Dame Jolie
35 O Rumo da Verdade
Notas iniciais
À frente do pequeno grupo que se preparava para visitar Sophie, a matriarca dos Auvergne, há meses doente e encerrada em seu quarto, Henri abriu a porta de carvalho maciço. A relativa claridade do aposento destoava da imagem que Camus fizera do refúgio de uma moribunda. As janelas escancaradas deixavam o ar gelado adentrar o ambiente. Apesar de ainda ser dia, velas já estavam acesas, grande parte delas aromáticas. O jovem se questionou se não passava de um artifício para mascarar o odor tão característico de recintos com convalescentes de longa data. Evocou o aroma da morte com que sempre o recepcionava a alcova de sua finada mãe.
— Com a tua licença, minha senhora... – o Conde D’Auvergne anunciou a chegada deles.
Do grande leito rodeado por um dossel púrpura distinguia-se uma imóvel figura de branco. À sua cabeceira assentava-se uma jovem criada, que levantou-se imediatamente para prestar-lhes uma respeitosa mesura. Uma outra criada, que trazia um pesado cobertor, fez o mesmo.
— Anette. Elise. Como está a condessa?
—Dormiu desde o fim da manhã até há pouco, quando acordou dizendo sentir frio. – informou a mais nova.
— Sendo assim, por que não fechastes as janelas? Está frio mesmo. – Indagou o nobre, tirando a coberta das mãos da serva.
— Tencionamos fazê-lo, senhor, mas a condessa não permitiu...
Henri balançou a cabeça, como se não se surpreendesse com aquilo. Fez sinal para que as serviçais se retirassem. Aproximou-se do leito da mulher. Enquanto a cobria com a grossa e macia manta de lã de carneiro, repreendia Sophie, com branda amabilidade:
— Por que não deixou as criadas fecharem as janelas? Sabes que este ar frio faz-te mal.
— Prefiro que fiquem abertas. Desagrada-me ficar encerrada em um local que antecipa o ataúde que em breve será minha morada.
— Mãe!!! Por Deus, que coisa terrível dizes! – Horrorizou-se Aiolia.
— Ora, haverei eu, portanto, de incorrer em inverdades logo nos derradeiros momentos de minha existência? – argumentou, sorrindo alegremente a despeito da morbidez do enunciado. – Quero as janelas bem abertas, desejo o eflúvio da natureza à qual logo hei de me incorporar. Que seja o frio, com ele vem o ar das montanhas, o vento das planícies, a brisa dos vales... tudo o que não mais inspirarei. O canto dos pássaros, que não mais ouvirei...
— Quem ouve-te expressar-te dessa maneira há de acreditar piamente que estás prestes a deixar esta vida. – Alegou Henri, comovido. Em verdade, era a primeira vez em que a ouvia falar daquele jeito.
— E não estou? Um forte indício é a incomum presença de todos vós aqui. Nem é Natal ainda. – Ela riu, fracamente.
Milo cruzou os braços, fingindo seriedade.
— Então um filho não pode mais visitar a própria mãe, pois que tal ato vulgar há de configurar um indício tão agourento? – Aproximou-se do leito, permitindo-se sorrir, terno. – À época do Natal torna-se difícil tomar a estrada para cá. Preferimos antecipar.
— Fez bem... ano passado, tivemos nevascas como nunca dantes... – Ela observava enleada o belo jovem e “a dama” que o acompanhava.
— Ah, minha querida mãe! – Tomou-lhe a mão entre as suas. Imaginava-as geladas; estavam, porém, quentes. Seria a febre...?
—Milo… por Deus, como estás magnífico... estás tão lindo que machuca a vista da gente olhar-te...
— Folgo em ver-te bem.
Sophie sorriu, satisfeita com a presença do saudoso filho, e também por ele não aparentar consternação. Isso a alegrava, pois demonstrava o autodomínio que sempre quis ver nos rebentos. Autodomínio era símbolo de força de caráter, muito mais que qualquer ostentação gratuita de poder. Aiolia, por outro lado, já lacrimejava pateticamente. Henri costumava dizer que ele era “mole” demais para um Auvergne. Ela quase balançou a cabeça em reprovação ao caçula... não o fez porque acreditava que o casamento pudesse mudar aquilo... e porque sua atenção se prendeu na elegante consorte do primogênito.
