Dame Jolie

38 A Flor do Amor


Notas iniciais
Olá a todos Peço desculpas primeiramente pela demora em atualizar - dois meses desde a última atualização! - e "segundamente" por estar atualizando sem ter respondido todos comentários. Eu ia postar amanhã, após ter respondido todos, mas quero dedicar este capítulo a uma pessoa, e sei que para ela será melhor ler hoje, já que está de folga... ofereço este capítulo a Sheilinha ♥ Essa grande amiga atravessa um momento bem difícil em sua vida, e nem isso a impede de sempre me apoiar, não só neste tortuoso mundo das fics , como no mais tortuoso ainda "mundo real". Falando sobre o mundo das fics, a Sheilinha teve o cuidado de avisar as pessoas sobre a exclusão de minhas fics do Spirit, e em uma demonstração de amizade incrível, em solidariedade ao que aconteceu comigo, ela deixou de postar suas fics no Spirit. Não estou aqui cobrando que ninguém faça isso, mas eu fiquei tocada com essa prova de lealdade. Em meio ao turbilhão da vida dela, ela pensa em mim de um jeito único! Shei, agradeço muito por sua amizade e apoio, e espero que goste do capítulo, apesar de ainda não ter o casal 20... bem, eles fazem uma pontinha, hehehe! Obrigada aos comentários e favoritos, e também às mensagens de apoio aqui e no Facebook. Muito, muito obrigada... vocês fazem TUDO valer a pena. E, Sheilinha, tenha fé de que dias melhores virão... torcendo para isso!!! Explicações dos trechos numerados nas notas finais... boa leitura a todos :x

— Por Deus, Shura, estás a arder em febre! – Enunciou Afrodite, preocupado. Dele Shura esquivou-se novamente, fugindo-lhe ao contato.

— Tanto se me dá... se não saíres de meus aposentos, adoecerei de verdade!

Foi só despejar este impropério que horrível tosse o afligiu, a ponto de ele quase perder o fôlego.

— E essa tosse recalcitrante! Apropriar-me-ei de tuas palavras, pois: tanto se me dá que não me queiras aqui! É nítido que estás acometido de enfermidade que inspira cuidados. Deixa que te examine...

O castelhano afastou-se mais do loiro, respirando com dificuldade ao insistir:

— Não permitirei que me toques de novo. Afrodite, não tenho intenção de machucar-te, mas...

“Já o fizeste.”, pensou, amargurado o sueco; assumindo postura determinada, contudo, retrucou:

— Não o farás, bem o sei. E mesmo que o fizesses, ainda assim eu seguiria em meu intuito de auxiliar-te.

— Não compreendes... – Tossiu novamente, virando o rosto e espalmando a mão sobre o peito dolorido. – Hei de...

Quase falou “contaminar-te”.

Esse era seu maior temor.

Mas a lembrança do amigo prestes a ser beijado por Giuseppe no jardim do castelo fê-lo crispar os punhos e vociferar:

— Vai-te daqui, ordeno-te! Prefiro MORRER a ser tratado por um... u-um...

— Um O QUÊ? Vamos, Shura, diz! – O jovem também elevou a voz, desafiador.

— Um... u-um pede...

A tosse explodiu-lhe no peito tal qual um paiol de pólvora. Atordoado pelo acesso e pela febre que consumia-lhe a razão, sua visão escureceu e ele perdeu o equilíbrio.

— SHURA! – Afrodite não pôde impedir-lhe a queda, porém acercou-se rapidamente do homem caído. Segurou-o pelas axilas , em um considerável esforço para erguê-lo. A muito custo, conseguiu colocá-lo na cama. De olhos semicerrados, o marquês balbuciava coisas ininteligíveis.

“Cristo, ele delira!”; a fim de examinar o cavaleiro, debruçou-se sobre seu corpo, que emanava um calor doentio. Na agonia febril, Shura virava a cabeça de um lado a outro. Em um rápido movimento, o camareiro prendeu os longos cabelos; em seguida, pôs-se a desamarrar a túnica branca do moreno, puxando os laços pelos ilhós no colo.

— O que... em nome de Deus, o que estás a fazer?...

— Cala-te, necessito de ascultar-te...

— Quê? Eu prefiro… já disse!... – Empurrou o sueco. – Eu prefiro morrer a ser tocado... a ser tratado por um pedera...

Afrodite desferiu um vigoroso tapa no rosto do enfermo. Este arregalou os olhos arregalados, como que subitamente desperto. Mirou o outro, incrédulo pelo que acabara de suceder-lhe. Parecia mesmo ter despertado para a consciência de suas ações pueris.

— Não me importa o que tu preferes. – Disparou o loiro, cortante como o fio do mais mortal dos sabres. – Arvoras-te grande defensor da fé cristã, pela qual tanto te orgulhas de teres pelejado, e agora apenas incorres no grave pecado da entrega à morte, quando podes salvar-te tão somente se fores HUMILDE e aceitares o auxílio deste que agora tanto desprezas.

Emudecido diante a pertinência daquelas palavras, o marquês chegou a desviar o olhar esgazeado.

— Deveras, incorres no pecado original, o orgulho, o mesmo orgulho que lançou a Estrela da Manhã à Queda Eterna. Não será algo tão torpe que há de me impedir de seguir a missão a mim conferida pelo MESMO Deus que tu afirmas adorar. Se continuares a negar minha ajuda, pô-lo-ei para dormir À FORÇA. Garanto que disponho dos meios...

Shura jamais sequer cogitara presenciar o sueco se expressar de forma tão impetuosa. Umedecendo os lábios ressequidos, ergueu-se um pouco.

— Está bem. Peço perdão por ter sido tão rude para contigo. Antes de iniciares teu procedimento, dar-me-ias de beber? Tenho a garganta em fogo. – Pediu em voz baixa, nitidamente envergonhado.

Suspirando aliviado, o camareiro-mor dirigiu-se a uma mesa sobre a qual havia cálices de prata e uma moringa com água fresca. Enquanto enchia um deles, o castelhano despiu-se totalmente, a fim de não oferecer nenhum empecilho para o trabalho do futuro médico. Quando Afrodite se virou, foi obrigado a empregar toda sua habilidade em disfarçar a surpresa. Esperava que ele apenas afrouxasse a túnica, ou a erguesse... contudo, o moreno já trajava roupas de dormir, de modo que ficou completamente nu...

Nem em seus sonhos a imagem do amado fizera jus ao que presenciara naquele instante.

A pele alva como a lua em seu fastígio prometia suavidade ao toque. Quase imberbe, desprovida de imperfeições que não fossem cicatrizes, certamente provenientes dos campos de batalha. Seu corpo rijo e másculo, moldado com perfeição, conduzia o sueco ao fascínio. Abaixo do largo peitoral arfante, a barriga preenchida por músculos que Afrodite apenas conhecera através de compêndios de anatomia, desembocava em um ventre plano cuja extremidade enegrecia-se de pelos lisos e negros. Rapidamente o loiro dali desviou o olhar, temendo fenecer pelas batidas desgovernadas de seu coração. Recriminou-se por constatar desperta a lascívia logo em um momento como aquele...

Tal auto comiseração não durou demasiado, entretanto.

Era uma reação natural, diante do objeto de seus mais intensos sentimentos... nu, ofegante e vulnerável.

Só não sentiria nada se houvesse gelo correndo em suas veias! E, para suas partes baixas, definitivamente, não era gelo que corria...

Entregou o cálice ao marquês, que bebeu com sofreguidão. Apesar disso, recusou um segundo copo. Depositando-o de volta à mesa, Afrodite tratou de aferir a temperatura de Shura, desta vez com mais calma. Pôs a mão direita sobre a fronte; simultaneamente, repetia o gesto em si mesmo com a mão esquerda. De igual modo tocou-lhe o pescoço e as maçãs do rosto, sempre repetindo os procedimentos em si. Mordeu o lábio inferior, ao comprovar que Shura estava bem mais quente. Segurando as faces do moreno com as palmas, estudava-lhe cada centímetro atentamente, dizendo:

— Tens febre alta, tosse renitente, palor facial... não verifico corrimento nasal... vejo, outrossim, petéquias sob tuas pálpebras...

