Dame Jolie
41 Uma Corte Singular
Notas iniciais
A música animada chamava mais pessoas ao centro do Grande Salão de Turenne: pares escolhidos, reverências feitas, e iniciava-se nova dança. O sincronismo dava ares de coisa combinada, tão harmônicos faziam-se os passos. Damas e cavalheiros bailavam efusivamente, rindo alegres ao som dos talentosos músicos do maior castelo da Borgonha. Aquela euforia, contudo, nem de leve era partilhada pelo Conde de Saint-Doulchard: o jovem nobre mantinha o queixo apoiado em uma das mãos, ostentando expressão contrafeita. Tamborilava nervosamente a mesa com os longos dedos repletos de anéis. Como poderia ele divertir-se sem saber o que estava acontecendo com Camus? Aliás, como poderia ele divertir-se SEM a presença de Camus? O amado fora levado pelo Duque de Borgonha para longe do alcance de seus olhos cuidadosos, e isso o punha em real estado de nervos.
“Se Teobald ousar machucá-lo outra vez... não sei do que serei capaz!”
Travou a mandíbula ante tal pensamento.
“Que mentiroso sou... sei EXATAMENTE do que seria capaz! Meu pai também sabe. Por isso, lançou aquelas palavras pretensamente confortadoras.”, refletia, batendo com mais força sobre a superfície de madeira lustrosa.
— Conquanto esteja ciente de que tu não mo revelarás, far-me-ia gosto em saber por que a retirada do senhor meu tio com minha prima atormenta-te de tal modo.
Os olhos faiscantes de uma ira que já aflorara com fulgor pousaram sobre a displicente figura de Andreas de Turenne.
— Creio que os vapores sobem-te com presteza à cabeça, meu bom Andreas. Julgas-me atormentado, quando, em verdade, encontro-me enleado, visto estar a desfrutar de tão jubilosa celebração... e em tão agradáveis companhias.
O ruivo deixou escapar um sorriso sardônico. Mais que o tom azedo do outro, toda a expressão corporal denunciava a inveracidade daquelas palavras. Começou a se conformar com o fato de que, por ora, não descobriria o motivo da reserva do Conde de Saint-Doulchard para com o próprio sogro. Não que condenasse de todo o ex companheiro de batalhas: às vezes, o velho Teobald realmente poderia desafiar a paciência de um cristão!
— Não insistirei. Tudo que posso fazer por ti, como agradável companhia que sou, é oferecer-me como confidente, se assim te aprouver. – Disse Andreas, sorvendo o vinho e reparando que Milo chegara a parar de fazê-lo! – A ausência de teu estimado Marquês de Aguilar decerto inspira tal demanda.
Milo resistiu ao impulso de dardejá-lo com o mesmo sorriso falso. Apenas assentiu:
— Agradeço-te o generoso oferecimento. E a gentil preocupação para com minha pessoa.
Em silêncio, Surt e Hilda continuavam acompanhando a conversa dos pretensos amigos. Não havia mais muito o que fazer, uma vez que era hora de danças e jograis, folguedos impróprios para monásticos como eles.
Fitando continuadamente a porta por onde o esposo e o sogro haviam saído, Milo desistiu de responder ao que Andreas persistia em falar-lhe. Ouvia apenas um eco diluído na cacofonia ambiente. Foi então que distinguiu a figura do amado surgindo no salão, acompanhado do duque. Não se deteve em estudar-lhes as feições, muito menos em esperar que voltassem para a mesa: ergueu-se de imediato e rumou, incontinenti, para os dois nobres. Sequer preocupou-se em disfarçar a intensa ansiedade, patente em suas belas feições contraídas e na tempestade de seu olhar. Os convivas saíam-lhe apressados do caminho, pois que seu andar resoluto não reconhecia obstáculos. Chegou mesmo a esbarrar em alguns incautos que não perceberam-lhe a aproximação. Nenhum pedido de desculpas foi de seus lábios ouvido. Milo só tinha Camus em seu pensamento.
E para ele se dirigia, tal qual quem avança intrépido em um campo de guerra.
Camus deparou-se com a figura sisuda do marido. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, teve o rosto agarrado pelas mãos do loiro.
— Mi... – A voz estrangulou-se-lhe, ante uma nada discreta inspeção. Milo virava-lhe o rosto de um lado ao outro, procurando sinais de agressão.
Nada.
Não estava ferido.
APARENTEMENTE.
Tomou as mãos brancas do ruivo entre as suas; estudou-as cuidadosamente, bem como parte do antebraço.
— Milo...? – Camus finalmente conseguiu articular. Milo encarou-o, e, em seguida, encarou desafiadoramente o Duque de Borgonha, que, detrás do filho, franzia o cenho reprovando aquela cena. O conde voltou a segurar o esposo pelas faces já coradas. Indagou baixinho:
— Está tudo bem? Ele não...?
— Está tudo bem. – Camus confirmou timidamente.
Sob a mira do olhar feroz de Milo, Teobald II experimentou um tremor involuntário ao, mais uma vez, constatar em pensamento:
“Cristo! Ele ama mesmo o meu filho!...”.
Cingindo a cintura do marido, o Conde de Saint-Doulchard conduziu-o de volta à mesa, indiferente aos olhares curiosos. Teobald II engoliu em seco, esforçando-se por envergar naturalidade. Caminhou logo atrás dos dois, enquanto acenava para alguns que se curvavam à sua passagem. Por dentro fervilhava de sentimentos contraditórios.
Tornando o rosto na direção das miradas interessadas dos primos, Hilda deu com a singela cena, em que “sua irmã” era envolvida pelo amplexo protetor do formoso consorte. “Camille” virou-se para Milo e disse-lhe qualquer coisa. O loiro balançou a cabeça em aparente negativa teimosa. Puxou ainda mais “a esposa” para si e “a” beijou delicadamente nos lábios. Testemunhas uniram as mãos em contemplação romântica. Por algum motivo que lhe fugia, o pai arregalou os olhos; parecia surpreso… a noviça voltou a fitar os primos, e, polidamente, anunciou:
— Com as vossas gentis licenças, retirar-me-ei para tomar um pouco de ar no jardim.
— Permiti que vos acompanhe, minha prima?
— “Senhora” minha prima, Andreas. – Pontuou Surt, sério. E como em uma derradeira recomendação: – Nossa prima é uma futura freira.
Hilda considerou o primogênito de seu tio Durval longamente. Expressão alguma se lia no rosto pálido da jovem. Tanto Andreas quanto Surt chegaram a acreditar em que ela declinaria da oferta. Contudo...
— Ficai à vontade, senhor meu primo. A casa de meu pai certamente é vossa casa também. – Sua voz não traía qualquer emoção.