— Camille... há quanto tempo eu não te vejo... lá se vão anos... pelos céus, como estás formosa... as descrições que ouvi acerca de ti nem de longe fazem jus à real imagem diante destes meus olhos!
Camus fez uma respeitosa mesura e agradeceu:
— Grande é a gentileza com que me agraciais, senhora madrinha, tanto mais considerando que sois, com efeito, a mais bela dama que já encontrei. – Ele não exagerava; Henri possuía atraente estampa, mas diante de Sophie, o ruivo atestava de onde provinha a estonteante beleza de Milo.
— Tal afabilidade de fato confirma que és uma Turenne de origem. Penso, todavia, que te olvidas do semblante de tua mãe, que Deus a tenha.
Ante a menção à falecida progenitora, Camus sentiu os pelos se eriçarem.
Com doçura nostálgica na voz, a sogra rememorou:
— Maude foi, sem sombra de dúvidas, uma das mulheres mais fascinantes de seu tempo. A despeito do exotismo intimidante que seus cabelos rubros detinham, nenhuma alma sã poderia negar-lhe a incomparável beleza, tampouco a sua presença de espírito, seus talentos em variadas expressões da arte... ela compunha canções, poemas, declamava, cantava, tocava harpa, alaúde, saltério e cítara maravilhosamente... imagino que ela não tenha tido tempo de ensinar-te a tocar todos esses instrumentos.
— Não, ela não teve... – respondeu, pesaroso. Um tanto envergonhado, acrescentou: – Só quando fui morar em Saint-Doulchard comecei a estudar o saltério. Pretendo um dia aprender harpa, mas...
— Oh, que soberbo! Trouxeste teu saltério contigo?
—N-não... – Recriminou-se por não ter tido sequer a ideia. Inconscientemente, buscou Milo com o olhar confuso.
— Não tem importância, Camille poderá emprestar um saltério de um dos músicos do castelo.
— Perfeito, Henri! Ah, preciso ver-te tocá-lo, minha querida! Será como ver a doce Maude tocando novamente...
— Lamento decepcionar-te, minha mãe, contudo devo dizer-te que não será não. – Rebateu Milo, cingindo “a esposa” pela cintura, amorosamente. – Pois estou certo de que Camille suplanta a distintíssima mãe, que Deus a tenha.
— Milo! – O ruivo resistiu ao ímpeto de dar um tapinha reprovador na mão do marido, pousada em seu quadril. Não pode, contudo, evitar de enrubescer. – Hás de criar expectativas infrutíferas no coração da senhora condessa...
— És tão modesta quanto linda...
— E tu és tão impertinente quanto... quanto inconveniente.
— Oras... não deverias ter terminado essa comparação com “garboso”, ao menos? – Riu, encantado com o “bico” do consorte.
A Sophie ficou evidente o nível de intimidade com que aqueles dois se expressavam. Não somente mediante a linguagem verbal, mas, principalmente, a linguagem corporal. Os olhares que trocavam, a proximidade física, o tom de suas vozes, o acento de ternura e de cumplicidade nelas presentes. Amavam-se, sabia-o.
Ficou feliz ao constatar que o filho encontrara no casamento o que ela não encontrara em seu matrimônio. Ao menos, Henri e ela eram bons amigos. Mirou o caçula com carinho, rogando a Deus que ele encontrasse o mesmo amor junto à irmã de Camille, a graciosa Marin. Bem, Aiolia dizia amar a menina, e, ao que parecia, o sentimento fora desde o início correspondido. Ah, que fossem felizes, que fossem felizes... como queria...
O conde D’Auvergne a conhecia tão bem que percebeu-lhe o ar reflexivo:
— Sentes algum incômodo, estimada senhora?
— Como poderia?!? Sinto-me bem como nunca. Afinal, tantas visitas importantes em um só dia...