— Pe... petéquias?

—Pequenos pontos avermelhados, decorrentes de rompimento de vasos sanguíneos. Já viste um enforcado?

—Vários...

— Se tivesses olhado seus rostos posteriormente, na certa que tu as encontraria. Traumas são a causa. Teus acessos de tosse têm vindo tão violentos que fizeram-nas despontar sob teus olhos... percebo-as até em teu pescoço.

Suspirando longamente, o marquês indagou, em meio a uma careta de dor:

— Se eu sobreviver, ficarei manchado com elas para sempre? Como sardas tardias?

O sueco deixou escapar um risinho condescendente.

— Se eu cuidar de ti, não há razão para usares um “se” em tuas conjecturas. E, ora essa, quem diria que Shura, o Justo, além de orgulhoso fosse vaidoso! – Gracejou, em tom suave. Resistia ao impulso de acariciá-lo e prometer-lhe que tudo ficaria bem. Notou a expressão dorida do outro e, recobrando a seriedade anterior, quis saber – Diz-me, meu amigo, que sentes pelo corpo? Dói-te o peito, por certo?

—Sim… todo meu tórax dói horrivelmente... sinto como se a ponta de uma rocha o penetrasse lenta e implacavelmente, demorando-se aqui...

Franzindo o cenho, Afrodite contemplou um panorama agourento. Abaixou-se até encostar o ouvido no peito do espanhol.

— Pedir-te-ei que puxes o ar bem vagarosamente.

Shura assim o fez. Veio bem a calhar tal ordem, pois que o contato da pele do sueco na sua provocara-lhe quase que uma anóxia.

— Agora solta-o, de forma igualmente lenta.

Não apenas a orelha e parte da face do loiro, como alguns cachos fugitivos do improvisado penteado... e ainda mais as mãos níveas e macias espalmadas sobre seus flancos...

Não era a primeira vez que experimentava proximidade com um homem. Todavia, jamais fora visitado por tão meândricas sensações.

Frio.

Calor.

Temor.

Tremor.

Fogo.

“É a febre, há de ser a febre, eis tudo!”, repetia em pensamento para si mesmo.

Em meio ao seu embate mental, foi exortado por Afrodite:

— Por favor, repete esse padrão de respiração por três vezes, o mais demorado que puder. Três inspirações, três expirações. Se quiseres tossir, não te contenhas, apenas avisa-me para que eu me levante de teu peito.

Aquelas mãos.

Tão suaves.

Tão quentes.

— Procederei conforme tuas instruções. – Anunciou, tentando abafar o efeito atordoante da proximidade com o loiro.

Por fim, o camareiro ergueu-se, dizendo:

— Isso é tudo, podes vestir-te.

— Obrigado. – Tossiu bastante. Finalmente vestido, indagou, tentando parecer neutro – Bem, que consideras que seja minha doença?

— Provavelmente uma influenza.

— Uma influenza? – Devolveu, nitidamente incrédulo.

— Sim. Há de ter sido os ares frios que tomaram de súbito esta terra. Tu provéns de terras de climas mais gentis.

— Deveras... como o próprio nome diz... (1) – Murmurou o moreno, pensativo.

— Permanecerás em repouso no teu leito. Ordenarei que te preparem um caldo forte de galinha bem gorda e salsão.

— Não tenho fome...

— Não se trata meramente de uma ceia, meu caro, e sim de parte do tratamento: causar-te-á um benéfico suadouro, de que precisas para começares a extirpar as impurezas de teu corpo doente.

Cerrando os olhos ao recostar-se, o marquês concordou, fatigado:

— Entendo...

Sorrindo animador, o sueco ajuntou:

— Enquanto aguardas o caldo e dele te serves, cuidarei de preparar um excelente tônico, que há de restabelecer-te em dois tempos.

— Então... não é nada sério?

— Decerto que não!

— Graças a Deus... – Suspirou. E a tosse irrompeu, abrupta, atroz. Afrodite temeu vê-lo sufocar ali mesmo.

— Claro, um sherab (2) para essa tosse insistente também será muito bem vindo! – Disse o camareiro, sustentando a expressão vivaz.

Tomado de dor e extenuação, Shura não foi capaz de respondê-lo. Deixou pender a cabeça para o lado; Afrodite soube que ele sucumbia à prostração da febre. Tinha que se apressar.

Em passos céleres, retirou-se dali para seu gabinete de trabalho. No caminho, bateu à porta de algumas serviçais, ordenando-lhes que fossem à cozinha preparar o caldo para o marquês.

Tão logo meteu-se em seu escritório, deixou escapar uma exclamação aflita:

— Deus Pai Todo Poderoso!

Esfregou os olhos cansados com as mãos trêmulas.

Mentira.

Não se tratava de uma influenza, o que por si só, em organismos fragilizados, representava significativo perigo.

Não.

Aquela febre alta... a ausência de muco... a astenia... a tosse insidiosa... a dor no tórax...

Shura estava com os pulmões seriamente comprometidos por alguma moléstia vil. Traiçoeira.

Já vira pessoas MORREREM daquele mal.

Um dos filhos de seu antigo e finado tutor... o homem que lhe...

Balançou a cabeça, no afã de espantar tais recordações funestas. Pôs-se a pegar jarros e vidros das prateleiras das estantes que se dispunham pelo vasto aposento.

— Preciso de óleo de borragem... também de folhas secas de dente-de-leão, cerefólio, verbasco... e própolis...

Guiot.

Um dos bons frutos gerados por consortes tão ímpios.

Contaminados.

Mas não contaminaram Guiot. O pobre primogênito perecera com a idade de 17 anos. Voltara de seu treinamento para cavaleiro poucos meses antes. Tornara-se um rapagão tão forte quanto cortês; sua gentileza não fazia acepção entre nobres e servos. Àquela mesma época, em meados de novembro, o jovem não resistira a uma perniciosa febre do pulmão.

Exatamente do que padecia Shura!

— Não, não, não, ele NÃO vai morrer – Repetia, em um transe obsessivo.

Vira os melhores médicos cuidarem de Guiot. Em vão.

— Sou melhor que eles. Sou melhor que eles! – Murmurava, apanhando tudo de que precisava e depositando sobre uma larga mesa de madeira. – Depois... o sherab... antes... isto...

Tomou de um aparador florentino uma garrafa de vinho. Serviu-se de um cálice, antes de usar a bebida restante na preparação do tônico.

O processo durou pouco mais que uma hora, e fora meticuloso. Segurando a botelha cheia do precioso medicamento, voltou para o quarto de Shura. Levou também o sherab, feito com sumo de romã, mel, limão, cascas de cebola roxa cozidas em vinagre de maçãs; este, no entanto, um simples paliativo e recurso para fazer o marquês acreditar na baixa gravidade de sua moléstia.

A verdade é que, no avançado estágio em que seus pulmões estavam, pouco adiantaria um sherab, embora pudesse aliviar-lhe um pouco a tosse.

Encontrou já de saída a criada que levara o alimento para o castelhano. Um tanto temerosa, esta revelou:

—Senhor Afrodite, a Virgem Santíssima é testemunha de que tentei convencer o marquês de Aguilar a tomar o caldo... contudo, negou-se veementemente a fazê-lo. Alegou não conseguir... o pobre só tossia e gemia, fazia pena! Parece sofrer horrivelmente.

Com o coração esmagado, o sueco assentiu, compreensivo. Certas enfermidades tornam o mero ato de deglutir um tormento, e a chegada do alimento ao estômago, um verdadeiro suplício. Dispensou a moça e adentrou o apartamento; aproximou-se da alcova do cavaleiro, que tremia e gemia baixinho. Uma compaixão imensa levava o sueco quase às lágrimas. Reprimindo-as com galhardia, depositou o tônico em um copo, enchendo-o pela metade. Chegando mais perto do convulso jovem, chamou-o:

—Shura. Shura, meu bom amigo. Abre teus olhos. Bem sei que sofres... faz, contudo, um esforço, rogo-te...

Shura abriu os olhos congestionados. Não deu mostras de reconhecer Afrodite de imediato. Seus lábios descorados fremiam, deles desprendendo-se um olor característico do mal que o afligia.