Sem esperar por ele, a moça deu-lhe as costas para sair, comprovando sua indiferença pela companhia. O que não impediu o rapaz de dar um sorriso triunfante ao se levantar com presteza. Surt apoiou o rosto com a mão e admoestou em voz arrastada:
— Andreas, por favor, pelo menos por HOJE... já foi um milagre nosso tio haver convidado-nos depois de tuas cenas no casamento de Camille ano passado...
— Espera e verás. Em breve, titio não precisará nos convidar a Turenne.
— Que queres dizer?
Andreas somente riu. Apressou-se, antes que pudesse perder a prima de vista.
“Bem, não deixa de ser divertido. Suas tramoias sempre dão cores a estes eventos sonolentos.”, pensou o arcebispo, com saudade de lugares privativos nos quais podia realmente se divertir... suspirou saudoso e entediado, servindo-se do incomparável vinho de Borgonha. Precisava levar dezenas de litros dele para Bourges...
A uma boa distância dali, Milo e Camus não lograram voltar para a mesa: foram interceptados por Aiolia, Marin, Seika e Michel, empolgados em ver os mais velhos perto de onde ocorria a principal diversão... propuseram trocar de parceiros de dança, em uma competição jovial. Sendo uma tradição das mais variadas festividades, declinar, bem no centro do salão, estava fora de cogitação...
Enquanto isso, Hilda e Andreas desciam a escada marmórea cercada de rosas para acessar o pátio que antecedia as demais áreas. Perto de uma fonte de onde já se divisavam as altas árvores floridas, menestréis entretinham tanto convidados que tiveram a mesma ideia da noviça quanto os que se entregavam aos jogos não tão velados de conquista.
— Aqui está um tanto ruidoso para vós, creio... – Sussurrou Andreas à dama, indisfarçadamente apática.
Hilda limitou-se a inclinar a cabeça em uma silenciosa confirmação.
— Há algum retiro em especial do qual sintais falta?
Ela olhou-o como se não tivesse compreendido-lhe a pergunta. O aristocrata explicou:
—Trata-se de vosso lar, senhora. Conhecei-lo melhor do que eu.
— Não é mais o meu lar. – Foi a réplica, sem qualquer inflexão.
Como Andreas fingisse perplexidade àquela declaração, a jovem completou:
— Meu lar agora é na casa em que sirvo ao Nosso Senhor Deus.
— Bem, mas haveis de lembrar-vos dos sítios de que mais vos agradastes outrora, não?
— Não me ocupo do passado, senhor meu primo. Morri para o mundo, renasci para Cristo.
— Naturalmente. – Enunciou o ruivo, simulando compreensão. – Neste caso, tenho eu a permissão de escolher onde tomarmos a fresca? Lembro-me vagamente de um jardim próximo à capela. Em minhas remotas recordações de petiz, fazia-se assaz aprazível...
— Depois da vinda de Afrodite ficou ainda mais belo. Nunca houve alguém por acá tão hábil no cultivo e manutenção das plantas. – Hilda deixou escapar, e Andreas pôde perceber que ela não havia se esquecido tanto assim do antigo lar.
— Ao que parece, agora está em Paris, estudando Medicina. É o final dos tempos, podeis imaginar? Um serviçal... jardineiro e camareiro... aspirante a tão elevado ofício! – O rapaz comentou, irrompendo em risos. Seguia por uma alameda povoada por íris e campânulas, guiado pela silhueta da igrejinha engolfada pela tênue cerração trazida pelo crepúsculo.
— Em verdade, possuía origem nobre. Soube certa vez que a família dele era uma das mais influentes de seu país.
Ele agradou-se de que a loira estava a falar um pouco mais.
— Com efeito, recordo-me do próprio contar-me isso, com uma empáfia hilariante.
Atravessaram um pórtico de pedra esverdeada no qual emaranhavam-se vegetações entremeadas de flores brancas. No limiar do horizonte, observavam-nos as cruzes e as lápides da morada final dos Turenne. A despeito do belo jardim que figurava do outro lado, a atenção da noviça pareceu desviar-se para o dormitório dos mortos. A centelha nos antes apáticos olhos violeta não passou despercebida ao atento Andreas.
— Gostaríeis de visitar os vossos... ? – Murmurou à jovem. Notou que alguma emoção enfim se lhe manifestava no semblante. Hilda teve um breve sobressalto. Como que pega em falta que tentava debalde ocultar.
— Pode ser que eu não tenha mais essa oportunidade. Portanto... – Tencionou justificar-se, recompondo a aparência desinteressada.
Seu acompanhante anuiu, selando um entendimento cúmplice. Guiou-a pelo caminho sombreado pelos salgueiros-chorões. Debaixo das árvores, que esparramavam uma noite prematura, a temperatura despencou, mas Hilda não deu mostras de se importar.
— Malgrado a morte impere neste lugar, sinto-me mais viva aqui do que naquele festivo salão.
Andreas olhou-a com um misto de surpresa e curiosidade. Sim, não se enganava. Quase nunca se enganava.
Um acento de ressentimento na voz baixa e modulada.
Saboreou-o, esculpindo um plano em uma vaga ideia. Falou em tom simpático:
— São palavras deveras singulares, contudo, não posso dizer que não concordo convosco.
Ela fitou-o com certa incredulidade. Erguendo as sobrancelhas, o ruivo quis reforçar:
— Nem ao menos tive ânimo para convidar nenhuma dama para dançar, percebestes?
— Julguei que fosse devido ao vosso luto.
— Bem, já faz um bom tempo que minha esposa se foi, que Deus a tenha...
— O luto de alguns por vezes faz-se perene. Vede meu pai... nunca mais contraiu matrimônio.
— Não possuo mesma inclinação. Penso segundo as Escrituras, “Não é bom que o homem esteja só”.
Um "hum-hum” quase inaudível foi a resposta de Hilda. Caminharam pelo cemitério em silêncio, os cantos dos pássaros escasseavam-se ao avançar da bruma. A jovem deteve-se frente a um túmulo bem recentemente agraciado pela lembrança dos vivos: ornava-se de cântaros repletos de vistosas e frescas flores. Seu olhar perdido ali pairou, ela mesma semelhante às estátuas cemiteriais. Andreas perguntava-se se a prima não sentia frio: ele, tão resistente ao frio, enregelava-se! Mas não ousava romper a magnitude daquele momento com trivialidades. A “priminha” estava belíssima naquela aura trágica, o rosto imoto de puro alabastro, perfeito, com duas manchinhas rubras a insinuar-se-lhe nas maçãs. Foi a extremo custo que da linda figura os olhos avelã de Andreas se retiraram para dele sanar uma dúvida.
