Dame Jolie
39 A Joia dos Turenne
Notas iniciais
A melodia das cítaras e dos alaúdes preenchia o ambiente docemente aquecido pela lareira, pelo vinho e pela camaradagem dos que no salão se encontravam. Dispostos em torno da lareira, confortavelmente instalados em divãs marroquinos estofados de veludo, os quatro amigos permutavam entre si as informações acerca daquelas três semanas de separação.
— Por Deus, Afrodite, palavra que não te julgava detentor de tamanha galhardia! – Confessou o Conde de Saint-Doulchard, nada preocupado em dissimular a estupefação.
— Não sei se considero vossa declaração lisonjeira ou depreciativa, meu senhor... – O sueco dirigiu-lhe um sorriso irônico.
— Por haveres salvado a vida de meu melhor amigo, recompensar-te-ei. – Milo anunciou, brandindo a taça de ouro, entusiasmado. – Pede, pois, o que quiseres, e eu dar-te-ei, sem pestanejar. Qualquer coisa que teu coração almejar: joias, terras, corcéis, peles, uma carruagem nova... seja lá o que for, terás!
Afrodite torceu os lábios levemente pintados em uma careta de desdém.
— Por quem me tomais, excelentíssimo senhor? Posso ser um humilde camareiro, porém ainda não me converti em nenhum negociador de penhores...
— Tu és tão humilde quanto Camille é festiva.
Foi a vez de Camus fazer a careta de desdém.
— Agradecer-te-ia se poupasses meu nome em teus chistes, senhor meu marido.
O conde tomou a mão “da esposa” e beijou-lhe o suave dorso com cômica efusão.
— Já fiz semelhante oferecimento a ele, meu amigo. Porém, despreza meus intentos de agradecimento. – Shura informou, em meio a um resignado sorriso.
Olhando-o de soslaio, o sueco conjecturava que o que ansiava do marquês certamente não seria nada daquilo que lhe fora oferecido... ergueu o queixo e replicou, fingindo um ar de pouco caso:
— Vós me tende em baixa conta, por certo. Tão somente cumpri meu dever, pelo qual Deus proveu-me dos saberes que detenho.
Uma criada reabasteceu as taças com o vinho que trazia em uma jarra de prata.
— Enche-me de júbilo saber que estás a recuperar-te, Shura. Tiveste a imensa sorte de estares por perto do maior entendido em ervas medicinais que existe. Durante minha vida, soube de mais de uma pessoa que pereceu por causa da moléstia que te afligiu.
— Agradeço tuas gentis palavras, estimada Camille, palavras estas revestidas de total relevância. Graças a Deus, Afrodite... – Calou-se de súbito, perturbado ante a visão do rosto tristemente aviltado do belo jovem. Poderia, deveras, considerar uma graça para si o que implicara infortúnio para outro? A culpa corroía seu coração, a despeito da insistência de Afrodite em que tal sentimento não fazia sentido.
Milo e Camus entreolharam-se, conscientes do que significava aquela pausa consternada do castelhano. Sorvendo o vinho tranquilamente, Afrodite reforçou:
—Não fiz mais que a minha obrigação. Em alguns anos, comandarei o funcionamento de um hospital, provavelmente um dos maiores da Europa. Tratar da saúde de um amigo é o mínimo esperado de alguém que possuirá tal missão, penso eu. Julguei que considerassem o mesmo.
— Claro que consideramos, o que não nos despoja da admiração de como foste bravo. Eu só lamento que tenhas te ferido no processo... e logo no... – Camus elucidou, uma desolação no semblante que o timbre neutro fora incapaz de ocultar.
O sorriso de Afrodite perdeu o brilho; o rapaz, contudo, sustentou um modesto, enquanto levava os dedos à chaga que maculava-lhe a perfeição da face. Sentiu-a entumecida, tão extensa, e úmida pelo unguento à base de edelvais ali impregnado.
— Peço perdão se vos molesta. Como ainda está muito recente, e fresca a ferida, achei melhor deixá-la livre; permite à pele respirar e facilita a administração regular dos medicamentos. Tão logo esteja razoavelmente fechada, eu a esconderei com uma máscara.
Os três ouvintes quedaram-se abismados. Milo tomou a palavra:
— Abstém-te de proferir semelhantes sandices. Não é preciso que ocultes teu rosto, oras. Não estás mutilado nem nada! Estão aí teus olhos, nariz e lábios, não?
— Eu suponho que sim, felizmente – Riu o camareiro, achando graça da reprimenda do conde. Este terminou por gracejar, a fim de suavizar a atmosfera ambiente:
— Não estás assim tão pior do que já o eras.
Com doçura na voz, Camus acrescentou:
— Tu te equivocas se pensas que teu ferimento poderia tornar-te repulsivo ao olhar. Primeiro porque és nosso amigo, e muito mais incomodada ficaria eu se fosse obrigada a ver-te mascarado daqui em diante. Segundo, és tão formoso que a ferida, que em breve estará curada, não te destituiu de um só de teus atributos.
— Camille tem razão.
Foi a vez de o lacônico Shura receber os olhares admirados. Afrodite tentou não corar, mas pelo calor que sentiu subir às orelhas, percebeu que falhara.
— Não é uma laceração que subtrairá a formosura que deténs. Tanto mais se considerarmos que a verdadeira beleza reside no espírito. E tuas ações atestaram a primazia do teu nesse quesito, caro Afrodite. – Complementou o marquês, encarando seu atônito interlocutor.
Breves instantes de silêncio se seguiram àquelas inspiradas afirmações. Então Milo soltou uma gargalhada, até então contida com empenho.