— Cá está, bebe. – O camareiro fez o possível para disfarçar seu pavor diante do triste quadro que presenciava. – É um remédio assaz potente. Estarás melhor tão logo o sol aporte no firmamento, asseguro-te.

Esperou pacientemente que o marquês se levantasse o suficiente para ingerir o tônico. Após fazê-lo, de maneira vagarosa, nada proferiu; voltou à posição anterior, deitado de lado e encolhido como um indigente.

Ao menos lográ-la fazê-lo beber tudo, pensava o sueco, aliviado.

Não obstante, suas previsões otimistas afundaram-se.

Shura não melhorara no dia seguinte.

Ao contrário... parecia ter piorado!

Resoluto, o sueco foi colher ervas novas no jardim. Talvez utilizá-las secas tivesse comprometido-lhes a eficácia...

Não que isso fosse o comum.

Macerou-as lenta e delicadamente. Misturou-as ao vinho. Acrescentou mais alguns ingredientes… e os mesmos de antes em maior quantidade. Deixou que tudo apurasse por algumas horas ao fogo... coou em uma garrafa... administrou o novo remédio durante todo o dia, em intervalos regulares de duas em duas horas. E no outro dia também...

A melhora mostrava-se incipiente.

Se continuasse daquele jeito...!

Shura já não comia, apenas bebia água, e pouca, pois que até esta lhe causava algias. Na maior parte do tempo, entregava-se a um sono nitidamente mórbido. Fugia, assim, do suplício daquela tosse que golpeava-lhe impiedosamente as estruturas.

Dois dias se passaram...

Debruçado sobre os livros, o camareiro-mor tampouco se alimentava, e quase nada descansava. As noites insones esvaíam-se na busca incessante por alguma alternativa aos tratamentos malogrados. Lembrava da manhã daquele dia, o quarto desde o início da tribulação: a criada relatara haver encontrado sangue no travesseiro do marquês.

“Seus pulmões estão se degradando rapidamente. Se eu não encontrar uma solução, ele morrerá em poucos dias!”, apavorava-se, puxando os cabelos com fúria, enquanto seus olhos corriam pelo codex em latim.

Foi então que viu algo novo.

Abaixo de uma xilogravura representando uma exótica flor, registros das maravilhas por ela realizados.

Edelvais.

A “Flor do Amor”.

Todos os traços de cansaço do jovem dissiparam-se por completo. Leu atentamente:

“Na verdade, a edelvais, ou edelweiss, não é uma flor, mas um conjunto de 500 a 1000 florezinhas minúsculas reunidas em inflorescências envoltas de cinco a quinze brácteas espalhadas que dão sua forma característica de estrela”.

A rápida leitura conduziu-o às promissoras propriedades medicinais da planta: cobiçada para produção de cosméticos por atenuar manchas, cicatrizes e afecções de pele, bem como por retardar o envelhecimento, e também almejada por decantadas faculdades terapêuticas, notadamente os anti-inflamatórios e os combativos a infecções do trato respiratório...

— É um eficaz remédio para as moléstias que acometem a garganta, a faringe e a laringe, a traqueia, os ouvidos, os pulmões... – Leu em voz alta, ansioso. (3)

Não se lembrava de ter ouvido falar da edelvais, tampouco de ter lido a respeito dela, o que o intrigou vivamente. Ora, se o seu vastíssimo conhecimento em ervas e medicamentos configurava uma de suas mais notórias características, perdendo apenas para sua enaltecida beleza!...

— “... nativa dos Alpes e das altas montanhas europeias, sempre em locais cujas altitudes suplantam 1500 metros...” Santo Deus! Não é à toa que nunca soube dessa flor! – Continuando a leitura, confirmou que a edelvais era pouco conhecida e muito raramente cultivada, em virtude de tais particularidades.

Recostou-se à cadeira estofada, pensativo.

Bem... ele tentara tratar Shura com o que tinha à mão. E não adiantara. Ter encontrado aquela informação não era um acaso do destino.

Deveria sair à procura daquela flor.

Por um breve momento, passou-lhe pela cabeça tomar uma carruagem e rumar para os Alpes, mas qual! Seriam dias de viagem. Shura NÃO dispunha daquele tempo... por outro lado, havia uma cadeia de montanhas em Saint-Doulchard a fazer divisa com o condado de Auvergne...

Tomou sua decisão. Continuou a ler, apenas para confirmar se não havia mais nenhuma informação relevante sobre a planta recém descoberta...

“Conta-se que há incontáveis eras, surgiu uma montanha num planalto coberto de neve.

Todas as suas vertentes eram escarpas cobertas de neve e gelo. E lá no cimo da montanha, num píncaro inacessível de brancuras imaculadas, encontrava-se a Dama Branca sobre o seu trono de gelo. Vítima de um sortilégio, ali ficara prisioneira das neves eternas, até que um valente homem chegasse até ela e lhe beijasse a mão.

A aventura era considerada impossível porque, ainda que algum audacioso pudesse escalar a alta e íngreme montanha, pequenos gnomos armados de flechas trespassá-lo-iam.

No entanto, um dia, um belo e jovem príncipe decidiu lançar-se àquela ousada façanha. Chamava-se Dourado. Malgrado seus pais e seus súditos muito lhe implorassem que não fosse, não puderam demover o garboso nobre de sua decisão.

Chegando ao pé da montanha, despediu-se dos seus soldados e começou a subir a montanha.

Quando estava prestes a atingir o pico onde se encontrava a Dama Branca, uma enorme massa do rochedo desprendeu-se e arrastou-o. A Dama Branca que do alto de seu cativeiro testemunhara a bravura e os esforços de Dourado, desatou a chorar quando viu o príncipe precipitar-se no abismo.

Cada uma das suas lágrimas, ao tocarem a neve, transformava-se em uma flor cujas pétalas dispostas em auréola em volta de um chapelinho de flores amarelo acinzentado eram brancas como a neve que a tudo cercava. O vento, comovido, levou para longe sementes que foram cair sobre montanhas vizinhas e dessas, passaram depois de novas flores, batizadas de ‘edelweiss’ para outras montanhas… E foi assim que de montanha em montanha chegaram aos Alpes e lembram para sempre a Dama Branca e o seu príncipe Dourado. Diz-se que, se um mancebo amar uma donzela, e se aventurar pelas fantásticas altitudes geladas em busca da ‘edelweiss’ para ofertá-la à amada, certamente serão felizes por toda eternidade. Por isso, é chamada a ‘edelweiss’ de ‘a Flor do Amor’.” (4)

“Bom, serei o ‘Dourado’ moderno. Não para ser feliz no amor, mas para salvar a vida daquele que amo... e que deste amor jamais terá ciência!”, pensou, encantado com a história. Encantamento que não deixava de trazer-lhe certa melancolia, mas... enfim, não tinha tempo para aquilo.

Naquele dia, o loiro cuidou dos preparativos para a grande empreitada, sem nada revelar ao enfermo. Continuou a lhe dar o tônico e o sherab, não verificando melhoras significativas; a febre ia e vinha, os delírios intensificavam-se, semeando temor no camareiro. Até as criadas temiam entrar nos aposentos do doente, que gritava ora sobre as bestas do Apocalipse, ora sobre o lago de enxofre que a todos tragaria no final dos tempos... um odor nauseabundo empesteava a alcova, fazendo Afrodite inferir que a recusa dos servos em ali permanecerem não se devia apenas ao medo provocado pelos dizeres lunáticos do castelhano, e sim ao medo de contrair a moléstia. Traços de sangue se descobriam a cada acesso da odiosa tosse. O sueco comovia-se, evocando a imponente figura do cavaleiro de dias antes e comparando-a ao farrapo humano agonizante sobre aquele fétido leito.

Não haveria outro jeito.

Foi ter com Leopold, que como líder dos camponeses pôde indicá-lo o maior conhecedor da região, o caçador Arnould, homenzarrão tão solícito quanto intimidante. Leopold insistiu em também acompanhar o amigo do conde; o capitão da guarda destacou quatro soldados de sua confiança para escoltá-los na viagem, cujos cálculos de duração beiravam as nove ou dez horas. Deixariam o castelo antes do sol raiar.