Na mármore clara, os nomes dos que ali dormiam: Maude de Turenne e Camus de Turenne.
— Sentes falta dos teus?
Os dedos claros da donzela acariciaram discretamente a pétala de uma rosa que emergia de um mavioso arranjo defronte à estela de Camus.
— Minha mãe foi uma perda irreparável para mim. Eu a amava tanto... ao mesmo tempo, magoou-me o fato de que o desgosto pela perda de um filho tenha sido responsável por sua partida.
— Sim, lembro-me de meu pai ter falado que tia Maude nunca mais foi a mesma depois da morte do primo Camus...
— Assassinato.
Andreas surpreendeu-se com aquela correção. O vocábulo parecia tão impróprio nos mimosos lábios daquela criatura suave!
— Pelo que eu saiba, creditaram o infeliz ocorrido a um acidente durante uma caçada...
— Papai nunca aceitou isso. Creio que perdeu um pouco a sanidade após a morte de Camus.
— Bem... talvez por isso, ele tenha acreditado ter sido crime uma fatalidade...?
— Talvez em parte. No entanto, é fato que o pajem foi encontrado morto junto de meu irmão, abatido da mesma forma. Por isso...
— Sim, ouvi os rumores à época, e muito tempo depois... mas como nunca houve condenados...
— Nunca houve sequer suspeitos. – Completou a loira, fleumática.
Seu olhar distante cravou-se nas efígies entalhadas em mármore escura.
— Aquele foi o dia mais triste de Turenne, quiçá de toda Borgonha. Entretanto, quando vos digo que meu pai perdeu “um pouco da sanidade”, refiro-me não ao em que ele acreditava, e sim a como ele passou a agir.
Vivo interesse luziu no olhar fixo de Andreas.
— Sim? E como foi que ele passou a agir?
As pequeninas mãos de Hilda crisparam-se ao longo do corpo coberto de negro.
— Deveis ter ouvido. É notório que meu pai transferiu a Camille a educação que deveria ter dado a Camus.
— Ah sim! Muito se falava do “duque excêntrico”, que criava a primogênita como a um varão. Diziam que só faltava vesti-la como um...
— Que horror, eu não estava a par disso...!
Após uma risada curta, Andreas prosseguiu:
— Comprovei eu mesmo o resultado de tão insólita formação, quando vossa irmã Camille brandiu uma espada em minha direção... e, devo dizer-vos, rendeu-me como ninguém jamais o fizera!
Os olhos claros da moça arregalaram-se, para, em seguida estreitarem-se novamente. Quis saber:
— Quando ela fez isso?
— À época dos festejos de seu casamento, em Saint-Doulchard.
Por que aquilo parecia divertir o primo ao invés de causar-lhe indignação? Sem conseguir entender, a noviça suspirou e comentou:
— Imagino que tenha sido uma auspiciosa celebração.
— Lamento que não tenhais comparecido...
— Asseguro-vos que minha ausência foi devida ao meu recém adquirido dever para com Nosso Senhor.
— Sim, vosso pai participou-o conosco.
— Imagino que ele tenha participado também os motivos...
— Não foi necessário. – Volveu ele, dando de ombros.
— Oh, claro. Que parte de França não terá ouvido falar de tão nodoso escândalo? – Um sorriso amargo retorceu-lhe a boca rosada.
— Escândalos ocorrem em proporção mui similar àquela com que são olvidados. Penso que o senhor meu tio foi precipitado em enviar-vos para um convento.
— A vontade de um pai encontra-se abaixo somente da vontade de Deus. – Havia nítida reprovação naquela réplica.
Andreas questionava-se, levemente fascinado, até que ponto seria legítimo aquele conformismo. Ouvira histórias de sua prima bastantes a ponto de fazê-lo ponderar aquela... aceitação.
— Vós o amáveis?
— A quem?
— A Milo.
Hilda tornou-se escarlate como os cravos e as tulipas afogadas nos vasos tumulares. Fez menção de retirar-se de supetão. Foi, porém, impedida pelo rapaz, que a segurou lépido pelo braço.
— Esperai! Por que...
— SOLTAI-ME! Com que direito dirigis a mim indagação de tão pernicioso teor?
— Perdoai-me! Conversávamos tão à vontade que eu...
— Soltai-me! – Repetiu a jovem, quase em um rosnado.
— Está bem. Soltá-la-ei. Mas se fugirdes para longe de mim sem responder-me, afirmareis com vosso gesto apaixonado que não vos encontrais tão entregue assim à vida religiosa. Rendei-vos assaz facilmente às emoções.
Ele largou-lhe o braço. Foi como esperava – Quase nunca se enganava! – a moça não partiu. Continuou parada, segurando instintivamente o próprio braço, ainda que não estivesse nada dolorido. Sucumbiu à demanda do primo:
— Eu NÃO o amava. Interessei-me por ele, sim, por ser belo, altivo, carismático...
— ... e por ser noivo de Camille.
Ela considerou-o, bufando.
— Desconheço a razão que vos leva a interpretar dessa maneira. Foram apenas arroubos inconsequentes de uma criança que não seguia plenamente a Deus.
— Despi-vos dessa máscara, priminha. – Chasqueou Andreas, acercando-se dela como uma ave antropófaga – Ressente-vos da prioridade que vosso paizinho reservou à primogênita que rememora a imagem do varão perdido.
— Ora, mas que... que audácia!... – Ela perdia o ar com tamanho ultraje.
— Não é só na França, senhorita Hilda, em que vagam os contos acerca de Teobald II treinando a filha mais velha nos bosques... ensinando-lhe luta, esgrima, técnicas de combate, a cavalgar... permitiu-lhe aprender a ler e a escrever, permitiu-lhe estudar Matemática, Filosofia, Latim... levava-a até em viagens de negócios. Tudo tão insólito! Sim, tais histórias ultrapassam as fronteiras de vossa terra: Camille tornou-se uma lenda. Agregada a isso tudo, a fama de sua beleza única, entre selvagem e etérea...
— Basta! – Escutar aquelas palavras admirativas da boca de outro moço garboso fez vibrar de ódio todas as fibras de seu adormecido ser. – Não compreendo o sentido desta conversa.
— Convencer-vos de que possuo empatia por vossa causa.
— Que quereis dizer?!?
—Julgo excessiva a pena a vós infligida por meu tio. Por causa de uma maquinação tola movida por ciúmes da irmã mais destacada, tanto na sociedade quanto no coração do papaizinho, a condenação perpétua... ser sepultada em vida em um claustro!
— Servir a Deus não é uma condenação, senhor Andreas de Turenne, e temo por vossa alma por assim considerar. É um imenso privilégio.
O rapaz percebeu que, embora a prima insistisse na farsa, não se importou em contestar os “ciúmes da irmã mais destacada”.
