenha irritado-vos um pouco.

— Sim, provavelmente.

— Espero que não vos ressentis por período demasiado... desejais um pouco de água?

Montando no cavalo com um impulso único e certeiro, o moreno recusou-lhe o oferecimento:

— Agradeço-vos a amabilidade; não é necessário. O ar das campinas há de restabelecer-me. Só preciso encher os pulmões de ar puro.

— O problema é que os ares da estrada a esta hora far-se-ão frios por demais...

— Até a vista, senhor Giuseppe.

— Até um outro dia, meu senhor. Rogo-vos que mandeis lembranças minhas ao senhor Afrodite.

— Mandarei, por certo. – Murmurou, sem mais olhar para o artífice-mestre. Puxou as rédeas franjadas e pôs-se a caminho.

— Que Deus vos acompanhe na volta! – Falou o toscano, acenando sem ser correspondido. Vendo-o já ao longe, resmungou consigo – Sujeitinho empertigado! Será mesmo tão néscio ou tão somente faz-se de indiferente?

O orgulho ferido pela rejeição não lhe permitira aplacar por completo o ressentimento para com o belo camareiro-mor. No entanto, havia espaço para uma certa compaixão para com o infortúnio do sueco, que amava a quem sequer deste amor dava mostras de ciência. E, mais do que isso, alguém que o ignorava solenemente. Que ironia, o mais belo ser da Terra... desprezado por quem detinha seu coração...

Suspirou, resignado. Duas moças carregando embrulhos passaram por ele. Conhecia-as de vista, duas adoráveis costureiras que mal chegaram aos seus vinte anos, uma loira de cabelos anelados e encantadores olhos cor de mel e uma de cabelos lisos castanhos, cuidadosamente presos em uma rígida trança, de olhos azuis pálidos. Elas cumprimentaram-no, em meio a provocadores risinhos. Giuseppe fez-se galante, inclinando-se e retirando o chapéu. A resposta foi dois pares de olhos convidativos... e rubores faciais reveladores.

“É... ao que parece, ao final do dia haverá alguma diversão para este pobre rejeitado!”, pensou, sorrindo de volta para as jovens que lhe acenaram alegremente.

*************

Cavalgando pelas verdejantes planícies, Shura refletia sobre o insólito colóquio com o artífice-mestre.

Malgrado tivesse se tornado a regra desde que retornara de Castela, finalmente dava-se conta do muro que erguera entre si e Afrodite. Praticamente não lhe dirigia a palavra, não buscava-lhe a companhia como dantes, e, conquanto jamais procedesse com rispidez, vinha ignorando o sueco de maneira sistemática. E o que o levara a agir assim com o rapaz, a quem um dia chegou a considerar um amigo?

Sabia-o mas não o compreendia.

Saber que Afrodite estreitara laços com alguém de forma tão célere... julgara-se o único amigo do loiro, à parte de Milo e Camille, claro. No entanto, molestava-o constatar que outro homem conquistara a amizade do camareiro-mor, a quem julgara reservado apesar de extrovertido.

Sabia-o.

Não o compreendia.

Tal melindre fazia-se absolutamente infantil e egoísta. Nada justificável.

Certo, ele fora por muitos anos homem de uma única amizade; Milo. Por que deveria exigir similar faculdade de Afrodite?

Conscientizava-se, e o processo trazia-lhe legítimo constrangimento, de que nutrira ciúmes do jovem.

Constrangimento... que eufemismo.

Reprovava-se violentamente.

Ciúmes... ridículo e pecaminoso!

O ciúme era irmão do orgulho, veículo da queda de Lúcifer. Primo da inveja, a seta do primeiro homicida, Caim. Como Shura, o Justo, permitira-se dominar por tão mesquinhos pecados? Tão hediondas sensações?

“Fui um tolo. Tenho agido mal com Afrodite.”, pensou, contemplando o castelo que emergia no horizonte.

Tão logo voltara a Saint-Doulchard, soube de como o sueco salvara a mulher amada por seu melhor amigo, de como se dedicara a resgatar dos portões da morte a condessa que caíra nas mãos de pérfidos malfeitores. Conhecia-lhe a dedicação, a lealdade, a cordialidade.

Agiria diferente dali em diante.