Naquela madrugada, dirigiu-se para o apartamento de Shura. As chamas bruxuleantes dos círios conferiam atmosfera ainda mais lúgubre ao pestilento ambiente. Sombras tremulavam sinistramente nas paredes de pedra, enquanto o som rouco e agoniado da respiração dificultada do combalido marquês se fazia ouvir. Afrodite deteve-se diante do dossel, afastando a cortina para contemplar o amado. Respirou fundo ante a visão do rosto lívido salpicado de gotículas brilhantes, os lábios em carne viva, os olhos esverdeados que mal se desvendavam detrás de cílios repletos de secreção.

O loiro teve a tenebrosa certeza de que a morte cerceava aquele homem. Segurou-lhe a mão branca, espantosamente quente!, e enunciou, com voz embargada:

— Shura. Teu sofrimento está perto do fim. Daqui a pouco irei buscar algo que certamente há de te salvar.

A resposta foi uma série de cicios ininteligíveis. Um calor nefando irradiava do corpo moreno.

— Durante minha rápida ausência, serviçais virão dar-te os remédios, as refeições, água... Shura, escuta-me, não deves te abster de nenhum deles, eu te imploro...

Dos lábios purulentos, balbucios débeis:

— ... quando a trombeta soar acima dos céus... o galo cantará três vezes... moedas de prata, trinta moedas de prata tilintarão sobre o sangue derramado, e sobre o vinho que um dia foi água...

Os dedos do camareiro estreitaram-se nos do espanhol.

— Resiste, rogo-te... resiste... – E levou a mão do enfermo até seus róseos lábios. Depositou sobre o dorso febril um suave beijo, demorando-se suficiente para ali também deixar suas lágrimas.

*************

Os olhos de Afrodite perderam-se no mar de névoa que engolfava o topo da montanha, em cujo pé apeavam ele e os demais homens. A viagem fora mais longa do que supuseram. A noite não demoraria a cair.

— Ergamos acampamento. Às primeiras horas da manhã, iniciaremos a escalada. – Anunciou o sueco, entregando as rédeas de seu corcel a um dos guardas.

Após instalarem-se, providenciaram o lume e uma refeição. Enquanto reuniam-se ao redor do fogo que cozera-lhes o alimento, Afrodite repassava seu plano de ação:

— Havemos de ir eu, Arnould e dois dos soldados. Aqui embaixo ficarão Leopold e os demais cavaleiros, sempre atentos às encostas e às circunvizinhanças.

— Senhor Afrodite, ainda penso que seria mais sensato se fôssemos todos convosco...

— Ao contrário, meu bom Leopold. Reconheço que a missão não é destituída de riscos, de modo que apropriado será que um grupo aguarde pelo retorno de outro. E que, queira Nosso Senhor que tal não suceda, tome-lhe o lugar caso o pior aconteça. Em outras palavras, se eu e estes honrados senhores não retornarmos até o final do dia, ficareis vós incumbidos de ascenderem a montanha em busca da edelvais.

— Perdoai minha impertinência, mas por que não permitis que seja o meu grupo o primeiro a subir? Se alguma fatalidade sobre vós se abater, meu senhor, o conde e a condessa de forma alguma encontrarão consolo por vossa perda. E Saint-Doulchard também se ressentirá pela perda daquele que seria seu maior médico.

Considerando satisfeito as palavras do humilde e leal servo, o loiro expôs paciente:

— Não foi por acaso que o senhor Milo escolheu-te como um de seus assessores, Leopold. És fiel como um mastim. Ocorre que, embora já estejais todos vós a par da flor que viemos procurar, faço-me mais apto que ninguém para coletá-la e acondicioná-la de maneira a preservar-lhe a integridade. Ademais, tu te olvidas de que provenho de terras cujo frio faz larga sombra a este sob o qual tiritais. Não me será grande desafio suportar os rigores que as alturas reservam àqueles que as galgarem.

O líder comunitário pareceu convencido. Assentiu, resignado, ao passo que aqueles que acompanhariam Afrodite entreolharam-se. Ao camareiro-mor não passaram despercebidos aqueles olhares apreensivos. Suspirou, compreensivo, e garantiu-lhes:

— Vós acompanhar-me-ão até certo ponto. Não será necessário que venham comigo exatamente até onde estão as edelvais.

— Iremos com o senhor Afrodite até onde for preciso. – Apressou-se em dizer um dos soldados, envergonhado em deixar transparecer seu receio.

— Eu digo o mesmo, meu senhor. – Ajuntou o caçador Arnould.

— Quanto menos pessoas se expuserem às agruras que possivelmente há de nos oferecer esta montanha, melhor. Transportar um acidentado causar-nos-ia atrasos indesejados. – O sueco argumentou, tomando um generoso gole de vinho quente.

Horas depois, após uma sofrida noite sob grossas mantas de pele, Afrodite e seu grupo dirigiram-se para a elevação. Acompanhavam-nos já Leopold e os guardas restantes, sempre atentos, que montariam guarda ao pé da montanha.

As pesadas roupas e botas seriam um desafio extra para o desempenho dos escaladores, todavia ser-lhes-ia impossível a subida sem elas. Puseram-se, pois, a caminho ascendente. Arnould sugerira aquela montanha por não ser ela excessivamente íngreme. Ele mesmo já estivera ali para caçar, objetivando presas mais exclusivas do que as que habitavam os bosques. Por mais que o Conde Milo não se opusesse a que plebeus caçassem em suas terras, leis eram leis, e estas estabeleciam limites bem específicos sobre a caça... tinha sorte; em alguns lugares, às gentes como ele, eram simplesmente proibidas nas propriedades dos senhores! Bem, nunca chegara aos 1500m de altitude almejados pelo famoso camareiro-mor da Condessa Camille... no entanto, sabia de homens que lograram fazê-lo, e ele em nada ser-lhes-ia inferior, não mesmo! Tanto mais se fosse para salvar o melhor amigo do soberano daquela terra! Que recompensa não receberia!

A princípio, a subida, de fato, não lhes oferecera maiores dificuldades, à parte do já esperado frio. Logo, contudo, perceberam pontos escorregadios, em função do orvalho matinal. Mais acima, traços de geada...

O vento silvava dramaticamente à medida que avançavam. A paisagem ficava cada vez mais embranquecida pela neblina. A despeito das espessas luvas de lã de carneiro e dos agasalhos sobrepostos, podiam sentir a álgida umidade apossar-se de seus corpos. Procuravam não respirar pela boca; não obstante, inconscientemente por vezes acabavam por fazê-lo, dado o esforço crescente. Deixavam para trás os rastros espiralados no ar...

Metade do dia havia se passado. Foi quando viram os primeiros pontos brancos a se destacarem por entre as rochas escuras.

— Por Nossa Senhora Mãe do Cristo! Não são elas, senhor Afrodite?

— Sim, soldado, certeza de que são! – Respondeu, empolgado. Lá estavam as miríades de florezinhas a comporem as estrelas das esperanças do sueco. Abaixou-se e pegou uma delas, com cuidado. Mirou-a extasiado. Ela mesma... mas...

— Não vejo muitas, senhor Afrodite. – Observou o caçador Arnould. – Serão estas suficientes para vossos intentos?

Nada respondendo, o jovem levou a flor ao nariz, aspirando-a. O perfume era único e sutil. Tornou os olhos azuis claros para o alto, apertando-os à visão do nevoeiro.

Guardou a edelvais no interior de uma bolsa que trazia consigo, trespassada no peito. Virou-se para os homens e enunciou:

—Permanecei aqui e esperai por mim. Prosseguirei eu.

Todos se espantaram. O camareiro realmente persistiria naquela ideia?

— Agora que apareceram algumas, sei que mais adiante aparecerão às centenas. Não saberão colhê-las adequadamente. É dispensável o vosso desgaste vão. Aguardai por mim neste local.

— Senhor Afrodite, estais convicto de que é uma decisão acertada? Levai ao menos um de nós convosco.

