Dame Jolie

29 O Melhor Presente


Notas iniciais
Olá a todos Gostaria de agradecer pelo apoio que vocês vêm dando a esta fic, seja lendo, favoritado, comentado, isso me dá muitas alegrias e fôlego para continuar :) Antes, só um lembrete antes que alguém possa estranhar a mudança de tratamento de Afrodite com Camus em alguns momentos: na frente de outras pessoas, como tem que se portar como um subalterno falando com "sua senhora", o Dite trata o amigo por "vós" e não por "tu", como costuma fazer há anos. Peço desculpas desde já pelas cenas de treinamento com as espadas, não entendo nada disso, e também não sei fazer cenas de ação lá muito bem, rsrs. Os procedimentos aqui descritos foram pesquisados em artigos e matérias sobre a esgrima medieval, em blogs e sites dos mais variados. Procurei fazer um apanhado geral para compor a sequência de acordo com o que a mesma exigia. A fanart que é capa do capítulo é uma linda obra da Eduarda Zappe. Não ficou parecendo cena de anime??? Adoreeeei *.* Linda demais! Obrigada, D.I.T.E chan ^^ Boa leitura ^^

Empunhando a espada que, segundo Milo, agora pertencia a si, Camus não pôde deixar de deixar transparecer sua incredulidade. Achou por bem confirmar:

—Que estás a dizer?

— O que estás a ouvir. – respondeu o loiro, sorridente, brandindo a espada que portava na direção do esposo.

— Eu, treinar contigo? Como se fosse eu um… um homem que tivesse recebido treinamento de guerreiro?

— Bem, ÉS um homem. E, com efeito, recebeste treinamento de guerreiro, de teu próprio pai, é bem verdade, mas...

— RUDIMENTOS de treinamento. Não se equiparam aos ensinamentos que TU recebeste, às vivências que TU possuis.

— Mais um motivo para que treines comigo.

Camus revirou os olhos, abaixando de vez a arma, que já mantinha abaixo da linha da cintura. Argumentou, com certa amargura:

— Não sou nenhum leigo, contudo, de forma alguma estou à altura de constituir oponente para ti.

Didaticamente, Milo expôs ao relutante parceiro:

—Não iremos lutar de igual para igual. Aliás, sequer iremos lutar. É como te disse, iremos “treinar”. Vai daí grande diferença. É notório que tu não realizas exercícios desta natureza há um bom tempo.

Ante o olhar desconfiado do outro, tornou-se mais assertivo:

— Pensa antes como lições que tomarás de mim, seja para aprender, seja para rememorar o que já sabes. Neste primeiro momento, pois, apenas hei de te ajudar a relembrar o que aprendeste com o senhor duque de Borgonha. Em outra ocasião, ensinar-te-ei técnicas que considero essenciais para um cavaleiro. Técnicas adquiridas tanto em meus anos de formação quanto nos campos de batalha.

Embora um claro interesse rutilasse nas íris avermelhadas, o ruivo mantinha-se reticente.

— Sei que o que te detém não é temor, pois desconheces o medo – observou Milo, estreitando os olhos azuis – será orgulho? Ou...

— Não é isso – Camus interrompeu-o, com voz baixa. Ergueu a espada, estudando atentamente. – É que nunca vivenciei semelhante ocorrência. Receber a proposta de um mancebo para que com ele praticasse a arte da guerra é algo com que jamais sequer sonhei, muito embora acalentasse sim... a ventura de ser reconhecido por um homem... como seu igual.

— Queres dizer que esperavas por tal? Assim deixar-me-ás enciumado – gracejou o conde, levantando sua arma.

— Estou certo de que me compreendeste – retrucou Camus, sem esboçar qualquer hilaridade.

Milo percebeu que, malgrado o amado disfarçasse, ele estava assaz emocionado para assimilar brincadeiras. Assentindo, propôs:

— Neste caso, mostra-me o que sabes fazer, ou seja, do que te recordas. Sei que tuas vestes não são adequadas para tais práticas, mas...

Eles se olharam com severidade. Nuvens escuras vagavam, sem no entanto ameaçar o reinado do sol no firmamento. Uma suave brisa balançou as folhas das árvores, arrancando as mais ressequidas de suas copas amareladas e escarlates.