Diferente não... como ANTES! Nas semanas que precederam sua ida com Milo à Andaluzia. Semanas de camaradagem e harmonia com o agradável e espirituoso mancebo. Oras, em breve partiria com ele para Paris, e lá viveriam por longo tempo até que o loiro se tornasse, oficialmente, um médico. Seria responsável pela segurança do amigo de Camille e Milo, do futuro diretor do Hospital de Saint-Doulchard, do homem que cativara seu coração fechado.

De fato, seria uma decisão sensata restabelecer as boas relações com o jovem.

Franziu o cenho ao perceber que tal resolução aquecera-lhe o peito. Sentia-se diante de uma aprazível lareira, e não à mercê daquele vento cortante que castigava-lhe as faces.

Tossiu algumas vezes, creditando-o à rigorosidade do clima. Bem que Milo dissera que os invernos de Auvergne eram intensos... se no outono já estava assim...! O convulsionar da tosse, e agora de alguns espirros, causava-lhe uma fina dor nas têmporas.

À medida que se aproximava da fortificação crescia a vontade de ir ter com o sueco. De convidá-lo para passearem pelo campo, para palestrar com ele no salão, para procurarem volumes na biblioteca, para sorverem vinho quente e jogarem xadrez, para cavalgarem e talvez até caçarem... embora o rapaz já tivesse manifestado horror pela caça esportiva...

“Ele demonstrava ter-vos em alta conta”, as palavras de Giuseppe juntaram-se ao silvo do vento em suas orelhas.

“Tem-me em alta conta... e eu, por um capricho pueril, tenho menosprezado a dádiva de sua amizade.”, pensava, subindo pelo monte que levava à entrada da edificação.

Sim, uma dádiva.

Afrodite era um nobre de alta categoria, maior até do que a sua, que abdicara de glórias em seu país por uma missão altruísta, a de salvar vidas. Era vivaz, altivo, sagaz, belo...

Ora.

Por que somara às qualidades do sueco uma irrelevante como “belo”? A tão decantada beleza de Afrodite não tinha qualquer influência sobre a favorável opinião que detinha acerca dele. Recriminou-se uma vez mais, desta vez por ser fútil.

Ressentido, ciumento, fútil?

Estaria o cavaleiro mais justo se corrompendo? E por que razão exatamente?

“Não apenas confessar-me-ei ao sacristão, como também prestarei penitências”, planejou, chegando aos pórticos da fortaleza. Respondeu às saudações dos guardas e prosseguiu, ganhando o primeiro pavilhão do castelo.

— Sede bem vindo, senhor Marquês de Aguilar! – Cumprimentou o capitão da guarda, enquanto escudeiros vinham cuidar do corcel do qual apeava o castelhano.

— Muito obrigado, Leonard. – Agradeceu, seguindo rapidamente para a casa senhoril. Algo movia-o para que encontrasse logo Afrodite. Precisava redimir-se com o jovem, antes mesmo de ir até a capela.

Não o encontrou na parte térrea, no salão, na grande sala, tampouco nas cozinhas. Decidiu procurá-lo na biblioteca, obviamente revestindo-se do pretexto de buscar algum codex sobre armas. Subiu as escadas, sentindo-se estranhamente cansado. As pernas pesavam-lhe mais que o normal, bem como sua cabeça. Decerto respirar em meio à obra na abadia não lhe fizera bem. Ademais, o gélido vento que açoitou-lhe as faces, quando da veloz cavalgada pelas planícies e pelo bosque, potencializara aquele mal estar.

O sueco não estava na biblioteca. Shura teve novo acesso de tosse. Lembrar-se-ia de mandar que os criados se empenhassem mais na limpeza das estantes, dos tomos. Deixou o recinto, imaginando se o camareiro-mor não estaria nos próprios aposentos. Considerou inadequado ir até seu apartamento; decidiu checar alguns escritórios. A sala de trabalho, onde guardava seus materiais e produzia seus medicamentos e cosméticos.

Sem sucesso.

Ainda que o castelo fosse enorme, começava a ter a certeza de que Afrodite não se encontrava em seu interior. Neste caso, onde...?

“Pode ser que esteja atendendo pacientes. Ele tem sido mais procurado do que o barbeiro-cirurgião, pelo que eu soube”, raciocinou. O sueco ocupara um cômodo no Pátio Oeste, ao lado daquele ocupado pelo barbeiro-cirurgião do castelo. Dirigiu-se para lá, contendo-se para não apertar os passos já largos.