Acariciando-lhe o rosto encovado e macilento, Milo mentiu:
— Tens excelente semblante, minha mãe. Ver-te assim enche-me de júbilo.
Malgrado a beleza da matriarca não arrefecesse tanto, nem a um cego passaria despercebida a aproximação da morte; não apenas a fraqueza perceptível no corpo debilitado, nas profundas olheiras sob os olhos azuis de puro topázio, como também a fadiga na voz baixa, arrastada... tão diferente do que se lembrava! Esforçava-se em não deixar transparecer a profunda tristeza causada por aquela lamentável impressão.
— Eu igualmente sinto-me agraciada em ver-te tão lindo, meu adorado... quando entraste por aquela porta, foi como se o próprio Sol tivesse adentrado este ambiente...
— Hunf, até Milo chegar, dirigias essas palavras a mim. Sou eu um Sol que se apagou, deveras? – Resmungou Aiolia, cruzando os braços assaz injuriado.
Em meio às risadas que aquela fala provocara, Milo balançou os cabelos do irmão, dizendo:
— Deixa-te de ciumeiras! Em breve, serás tu homem casado... não te cairão bem semelhantes frivolidades!
— Sim, é verdade. – Sophie colocou a mão na boca ao gargalhar, com medo de tossir. – Lamento que, provavelmente, não possa presenciar o enlace de meu pequenino... quis Deus que não contemplasse as bodas de nenhum dos dois filhos que me restaram!...
Embora se conservasse risonha, lágrimas cintilaram-se nas estupendas íris. Em um gesto de candura, Henri beijou-lhe a fronte, e gracejou:
— Lá vem a condessa proferir tolices. Vais viver muito ainda, essa doençazinha é coisa passageira. Já vi piores.
— O senhor meu pai tem toda razão.
— Com efeito, hás de melhorar logo, basta que repouses e que te alimentes bem.
Passaram cerca de uma hora nos aposentos da Condessa D’Auvergne. Quando notaram que a enferma chegara ao seu limite – as pálpebras pareciam pesar, e o peito arfava pelo esforço de manter o colóquio – resolveram dela se despedir. Sophie protestou, a fraqueza de seu corpo sobrepujando a veemência dos protestos.
De mais a mais, anoitecia.
Os quatro deixaram o quarto ocupado apenas pela matriarca; Henri confiara a esposa às servas e passara a ocupar um apartamento no pavimento inferior. Vendo Milo, Henri e Aiolia conversando pelo corredor fez Camus refletir se não seria adequado deixar que pai e filhos apaziguassem a saudade, que tivessem seu “momento de homens”. Concluiu que seria a atitude mais esperada de uma mulher naquela situação. Deu um falso bocejo por trás da nívea mão, antes de anunciar, humildemente:
— Encontro-me cansada da viagem. Se me permitirdes, gostaria de recolher-me...
— Estás mesmo bem? – Inquiriu Milo, adquirindo expressão preocupada. Perspicaz, Henri percebeu. Não, não havia nada de encenado ali.
Milo não era homem de encenar.
A cada instante ele se convencia de que Milo e Camus realmente...
— Estou sim, senhor meu marido, agradeço tua preocupação. – O ruivo sorriu abertamente, em uma confirmação do que alegava. – Vai refestelar-te com os teus.
— Fica à vontade, minha filha. Descansa.
— Tem um bom repouso, senhora minha cunhada.
Após curvar-se com graça, “a condessa de Saint-Doulchard” dirigiu-se com eles para a escada, sendo que subiu, e os demais desceram, para o Grande Salão. Lá, tencionavam palestrar, beber e jogar, como nos velhos e bons tempos.
*************
A noite ia alta quando a porta do quarto de hóspedes ocupado pelos condes de Saint-Doulchard abriu-se vagarosamente; Milo temia acordar o esposo, que, na certa, dormia há muito. Tanto mais porque vapores ébrios semeavam nele receio de ser inconveniente...
Tentando ao máximo não produzir nenhum barulho, pé ante pé ele caminhou para a alcova. Deteve-se defronte ao leito, contemplando as suaves curvas pinceladas pela tênue iluminação dos poucos círios ainda acesos.