— Basta, Shura! Não vês que tuas parolagens estão a deixar o rosto do camareirozinho da cor dos cabelos de Camille?
— Milo!!! – O marido ralhou, dando-lhe um tapinha nos joelhos.
Eles riram, servindo-se de mais vinho. Uma serva trouxe-lhes acepipes variados para acompanhar o exclusivo festim, que perdurou até a madrugada. Dedicaram-se despreocupadamente àquela amistosa reunião por três motivos: em virtude do longo período em que estiveram separados, para desanuviar os efeitos do falecimento da Condessa D'Auvergne e dos infortúnios por que passaram recentemente Shura e Afrodite, e ainda, aproveitar seus últimos dias juntos. Com efeito, o Marquês de Aguilar e o nobre sueco partiriam para Paris tão logo se encerrassem as comemorações do Ano Novo. Naquele tempo, a delimitação de anos podia variar de lugar para lugar, mas havia um consenso de que 1192 encontraria seu fim pouco depois do Natal. (1)
Camus bem tentou demovê-los da decisão: o início do inverno poderia prejudicar-lhes a viagem. De mais a mais, havia o casamento de Marin em abril! Não obstante, Afrodite convenceu-o de que não seria adequado perder tantas aulas – o curso teria início em meados de janeiro! E o que era um pouco de neve pela estrada para quem se aventurara a escalar uma montanha razoavelmente inóspita em busca de flores quase lendárias? Quanto às bodas de Marin, de jeito nenhum perderia o evento mais importante da vida de “sua garotinha”, assegurara o camareiro.
Destarte se desenrolaram as duas semanas que precederam a jornada. As festividades natalinas, de cunho quase que exclusivamente religioso, cederam espaço às de Ano Novo, estas sim, com direito a banquetes, bailes e saraus. Ao cabo de seis dias, já em 1193, Afrodite ocupava-se de guardar os últimos pertences nas canastras quase abarrotadas. Inseguro quanto a deixar seus diários no castelo, decidiu levá-los consigo. Hesitou: contavam em nove compilações de manuscritos. Talvez fosse mais sensato guardá-los em algum compartimento secreto em seus aposentos; construções militares abundavam daqueles esconderijos, e seu apartamento não fugia à regra. Ainda assim, sentir-se-ia mais confortável com os diários junto a si. Afinal, seriam três anos longe de Saint-Doulchard! (2)
— Com a tua licença...
A voz modulada de Camus fê-lo meter alguns dos livros de qualquer maneira na bagagem, entre mantos e capas. Não esperava por aquilo: embora os senhores fossem dispensados de baterem às portas de seus serviçais, o ruivo SEMPRE batia, pois que eram amigos, à parte de, oficialmente, serem “senhora” e servo. Havia consideração diferenciada em sua relação. O respeito à privacidade era um de seus indicativos.
— Assustaste-me.
— Deveras? – Camus ergueu as sobrancelhas, sem ocultar a surpresa pelo ar esbaforido do outro. – E por qual motivo?
Rindo nervosamente, o loiro explicou:
— Bom, nada em especial. É que tens o costume de bater à porta antes de entrar... fui surpreendido. Não esperava, é tudo.
Camus deu de ombros, rindo sem entender.
— Bem, eis-me aqui à porta, não adentrei teu cômodo realmente, ainda...
— Claro, claro, eu vejo! Perdoa-me, não quis parecer aborrecido...
— Não, eu que devo te pedir perdão. Ocorre que me distraí. Tenho a cabeça tão cheia!
— Vem, entra, nada tens do que te desculpares – O camareiro foi tomar-lhe a mão, incentivando-o a que ganhasse de vez o interior do recinto.
Na privacidade potencializada pelas espessas paredes de pedra, e pela pesada porta de madeira maciça, podia tratá-lo por quem verdadeiramente era:
— Que há contigo, Camus? Por que dizes estar com a “cabeça cheia”?
O recém chegado franziu os finos lábios carmesim. Falou em voz baixa, um tanto tímido:
— Estaria mentindo se afirmasse que teu exílio afeta-me somente no tocante às óbvias saudades que de meu único amigo sentirei...
Dirigindo-lhe um olhar misto de candura e piedade, Afrodite pôs sua mão sobre a do jovem, que se instalara em um tamborete forrado de pele de marta, próximo à bagagem. Compreendia a fonte do incômodo do amigo. Com extrema calma, expôs:
— Entendo o que queres dizer. Contudo, se deste modo me evado de Saint-Doulchard, é, primordialmente, pela vontade de teu marido.
— Tinhas todo direito de declinares dos desígnios de Milo. – Retrucou, em tom queixoso.
— Sim, eu tinha! Mas será que seria conveniente? Como ficaria sua autoridade de soberano destas paragens? Mesmo que o senhor Milo tenha garantido-me direito de escolha, uma vez que ele manifestou tal vontade... e tal confiança em mim... era forçoso que eu anuísse. E, não negarei: a proposta de realizar um sonho de infância venceu, enfim, minha resistência, quando o conde me assegurou que saberia cuidar de ti.
Percebendo o ruivo cabisbaixo, o camareiro continuou:
— Nestes vinte dias, ele não cuidou eficientemente de teu disfarce? Não aprendeu a te ajudar com tuas vestimentas, teus penteados e até tua maquiagem? Eu mesmo o ensinei, antes de irdes a Auvergne. Quando desceste daquela carruagem aqui no pátio do castelo, vi o quanto teu esposo está a dominar as técnicas da “transformação”.
— Sim... também eu tenho treinado mais amiúde nos últimos tempos, a fim de obter autonomia quanto ao processo...
Afrodite fez-se subitamente taciturno.