Foi fácil descobrir qual dos dois logradouros estava sendo utilizado como consultório de Afrodite: bastava atentar-se para o número de pessoas que se ajuntavam às portas; em uma delas havia duas, na outra… pelo menos uma dúzia. Rumou diretamente para a segunda porta. Nenhum dos que ali aguardavam atendimento opôs-se a que o aristocrata lhes tomasse a frente, adentrando em silêncio a habitação.

Tratava-se de uma das casas geminadas dispostas pelos pátios do castelo, toda em madeira, guarnecida de poucos móveis e janelas. A escuridão era aplacada pelas candeias que se distribuíam em pontos estratégicos da entrada e do corredor por onde ele seguiu, devagar e incerto. Distinguiu a voz de duas pessoas, a do camareiro-mor e a de uma mulher. Aos fundos da casa, em uma sala mais iluminada, encontravam-se eles. Shura ouviu a suave voz de Afrodite, experimentando com isso uma paz que não saberia explicar. Não entrou logo; por mais que temesse ser tomado por indiscreto, permaneceu a dois passos do batente, escutando a conversa do amigo com a paciente. Parecia ser uma jovem. Uma voz doce, melodiosa.

— Quer dizer que meu filho não vai perder a perna, senhor Afrodite? – Ouviu-a perguntar, aflita.

— Não, claro que não, minha boa Garance, embora permite que eu te repreenda por deixar que a mazela chegasse a esse triste estado, por teres demorado em procurar atendimento para teu petiz. Essas pústulas não são lepra ou qualquer outra moléstia que faria o pobrezinho perder o membro. Não me parece grave, no entanto faz-se deveras incômodo e, neste ponto, incapacita o doente para o trabalho e demais atividades. Essa crosta dourada é repleta de pus, e é aí que reside o perigo de piora, caso a infecção não seja tratada adequadamente.

Curioso, Shura tomou coragem para se aproximar mais da porta. À sua chegada, seguindo o olhar da criança, de cerca de nove anos, e de sua mãe, Afrodite virou-se para trás, seus olhos cristalinos chocando-se com os esverdeados do castelhano. Por um breve momento, a palpitação desgovernou-se em seu peito, impedindo-o de proferir algo além de “Oh!”, que se lhe escapou dos lábios rosados. Ele logo se recompôs, receoso com a forte possibilidade de enrubescer. Voltou-se para a camponesa e seu filho, que fitavam o recém chegado com curiosidade. A mesma com que este observava o abjeto eczema espalhado na carne do menino, em cujas faces o pranto descia silencioso.

— Crianças são mais suscetíveis a esses problemas. Um ferimento não tratado, o contato com certas plantas, farpas de madeira, espinhos, picada de bichos no campo...

— Oh, minha Nossa Senhora! Senhor Afrodite, minha primogênita já está com bolhas a irromperem-se nos calcanhares... não cuidei que fosse algo sério, mas agora estou com medo!

Revirando os olhos, o sueco falou, brando porém severo:

— Não cuidaste que fosse algo sério porque não os queria longe do trabalho, e agora vê como padece esse pequeno. Pois bem, não é realmente sério, mas a negligência pode torná-lo. Bem, tão logo seja possível traz-me logo a rapariga aqui. E para este valente rapaz, que tão corajosamente se portou a despeito de seu nítido desconforto... – Substituiu o tom de reprimenda por um afetuoso ao olhar o garotinho, que prontamente lhe sorriu de volta, em meio às lágrimas. – darei este mui eficaz unguento à base de melissa, própolis e arnica. Há de aliviar os sintomas e ajudar na cicatrização das pústulas...

Entregou um pequeno pote de barro vedado à moça, que o segurou entre as mãos manchadas, como quem recebe um verdadeiro tesouro. A bem dizer... não deixava de sê-lo. Um remédio feito pelo próprio camareiro-mor da condessa Camille!

— Esfrega-lhe nas áreas afetadas após banhá-las com tintura de calêndula, kalina e urtiga. Basta misturar água aquecida a elas, aqui estão, já secas e trituradas.