A penumbra não o impediu de maravilhar-se com o brilho dos cabelos luzidios esparramados... com a brancura do pescoço insinuada por entre mechas que se abriam como sedosa cortina...
Balançou a cabeça, no afã de afugentar ideias lúbricas. Camus estava adormecido e ele, embriagado. Suspirou, resignado, retirando as botas. Então viu o marido se virar para ele. Os olhos rubros, semicerrados, mostraram que estava desperto. Hesitante, o loiro balbuciou:
— Pensei… pensei que estivesses dormindo…
— Sabes que tenho o sono leve. – Falou, após inspirar longamente.
— Acaso acordei-te quando adentrei o recinto?
O ruivo apenas assentiu, sonolento. Tinha marcas de travesseiro na face alva. Sentando-se perto do amado, Milo sorriu-lhe, e disse, acariciando-lhe o rosto adorável:
— Perdoa-me, anjo meu. Volta a dormir...
— Estás embriagado.
Revirando os olhos, o cavaleiro resmungou:
— Um pouco, sim. Não imaginas como é o meu pai. Achas que bebo demasiado? Sou um reles iniciante perto dele. – Riu, divertido. – Aiolia, pobre irmão... não consegue nos acompanhar! Já dormitava babando sobre a mesa.
Camus fitou-o de modo enigmático. Incapaz de decifrar-lhe aquele olhar, Milo cogitou se o amado o recriminava por ter retornado ao quarto bêbado.
Eis que foi surpreendido:
—Bem, o que estás esperando para tomar-me em teus braços, senhor meu esposo?
O queixo do loiro quase foi ao chão coberto por macias e coloridas tapeçarias.
— C-Camus? M-mas eu… estou…
Sem nada proferir, o ruivo sentou-se apenas para arrancar de si a manta que o cobria, e, em seguida, a túnica de seda pérola. Estirou-se lânguido no leito: o colo claro salpicado de poucas sardas, seu peito arfante, as longas pernas como colunas de mármore, os lábios umedecidos após sua língua por eles passar lascivamente... tudo compôs uma visão que fez a boca de Milo secar.
— Por Deus... – Murmurou o conde, em uma excitação aflita. – Creio que... que eu não consiga me conter, contigo me convidando dessa forma...
— E o que te faz pensar que precisas te conter?
Aquilo não se tratava mais de um convite, e sim de uma ordem.
Milo praticamente saltou sobre ele, cobrindo aquele corpo quente e nu com o seu, vestido, trêmulo de ansiedade. Tomou com sua boca ávida aqueles lábios tentadores, tingindo-os com o vinho que ainda jazia nos seus. Nem mesmo a bebida fizera-lhe queimar por dentro como o contato com a carne de Camus.
Amaram-se durante a madrugada gelada, ateando o fogo dos êxtases mutuamente, até que o sono venceu a ambos. Adormeceram unidos, Milo abrigando Camus em seu largo peito moreno, Camus enlaçando Milo, duas almas em plena comunhão.
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No dia seguinte, após o desjejum, Milo e seu pai partiram do Castelo de Auvergne. Planejavam cavalgar juntos, como nos bons e velhos tempos e, coroando a lembrança destes, treinar técnicas de combate. Aiolia não saíra de seus aposentos, inutilizado pela noite de bebedeira com o pai e o irmão. Não era forte para a bebida como os dois. Mesmo assim, cismara de querer fazer-lhes frente. O resultado não poderia ter sido diferente... embora Henri escarnecesse da “moleza” do caçula, Camus agradecia secretamente pela inaptidão alcoólica do cunhado; Marin jamais amargaria o dissabor de conviver com um marido beberrão, talvez a pior desgraça que poderia sobrevir a uma mulher...
O ruivo despedira-se do esposo e do sogro, um tanto pesaroso por não poder acompanhá-los. Teria apreciado sobremaneira treinar com eles. Eventualmente fazia-o com Milo... conhecendo Henri seu segredo, qual seria o motivo por privá-lo daquele estimulante entretenimento?
Tentou não pensar a respeito, a fim de não envenenar o seu coração.
