Dame Jolie
28 Onde o coração quer estar
Notas iniciais

A biblioteca do castelo de Saint-Doulchard tinha tudo para se tornar uma referência cultural da região, naquela época em que livros eram raros e extremamente caros, constituindo, assim, nada mais que uma parte do poderio aristocrático. Muitos eram os manuscritos encadernados com couro, chapa de ouro, placas de marfim, os codex (1), tanto os cedidos pelos pais de Milo e “Camille” d’Auvergne, quanto os adquiridos em Andaluzia, e os que ainda estavam sendo enviados pelo Marquês de Aguillar. Não por acaso, o item que Afrodite tinha diante de seus atentos olhos cristalinos fora enviado por Shura especialmente para ele; um dos volumes da série de livros sobre botânica, chamada Historia Plantarum, escrita por Teofrasto, ninguém menos que um sucessor de Aristóteles (2). Profundamente concentrado no tomo, o camareiro-mor encontrava-se alheio ao olhar fixo de “sua senhora” sobre ele.
— Afrodite.
O sueco permanecia tão entretido com a leitura que sequer olhou para Camus, sentado à sua frente, ambos em gabinetes de carvalho.
— Afrodite.
Os chamados do ruivo saíam tímidos, quase inaudíveis, de forma que não lograram ser ouvidos pelo sueco.
— Afrodite!
Como elevara um pouco a voz desta vez, enfim os olhos do outro ergueram-se do livro para ele.
— Pois não, Camus?
— Não estavas a me ouvir?
— Estavas a me chamar?
Camus soltou o ar, impaciente. Tamborilou com os dedos sobre a lustrosa superfície de madeira.
— Que desejas? – indagou o loiro.
— Tua ajuda... necessito de algum... remédio, creio. – Desviou os olhos avermelhados, constrangido.
— Te sentes mal?
— Não exatamente “mal”... magoado, eu diria.
— Oh, meu amigo, que está a te entristecer?
— Não é esse tipo de “magoado”! – Volveu, entre dentes. E, comedido – É “magoado” de... de... de dolorido. Pensei se não haveria alguma erva... algum unguento que pudesse aliviar-me...
— Aliviar-te do quê? – Uma das sobrancelhas loiras ergueram-se comicamente.
Bufando, o ruivo disparou, mediante sussurros irritados:
— Não te faças de desentendido, pelos teus olhares e pelos teus sorrisos maliciosos à hora da refeição sei que estás perfeitamente a par do que estou a te falar!
Afrodite riu, achando graça da irritação do jovem. Provocou:
—Dá-me uma pista…
— Arre! Viste muitíssimo bem que até meu andar está um tanto comprometido – remexeu-se na cadeira, com expressão quase sofrida – mesmo sentar me é um um pouco dificultoso e... não te rias!!!
— Perdoa-me. É tão difícil para mim manter a seriedade quanto és para ti manter-te assentado.
Desalentado, Camus afastou de si o livro que estivera apenas fingindo ler. O camareiro-mor levantou-se, decidido.
— Tenho fé de que no jardim encontrarei aquilo de que precisas. Melissa, malva, calêndula, loureiro-de-apolo (3)...
— Espera, irei contigo.
— Consegues caminhar até lá?
— Não estou inutilizado ao ponto de não poder te acompanhar, homessa! (4)
— Por enquanto – riu o sueco – agora que a lua de mel foi efetivamente inaugurada...
O ruivo fez-se preocupado:
— Será sempre assim?
— Estou a gracejar, meu caro. É apenas falta de costume. De prática. E não apenas tua.
— Não te avexas de te expressares assim?
— Ora, se falo a verdade! Por que haveria de avexar-me? Bom, se consegues mesmo acompanhar-me...
— Claro que consigo!
Seguiu-o em passo a princípio claudicante, aprumando-se a custo antes de ascender as pequenas escadas que levavam à saída; os jovens calaram-se, pois que do lado de fora, no corredor, postavam-se, alerta, dois guardas. Em silêncio, exigido pela presença de servos a transitarem por ali, eles iam pelo caminho, Camus um pouco mais devagar que Afrodite; este parava adiante, aguardando-o exibindo o mesmo risinho de mofa. O ruivo fuzilou-o com olhar, o que não intimidou nem um pouco o amigo.
Chegaram ao jardim: o dia estava fresco, o céu um pouco nublado. Afrodite começou a procurar as plantas de que precisava. Aproveitando a solitude do local, pôs-se a conversar com o amigo detrás de si:
— Não te preocupes em demasia. Com o passar do tempo, e com a frequência de vossos encontros amorosos, o desconforto que estás a sentir tende a ser apaziguado. Tanto tu quanto o conde heis de adquirir experiência. E este abençoado jardim há de sempre prover... alívio nesses casos – Riu-se um pouco, abaixando-se para colher algumas melissas. – Bem, exceto no inverno. Por isso, em breve secarei algumas ervas para estocar.
Camus corou àquelas palavras, mas procurou não demonstrar seu constrangimento. Mirando as delicadas flores cujas tonalidades iam de um branco leitoso até um bonito lilás, comentou, neutro:
— Do jeito com que te mostra entendido nesses assuntos e, recentemente, às boas relações com Milo, desconfio de que não foi somente em relação ao jantar neste jardim que tu o auxiliaste.
Afrodite virou-se para ele, gaiato:
— Por quem me tomas? O conde não faz meu tipo, nunca, jamais...
— ...!
— ... prefiro morenos... do tipo latino, se é que me entendes...
— Não é a isso que me refiro! – rebateu o ruivo, corando novamente – Eu quis dizer que... tu deves ter andado a aconselhá-lo...
— Ah, sim – sorriu, levando ao nariz uma das melissas colhidas – Apesar de ser um nobre vivido e viajado, o senhor Milo sabia tanto quanto tu acerca do amor entre homens. Tive sim que orientá-lo um pouco, mas VERBALMENTE, ouviste? Hunf.
Camus estalou a língua, cada vez mais envergonhado. Uniu as mãos por trás das costas e indagou:
— Como conheces tanto a respeito desse tema?