— Não penses que parto sem preocupações. Cuido de ti desde os teus 15 anos. Se quiseres que eu desista de Paris, Camus... uma única palavra, e eu o farei sem a mínima hesitação.
Cerrando os punhos, o ruivo refletiu brevemente. Não, não permitiria que seus temores egoístas levassem Afrodite a capitular de seus ideais. E quanto ao hospital em construção? Despojá-lo-ia da direção de um médico brilhante? Por mais que o amigo dominasse técnicas que nem os mais renomados médicos conheciam, a formação acadêmica era crucial para um cargo como aquele. Tinha ele o direito de privar todo o povo de Saint-Doulchard daquele supremo bem vindouro por conta de sua toalete, vestes e penteados? Estava a se virar com êxito mais que razoável, isso sem contar com a habilidade recém adquirida do marido. Sorrindo amavelmente, garantiu:
— Jamais pediria que renunciasses tua nobilíssima aspiração, Afrodite.
O sueco correspondeu-lhe ao sorriso, nitidamente aliviado. Segurou outra vez a mão do amigo ao prometer:
— Serão três longos anos, podendo ser o período prorrogado para quatro anos... contudo, havemos de nos encontrar de quando em quando.
— Naturalmente. Também eu espero visitar-te em Paris.
— Camus. Cuida de ti. Cuida do senhor Milo. Ele é um cabeça oca por vezes, mas ama-te com um fervor incomensurável. – Recomendou, faceiro. O outro riu, assentindo.
— De igual maneira, rogo-te que cuides de ti. E... Afrodite, sei de teus sentimentos para com Shura. No entanto...
— Não te preocupes. Permanecerão enclausurados aqui dentro. – Espalmou a mão sobre o próprio peito. – Nunca hei de revelá-los ao Marquês de Aguilar.
— Conquanto seja algo triste de se ouvir, tranquiliza-me, devo confessar, pois não creio que ele reagisse favoravelmente a tal revelação. Bom seria que encontrasses alguém disposto a amar-te como mereces.
Sorrindo desalentado, o camareiro retrucou:
— Isso nunca há de acontecer.
— Acaso podemos prever o futuro, caro amigo?
A lembrança de Giuseppe visitou o camareiro-mor. Oxalá tivesse logrado aceitar a corte do italiano!
Impossível. Não quando todo o seu ser devotava-se a Shura.
Não importava.
Viver perto do espanhol já seria ventura suficiente.
E assim, chegou o dia da partida, pálido e encoberto. Sob aquele tristonho céu de inverno, reuniam-se diante da pequena comitiva os condes de Saint-Doulchard e seus servos, assessores e vassalos.
— Conto contigo para tomar conta do camareirozinho desmiolado, amigo Shura. – Disse Milo, colocando a mão sobre o ombro direito do marquês.
— Hunf, só um desmiolado confiaria em outro desmiolado para dirigir um hospital... – Afrodite alfinetou em um falsete.
— Estás a ver por que te incumbi como ama seca do insolente? Atrevido desse jeito, logo acabaria por se meter em problemas. – Rosnou o conde, dirigindo ao amigo “da esposa” um olhar indignado.
— Não te preocupes, asseguro-te que isso não ocorrerá. – Riu Shura, no que foi acompanhado por Afrodite. Olharam-se brevemente, o que fez o coração de Camus fremir.
Deus, que Afrodite não se metesse em OUTROS tipos de problemas...
— Ide com Deus. Rezarei para que Ele vos proteja em vossos caminhos. – Camus despedia-se de forma comedida perante as dezenas de testemunhas. Na intimidade dos aposentos de Afrodite, entretanto, abraçaram-se e quase choraram nos ombros um do outro. O momento não diferia do experimentado por dois irmãos muito próximos que se despedem por extensas temporadas.
A carruagem deixou o Pátio Central, uma nuvem de poeira erguendo-se do solo. Algumas crianças correram atrás do veículo, gritando e rindo divertidas, quase tão rápidas quanto os cães que se juntaram à brincadeira.
Camus levou a mão ao corpete cravejado de joias, contemplando a comitiva sumir por detrás dos altos muros da fortificação.
— Eles ficarão bem. E nós também. – Sussurrou Milo, ao ouvido do cônjuge.
— Sei disso. E, Milo... estou SEMPRE bem a teu lado.
O loiro sorriu malicioso, beijando-lhe estaladamente a bochecha empoada.
— E EMBAIXO de mim? Também estás sempre bem, por certo? – Gracejou ao ouvido que ruivo, que, maroto, replicou em um sussurro provocante:
— Sim, sinto-me bem POR CIMA de ti, também.
— És terrível... quem diria que por trás dessa fachada impassível... – Murmurou o conde, simulando perplexidade.
Sorrindo um para o outro, voltaram para dentro da casa senhorial, dispostos a disputarem as referidas posições em um bem vindo arrulho matinal...
*************
Para instalar Shura e Afrodite, fora acordado o aluguel de um vasto e aprazível solar nas proximidades da Universidade de Paris. Era bem verdade que seu potencial prazenteiro durante o frio dezembro não se deixava revelar grandemente, mas a suavidade das linhas curvas acima de um comprido jardim, e a elegância das fontes a adornarem a frente da bela edificação, não deixavam de prometer delícias em tempos mais amenos. Vitrais pareciam pulsar com a incidência dos raios dourados de um sol destemido que ousava escapar do amplexo das nuvens plúmbeas.
— Que lugar bonito. – Comentou o marquês, simplesmente, considerando o casarão.
— Hunf, o senhor Milo decerto quis que eu sentisse na pele o que é ser um pobre estudante de universidade. Ou resolveu desenvolver a avareza. Será a primeira vez que habitarei uma residência tão modesta.