— Ademais, se vimo-nos duas ou três vezes nesta vida foi demasiado. Não entendo vosso interesse por minhas ações passadas, todas remidas por Jesus...
— O sangue por si só justificaria. Não obstante... confesso que, de fato, há algo além da empatia parental.
— Oh sim? Uma curiosidade exacerbada, alcoviteira, portanto IMPRÓPRIA de um cavaleiro?– Vociferou Hilda, em um postura desafiadora e petulante, que fez Andreas lograr seu intento.
Vislumbrar a VERDADEIRA Hilda.
A Hilda que conduzir-lhe-ia à glória almejada.
— Não. Um sentimento que prontamente aflorou em meu peito, árido pelo luto, tão logo eu vos vi, senhora...
Tomada de genuíno estupor, a noviça encarou-o. Arregalou ainda mais os esplêndidos olhos violeta quando o primo tomou-lhe a mão fria, depositando-lhe no dorso macio um lento beijo, após concluir:
— ... creio piamente que seja AMOR.
*************
Após dançar com Milo, Aiolia e Michel (e repetir a sequência seguidamente por incontáveis vezes) , Camus conseguiu convencer as irmãs de que precisava descansar. As meninas fizeram muxoxo ao resmungarem “não és nenhuma velha!”. Milo foi em seu auxílio, pretextando semelhante fadiga. Tomou o braço do amado e ambos deixaram o centro do salão.
— Pela Virgem, eu já não aguentava mais– Suspirou o ruivo, sinceramente cansado.
— Não descansamos bem de nossa longa jornada.
— Muito por TUA culpa, não?
— E porventura não te deleitaste com minha pujança? – Milo dirigu-lhe um sorriso malicioso. E, ao mesmo tempo, irresistível... com o coração aos pulos, Camus cerrou as pálpebras em um enfado cênico.
— Bem, confesso que estou ansioso para saber o teor de tua conversa com teu pai.
— Podes imaginar que aqui não é para isso lugar. – Respondeu em voz baixa, olhando ao redor. Após cumprimentarem algumas pessoas que foram ter com eles, chegaram enfim à mesa principal. Ali continuava sentado o Arcebispo de Bourges, entretido em animada conversa com duas belas damas. Perto deles, os pais de Michel e outros nobres palestrava, comiam e bebiam. Camus buscou Hilda com o olhar atento. Não a encontrou. Percebeu que nem ela nem Andreas ali se encontravam.
— Oh, sede bem vindos, caríssimos conde e condessa de Saint-Doulchard! – Saudou-os Surt, afetado.
— Dir-se-ia que éreis um anjo bailando por sobre as nuvens, senhora Camille! – Elogiou a futura sogra de Seika, a simpatia potencializada pelo vinho que punha-lhe as bochechas em fogo.
Camus sequer conseguiu sorrir em agradecimento. Encarando firmemente o primo, indagou:
— Onde está Hilda?
Seguiu-se um silêncio estupefato, devido ao constrangimento instaurado pelo tom ríspido de “Camille”. Imperturbável, Surt devolveu o olhar fixo e respondeu:
— Retirou-se pouco depois de vós.
— Vosso irmão também?
O Arcebispo ergueu as sobrancelhas irônico. Suas acompanhantes deram risinhos abafados.
— Sim, meu irmão também.
— Para onde foram?
—Camille! – Disse Milo, no afã de controlá-lo, pois que começava a intrigar os presentes com aquela falta de polidez repentina.
Surt abriu a boca para responder. Um repuxão convulso na face esquerda denotava vontade de rir.
— Perdoai-me, não lhes inquiri acerca do destino, tampouco das intenções. Acaso há algum problema em curso por aqui, do qual não estejamos cientes?
Camus sentiu o rosto queimar de raiva. Milo dirigiu-se aos demais, tentando disfarçar o mal estar com uma mentira:
— Claro que não, eminência. Ocorre que, como estávamos a nos divertir deliciosamente, pensamos em vir chamar os dois para dançar conosco.
— Dançar? Uma noviça? – O Arcebispo fez-se de espantado. Virou-se para os outros: – Malgrado numerosas mudanças em nossa sociedade, penso que ainda não chegamos a esse ponto de transgressão, chegamos?
— Bem, não entendo de assuntos referentes à vida de vós, devotados à vida religiosa. Já que minha cunhada ainda não é freira, quem sabe...
— Tornar-se-á. Contanto que não sucumba a tentações mundanas, como danças e folguedos. – Retorquiu Surt, dirigindo-lhe idêntico sorriso.
Camus não estava gostando nada daquilo. Primeiro, os olhares de Andreas para cima de Hilda, e agora, ambos evadiam-se das vistas de todos! Por mais que a irmã parecesse mudada, não podia evitar a sensação de que algo estava acontecendo. Havia sido toda uma vida de ardis, intrigas, dramas. Tempo demais para confiar em que Hilda não fosse causar nenhum contratempo, a despeito do hábito que vestia. Quanto a Andreas... bem, não possuía dele boa imagem, tampouco lembrança. O primo revelara-se afeito a confusões... divertia-se com elas, já entendera-lhe a personalidade doentia.
— Camille, não estás a ouvir-me? – Milo puxava a cadeira para que o consorte se assentasse. Este nem havia percebido.
— Perdoai-me, senhor meu marido. Se mo permitis, gostaria de ir ter com o senhor meu pai...
— Teu pai? Acabaste de ter um particular com ele, não? Porventura ficou algum assunto pendente?
— De certa forma sim... – Mentiu. Ao ver a expressão severa do loiro porém... – Não, não é que tenha ficado algo pendente. É que...
Súbito, deu-se conta de que talvez não fosse boa ideia participar o sumiço dos dois ao pai. Teobald II já fora suficientemente magnânimo permitindo em tão venturosa celebração a presença da filha que caíra em desgraça. Se ele desconfiasse de que Hilda estivesse a maquinar alguma altercação, Deus sabe como reagiria! Viu o pai dançando com uma elegante dama que parecia sorrir excessivamente. Também ele divertia-se, aparentemente...
— Bem, se nada tens a tratar com o senhor meu sogro, por que não te sentas, por fim, entre nós? – Sugeriu Milo, estranhando a atitude do sempre discreto e impassível rapaz.
— Sim, senhora Camille, honrai-nos com vossa presença, por favor! Sequer tivemos a chance de travar uma prosa convosco! – Uma das damas a acompanhar Surt falou, esmerando-se em obter a simpatia “da” notoriamente “fria condessa”.
— Ademais, o Duque está dançando com a Duquesa de Lyon. Vede como estão empolgados! Riem um para o outro como dois jovens! – Ajuntou o Marquês de Aquitânia.