— Creio que sejas inteligente para saber a resposta.
— Já te deitaste com varões?
— Não te lembras que eu disse preferir os homens às mulheres?
— Sim, claro, recentemente demonstraste mesmo interesse pelo senhor Shura... mas eu não imaginava que já tivesses tido... tais experiências.
— Camus, eu tenho 22 anos. A mesma idade de teu amado esposo, que, creio, as coleciona.
— És terrível – resmungou o ruivo, fazendo menção de se abaixar para ajudá-lo. Logo viu que era péssima ideia.
— Não tomes por pessoal meu apontamento. Quero ilustrar por que acabei fazendo essa escolha: experimentando.
Ele levantou-se, guardando as plantas em uma algibeira. Dirigiu-se para onde havia outras ervas de que precisava. O amigo que o acompanhava falou, um tanto ressentido:
— Nunca me disseste coisa alguma a esse respeito. Digo... sobre tuas... experiências.
— Não tomes meu silêncio por falta de confiança. Apenas não considerava pertinente delas tratar com alguém imaculado, e, a princípio, totalmente desinteressado pelo assunto.
— Entendo – assentiu – E... tiveste muitas experiências?
— Não considero um número expressivo, para ser sincero. Sou assaz exigente.
— Eu imagino – desta vez, Camus não pôde deixar de rir da expressão convencida do sueco. Continuou, interessado – E quanto à tua primeira vez?
— Receio não ter uma história bela para contar. – respondeu, sem perder o bom humor. Mas àquela resposta Camus parou de sorrir.
— Foi algo desagradável? Espero não estar sendo invasivo demais.
— Qual! És meu amigo, se queres saber, sabê-lo-ás.
Após acondicionar mais algumas flores na bolsa, Afrodite contou:
— Tinha eu nove anos: havia chegado à França um ano antes. Servia em casa de um marquês muito rico, ao norte do país. Ele sempre pareceu nutrir especial afeição por mim, confesso que até mais do pelos próprios filhos. Com efeito, eu não era tratado como um pajem, e sim como autêntico filho dele. Desde que me vira, apelidara-me de “Cupido”, em virtude de minha singela aparência. Era rosado e tinha cachinhos anelados e dourados caindo-me pelos ombros, exatamente com a figura que se pinta da divindade. Contudo, tempos depois, ele passou a me chamar “Afrodite”: dizia que eu não podia ser o deus do amor, pois que eu estava a matar o amor dele pela esposa, e sim, era o deus da beleza... que cresceria e seria o homem mais belo da terra...
— Não entendo... o que ele queria dizer com isso de que tu estarias a “matar o amor dele pela esposa”?
— Não és capaz de inferir? – devolveu, com um sorriso melancólico.
Inquieto, Camus engoliu em seco.
Sim, ele era.
Porém, aguardou em silêncio pela continuação do relato. Os dois caminhavam vagarosamente pelo jardim perfumado.
— Deves ter percebido que ele era um entusiasta de mitologia grega... atraía-o mais que a mitologia, todo o modo de vida dos gregos clássicos, por assim dizer. Vestia-me com túnicas à moda grega, contava-me sobre a iniciação dos jovens mancebos nas artes do amor... orientados pelos próprios mestres e tutores...
— Afrodite... ele... ele violou-te?
— Bem, eu não diria isso, pois que o consenti desde o início.
— Consentiste?
— Sim, agradava-me dele. Era bom, gentil, belo, até. Eu acabava por responder aos seus assédios, ora nas cavalgadas, ora nas caçadas,...
— Eras uma criança! Não sabias o que estavas a fazer! – indignou-se Camus – Ele apenas se aproveitou da pueril carência de um menino que acabara de se separar da família!
— Talvez. Fato é que ou consenti... ou ele considerou que consenti. A despeito de sua amabilidade e doçura para comigo, durante a consumação de seu ato ele foi particularmente... excessivo. Violento, até. Tu ao menos lograste andar após ser deflorado.
Incrivelmente sorria ao relatar. Camus, entretanto, distinguia o palor da tristeza naquele sorriso. Não se equiparava, nem de longe, aos radiantes sorrisos de seu amigo.
— Parece-me que tomou gosto em seviciar um menino de nove anos. A tal ponto que, passado algum tempo, o que ocorria entre nós tornou-se difícil de ser escondido. A marquesa já desconfiava, contudo relevava em prol da honra da família e do amor que jurava sentir pelo esposo.
— Deus – o ruivo levou a mão à boca, aterrado por saber que coisas assim aconteciam.
— De qualquer modo, a devassidão do marquês não ficou oculta por muito mais tempo...
— Que queres dizer?!
— Fomos descobertos pela esposa dele.
O ar pareceu extinguir-se nos pulmões de Camus. O jovem parou mesmo de piscar.
— Incapaz de fazê-lo contra o marido, a dama direcionou sua ira contra mim. Ordenou que eu recebesse chibatadas... e prendeu-me na masmorra por semanas.
— Malditos!!! MALDITOS! – exasperou-se o ruivo, despindo-se da habitual fleuma. Colérico, pôs-se a dar pequenas voltas perto de um canteiro de peônias.
— Acalma-te...
— Quem são esses calhordas? Exijo saber!
— Isso não vem ao caso...
— Se não me contares, perguntarei ao meu pai! Ele sabe a que nobre serviste antes de levar-te a Turenne! Vingar-me-ei por ti!
Afrodite riu, causando estupor no outro. Calmamente, falou:
— Como te disse, isso não vem ao caso... bem, se parares de caminhar como uma marmota sobre minhas lavandas, termino de contar a história.
— Perdoa-me – sequer percebera que estivera a pisar as preciosas flores. Contendo a ira que chegara a tingir-lhe as faces de vermelho, voltou para junto do sueco.
— Foi para salvar-me da esposa e, de certa forma, proteger-se de um escândalo maior, que meu tutor resolveu entregar-me para outro nobre, a fim de que eu prosseguisse com minha formação de cavaleiro.