— Em primeira instância, deves readquirir a intimidade com a espada. É verdade que o manejo difere de arma para arma. A essência, porém, há de ser perene, similar em cada uma delas. Deves ser a extensão do que trazes em tuas mãos. A espada é tu, e tu és a espada. Esquece que tens braços. Abstrai-te de considerar-lhe o peso; a desenvoltura e o poder de teu espírito hão de minimizá-lo.

“Meu pai dizia isso...” lembrava-se o jovem, evitando mencioná-lo. Uma onda morna e aconchegante envolveu-o. Firmou as palmas no cabo da soberba arma.

— Começa consertando isto – ele demonstrou, movimentando os próprios membros de acordo com o que dizia – os braços devem estar flexionados próximos ao corpo. Se esticares em demasia, isso pode atrapalhar teus golpes de ataque e defesa. Lembra-te: a ESPADA estará na direção do adversários, não teus braços.

Camus fez conforme instruído, assentindo, obediente.

— Ainda que, em termos práticos, não se separe defesa de ataque, eu tão somente ficarei na defensiva. Deves saber, porém, que o ideal é combinar os dois. Fá-lo-ei deste jeito para aferir teus conhecimentos e traçar um plano de treino – o cavaleiro expôs, adquirindo um tom cada vez mais sério.

— De acordo. – Anuiu o ruivo. As palavras de seu pai visitaram-lhe a mente, e ele viu-se mesmo nos bosques de Turenne ao evocá-lo...

“Nunca movimentes tua espada de cima para baixo. E de igual modo abstém-te erguê-la acima de tua cabeça, caso contrário tuas axilas estarão expostas.”

Como que concordando com o duque, assim ele fez, sem distar os cotovelos demais do corpo, que era o que Milo acabara de dizer. Investiu contra o amado, que desviou sem o menor esforço, deslocando-se para o lado. A média distância, possível entrar em seu campo de ação. Separou mais as pernas, tomou impulso e girou a espada de lado.

“Camus, mover-te-ás da esquerda para direita, ou da direita para a esquerda. Para frente e para trás, apenas se não te sobrarem opções; são os movimentos que te deixarão mais vulnerável”, ouvia claramente a grave voz de seu amado pai. Assim fazia; Milo, entretanto, lograva escapar do alcance da arma, sem nem ao menos erguer a sua própria.

— Sei que podes mais do que isso – falou o conde, sempre na defensiva.

Ele podia.

Sabia que podia.

Por isso, tentou outra vez. E outra vez. E vez após vez, sem obter êxito. Pelo menos, no que tangia a fazer com que Milo ao menos se dignasse a erguer a espada.

Mas qual.

O loiro mal erguia a arma! E quando o fazia, sequer havia o impulso cruzado. Não era à toa: este momento, em que as espadas dos oponentes se encontram ruidosamente, travando-se entre si, não raro fazia-se decisivo, pois era nessa hora em que se conseguia a valiosa chance de surrupiar aquela que, mais que a espada, era a maior arma do oponente: o equilíbrio. Àquele que disso se servisse, mesmo com truques – e não raro, justamente graças a eles — estava reservada a vitória. E Milo não queria acabar logo com o embate. Precisava que Camus desse tudo de si. O que ainda não o obrigara a efetuar o “impulso cruzado”.

De mais a mais, o esposo não estava de todo mau. Tinha desenvoltura, leveza e boa precisão, qualidades que certamente sua frieza no agir potencializava. Se não ousava mais, devia-se exatamente a isso e, claro, à longa ausência de qualquer treino.

Após alguns movimentos sem êxito, Camus estalou a língua e imprimiu mais vigor em seu ataque.

“Uma faca de dois gumes”, pensava o conde, analisando as ações e as expressões do amado.

Têmpera fazia-se necessária. Impaciência não.

Apenas o tempo estabeleceria o limite entre ambas.

Achou por bem imprimir mais realismo na situação e pôs-se a provocá-lo:

— Se prosseguires com esta comédia, paro com tudo isto.

— Não é... não é uma comédia – retorquiu Camus, enfim sentindo a espada pesar em suas mãos.

— Ofendes-me com tua reserva! Pensas, a sério, que poderás me ferir, e portanto, te conténs em me atacar?