— Não é nada modesta, queres apenas tripudiar do meu amigo. – Riu o espanhol. – É digna de burgueses enriquecidos e nobres citadinos.
— Burgueses! Era só o que me faltava, ocupar uma casa que pode ser confundida com casa de burgueses.
— Sei que estás a pilheriar, não possuis semelhantes pensamentos bobos.
Trocando aquelas troças, aproximaram-se da entrada da casa, onde já os esperavam alguns criados. Estes não deixaram de transparecer nos olhares assustados a surpresa pela marca no rosto do sueco.
— E Camille disse que eu não precisaria de máscara... – Resmungou o loiro, ascendendo as escadas de pedra.
— Tem paciência, por certo acham que tu acabaste de te machucar.
— Ou que tenho uma doença contagiosa.
Não estava destituído de razão em supor que pensavam aquilo mesmo.
Conduzidos ao segundo andar do solar, depararam-se com vários quartos elegantemente decorados. Afrodite escolheu o que dava para o jardim, e Shura, um mais ao fundo, com vista para o pátio interno do sobrado. Por dentro, não era tão modesta como o sueco julgara, ao contrário... lembrava a casa de Giuseppe, até. Elegeu um cômodo como seu laboratório, e outro como sua sala de estudos. Shura riu, divertido, ao ver o repentino entusiasmo de Afrodite com o “novo lar”; o rapaz corria para lá e para cá, sondando cada canto do que começou a chamar de “casinha de bonecas”. Para ele, que sempre vivera em castelos enormes, fazia todo sentido.
Afrodite por fim deteve-se em uma varanda florida, de onde tinha uma visão privilegiada de Paris. A neblina esparramava-se furtivamente pela cidade. Aqui e ali as primeiras janelas iluminavam-se com a proximidade do crepúsculo. Shura chegou por trás dele, causando-lhe um frêmito prontamente escondido.
— Uma das maiores cidades de Europa. Não é nada má a imagem que nos oferece, malgrado eu prefira as paisagens livres de Saint-Doulchard e da minha terra – Shura comentou, sua voz tão grave e ao mesmo tempo reconfortante, que Afrodite teve que conter um sorriso de felicidade.
— É verdade. – Anuiu, quase em um murmúrio. Em seguida, riu – Digo... é verdade que a vista não é má. E que Saint-Doulchard ofereça deslumbrante espetáculo das alturas. Quanto às paisagens de tua terra, nada posso afirmar, pois que desconheço-as.
— Hum. Por isso, não. Levar-te-ei à bela Castela quando do verão. Hás de comprovar o que estou a dizer.
Sufocando uma exclamação eufórica, o sueco balbuciou:
— Estás me convidando para uma viagem à tua terra... durante o verão?
— É quando fica mais vibrante. Os folguedos, os festivais, as feiras... tudo explode no verão.
“Explodindo também está meu coração!”, pensou Afrodite, tentando se controlar para não sorrir exageradamente.
A julgar pelo sorriso de Shura, não lograra êxito.
Paciência.
Estava feliz por demais!...
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Conquanto tivesse amanhecido, não fossem os candelabros a escuridão ainda reinaria no quarto senhoril do castelo de Saint-Doulchard. Apenas uns poucos pássaros corajosos enfrentavam o impiedoso frio daquela manhã de 7 de fevereiro de 1193. Despertando com um extenso bocejo e um felino espreguiçar, Milo lembrou-se imediatamente de que aquele era um dia especial.
Abraçou Camus, que principiara a acordar devido à percepção de que o esposo emergira do sono dos justos. Depositando beijos tépidos nos ombros pálidos, sussurrava, terno:
— Então hoje é dia de anos de meu bem mais precioso... completas 21 anos de vida, meu amor, meu doce amor!
Sonolento, o ruivo riu de leve.
— Tens memória prodigiosa.
— Qual! Que prodígio haveria de existir em lembranças referentes ao que mais amo neste mundo? – Subiu os beijos pelo pescoço, causando risos no marido.
— Tencionas presentear-me com cócegas, este é o plano?
O loiro fez um muxoxo.
— Feres meus sentimentos. Quis presentear-te sim, como um banquete e um suntuoso baile, mas tu recusaste veementemente...
— Milo, tem bom senso... – Murmurou, esfregando os olhos castanhos claros. – Estamos no auge do inverno. Seria imprudente fazer com que as pessoas enfrentassem essas estradas nevadas, tão sinuosas e tão íngremes. Nos últimos dias, nevascas assolaram esta terra.
— És um verdadeiro filho da estação das brumas e do gelo... creio que te orgulhas disso.
— Debalde o negaria. – Admitiu, em meio a um sorriso que continha um quê de sutil malícia.
— Bem, eu sei como derreter esse gelo... e tornar essas brumas em vapores...
Submergindo nos pesados cobertores de pele e de lã, o conde pôs-se a provocar o amante com mais cócegas, mordidas e lambidinhas. Praguejando em meio a risos, Camus bem tentou resistir àquelas investidas, mais por jogo do que por modéstia... acabou sob o vigoroso corpo nu e quente do marido.
Os lábios do loiro encontraram ansiosos os do jovem cuja palpitação desembestara pela excitação despertada. Cada qual mergulhou na degustação preliminar do outro, gemendo e suspirando durante o longo beijo. Ao sentir o membro rígido de Milo entre suas pernas, o ruivo afastou-as mais, abrigando-o ali, enquanto murmurava, rouco de desejo:
— És insaciável, senhor meu marido...