Nobres pagariam pequenas fortunas por aqueles medicamentos. O jovem, entretanto, nada cobrava de servos e camponeses. Dos funcionários de Milo, soldados, oficiais da guarda e visitantes, aceitava o que lhe quisessem ou o que pudessem lhe dar. Não obstante, frequentemente os desvalidos insistiam em que o gentil nobre aceitasse como agradecimento uma garrafa de licor de angélica, de aguardente de maçãs, uma cesta de ovos, de frutas, de pães. Ele ainda tentava recusar, mas insistiam até que aceitasse. Com a mãe de Manon não foi diferente; insistiu em que o generoso “médico” aceitasse uma cesta de pãezinhos, redondos, douradinhos e cheirosos.

— Não vou conseguir dissuadir-te, não, minha boa Garance? Ademais, devo admitir, o aroma está tentador! – Disse, sorrindo lindamente.

Shura não entendia porque seu coração disparava... novo sintoma de seu recente mal estar?

A camponesa, robusta e loira, curvou-se seguidas vezes.

— Deus vos abençoe, senhor Afrodite!

Assentindo, o sueco afagou os cabelos dourados do menino, que ficava em pé com certo esforço. Compadeceu-se ao ver a aldeã tomar o filho nos braços, ele, que era mais que a metade dela; a dor estampada no rosto do menino a impelira para tal. Por sorte, Garance era uma filha da terra, recebera do bom Deus as essenciais graças da força e do vigor. Deixou o recinto, após pedir licença ao forasteiro, de pé junto à porta. Este apenas encarou Afrodite, sem nada enunciar, tendo o olhar correspondido na mesma intensidade. Após alguns segundos, o sueco tomou fôlego e confessou, sorridente:

— Que surpresa experimento ao ver-te cá...

Súbito, lembrou-se da frieza com que o outro vinha lhe tratando. Desfez o sorriso e virou-se para lavar as mãos em uma bacia de cobre. Indagou, já sem o tom álacre de antes:

— Aconteceu alguma coisa? Vieste trazer-me algum recado ou alguma ordem?

Eis que Shura de Aguilar, mestre das estratégias de guerra, homem de ação e de planejamento apurado... deu-se conta de que apenas fora em busca de Afrodite, sem sequer pensar em uma razão para apresentar-lhe. Tanto demorou para responder que, ao tentar fazê-lo, acabou por tossir. Cobriu a boca imediatamente, tossindo várias vezes. O loiro virou-se para ele, uma sobrancelha erguida ao considerá-lo:

— Vejo-o. Estás com tosse. Vieste...

— Não, não... – Ciciou, quase sufocado. Estranho, o tórax doía-lhe ao tossir... – Não vim por isto.

— Não? Poderia jurar que fosse. Neste caso, a que devo a honra? – Voltou a cuidar de seus instrumentos e produtos, preparando-se para atender o próximo doente.

Expirando demoradamente, Shura disse:

— Nada em especial. Vim da cidade e… como não encontrei-te na casa senhoril, achei que estarias aqui...

Desta vez Afrodite olhou-o, desconfiado.

— Estavas procurando por MIM?

Confuso, Shura desviou o olhar. Deveras, não sabia o que fora fazer ali, tampouco o motivo de querer ver o sueco após tê-lo evitado por dias. Era difícil pensar, a cabeça pesava, o fundo de seus olhos ardia, e seus membros pareciam dormentes... tinha que dizer algo, e rápido, até para se distrair daquelas molestas sensações:

— Estive na Abadia de Saint Père; fui conhecer-lhes as obras… o… futuro hospital de Saint-Doulchard. Encontrei o senhor Giuseppe lá. Ele... mandou-te lembranças.

Dissimulando a inquietação ao ouvir aquilo, Afrodite cruzou os braços e questionou, em um tom pretensamente frio:

— E tu, que tens me ignorado como um leão ignora uma formiga, procuraste-me para gentilmente transmitir-me as “lembranças” do senhor Giuseppe?

— Eu... perdoa-me. Atrapalho-te. Há muitas pessoas lá fora esperando para serem atendidas... – Fez menção de se retirar. – Com a tua licença.

Mordendo a língua, já se arrependendo do tom usado, Afrodite adiantou-se para ele, bloqueando-lhe a saída.

— Espera, Shura. Perdoa-me a inconveniência mas... não tens bom aspecto...

— De fato, o senhor Giuseppe é mais garboso...