— Eu... – umedeceu os lábios, considerando aquelas palavras, proferidas com petulância.

Súbito, sentiu o vento do fio de aço beijar de leve seus cabelos. Tivesse continuado imóvel, na certa teria perdido mechas da vasta e macia cabeleira. Em um reflexo grácil desviara, saltando instintivamente para trás, porém prontamente deslocando-se à esquerda, sem se distanciar demais.

— Não deténs amiúde teus olhos em minha pessoa – exortou o loiro, duramente – Lembra-te que em uma batalha aberta o oponente pode vir de qualquer direção. Tampouco mira demasiado tua arma, como estás a fazer neste exato instante!

Engolindo em seco, o ruivo reforçou o agarre no cabo da espada, disposto a mostrar-se mais eficiente. Sim, o faria! Milo orgulhar-se-ia dele... seu pai orgulhar-se-ia dele!

A lâmina com a gravação do escorpião novamente traçou o ar bem perto de Camus; desta vez ele bloqueou com destreza, evitando se evadir. O som das espadas se chocando enfim se fez ouvir. Aproveitando-se da aparente surpresa de Milo, Camus prontamente girou para tentar atingi-lo pelo outro lado; como imaginara, a arma do esposo recepcionara de pronto a sua, o clangor reverberando em seus ouvidos.

“Melhor, muito melhor”, o conde sorria por dentro, e só. Reproduzir a atmosfera de um combate era essencial. Percebeu que o marido franziu o cenho; simultâneo ao piscar de um dos olhos castanhos, deu-lhe uma cotovelada na altura do peito. Pego de surpresa, e sem nem mesmo entender como conseguira firmar o pé e manter o equilíbrio para não cair, Camus instintivamente levou uma das mãos até a área atingida; os enchimentos impediram-no de sentir aquele golpe em plenitude, mas ainda assim doeu um pouco.

— Não olvides jamais de descobrir em que posição o sol baterá nos olhos do teu adversário... procure se posicionar de acordo com ela. E nunca de encontro a ela. Foi o que te causou essa cotovelada. E não me olhes assim; em um campo de batalha, serve-se de truques como esse indiscriminadamente.

— Meu pai não me disse isso. Talvez por não se tratar de procedimentos em consonância com a honra.

— Em lutas pessoais, duelos, e como desporto talvez, meu caro. No entanto, pelo bem da coletividade, há que se considerar as possibilidades que o combate oferece. A honra pessoal curva-se diante do interesse da missão. – Milo tornou-se sombrio — A honra pessoal bate em retirada em duas situações, Camus: quando a vida de teus companheiros dessa debandada depende... e quando a morte assopra seu hálito em teu rosto.

— Compreendo – o ruivo assentiu, conformado – Há outros exemplos dos quais posso estar ciente?

— O acervo é extenso – riu o loiro, gesticulando com a espada nas mãos – Chutes, pontapés, rasteiras, empurrões... até jogar areia ou terra nos olhos.

— Deveras? Eu nunca imaginaria…

— Há cavaleiros que chegam a se fazer de fracos ou covardes durante o embate, ou mesmo fingem ter se ferido, para inflar confiança excessiva no oponente... e confiança excessiva, desde já advirto-te, é venal. Respeito pelo outro e segurança em ti mesmo sempre. Confiança em demasia é dispensável.

Sinalizando entendimento, Camus voltou a atacar o marido, instituindo nova sessão de movimentos orquestrados por técnicas e vivências. Naquela sequência, Milo distinguiu claramente o imenso potencial que o outro possuía. Teria sido um guerreiro espetacular! E treinavam apenas pela primeira vez...

De sua parte, julgando-se tão aquém do amado como um fungo do Sol, o ruivo intensificou o impulso, projetando-se com um salto mais longo. Antes que ajustasse a espada no ar, foi com tudo ao chão. Caiu, sem pelo menos largar a arma.

Diante de seus olhos estupefatos, a lâmina do consorte.

— Entendeste o que se passou contigo?

— Perdi – respirou, levemente ofegante, mais pela surpresa da queda do que pelo cansaço.

— Dispenso o óbvio. Quero saber se entendeste o que te levou a tal.