— Poderia eu saciar-me de ti? – Murmurou Milo, em sua boca entreaberta, sequiosa. – Não, anjo meu, ser-me ia impossível... e, se mo permites, não me pareces tu saciado, tampouco.
— A culpa... é tua... – Camus perdia a coordenação pouco a pouco, pois que o esposo já ganhara acesso para seu órgão inflado, massageando-o vagarosamente.
Com os dedos o cavaleiro manipulou os mamilos róseos e rijos, distraído com a respiração entrecortada abaixo de si. Quis intensificar aquele som inspirador: envolveu um deles com sua língua brincalhona, ao mesmo tempo em que estimulava sem trégua o pênis do ruivo. Este mordeu os lábios, procurando se conter obstinadamente. Suas unhas premiam-se nas costas largas do marido, machucando-o na proporção em que pelejava contra um deleitamento fugaz. Os dentes brancos de Milo cerraram-se, prendendo aquela carne frágil, causando frêmitos em Camus, que não pôde mais segurar um dolente gemido:
— Milooo... aaahn...
Crescia cada vez mais e mais na mão habilidosa do amante, retesando as coxas em franca agonia. O loiro considerou que era hora de abandonar os mamilos levemente mordidos e explorar as demais partes de seu amado. Começou pelos flancos, passando a seguir pela barriga plana, de onde desceu pelo ventre quase convulso...
— Milo... p-por favor... não hei de a-aguentar se tu...
Ora, se aquilo não ocultava uma doce súplica.
Enfim, não mais a mão de Milo, e sim sua boca abrigava o membro inchado e pulsante de Camus, que imediatamente agarrou os lençóis, respirando com dificuldade.
— AAAHH! Mi... Milo! N-não...
“Queres que eu pare?”, o conde cogitou indagar; preferiu, porém, intercalar fortes sugadas com suaves chupadas ora na base do falo entumecido, ora na ponta umedecida de saliva e pré gozo. Foi o bastante para o ruivo perder de vez o controle que arduamente tencionou manter; projetou os quadris contra a boca de Milo, no afã de sentir-se aspirado até a alma, até as entranhas. Tal movimento permitiu a Milo ganhar a entrada do ruivo com seu indicador. Forçou um pouco, atento à expressão de Camus, que, se denunciava o esperado incômodo da ação inicial, também deixava transparecer a tensa expectativa. Explorou a cavidade convulsa, preparando-o com carinho e paciência. Camus retribuía com gemidos que cuidavam de enrijecer ainda mais o órgão do esposo, latejante em idêntica expectativa. Simultaneamente à felação incansável com a qual era presenteado, o ponto de ignição do prazer do ruivo foi atingido. Trêmulo e gemente, arqueou-se ante o intenso orgasmo; sua seiva fluiu para a boca do amante, preocupado em não desperdiçar uma única gota.
— Milo... entra... e-entra em mim...
— Por que a pressa? O sol sequer saiu.
Ainda ofegante, Camus puxou-o para si, sorridente.
— Nem vai sair! Escuta como chove, creio até que seja granizo.
Sorrindo com tentadora malícia, Milo apontou, estreitando-o:
— Se não tem sol, não começou o dia. E se não começou o dia, não tem por que eu sair daqui...
— Inconsequente...
— Já que não quiseste festa de anos, faremos uma em nossos aposentos.
O conde não blefava. Após haver proporcionado deleite ao esposo, foi a vez de obter o seu. Que no final das contas, era de ambos; quando se ama profunda e verdadeiramente, o prazer de um conduz ao prazer do outro.
Camus ergueu as pernas para acima dos quadris de Milo, convidando-o sensualmente... o loiro penetrou-o sem maiores dificuldades, pois que o preparara com esmero... e também porque haviam se amado mais de uma vez durante a fria madrugada.
— Ahhh, Camus! És t-tão quente aqui dentro... tão sublime... eu... eu poderia morrer assim...
— Huum... n-não ouses morrer agora, senhor Milo D’Auvergne! Aliás... – Alcançou-lhe a boca com a sua, arfante em volúpia – não ouses morrer NUNCA.
Milo riu naqueles lábios úmidos e ardentes:
— Farei o possível, mas não garanto sucesso nessa empreitada...
— Tu podes tudo... – O ruivo agarrou-o pelos cabelos e pelos ombros, aprofundando o beijo. Projetou sua virilha contra a dele; percebendo-lhe a intenção, Milo estocou-o com mais vigor, aproveitando para tomar-lhe o falo entre os dedos longos. Estimulou-o na medida em que a cópula se exacerbava. Novamente atingiu em cheio a próstata do marido, agora com o pênis pulsante. Foi agarrado por desesperada efusão pelos braços e pernas do ruivo, simultaneamente às contrações em volta de seu membro, que lhe fizeram antever a proximidade de seu próprio clímax. Gozou nos domínios do amado, clamando-lhe o nome em meio a gemidos entrecortados. Sentiu a mão encharcar-se do morno sêmen do esposo; beijou-lhe docemente nos lábios, sendo correspondido com a languidez típica de quem foi laureado com sucessivos orgasmos.
Nos braços um do outro, entregaram-se ao sono.
No céu prateado, as nuvens principiavam a tingir-se de um tênue âmbar.
*************
O vapor claro ascendia ao teto de granito claro. Limitada por colunas marmóreas, a banheira de mesmo material era palco da continuação da “festa” que Milo prometera ao amado. Aquela sala de banhos, anexa ao quarto de dormir dos senhores do castelo, fora reformada quando da vinda do casal para Saint-Doulchard. Posteriormente, o soberano mandara vir de Andaluzia mui competentes construtores marroquinos e árabes, que ali imprimiram a herança de suas tradições tão eficazes na arte do conforto luxurioso; um sofisticado sistema de aquecimento por condutos mantinha quente a água em que os cônjuges desfrutavam de vinho, frutas e daquele íntimo contato. Camus estava posicionado de costas para Milo, aninhado entre as pernas abertas do loiro, momentaneamente absorto enquanto segurava um cálice já vazio.