— O quê?

Desta vez foi Shura quem mordeu a língua, indignado consigo mesmo; por que, em nome de todos os santos, proferira um disparate daqueles?!?

— Não, o que quis dizer... é que... – Tossiu novamente, fazendo força para parar.

— Shura, que estás a sentir? Está claro para mim que há algo errado contigo. E essa tosse...

— Esquece, há pessoas a precisarem de ti. Com a tua licença. – Irrompeu apressadamente pela porta, sem dar chance para que Afrodite o detivesse de novo.

Ganhando a área externa, apontou para o interior da habitação e anunciou:

— Quem de vós é o próximo? O senhor Afrodite está a esperar.

A passos largos rumou para o palácio, sentindo a têmpora e as órbitas em chamas, o corpo a pesar como se tivesse uma âncora atrelada a cada um dos pés. Tencionava encerrar-se em seu apartamento, descansar até se restabelecer. Não obstante, foi interceptado por Leopold e Pierre, que caminhavam pelo pátio.

— Oh, olá, senhor Shura, como foi a visita à Abadia? – Saudou-o o líder dos camponeses.

A custo, o jovem deteve-se para responder, disfarçando tanto quanto podia sua disforia:

— Excelente, excelente. Fiquei bastante animado com o andamento das obras. Creio que o conde há de se agradar do resultado.

— Estávamos voltando da OUTRA obra, aquela realizada pelos especialistas enviados por vós de vossa terra... não há construtores como eles, verdadeiros artistas! Será que não gostaríeis de verificá-la, uma vez que estais aqui...?

— Servir-me-ei de outra ocasião para fazê-lo, senhor Pierre... se não vos incomodais, gostaria de recolher-me até a ceia...

— Não vos sentis bem, meu senhor? Devo chamar o senhor Afrodite para...

— Não, não, não, sinto-me ótimo! – Sacudiu a cabeça em uma enérgica negativa. – Apenas fatigou-me a cavalgada até a cidade, e de lá para cá... com as vossas licenças.

Apartou-se dos dois funcionários, seguindo em direção à entrada palacial.

— Um guerreiro cruzado sobre o qual compuseram tantas odes, fatigado por uma mera ida à cidade, hã? Que pensas acerca disso, Leopold? – O castelão não se importou em exprimir sua desconfiança ao rapaz que coçava o queixo, igualmente intrigado. O líder camponês, no entanto, era um homem de natureza mais servil e discreta, adicionais preciosos de sua lealdade. Respondeu, neutro:

— Um tanto quanto inesperado, mas… se é o que afirma o senhor marquês...

— Inesperado? É insólito, isso sim! – Pôs a mão em concha próxima ao ouvido de Leopold, ficou na ponta dos pés para alcançá-lo para conseguir sussurrar-lhe em segurança. – Não terá o nobre senhor se entregado a esbórnias vespertinas? Há antros que sequer esperam o cair da noite para oferecerem diversões aos lascivos. Tinha o semblante deveras desfeito...

— Não o creio, não desprendia dele nenhum olor que pudesse comprovar tuas acintosas conjecturas.

— Acintosas? Oras, falas como se eu fosse algum linguarudo…

— E como um senhor casado como vós conheceis tão bem os horários dos tais antros de prevaricação?

— Oras! Eu? N-não os conheço... suponho-os, tão somente! Oras! Como saberia...?

Dando de ombros, o sério Leopold tomou o caminho interrompido quando do encontro com o nobre hóspede de seu senhor. Pierre seguiu-o, vermelho e resmungando muito, para outras atribuições.

*************

Como de praxe naqueles dias claros de frio intenso, a noite caíra quase que subitamente. O salão via-se alegre, com música suave e acepipes partilhados pelos convivas a sorrirem e brindarem. Porquanto não fosse um baile, não caberiam danças e volteios, contudo, a maestria dos músicos do castelo convidavam a que um ou outro comensal balançasse a cabeça enleado, ou tamborilasse os dedos sobre a fina toalha de linho argelino. Afrodite e os funcionários de Milo não descuidariam da hospitalidade aos nobres que na propriedade pousavam, como prezava a etiqueta aristocrática; naquela noite, alguns integrantes da família do Conde de Lemoine e o Marquês de Romain com alguns vassalos desfrutavam dos notórios bom gosto e fartura reinantes em Saint-Doulchard. A refeição noturna convertera-se em um aprazível evento.