Apoiando-se nos cotovelos, o jovem reconheceu:

— Eu tirei os pés do chão. O certo é deslizá-los... mas ao saltar...

— Eles não mais estavam no chão. Neste ínfimo instante, aproveitei que não contava com teu equilíbrio normal e simplesmente empurrei-te com meu pé direito, bem na dobra do joelho.

— Uma das tais táticas não imaginada por um varão criado como donzela.

— Lembra-te do que falei: teus braços são a extensão de tua espada – estendeu a mão para ajudá-lo a se erguer – portanto, teu corpo também é uma arma, Camus. E logicamente o oponente usará o dele da mesma forma. Como eu fiz.

— Não me esquecerei – De pé, olhou para a mão que segurava firmemente a sua.

— Não te machuquei, machuquei?

O tom voltara a ser caloroso, gentil. O ruivo mirou o esposo nos olhos, refletindo em como Milo havia se transformado durante aquela sessão. Por uns minutos, pôde vislumbrar o cavaleiro das campanhas orientais, o maior dos guerreiros de França. Sentia-se imensamente agradecido por Milo ter-lhe permitido conhecer mais um pouco de si, e ter querido conhecer mais dele. Milo não fizera daquele treino um pretexto de sedução ou coisa que o valesse: enxergara em Camus um verdadeiro varão com quem treinar as artes da guerra.

— Camus? – estranhou a demora da resposta.

O ruivo balançou a cabeça negativamente, sorrindo graciosamente.

— Não, tu não me machucaste.

— Folgo em sabê-lo.

As mãos de Milo cingiram a cintura do jovem, aproximando-o mais de si.

— Teu pai orgulhar-se-ia de ti.

A respiração de Camus chegou a parar. Seu coração acelerado inundava-se de amor. De saudade. De gratidão. Contraiu as palmas no largo peitoral do loiro.

— Muito obrigado, Milo. Este foi o melhor presente que poderias ter me dado.

— Fico feliz que tenhas apreciado a espada.

— Não me refiro à espada... embora eu a tenha apreciado grandemente.

Eles se olharam, suas pulsações quase se tornando uma só.

— Ótimo. Pois até passarmos para o treino da alabarda, ela será tua companheira. Suponho que o duque tenha te ensinado a manejá-la também, logo...

O ruivo arregalou os olhos tal qual uma criança que recebe um mimo inesperado.

— Acaso estás a me dizer que... que me treinarás outras vezes?

— Tantas quanto forem necessárias. Um guerreiro nunca deve se descuidar de tais atividades, tanto em épocas belicosas como de paz, nós...

— Eu te amo.

A declaração saíra abafada porque ele afundara o rosto no peito de Milo, abraçando-o. O importante, porém, é que saíra satisfatoriamente audível. O cavaleiro abraçou-o de volta, envolvendo-o com a devoção de quem guarda consigo uma relíquia.

— Eu também te amo, Camus... o meu anjo, senhor de minha existência, meu Camus! – devolveu, e tomou os finos lábios de seu esposo, cuja resposta foi igualmente terna e cálida.

*************

Os dias mais felizes das vidas de Camus e Milo foram também os que passaram mais rapidamente, sob a percepção apaixonada de ambos. Urgia que o governante de Saint-Doulchard para lá regressasse, até porque a região encontrava-se, sob sua eficiente administração, em franca revitalização. Encontrar o amor e consumá-lo elevava sobremaneira o ânimo de Milo, e ele enchia-se de esperança para fazer sua nova e já amada terra ascender.

Chegaram ao lar em um fim de tarde fresco e ensolarado. Foram recebidos com alegria por todos, notadamente pelo camareiro-mor, que não se conteve em abraçar efusivamente “a senhora condessa”, de quem nunca havia ficado longe por tanto tempo. Embora tal comportamento não deixasse de causar estranheza nos presentes, já estavam se acostumando com os modos excêntricos do sueco.

— Ele cuidou bem de ti? Foi inconveniente? Perverso? Diz-me e dar-lhe-ei uma lição... – perguntou-lhe, ao pé do ouvido.

— Afrodite! Não! Correu tudo bem... Milo foi muito bom para comigo...

— ...se eu souber que ele te maltratou, coloco umas ervinhas em sua bebida, que fá-lo-á ter desarranjos até o Natal.