— Agradeço vosso oferecimento, soldado. Vinde, pois, comigo. Esperai... – Tirou uma das bolsas que trazia amarradas ao corpo e entregou-a ao guarda. – Encherei essa que levas convosco e depois o alforje que trago comigo.

Seguiram montanha acima, a subida pronunciando-se a ponto de ambos manterem os corpos inclinados. Em determinadas passagens, chegavam a ficar de quatro, segurando-se como podiam nas escarpas.

Cerca de meia hora depois, em meio à geada que salpicava a terra e a rocha, despontavam outra vez as almejadas flores. Afrodite sorriu feliz, apressando-se em arrebatá-las do solo gelado. Não eram as centenas que esperava, ainda. Paciência: haviam de estar esperando por ele mais acima. Mesmo assim, não desperdiçaria aquelas dádivas.

— Abri o alforje que transportais, guarda. – Ordenou, retirando as luvas de lã. Abaixou-se e começou a colhê-las. Acondicionava-as na bolsa que pendia do peito do soldado. O frio cruel mordia-lhes os dedos já duros, e ele sequer suprimiu alguns gemidos de dor.

— Estais a padecer sem vossas luvas, senhor. Vesti-as, pois, antes que vossas mãos congelem, e permiti que eu...

— Não, se serei EU a fabricar tão crucial medicamento, deverei ser EU a manusear estas flores. São mui raras e delicadas... – O loiro argumentou, incontinenti. Enfrentando o incômodo frio, ele não se deteve até que tivesse colhido todas as edelvais que estivessem à vista.

— Por aqui, era tudo que havia. – Comentou, observando com desalento que não enchera a bolsa com o soldado nem até a metade.

— Devemos prosseguir, senhor?

Antes que respondesse, uma lufada de vento veio de baixo da garganta das encostas, tão impetuosa e violenta que eles quase perderam o equilíbrio. Os longos cabelos loiros ergueram-se pelo ar, e o camareiro decidiu prendê-los. Não o fizera antes porque a cabeleira solta ajudava-o a se manter aquecido. Agora, porém, seria mais prático manter presas as revoltas melenas. Seu olhar deu com uma promissora visão; na lateral da montanha, em um nicho a apenas alguns metros abaixo de onde estavam, a encosta cobria-se de flores.

Abaixou-se para certificar-se de que não era uma ilusão. O vento silvou sinistramente.

— Ora, ali estão! As centenas que esperávamos! – Animou-se, amarrando à cintura o alforje que trouxera pendurado no ombro.

O soldado olhou para baixo, estremecendo.

— Senhor Afrodite, não parece nada seguro ir até ali. Vede, mal tem onde para pisarmos!

— Exatamente, não há como duas pessoas ficarem naquele ponto, por isso, irei SÓ. Vós ficais aqui.

Em uma enérgica negativa, o guarda sacudiu a cabeça, alegando:

— Não percebeis como o vento é forte neste lugar? Se vos desequilibrastes naquele pedacinho de escarpa, caireis no precipício!...

— Não morrerei de forma tão estúpida, principalmente antes de salvar o Marquês de Aguilar. – Contradisse, sorrindo.

— Mas... além disso, o solo está úmido devido à geada, e as pedras...

— Basta, soldado. Agradeço vossa preocupação, todavia estais a atrasar-me. Quanto menos durarem vossas cantilenas, mais rapidamente encerraremos nosso ofício nestas paragens.

O tom do sueco não dava margens a réplicas.

Calando-se por fim, o guarda viu o nobre descer pela pronunciada encosta, apoiando as mãos enluvadas nas rochas.

Pacientemente, Afrodite aproximava-se de seu tesouro. Aquilo que resgataria o amado das garras insidiosas da morte.

Um vento súbito, cortante como fios de espadas dançantes em um campo de batalha, açoitou o aristocrata. Não obstante, recolhido junto à parede rochosa, ele segurou-se bem, fechando os olhos com força. Esperou a possante corrente amainar; quando o vento diminuiu, contemplou o tapete de flores abaixo de si, o que deu-lhe novo ânimo. Tão perto, estava tão perto! Podia sentir-lhes o suave aroma...!

Até então, antes de se apoiar nas pedras, dava-lhes batidinhas, verificava-lhes a firmeza na terra. Quis o acaso que, a menos de dois metros do mar de edelvais, seu pé falseasse em uma superfície escorregadia. Em um reflexo, tentou se agarrar em uma rocha que não lhe suportou o peso e o movimento. O jovem viu o mundo rodopiar durante a queda. Gritou, consciente de seu fim. Foi se chocando em algumas pedras e galhos, o que, se por um lado o machucou, por outro evitou que fosse engolido de vez pela garganta da montanha. Conseguiu parar a queda agarrando-se a uma rocha plana e rugosa; neste processo cortou o rosto em gravetos congelados que emergiam das fissuras das pedras. A dor absurda devorou seu entendimento. Julgou-se mesmo mutilado. Permaneceu alguns segundos ali caído. Ouviu seu nome longe, muito longe...

Eram os brados desesperados do soldado lá no alto.

Por mais que ele quisesse permanecer de olhos fechados até recuperar as forças, precisava impedir que o guarda viesse em seu auxílio: seria a perdição de ambos e, consequentemente, o fim de Shura.

— Não vinde até aqui! Permanecei no exato lugar em que vos encontrais! – Gritou Afrodite, atordoado pelo choque. Algo empapava-lhe o pescoço... neve? Mas… não, não era neve... não nevava...

— Mas o senhor... o senhor está FERIDO!!!

— E estarei MORTO se vós descerdes... NÓS DOIS estaremos! Obedecei-me!!!

— S-sim senhor! – Disse o rapaz, impressionado com a tenacidade de um nobre de feições e maneiras tão delicadas.

— Aaahh... – Gemeu o loiro, levando a mão ao pescoço melado. Maquinalmente, subiu-a até a face dolorida. Arregalou os olhos ao sentir a superfície molhada. Empapada de...

Sangue.

Era o que cobria sua palma branca e trêmula.

— É, parece que consegui um estrago considerável aqui. – Riu de nervoso. – Queridas edelvais, levar-vos-ei todas... espero que vossas apregoadas propriedades cicatrizantes não sejam quimeras.

Esperou se restabelecer um pouco. Quando se viu livre da vertigem, pôs-se a coletar as valiosas flores. Não deixaria uma sequer. Não importava quanto tempo levasse.

Por vezes tinha que parar e enxugar o rosto com um lenço, tão abundante se fazia a hemorragia. A ponta espessa do graveto rasgou-lhe a face direita de cima a baixo... entretanto, nenhum pensamento de Afrodite era para si mesmo.

Tudo que importava era salvar Shura.

Shura, que ardia em febre e tinha os olhos mortiços perdidos em algo que apenas ele via...

Shura, que gemia de dor e angústia, mãos espalmadas sobre o peito arquejante...

Shura, cujos lábios delineados outrora tão desejados agora rompiam-se em feridas purulentas...

Shura, cujo sangue se descobria em salpicos pelas roupas de cama, após acessos daquela tosse perniciosa...

— Shura... – Dedos ensanguentados acariciaram as alvas pétalas. Tão aveludadas! – Vê... reza a lenda que a Dama das Neves agraciará aquele que, em nome do amor, tiver vindo até estas alturas buscar a edelvais... e aquele que ela receber...

Seu bornal ficou quase cheio. Não deveria abarrotá-lo, sob risco de comprometer demasiado a integridade das flores. Gritou para o soldado:

—Podeis lançar vossa corda!

— Sim senhor!

Afrodite amarrou-a ao redor da cintura. Verificando se estava bem firme, e lançando um último olhar ao redor, ordenou bradando:

— Escutai-me atentamente: não puxeis a corda em excesso. É antes um apoio que um resgate. Tomai cuidado vós também.

— Sim, senhor Afrodite, entendido! Quando quiserdes...!

Cuidadosamente o sueco empreendeu a trajetória ascendente, não olvidando de checar se as rochas estavam fixas em suas bases. De quando em quando, tinha que parar para esperar a fúria do vento passar. Ao chegar onde estava o guarda, deixou-se cair de joelhos, exaurido.

— Eu... estou bem. – Levantou a mão, recusando ajuda. – Só... só preciso... recuperar o fôlego.

