Dame Jolie
40 Entrega e Rendição
Notas iniciais
A carruagem dos condes de Saint-Doulchard atravessou a larga ponte sobre o fosso do esplendoroso castelo de Turenne. Já do pórtico avistava-se a pequena multidão de recém chegados e dos que os recepcionavam. A despeito da névoa que a tudo embaçava, percebia-se, mediante promissoras refulgências douradas no firmamento cinzento, que o tempo manter-se-ia firme, o que favorecia a que o evento fosse um sucesso.
A atenção dispensada a tantos nobres que diante do palácio aportavam acabou por se deslocar para o veículo que ali parava, devido aos murmúrios de “é a ilustre Camille de Turenne! A primogênita do duque de Borgonha!”
Todos interromperam o que faziam para testemunhar o surgimento da mítica jovem, e de seu não menos notório consorte, o mais bravo cavaleiro de que se tinha notícia. Servos pousaram bagagens no chão, damas e cavalheiros voltaram-se para a porta entalhada em ouro que se abria, e o Duque de Borgonha em pessoa acorria ao local, seguido de familiares, vassalos e assessores.
O primeiro a descer da cabine foi Milo D’Auvergne, agora Conde de Saint-Doulchard, trajando uma túnica púrpura com pedrarias no peito e nas extremidades; vestia uma justa calça cobalto, e os canos altos das vistosas botas de couro lustroso subiam-lhes até os joelhos. Trazia os longos cabelos loiros soltos, suavemente anelados até a cintura. Cochichava-se “Vê-se que o casamento fez-lhe bem, ele, que demonstrava aborrecimento à ocasião!”, e conteúdos similares, tão garboso se fazia diante dos olhares admirativos.
Em seguida, foi a vez de “Camille” deixar o recôndito da carruagem: auxiliada pelo esposo, e não por um criado, “ela” surgiu diante de todos, causando estupefação. Uma rainha não “a” suplantaria em luxo e elegância! “A bela dama” vestia um magnífico vestido de veludo vermelho escuro, com detalhes dourados nas mangas, no colo e nos entrelaçados frontais. Trazia no pescoço vistosas joias de ouro e rubis que circundavam a faixa de veludo carmesim. Os cabelos rubros tinham as mechas laterais trançadas por trás da sedosa e farta franja, e o restante da cabeleira descia por seu torso elegante, ultrapassando muito a cintura delgada.
— Por Deus, se não é o mais belo casal que caminha por sobre a terra de Nosso Senhor! – Exclamou a noiva, quebrando o protocolo ao deixar seu posto e avançar através da paralisada aglomeração. Eufórica, lançou-se “à irmã mais velha”, rindo feliz.
— Logo arrebatar-nos-ão esse título, minha amada Marin, tu e o valoroso Aiolia. – Camus sorriu, abraçando afetuosamente a menina. – Céus, tu cresceste! Como estás bela...
— CAMIIIIILLEEEE! – Emergindo da multidão surgiu também a caçula, em disparada rumo “às duas”.
— Seika, minha pequena! – Exultou-se “a mais velha”, quase se desequilibrando com o salto da menor sobre si. – Uff! Alto lá, que já não estás tão pequena assim, de perto bem o vejo!
Milo ria, admirando a cena. Ver Camus sorrir sempre acariciava-lhe a alma. De igual maneira, contemplava-a o duque, até que suas cunhadas dele se aproximaram, e cochicharam, cada qual em um de seus ouvidos:
— Vede no que resultou a liberdade que dai a essas meninas! Comportam-se como camponesas afoitas!
— Que dirão os convidados acerca das filhas do mais renomado nobre de França?
— Ora, calai-vos, hoje é dia de festa – Retrucou, de bom humor. – As pequenas estão felizes, deixai-as. Há muito não se veem e, em breve, separar-se-ão para sempre, cada qual para seu canto.
Eis que, abrindo caminho entre os que testemunhavam o alegre reencontro, surgiu uma figura cuja face ocultava-se por detrás de um véu branco, quase do mesmo comprimento do longo e austero vestido negro. Adorno nenhum trazia em sua indumentária, o que a identificava prontamente como uma mulher a serviço de Deus. Uma noviça... aproximou-se “das três jovens” que festejavam, e enunciou, em tom jovial:
— Concederíeis a esta serva de Deus tomar parte dessa álacre celebração?
Reconhecendo-lhe a voz, Camus teve um breve sobressalto. Deteve-se, com as irmãs agarradas a si, e indagou, sem esconder a surpresa:
— Hilda?
Mãos pequenas e brancas removeram parte do véu que cobria o belíssimo rosto; os olhos azuis cintilaram como safiras sob as chamas dos círios.
— Sim, minha estimada Camille, sou eu.
— Mas... como? – O ruivo a encarava, perplexo pela presença da irmã que caíra em desgraça, um ano antes. Marin puxou-lhe pela manga do vestido, ganhando a atenção que queria para explicar:
— Eu pedi a papai que mandasse trazê-la para o meu casamento. Não poderia deixar que Hilda estivesse ausente de minhas bodas, poderia?
— Não... não poderia. Foste generosa, querida Marin. Orgulho-me de ti. – Murmurou Camus, lisonjeando a menina. No entanto, achava-se incerto sobre como se sentir. Igualmente surpreso, Milo considerava a inesperada aparição.
— Permite que eu te abrace também, irmã Camille?
Marin e Seika largaram os braços do jovem, dando-lhe espaço para que recebesse a outra.
— Mas é claro que sim, minha querida Hilda.
A loira lançou-se com ímpeto ao rapaz, sendo por ele acolhida, enquanto cingia-lhe pela cintura e o beijava nas faces.
— Tive tantas saudades de ti, Camille! Sempre oro por ti no convento... oh, como Deus é bom por permitir que nos reencontremos, como Deus é bom! – Exclamava, as lágrimas vertendo livres pelas faces alvas.
Sendo o temperamento da primogênita conhecido pela “frieza”, não lhe estranharam o semblante inexpressivo. Por mais que Camus estivesse sinceramente aliviado em vê-la bem e saudável, não estava bem seguro daquela... mudança. Fora toda uma vida de intrigas, ciúmes, hostilidades. Hilda JAMAIS dera mostras de apreciá-lo. E depois de tudo que fizera para prejudicar seu noivado com Milo...
Não.
Estava sendo mesquinho.
Não deveria se entregar a tais lembranças. Era enfim feliz. E nada mais tinha a temer ou a lamentar.
Teobald II aproximou-se dos filhos e do genro.
— Não pude deixar de atender ao pedido de Marin. Sabeis como é astuta, essa raposinha; cobrou-me a presença de Hilda como parte de seu presente de casamento. – Elucidou, surpreendentemente risonho. – Não tive saída a não ser enviar Agnes e Emilie com uma carta de requerimento minha à Madre Superiora, bem como uma boa soma como compensação por tirá-la do convento por um tempo.
— Fico feliz que tenhais acatado a solicitação de Marin, senhor meu pai. Legastes a ela vossa generosidade, por certo. – Malgrado a neutralidade do tom, Camus não prescindia de sinceridade.
Assentindo, o aristocrata considerou o filho.
— Estás formosa como nunca, minha filha. A vida de casada tem feito muito bem a ti, pelo visto.
Temendo ruborizar, Camus respondeu, o mais serenamente possível:
— Agradeço vossas palavras, senhor meu pai. Devo dizer que, com efeito, meu esposo e eu somos bem aventurados, assim como o desejáveis.
O duque deu um sorriso aparentemente satisfeito. O ruivo perguntava-se se o pai havia inferido que ele vivesse com Milo uma harmonia puramente fraternal. Teobald II voltou-se para o genro:
—Sê bem vindo a Turenne, Milo D’Auvergne, Conde de Saint-Doulchard.
— Alteza – Fez uma respeitosa reverência diante do sogro. – É com inaudito gáudio que aos vossos domínios retorno.
— Agora falemos com nosso cunhado, Seika, Hilda! – Marin conclamou, tomando-as pelas mãos.
Milo cumprimentou alegremente Marin e Seika. Ao chegar a vez de cumprimentar Hilda, não percebeu nos olhos da moça qualquer resquício do antigo brilho de malícia, o que o tranquilizou.
— Como tens passado, estimada cunhada?
— Bem, com as graças da Imaculada Mãe de Cristo, senhor meu cunhado. – Meneou a cabeça com modesta graça. – Felicito-me em constatar que sois abençoados em vosso matrimônio, vós e minha amada irmã.
— Deveras... fui grandemente abençoado por Nosso Senhor. – Ele concordou, cedendo a um suave sorriso.
Marin apontou, quase aos pulos, para o grande pórtico, de onde se avistava grande movimentação.
— Senhor meu pai, creio que é a comitiva de meu noivo que se aproxima! – Avisou, entusiasmada. As tias vieram puxar-lhes as orelhas.
— Contém-te, menina! Procede com temperança, não com a avidez de uma harpia que avista um roedor! – Ralhou Agnes.