— Afrodite!!! – Camus riu, atraindo ainda mais a curiosidade de todos que assistiam àquela curiosa cena.

Milo interpôs-se entre os dois amigos, separando-os, e ralhou, em tom de pilhéria:

— Basta de espalhafatos, camareirozinho. Solta já minha esposa, ou hás de passar uma temporada na masmorra. Quem sabe até o Natal!

Imediatamente, Camus parou de rir. Lembrou-se da desgostosa história que o sueco lhe contara... temeu que aquelas palavras trouxessem recordações dolorosas ao amigo. Não obstante, Afrodite riu ainda mais, mostrando meio palmo de língua para o conde. Os espectadores levaram as mãos às bocas.

— Sois assaz inseguro, ó poderoso soberano de Saint-Doulchard. Poderia um reles camareirozinho surrupiar-vos a esposa? – troçou, ao que Milo riu também. Os demais se entreolharam e puseram-se a rir, alguns por legítima comicidade, outros apenas por não saber o que fazer.

“Talvez eu devesse contar a Milo... claro, obtendo de Afrodite a permissão... entretanto... imagino que ele há de ma negar”, pensava o ruivo, vendo os dois trocando impropérios jocosos entre si. Criados vieram buscar as bagagens dos recém chegados senhores.

— Correu tudo bem em minha ausência, Pierre, Leopold..? Afrodite não aborreceu-vos em demasia? – indagou o cavaleiro, recebendo nova careta do sueco.

— Sim, digníssimo conde, tudo correu tranquilamente por estas paragens, na santa paz de Nosso Senhor Deus. Ao contrário, o senhor Afrodite foi exímio colaborador, sequer descuidando da saúde de vossos servos.

— Pensamos até que Vossa Excelência talvez pudesse substituir o barbeiro-cirurgião oficial do castelo pelo senhor Afrodite...

— Se me permitis, senhor Milo, Leopold faz uma consciente colocação. – Concordou o castelão.

— O que é isso, um motim? – revoltou-se o homem que fazia as vezes de médico na extensa propriedade, por trás de alguns funcionários.

O capitão da guarda limpou a garganta e ajuntou:

— É notório que o barbeiro-cirurgião tem sido preterido por aqueles que necessitam de cuidados médicos...

— Oras, garanto que isso se dá mais à fina estampa do senhor camareiro-mor do que propriamente técnica e conhecimento. – o homem que a tudo ouvia vermelho de cólera rebateu, erguendo o nariz empoado em despeito.

— É uma vantagem a mais que o senhor Afrodite possui, com efeito, — disse a esposa de Pierre, sem papas na língua – Contudo, os que por ele são atendidos desmancham-se em elogios, tanto pela amabilidade dispensada quanto pelos excelentes resultados de seus cuidados. Foi só depois que o senhor Afrodite me atendeu que fiquei boa de um eczema que não arrefecia nem após anos de tratamentos prescritos pelo senhor....

— Ora, os tratamentos que prescrevi enfim surtiram resultados, e a senhora está a creditar o feito a uma pomadinha qualquer que o senhor Afrodite vos deu! – indignou-se o barbeiro-cirurgião.

— Eu tinha uma ferida neste dedo que não cicatrizava por nada, o senhor barbeiro-cirurgião sugeriu até que eu deveria cortar a carne podre, mas o senhor Afrodite deu-me uma tintura que limpou tudinho, tudinho – comemorava um dos vassalos, o jovem barão de Limonges.

— Tintura! Pois sim, meu senhor, digo-vos que foi vosso medo de uma dorzinha de nada que agiu para que a cura viesse rapidamente e...

— Atrevido! Como ousas...

— Já chega. Vós estais a me cansar mais que as trinta horas de viagem. Deixai-nos ao menos entrar em nossa residência. Vem, minha querida – Milo chamou “Camille” para que o acompanhasse. “Ela” assentiu e seguiu o marido.

Tão cansados estavam os consortes que apenas se limparam e se atiraram ao leito, ambos adormecendo quase instantaneamente. Efeito de trinta horas longe de um leito...

Acordaram somente no dia seguinte. Bem dispostos, amaram-se ao raiar do sol. Horas depois, desciam para o desjejum.