— Então meu pai sabe...?
— Não, em absoluto! O duque de Borgonha nunca soube de nada. Se soubesse, certamente sequer me aceitaria em seu castelo.
Camus balançava a cabeça, entre incrédulo e revoltado.
— Meu Deus, eras apenas uma criança... tinhas somente nove anos quando ele... quando esse monstro...
— Criança... o infortúnio não escolhe idade, meu amigo. – suspirou; despetalava uma flor – Não eras tu também um pobre infante quando se abateu sobre ti a tragédia que mudaria tua vida para sempre? Tinhas sete anos... eras até mais novo que eu.
— Eu não entendo uma coisa. Disseste que foi esse homem que conferiu a ti a alcunha de “Afrodite”... por que escolheste carregar este nome, oriundo de tanto sofrimento?
O loiro encarou-o com imensa ternura ao responder:
— Se não fosse por tudo o que aconteceu, eu nunca teria chegado à Casa dos Turenne. Jamais teria te conhecido. Portanto, malgrado a dor em que o nome nasceu, ele é símbolo de um destino que me uniu a ti... Camus. De mais a mais, tem mais presença que “Solveig”.
— Pois considero muito belo o teu nome verdadeiro. Significa “Caminho do Sol”, não? Bem, se bem que já me acostumei tanto com “Afrodite”... – Comentou o ruivo. E, consternado, inquiriu:
— Tornamo-nos amigos depois que dividi contigo meu segredo. Por que não dividiste o teu comigo?
— Camus, a despeito de tua aparente frieza, sempre te soube sensível. Não digo “sensível” como sinônimo de “frágil”, e sim suscetível ao teu elevado senso de justiça. Lembro-me de como defendias os servos dos desmandos de Hilda. De como intercedias pelos camponeses junto ao senhor teu pai. Com toda certeza, tu sofrerias por mim e infernizarias o senhor duque para que ele te revelasse os nomes dos marqueses.
— Hunf. Tens toda razão. Tenho vontade de fazê-lo agora mesmo. Descobrir quem são os detestáveis nobres que te infligiram tais dissabores.
— Seria em vão... eles já não se encontram neste mundo, pelo que soube seis anos depois: pereceram em decorrência de um incêndio que consumiu, além deles, todo o castelo em que viviam e muitos criados, que Deus os tenha.
— Espero que estejas a falar dos pobres criados.
Afrodite meneou negativamente a cabeça, retrucando:
— Eu mentiria se afirmasse que me alegrei com a morte de ambos. Ninguém merece morrer assim, e tenho certeza de que tu pensas de igual maneira.
Um tanto embaraçado, o ruivo abaixou o olhar.
— És realmente a melhor das pessoas, Afrodite, pois que te compadeces de teus verdugos. És verdadeiramente admirável.
— Não fales como se não fosses capaz de manifestar o mesmo. – volveu o loiro, agora com um lindo sorriso no rosto.
— Não creio que eu tenha perdoado os criminosos que quase tiraram-me a vida... e também minha... – calou-se, incerto de que a menção de uma violência sexual, ainda que não consumada, se fazia necessária naquele momento.
— Ora, aquilo foi uma atrocidade sem comparação ao que me sucedeu! São coisas completamente diferentes, Camus...
— Não estou tão convencido disso.
“Se soubesses que nestes anos que se seguiram ao que te contei amei-te de todo meu coração... será que continuarias a me considerar ‘a melhor das pessoas’?”, foi o pensamento que assaltou o camareiro, súbito.
De natureza prática, desde que cessara de nutrir pelo amigo o amor que agora devotava ao marquês Shura de Aguillar, não mais pensara mais naquela antiga condição. Agora, porém, um questionamento inquietava-o: enquanto Camus o tivera como amigo, ele tivera Camus como ideal romântico. E por cinco longos anos!
Que será que Camus acharia de tal fato?
Não carecia de revelá-lo àquela altura, carecia?
Sua consciência, não obstante, toldou-se. Fitou o outro, que, por sua vez, observava o balançar preguiçoso das folhas ao sabor da brisa outonal.
— E depois disso? – a voz do ruivo interpôs-se em seus devaneios – Estiveste com outros...?
O loiro deu de ombros, displicente:
— Bem, aqui e acolá, pelos bailes, banquetes, torneios da vida... minha bela figura facilitava as conquistas. Mas, conforme falei, não foram tantas assim. Digo, não foram tantas as que correspondi.
— E chegaste a amar alguém?
— A amar?
— Sim – os olhos castanho avermelhados fixaram-se curiosos no camareiro, pego de surpresa com aquela indagação.
Em franca dúvida sobre como proceder, Afrodite limitou-se a encará-lo. Seria deslealdade mentir quando o amigo o interpelava daquele jeito! No entanto, a língua travava-se.
Desacostumado a ver o sueco se calar durante um colóquio, Camus acabou por estranhar tal atitude. E ia repetir a pergunta, quando uma criada apareceu à distância, no topo da escada escavada em uma das encostas floridas do jardim.
— Senhora Camille, senhor Afrodite. Perdoai a intromissão desta humilde serva. O senhor conde encontra-se à vossa espera no escritório do segundo pavimento do castelo.
Os dois entreolharam-se; prontamente se puseram a caminho, após Afrodite meter mais umas ervas em sua algibeira.
— Pelo jeito, teu alívio vai ter que esperar um bocado mais – pilheriou o camareiro, arrancando do amo um bufar insatisfeito.
Pelos mesmos motivos que os levaram até os jardins, não foi possível a Camus acelerar o passo como gostaria... ao adentrarem o recinto onde eram esperados pelo soberano de Saint-Doulchard, ouviram deste:
— Até que enfim! Pensei que vós chegaríeis no Natal!
— És o único responsável por minha... por nossa demora... – resmungou o ruivo, entre dentes.
— Perdão?
Cobrindo a boca com a mão, Afrodite deu uma risadinha maliciosa.
— Afrodite!!! – ralhou Camus.