— Espelha-te em Camille, pequena matreira, ela sim portou-se com modéstia e distinção dignas de uma autêntica Turenne! – Admoestou Emilie.
— Ai, ai, que sois vós que estais a proceder como harpias sobre as presas, no caso, minhas pobres orelhas! Papai, acudi-me!
A cena arrancou risadas dos espectadores e um balançar de cabeça desaprovador do duque, que resmungou:
— Deixai-a, de agora em diante, será o marido quem a educará... Deus seja louvado!
— Ela ainda NÃO está casada, sois o responsável até o momento em que a entregardes ao senhor Aiolia! – Replicaram as duas quase em uníssono.
Teobald fez o costumeiro gesto de espantar moscas, frequente quando debatia com as cunhadas.
— Calai-vos, que os Auvergne se aproximam. Matar-me-ão de vergonha, é o que desejais?
As tias soltaram as orelhas da sobrinha, vermelhas como os rubis dos brincos que dos lóbulos magoados pendiam.
Com efeito, a julgar pela quantidade de soldados a escoltar as quatro carruagens que chegavam, tratava-se da comitiva de Auvergne.
— Conde Henri D’Auvergne, que satisfação em rever-te. – Teobald II saudou-o, prontamente lembrando-se de lhe dar também os pêsames pela perda da esposa. – Recebi a notícia do falecimento da senhora Condessa D’Auvergne. Espero que tenha recebido minha carta de condolências...
— Recebi-a como um grande alento, caro amigo. Fico imensamente grato por tua consideração. Creio que o que celebraremos amanhã há de alegrar Sophie no céu. – Henri respondeu, sorrindo amável.
— Como tens passado, meu pai?
— Sendo consolado por Deus a cada dia que passa, Milo. Camille! Como estás esplêndida, minha estimada nora...
Assim corriam os cumprimentos e saudações. Até que cornetas com flâmulas soaram. Um criado vestido com cores vibrantes anunciou:
—Turenne e seus convidados saúdam o senhor Aiolia D’Auvergne, noivo da senhora Marin de Turenne!
Só então o caçula de Henri adiantou-se, como se estivesse à espera daquele anúncio. Os cabelos encaracolados e loiros haviam sido cortados mas permaneciam volumosos, de modo que parecia trazer uma auréola dourada na cabeça. Vestia uma túnica verde clara com intrincados bordados a ouro, por sobre uma calça clara de veludo. Botas encarnadas ascendiam-lhes as pernas robustas até as rótulas. Acenou simpático para os presentes. Ao dar com os olhos esverdeados sobre a noiva, abriu um largo sorriso de puro marfim. Metida em um vestido amarelo claro delicadamente acinturado, Marin aguardou por sua aproximação. Uniu as mãos à frente do corpo flexível e já bem moldado de moça, os colares de ouro e rubis brilhando quase tanto quanto seus grandes olhos castanhos. Seus cabelos ruivos e ondulados há tempos passaram-lhes as espáduas, quedando-se rumo à metade das costas. Ela estava muito mais bela do que quando a conhecera, pensou Aiolia, enchendo-se de júbilo. À adolescente o rapaz também agradara mais do que da última vez em que nele pousara o olhar.
Vendo os dois encarando-se tão apaixonadamente, Camus não pôde de rememorar o dia em que Milo viera a Turenne para as bodas. Sentiu a mão dele apertar-se na sua, e tornou o olhar doce para o consorte. O cavaleiro fitou-o com indisfarçável paixão.
Aquele gesto inconsciente foi prontamente captado por um intrigado Duque de Borgonha.
Notando o olhar do pai sobre si, Camus fez-se inexpressivo. Voltou a observar os noivos. Percebendo a mudança no semblante do ruivo, Milo deu-se conta de que eram observados pelo sogro. Assumiu uma falsa sisudez, e tornou o rosto para o que todos presenciavam.
Confuso, Teobald II virou-se para Henri, que tinha um sorriso divertido nos lábios. Franziu o cenho, desconfiado. Decidiu, por fim, ocupar-se de sua filha Marin e do futuro genro. Sob a mira de tantos espectadores, não seria de bom tom estampar preocupações de espécie alguma.
— Sê bem vindo ao Castelo de Turenne, valoroso Aiolia D’Auvergne.
— Agradeço-vos a honrosa recepção, senhor Duque de Borgonha. – Fez uma respeitosa mesura. Então viu-se de frente à jovem. – Senhora minha noiva, meu coração regozija-se em ver-vos após tão longo e torturante período.
— Senhor meu noivo... – Segurando as saias, ela fez uma graciosa reverência. – Espero que a vossa viagem até estas paragens tenha transcorrido com tranquilidade.
— Sim, à parte de uns desarranjos que tive pelo caminho, e que devem ter-me levado metade do peso, foi tudo tranquilo.
Gargalhadas explodiram àquela declaração. Teobald arregalou os olhos, e Henri abanou a cabeça como quem não se surpreende nem um pouco.
— Esse meu irmão não muda nunca! – Milo bateu a palma na própria testa. – Sempre diz tudo que lhe vem à mente.
— É uma pessoa assaz sincera, bem o vejo eu. – Riu-se Camus.
— Quando a sinceridade compromete a diplomacia, deixa de ser uma qualidade, a meu ver.
— Admiro quem pode mostrar-se ao mundo da maneira que é.
— A julgar pelo rubor que vejo no rosto de teu pai, depreendo que ele não pensa como tu.
Marin mostrou-se preocupada:
—Oh, eu lamento por vosso mal estar, senhor Aiolia. Creio que após repousardes estareis em melhores condições para desfrutardes dos festins de hoje.
Ele sorriu, galante:
—Contemplar vosso formoso rosto, fresco e mimoso como a pétala orvalhada da rosa ao romper da aurora, já efetua sobre minha pessoa notável melhora, senhora minha noiva...
Ao pé do ouvido do marido, Camus sussurrou, maroto:
— Invejo Marin. Ele é bem mais eloquente do que tu o foste quando de nosso enlace, senhor meu esposo.
— Confessa, pegarias no sono se eu te dissesse semelhantes galantarias.
— Ou atiraria um pão em tua cabeça.
— Ou pior, um peixe. (1)
Eles riram, cúmplices de seus chistes, até perceberem que, novamente, eram alvos do olhar perscrutador de Teobald II.
— Teu pai não para de nos olhar como uma ave de rapina. Que molesto! – Resmungou o loiro, entre dentes.
— Crês que ele desconfia de nós?
“Evidentemente.”, foi o que Milo quase respondeu. Contudo, não quis tirar a paz do amado, de modo que optou por mentir:
— Não, não o creio. Decerto é apenas impressão nossa. Coincidentemente, nossos olhares sempre se cruzam, há de ser apenas isto.
— Deus queira que estejas certo.
“É, mas a verdade é que esse velho coscuvilheiro está a deduzir a real ligação entre mim e Camus.”, pensou o cavaleiro, já agastado com aquela situação. (2)
Outros convidados chegavam. Não parariam de chegar, até o dia seguinte. Tanto esses quanto os condes de Saint-Doulchard e os Auvergne foram conduzidos até o interior da residência palaciana. Deveriam ser instalados e descansar para a celebração, que teria início à hora terça daquela tarde. Guiados por criados, dirigir-se-iam aos respectivos aposentos, os quais suplantavam as duas centenas. Enquanto atravessavam o salão ovalado que dava acesso às escadarias, Marin e Seika interpelaram a mais velha:
— Irmã Camille, estás muito cansada?
— Um pouco, pequena Seika. Por que perguntas?
— Ia sugerir-te que fôssemos ao jardim colher mirtilos, como nos velhos tempos! Tem uma família de coelhos vivendo lá, sabia?
—É mesmo? E eles deixam algum mirtilo para vós?
— Eles preferem framboesas. – Esclareceu Marin.
— Duvido que tenham quaisquer restrições com este frio...
— Podemos brincar de “fadas da floresta”! Lembra-te como era, Camille?
— Como haveria de me esquecer? Vós realmente parecíeis encantadas... sempre escapáveis de mim como grilos do mato.
As crianças gargalharam, empolgadas. Os homens, que vinham atrás delas, não deixaram de sorrir ante aquela cena.
— Está decidido! – Marin ergueu o braço, resoluta. – Partamos para o jardim!
— Sim! Partamos já! – Ajuntou Seika, já se preparando para puxar Camus pela manga do vestido.
— Vós partireis, sim, sabeis para onde? – Fez Agnes, postando-se firme perante o animado grupinho.
— Permite que eu responda, minha irmã – E Emilie pôs as mãos nas cadeiras, caprichando na entonação autoritária – Para os vossos QUARTOS!
— Isso mesmo, até a hora em que todas forem chamadas para descer. Tem graça! A noiva, catando mirtilos, esgueirando-se na terra atrás de coelhos, e correndo como um fedelho qualquer!