— O senhor está ferido... seu rosto...

— Sim, eu sei... isso... não vem ao caso agora.

Ele estava certo.

Muitas horas haviam se passado. Se não descessem a montanha antes do ocaso, teriam sérios problemas.

Começaram, pois, o difícil caminho de volta.

Quase uma hora depois, avistaram Arnould e o outro soldado. Aguardavam sentados em rochas, braços cruzados para reter o calor.

— Graças a Deus! Já estávamos preocupados... – Alegrou-se o caçador, seu semblante álacre prontamente convertido em um chocado. – Senhor Afrodite! O que vos aconteceu?!?

— Que vos parece? Caí, foi tudo. – Respondeu, não dando importância ao fato, a despeito das fortes dores que sentia pelo corpo e no rosto.

— Penso que talvez seja melhor fazer logo um curativo, meu senhor.

— Não temos tempo para isso! – Bufou, impaciente. – Precisamos chegar lá embaixo antes que escureça.

Devido ao tempo fechado e à cerração na montanha, não tardaria para que fossem despojados da iluminação. Sem contar com a ameaça do frio, que tornar-se-ia verdadeiramente inóspito no fim do dia.

Depois de uma longa e cautelosa descida, viram Leopold acenando para eles. O líder comunitário, assim como os demais homens, levou um susto ao ver o rosto do camareiro-mor banhado de sangue.

— Oh, meu Deus! Senhor Afrodite, o que vos sucedeu?!?

— Um pequeno contratempo, nada comparável ao sucesso de nossa missão. – Respondeu, satisfeito, apontando para as canastras repletas de edelvais.

— E-entendo... bem, devemos partir já. Se formos a todo galope, chegaremos ao castelo antes da madrugada.

— É o que mais espero. Sigamos, pois.

Tudo que fizeram antes de partir foi beber água e se aliviarem nos arbustos. Nem ao menos puderam comer, mas Afrodite podia falar de si: a última coisa em que pensaria seria em comida. Tinha fome, sim, da recuperação do amado. Somente isso lhe bastaria.

Não iria perdê-lo para a morte!

Já sobre a sela do déstrier branco, o loiro retirou de dentro de seus pertences um pote contendo bálsamo de arnica. Levara-o para o caso de alguém se machucar durante a aventura... não imaginara que seria ele o único a fazer uso do medicamento! Esfregou o creme sobre a face cortada, mordendo o lábio de tanta dor... serviria para aliviá-la, bem como para prevenir infecções.

A lua rolava por entre as nuvens plúmbeas quando os sete homens cruzaram os pórticos de Saint-Doulchard. Afrodite só teve tempo de saltar de seu cavalo, confiá-lo a um escudeiro e correr para o interior da fortificação, levando consigo os bornais com as preciosas “flores do amor”.

Em seu gabinete, preparou os ingredientes, rezando silenciosamente. Mal sentia as dores da queda sofrida. Retirou algumas flores de um dos alforjes e espalhou-as sobre a mesa de carvalho. Higienizou as que utilizaria em uma solução de água, sal, vinagre e vinho de maçãs. Deixou-as descansando ali enquanto juntava outros produtos em uma bacia...

— Óleo de alho, eucalipto... hum... pó de casca de ovo, infusão de verbasco...

Tomou as flores higienizadas e macerou-as, de pouco em pouco, em seu pilão, antes de acrescentá-las à mistura.

Começava a fabricação do remédio que era sua última aposta para salvar Shura...

*************

No quinto dia a contar do início do novo tratamento, Shura abriu os olhos, enfim libertos do molesto ardor que consumia-lhes as órbitas. Respirou fundo, admirando-se de fazê-lo sem dor alguma. Uma fraqueza esmagadora pairava sobre si, dando-lhe a impressão de estar amarrado ao leito. Contudo, não havia mais dor... tampouco a vontade de tossir. Isso o surpreendeu de tal maneira que o torpor inicial se dissipou. Ele sabia exatamente o que havia sido.

Lembrava-se de criadas dando-lhe remédios preparados pelo camareiro-mor. Alimentando-o com caldos e sopas substanciosas...

Por que Afrodite não estava ali? Por que só se lembrava da voz dele no escuro, na calada da noite, sua silhueta mal definida pela incipiente iluminação de alguns poucos círios?

Tentou se levantar, o que se revelou bem mais difícil do que julgara. Não residia uma única réstia de vigor em seu corpo.

— Obrigada, Nanette. Chamar-te-ei se precisar de mais alguma coisa. – Ouviu a voz da esposa do castelão, Marie. – Vai ver se o senhor Afrodite se alimentou. Se não muito insistirmos com ele, não comerá até que o marquês se recupere.

“Afrodite...? Onde…”, pensou, confuso.

— É verdade, senhora, mas o próprio senhor Afrodite mandou que ninguém o incomodasse em seu recinto de trabalho...

— Pois incomode-o. Diz que eu te mandei ir. Ele é um homem bom, não há de te castigar. Por outro lado, cairá doente se continuar sem comer e sem descansar. – Insistiu a gorda baronesa.

— Sim, senhora, com a vossa licença...

Só quando Marie depositou a bandeja com as baixelas sobre a mesa circular percebeu que o castelhano havia despertado.

— Senhor Shura! Com mil perdões! A voz estridente da criada há de ter-vos acordado, não?

Conquanto não tivesse sido nem uma nem outra a arrancá-lo do sono, pensou em como a voz da castelã era bem mais estridente do que o da modesta serviçal...

— Eu já estava desperto antes mesmo de vosso colóquio... – Elucidou o moreno, tranquilamente.

— Ela trouxe a refeição da manhã, e há água fresca. Permiti que vos sirva.

— Por que estais aqui, gentil senhora? Ouvi falardes de Afrodite...

— Estou aqui justamente a pedido do camareiro-mor da Condessa Camille. Ele tem trabalhado dia e noite, seja em seu laboratório, seja à frente de questões administrativas do castelo. O senhor Afrodite sempre destaca alguém para ficar aqui convosco... por vezes, o próprio mantém-se de vigília.

A mulher encheu uma escudela com o caldo escuro e aromático: levou-o até o cavaleiro. Este recostou-se nos travesseiros, em uma posição mais elevada para segurar o prato. Fome não existia, porém tinha consciência de que deveria se nutrir, se queria se recuperar.

— Eu quase não me recordo dos últimos dias. Parece que foi tudo um sonho longo e estranho...

— É por causa da febre que não cedia. Tivestes febre alta e mui perigosa. Vi muitas pessoas morrerem com o que vos assolou. Tenho certeza de que, se não fosse pelo senhor Afrodite, a este momento estaríeis cruzando os portais celestiais. – Disse Marie, arregalando os olhos azuis. Entregou a sopa ao castelhano.

— É incontestável que ele possui um memorável dom. Milo fez excelente escolha para o diretor do futuro hospital de Saint-Doulchard.

Pôs-se a sorver o caldo, sentindo a gordura untar-lhes os lábios cujas feridas abertas pela febre estavam a cicatrizar.

— O senhor Afrodite não apenas é o melhor médico do mundo, como também é o maior conhecedor de ervas, remédios e poções. Vossa enfermidade foi vencida pela edelvais, que o senhor Afrodite foi buscar nas montanhas, unicamente para vos salvar.

Franzindo as sobrancelhas, o marquês dirigiu à baronesa um olhar interrogativo. Não foi preciso mais do que isso: se havia algo nesta vida a que Marie Du La Preix se dedicava com paixão e afinco era a “arte do colóquio”. Certos, alguns interpretavam-na mal – seu próprio marido incluído no rol dos incompreensivos! – consideravam-na “fofoqueira”, ora, os néscios!... Alguém tem que se encarregar de fornecer as notícias, não?

Fazer circular o conhecimento, era isso que fazia!

— Nenhum remédio mostrava-se eficaz no combate à vossa moléstia. Em ritmo vertiginoso, vosso estado piorava a olhos vistos. Pressentindo a ameaça que pairava sobre vossa vida, o senhor Afrodite reuniu alguns homens e partiu para as montanhas ao norte, em busca da flor de edelweiss. – Contava, entre dramáticas inflexões. – É uma flor milagrosa, que floresce apenas em lugares muito, muito altos...