— Ah – o cavaleiro pareceu compreender. Pigarreou, fingindo ignorância – eu vos chamei para anunciar que sairei em viagem amanhã...
O inverno pareceu chegar mais cedo, precisamente no coração de Camus. Entreabriu os lábios, sentindo o peito doer por antecipação. Não... Milo partiria novamente para algum lugar distante! Por Deus, apenas acabaram de entrar em bons termos, e lá se ia o amado de novo em jornada! Três meses, como em Andaluzia? Talvez mais? Não, não poderia suportar outra vez tão longa ausência! Três dias já configurariam uma espera insuportável!
— ... e para pedir que Afrodite assessore Camus nos preparativos para me acompanhar.
Os olhos que haviam pousado no chão de pedra direcionaram-se, muito abertos, para o esposo à sua frente.
— Acompanhar-te? Eu? – balbuciou, surpreso.
— Exatamente. Partiremos ao romper da aurora. Afrodite, a previsão é de que fiquemos umas duas semanas fora. Acabei de me reunir com meus vassalos e demais funcionários, conto contigo para juntar-se a eles na administração de Saint-Doulchard durante minha ausência. Calcula trajes e o que mais for necessário para o referido período.
Os dois amigos olharam-se, sem entender. Aquilo era tão inesperado!
— Mas... para onde iremos? – quis saber o ruivo, erguendo as sobrancelhas. Dir-se-ia cético ante aquela repentina decisão.
— Saberás quando ao nosso destino chegarmos.
— Isso é muito vago.
— É tudo que posso informar, por ora.
— Ou é tudo que “queres” informar?
— Ambas coisas – devolveu, despreocupado. Virou-se para o camareiro-mor – Podes efetuar o que acabei de te solicitar?
— Perfeitamente, senhor conde! Só preciso saber se há alguma solenidade planejada a que ide atender.
— Não. Não te incomodes em pôr na bagagem vestimentas suntuosas de festa, nada muito pomposo. Não iremos a nenhum evento do tipo. – respondeu, enigmático, fitando o marido.
Camus devolveu-lhe a mirada, desconfiado.
— Que tens em mente, meu esposo?
— Saberás no tempo certo, meu amado. Saberás no tempo certo.
*************
Os primeiros raios de sol emergiam das costas das montanhas de Saint-Doulchard quando a rica carruagem do conde deixou o castelo. Acompanhava-a outra carruagem, com dois secretários de Milo, e também dois criados para quaisquer eventualidades na estrada. Quatro guardas iam a cavalo, com as flâmulas do brasão dos Auvergne, o escorpião escarlate. Afrodite viu, feliz, a comitiva partir, brandindo seu lenço perfumado à visão dos viajantes, que se distanciavam pouco a pouco.
“Esse ladino do senhor Milo! Com certeza, é a lua de mel propriamente dita! Tudo que eu gostaria de saber é o que ele pretende... não, também gostaria de saber a reação de Camus quando chegar LÁ”, pensava, entre animado e receoso.
“A intenção do conde é louvável... eu só espero que Camus não se feche novamente em sua concha quando chegarem aonde o senhor Milo me disse que chegariam...”
*************
Por um dia e uma noite, os condes de Saint-Doulchard percorreram belas paisagens que acariciavam-lhe os espíritos.
Contemplavam-nas, mãos dadas, seus olhos abandonando-as de quando em quando, para se encontrarem. Perdiam-se na contemplação um do outro, na ventura de se amarem, de estarem finalmente juntos, embora sob o manto da ilegalidade daquela relação. Não obstante, uma vez ruída a maior barreira, outrora erguida por eles mesmos, fortaleciam-se mutuamente naquele amor cúmplice. Bastava que fossem cautelosos... e, em prol daquela doce união, assim o seriam.
Camus cessara de tentar obter do esposo a informação sobre o destino daquela jornada. O loiro mantinha-se irredutível acerca daquele segredo. Verdade fosse dita, aquilo o excitava. Jamais passara por algo semelhante, lançar-se à estrada sem saber para onde seguia. E os tépidos beijos que desembocavam em ardorosas carícias no interior da carruagem cuidavam de abrilhantar ainda mais aquela experiência.
Após cerca de 30 horas de viagem, desprezando algumas horas de paradas, distinguiu-se à frente, por entre clareiras mais abertas, a imagem de um castelo. Cercando-o, um extenso lago, em cujas superfícies cintilantes refletia-se a bela fortificação, mais clara e aparentemente mais nova que a de Saint-Doulchard. Nitidamente menor porém mais elegante, com certeza era fruto de uma época em que, após o esmorecer das belicosas invasões, muitos senhores empenharam-se em erigir castelos cujo apelo estético sobrepujava o estratégico. Camus contemplava-o, reparando-lhe as linhas harmônicas, a leveza dos muros quase brancos como as nuvens, as torres imponentes em verdadeiras setas desafiando o céu. Dir-se-ia uma autêntica morada de elfos. As copas das árvores ao redor, em fantásticas gradações de vermelho e dourado, destacavam-lhe a formosura.
— Que castelo espetacular! – Admirou-se o ruivo. – A quem pertencerá?
— Não o imaginas?
— De que forma poderia eu?
— Talvez o possas, se eu revelar onde estamos. – Milo cruzou as pernas, displicente. – Encontramo-nos em Haute-Loire.
— Então... então este é o... o TEU castelo de Haute-Loire!
— Correto. É uma das propriedades dos Auvergne. O castelo de Haute-Loire, construído há apenas 50 anos. Creio que seja a mais recente de nossas propriedades castelares. Nunca foi habitado, tampouco serviu a propósitos militares dignos de nota. Meu avô o construiu para passar cá os verões, pois que a região fica particularmente deliciosa nessa época do ano. Um dia, hás de comprová-lo.
A tudo o jovem ouvia estático. Não tirava os olhos castanhos do castelo, em meio a pensamentos que o calavam. Milo sabia exatamente que pensamentos eram estes. Seu sorriso arrefeceu-se pouco a pouco, até que, confirmando o que ia na mente do silencioso consorte, enunciou:
— Sim, seria para cá que eu traria a “esposa” com quem teria minha descendência. A concubina, melhor dizendo. Seria neste castelo em que eu instalaria a família constituída na clandestinidade, de acordo com os termos de contrato de nosso casamento.