— Que tens?
— Hum?
— Estás tão calado. Pensativo. – Observou Milo, passando seus lábios por sobre os ombros níveos.
Camus suspirou antes de admitir:
— De fato, estava a pensar.
— Encontrava-te bem longe daqui. Eu me pergunto onde...
— Encontrava-me há exatamente um ano de onde estou.
Foi a vez de Milo fazer “Hum?”.
— Pensava em como há um ano minha vida era tão diferente de como está agora. Parece que me situo em outra existência. – Mais que pensativo, parecia contemplativo.
Subitamente sério, o loiro limitou-se a ouvi-lo:
— Meu natalício foi comemorado da forma tradicional: banquete, baile, homenagens… meu pai não dispensava tais convenções. Rodeado de pessoas, sentia-me, no entanto, só. Danças, música, risos, fartura, tudo animava e aquecia os convivas... meu coração, porém, estava gelado como a neve que caía lá fora.
Milo pôs-se a acariciar-lhe as espáduas molhadas. Rememorou:
— Lembro-me de que meu pai mencionou a celebração de anos da primogênita do melhor amigo. Havia poucos meses que retornáramos da Cruzada, e nos deparamos com o triste quadro em que se encontrava minha mãe. Além disso, o Marquês de Toulose foi ao nosso castelo, para tratarmos de negócios de guerra: negociavam o envio de soldados do exército dos Auvergne para uma província dele, invadida por normandos. Por pouco não fui eu também para lá, a fim de comandar as tropas... foi quando A CARTA chegou.
Camus sabia a que ele se referia.
À carta de Filipe II.
A ordem do rei para que o primogênito dos Auvergne, parente distante seu, esposasse a primogênita dos Turenne, a família do homem mais poderoso de França.
— Imagino que tua reação tenha sido no mínimo tempestuosa...
— Não o nego. Tanto por ver-me obrigado a algo, quanto pela iminência de ser despojado de uma vida livre e relativamente despreocupada.
— Eu não o culpo. Deve ter sido difícil desfazer-se de tal liberdade... – Murmurou Camus, mordido por ciúmes. Não se fazia ignoto o passado licencioso do homem que tanto amava, sobre cuja imagem cingia-se a efígie do cavalheiro honrado e fiel.
Afagando os cabelos rubros do companheiro, Milo acrescentou:
— Havia outra razão para a minha renitência. Por mais que eu tenha sido esse desbriado dissoluto que essa tua cabecinha ruiva está a pintar, eu almejava casar-me por amor, e não por um mero acordo político.
— Sim, lembro-me de teres me contado isso.
— Bem, o bom Deus permitiu que a flecha do Cupido varasse-me o peito no primeiro instante em que te vi, em nosso esponsal.
— Em que viste “Camille”. – Corrigiu o esposo, em um tom involuntariamente amargurado.
— Não era Camille, eras TU. Camus SEMPRE esteve ali.
— Ao tomares consciência disso, encolerizaste-te.
— Naturalmente! Vi-me enganado por nossos pais, não é segredo para ti.
— Não. Pude sentir os efeitos de teu ressentimento, mais de uma vez.
Embora aquilo tivesse sido proferido sem mágoa aparente, Milo sentiu-se atingido pela seta do remorso. Enunciou com amargura:
— Jamais haverá desculpas suficientes para o que te fiz.
Virando-se abruptamente para ele, o ruivo tomou-lhe o rosto com as mãos molhadas e quentes. Fitando-o de modo febril e apaixonado, enunciou:
— Perdão! Não foi minha intenção reavivar mágoas ou deixar-te desconfortável! Ademais... como poderia eu te recriminar? Um homem como Milo D'Auvergne... belo, indômito, célebre por tão notáveis feitos e por seu brilho incomparável... condenado a contrair matrimônio com um varão!
— Mas não eras culpado por isso. Não eras culpado por NADA! E eu te tomei por culpado...
— Fui culpado, de certa forma... qualquer homem em meu lugar, condenado a tal destino humilhante... teria dado cabo da própria vida. Eu, porém, não tive coragem. Apiedava-me de minhas irmãs, de minhas tias, principalmente de meu pai, que, após tanto esforço, perderia de vez o...
— Cala-te! Por Deus, cala-te! – Rogou Milo, abraçando-o em um sôfrego ímpeto.
— Mi... Milo...
O conde afundou o rosto na curva do pescoço perfumado, contendo um pranto que ardia-lhe nas órbitas. A voz assertiva de seu pai e a sua própria, enfurecida, ecoaram em obscuras recordações:
“– E por isso... devo fazer parte dessa comédia insana?
— Milo, filho meu... eu nunca imaginaria que o rei ordenasse que eu casasse meu primogênito com ‘a primogênita’ do duque de Borgonha! Como poderia eu sabê-lo?
— Tu podes impedir essa infâmia, basta que recuses! Dizei vós, nobres farsantes e blasfemos, que ‘a graciosa Camille’ prefere ir para um convento, como o fazem as donzelas que se recusam a contrair matrimônio!
— Camus NÃO pode ir para um convento, ele seria descoberto! Imaginas o que aconteceria com o rapaz se fosse descoberto?
— Não é de minha conta! Merecia ser EXECUTADO por se fazer passar por mulher! É a maior baixeza de que já ouvi falar!”