Tanta informação deixava o jovem atordoado. Sorvendo lentamente o caldo, levantava de quanto em quando os olhos verdes para a falante castelã.

— Ele há de regozijar-se em ver-vos desperto melhor. Já nem tende o semblante mais tão doentio.

— Sim, eu... sinto-me melhor.

— Vou chamá-lo! Ah, terminastes vosso alimento? Desejais repetir o prato? Seria bom…!

— Estou satisfeito, obrigado.

— Claro... oh! Que dia tão feliz! O senhor há de ficar tão feliz, pobrezinho... ainda mais depois do que houve com aquele rosto tão lindo, oh, pobrezinho...

— Confundis-me, gentil baronesa. Do que estais a falar agora? – Admitiu, esforçando-se por manter a serenidade.

— Devo advertir-vos para que não vos espanteis em demasia ao ver o senhor Afrodite...

— E por que é que isso haveria de acontecer, criatura de Deus?

— Porque... ele sofreu um acidente na montanha...

O coração de Shura entrou em erupção, ao mesmo tempo que o seu sangue gelou.

— Um acidente? Que é que estais a revelar-me, senhora?!?

Apertando as mãos consternada, ela explicou ao terrificado cavaleiro:

— Para chegar até onde estavam as edelvais, o senhor Afrodite teve que descer por uma encosta escarpada, íngreme... em dado instante, a pedra em que se apoiava cedeu e ele caiu...

— Feriu-se?!?

—Infelizmente sim… bastante… oh, é tão triste! Um rapaz tão bonito, e agora...

Impulsionado pela aflição, o moreno saltou como um gato da cama. Agarrou a mulher pelos ombros, quase a sacudindo.

— Por que estais a dizer tais coisas? Que houve com Afrodite?!?

—... logo no ROSTO! Seu maior tesouro, sua maior dádiva... Por favor, ao olhar para ele, detém-vos de demonstrar repulsa por sua aparência...

O rapaz emudecido considerava a chorosa baronesa.

Sequer piscava.

Que dissera ela? Que Afrodite sofrera um acidente... para SALVÁ-LO? E que por isso ficara desfigurado?!?

O mais belo rosto da Terra… arruinado POR ELE, que lhe dispensara tamanho desprezo? Tratamento vil e desdenhoso?

Esforçando-se por parecer calmo, Shura largou os ombros da mulher, vermelha de tanto fungar o nariz. O jovem assegurou-lhe:

—Por tudo que é mais sagrado, senhora, É CLARO que não demonstrarei repulsa ou terei qualquer outra reação desqualificada da espécie. Por quem me tomas? Sou um guerreiro que viu ventres abertos em campos de batalha. Cérebros expostos, entranhas espalhadas pela relva, sendo comidas por aves de rapina. Ademais...

“Ele é meu amigo e eu o prezo.” Foi o que teria dito à esposa do castelão, não tivesse sido tomado de súbita fraqueza. Emocionara-se por demais, e os pulmões cobraram o preço. Sentou-se na cama, deixando-se recostar nos travesseiros, buscando se recompor.

— Oh, Virgem Santíssima! Empalidecestes...! Calar-me-ei, prometo! Só achei por bem preparar-vos antes de o ver... e-eu irei chamá-lo agora mesmo, com a vossa licença...!

Nem voz nem gestos de Shura antecederam a saída da corpulenta baronesa. Exausto, deixou descer as pesadas pálpebras, mergulhando com prazer na ausência da dor.

Ao ouvir passos em direção à alcova, abriu logo os olhos para que Afrodite não o julgasse adormecido.

Por mais que ele tivesse se prometido não demonstrar surpresa... falhou miseravelmente.

Na face direita de Afrodite uma linha grotesca descia-lhe da linha da sobrancelha até o queixo. Sangue coagulado brilhava sob algum produto ali aspergido. Dir-se-ia uma segunda boca zombeteira a brotar, em um claro escárnio contra o que de mais belo já existira sobre a face da Terra.

— Cuidado, se permanecer boquiaberto assim por mais tempo, acabará deslocando o maxilar. – Brincou o loiro. – Como te sentes, à parte do horror que obviamente experimentas?

Arrependido por não ter conseguido conter seu estupor, Shura limpou a garganta antes de murmurar:

— Estou bem... e, não, não experimento horror algum. Estou bem melhor, graças a teus esforços e... e a teu...

Teria sido excessiva a palavra “sacrifício”?

Na dúvida, não a usou.

— Tu melhoraste, porém teu estado ainda inspira cuidados. – Admoestou o camareiro-mor, tranquilo. – Continuarás a tomar o remédio que tens aí em tua mesa de cabeceira, bem como o sherab. As servas vêm cuidando disto, agora que estás desperto, podes...

— Quase nem recordo de tê-lo tomado.

— Foi uma febre atroz. Diria que estavas praticamente um sonâmbulo. Folgo em ver-te lúcido, enfim.

— Mentiste sobre a influenza.

O sueco apertou os lábios. Resistiu ao ímpeto de desviar o olhar cristalino ao admitir:

— Menti. Quase foste vitimado por uma perigosa febre do pulmão. O risco de recaída não é desprezível, portanto, rogo-te que sigas com...

— Por que mentiste para mim, Afrodite?

— A febre embotou teus sentidos. Não estavas em teu juízo perfeito.

— E isso foi razão suficiente para tuas mentiras?

— Foi. – Reconheceu, seu reservas. – Considerei o mais adequado a ser feito então. Que importância tem isso agora? Queres saber? Não me importo que me reproves. Apenas exijo que me obedeças quanto ao teu repouso. Podes continuar a odiar-me, contanto que...

— Eu NÃO te odeio. Nunca te odiei. Nunca te odiaria, Afrodite.

Segundos de silêncio seguiram-se durante o embate de olhares. Então o loiro deu de ombros, suspirando:

— Como seja. Bem, vejo que tomaste o caldo de ganso com especiarias. Dar-te-ei o tônico e o sherab. Depois podes voltar a dormir.

— De que é feito o tônico milagroso com que me salvaste?

— Imagino que a boa Marie já tenha te contado, mas prezarei pela polidez e responder-te-ei: é à base de licor de edelvais.

— Edelvais. A “Flor do Amor” das montanhas mais altas da Europa.

Afrodite estremeceu levemente. Não contara a ninguém sobre a alcunha da flor.

— Conhece-a? – Indagou, simulando neutralidade.

— Não acerca de seus poderes medicinais. Contudo, já ouvi sobre a lenda... – Mirou direta e fixamente os olhos vítreos do sueco. – ... todo aquele que for corajoso o suficiente para galgar as alturas e enfrentar os rigores das montanhas para colher a flor que um dia foi a Dama das Neves, a fim de ofertá-la à mulher amada, será eternamente afortunado no amor.

Com um riso nervoso, o camareiro deu um volteio e arriscou:

— Decerto leste acerca dessa pueril fantasia no tratado em que descobri as glórias sobre a edelvais...

— Tu te equivocas. Quem ma contou foi um guerreiro bávaro que conheci no Oriente... inclusive trazia em seu escudo a efígie da edelvais... o brasão da família dele!

— Deveras? Ora, que curioso…

—A flor é um símbolo na região da qual proveio o cavaleiro em questão. Eu nem imaginaria que existisse aqui em Saint-Doulchard.

— E que fim levou esse cavaleiro? Será que foi feliz no amor?

— Jaudger pereceu no campo de guerra, quando estávamos em campanha na Síria.

— Basta, se soubesse que a história teria terminado em morte, não teria inquirido acerca do pobre homem. Aqui está... tomarás meio cálice pela manhã, meio cálice à tarde e um inteiro à noite. – Serviu o amigo, que fez uma careta ao terminar de ingerir o remédio. Àquela expressão, Afrodite ergueu as sobrancelhas de modo cômico. O marquês tentou se justificar:

—Como era translúcido e de perfume adocicado, não julguei-lhe tão asqueroso o sabor.