Perto deles, um senhor de bastos cabelos cinzentos como os diminutos olhos observou, diminuindo-os ainda mais durante aquela inspeção:
— Ora, Alteza, a Duquesa de Lyon não é assim tão velha... tem lá seus 40 anos, quando muito. Está viúva há quatro anos. Quem sabe não estão a se entender...
— Com efeito, é um belo exemplar de candidata àquela que há de extirpar a invencibilidade do Duqye de Borgonha... – Concordou o barão de Tilliers, provocando risos.
Consciente de que seria um despropósito incomodar seu pai por causa de uma cisma, Camus mordeu o lábio inferior; virou-se para Milo, que continuava a fitá-lo, como a recomendar-lhe discrição. Por fim, aceitou a gentileza do esposo e tomou lugar à mesa. O Conde sentou-se em seguida. Conhecia o amado o suficiente para interpretar aquele comportamento, mas não compactuava com semelhante atitude. De sua parte, durante a conversação que se estabeleceu alegremente então, Camus só conseguia associar a expressão de Andreas diante de Hilda ao histórico do primogênito de Durval: seu desejo por fazer parte da família do Duque de Borgonha, o homem mais poderoso de França... suas duas viuvezes consecutivas...
Esforçou-se por retomar a cênica naturalidade de sempre. Por dentro, outrossim, um desconfortável pressentimento despontava...
*************
Em um movimento rápido, Hilda tirou a mão da grande palma que a contivera. Exasperada, questionou:
— O que é esse acinte?
— Não se trata de nenhum acinte, senhora: é uma confissão sincera....
— Quanta ousadia! Sou uma mulher consagrada a Deus!!!
— Poderia isso impedir-me de amar-vos?
— Amar-me! Sequer conheceis a mim, senhor. Creditais ao amor um ébrio delírio.
— Não estou ébrio, asseguro-vos, e sim desperto para o sinal pelo qual sempre esperei. – Tentou tomar as mãos da prima novamente. Foi prontamente repelido.
— É um sinal sim... um sinal de que enlouquecestes...
— Enlouqueci ao ver-vos adentrar aquele salão, como em um sonho há muito por este vosso servo esquecido.
A jovem expirou injuriada. Que tipo de chiste era aquele? O primo tão belo, tão portentoso, com tantas damas a seu dispor! Por que haveria ele de cortejar justamente alguém que não poderia receber-lhe a corte? Nem dele, nem de ninguém.
Jamais.
Nunca mais!
Quase sufocada de aflição, ela apoiou-se a uma coluna em estilo dórico. Quis saber:
— Por que motivo escolhestes a mim, uma pobre serva de Deus, para tripudiar?
— O Deus a quem servis é testemunha de que profiro apenas a pura verdade. – Andreas aproximou-se da coluna, quase sussurrando sob falsa emoção – Enamorei-me de vós, minha estimada prima.
— Isso é uma sandice! Supondo que seja MESMO a verdade, é uma total sandice! O único compromisso que posso ter nesta vida é com Nosso Senhor Jesus Cristo, será que não podeis concebê-lo? – Apontou as próprias vestes negras, quase em desespero.
A mão direita de Andreas alcançou-lhe a mão esquerda; aquele mero toque, pele a pele, fê-la estremecer.
— E isso é o que dilacera-me o coração: a visão de tão formoso anjo, cativo como um pássaro raro em uma gaiola de ouro.
Da boca entreaberta de Hilda podia-se distinguir a respiração falhada. Seus olhos umedeceram, tornando-se ainda mais magníficos perante o jovem.
— Cuidado com vossas palavras. O “cativeiro” a que vos referis é a casa de Deus.
— Hilda – Murmurou Andreas, tão próximo agora que ela pode sentir-lhe o cálido e perfumado hálito, vinho e canela, orgulho e admiração, desejo e proibição... – Perdoai-me... mas a mim parece crudelíssimo destino o escolhido para vós, tão somente por um inocente deslize pueril. Então porque cobiçastes, por um átimo, o que fora destinado a quem TUDO vos tirou, mereceis ser encerrada em vida por toda uma existência, que deveria ser preenchida por uma família? Por um marido prestimoso, por numerosos filhos roliços e saudáveis?
Aturdida com aquelas palavras, a noviça deu dois passos para trás. Sem apoiar-se em nada, fitou o galanteador com um olhar febril. Retomou o ritmo da respiração, inquiriu, em tom desdenhoso:
— Vosso colóquio prescinde de lógica para mim. Por que julgais que Camille tirou-me tudo?
— Por causa dela, meu tio nunca deu a devida atenção às outras filhas. Assim já mo contava meu pai.
— O... o tio Durval contava isso?
— Sim. – Pôs-se a florear os fatos narrados pelo pai. – Ver o rosto do falecido filho varão no rosto da primogênita deixou-o obcecado por ela. Além do tratamento totalmente diferenciado à vossa irmã dispensado, Teobald sequer permitiu que as demais arranjassem casamentos, pois que em sua obsessão não aprovava nunca nenhum pretendente à mão de Camille. Vede, chegastes a dezoito anos solteira como uma camponesa... não por falta de candidatos, creio.
Lágrimas brilharam intensamente no olhar esgazeado da moça. Empreendia esforço por não deixá-las rolar pelo rosto congestionado.
— Decerto que não. Enquanto a filha mais velha não fizesse seus esponsais, por que iria um pai procurar noivos para as mais novas? Sempre foi assim e sempre será... nunca soubemos por que papai recusava todos os que pediam-lhe a mão de Camille... nobres das mais altas estirpes, príncipes, reis... inclusive o senhor meu primo, pelo que sei.
— Era a vontade de meu pai, unir os dois primogênitos dos Turenne mais influentes de França.
— Lamentai-vos, por certo – O ressentimento na fala da loira facilmente identificável animava-o mais e mais. – Vistes como Camille tornou-se formosa...
— Como disse, era a vontade de meu pai, não a minha. Não nego a beleza de vossa irmã mais velha, aliás, de nenhuma de vossas irmãs... mas, dentre elas, sois uma verdadeira divindade...
— Divindade, ora pois. – Riu-se, cheia de amargor. – Sou é uma perdida...
— Mas não consumastes o ensejo com Milo, é o que se anunciou aos quatro cantos. Como seríeis “uma perdida”?
Ela tornou-se carmesim.
— Não é a ISSO que me refiro! Quando digo “perdida”, refiro-me à deserção imposta por meu pai. Ao meu exílio. Extirpada do convívio com os Turenne como uma viúva coberta de chagas!... – Cobriu a boca, caindo em si horrorizada.