As crianças fizeram um muxoxo comovente. Camus sabia, porém, que as tias tinham razão. Disse às pequenas, com doçura:
—Nossas tias estão certas, preciosas. Se brincarmos no jardim, acabaremos por sujar nossos trajes, e já estamos preparadas para os festejos que hão de iniciar em poucas horas. Tanto mais tu, Marin, que és a noiva...
Agnes bateu palmas em um gesto afetado, e ergueu as mãos para o alto.
— Deus seja louvado! Que milagre é esse que Camille, a rebelde, está a concordar conosco?
— Não se trata de milagre, antes de amadurecimento, minhas tias. – Falou o jovem, sorrindo.
— Podereis brincar em um outro dia. E nesse dia, juntar-me-ei aos vossos folguedos, que dizeis? – Hilda tencionou ajudar as senhoras.
Teve seu efeito:
—Verdade, irmã Hilda?!? – Indagaram Marin e Seika, a uma só voz.
Com expressão gentil, a noviça assentiu. Camus considerou-a... ela realmente parecia diferente... bom, um ano enclausurada havia de ter conduzido a jovem a uma profunda transformação.
Já em seu reservado, em um dos mais altos pavimentos da fortificação, partilhou com o marido de sua impressão. Milo escutava-o, ao mesmo tempo em que se estirava, displicente, sobre um divã romano ricamente estofado. Lançou ao amado um olhar nada convencido. Perspicaz, Camus percebeu:
— Não acreditas que ela esteja mudada, não é?
— Não. Mas isso pouco se me dá; ela não permanecerá muito tempo entre nós.
— Que queres dizer?
— Ora, internas de conventos não podem se ausentar demasiado do claustro. Conquanto teu pai tenha sido generoso para com a Ordem, Hilda terá que para lá retornar, tão logo se concluam os ritos matrimoniais de Aiolia e Marin. Portanto, desde que tu mantenhas cautelosa distância de tua irmã, não creio que ela nos ofereça qualquer transtorno.
— Tuas palavras são pertinentes. – O ruivo concordou, quase constrangido em fazê-lo. Cruzou os braços e foi postar-se diante da alta janela ogival. Um tímido sol aventurava-se acima das nuvens bicolores.
— Proferi algo impróprio? – Milo quis saber, vendo o marido subitamente amuado.
— Estou apenas a contemplar Turenne. É diferente de Saint-Doulchard. Tão plana, ampla, aberta... não parece conter segredos em suas paisagens vivas, luminosas. Vê-se uma claridade distinta...
— Desgostas de nosso lar?
—Como eu desgostaria do lugar onde enfim conheci a felicidade?
Abrindo um sorriso misto de alívio e alegria, Milo avançou para ele, agarrando-o por trás. Camus teve um sobressalto, ao sentir-se preso pelos fortes braços do loiro.
— Que estás a fazer?!? – Indagou, ao perceber sob as saias o toque malicioso das mãos quentes do esposo.
— Expulsando esse inoportuno langor que ousa apossar-se de ti.
— Milo, por favor! Não é adequado, nós estamos em... em... aahn...
O conde mordiscava-lhe sensualmente o lóbulo da orelha, acariciando partes que neutralizavam qualquer resistência por parte de Camus.
— Mi... Milo... a porta...
— Trancada.
— O... ban... banquete... e-em algumas ho... ho... oooh...
— Eu só tenho fome de ti... – Murmurava, passeando a boca ávida pelo contorno do rosto empoado. – ... fome de teu corpo... e sede de tua seiva...
— Milo... és... aahn...
— Um devasso, é isso que sou...?
Virando-se para ele, o ruivo colou seus lábios aos lábios do cavaleiro, nos quais respondeu, lânguido:
— ... és o homem que eu amo...
— Camus! – Exclamou, sem mais poder se conter.
Sequer chegaram ao leito. Amaram-se ali mesmo; Milo possuiu o consorte imprensado contra a parede de pedra, sustentando-lhe as pernas com toda a força que sua volúpia potencializava.
*************
No maior dos aposentos do penúltimo pavimento do castelo, Henri D’Auvergne falava a alguns criados, dando-lhes as últimas orientações sobre seus pertences e os presentes de casamento, que estavam sendo ainda transportados. Viu o proprietário da fortaleza em que se encontrava adentrar o apartamento; Teobald apenas o cumprimentou com um menear de cabeça, e esperou que o conde dispensasse os serviçais para que pudessem falar a sós.
Compreendendo-lhe o esperado, Henri assim o fez, cuidando de fechar com o trinco a pesada porta de madeira.
— A que devo a honra da visita do futuro sogro de meu filho caçula? – Perguntou, apontando para a mesa no centro do recinto guarnecido de ricas tapeçarias e suntuoso mobiliário. O duque tomou assento em uma das cadeiras estofadas de veludo vermelho. Henri seguiu-o, prontamente vertendo vinho nos cálices dispostos sobre a superfície marmórea.
— Sei que na hora do banquete não poderemos conversar à vontade, como se faz necessário, tendo em vista que és meu real e único confidente nesta vida. – Apresentou Teobald, servindo-se da encorpada bebida. – Espero não estar incorrendo em uma inconveniência... viajaste por dias, hás de estar cansado e, por certo, desejoso de um pouco de repouso antes do...
— Qual, repouso! Sou eu algum velho, por acaso?
Teobald deixou escapar um riso enternecido.
— Não. Com efeito, não o és. Ao contrário, logras a façanha de estampar ainda mais louçania do que da última vez em que te vi. Creio que descobriste a fonte da juventude eterna em tuas andanças pelo mundo, e estás a ocultar o segredo...
— Creio antes que o frescor de minhas feições seja o reflexo da ventura que é encontrar-me em tua presença.
O duque desviou o olhar, já corando pelo que acabara de escutar. Decidiu mudar o tópico da conversação:
—Não tivemos a oportunidade de nos falarmos após a triste partida de Sophie. Como te sentes?
Entrelaçando os dedos ao redor da haste da taça, o conde suspirou, antes de responder:
— Devo admitir que aliviado. Ela estava a sofrer havia mais de ano. O padecimento crônico daqueles que amamos não é algo fácil com que se lidar.
— Então... admites que a amavas... – Quis saber, estranhamente pesaroso.
— Mas é claro que eu a amava. Sophie deu-me três filhos, que Deus tenha meu querido Aiolos. Foi notável companheira, amiga prestimosa, exímia administradora...
— Queres dizer que tu a amaste como eu amei Maude.
Os olhos azuis de Henri cravaram-se severos nos acinzentados do amigo.
— Sabes que não. Já me fiz claro acerca do relacionamento que eu e Sophie mantivemos. Possuía teor assaz diferente do verificado em teu casamento, contudo, nem por isso inferior.
Ligeiramente constrangido, Teobald defendeu-se:
— Claro que não, e tampouco eu sugeri isso. Perdoa-me se dei essa impressão.
Calaram-se por alguns instantes. Raios de sol bateram em cheio em uma antiga armadura reluzente. O pai de Camus tomou coragem para perguntar:
— Lembro-me de que mencionaste uma insólita intenção por ti acalentada... tão logo ficasses viúvo, retirar-te-ias da França e irias viver na Grécia. Ainda o intencionas?
— Alguma razão específica para tal questionamento?
— Além da amizade de que partilhamos?
Henri respirou fundo. Confirmou, em tom neutro:
— Sim, eu pretendo ir para Trínia, ilha que ganhei por meus serviços militares, conforme te confidenciei há cerca de um ano.
— Eu não posso acreditar nisso. Deixarias TUDO para trás, para te encerrares a uma vida estoica de pastor de ovelhas?
— Produtor de azeite. E de vinho. – Riu o conde, divertido. – Tua memória deixa a desejar, meu caro.
— Nunca se ouviu nada semelhante! Um aristocrata como tu, abandonar tudo...
— Tudo o QUÊ, Teobald? – Interrompeu, não sem certa veemência. – Minha mulher é falecida. Meu primogênito é falecido. Milo estabeleceu-se como governante de Saint-Doulchard. Amanhã Aiolia estará casado com Marin. Cumpri todas minhas missões. Estamos em tempos de paz, é o momento propício para me exilar. Já lutei todas batalhas. Não estou a “abandonar” nada.
“E quanto a MIM?”, o duque teve ganas de perguntar. Contudo, poderia ser mal interpretado... bem, antes de qualquer coisa, eram AMIGOS, não eram? Confidentes. “Mais chegados que irmãos”, segundo a expressão bíblica, tanto mais porque seu verdadeiro irmão na verdade o odiava, bem sabia.
— Acaso sondas a respeito de minha decisão por teres TU decidido algo sobre ela?
Teobald estremeceu.
Henri LEMBRAVA-SE do que propusera... uma total sandice!
— De forma alguma. – Respondeu, categórico.
— Compreendo. – Murmurou o conde, servindo-se de mais vinho.
— Quando partirás?
—Não é coisa para agora, deves imaginar. Preciso deixar todos assuntos resolvidos... testamentos, inventários, cessões, concessões, alianças... pode ser que até fins de agosto eu esteja, enfim, livre para partir.