— Por que estamos aqui?
A pergunta não continha ressentimento, entretanto, não deixava transparecer qualquer alegria. Esta, por tantas horas reinante no coração do ruivo, pareceu se retirar ante a visão quase provocativa daquele lindo castelo.
— Não o apreciaste?
— Eu disse isso?
— Não. Mas é que pareces subitamente... não sei. Aborrecido.
As feições de Camus não se alteraram. Manteve-se quieto, voltando a observar a fortaleza de que se aproximavam.
— Respondendo à tua pergunta, estamos aqui porque queria que conhecesses Haute-Loire...
— Tinha que ser agora? Entendi que era uma casa de veraneio, e pelo que eu saiba, estamos no outono. Demasiado adiantados.
— Não gostaste da surpresa – apontou o loiro, um pouco magoado.
Camus pensou em como responder, mas a verdade é que seus pensamentos estavam se desordenando. Sentiu-se ridículo: tinha ele ciúmes de algo que sequer acontecera? Isso seria ilógico... e injusto para com o marido, que se esforçara para levá-lo até ali. Que deixara todos seus compromissos para oferecer-lhe aquela... surpresa, tinha sido a expressão, não tinha?
— Só estou cansado da viagem, perdoa-me – procurou ocultar sua incompreensível perturbação.
— Estavas bem disposto até eu revelar nosso paradeiro.
A carruagem parou, e o cocheiro desceu da boleia para, juntamente com um outro criado, abrir as portas para os nobres descerem do veículo. O conde desceu primeiro, e ajudou “sua senhora” a descer, segurando-lhe a mão.
Trajando um vestido de veludo verde escuro, mangas médias, cinto fino e detalhes dourados no colo e nos antebraços, o ruivo deteve-se diante do pórtico ogival, imaginando o que fizera Milo ter escolhido aquele lugar para criar os filhos com que um dia sonhou.
Filhos que ele jamais teria...
Teria, de fato, abandonado aquele sonho?
Atravessaram a pequena ponte sobre o lago brilhante; os servos locais vinham recepcioná-los, e, em seguida, auxiliaram o cocheiro e os demais criados a levarem os baús para o interior da casa. Os cônjuges ficaram no pátio, Camus olhando tudo à sua volta. O pátio circular, tão amplo e claro... os pilares nos quais enroscavam-se trepadeiras floridas...
— É um local muito aprazível, Milo.
— Deveras. Achei que seria perfeito passarmos uns dias aqui, ainda que no verão seja ainda mais interessante. Mas a vista também se faz notável com a chegada do outono, não achas?
— De fato.
— Ah, hás de apreciar a variedade de frutas da região nesta época!
— Hum.
— Camus.
Pegou nas mãos frias e brancas do amado, forçando-o olhar em seus olhos azuis.
— Sei no que tu pensas.
— Sabes...?
— Ouve-me. É a ti quem eu amo. É contigo que meu coração quer estar. E onde nosso coração quer estar é o nosso verdadeiro lar. És minha família legítima agora, e por isso, quis trazer-te até aqui.
“Família”, pensou, sem trair no rosto a amargura que subitamente o invadiu, “Família significa ‘filhos’, Milo.”
Adentraram a residência, decorada com extremo bom gosto. O pai de Henri certamente fora um homem de gostos requintados, ao contrário do filho, mais despojado e menos apegado a convenções e luxos.
— Sede bem vindos, senhor Milo, senhora Camille – um homenzinho vermelho e rechonchudo curvou-se respeitosamente diante deles, no que foi seguido por mais alguns empregados – Sou o castelão Navarre, vosso humilde criado durante vossa estada em Haute-Loire. Rogo a Deus para que de tudo desfruteis abundantemente. Desejais fazer a refeição agora?
— Eu e minha senhora repousaremos um pouco, Navarre. Após o banho, hei de comprovar os dotes do cozinheiro do castelo, mantenha-o a postos, sim?
— Perfeitamente, meu senhor. Preferis banhar-vos em vossas dependências ou quem sabe, servir-vos da sala de banhos no mesmo pavimento?
— Havemos de fazê-lo no quarto mesmo, já se faz tarde.
— Pois muito que bem. Com a vossa licença, Excelências.
Milo e Camus subiram pelas escadas em mármore, chegando ao andar do quarto senhoril. Tão logo entraram, o loiro começou a arrancar de si a túnica vermelha, bem como a abaixar, afoito, as calças de veludo marrom. Camus virou-se para ele, sem entender.
— Acaso estás com tanto calor assim? – Perguntou, estranhando, pois a temperatura estava bem amena.
— Sim, na verdade, estou com fogo... há um fogo a abrasar-me por dentro – a voz rouca e o olhar fixo de Milo aumentaram aquela estranheza.
— Por Deus, será que estás doente?
— Quem sabe... padeço de um severo mal, isso é certo... – sorria, malicioso.
— Não estou a compreender-te... – e foi só se virar para frente que foi literalmente levado ao chão; o esposo agarrou-o por trás, já levantando-lhe as saias!
— MILO!
— ... o mal de que padeço é: desejo por ti… — sussurrou-lhe ao ouvido, causando arrepios.
— Por favor, não podes te conter?
— Conter-me? Estou há dois dias contendo-me...
— Que querias? Possuir-me na carruagem?
— Gostei da ideia…
— NÃO FOI UMA IDEIA!
As mãos de Milo invadiam o interior das pesadas vestes do marido, que já mordia o lábio inferior ante aqueles toques íntimos, urgentes.
— M-Milo...!
— Precisas curar este meu mal, Camus – murmurou, beijando-lhe ardorosamente a nuca e o pescoço.
— És um impudente, Milo! E-eu deveria... aaah... hum...