Por que murmurava? Não tinha se conformado com o desfecho de sua vida? Entregado-se docemente à vida religiosa, envolta em paz e santidade? Ela mordeu os lábios com tanta força que sentiu o metálico sabor do sangue. Abaixou a cabeça e, com voz tremida de ódio, perguntou:
— Entendo. O patético de minha tragédia é o que vos atrai a mim.
Andreas suspirou, como em angústia. Abriu os braços e declarou:
— Duvidais, então, que seja amor a mover-me. Contudo, que outro sentimento brotaria em meu peito ante a visão de uma criatura como vós? De vossos olhos de céu primaveril? De vossas feições perfeitas de santa imaculada? De vossa tez fresca e sublime como a pétala da rosa magistral?
Hilda mirou-o, visivelmente embevecida por aquela arrebatada declaração. Há quanto tempo não lhe louvavam a beleza, agora sempre oculta pelos pesados hábitos e pelas sombras do claustro! Ouvir um louvor composto a si na voz grave e máscula de um homem garboso causou-lhe uma emoção sentida unicamente em sonhos dos quais urgia confessar-se... um calor temível apossou-se dela. Tomou distância do primo, temendo sufocar.
— Preciso retornar ao salão. Peço, em nome de todos os santos, que não me detenhais. Receio que já estejam a estranhar minha ausência.
Assentindo, Andreas dirigiu-lhe um terno sorriso de compreensão. Por dentro sorria largamente. Não. RIA-SE vitorioso. Sem mais nada dizer, a donzela deu-lhe as costas. A passos rápidos deixou o antigo cemitério, rumo à casa palaciana. Embora o primogênito de Durval tivesse consciência de que não havia vivalma por perto, olhou ao seu redor. Apenas os mortos faziam-lhe companhia. Fitou distraidamente a estela do primo falecido.
— É, meu querido Camus... sois a primeira testemunha da grande mudança que haverá em nossa família... vós e a senhora minha tia, claro. Justo, uma vez que foi o vosso fim que deu início à transformação. – Riu debochado, enquanto ajeitava algumas mechas ruivas bagunçadas pelo forte e repentino vento. – Orgulhar-vos-eis deste vosso primo... conduzirei os Turenne a uma glória sem precedentes. Vereis que vosso sacrifício veio muitíssimo a calhar. É um doce consolo, penso eu.
A esta altura, Hilda atravessou os jardins, quase ofegante pela pressa com que se dirigia para a festa. Contribuía certamente para aquilo a emoção que se avolumava dentro de si, Tinha a cabeça confusa, enevoada. Precisava pensar. Precisava confessar-se. Quase desejou estar de volta ao convento!
Ao adentrar o corredor que dava acesso ao grande Salão, deparou-se com a figura imponente de Camille.
— Hilda!
— Irmã... Camille... – ofegou.
— Onde estiveste? Procurar-te-ia nos pátios externos agora mesmo.
— Fui visitar o túmulo de nossa mãe e de nosso irmão. Mas... – Tomava fôlego à medida que sua expressão se endurecia. – Por que razão ias procurar-me? Temias que eu me perdesse em meu antigo lar?
— Oh, não – Camus sorriu de leve, suavizando o tom e a expressão. – É que tardavas a retornar... quis averiguar se estava tudo bem contigo.
— E... por que não estaria?
O ruivo sustentou o sorriso, decidido a não mencionar a ausência simultânea de Andreas. Simultânea e... igualmente demorada.
— Tens razão. Como não me agrado de aglomerações, não estranharia se precisasses tomar um ar.
— Agradeço tua preocupação, irmã. Bem... como podes ver, estou de volta.
A afirmação teve um duplo sentido perante a sensibilidade adormecida de Camus. Uma súbita tristeza refletiu-se em seu discreto sorriso ao dizer:
— Sim, posso ver. Espero que estejas feliz por estar de volta.
— Ainda que por escasso período, sim, estou feliz.
Camus sentiu a agulhada da culpa. Olhou a irmã com um misto de constrangimento e compaixão.
— Não tivemos oportunidade para conversar desde que chegamos a Turenne. Gostaria de que pudéssemos fazê-lo alguma hora...
— Pois já não estamos a conversar?
— Sim, claro... – Camus perturbou-se com aquela réplica seca. – Refiro-me a uma conversa mais...
Não foi capaz de encontrar uma palavra. Durante a espera do que “a mais velha” iria falar, Hilda ergueu uma sobrancelha. Foi então que Camus viu-lhe no rosto a imagem da “antiga Hilda”.
Estavam ali o escárnio, o desprezo, a arrogância.
Seria mera impressão?
Queimava-se de vontade de perguntar se Hilda havia encontrado Andreas… “por acaso”, claro.
Freou a língua.
— Gostaria de saber como tens passado. Como é a vida no convento.
— Por quê? Tencionas abandonar Milo e ir para um?
Impactado, o ruivo encarou-a quase boquiaberto. Respondeu, claudicante:
— Não! Digo... queria saber se tens te alimentado bem... se tens levado uma vida tranquila...
— Oh, sim, MUITO tranquilo, tu não poderias imaginar como! Nada de festas, banquetes, bailes, saraus...
— Bem... ao menos, tens levado uma vida agradável?
— Como não seria agradável uma vida inteira e exclusivamente dedicada a Deus, minha irmã?
— Hilda... – O tom saiu mais suplicante do que pensara.
Deteve-se ao ver surgir no corredor o primo mais velho. Andreas vinha a passos calmos, com postura tranquilamente decidida de quem volta de um deleitoso passeio. O jovem saudou as primas despreocupadamente:
— Senhoras. Com as vossas licenças – E passou por elas.
Camus resistiu ao impulso de olhar para trás. Seus olhos castanhos pousaram antes na irmã à sua frente, repletos de perguntas que não deveriam ser feitas. Hilda notou-lhes a desconfiança. Curiosamente isso não a deixou insegura como pensou que deixaria.
Não.
Ver aquela expressão no rosto de “Camille” conferiu-lhe uma incrível... satisfação.
— Algum problema, irmã Camille?
Os finos lábios do jovem comprimiram-se. Ele meneou negativamente a cabeça.
— Absolutamente, querida Hilda.
— Tens a certeza? – Ali estava, o sorrisinho cínico de outrora! – Pareceu-me um pouco desconcertada.
— Eu apenas pensava em que é melhor retornarmos à festa. Haverá um número de prestidigitadores mui renomados da Boêmia ao anoitecer, ouvi dizer que são os melhores de Europa!
A mais nova fulminou-o com frio desinteresse.
— Não parece algo propício à pessoa que sou agora. Prefiro retirar-me para o meu quarto. Voltarei em algumas horas.
— Posso acompanhar-te, se te aprouveres.
— Oh, não. Não desejo subtrair-te de tantos divertimentos. Agora estou mesmo acostumada a não tê-los.