No belo quarto de hóspedes, guarnecido de finas tapeçarias orientais, tanto no chão quanto nas paredes de pedra, pôs-se a ler um volumoso tomo de poemas e odes. Não demorou muito, a leitura absorveu-o de tal forma que seu espírito se evadiu para as distantes terras do mistério e do sonho. Horas corriam, e ele percorria aquele doce mundo, único, poético, distante... foi-lhe custoso perceber que batiam à porta. Ergueu-se do gabinete de mogno vermelho e foi atender. Deu com uma serviçal corpulenta e risonha, que segurava um saltério dourado.
— Perdoai-me, senhora Condessa de Saint-Doulchard. Minha senhora, a Condessa D’Auvergne, solicita vossa nobre presença em seus aposentos. Pediu-me que vos entregasse este instrumento...
Imediatamente, Camus desvendou o intuito da sogra. Sorriu de leve, aceitando o precioso objeto. Dirigiu-se para o apartamento da enferma. Esta recebeu-o com um semblante vívido, mais animado do que o de véspera. O repouso fizera-lhe bem, pensou o jovem, aliviado. Saudou-a do portal, segurando a saia do longo vestido prateado com detalhes em opalas, como de seu adorno no pescoço:
— Muitos bons dias, senhora condessa. Se me permitis, tende esplêndido aspecto esta manhã.
— Querida Camille, quem te visse agora teria a certeza de que o vocábulo “esplêndido” foi cunhado para descrever a tua pessoa. Vem mais para cá, quero ver de perto essa formosura...
O ruivo obedeceu. Sophie pôs-se a observá-lo, de alto a baixo, sem a menor pressa, e sem nada dizer. Aquela acurada inspeção causou-lhe ligeiro desconforto. Ele esperou que ela se manifestasse, entretanto, apenas viu os olhos azuis – iguais aos olhos de Milo! – rutilarem pelas lágrimas que ali nasceram. Franzindo as sobrancelhas, Camus murmurou:
— Senhora…?
Erguendo meio corpo, Sophie sentou-se: Camus adiantou-se para ajeitar os travesseiros, de forma a sustentar melhor a nova posição. Consciente de que alarmara “a nora”, a matriarca fungou um pouco, evitando se render à emoção que fizera seus olhos lacrimejarem de súbito. Com voz baixa, elucidou
— Perdoa-me, minha menina. Ver-te assim, tão crescida, tão bela, tão altiva, segurando esse magnífico instrumento... por um momento... eu vi Maude diante de mim...
Deixando entreabrir os lábios carmesins, Camus tencionou aliviar a tensão que escapara-lhe pela respiração pesada. Viu-se constrangido, e, sem ação, só pode desviar o olhar.
— Estás corando... é como ela... Maude corava com uma facilidade incrível! E como detestava isso... – relembrou a condessa, em meio a um risinho maroto.
— Eu não sabia que havíeis conhecido minha mãe tão a fundo. – Confessou, timidamente.
— Isso foi antes de teu nascimento. Frequentamos os mesmos bailes, os mesmos eventos, porém viemos a ser ainda mais próximas após o casamento dela com o melhor amigo de meu marido...
Camus não entendia por quê. Mas algo naquela conversa deixava-o apreensivo.
— A distância de nossas residências não era empecilho para nossa amizade. Correspondíamo-nos com a frequência que nos era permitida. Sendo eu e Henri padrinhos teus e de tuas irmãs, visitávamo-nos mutuamente, por ocasião de batismos, comunhões, datas santas. Talvez tu não te lembres, porque ela se foi prematuramente...
— Sim, que Deus a tenha em Sua Perpétua Morada...
— Falando em batismos, Milo esteve em teu batizado! Não é divertido pensar nisto?
Nenhuma vontade de rir visitara o rapaz. Não obstante, ele sorriu.
— Claro, não vais te lembrar, por motivos óbvios... tampouco ele se lembra... tinha apenas três anos!
— Fico feliz em saber que mantivestes amizade com minha querida mãe. Eu... sempre achei que ela tivesse sido... uma pessoa solitária...