— Auvergne deixarás para Aiolia…
— Sim, ele e tua filha lá já estarão estabelecidos. Milo radicou-se em Saint-Doulchard. As demais propriedades, reparti-las-ei entre meus filhos e netos. Desejo também presentear teus filhos: penso em deixar o castelo de Haute-Loire para Camus, e o castelo de Corrèze para Marin.
— Haute-Loire – Teobald repetiu, distraidamente. – Não é onde Milo constituirá a família clandestina que propiciar-lhe-á os herdeiros?
— Sim, SERIA lá o lugar...
— “Seria”...?
Henri emudeceu, semicerrando os olhos. Não queria ser ele a comunicar a verdade ao amigo. Considerava que isso era um dever de Milo, ou mesmo de Camus.
— E tu pretendes dá-la a meu filho. Por quê?
— Se não podes mesmo inferir, poupa-me do estorvo de ser eu a revelar o que a nossos filhos compete.
Teobald tornou o olhar intranquilo para a janela aberta, pela qual entrava o fresco ar da tarde primaveril.
— Eles são amantes, não são? – Soltou por fim, quase como um lamento.
Pouco à vontade no papel de transmissor da verdade, Henri apenas suspirou e esboçou um sorriso resignado.
— Eu os vi, lá fora. – O duque prosseguiu. – Vi como se olham. Como sorriem um para o outro. Como gracejam entre si. Parecem dois enamorados desses romances frívolos que enfraquecem a cabeça dos jovens! – Terminou com um acento de indignação.
Indisposto em prosseguir aquele colóquio, o conde limitou-se a dar de ombros. Bebeu mais vinho, no que o imitou o duque. Contrafeito, este continuou:
— Era para ser um casamento de aparências. Como a MAIORIA é, aliás. Uma SOCIEDADE. E o que esses néscios fazem?!? Rendem-se ao PIOR DOS PECADOS!
— “Pior dos pecados”? Por favor… ! O pior dos pecados foi o que levou Camille para DEBAIXO DA TERRA! O pior dos pecados foi o que vi nos campos de batalha... ventres maternos varados por lanças, enquanto neles ainda se agarravam infantes! O pior dos pecados é a exploração que condena milhões de nosso povo à fome!
Teobald olhou-o, sem ação. Crispou os punhos sobre a mesa. Subitamente, sentiu-se exausto. Apoiou a fronte com a mão espalmada, e com a voz cansada indagou:
— Desde quando tu estás a par da verdade?
— Da “verdade” conforme tu consideras, desde os funerais de Sophie. No entanto, desde que Milo defendeu Camus de tuas agressões, naquela choupana camponesa, notei o que de fato movia meu filho para protegê-lo.
— Mas Milo sempre foi homem...
— “Foi”? Que eu saiba, continua a sê-lo. – Riu.
— Eu digo... bem... para ser sincero contigo... antes de entrar na Catedral de Saint-Doulchard para receber o sacramento matrimonial, Camus confessou-me que amava teu filho...
— Deveras? – Henri ergueu as sobrancelhas, sinceramente surpreso.
— ... e eu... disse a ele que Milo também o amava.
— Tu disseste isso?
— Sim. Não sei por que fiz aquilo. Para consolá-lo, quem sabe... não sei mesmo. Eu não acreditei, outrossim, que essa... infâmia viesse a se concretizar. Enfim... não posso me eximir da culpa.
Henri mirou-o compadecido.
— Teobald. Não és culpado por nada. Tudo tem uma razão de ser. Não és tu quem orquestra os eventos deste mundo. Não te ponhas no trono de Deus.
Em tom suplicante, o duque questionou:
— Henri, será que isso é um CASTIGO pelo que fizemos? Não me parece coincidência que nossos dois primogênitos varões tenham acabado por coabitarem como... como sodomitas...
— Não os chame dessa maneira. São homens honrados, dignos, aos quais caberão os legados de nossas famílias.
— Legados? Que legados? Como continuarão a descendência? Acaso Milo arrumou a concubina? Ou... pelo menos, ainda tem a intenção de...
— Não. E tampouco creio que arrumará. Não pretende trair Camus. Nem mesmo em prol de um herdeiro.
— E Camus...? Não tencionaria ele...?
Henri lançou-lhe uma mirada condescendente. Quase balançando a cabeça em negativa, respondeu calmamente:
— Eu não contaria com isso, meu amigo.
Visivelmente desanimado, Teobald recostou-se na cadeira. O pai de Milo procurou animá-lo:
— Temos outros filhos, que certamente hão de semear a terra no lugar deles.
— Tu podes manter a serenidade, possuis outro filho varão, mas eu...?
— Consideras REALMENTE que filhos de Marin e de Seika terão menos valor do que teria um filho de Camus? Respondas que “sim” e, com efeito, dar-me-ás motivos para me preocupar!
— Ah, eu já não sei o que considerar... estou confuso... – Confessou, abaixando a cabeça desalentado.
A mão de Henri pousou suavemente sobre a sua. Declarou:
— Oxalá eu pudesse aliviar-te um pouco que fosse dessa carga que insistes em carregar através dos anos.
A tépida carícia que ofereceu o mero contato com a pele de Henri aqueceu-lhe o peito.
— Henri...
Ouviram o histriônico soar das trombetas vindo da área externa. Entreolharam-se ansiosos. A ordem dada aos servos foi de que as tocassem apenas para anunciar a chegada de duas comitivas específicas...
— Será Durval?
— Ou é ele ou é Filipe, assim foram as orientações aos tocadores.
— Não tive como não convidar meu irmão desta vez. Não tê-lo feito à época do casamento de “Camille” já forneceu comentários por décadas para a corte e a sociedade francesa.
— Não te atormentes. Como naquela ocasião, há homens meus por toda a propriedade, e todos estarão vigiando o crápula e seus filhos.
— Até hoje nada foi descoberto. – Comentou Teobald, ressentido. – A despeito das dezenas de espias que o rondam, jamais obtive qualquer comprovação de que pudesse ter sido ELE o mandante do atentado contra meu primogênito.
— Não percas a esperança, velho amigo. A justiça de Deus pode até tardar, segundo nossos parâmetros humanos, porém nunca haverá de falhar.
Teobald ergueu-se da mesa. Teve o pulso agarrado pelo conde.
— Antes de irmos, responde-me: intentas confrontar nossos filhos a respeito de seu matrimônio?
— Não da forma que pensas. Não sou nenhum déspota. – Desvencilhou-se. – Entretanto, urge que a questão do herdeiro seja tratada.
— Sim, concordo contigo. Inclusive, sobre isso falei a Milo em Auvergne. Até em prol do disfarce de ambos. Causará estranheza um casal nunca ter filhos. Estranheza gera dúvidas...
— ... e dúvidas geram desconfianças.
— Bem, sugiro que tratemos disso posteriormente. Precisas receber quem quer que tenha chegado.
— Tem razão. Acompanhas-me?
— Desnecessário que o perguntes. – Sorriu Henri, prestativo e caloroso como sempre.
E por falar em “caloroso”, mais uma vez Teobald sentiu o peito se aquecer...
Não foi exatamente com alegria que o Duque de Borgonha constatou que se tratava da comitiva que trazia seu irmão, o Duque de Bourges, e seus dois filhos, o Arcebispo de Bourges, Surt, e o primogênito Andreas de Turenne.
Malgrado fosse uma ocasião festiva, Teobald não pôde deixar de, no seu íntimo, torcer para que a mesma passasse bem rapidamente...
*************
A tarde avançava. À aquela altura, à medida que os convidados chegavam, dirigiam-se diretamente para o Grande Salão, enquanto seus pertences eram acondicionados nos aposentos gentilmente cedidos pelo Duque de Borgonha.
Iluminado por centenas de círios e lamparinas mouriscas, o vasto ambiente refulgia: às compridas e bem guarnecidas mesas já se assentavam os convivas, docemente embalados pela harmoniosa execução dos músicos do castelo e também pela expectativa de um casamento inesquecível. Os criados esmeravam-se em servir os aristocratas, jamais permitindo que um cálice se esvaziasse, ou que se visse o fundo de alguma baixela. Uma infinidade de iguarias desfilava diante dos extasiados presentes: sopas e cremes variados, faisões estufados com cebolas carameladas, leitões e javalis assados, gansos ao molho de trufas negras, carneiros recheados de vitela, tortas de perdizes e cogumelos, arenques e trutas defumadas, costelas de cordeiro com molho de figos e tâmaras, cisnes envoltos em toucinho e cravos, cervos grelhados... isso sem contar a colorida doçaria, sem dúvida a preferência das filhas mais jovens do anfitrião e, por isso, explodindo em profusão nunca vista pelos participantes do banquete: bolos de ameixas e mel, tortas de amêndoas, quiches de maçãs com queijos, manjares, pudins de gemas e pudins de claras, massas fritas com recheios de geleias de rosas, de pasta de damascos e de nozes, compotas de laranjas e nêsperas...