— Como queiras. – Sentindo-se dolorosamente atingido, o rapaz não insistiu. Deixou-a partir e ali permaneceu imóvel, sob o peso de uma sensação inexplicável de derrota.
“Hilda... nunca acreditei que pudesses ter conformado-te com a sentença dura de nosso pai... mas, ao que parece, segues a odiar-me com furor...”
Em um volteio desanimado, pôs-se a caminho de volta ao salão.
“Como seria diferente? Sempre odiaste-me. Desde criança. Por ser a mais velha. Por ter matado nossa mãe de tristeza. Por ter sido o centro das atenções de nosso pai. Por ter recusado noivar-me, assim atrasando seus esponsais... e agora, atribuis a mim teu destino encerrado em um claustro remoto...”, pensava, entristecido.
Era justo, no entanto, sentir-se culpado.
Sabia que não era. Intercedera por ela! O pai, contudo, mantivera-se inflexível na decisão de punir exemplarmente a rebenta que “jogara-lhe o nome à lama”.
Alguns serviçais passaram por ele; perguntaram se “a senhora condessa” precisava de algo. Camus sorriu-lhes, recusando. O esforço por sorrir agora parecia ainda maior.
*************
—Sigo sem acreditar em como agiste de maneira tão imprudente...
— Imprudente? Só porque inquiri acerca do paradeiro de minha irmã e de meu primo? Onde está a imprudência nisto?
—Sabes a que me refiro. – Retrucou Milo, removendo as fitas das compridas saias do vestido do marido. Um tanto irritado, Camus desfazia impacientemente o penteado, que já estava a lhe dar dor de cabeça.
— Espera, acabarás por fazer nós em teus cabelos. – Advertiu o loiro, removendo a última anágua.
— Tanto se me dá! Tenho ganas de pôr abaixo esta maldita cabeleira e aderir às perucas...
— Faz isto e juro-te que no dia seguinte ver-me-ás careca como um ovo.
— Fica à vontade. – Resmungou o ruivo, cruzando os braços contrariado. – Hás de concordar como é mais prático. Oh, esqueço-me de que tu, como HOMEM, não precisas subjugar-te a estes penteados torturantes e ridículos.
O cavaleiro segurou-o delicadamente pelos ombros e fê-lo virar para si.
— Que há contigo? – Indagou com doçura.
Torcendo os lábios como uma criança emburrada, Camus desviou dele o olhar ao responder:
— Considerar-me imprudente é um pouco excessivo, não? Todos os segundos de minha vida são meticulosamente monitorados a bem de não suscitar suspeitas.
— Meu amor, justamente por tua perene serenidade é que causou estranheza tua visível perturbação quanto à ausência de Hilda e Andreas. Tornaste-te impolido, até! – Elucidava com tão branda paciência que desarmava aos poucos o mau humor do outro. – Estamos em um casamento. Eventos, palestras, reuniões ocorrem em todos os cantos da propriedade. As pessoas não são como uvas em um cacho, eventualmente separar-se-ão. Tu mesmo te retiraste por comprido período, pretextando ir ao reservado, e no entanto, vê! Foste caçar Hilda!
Camus permaneceu em constrangido silêncio. Ficou em dúvida se deveria tirar os enchimentos e corpete. Turenne tornara-se uma terra estrangeira, e ele já não se sentia tão seguro em fazê-lo no privado do quarto de dormir. Milo precisou mostrar-lhe novamente a porta do apartamento, fechada a resistentes e enormes trincos de ferro.
— Eu sei que ela estava com Andreas, Milo. Vi isso nos rostos dos dois.
— E se estavam juntos, o que é que tem isso? Deixa-os. Se Hilda meter-se em novo escândalo, nada terá a ver com tua pessoa.
Retirou do baú uma comprida túnica de seda perolada e entregou-a ao ruivo. Sentou-se no tamborete forrado de veludo vinho para tirar os calçados.
— Não é isso, Milo. Digo, não é apenas isso. – Vestiu a camisola, sem ter removido os adereços que conferiam-lhe formas feminis. Manteve no pescoço o lenço e as joias.
— Espera, vou tirar ao menos isso de ti.
— Não é necessário...
— Esses colares hão de machucar-te durante o sono, não sejas teimoso.
Virando-se de costas para ele, Camus cedeu e permitiu que lhe fossem retiradas as joias. Livre delas, pôde sentir o sutil toque dos dedos do amado em seu pescoço, em sua nuca. Suspirou com langor ao ter os cabelos ajeitados por carícias do esposo.
— Não quero ver-te preocupado com NADA. Muito menos com tua irmã Hilda, que tanto mal te fez. E AINDA faz, percebo-o.
— Que mal ela “ainda me faz”?
— Semear a culpa em teu coração nobre.
Pego em falta, Camus abaixou a cabeça. Em seguida, ergueu-a para argumentar:
— O que me preocupa é se Andreas resolver fazer a corte a ela.
— Fazer a corte? A uma noviça? – Arregalou os olhos azuis, divertido. – Oras, aquele lá é um desvairado, mas não a esse ponto! Não o creio.
— Certamente não deixaste de perceber as miradas e os galanteios que ele lhe dirigia.
— Reles força do hábito. Teu primo é um... – Esteve prestes a dizer “devasso”. – ... um galanteador contumaz. Agiria daquela forma até com a mãe octogenária do rei!
— Eu não sei, Milo. Andreas esteve casado por duas vezes, e ambas esposas pereceram prematuramente.
— Uma, no parto. Outra, por ser sonâmbula.
Foi a vez do cavaleiro despir-se. O ruivo encarou-o.
— A sério que não te causa nenhuma desconfiança tais coincidências? – Indagou.
— Claro que sim. Conheço Andreas bem mais do que tu o conheces. Bem mais do que EU gostaria de conhecer.
Camus reparou que Milo tornou-se sombrio à última frase. Preparava-se para inquirir o motivo quando o marido continuou, retirando do magnífico torso a túnica roxa com detalhes em brocado de lápis lázuli:
— No entanto, não há nada que ele possa fazer a Hilda. A moça tornar-se-á uma freira. E, inclusive, retornará ao mosteiro tão logo Aiolia e Marin deixem a Catedral de Borgonha, depois de amanhã.
— Sim, tens razão, meu amado. – Concordou Camus, em um murmúrio distraído.
— Repete o que acabaste de dizer.
— Hã... “tens razão...”
— Não, só o que veio depois.
O outro riu, em uma provocação sutil.
— Depois eu não disse mais nada.
— Disseste sim – Insistiu o conde, retirando apressadamente as calças justas.
— Não estou a me lembrar.
— Neste caso, restaurar-te-ei a memória.