— E foi – Sophie tornou-se melancólica. – Maude era de natureza hermética. Não lhe seduziam as frivolidades da corte, tampouco os rapapés da sociedade que a endeusava. Tudo que queria era viver com o esposo e os filhos, em paz, e retirada das agruras do mundo. Pode ser que eu tenha sido sua única amiga, malgrado não nos víssemos amiúde.
Incerto sobre como responder, o ruivo limitou-se a menear a cabeça, em concordância.
— Sabe, és tão parecida com Maude...
— Milo também faz lembrar bastante a senhora.
Nem mesmo ele soube o motivo daquela réplica ter sido enunciado com tom defensivo.
Sophie apenas sorriu, e prosseguiu:
— Há pontos em que vos diferis, entretanto.
— Ah, sim?
—Sim. – Encarou-o, com perturbadora firmeza. – Maude tinha essa doçura no olhar, essa brandura nos gestos, uma delicadeza que fazia as gentes pensarem que ela poderia se partir como fina porcelana a qualquer instante. Eu não vejo tais características em tua semelhança com ela...
O coração de Camus disparou, mas ele manteve-se impassível, como se não estivesse ouvindo coisa alguma.
— ... seguramente és a segunda imagem de Maude. És bela, elegante e tens ar e maneiras refinadas... no entanto, não vejo em ti a fragilidade que via em Maude. O brilho de teu olhar não é o brilho do fogo das íris avermelhadas de Maude: antes, cintilam como cristais de gelo…
— É como dizem – Ele não deixou transparecer o efeito de tais palavras, conservando-se inexpressivo – Não existem duas pessoas iguais. Dizem que nem mesmo quando são irmãs gêmeas, que dirá mãe e filha.
Os lábios da matriarca – que só então o jovem percebera-os rachados e manchados – esboçaram um sorriso indecifrável. Suspirando longamente, ela recostou-se mais aos travesseiros, cerrando as pálpebras, como que subitamente cansada.
— Estou falando demais. Fatigo-me... e fatigo-te ainda mais...
— Não estais a fatigar-me, de forma alguma.
— Ao invés de honrar-me com tua cordialidade, honra-me com música... toca o saltério para mim, rogo-te...
Em meio ao insólito colóquio, Camus nem mais se dera conta de que segurava o instrumento. Reparou que a condessa mudara de expressão, tornando-se pálida e silenciosa. Procurou onde se sentar. Encontrou uma banqueta, melhor do que uma cadeira para executar a peça. Mirou a sogra, agora com olhar distante, e indagou:
— Meu repertório não é extenso, mas talvez haja alguma música que aprecieis e que eu possa arriscar-me a tocar...
— “Pax in nomine Domini” – Murmurou a condessa. Seus olhos voltaram a marejar.
— Eu... tenho certeza de que não farei jus ao que vós lembrais...
— Tanto se me dá – Devolveu, com perceptível impaciência, a despeito da fraqueza. – Basta... basta que a toqueis...
Assentindo polidamente, Camus começou a dedilhar o lindo saltério. Era uma composição de cerca de 80 ou 70 anos, de tradição andaluz.
Fechou os olhos e mergulhou na melodia que emergia, evocando sua amada e saudosa mãe...
*************
Os céus cingiam-se do tom entre prata e chumbo tão comum daquela época, prestes a recepcionar o inverno. O ar gelado tornava álgidas as gotículas de suor que brotavam nas frontes de pai e filho, concentrados em embates incessantes pelas clareiras dos bosques já despojados do verde. Investiam sem trégua um contra o outro, as espadas chocando-se ruidosamente antes das esquivas e dos volteios ágeis que apenas comprovavam suas decantadas habilidades. Se Milo podia contar com a juventude, seu pai contava com a experiência; no entanto, a idade parecia não abater-se sobre Henri, a despeito de seus compatriotas. E a Milo a desvantagem em experiência era compensada pela ferocidade e por tudo que vivera nos últimos anos, nos sangrentos campos do Oriente.
Nenhum deles venceu.
Nenhum deles perdeu.