A boca brilhante de gordura do Duque de Bourges escancarava-se de satisfação. À sua frente, seus filhos Andreas e Surt, que, ainda que mais comedidos que o pai, com ele partilhavam daquela satisfação, e esta não se restringia aos inigualáveis sabores de que desfrutavam...
— Meu querido irmão, como era de se esperar, está tudo estupendo! Como de costume, tu não economizas quando o assunto é agradar seus convidados.
— Alegra-me que esteja tudo a teu contento, caro Durval.
— Permiti que vos revele, senhor meu tio, que o senhor meu pai ficou muitíssimo contente quando soube que desta vez não foi olvidado por vós... – Surt falou, do modo pomposo que convinha a um membro do alto clero.
Disfarçando a irritação por mais uma vez tocarem naquele assunto, o pai de Camus justificou-se:
— Reconheço que incorri em uma falta imperdoável, quando das bodas de Camille. Ocorre que o acordo cunhado pelo nosso rei se deu de maneira tão célere que julguei impossibilitados de comparecerem aqueles que residiam muito longe de Turenne.
— Filipe vive ainda mais longe do que nós e foi convidado – Disparou Andreas, fingindo que gracejava.
— Ora, pois se não foi o próprio quem ordenou o enlace de nossos filhos! Natural que fosse o primeiro a saber dos festejos. – Também simulando bom humor, Henri rebateu.
Aiolia deu uma gargalhada um tanto forçada, e brandiu a taça de vinho para conclamar:
— Meu bom pai está coberto de razão! Abstenhamo-nos de tocar novamente nesse tópico. Perdoar é esquecer, lembrai-vos!
Teobald sorriu, quando na verdade queria ranger os dentes...
À mesa principal encontravam-se pois Durval e seus filhos Andreas e Surt; o Duque de Borgonha e sua filha Seika, bem como o noivo desta, Michel e os pais, o Marquês e a Marquesa de Aquitânia; o Conde D’Auvergne e seu filho Aiolia. Como esperassem ainda membros da família a ocupá-la, havia algumas cadeiras vagas. Olhando-as distraidamente, Andreas perguntou:
— A propósito... não se demoram demasiado o Conde e a Condessa de Saint-Doulchard? A demora de minha prima Marin posso entender, bem como a de minhas tias, que provavelmente estão a assessorar a noiva. Acabarei pensando que ambos tencionam evitar-me... ou que estão em uma segunda lua-de-mel...
Alguns riram. O Duque de Borgonha, entretanto, tornou-se tão vermelho que o julgaram engasgado com alguma noz!
— Por todos os santos, Andreas! Quanta indelicadeza... – Surt criticou, afetado, enquanto limpava os dedos na água de lavanda – Senhores, perdoai meu irmão. Nem ao menos podemos culpar o vinho, o banquete mal começou!
— Foi apenas uma brincadeira, tu é que ficaste maçantemente sisudo após sagrar-te cardeal...
— Arcebispo.
— Ainda? – Chasqueou o mais velho, sem aparentar constrangimento algum. – Bom, enfim, somos todos da mesma família, não creio que um chiste inocente há de melindrá-los...
— É claro que não, senhor Andreas. – Henri fingiu achar graça, no fundo preocupado com o desconforto que sabia estar experimentando seu querido amigo.
Mirando a sobrinha mais nova e o noivo desta, Durval iniciou uma nova conversa:
— Ao que tudo indica, no ano que vem teremos um outro casamento em Turenne?...
— A princípio, a cerimônia seria realizada em Aquitânia, Alteza. – Respondeu Michel, outrora prometido a Hilda, antes que a jovem “caísse em desgraça”. – Não obstante, o excelentíssimo senhor Duque de Borgonha manifestou desejo de que cá vivamos.
— Morrerei de solidão nesta imensidão, sem nenhuma de minhas filhas. Almejo ver crescer ao menos um de meus netos, acho que não hão de me culpar por isso...
— Absolutamente, meu senhor! Tomei muito gosto por vossas terras, penso que a Borgonha é a mais bela região de toda França.
Seika considerou-o com meiguice no olhar. Malgrado não tivesse sido ela a escolher o noivo, não se desagradara dele, e esperava mesmo vir a amá-lo. Motivos não faltavam: Michel era um adolescente atraente, e dava mostras de se converter em um garboso homem, em questão de dois ou três anos. Tinha cabelos encaracolados muito negros, e olhos de semelhante cor, expressivos e magnéticos. Suas faces tingiam-se graciosamente de um tom róseo em pontos específicos, dando-lhe um ar de inocente jovialidade. Além do mais, possuía bons modos, fleuma e vasta cultura. Percebendo-se alvo do olhar quase apaixonado de Seika, o filho do Marquês de Aquitânia sorriu para ela. Decidiu que a amaria, algum dia.
— Mas não são apenas Camille e Marin que tardam a chegar; ouvi dizer que tua outra filha, Hilda, que se encontrava em um convento, foi trazida para os festejos. – Durval dirigiu-se a Teobald, que enfim havia serenado.
— Não tive escolha quanto à vinda de Hilda. Marin cobrou-me a presença da irmã estouvada, como um presente de casamento...
— Tens o curioso hábito de te render aos caprichos de tuas filhas. – Riu o Duque de Bourges. – Primeiro, demoraste eras para casar tua primogênita, pois a voluntariosa menina se recusava a aceitar todo e qualquer pretendente que tu lhe arranjavas...
— Concordo contigo, senhor meu pai. Hoje, poderia ser EU a estar casado com minha estimada prima. Sem ofensas, Conde Henri.
— Não me ofendeis em absoluto, senhor Andreas.
— ... depois tens o nome atirado à lama devido à conduta indecorosa da moçoila que agora trazes de volta ao convívio com toda esta gente honesta – Continuou Durval. – por conta do capricho da filha casadoira. Pergunto-me se a próxima a aprontar contigo não será a menina Seika...
— Eu não! – Protestou a ruivinha, arrancando risos dos presentes.
— Realmente! Graças a Deus, só tive filhos varões. Mulheres dão muito trabalho!
Encarando Durval com frieza hostil, Teobald II replicou:
— Também eu tive um filho varão. Infelizmente, ele me foi covardemente tirado, na flor da idade. Mas ainda não desisti de encontrar o criminoso... encontrá-lo-ei, e neste dia, ele desejará estar no lugar de meu Camus...
Não passou despercebida a Henri a lividez que cobriu o rosto do Duque de Bourges. Em meio ao súbito mal estar que aportou na mesa principal, Durval desculpou-se, fazendo-se humilde:
— Sinto muito. Minha supostamente inocente pilhéria trouxe à baila lamentáveis recordações. Peço que me perdoes, meu querido irmão.
Limitando-se a assentir, Teobald II sorveu vinho, desejando sinceramente algo mais forte.
— Bem, e onde estará a senhorita Hilda? Tantos esforços empregados em trazê-la para cá, e ela não há de nos prestigiar? – Quis saber Surt, mais por sutil sarcasmo que por curiosidade
— Ah, vede, meu primo! É ela quem vem ali, com as tias Agnes e Emilie! – Apontou Seika, animada.
Andreas virou-se na direção apontada pela pequena. Sua expressão desinteressada metamorfoseou-se em uma surpresa.
Era o rosto de um anjo... era um anjo a caminhar para eles!
A tez nívea a evocar a mais perfeita pérola dos oceanos, os olhos cândidos nos quais luzia a mais cerúlea das estrelas... os lábios mimosos, duas pétalas de rosas silvestres sobrepostas... então... aquela preciosidade era a tal Hilda! Lembrava-se vagamente da menina de seus cinco ou seis anos, a única loira da prole do tio. No meio das duas senhoras trajadas com semelhante austeridade ela vinha, metida em um longo vestido negro, de mangas muito longas, um crucifixo dourado a pender-lhe pelo colo oculto pela fazenda branca. Os cabelos, presos em bandôs, escondiam-se sob um comprido véu negro.
— Vê-se que é muito bela... pena que se perdeu. – Cochichou Surt ao ouvido de Andreas, percebendo o interesse do irmão.
— Nem tanto, vê... agora é uma serva de Deus.
— Sim... FORA DO ALCANCE dos homens.
— Dos homens COMUNS, talvez...
— Andreas... – O clérigo usou um tom de advertência. O outro apenas sorriu mais.
Detendo-se diante da mesa principal, Hilda e as tias fizeram profundas reverências. Andreas levantou-se, arrastou uma das cadeiras para seu lado e convidou:
— Eis aqui um lugar, nobre senhorita...
Surt balançou a cabeça, como quem pensa “lá vamos nós outra vez.” Que obsessão tinha o irmão de procurar problemas em festas e eventos!...
Ela olhou-o, curiosa.
— Oh, não deveis estar recordada de mim. Éramos muito novos quando nos vimos pela última vez, afinal, não estáveis nas bodas de vossa irmã Camille... – Disse ele, galante.
Ao contrário do que fazia no passado, a jovem baixou o olhar, mantendo postura modesta. Sem sorrir, falou em voz tão baixa que ele teve que se esforçar para entender:
— Posso inferir que sois meu primo Andreas, já que sei que meu primo Surt é o Arcebispo de Bourges.