— De que maneira? – Camus pôs as mãos para trás do corpo, dando uns passos para trás. Sufocou um riso ao ver o consorte quase tropeçar nas calças que lhe caíam pelos pés.
— Conheces bem o método: beijarei cada parte, cada recôndito de teu corpo, far-te-ei estremecer como uma folha ao sabor do vento, gemer como quem sente o alento escapar-se após um gozo inaudito... – Acercou-se do ruivo, que encenou uma tentativa de fuga. – Então hás de repetir aquelas doces palavras...
— Que doces palavras...? – Deixou-se ser capturado pelos fortes braços do marido, e no calor dos lábios nos quais os seus brincaram deixou escapar: – ...meu amado?
— Aaah, por Deus, és irresistível! Não podes culpar-me pelo que irei fazer...
Milo tomou-o nos braços e ergueu-o no ar, fazendo-o rir como uma criança. Caminhou até a alcova e atirou-o ao leito, propositadamente de qualquer jeito.
— Onde está o cavalheirismo do Conde de Saint-Doulchard? – Gracejou Camus, ajeitando-se em vão, pois que Milo já o puxava pelas pernas, apalpando-as por baixo da roupa.
— Está a ser consumido pelo fogo que tu atiças em mim...
Com um sorriso no qual se divisava um encanto lúbrico, Camus abraçou-o, a ele se entregando. Enfim, todas suas preocupações foram dissipadas pelo prazer ao qual o amado o conduziu.
*************
Em seus aposentos, Andreas considerava seu plano. Mãos cruzadas sob a cabeça, refletia estirado na enorme cama...
Não conseguira a primogênita do titio poderoso. As demais já se lhe haviam escapado do alcance. Contudo, restara aquela joia que o Duque julgara ter guardado em um cofre.
Não se enganara: Hilda nutria ressentimentos por Camille.
Ressentimentos arraigados há muito.
E, não, aquela preciosidade não fora tocada por nenhuma vocação religiosa oportunista. Oh, não, tinha a plena certeza disso.
Estava lá, estampada no belo rosto, patente na voz, denunciado no olhar.
Ela seria a chave para entrar na família de Teobald II de modo mais incisivo. Para obter-lhe terras, prestígio, poder... e no final... a própria primazia do clã.
Teobald II não era eterno. Um filho ou um neto varão não constavam do cenário. Restavam os genros... Aiolia não lhe inspirava qualquer receio. Milo, por sua vez, sim... demandava cuidado.
“Cuidado é o meu sobrenome, a despeito do que pensa o inútil do Surt.”, refletiu sorrindo para o forro do dossel acetinado. Afora Milo, quem poderia ficar-lhe no caminho? Umas reles mulherzinhas? Que resistência oferecer-lhe-ia uma família infestada de mulheres? Mesmo Camille, tão cheia de si, teria de engoli-lo no controle daquela Casa. Oh, sim... tão altiva, valente, valorosa... mas, ainda assim, apenas uma mulher!
Franziu o cenho ao pensar nela. Teobald imbecil! Tivesse entregado-lhe a mão de Camille e nada precisaria ser extremo. Quem sabe tivesse até conseguido ser um bom marido. Maldição, agradava-se daquela impertinente, bem mais do que gostaria... e que beleza singular, instigante... tão diferente das formosuras frágeis como cristais que mais davam-lhe ganas de destruir do que de usufruir!
“Camille eu não teria matado.”, pensou, evocando-lhe a imagem envolvente e desafiadora.
Lembrou-se de quando “a jovem” brandira uma espada em sua direção. Quantas e quantas vezes se masturbara relembrando aquele momento...
Nem pensou em repetir o feito, estava quase que mortalmente fatigado. Melhor seria entregar-se ao sono reparador, pois que seu grande amigo chegaria em algumas horas.
Filipe Augusto.
Aquele que certamente haveria de auxiliá-lo em sua recém arquitetada empreitada... afinal, o rei não havia sido tão “grande amigo” assim, quando apressou-se em garantir que um parente seu, o primo cretino Henri, entrasse para a família do Duque de Borgonha... poder-se-ia dizer que Filipe devia-lhe um favor, ora, sim.
Sorriu voluptuosamente, antegozando vitórias vindouras. Não tardou a dormir; tinha um sono abençoado, pois que nada nunca molestava-lhe a consciência…
*************
—... quer dizer então que ele falou isso? Mal posso acreditar.
— E por que não? Meu pai sempre foi um homem bom. Não entendo-lhe a incredulidade.
— Por muito menos ele agrediu-te severamente, Camus.Enxuguei teu sangue. Não hei de me esquecer, jamais.
O ruivo sorriu docemente; achegou-se lânguido ao esposo, deitado ao seu lado e depositou-lhe um beijo na testa franzida.
— Abandona esse rancor... eram outros tempos.
Milo suspirou, procurando relaxar.
— Enfim o velho deixou um pouco de lado a hipocrisia. Era boa, condenar-nos pelo nosso amor, quando ele mesmo...
— Talvez até por isso, Milo. Devido a tudo que sofreu, tendo que abrir mão de sua história com o meu padrinho, pode ser que temesse que eu amargasse semelhante dissabor...
— Não creio que tenha sido bem por isso, mas... pelo menos, ele baixou a guarda. Se pararmos para pensar, ele tem feito isso amiúde, recentemente.
— Referes-te a Hilda, não?
O loiro assentiu, abrigando o consorte em seu peito largo, Ambos desfeitos no leito igualmente desfeito, gotículas de suor brilhando em seus corpos plenamente saciados. Só então conversavam acerca da palestra que Camus tivera com o pai, afinal, ao chegarem aos aposentos onde estavam hospedados, o primeiro assunto foi a atitude do ruivo durante o banquete, segundo o Conde, inadequada. Logo após a breve discussão, cederam aos anseios que culminaram em horas de amor. Amanhecia em Turenne, e eles decidiram que o mais sensato seria dormir.
Mas antes...
— De novo, Milo?
— Não tenho culpa. Estás praticamente debruçado sobre meu corpo, apertas-me bem no meu...
— Estás tão duro... posso senti-lo... ah!
— O teu não está diferente, anjo meu...
— Milo... se continuares a... a fazer isso... e-eu...
— O que farás?
— Tu bem o sabes… huum…
— Tudo que sei que sou o homem mais feliz da Terra.
Beijaram-se longamente, imersos em ardente paixão. Camus sussurrou-lhe nos lábios:
— Eu também, Milo... também sou o homem mais feliz da Terra,
— Sim. Tu és. MEU homem!
Camus sorriu como raras vezes o fazia. Foi o bastante para o marido não mais se conter... não que o ruivo disso fosse se ressentir...
*************
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