— Os pais de nossos pais já diziam que remédio bom tem que ser amargo... – Riu o loiro; o gesto fez repuxar a ferida e ele gemeu inconscientemente, levando a mão ao imenso corte.

— Afrodite – Murmurou Shura, preocupado, ao vê-lo ressentir-se da dor.

— Hehehehe, n-não é nada... eu esqueço deste...

— Por que fizeste isso por mim?

A pergunta, absolutamente inesperada, soou como um baque no peito do sueco. Após hesitar uns instantes, respondeu, quase em suspiros:

—Tu farias o mesmo por mim, bem o sei.

— Teu rosto...

“Ficará com uma cicatriz nefasta... para o resto da vida.”, pensou Shura, coberto de amargura e de convicção de que não deveria verbalizar aquilo.

Não que para ele uma cicatriz pudesse deixar Afrodite abominável.

Não era por sua convicção.

E sim pela do amigo.

Sabia-o vaidoso, excêntrico, exuberante. Um referencial de beleza.

Não era como o chamavam? Não era a mensagem trazida por seu pseudônimo?

O Homem Mais Bonito da Terra.

O mais belo rosto do mundo... marcado para todo o sempre!

E tudo... TUDO POR...

— Segundo consta, a edelvais possui fantásticas propriedades cosméticas além das medicinais. – Enunciou o sueco, sorrindo gracioso. – Uma delas é atuar na recuperação de tecidos, ou seja, na cicatrização de ferimentos. Espero que não te incomodes por este futuro médico haver surrupiado de ti algumas valiosas edelvais; utilizei-as na elaboração de um unguento para esta repugnante chaga. Lamento por teres de olhar para isto!...

— Não deves lamentar-te por nada. Se há alguém aqui que deve se lamentar por algo sou EU... lamento por teres te machucado por minha causa.

— Qual! Que sandice! Desta vez foste tu, outro dia, fá-lo-ia por outro paciente... e então? Não é tão grande coisa... toma, o sherab. Este ao menos é palatável, admite.

— Não o nego, embora o dulçor seja quase nauseante. – Retrucou, aceitando o xarope.

Afrodite deu uma risada, e completou, fechando os frascos:

— Sabes... já estava mesmo a me amofinar aquela velha litania de “Afrodite, o mais belo ser da Terra”, que arrelia... lisonjeiro? Talvez até a milésima vez. – Riu com gosto, diante de um marquês bem sério. – Com este recém adquirido e quiçá perpétuo adorno, relego o meu inútil título a outrem.

— Afrodite...

— Sim?

Shura tencionou refutar-lhes as palavras.

Afrodite estava enganado.

Ainda continuava belo.

Ainda era o mais belo dos homens.

O mais belo ser sobre a Terra.

Na verdade, a horrente marca em seu rosto angelical coroava a mais irrefutável das verdades: Afrodite era a pessoa mais incrivelmente bela que conhecera.

— Querias dizer-me algo, Shura?

O moreno dera-se conta de que o outro aguardava. No entanto, ele nada proferiu. Sentiu-se sonolento... quase dormente. Risonho, o camareiro-mor comentou:

— Estou a fatigar-te com minha tagarelice. E aposto que já tiveste disto boa dose ao acordar tendo a esposa do castelão aqui no quarto.

— Deveras... não sei qual de vós é o mais falador...

— Ora, que insolência! – Gracejou Afrodite com as mãos na cintura, afetado.

— ... mas sei qual prefiro.

— O... o quê?

O marquês deu uma risada marota e virou-se para o lado, decidido a dormir. O sherab possuía efeito sedativo leve. Debilitado como estava, porém, rendeu-se sem delongas ao sono.

Vendo o amado começando a ressonar, Afrodite deu um sorriso doce, seu peito aquecido pela graça de contemplar o rosto de Shura imerso na mais absoluta paz.

*************

Dias depois, o Conde e a Condessa de Saint-Doulchard retornavam ao lar. Aproximava-se o último mês daquele ano de 1192, e o ar já se revestia dos rigores invernais. Sob um céu cor de chumbo, a carruagem dos senhores do castelo adentrou o Pavilhão Central. Shura foi recepcionar seu amigo e a esposa deste, que desciam do veículo.

— Shura! Como tens passado, meu caro amigo? – Saudou-o Milo.

— Melhor agora com tua chegada – A resposta verdadeira poderia ser um pouco complicada... – É bom ver-vos novamente, mas... receio que não ouvirei boas novas acerca da senhora Condessa D’Auvergne...

O sorriso do loiro perdeu bastante de seu brilho.

— De fato... ela não resistiu. Bem... foi a vontade de Deus. Estava a padecer deveras.

— Meus pêsames, Milo. Sabes que podes contar com meu apoio nesse desditoso momento.

— É claro que sei. – Murmurou, aceitando o abraço fraternal.

O marquês fez uma mesura diante de “Camille”.

— Senhora... sê bem vinda de volta.

— Obrigada, Shura. É bom estar de volta. Espero que tenha corrido tudo bem por aqui.

— Bem... na verdade, houve alguns contratempos... mas...

— É impressão minha ou tu emagreceste? – Interrompeu-o Milo, analisando o amigo de alto a baixo.

Camus, cuja certeira percepção já o havia alarmado, franziu o cenho ao juntar-se àquela examinação.

— O senhor meu marido tem razão. Estás abatido, Shura. – Afirmou. Lançou um olhar em torno. – E... onde está Afrodite? Não o vejo...

— Perdoai-me, estava no laboratório e não podia largar de supetão o que estava a fazer...

Camus e Milo voltaram-se na direção da qual vinha o camareiro-mor. A estupefação dos consortes foi imediata e nada contida.

O rosto de Afrodite!...

— O que... o que te aconteceu? – Balbuciou o ruivo, pasmado.

Quando o jovem parou diante de seus senhores, a plateia de servos, funcionários e demais nobres presentes, que foram receber os condes, prendeu a respiração. A “condessa” por certo haveria de dispensar os préstimos de um camareiro que agora mais se assemelhava a um criminoso das galés. “Pobre rapaz!”, pensavam alguns.

Colérico, Milo adiantou-se frente ao sueco:

— Quem fez isso contigo? Aponte-me o infame facínora, e eu o punirei exemplarmente!!!

Qual não foi a surpresa dos consortes ao ver o jovem loiro irromper em uma gargalhada. Enquanto isso, o marquês de Aguilar estremecia.

— Ninguém há a ser castigado, Excelência. – Garantiu o sueco, simpático. – Tudo vos será explicado, a não ser que estejais demasiado cansados da viagem para ouvir este servo...

— Qual cansados! – Protestou o Conde, impaciente. – Quero saber JÁ o que se passou por aqui, vamos, entremos... abrirei um vinho, e vós abrireis vossos bicos!!!

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Notas finais
(1) Influenza - no século XII, ao que parece, não se usava o termo "gripe", cunhado provavelmente no século XVI. 'Influenza", do italiano "influência" seria, como a própria palavra sugere, influências "de ares frios" a provocarem inúmeras moléstias de menor ou maior gravidade. (2) Sherab - que vos parece a palavra? Justamente... xarope! Remédio provavelmente criado pelos árabes (3) De fato, a edelvais gozava de fama de "flor milagrosa" na Idade Média, devido à dificuldade de ser colhida - floresce em altitudes superiores a 1500m, segundo algumas fontes, a partir de 1800m ou 2000m. Entretanto, sua notoriedade é mítica, exceto no tocante às propriedades cosméticas. Já na parte medicinal, a que fez brilhar os olhos de Afrodite, perde feio para o óleo de borragem, justamente o primeiro remédio que o sueco forneceu a Shura. (4) Fonte da "Lenda da Flor de Edelvais" - http://zambezianachuabo.blogspot.com.br/2012/06/edelweiss-lenda.html (Texto adaptado para a fic) ************* Deve haver um bocado de erros, eu betei duas vezes mas sempre cansada e com sono... no exato momento estou caindo de sono. Desculpe por isso, posteriormente irei corrigindo o que encontrar ainda de errado. Link para o grupo "Fics da Amelinda" no Facebook: https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/?ref=bookmarks Obrigada por prestigiarem, e até a próxima atualização... beijos!