— Sim, sou eu. É um prazer rever-vos, senhorita Hilda.
Após hesitar um pouco, ela por fim sentou-se na cadeira mostrada pelo ruivo. Henri e Teobald trocaram um breve olhar. Bem, a garota parecia de fato mudada... não havia de estimular nenhuma inconveniência do comumente inconveniente Andreas...
Enquanto isso, Milo e Camus atravessavam apressadamente o extenso corredor que ligava a escadaria até a nave que precedia a Grande Sala. Aproveitando-se de que não havia ninguém muito próximo a eles, Milo sussurrou:
— Que impolidez a nossa... atrasados para o banquete de véspera de casamento...
— A culpa foi TUA. Se não tivesses cedido à tua inoportuna lascívia, não terias desfeito meu penteado, tampouco minha maquiagem...
— A culpa foi TUA. Se não tivesses me envolvido em tua irresistível sedução, eu não teria desfeito teu penteado, tampouco tua maquiagem...
— És terrível...
— Ainda não domino a técnica desses penteados aprimorados de festa, tens de perdoar-me. Hei de treinar mais – O loiro justificava-se, apertando maroto a mão do esposo.
— Por isso mesmo, tinhas que te conter...!
Milo mostrou-lhe a língua; falou:
— O que está feito, está feito. Está mais bonito do que antes.
— Gostaria de acreditar em tuas palavras.
— Bem, estamos chegando...
— Talvez seja melhor eu cortar meus cabelos e usar perucas, que achas? Seria mais prático.
O cavaleiro virou-se aterrado para o ruivo.
— Não profiras semelhantes estultícias! Beiram a heresia!
Camus fez um muxoxo provocativo. Não estivessem quase no salão, Milo o agarraria em algum canto para puni-lo por aquela “blasfêmia”...
A música cessou quando os dois adentraram o vasto recinto. Todas as atenções convergiram para o casal recém chegado.
— Senhor Milo D’Auvergne, Senhora Camille de Turenne, os excelentíssimos Conde e Condessa de Saint-Doulchard! – Anunciou um servo vestido de dourado da cabeça aos pés.
— Peço perdão por nosso atraso, senhores, senhoras. – Disse Milo, curvando-se respeitosamente. Camus fez uma mesura ainda mais pronunciada.
Dirigiram-se para a mesa principal, na qual há muito eram esperados. E, pela expressão severa do Duque de Borgonha, a demora de ambos o desagradara deveras...
Tomaram assento, cumprimentando a todos... e disfarçando a insatisfação em ter Durval e os filhos entre eles.
— Então, meu irmão, que é de tua noiva?
— Alguém tinha que se atrasar mais que vós – Retrucou Aiolia, em tom jocoso.
A Camus perturbava a sisudez do pai. Um simples atraso tê-lo-ia molestado tanto?
— Teobald... – Henri chamou-o à atenção discretamente, consciente do real motivo daquela feição aborrecida.
O duque assentiu, procurando não mais demonstrar desagrado. Desviou o olhar do primogênito, que continuou a mirá-lo, confuso.
— Mas e quanto a Afrodite? – Quis saber Seika. – Também ele se demora...
— Oh, perdoa-me, minha querida. Esqueci de dizer-te que ele não poderá estar presente. – Camus pôs-se a esclarecer, sentindo-se mal por não tê-lo feito antes; as irmãs gostavam tanto dele! – Enviou-nos uma carta de Paris, dizendo que deveria estudar sem trégua para os exames de verão. Terá também que presidir algumas preleções esta semana...
— Não posso acreditar! – Resmungou a menina, cruzando os braços, aborrecida. – Se ele ousar fazer isso no MEU casamento, vou até Paris arrancar-lhes os olhos!
— Aquele simpático camareiro agora vive em Paris? – Andreas indagou.
— Foi estudar Medicina na Universidade de Paris. Está lá há cinco meses. – Camus respondeu, fazendo-se atencioso.
O primogênito de Durval deixou escapar uma risada:
— Quê? Estás a contar que vosso camareiro há de se tornar um médico?
— Mais que isso, meu primo – “Camille” sorriu, quase petulante. – Tornar-se-á o diretor do futuro maior hospital de França, o Hospital de Saint-Doulchard.
Andreas riu, nitidamente sem entender. Comentou:
— Vejo que há muitas novidades das quais preciso me inteirar.
— Terei prazer em participá-las convosco, senhor. – Disse Camus, em um tom que dizia exatamente o contrário.
— Como tens passado, Milo?
— Bem, com a graça de Deus, caro Andreas. A propósito... mais uma vez, quero dar-te os pêsames pelo falecimento de tua esposa.
Suspirando, o primo de seu esposo agradeceu:
— É muita bondade tua, gentil amigo. Foi uma perda incompreensível, uma fatalidade... mas... como dizem... a vontade de Deus.
— De fato, FOI a vontade de Deus, Andreas. – Redarguiu Surt.
— Todos lamentamos muitíssimo a perda prematura da senhora duquesa, senhor Andreas. – O Duque de Aquitânia comentou, simpático. – Ouvimos falar que foi um acidente doméstico...
— Com efeito... Verena era sonâmbula, fato que só vim a descobrir durante o pouco tempo em que convivemos. Em um de seus ataques, precipitou-se pelas escadas do castelo... estava grávida. A hemorragia levou a ela e ao bebê que trazia em seu ventre.
— Que coisa terrível – os olhos castanhos de Seika encheram-se de lágrimas.
— Sinto muito revelar isso diante de ti, minha pequena prima. – Andreas tocou a pequenina mão da ruivinha. – Não é algo que uma menina que está noiva aprecie ouvir. Sugiro que mudemos de assunto, em respeito a esta criança.
— Estou completamente de acordo. – Reforçou a Duquesa de Aquitânia, dando uma olhada de reprovação para o esposo.
Mas Camus quedou-se pensativo com aquela revelação.
Aliás... não havia Andreas perdido a primeira esposa também? Milo lhe contara a história, certa vez... antes de uma campanha no Oriente, o rapaz havia contraído matrimônio com a primogênita do Conde de Boursheid.
E esta morrera durante o trabalho de parto.
“Bem, há de ser uma triste coincidência. Não devo alimentar desconfianças tão vis movido tão somente por seu gênio desagradável.”, pensou, servindo-se de vinho com especiarias. (3)
— Fazei bem em vos conformar com tão dolosas perdas, senhor meu primo. Aos desígnios de Deus deve o homem se sujeitar, seja na ventura, seja na desventura. Nosso Senhor há de se agradar de vosso brioso proceder e enviar-vos uma nova companheira. – Disse Hilda, surpreendendo aos seus familiares pela mansidão no falar pausado.
Andreas sorriu largamente, de um jeito que deixou o Duque de Borgonha alerta.
— Agradeço por vossas gentis palavras, minha estimada prima. Estou certo de que estais a profetizar sobre um futuro muito próximo...
— Não detenho o dom da profecia, digníssimo primo. Sou apenas uma humilde noviça engatinhando nos serviços do Senhor.
— Deus fala pelos humildes... os que se humilham encontram muito mais graça perante Nosso Senhor... e perante seus filhos, asseguro-vos.
Camus não gostou do tom empregado pelo ruivo, tampouco de seu olhar sobre Hilda, que mantinha a cabeça baixa, indiferente àquele sutil, porém perceptível galanteio. Ao encontrar o olhar atento do pai, soube que ele tivera a mesma impressão.
— Oh, aí vem Marin! Ah, que formosa está! – Exultou-se Seika, batendo palmas de animação.
A noiva de Aiolia adentrou a Grande Sala, escoltada por servas. Trajava um vestido de seda azul claro com detalhes em veludo marinho, as longas mangas em uma tonalidade perolada a combinar com as flores de laranjeiras do arranjo a adornar-lhe o penteado, que permitia aos ondulados cabelos ruivos caírem graciosamente pelas espáduas. O irmão de Milo ergueu-se da mesa, a admiração patente no brilho de seus olhos esmeraldinos. Foi até ela, que curvou-se com delicadeza à sua aproximação.
— Sê bem vinda, senhora minha noiva. Estávamos todos à tua espera.
— Perdoai-me a demora.
— Não há o que perdoar, se a mesma possibilitou a mais bela visão de toda minha vida.
Ela sorriu, corando levemente. Pôs sua pequena mão na palma de seu futuro esposo. Ambos caminharam rumo à mesa principal, sob olhares contemplativos dos convivas. O som plangente das cítaras e dos alaúdes marcavam-lhes os passos quase sincronicamente.
— À parte de só teres filhas mulheres, Teobald, hás de reconhecer tua sorte em que todas sejam donairosas como a falecida Maude, que Deus a tenha. Hilda saiu mais a ti, e é igualmente encantadora, penso mesmo que a dotada de beleza mais clássica dentre as irmãs. É pena que a mandaste para o convento, tenho certeza de que haveria de encontrar um pretendente formidável, que muito favorecesse à tua pessoa. – Durval curvou-se para falar ao irmão sem que lhe escutassem.