Decidiram em comum acordo por uma pausa, a bem de se aliviarem e se refrescarem.
Desabaram sob um frondoso carvalho centenário. Após beberem água com sofreguidão, permitiram-se um descanso, refestelando-se com a brisa suave que vinha amainar os calores daquela luta.
— Tu te tornaste o mais formidável adversário que jamais poderia eu encontrar. Folgo que estejas do meu lado. – Gracejou Henri, sorvendo longos goles de vinho, agora que se cansara da água.
— Tive excelentes mestres. A começar por ti mesmo...
— Aaah, como senti falta de treinar com alguém à minha altura. Em geral, meus treinos não duram tanto... temia ficar atrofiado...
— Estarás centenário e forte como um touro!
— Aiolia não herdou tal faculdade... está muito abaixo de ti.
— Aiolia é uma outra categoria de homem, tu bem o sabes. Não te refiras a ele dessa forma jocosa...
— Não é jocosa – O conde ergueu as sobrancelhas. – É verdadeira.
— Aiolia dará antes um bom administrador, o que nem de longe é inútil para ti. Eu mesmo tenho me encontrado administrando Saint-Doulchard...
— Sim, eu tenho ouvido!
— ... permite que ele faça o mesmo aqui em Auvergne. Os tempos de guerra hão de passar. Quem souber fazer negócios, governar... terá o verdadeiro poder, meu pai.
Henri considerou-o, entre orgulhoso e surpreso.
— Nunca imaginei que ouvisse tais coisas da boca de quem só queria guerrear e farrear. Entretanto, não posso dizer que esteja insatisfeito. – Admitiu, sorrindo alegremente.
Milo sorriu também, emitindo um som pelas narinas. Seu pai encarou-o uns segundos. Angariando a atenção do filho, que olhou-o como a perguntar “o que foi?”, permitiu-se:
— Esperava ouvir de teus lábios a revelação que, agora vejo-o, terei eu mesmo de ir buscar.
O jovem cruzou as palmas atrás da nuca, cruzando as pernas, relaxado. Falou, neutro:
— Hum. De que se trata?
— De teu casamento.
Em um gesto não planejado, o loiro desencostou do tronco, olhando o pai com indisfarçável inquietação.
— Meu casamento? Ora… sobre que queres saber?
— Vejo que vos encontrais em bons termos, tu e Camus.
— Ah? Ah, sim, no final das contas, entendemo-nos… – disse, incerto. Lançou o olhar para as montanhas, envoltas pela neblina.
— Ah sim? E quanto a Haute-Loire?
— Haute... Loire?
— Sim, Haute-Loire… — Confirmou, frisando bem o nome. — o lugar onde, segundo o contrato de vosso matrimônio, abrigaria a família clandestina que tu constituirías... arranjaste a tal concubina?
Nitidamente desconfortável com o rumo da conversa, Milo pôs-se de pé. Inquiriu, impaciente:
— Não. Não arrumei. Avisar-te-ia, se tivesse, então não há necessidade de me interrogares.
— Não encontraste nenhuma rapariga que satisfizesse teus ideais? Tu, a cujos pés as damas caem como frutas maduras além da conta?
— Eu já disse que não. — O jovem controlava-se para não bufar entre os lábios crispados.
— Mas faz oito meses que contraíste casamento com... como era mesmo que chamavas Camus? “A aberração”?
Agora o loiro fez-se realmente nervoso.
—Sim, era assim que o chamava. Equivoquei-me, bem o sei.
— Isso é tudo?
— Senhor meu pai, verdadeiramente não entendo o rumo que queres dar a esta conversa!
Sorrindo, Henri ergueu-se do gramado. De frente para o primogênito, disse, tranquilo:
— O rumo da verdade.
Respirando apressadamente, Milo deu-lhe as costas. Não se envergonhava de seus sentimentos, de sua vida... mas... seu pai... seu pai!
— Milo, eu esperava que como seu pai, pudesse ouvir de ti que enfim... enfim...
— Enfim O QUÊ? – Vociferou o jovem, voltando-se para ele, quase ofegante.