O cavaleiro sequer tirou o vestido que cobria o amado: sobre o jovem subjugado, de quatro no chão de pedra, ele o estimulava, massageando-lhe o órgão de forma precisa, cadenciada. Prendeu-o com as pernas abertas, lambendo-lhe o lóbulo da orelha. Camus gemia, sentindo seu corpo despertar abruptamente.
— Huum... Milo...
— Aah, Camus, como ele já cresce em minha mão... é tão grande... e grosso... fica roliço com celeridade!
— N-não fales tais... obscenida...da... aahn...
— Isso, isso mesmo, quero que derretas ante meu toque, que te dissolvas de prazer ao receber-me em ti...
— E-eu... hum...
Os dedos rigidamente envoltos no sexo túrgido de Camus empenharam rigoroso apoio à masturbação. O cavaleiro levou os dedos da outra mão à boca do ruivo, que gemia, enlanguescido. Inseriu-os entre os lábios do amado, fazendo com que ele os chupasse. Camus assim o fez, ávido, lambendo-os como se lambesse as partes do marido. Este gemeu baixo, o que fez com que o ruivo os sugasse mais, molhando-os bastante. Milo retirou os dedos da boca do marido e abriu passagem entre as nádegas do amado, que mal podia manter-se ajoelhado.
E Milo não cessou de proferir as tais “obscenidades”, enquanto, simultaneamente, estimulava o esposo pela frente e por trás, inserindo os dedos na entrada estreita.
Quando percebeu que Camus ficou mais trêmulo, mais suplicante, soube que era o momento de substituir os dedos por seu pênis já dolorido de tão latejante. Penetrou lentamente a cavidade ainda resistente, em meio a gemidos enlouquecidos. Ondulou seus quadris para melhor mergulhar naquele sonho carnalizado, chamando-o pelo nome ao ouvido. Aquilo, aliado à massagem incessante em seu membro, fê-lo ansiar por mais e mais. Já não sentia o chão duro e gelado, nem a dor inicial quando da invasão, tudo se convertia em delícias às quais ele sucumbia quase aos gritos.
Amaram-se intensamente, até que Milo sentiu a mão encharcar-se do gozo quente do outro, que chegou a gemer alto o nome do esposo. O orgasmo de Camus intensificou as contrações em volta do órgão de Milo; ensandecido, bombou freneticamente, agarrando-o em um verdadeiro frenesi. Da mesma forma que o ruivo, foi gemendo o nome do amado que recebeu a dádiva de um clímax poderoso, avassalador. Gozou intensa e fartamente, preenchendo o homem que amava de sêmen abundante. Ambos gemeram longamente, cedendo e caindo juntos ao chão. Abraçados, beijaram-se enfim, sem a menor vontade de se separarem. Ofegantes, deram-se conta de que o frio do assoalho começava a incomodá-los. Milo ergueu-se primeiro e ajudou o marido a também se erguer.
Foram se banhar juntos, evidentemente ainda se agradando mutuamente sob a água tépida.
Na hora de se vestirem para o jantar, Camus não pôde deixar de se impressionar com a maestria de Milo em auxiliá-lo com os moldes, enchimentos, corpete e vestimentas femininas.
— Acaso estás tomando aulas com Afrodite?
— Prometi cuidar de ti para todo o sempre, logo, se fazia mister que eu aprendesse como fazer isto.
— Não deves te preocupar em demasia comigo. Também devo me empenhar mais em proceder aos meus disfarces... sozinho.
Milo virou-o de frente para si.
— Nunca mais estarás sozinho. Camus, eu nunca, NUNCA mais te deixarei só. Não te lembras de minha promessa? Ou não acreditas nela?
Um sorriso terno substituiu a surpresa inicial do ruivo.
— Claro que acredito. Só não me agrada mais ser tão dependente como eu fui até agora.
Após depositar um singelo beijo nos lábios do esposo, o conde enunciou, contente:
— Vamos comer. Tenho uma fome de que não fazes ideia! Quero conhecer as especialidades desta região. E, obviamente, o vinho!
*************
Os dias seguiram-se, plenos e felizes, em Haute Loire. Como em uma autêntica lua de mel, Milo e Camus não se ocuparam de nada que não fosse desfrutar ao máximo da presença um do outro. Era como se buscassem, sôfregos, compensar os meses de animosidades, frialdade e frustrações. A temperatura amena e a exuberante natureza colorida com os tons quentes da estação faziam-se um propício convite a encontros nos jardins, ceias nos pomares, passeios, cavalgadas pelos bosques. Em idílicos convescotes, o conde recitava poemas ao amado; por sua vez, o ruivo arriscava-se a tocar o saltério, instrumento que vinha praticando desde a ida do esposo a Andaluzia. Milo considerava o consorte um prodígio por ter aprendido tão rápido algo não tão simples. Camus refutava tais considerações, nem tanto por modéstia, e sim por julgar exagerada a opinião do marido. Ainda assim, agradecia com um gracioso sorriso, o que enchia o loiro de maravilhamento.
Destarte, durante este retiro, estreitaram seus laços... a sintonia entre ambos só fazia aumentar. A cada intercurso enveredavam pelas sendas do amor, descobrindo-se mais a mais. Não apenas Milo desvendava cada ponto do corpo do amado, com também Camus aprendia a cada dia os meandros do prazer do cavaleiro...
Uma semana passara-se, tão lépida quanto deleitosa.
Certa noite, Milo fora ter com o castelão para resolver algumas questões pertinentes à sua autoridade. Prometera voltar logo para junto do ruivo, que ficara diante da lareira crepitante a tocar o saltério. Como o conde demorava a retornar, Camus achou-se um tanto impaciente. A verdade era que tomara vinho por demais, pois que muito brindara com o esposo durante o festim íntimo. Largando o instrumento em um canto qualquer, ajeitou a saia de seu vestido cinza claro com brocado em pérolas e retirou-se do recinto.
Caminhou pelo corredor iluminado por lamparinas italianas, estudando cada aposento por que passava. Não sabia onde se encontrava Milo, portanto metia a cabeça curiosa por entre as frestas das portas abertas e semiabertas. Após averiguar pelo menos uma dúzia de salas, sua atenção foi particularmente atraída por uma delas.