(3)
Lágrimas acumulavam-se nas pálpebras meio cerradas; então foi a voz de Camus que emergiu do passado... Milo reviu-o, à sombra dos carvalhos dos jardins da luminosa Turenne, pétalas de flores presas às grossas tranças vermelhas e brilhantes, unidas em suas costas.
“– Por que te sujeitas a esta vida, Camus? Claro, vais dizer que foram ordens de teu pai...
— Que poderia eu fazer?
—FUGIR! Com mil demônios, eu fugiria!
— O herdeiro do mais poderoso exército de França está a confessar que fugiria como um rato?
— Não me provoques! O que é mais importante que a honra de um homem como tal... como macho?
— O amor dos seus! Eu não fugiria, por meu pai... por minhas irmãs...
— Tens mente de mulher...”
(4)
— Milo? – Camus chamou-o de novo, percebendo que pranteava em si.
— Dilacera-me a alma ouvir-te semelhantes coisas. – Declarou, com voz embargada, não conseguindo esconder as lágrimas que precipitaram-se sobre o esposo.
— Está bem. Perdoa-me...
— Não! Eu digo... não. Eis-me sendo egoísta mais uma vez. – Abrandou a voz, ainda amparado no outro. – Não ocultes nada de mim. Não sufoques as melúrias de teu coração. Não em prol de minha paz, pois esta não existe sem a tua. Eu... eu só espero que não te sintas mais assim. Mas se sentires...
Um beijo terno pousou em sua fronte. Fitando-o amorosamente, Camus assegurou:
— Agora que possuo a ventura de ser amado por ti, é absolutamente impossível que me sinta “assim”.
— Camus!!!
Atirou-se a ele, tomando-lhe os lábios escarlates com destemperada avidez.
Tão logo recuperaram o fôlego após aquele beijo urgente e reparador, Milo esticou o braço para pegar a jarra de vinho e os cálices, deixados sobre uma bancada de marfim sobre ouro, ao lado da banheira. Segurando um dos cálices, Camus permitiu que ele o servisse.
— Também tu foste assolado por um tormento atroz ao saber que terias que te unir a um homem. – Comentou Milo.
— Com efeito. Meu pai havia conseguido me manter a salvo do matrimônio, declinando das mais variadas propostas que recebera através dos anos...
— Até do Duque de Benacantil, não? (5)
O ruivo mirou-o, surpreso.
— Soube quando estive no castelo daquela raposa matreira, em Valência. Deus, ele é mais rico que nossos pais e o rei juntos – Riu o conde.
— Por aí podes entender por que tinham meu pai como um excêntrico ciumento da filha... todavia, veio a carta do monarca...
— Por uma suprema graça de Deus, quis o larápio que o filho de um primo de segundo grau, que ainda não casara o primogênito, fosse o afortunado a arrebatar “a joia dos Turenne”.
— Ele ainda espera obter alguma vantagem nisso, não?
Milo deu de ombros. Elucidou, pretensamente desinteressado:
— O que Filipe faz é como estocar mantimentos para o inverno: talvez não faça uso de todos, e, aliás, é bem possível que não faça... mas saber que estão ali, bem guardados, é tranquilizador.
— Ter “a herdeira” dos Turenne na família é um trunfo de que ele espera se servir, caso seja necessário. E... quando seria necessário?
— Provavelmente em um período de crise. Em uma guerra. Em uma retomada de influências: por exemplo, a Igreja volta a ascender neste sentido, tem-se percebido. Na pior das hipóteses...
— Se ELE QUISER.
Virando as últimas gotas de vinho, o cavaleiro encarou-o, concordando apenas mentalmente. Ponderou:
— Filipe sabe que, efetivamente, Teobald detém mais prestígio que ele. A Borgonha é praticamente um reino independente. Lembra-te de que soberanos há de reinos vizinhos que consideram antes o teu pai, quando de acordos e alianças.
— Estamos nos referindo tanto a meu pai que recordo-me também da conversa que tiveste com meu padrinho... – Camus trouxe à baila um assunto sobre o qual planejava tratar somente às vésperas do enlace matrimonial da irmã.
Milo serviu-se de mais vinho, sem olvidar a taça do companheiro, que demonstrava certa apreensão. Só de ver o amado mudar da fisionomia plácida para aquela, o loiro teve raiva do sogro.
— Meu pai considerou, com razão, arriscado que enviássemos uma carta informando ao duque acerca da consumação de nosso casamento. Se caísse em mãos indiscretas, tal mensagem causaria estranheza. E estranheza suscita desconfiança, foram as palavras de meu pai. Será inviável participar-lhe a verdade absoluta senão pessoalmente.
Depositando o cálice vazio no anteparo, o ruivo cruzou os braços, as longas mechas flutuando na água.
— Fico a imaginar a reação de meu pai quando ficar a par de que nós... verdadeiramente... bem, ele não estava alheio ao fato de que eu já te devotava afeto no dia de nossas bodas... – Camus evocou os minutos que precederam sua entrada na Catedral de Turenne, braços dados com Teobald II.
“– Eu o amo.
— Eu já sabia disso.
— Não me odiais?
—Odiar-te-ei se não tomares cuidado.
— Tomarei, senhor meu pai.
— Ele também te ama.
— Co... como sabeis?
—Henri contou-me.”
(6)
Na ocasião, não acreditara em uma só palavra que fora proferida por seu pai.
E a consciência daquele amor mútuo, se já se fazia dolorosa para o velho nobre, que diria da ciência de que seu filho e o genro amavam-se também carnalmente? Teobald II na certa jamais esperaria que aquele “insólito sentimento” pudesse vir a se concretizar.