Imperturbável, Henri respondeu:
— Que enfim aceitaste teus sentimentos para com Camus. Aqueles que verifiquei antes mesmo que vós vos unísseis em matrimônio.
Empalidecendo, Milo ciciou:
— Não sei do que estás a falar.
—Far-me-ei mais claro. Vós... tu e Camus... tornastes-vos realmente AMANTES.
— Não. – E Milo gargalhou, nervoso. – Não "amantes". Consortes! Somos CASADOS. Graças às artimanhas tuas e de Teobald! E do ladino do Felipe!
— Estou certo de que entendeste o sentido de “amantes” por mim empregado...
Cessando de rir, Milo encarou o pai. Então ergueu o queixo, em um gesto de petulante desafio:
— Certo... queres ouvir a verdade? Estás certo... eu e Camus... SOMOS AMANTES. AMAMO-NOS. Teu filho é um... como dirias? — Jogou a cabeça para trás, rindo sarcástico — Um “maldito sodomita”? Pouco se me dá. Aconteceram muitas coisas... MUITAS COISAS! Sofri como JAMAIS havia sofrido em minha vida... sofri como JAMAIS imaginarias... e em meio ao sofrimento, descobri que o amava. E que era por ele amado.
A tudo Henri ouvia, sem esboçar reação. O filho concluiu, em um tom desafiador:
— Eu o amo.
— Como eu disse, eu já o sabia.
Milo encarou o pai, apertando os olhos em feroz desconfiança. Entre dentes, quis saber:
— Não te escandalizas em saber que teu filho... teu filho...
— Não.
A ira de Milo arrefecia ante a placidez do pai. Só conseguiu repetir:
— Não...?
*************
A Condessa D’Auvergne hesitou em deixar aquele estado único de apreciação. Absorta na beleza da melodia que acabara de ouvir. Camus cessara de tocar, à espera do que mais a sogra iria dizer-lhe. Viu-lhe uma lágrima rolar pesadamente pelo rosto quase lívido. Arregalou os olhos, alarmado. Sentia-se a mãe do esposo mal...?
— Maude… Maude tocava tão lindamente... era como ascender aos céus e presenciar os coros celestiais... tu tocaste tão bem quanto ela...
Comovido, o ruivo abaixou o rosto, contestando em voz baixa:
— Vossa gentileza é sem precedentes, senhora. Decerto exagerais...
— Não, não. Se ela tivesse tido tempo de ensinar-te... ah, se ela tivesse te ensinado... mas ela não poderia... Maude... Maude nunca mais foi a mesma. Depois de... depois que perdeu... — Respirou fundo, cerrando as pálpebras frementes. — ...depois que perdeu a filha...
“A FILHA?”, Camus se perguntou se havia escutado direito. Esperou que a matriarca dos Auvergne continuasse, agora abrindo muito os olhos, adquirindo uma expressão compulgida:
— Foi muito para ela, tu bem o sabes... tu viste o estado em que ficou a pobre Maude, tua pobre mãe... era demais para ela lidar com a morte brutal, absurda, da filha querida, melhor dizendo, o assassinato cruel da filha, a primeira filha... e, mais ainda... o...
— Senhora. – Camus interveio, com branda firmeza. – Não perdi nenhuma de minhas irmãs. Creio que estais a vos confundir. Quem teve a vida ceifada foi meu irmão Camus.
Sophie cravou seu olhar analítico sobre o ruivo: ele sentiu arrepios correrem pela espinha. Insistiu, fitando o jovem com assustadora obstinação:
— Como eu te disse... foi demais para Maude... o fardo foi-lhe demasiado...
— Sim, entendo. Ter perdido Camus, meu querido irmão... — O ruivo também estava disposto a insistir contra aquele delírio perturbador. Suas mãos já suavam.
Com profunda piedade nos olhos claros e úmidos, Sophie sussurrou... tão fraca... mas tão audível a Camus como trovões de uma tarde de verão:
— Deve ter sido árduo... tão árduo... – E estendeu o olhar lacrimejante para o rosto pálido do jovem paralisado à sua frente. – ... tão árduo e sofrido para ti... meu querido CAMUS...
*************
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