O salão das armas do castelo.
Não resistiu ao ímpeto de entrar e conferir do que dispunha Haute Loire. Ficou surpreso com tamanha variedade de artigos bélicos, dada a pretensa utilidade da propriedade, notadamente de descanso. Tratar-se-ia mais de uma coleção do que propriamente um arsenal destinado a uso, pensou o ruivo, observando com atenção as espadas, lanças, escudos, machados, armaduras, tudo reluzente como novo. Deviam ser polidas com diligente frequência. Seus pés quase deslizavam por sobre o tapete vermelho, encantado com o que via. Era mesmo um varão, não podia negar! Malgrado os vestidos em que se metia, admirava aquele universo masculino... dir-se-ia uma festa para a qual não fora convidado...
— Camus.
O jovem virou, quase em um sobressalto.
— Perdoa-me. Acabei por me demorar.
— Não, eu que devo pedir-te perdão. – retrucou o ruivo, sem jeito – Agi com indiscrição, entrando em ambientes sem permissão.
— Que estás a dizer? – Riu-se o loiro, impedindo-o de deixar o recinto. – Tu és meu consorte, desnecessário lembrar-te de que tudo aqui é tão teu como é meu.
Ao ouvir aquilo, Camus sossegou e voltou a contemplar os magníficos artigos da sala.
— Bonitas peças, não? Meu avô fez questão de guarnecer este aposento com artefatos de pelo menos quatro gerações antes da nossa.
— São estupendos... – murmurou Camus, sem disfarçar a admiração.
— Bem, o salão das armas de Saint-Doulchard em nada fica a dever a este, pelo contrário. – Comentou, bem humorado o conde.
— Eu imagino... é que nunca entrei no de lá.
— Por que te abstiveste de fazê-lo? É o TEU lar.
— Não sei. – E não mentia. – Fá-lo-ei, prometo-o, assim que tiver oportunidade.
Milo reparou o brilho no olhar de Camus, perdido nas armas.
— Pareces assaz interessado pelo que vês.
— De fato... – sequer deu-se conta de que sorria melancolicamente – traz-me recordações...
— Entendo. Afinal, o senhor duque de Borgonha não te privou do treinamento a que todo cavaleiro tem direito. Lembro-me de meu pai dizer que Teobald II levava-te aos bosques de Turenne e lá treinava-te, como se fosses... digo, como se NÃO fosses, aos olhos do mundo, uma filha.
— Ele fez o que pôde. Obviamente não treinei como autênticos cavaleiros, mas o que esteve ao alcance de meu pai, ele fez – ajuntou, sentindo uma doce nostalgia, envolta por gratidão – O povo julgava-o um excêntrico!
Vendo-o rir, Milo riu também e relembrou dos dizeres de Henri d’Auvergne:
— “Excêntrico” é um eufemismo... deviam achar o duque meio aloucado. Mas... quem iria contestar diretamente as ações do homem mais poderoso de França?
— Deveras... – súbito, o riso de Camus foi aplacado ao acrescentar àquela lembrança – Diziam que a morte “do filho” havia deixado-o obcecado em dar à “primogênita” os ensinamentos que seriam de seu herdeiro, tanto mais porque não fora capaz de gerar outro varão...
A atmosfera subitamente modificou-se, e ambos silenciaram. Passados alguns segundos, o ruivo declarou:
— Essas armas... são como paradoxais lembranças. Lembranças do que vivi... e do que não vivi. Nem viverei.
O loiro não encontrou o que dizer; sentia a mágoa a emanar do esposo. O que se fazia raro, uma vez que Camus não costumava deixá-la transparecer daquela forma.
A mágoa por ter de assumir a vida de alguém que tanto amou e que se fora.
A mágoa de ter de mentir para sempre.
De enganar.
De não poder ser o que era... quem era...
— Milo... em algum momento, acaso chegas a esquecer-te de que sou varão?
— Que estás a perguntar? – Surpreendeu-se vivamente ante aquele questionamento. – Seguramente que não! Camus, que te leva a tais elucubrações?
O ruivo suspirou, desviando o olhar.
— Tens razão, não devo te amofinar com inférteis especulações...
Tocando-o pelos ombros, o cavaleiro refutou-o com ternura:
— Eu não te proibi de questionar. Apenas gostaria de saber o que te conduziu a tal ação.
Camus balançou a cabeça, rebatendo:
— Tolices. Apenas tolices momentâneas. Talvez o vinho...
— A única tolice que cometes é querer esconder de mim o que vai em teu coração.
— Não estou a esconder coisa alguma.
— Exijo saber o que te incomoda.
Em um gesto calmo porém assertivo, Camus desprendeu-se do amado. Não queria mirar os perscrutadores olhos azuis ao enunciar:
—Como poderia eu estar incomodado justamente quando estou a viver os mais sublimes dias de minha existência?
Embora não tivesse se convencido com a réplica do marido, o conde diminuiu a distância entre eles e sussurrou em seus lábios:
— Neste caso, permite que eu te ofereça mais momentos sublimes... vem, deixa-me te amar, Camus...
Cingiu-o pela cintura e beijou-o com extrema doçura. Camus sequer precisou responder... pelo menos, não com palavras...
*************
No dia seguinte, e conforme os que a ele antecederam, Camus despertou nos braços de Milo. Recebeu na fronte um beijo carinhoso e espreguiçou-se um pouco.
— Bons dias, meu amor, dormiste bem?
— Sim, dormi bem. E tu? – respondeu, esfregando os olhos castanho avermelhados.
— Maravilhosamente bem. Sabes, pensei em cavalgarmos pela manhã, que achas?
— Parece-me ótima ideia. – Concordou, agradecendo internamente a Afrodite pelos unguentos preparados com as plantas medicinais colhidas no jardim de Saint-Doulchard. Dada a frequência das relações a que vinham se entregando, sentar na sela de um cavalo seria, no mínimo, complicado.