— É como tu mesmo disseste, a menina atirou meu nome à lama. Sei que até hoje comentam sobre sua conduta indecorosa. – Respondeu o nobre, disfarçando o incômodo com aquela conversa.
— Bem... e se alguém manifestasse intenção de desposá-la? Repensarias a punição que infligiste à pobre moça?
Teobald II deixou escapar um riso rouco.
— Isso está tão fora de cogitação que é dispensável que te responda, Durval.
— Com isso já me respondeste. – O Duque de Bourges riu de volta; voltou a observar os noivos a acenarem para os convidados, dando mostras de que encerrara o importuno assunto. O pai de Camus quase deu um suspiro de alívio. Henri dirigiu-lhe um olhar, em um silencioso gesto de apoio.
O festim prosseguiu, mais animado agora com a presença da noiva. Brindou-se à exaustão, comeu-se e bebeu-se como apenas se fazia no mundo à parte da alta nobreza. O rei mandara mensagem de que só poderia chegar a Turenne no dia seguinte. Não era tão grande prejuízo, visto que as comemorações excederiam bem uns três ou quatro dias.
Iniciou-se o tão esperado momentos das danças. O primeiro casal a rodopiar pelo salão obviamente foram os noivos, e a ele seguiram-se outros. O jovem Michel convidou Seika, e a menina, com indisfarçável orgulho, acompanhou-o. Os pais de Michel decidiram também participar do divertimento. Impossibilitada de tomar parte daquela diversão, Hilda não deu mostras de o lamentar. Permaneceu serena à mesa, contentando-se em alimentar-se vagarosamente. De semelhante maneira agiu Surt, com o diferencial de nunca abandonar seu cálice de vinho. Conseguia beber até mais do que o irmão. Este visou algumas belas moçoilas desacompanhadas, que olhavam-no possivelmente na esperança de que ele as convidasse para dançar. Pensou em ir até elas; melhor do que continuar naquela mesa, ao lado da prima que não poderia aceitar-lhe um convite, e perto “da” que jamais aceitaria. Se bem que Milo não se prontificava em levar “a esposa” para a valsa. Quem sabe...?
— Será que minha querida filha aceitaria dançar com este velho pai? Há eras que não fazemos isto.
Tanto Milo quanto Andreas miraram surpresos Teobald II, parado, em pé, a mão estendida para “Camille”. O ruivo procurou acobertar a estranheza que pousou em seu coração. Ergueu-se, meneando a cabeça em servil concordância.
— É uma honra, senhor meu pai.
“E essa agora! O que pretende esse velho neurastênico?”, pensou Milo, sob desagradável desconfiança. Viu-os se afastarem, de braços dados, rumo ao centro do salão.
— Já que até meu irmão foi se exercitar um pouco, aqui também vou eu. – Durval falou para Henri, que por sua vez disse:
— Vejo que há damas à espera de um convite. Juntar-me-ei a vós.
Andreas observou-os partirem; em tom trocista, inquiriu a Milo:
— É possível que tenhas ciúmes de teu sogro?
— Ciúmes de meu sogro? De onde tiraste tão estapafúrdia ideia?
— De tua expressão subitamente contrariada. Chegaste a empalidecer um pouco. Bom, pode ter sido mera impressão minha...
— Sim, foi apenas impressão tua. – Confirmou, secamente. Voltou a se servir do javali assado, pretextando naturalidade. – E quanto a ti? Não vais tirar nenhuma dama para dançar?
Andreas deu uma olhada de soslaio deliberadamente demorada para Hilda, entretida com a sopa de queijo e cogumelos e, aparentemente, seus próprios pensamentos. Em seguida, disse ao conde:
— As únicas com as quais me interessaria dançar estão fora de meu alcance, por assim dizer... – Tornou o olhar, agora zombeteiro, para o loiro – Acaso desejas livrar-te de minha presença?
Milo deu uma risada sarcástica. Contrapôs:
— Por que razão haveria eu de intentar isso? És companhia tão agradável!
— És mui cordato, meu amigo. Saibas que a opinião é recíproca.
Surt mantinha-se atento ao diálogo travado entre os dois homens. Divertia-se, embora isso não ficasse nem um pouco evidenciado em sua plácida fisionomia.
— Não tive oportunidade de me desculpar pela minha ausência em teu aniversário. Soube que foi um belo evento.
— Não há de que te desculpares. Passaste por um terrível infortúnio. Posso imaginar o quanto estavas a sofrer pela perda de tua esposa.
Incerto se Milo estava sendo irônico ou não, Andreas somente assentiu, polido. Comentou:
— Devo dizer que fiquei surpreso com teu convite…
— Ora, por quê? És primo de minha mulher. Podemos dizer que agora pertencemos à mesma família, não concorda?
— De fato. – O ruivo sorriu, reflexivo. – Quem diria que um dia seríamos da mesma família, nós, que passamos por tantas aventuras juntos... que vivemos tantas histórias...
Um espectador atento teria percebido uma sombra no olhar de Milo.
— Sinto falta de nossas campanhas no Oriente. A vida era bem divertida, não concordas? – Com expressão prazenteira, Andreas pôs-se a rememorar tempos idos. – Batalhas, lutas, nossas bebedeiras nos acampamentos, saques a cidades, mulheres lindas e exóticas a nosso dispor, mouros à vontade para matar...
— Não me comprazem tais lembranças.
— Mas à época te comprazias sobremaneira, pelo que me lembre... eras o mais feroz nos campos. Quantos e quantos não caíram sob a tua espada sedenta...!
— Era meu dever, àquela época. Não um motivo para me orgulhar. Não me orgulho de haver abatido semelhantes, e não entendo como enxergas nisso algo de que se regozijar.
— Semelhantes? Mouros? – Andreas arregalou os olhos violeta, dramático. – Hereges infiéis... como podes considerá-los semelhantes a ti... a NÓS, cristãos civilizados?
Milo encarou-o duramente.
— Ao menos nenhum deles enviou-me para uma emboscada como VINGANÇA. Lutavam por suas causas, e de forma honrada. – Falou, de modo pausado.
— Ainda acreditas na palavra dos conspiradores? Que fui EU o responsável por teres tu caído em poder de nossos inimigos?
Hilda levantou um pouco a cabeça, permitindo-se testemunhar aquele embate.
— Teu azar, caro Andreas, foi eu ser amigo pessoal de Ricardo (4). Ele negociou minha liberdade junto àqueles aos quais tu vendeste a minha vida.
— A força de boatos impressiona-me... impressiona-me, sobretudo, que eles sigam influenciando-te de tal forma...
Foi então que ambos notaram que o arcebispo e a noviça mostravam vivo interesse na história obscura que emergia das recordações das Cruzadas. Decidiram mutuamente mudar de assunto.
Claro que o filho de Durval não optaria por um tema confortável. Como sempre dizia o próprio Surt, “parecia ter particular gosto por polêmicas e contendas.”
— Percebo que minha prima ainda não carrega no ventre um herdeiro teu.
— Percebo que continuas com ótima visão.
— Preferiram esperar ou... algum de vós encontra-se aquém da capacidade de gerar um filho?
Desta vez, Milo não pôde ocultar o descontentamento com a inconveniência do Turenne. Seus olhos faiscaram furiosos, a ponto de o azul de suas íris tornar-se mais profundo.
— Irmão, creio que começas a te exceder... se o Conde de Saint-Doulchard resolver afiar a espada em tua língua inquieta, eu de modo algum surpreender-me-ia... – Surt esmerou-se no acento sacerdotal daquela admoestação.
— Sugiro que ouças teu irmão, caro Andreas. Mostra-se mais sensato que tu. – O loiro pontuou, entre dentes.
O ruivo ergueu as palmas, defendendo-se:
— Perdoa-me. Não tencionava soar ofensivo. Meus pais mesmos demoraram mais de três anos para conceberem a mim.
— Lamento que o tenham conseguido.
Andreas soltou uma sonora gargalhada, legitimamente divertido com a réplica do conde. Acrescentou, com lágrimas nos olhos de tanto rir:
— Eu também.
Milo considerou-o, surpreso. O mesmo fizeram Surt e Hilda.
Enquanto isso, o Duque de Borgonha bailava com “sua bela primogênita”, conduzindo-a com maestria pelo salão. Todos observavam, embevecidos, aquela inspiradora interação entre pai e “filha”.
Bem próximo ao ouvido do pai, o ruivo comentou, fleumático:
— Sabeis que nunca me agradei de dançar.
— Sim, bem o sei eu. Todavia, mostra-te exímio na arte. Tens comparecido a muitos bailes?
— Não muitos... e o senhor?
— Tampouco. Porém detenho décadas e décadas de prática.
— Deduzo que vossa intenção no momento distancia-se do entretenimento puro e simples.
Fitando o jovem gravemente, de modo que chegou a arrepiá-lo, Teobald II anuiu:
— Perspicaz como sempre.