E haveria Haute-Loire, o lar da concubina e de seus filhos, loiros, rosados, rechonchudos...
— Eu poderia propor que ocultássemos os pormenores de nossa vida conjugal. Não obstante, ao saber que tu ainda não possuis a tua... família clandestina, da qual teria que sair o herdeiro dos Turenne... ele há de inferir sobre nós.
— Não quero que Teobald “infira” a nosso respeito. Eu mesmo cuidarei de contar a ele.
— Milo... espera...
— Camus, ele saberá de toda a verdade. E, conforme disse a meu pai, se ele ousar investir contra ti, não me limitarei a brandir minha espada para ele!
— Tal declaração causa-me mal estar. – Confessou o ruivo, pesaroso. O cavaleiro apressou-se em explicar-se:
— Não me recrimines, anjo meu! Eu não suportaria ver-te outra vez agredido por teu pai! Se àquela época, na qual eu tentava ardentemente te odiar foi-me revoltante presenciar tal covardia, imagina hoje, que te amo com todo meu ser!
Puxava-o para si ao falar, beijou-lhe as espáduas lisas. Camus abandonou-se àquele contato carinhoso, mas não se privou de argumentar:
— Não te recrimino, pois sei que tal indignação é proveniente de teu instinto protetor. Porém, lembra-te de que ele é meu pai, Palavras hostis a ele direcionadas ferem a mim, primeiramente. Meu pai procedeu com severidade... talvez até com intransigência. Mesmo assim, devo-lhe respeito. E a minha vida.
Reconhecendo a pertinência daquele discurso, o conde ergueu as mãos, dramático, em uma contrafeita concordância:
— Está bem, está bem, não falarei mais dessa forma sobre o velho hipócrita... – Recebeu um olhar gélido e reprovador. – Certo. Perdoa-me. Esforçar-me-ei em não fazer declarações desse teor acerca de Teobald. Mas eu ainda acho que o meu magnânimo sogro aprontará uma das suas, ante a revelação de que somos amantes.
Afastando-se para encará-lo com toda gravidade de que prescindia a solicitação, o ruivo apresentou:
— É justamente por isso que penso que o casamento de Marin e Aiolia não é o melhor momento para revelar isso a ele.
Boquiaberto, o loiro não escondeu o estupor:
— Que queres dizer? Não me digas que... não me digas que pretendes fazer disto um SEGREDO para o duque!
— Ao menos por ora, Milo. – E, vendo que o esposo já abria a boca para contestá-lo, apressou-se em se justificar – É o casamento de nossos irmãos! Nós não podemos ameaçar a paz de tão auspicioso evento!
— “Nós”? Então seremos NÓS a “ameaçar a paz” da festividade?
— Creio que entendeste perfeitamente meu ponto.
Milo tornou-se amuado, considerando-lhe a colocação. Não lhe agradava esconder do sogro a real tônica do matrimônio que mantinha com o filho do mesmo. Contudo, urgia que o bem estar de Camus viesse antes do seu, era o que lhe ordenava o coração. Camus já sofrera tanto! Havia prometido a si mesmo que o amado nunca mais sofreria novamente, não havia? Se contar toda a verdade ao duque de Borgonha causasse angústia ao ruivo, neste caso ele abriria mão de o fazer.
— Estou de acordo, Camus. Acredito que seja imperioso que apresentemos os fatos ao senhor duque, tais como eles são. No entanto, que seja em outra ocasião. Preservemos a atmosfera festiva da união de nossos queridos irmãos.
Um aliviado sorriso de agradecimento do amado coroou sua custosa renúncia. Graciosamente, Camus deslizou na água até depositar um suave beijo nos lábios do marido.
— Obrigado por compreender.
— Bem, será que agora podemos voltar à comemoração de teu dia de anos? – Indagou, enlaçando-o com os braços fortes.
A resposta do aniversariante foi um novo sorriso, desta vez bem provocante... e deveras promissor...
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Lá estava ele. Tal qual estivera há mais de dois séculos, emergindo por sobre a bruma das vastas planícies, o imponente castelo de Turenne. O céu argênteo tão típico de abril iluminava-se em determinados pontos, como se o sol estivesse forçando sua majestosa aparição. Pela janela da luxuosa carruagem, Camus viu que outras comitivas rumavam para a fortificação. Viva emoção invadia-o, ante a aproximação de seu lar original, de sua terra querida. Era-lhe amada, afinal, a despeito de ali ter amargado uma existência cinzenta como a paisagem diante de seus olhos acastanhados.
Sim, uma existência cinzenta, cativa, oprimida, estéril.
Uma prisão detrás da persona de outrem.
Até que Milo apareceu em sua vida.
Como o sol que agora ganhava passagem por entre as nuvens escuras.
A mão do esposo estreitou-se na sua, repleta de anéis preciosos. Para ele tornou seu rosto sereno... no qual Milo foi, contudo, capaz de vislumbrar uma sombra de apreensão. Notava que Camus dissimulava-a. Não quis trazer tal percepção à tona; muito em breve estariam descendo do veículo diante de dezenas de pessoas.
— Estás simplesmente fabuloso, Camus. – Assim tratou-o, pois que iam sós na aconchegante cabine, e expressava-se em voz baixa. – Homem ou mulher, não haverá criatura capaz de fazer-lhe frente nessa celebração.
— Tu de igual modo estás maravilhoso, senhor meu marido...
Miraram-se apaixonadamente, a incidência dourada do vencedor do firmamento iluminando seus semblantes plenos de cumplicidade. Diminuíram a distância entre seus lábios, tocando-se de forma lenta e delicada.
Logo pisariam onde tudo, tudo começou...
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