Levantaram-se, procederam à higiene matinal, trocaram-se: tanto Camus quanto Milo já demonstravam maior desenvoltura com o ritual de “disfarce de Camille”. Escolheram um vestido azul turquesa, com mangas e detalhes no colo em um tom mais claro. No pescoço, um lenço branco envolto por colares de luminosas safiras. O traje supostamente não era sofisticado, mas fazia-se opulento em Camus. Milo afastou-se, contemplando-o embevecido, como um artista que vê finalizada a obra sobre a qual debruçou-se durante muitas vigílias.
— Estás lindo. – Declarou, sorrindo orgulhoso.
Corando um pouco, o ruivo resistiu ao impulso de abaixar a cabeça. De igual maneira, considerou o esposo, que vestia uma túnica púrpura com calças índigo, um crucifixo de ouro e ametistas ao pescoço. A gola em “V” abria-se até o peito, e por entre os laços presos por ilhoses de ouro, revelavam-se a pele morena e os pelos loiros...
Só de observar o cavaleiro, um calor subiu-lhe pelas pernas e pelo tórax.
— Digo o mesmo de ti, meu marido. – Proferiu, disfarçando a timidez que ainda o acometia ao demonstrar o que sentia. Pouco a pouco, no entanto, percebia que aquela dificuldade amainava.
Entusiasmado com tal proceder, o conde puxou o amado para si, beijando-o com toda paixão. Paixão essa correspondida, o que atestavam os lânguidos gemidos de Camus por entre aqueles lábios carnudos. Quando pôde se desprender do contato que já se fazia urgente, balbuciou:
— Milo... deste jeito, hei de perder o fôlego...
Rindo, o loiro tomou-o pelo braço, como a conduzi-lo, dizendo:
— Neste caso, eu paro, anjo meu. Não deves ficar sem fôlego para a atividade de hoje. Vem, tomemos nosso desjejum.
Quase se arrependendo de ter interrompido tão deleitoso momento, o ruivo assentiu. Dirigiram-se para a grande sala, no térreo, onde aguardavam-nos os leais criados, prontos para servi-los com total eficiência.
Terminada a refeição, os cônjuges se dirigiram para o exterior da fortaleza. Escudeiros já esperavam por seus senhores, segurando as rédeas franjadas de dois belíssimos corcéis, um branco e um castanho. A exemplo das outras vezes em que cavalgaram pelas planícies de Haute-Loire, Camus montou Pégasus, o cavalo branco, e Milo montou Sagita, de pelo marrom tão lustroso que brilhava. O conde partiu em frente, sendo seguido pelo marido.
Ganharam as alamedas arborizadas, os raios de sol insinuando-se por entre as copas em tom de ocre e vermelho. Os animais galoparam rumo ao bosque, todo tingido pelo outono de escarlate, amarelo, marrom. Os cascos esmagavam miríades de folhas secas, e aquele ruído espantava as aves, que alçaram voo ao céu pálido. De quando em quando, Milo olhava para Camus, agora emparelhado com ele. Achou-o majestoso, os cabelos de fogo espalhando-se pelo ar, a expressão concentrada e ao mesmo tempo serena...
“Não existe nada mais belo neste mundo”, pensava, inebriado. De tanto que o mirava, angariou atenção do outro, que devolveu-lhe o olhar, contudo, de modo interrogativo.
Milo sorriu e, fustigando o corcel, apressou o galope. Camus aproveitou para se permitir a contemplar o esposo, cuja imponente figura evocava antigas divindades da guerra... embora, analisando com cuidado, havia por baixo de todo aquele vigor, algo de angelical...
— Algum problema? – indagou o loiro, vendo-se alvo de minucioso estudo.
— Dir-te-ei mais tarde. – respondeu, com um leve sorriso atrevido.
— Hei de te cobrar. – E deu um sorriso que, malgrado viesse do “anjo” era pura perdição...
Deram em uma clareira. Milo fez sinal a Camus para que parassem. Puxaram as rédeas, os animais diminuindo a velocidade de seus trotes até pararem.
— Por que paramos aqui? – Quis saber o ruivo, apeando do cavalo com auxílio do marido.
— Tenho um presente para ti. E ele está aqui.
— Um presente para mim? Aqui? – Olhou em torno, vendo apenas carvalhos, arbustos, e, ao fundo, as montanhas.
— Vês aquele carvalho rodeado por gerânios azuis e lilases? Teu presente está ali.
Camus franziu as sobrancelhas rubras, intrigado. Fez conforme o dito, caminhando até o local para onde Milo apontava. Chegando ao ponto indicado, não viu nada de especial. Deu a volta ao redor do espesso tronco da árvore, certamente centenária... e então a viu.
Uma soberba espada.
Encostada no carvalho, em meio às flores, uma espada de cerca de 1 metro de comprimento, a bainha de puro ouro cravejada de rubis nas extremidades. Havia uma cruz no centro, feita com a mesma gema. Boquiaberto, ele a pegou. Era menos pesada do que imaginava.
Linda... a mais linda espada do salão das armas de Haute-Loire!
— Gostas?
Camus virou-se para ele, atônito:
— Milo, eu não estava a cobiçar as armas de tua família.
— Quê?!?
— Eu apenas as admirava… não é necessário que tu ofertes tão valiosa peça a mim. Vê-se que se trata de um tesouro de inestimável val...
— TU és o maior de meus tesouros, tolo falador! – replicou o cavaleiro, fingindo estar ralhando com ele.
— Mas, Milo... não posso aceitar esta espada... é uma relíquia...
— E eu não posso aceitar tamanha parvoíce, por Deus! Como então, pois, irás treinar comigo sem uma espada?
Se antes Camus estava boquiaberto, agora seu queixo quase precipitou-se ao chão.
— Treinar contigo... eu?
O sorriso de Milo alargou-se, provocante, e ele desembainhou a própria espada de cruzado, apontando-a para o estupefato esposo ao dizer:
— Não estás a pensar que te dou essa beleza para que a pendures de enfeite acima do teu baú de roupas, estás?
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