Sorvendo vagarosamente o vinho com especiarias, Afrodite mais uma vez volveu o olhar para a entrada do salão.

A despeito do chamado da criadagem, Shura não comparecera à ceia. Sua recusa em socializar-se seria devida à breve discussão no consultório? Ou efetivamente encontrava-se indisposto, conforme lhe sugerira Leopold?

O loiro pousou o cálice na mesa, fitando-lhe o fundo espelhado.

Desde que fora visto com Giuseppe no jardim por Shura que se instituíra aquela dolorosa distância. Circundou a base da taça, pensativo.

Giuseppe tentara beijá-lo. E Shura a tudo presenciara.

Tentara se convencer de que o castelhano não havia visto a tentativa de Giuseppe. Que tolice. É CLARO que Shura havia visto! Só isso explicava aquela esquiva.

Ergueu-se de súbito, angariando olhares curiosos. Curvou-se polidamente após anunciar:

— Digníssimos senhores, amantíssimas senhoras... o sono, enfim, triunfa sobre este vosso humilde servo. Rogo-vos, não obstante, que permaneceis à vontade, os criados servir-vos-ão no que precisardes.

— Repousai em paz, gentil senhor Afrodite. Assististes numerosíssimos pacientes hoje. É natural que estejais cansado. – O secretário de Milo falou, compreensivo.

Findas as despedidas, o sueco evadiu-se do reluzente salão. Acessou as escadas de pedra, parcamente iluminadas por archotes. Chegou aos seus aposentos, aliviado por enfim poder se isolar.

Sem o seu grande amigo Camus e, agora podia dizer, o senhor Milo, já se sentiria suficientemente só. Agora sem a amizade de Shura, esvaía-se do peito qualquer anelo por interações sociais.

Risos, brindes, cantorias... tudo entrava-lhe pelos ouvidos como zumbido de abelhas impertinentes. Passou o trinco instintivamente, pois que apenas seus senhores poderiam abrir a porta sem aviso, e mesmo eles abstinham-se de fazê-lo. Caminhou até o aparador repleto de caixas, vidros de perfume, unguentos e cosméticos. Abriu uma caixinha de madrepérola, dela retirando uma chave dourada. Usou-a para abrir um grande baú escuro disposto em uma pequeno cômodo anexo à alcova. Por baixo de grossas peles, clâmides e capas de seda... seu diário.

Precisava falar com ALGUÉM. Mas não havia “alguém”. Apenas o “algo”.

Camus não estava lá.

Milo não poderia saber.

Shura...

... menos ainda.

Pensou em ir à capela rezar. Falar com Deus. Contudo, o que quer que escrevesse em seu diário, Deus ficaria sabendo, portanto...

... e, a bem dizer, ele não confessaria AQUILO ao sacristão.

Deus entenderia.

Dirigiu-se para seu gabinete de carvalho e assentou-se à luz das velas. Tomou da pena e, em letra ricamente trabalhada, pôs-se a aliviar a alma no papel rígido:

“Desde o dia no jardim tenho tentado me convencer de que Shura não chegou a tempo de presenciar a inesperada investida de Giuseppe sobre mim. Pensava já ter convencido Giuseppe da impossibilidade de sermos amantes, em virtude de meu coração pertencer unicamente a Shura. Desde aquele exato instante até o tratamento de Shura para comigo voltou a ser impessoal, como nos primórdios. Por um infortuito mal entendido, aquele a quem pertence o meu coração despreza-me. Sou um leproso, exilado para os confins além de sua presença radiosa e querida. Receio que tenha-me como sodomita, por isso evita-me. Tolera minha existência, por devoção ao senhor Milo. O próprio Giuseppe exortou-me sobre o perigo de minha natureza ser descoberto pelo homem que detém a epítome de baluarte da Igreja. Meu amor é condenável e condenado, e agora, nem mesmo à sua doce amizade tenho direito.”

Parou de escrever ao sentir o peso das lágrimas que segurava. Suspirou, afastando o tomo de si. Levantou-se, indo guardar o diário, enfastiado.

Não, enfastiado não. Agoniado. Andou de um lado para o outro, sobre os macios tapetes persas.