À mesa guarnecida com iguarias variadas encontravam-se Afrodite, alguns dos funcionários de Milo com as esposas, e alguns vassalos, de passagem ou a serviço do conde.

— Muitos bons dias, senhores. – Cumprimentou o casal, recebendo de todos polidas reverências.

Iniciaram a refeição, conversando tranquilamente.

— Afrodite, esqueci de dizer-te: trouxemos sementes e mudas de Haute-Loire.

— Isso muito me alegra, minha senhora. Espero que tenhais vos lembrado de identificá-las.

— Bem...

— EU fiz isso. – Interveio Milo, servindo-se de torta de coelho com ameixas. – Obtive a ajuda de...., o castelão de lá.

Erguendo as sobrancelhas em sinal de admiração, o sueco falou, antes de abocanhar voluptuosamente um confeito de amêndoas:

— Bom, veremos quais delas adaptar-se-ão a esta localidade.

— Não há diferenças dignas de nota entre a natureza de Saint-Doulchard e Haute-Loire. É claro, a de lá mostra-se mais exuberante, mas não como a bela Borgonha...

— “Não há diferenças dignas de nota” diante de vossos olhos treinados para a guerra, senhor conde, não para a delicada sutileza de cada solo; cada um tem suas particularidades, únicas, tão mínimas e tão imensas. A flor que desabrocha vistosa em Haute-Loire pode fenecer ainda broto. O oposto também se verifica.

— É bem verdade que esta região é montanhosa e acidentada, parece-me sim mais modesta nesse sentido...

— O que não impede que belezas irrompam de seu âmago supostamente pobre. Vide o jardim e o pomar de vosso castelo, hoje nem sombra daquele cemitério de quando cá chegamos. Sem ofensas, Excelência.

— Não me senti ofendido, a despeito de teu tom, invariavelmente impertinente, Afrodite. – volveu Milo, divertido. – Reconheço teus talentos como jardineiro.

O sueco espalmou a mão translúcida por sobre o peito, estufado sob colares preciosos, retrucando convencido:

— Não sou apenas um jardineiro, senhor conde, sou um especialista em Botânica.

— “Especialista” sem estudo formal? Qual, és talentoso, não especialista.

— Hunf. Detalhes aos quais apenas um leigo como vós se atém. Certo estou de que em vossa viagem de lua de mel vos servistes dos conhecimentos deste “camareirozinho sem estudo formal”...

Camus corou fortemente em meio ao riso envergonhado. Já Milo deu um meio sorriso, apertando a haste do cálice.

— Ora... cala-te... camareirozinho...

Ainda que eles rissem, os demais ainda se entreolhavam, espantados com o grau de proximidade entre o camareiro e o governante. Consideravam insólito que um poderoso senhor de terras permitisse tais gracejos vindos de um subalterno! O fato é que, além de insólita a situação, o conde com ela parecia até se divertir. Sem qualquer opção, limitavam-se a observar e dar discretos sorrisos amarelos.

Assim transcorria a refeição, em clima leve e descontraído, até que um serviçal adentrou a Grande Sala trazendo missivas em uma larga bandeja de prata. Deteve-se diante da mesa, curvando-se respeitosamente.

— Vossa Excelência, acabaram de chegar estas correspondências.

— Hum – Milo engoliu o vinho que restava na taça, subitamente ansioso. – Traz-mas, traz-mas.

Pegou-as, angariando olhares curiosos de todos.

— Há uma carta para ti, “Camille”, é de teu pai... ah, há outras: de tuas irmãs e de tuas tias.

— Deveras? – não cabia em si de contente. Tomou-as, resistindo ao ímpeto de apertá-las contra o peito. Havia tanto tempo que não recebia notícias dos seus! Mirou-as com carinho, lamentando-se apenas por não ver entre elas uma carta de Hilda.

“Apesar de eu ter enviado-lhe dezenas e dezenas de cartas, jamais obtive uma resposta...”, pensou, subitamente pesaroso. Poderiam ter se extraviado? Utilizara o endereço do convento corretamente, informado pelo pai, estava certo disto... uma ou outra missiva perder-se no caminho vá lá, mas dezenas...?