No instante em que os músicos encerraram aquela peça, e os convidados aplaudiram efusivamente, o nobre ordenou ao filho:
— Acompanha-me.
Retirou-se imponente, sendo seguido pelo rapaz. Ao percebê-lo, Milo franziu o cenho, intrigado. Para onde o duque levava Camus? E para quê?
Deveria segui-los? Ergueu-se alerta.
— Decidiste dançar? – Inquiriu Andreas.
— Algo do tipo – Murmurou o loiro, vendo o sogro e o esposo desaparecendo por uma porta lateral, que dava para uma área externa. Deu apenas dois passos; seu pai surgiu à sua frente.
— É melhor não. – Henri adivinhara imediatamente as intenções do filho.
— Mas pai!...
— Escuta o que te digo. – Aproximou-se para sussurrar. – Teobald não agirá como daquela vez.
— Como podes garanti-lo? — Insistiu, incrédulo.
— Confia em mim.
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As primeiras estrelas despontavam no topo do céu azul marinho. Tão logo acessara o pátio que precedia um pequeno jardim particular da família, Camus ficou com as faces vermelhas, em virtude do vento gélido que soprava inclemente. Percebendo-o, o duque dirigiu-se para uma área coberta, guarnecida de bancos nos quais enrondilhavam-se plantas já floridas. Ali se instalaram, protegidos do frio e de ouvidos alheios.
— Tua mãe costumava trazer a ti e a tuas irmãs aqui para contar histórias nas noites claras de verão. Lembras-te?
—Sim. Lembro-me bem. – Sussurrou o jovem.
— E eis que te trago para cá, anos depois, em uma condição completamente adversa. Apesar de estarmos na primavera, faz tanto frio estes dias...
O ruivo mirou distraidamente as delicadas flores que emergiam do solo fértil de Turenne. Manteve-se em paciente silêncio, à espera do que seu pai ia lhe falar.
— Por motivos óbvios não podemos tratar de certos assuntos por meio de correspondências. Foi um erro de planejamento nosso: deveríamos ter combinado um sistema de códigos antes que tu e Milo tivésseis partido.
— Teria sido uma excelente ideia, senhor meu pai.
— Trataremos disso enquanto cá permanecerdes. E, diz-me... como tens vivido durante estes últimos meses? Como tem sido tua vida em Saint-Doulchard?
— Boa. – Considerando lacônica a resposta, incrementou-a – Plenamente satisfatória. Não tenho do que reclamar.
— Soube por Henri que Milo realmente deixou o Castelo bem mais aprazível de se viver.
— É verdade, ele levou artífices italianos e construtores ibéricos para efetuarem obras e reparos na fortificação. Temos até uma sala de banhos à moda mourisca.
Aquela última informação mais incomodou o duque do que o satisfez.
E também a forma com que Camus a forneceu: “TEMOS uma sala de banhos.” Não “HÁ uma sala de banhos”.
— Fico aliviado. Nunca foi meu desejo que vivesses em um lugar sombrio como... como era Saint-Doulchard. Contudo, era o mais seguro dos sítios.
— Compreendo, senhor meu pai. Crede, está assaz agradável. Convido-vos a visitá-lo um dia para que o averigueis pessoalmente.
— Asseguro que considerarei teu convite, meu filho. – Volveu o nobre, com ternura. Então fez-se mais sério; desviou o olhar ao indagar – E diz-me... como é a conduta de Milo para contigo?
— A... conduta do senhor Milo?...
— Sim, ele procede com respeito para com a tua pessoa? Trata-te bem?
— Sim, o senhor Milo trata-me muitíssimo bem.
— Lograstes ficar amigos?
Engolindo rapidamente em seco, o ruivo disse:
— Eu diria que sim.
— Isso muito me tranquiliza. O ideal era mesmo que vivêsseis uma sociedade, cada qual vivendo sua vida, sem hostilidades nem amarguras. Afinal, nada foi negado a ele. Até o direito a uma família não oficial foi-lhe garantido pelo contrato!
Sentindo-se desconfortável com o rumo da conversa, Camus limitou-se em assentir, concordando. Teobald II estudou a fisionomia do rapaz; consciente do que se passava, este envergou sua costumeira máscara de serena inexpressividade. Mas seu coração disparava. Tentava se convencer de que aqueles questionamentos eram naturais, esperados.
— Já que o assunto veio à tona... e sobre a mulher que Milo tomaria por concubina? A quantas anda essa questão?
—Ele… o senhor Milo não escolheu nenhuma...
— Não seria mais adequado dizer que ele AINDA não escolheu nenhuma?
Apreensivo, Camus apertou os lábios. Evitou cruzar seu olhar com o do pai.
— Ou será que me engano? – Insistiu Teobald II.
— ...
— Ele não escolheu... nem vai escolher... não é assim, Camus?
— Gostaria imensamente de saber aonde o senhor almeja chegar. – Admitiu, uma vez que jamais mentia para o pai. Um voto feito há anos que seguia intacto.
— Tu e ele... tornastes-vos amantes, não?
Malgrado o frio que arrepiava-lhe a pele, o jovem poderia jurar que transpirava.
— Confiei em que sendo ele filho de meu melhor amigo, e idealizador do plano de salvação de tua vida, tudo daria certo. Que vos tornaríeis camaradas, unidos pelo mesmo fardo imposto a vós pelas ameaças que pairavam sobre os Turenne e, por força das circunstâncias, os Auvergne...entretanto, não foi o que se verificou.
Paralisado de tensão, Camus não conseguia sequer falar. E ainda que conseguisse, não saberia o que dizer. Teobald prosseguiu, o tom acusatório em um timbre baixo e controlado:
— Pretendias ocultá-lo de mim.
— Somente durante o casamento de minha irmã – Apressou-se em esclarecer. – Temia aborrecer-vos bem durante as celebrações, o que seria lastimoso.
— Então... é mesmo verdade...
Segurou a cabeça abaixada com as mãos, os cotovelos apoiados nas coxas. Camus sentiu-se esmagado ao vê-lo daquele jeito. Com uma suavidade impregnada de profunda tristeza, declarou:
— Entenderei se quiserdes renegar-me. Decepcionei-vos, bem o sei.
Teobald II levantou a cabeça e fitou o céu.
— Eu sempre tive consciência de que nutrias por Milo um amor que desafiava a natureza. Só não imaginava que essa... dissolução se concretizasse.
O jovem reuniu todas as forças oriundas de sua coragem subestimada para contestar:
— Equivocai-vos, senhor meu pai. O amor que nos une é a mais pura manifestação da natureza. Nada há de dissoluto em nossa união. Ele me ama, e eu o amo. E, ao contrário de vós, eu não temo o amor.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— O... o que estás a dizer? – Balbuciou o duque, atônito.
— O amor não é fuga. É entrega. É rendição. Não aceitá-lo é que desafia a natureza.
— Camus, não estou a compreender tuas palavras!
O ruivo calou-se. Não tencionava revelar que estava a par do idílio dos tempos de juventude entre seu pai e seu sogro. Henri poderia ser por ele confrontado, e isso era a última coisa que queria.
Ambos ficaram quietos por longos minutos. Ao longe, sapos coaxavam sincronicamente, grilos entoavam odes à noite que chegava.
Teobald II deu um longo suspiro. Murmurou:
— Eu nunca deserdaria um filho por ter trilhado sendas às quais eu mesmo o atirei.
— Pai, não...
— Cala-te. Escuta-me, eu só... só preciso saber de uma coisa. Uma única coisa.
Assentindo, Camus esperou pela pergunta, que demorou um pouco para ser enunciada:
— És feliz?
O rapaz mirou fixamente o pai. Em inabalável brandura, foi firme ao responder:
— Sim. Como jamais fui em toda minha vida.
Um sorriso melancólico surgiu no rosto subitamente relaxado do velho nobre.
Ele não duvidava daquilo.
A plenitude resplandecia no rosto do filho.
E não somente no dele. Reparara a mesma luz no rosto do filho de seu melhor amigo. A cumplicidade entre os dois jovens saltava à vista.
Seu amado Camus enfim conhecera a felicidade que ele nunca pudera propiciar. Era motivo de sobra para ser grato a Milo. Nada mais esperado de um rebento do melhor homem que conhecera na Terra.
Henri. Belo. Audaz. Justo. Bom.
Milo herdara todos atributos do pai. E salvara Camus de uma existência frígida, brumal. Devia-lhe muito.
— Se... senhor meu pai... – Tartamudeou Camus, desconcertado ao ver grossas lágrimas rolarem pelas faces do duque.
Teria magoado-o tanto assim? Quase sufocou pela constrição em sua garganta. Seus olhos castanhos umedeceram-se. Com voz sumida, ofereceu:
— Se for de vossa vontade, parto esta noite mesmo. Permiti apenas, peço-vos, que me despeça de Ma...
Então foi repentinamente abraçado pelo nobre, sem que pudesse se dar conta do que estava a acontecer.
— Senhor meu pai?...
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