“Ele nem ao menos desceu para a ceia.”, pensou, entre intrigado e magoado. “Nunca agiu assim.”

De repente, uma decisão.

“Preciso vê-lo.”

Qual a justificativa?

Inventaria alguma mensagem a lhe ser transmitida… a mensagem de algum funcionário do senhor Milo. Sim! Dir-lhe-ia que o contador do senhor Milo, o Barão de Fleury, solicitara a presença do castelhano logo pela manhã no escritório principal, para tratar de algumas escrituras na cidade...

“Quando o contador me contradisser, dir-lhes-ei que bebi demasiado e confundi-me. Qualquer coisa ajeitar-se-á posteriormente.” , assim planejava o sueco, seguindo pelo corredor em direção à escadaria. Ascendeu-a até o pavimento em que se encontravam os aposentos de Shura. Parou diante da porta, respirando fundo. Inconscientemente, movia os lábios ao repassar na mente a falsa mensagem que iria enunciar. Não era a melhor desculpa, contudo, não queria mais perder tempo pensando em outra. O importante era vê-lo, falar com ele, olhar em seus olhos. Trataria do resto depois.

Bateu, resoluto, à porta, torcendo para que o cavaleiro não estivesse dormindo. Só naquele EXATO momento passou-lhe pela cabeça que poderia ser tão somente esta a razão de sua ausência. Leopold e Pierre não haviam lhe dito que o jovem parecia cansado da jornada à vila?

Melhor seria nem bater uma outra vez.

Mas... segundo os subalternos, Shura se comprometera a comparecer à ceia...

“Provavelmente subiu para descansar e acabou adormecendo em definitivo”, concluiu em pensamento, preparando-se para tomar seu caminho de volta. Foi quando ouviu, através da espessa porta, a voz abafada do marquês:

— Sim, quem é?

O loiro voltou-se, rendendo-se a um indesejado entusiasmo. Por Deus! Queria TANTO vê-lo! Algo além de seu interesse romântico movia-o para tal.

Era como se verdadeiramente PRECISASSE vê-lo.

— Perdoa-me o avançar da hora, Shura. Sou eu, Afrodite...

— O que desejas?

O tom ríspido não esmoreceu o camareiro. Aproximou mais o rosto da porta, respondendo:

— Vim trazer-te um recado do Barão de Fleury.

— Pois não, podes falar.

Afrodite mirou a porta, como se ela pudesse reparar em sua expressão estupefata.

— Se me permites dizê-lo, prefiro falar-te face a face. Não podes, por gentileza, abrir a porta?

— Se posso ouvir-te através dela, não necessito de abri-la.

Agora o sueco tornou-se de fato boquiaberto. Fitava a porta, abismado com aquela atitude inesperada. Que Shura estivesse evitando-o, tratando-o com frieza, mantendo distância, era uma questão. Entretanto, conduzir com descortesia pura... o castelhano excedia-se!

De caráter nada submisso, Afrodite franziu o cenho e demandou, grave:

— Não seria de bom tom que eu passasse o recado de um funcionário de meu senhor elevando a minha voz como um taberneiro aqui no corredor, tão somente porque tu não abres esta porta! Caso não o saibas, há hóspedes no castelo que...

— JÁ estás a elevar tua voz, Afrodite. Dá-me logo o maldito recado. – Retrucou, uma tosse seguindo-se à fala grosseira.

Com as mãos espalmadas sobre a superfície de madeira, o loiro suspirou, contrafeito. Se não era homem de desistir, também não era homem de implorar. Contemplou aquela barreira, desta vez física, entre si e o homem que amava.

— Tenhas uma boa noite, senhor marquês de Aguilar. – Despediu-se, seco. Expirou longamente e deu meia volta para partir. Nem bem deu cinco ou seis passos, ouviu correr o trinco de metal. Olhou para trás. Sem ver o moreno, que se mantivera do lado de dentro, ouviu-lhe a voz rouca:

— Entra.

Por breves segundos o sueco hesitou; então voltou e adentrou o quarto do marquês. Poucas velas ardiam no recinto, conferindo a Afrodite a constatação de que, de fato, Shura havia de ter adormecido. Mal via o rosto do amigo, oculto por sombras tremulantes.

— Diz-me, a que vieste? – Perguntou o moreno, virando o corpo de lado. Seu perfil na penumbra assemelhava-se a uma escultura aviltada pelo tempo.