— Algum problema, minha querida esposa? – Milo logo percebeu a mudança no semblante do amado.

— Não, meu senhor.

Decidindo tratar daquilo a sós com o marido em outra hora, voltou a conferir a correspondência:

— Vejamos o que mais temos aqui. Estas são para mim... de meu pai, de Aiolia... estas aqui de negócios... fornecedores... do marquês de Tulliers... do conde de Montpellier... ah! Esta! Esta eu esperava com particular interesse!

— E de quem é? – quis saber o ruivo, tornando seus olhos de suas preciosas missivas para a que o esposo segurava com visível euforia.

— Do excelentíssimo reitor da Universidade de Paris.

— O reitor da Universidade de Paris? Não sabia que o senhor meu marido possuía negócios com ele.

— Eu não tinha. Se Deus me honrar com Sua graça, passarei a ter. – respondeu, rompendo o lacre, o belo selo de ouro da tradicional instituição.

Fez-se profundo silêncio enquanto o nobre lia atentamente aquela que for a única carta aberta diante de todos. Havia de ser algo que o conde quisesse anunciar. De fato, seu semblante iluminava-se a cada movimento das claras íris.

— Isto é maravilhoso! – Murmurou, antes de erguer os olhos do papel para os convivas. – É algo de suma importância para Saint-Doulchard. Enviei uma carta ao senhor reitor deste referido centro de ensino, pedindo-lhe que aceitasse o senhor Afrodite em seu prestigiado e disputado curso de Medicina... e minha solicitação foi deferida!

— O quê?! – Fez Camus, incrédulo. A seu lado, Afrodite parecia experimentar a mesma sensação.

Milo olhou diretamente para o sueco, dizendo em tom animado:

— Afrodite, irás para a Universidade de Paris. Tornar-te-ás médico, como tua vocação assim o demanda.

Os presentes sorriram e soltaram exclamações entusiasmadas. Contudo, o camareiro-mor permaneceu imóvel, mudo.

— Milo! Mas... como... – Camus não sabia o que dizer. Olhava de Afrodite para Milo, de Milo para Afrodite, e desvendando na expressão deste sombria insatisfação com o que acabara de ouvir.

Em meio ao falatório empolgado, o soberano acrescentou:

— Sim, o senhor Afrodite irá para a Universidade de Paris. Tenciono não apenas que ele seja médico no futuro hospital de Saint-Doulchard; pretendo entregar a ele a direção do hospital!

— Que promissora nos parece tal decisão! – falou o castelão Pierre.

— O hospital não poderia estar em melhores mãos! – Concordou o capitão da guarda.

O capelão uniu as mãos, erguendo o olhar devoto para cima ao proferir:

— O hospital de Saint-Doulchard certamente tornar-se-á referência em França... quiçá da Europa!

— Não há dúvidas – ajuntou um dos vassalos locais do conde — Pelo que se vê com o avanço das obras, pela eficiência de nosso governante, e agora, sabendo quem será desse hospital o diretor, isso é mais que certo!

— Brindemos, pois! É um grande passo para nossa terra! – Conclamou Milo, erguendo sua taça.

De pronto foi seguido por quase todos, exceto justamente por “sua esposa” e pelo próprio homenageado.

Pela primeira vez, o camareiro-mor mostrava-se soturno. Fuzilava o casal de condes com olhar quase tão gélido quanto o esporadicamente ostentado “pela condessa”.

— Vejo que pouco esperaram para enfim livrar-vos de minha presença. – Atirou, secamente.

Camus virou-se para ele, aflito:

— Afrodite, eu não sabia de que meu esposo enviara tal mensagem ao reitor da Universidade...

— Era uma questão de tempo – sorriu, irônico – Tão logo vós obtivestes o que almejáveis... livrar-vos-íeis do “peso extra”.

O ruivo estremeceu ante aquela fala.

— Por Deus... que estás a dizer?

— Afrodite, vejo que não estás satisfeito com as boas novas. – Observou Milo, com gravidade.

Ainda sorrindo, com o olhar em chamas, o sueco retrucou:

— Nossas definições de “boas novas” por certo são divergentes, meu senhor. Em meu humilde entendimento, decisões acerca de minha vida sem o meu aval não configuram exatamente “boas novas”.

— Céus, quanta audácia – murmurou o capelão, escandalizado.

— Audácia? Isso é a mais pura insolência – ciciou o capitão da guarda, a que os demais assentiram em concordância.

Milo encarou duramente Afrodite, que sustentou o olhar desafiador. Camus abriu a boca mas preferiu manter-se calado, sentindo a atmosfera sufocantemente densa.

— Falar-nos-emos mais tarde, Afrodite. Não tenho intenção de prejudicar este ameno momento de repasto com admoestações as quais eu julgava desnecessárias.

Dito isto, o conde deixava patente seu desagrado com a atitude do sueco. Este manteve a cabeça erguida, recebendo os vários olhares reprovadores com inabalável orgulho. Apenas Camus parecia perturbado com o ocorrido.

Optando por ignorar aquilo tudo, Milo tomou outra carta nas mãos. Ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Ora... uma carta do duque de Benacantil – falou, abrindo-a, intrigado.

— Referes-te ao duque de Valência? Possuis negócios com ele? – Estranhou Camus.

Considerando o marido por uns instantes com um enigmático olhar, o loiro respondeu:

— Hospedei-me em sua residência quando estive em Alicante. (*capítulos 17 e 18, “Andaluzia partes I e II”)

Levemente desconfortável, Camus evitou aquele olhar; lembrava-se de ter sido pedido em casamento pelo poderoso estrangeiro, e de como este manifestara particular descontentamento ao ser recusado por Teobald II como consorte “da primogênita”.

— Eu desconhecia que fôsseis amigos...

— Não somos amigos – de sua parte, Milo incomodou-se ao se recordar dos arroubos do nobre acerca “da fascinante Camille” – Eu tão somente lá me hospedei em função dos assuntos que me levaram à Andaluzia.

Rompido o selo, o cavaleiro pôs-se a ler a mensagem, resmungando uma ou outra coisa de forma razoavelmente audível:

— Vejamos o que diz, pois a mim causa particular surpresa que me escreva... hum... pergunta por TI, claro, antes de mais nada...

— Isso lá me diz respeito? – murmurou Camus, encolhendo-se com asco ao evocar a patética cena do homem perante o duque de Borgonha: gesticulava, ultrajado, em vão argumentando dramático: “Vossa filha seria como uma verdadeira rainha, na mais próspera terra da Europa! Custa-me a crer que me repelis como membro de vossa família, meu estimado amigo...!”

— Mas... não pode ser... que é que me diz este parvo?!?

O tom estupefato pôs todos em alerta. Presenciaram o repentino emudecimento do conde, malgrado ele tivesse se disposto a revelar o que dizia aquela missiva.

— Milo? – o esposo tocou-lhe de leve o antebraço. Podia sentir a tensão dali! – Por que estás tão impressionado? Que é que te diz o soberano de Valência?

— Ele… convida-nos, a mim e a ti, para que fiquemos em seu castelo mesmo após as bodas da filha...

Soltando um suspiro tanto de alívio quanto de enfado, Camus indagou:

— E que razão há para tamanho estupor? Por Deus, assustaste-nos. Pelo que entendi, recebeste um convite de casamento, eis tudo.

— Não. Não é um convite de casamento, pelo menos não nos termos oficiais. Ele tão somente relata ter feito a proposta a um nobre espanhol, oferecendo-lhe a mão de Isabel, sua segunda filha. E que deseja que estendamos nossa estada em sua propriedade, assaz aprazível, devo acrescentar, para além dos festejos... o que me espanta até eriçar-me os cabelos é saber A QUEM a jovem foi oferecida como esposa!...

— A quem?!?

— A Shura… a meu amigo, marquês Shura de Aguillar!...

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Notas finais
PARA TUDO! Shura vai se casar??? Que acham? Não bastasse a decisão de Milo, que não agradou nadinha ao sueco, este fica sabendo de mais esta! No próximo capítulo, centrado em Afrodite, que passa a ter mais destaque na história, veremos o desenrolar dessas novidades em sua vida. Link para o tema do capítulo: "Dawn" Achorage (lindo vídeo, aliás *.*) https://www.youtube.com/watch?v=CZaNkr-lves Obrigada por lerem ♥ Boa semana a todos!