“Sua voz está diferente.”, reparava o camareiro-mor. Mais uma prova de que saíra de um sono profundo. Na certa, aborrecera-se por ter sido acordado por ele.

— Bem, creio que eu tenha sido inconveniente em vir até aqui, percebo que interrompi teu repouso. – Desculpou-se Afrodite, conquanto não estivesse nada arrependido. – Ocorre que o barão de Fleury insistiu em que urgia que tu...

Um repentino acesso de tosse de Shura interrompeu-o. Viu-lhe a silhueta inclinar-se ante a violência da tosse, funda, de som oco.

— Ainda estás a tossir? A propósito, parece-me pior que dantes.

— Apenas impressão – Replicou o marquês, impaciente. – Prossegue.

— Não creio que seja impressão. Não estás bem. Que tens, além dessa horrível tosse?

— Se queres mesmo saber, sono! Por que não cospes logo o tal recado e deixa-me dormir?

A silhueta vacilou.

Shura... Shura NÃO era ele. Não estava em seu normal.

Sem nada dizer, Afrodite foi até um dos móveis, tomando uma candeia na mão direita.

— Que... que pretendes?

— Olha para mim. – O loiro ordenou, firme.

— Tens razão acerca de tua inconveniência, vai-te daqui!...

Antes que Shura se afastasse mais, Afrodite interceptou-o e aproximou a lamparina dele, à altura de seu rosto. O jovem ainda tentou se esquivar; em vão. O sueco vira o suficiente.

Olheiras profundas maculavam a brancura da pele macilenta. Os olhos, injetados, arregalavam-se sinistramente. Os lábios de Shura rompiam-se, de tão secos. Diminutas, porém visíveis nódoas púrpuras pontilhavam-lhe o elegante pecoço. Malgrado o frio da noite e as pesadas roupas que usava, o marquês tiritava. Chegava a trincar os dentes alvos.

— Shura – Afrodite murmurou, aterrado. – Permite-me...

— NÃO! Que vais fazer?!? – Afastou-se bruscamente do jovem, ao perceber-lhe a mão em sua direção.

— Verificar-te a temperatura. Na certa tens febre...

— Não! NÃO OUSES ME TOCAR!!!

Atingido por aquela ordem, proferida em tom possesso, o camareiro-mor deteve o braço no ar.

— Não... não me toques...

Tão vívido pavor de seu toque... seria por considerá-lo pederasta? Seria possível que havia chegado àquele ponto?

Seria possível que Shura desenvolvera REPULSA por ele?

Momentaneamente, a mágoa injetou-lhe um amargor na boca semiaberta. Um frio cruel espalhava-se por dentro de seu peito. Então a bela face consternada converteu-se em uma expressão ferozmente resoluta. Afrodite avançou para ele e, ágil como o bote de uma serpente, sua mão espalmou-se na testa do cavaleiro atônito. Ao ser tocado, Shura cessou de esquivar-se.

Podia querer evitar Afrodite, mas jamais tencionaria machucá-lo.

Manteve-se parado, enquanto o loiro premia a palma em sua fronte e em seu pescoço.

Tomado de pavor, Afrodite retirou da pele quente de Shura a mão quase trêmula, balbuciando:

— Por Nosso Senhor Jesus Cristo... Shura... estás a arder em febre!!!

*************

Notas finais
Talvez isso explique muito das estranhas ações de Shura durante o capítulo; o marquês tem uma febre alta. Será alguma enfermidade grave? Bem, estamos falando de uma época em que uma simples gripe poderia levar a óbito T.T Espero que mesmo com a ausência do casal principal tenham curtido o capítulo. No próximo, nossos fofinhos voltam :) Muito obrigada por prestigiarem. Tenham todos um ótimo Carnaval - brincando, viajando ou como eu... descansando, hehehehe Até o capítulo 38, bjs bjs Tema do capítulo - Uma composição de Martin Codax, trovador galego que teria vivido por volta do século XIII... de onde tirei o nome do capítulo, "Quão sós estamos" - Na canção repete-se os dizeres "Quão só estou" / "Quão sozinha estou" https://www.youtube.com/watch?v=6QM20DqYxnk&list=PLJ_zSu-_XPR_C3Rzx03z5tmw9rtwvZzSx&index=27