Dame Jolie
1 Noivado
Notas iniciais
Sob o pálido sol daquele início de manhã primaveril, um pequeno séquito de cavaleiros avançava pelas verdejantes planícies de Turenne. Seguia o mesmo trajeto efetuado há pouco por outras caravanas, rumo ao castelo de Teobald II, duque de Borgonha, simplesmente o homem mais poderoso da França, em teoria, abaixo apenas do rei Filipe II.
Liderando o cortejo, os dois homens mais bem vestidos montados nos maiores e mais adornados cavalos puro sangue, cujo valor naquela época excedia o de centenas de cabeças de boi. O mais novo, alheio ao incômodo que sua basta franja loira inflingia aos seus olhos azuis mediante a ação do vento, mantinha o olhar perdido para além do horizonte amarelado. A seu pai, o conde de Auvergne, aquele alheamento não passou despercebido. Respeitou-o, momentaneamente; até que suspirou, antes de quebrar o silêncio:
— Algo te aflige, meu filho?
Sem deixar de contemplar a paisagem, o rapaz respondeu:
— Absolutamente, meu pai.
— Pois percebo-te um tanto distante.
— Perdoa-me se causo tal impressão. De fato, apenas ocorre-me que não esperava casar-me agora.
O ancião aquiesceu, sem se incomodar. Respondeu com brandura:
—Sabes que essa decisão não foi minha. Obedeço ordens, assim como tu sempre o fizeste, e não será diferente desta vez.
Milo de Auvergne revirou os olhos, controlando sua impaciência.
— Eu sei, eu sei. O senhor já me disse isso.
— Direi quantas vezes for necessário até que tires essa expressão de luto da cara – retrucou o conde, sorrindo. Milo deu de ombros.
— Perdoa-me, meu pai. Não te preocupes, ao chegar lá, prometo mudar de cara. Farei de conta que estou em um carnaval de Veneza, e porei uma máscara. Por ora, permita-me este breve luto pela liberdade – gracejou, forçando um sorriso, que, ainda assim, mostrou-se bonito.
— Não é como se estivesses indo para o cárcere. O casamento, ao contrário das tolas literaturas de que te alimentas, nada mais é que um negócio. És homem, tua liberdade está assegurada, conquanto mantenhas as aparências. Além do mais, já viveste em demasia os deleites de solteirice, creio.
— Posso ser um tolo, mas ansiava por um casamento sincero no tocante aos sentimentos – confessou o jovem, em tom sonhador – com uma bela mulher a quem eu fosse devotado.
— Que te importa a beleza da dama se o que vamos ganhar é muito maior que isso... a beleza finda; os títulos e riquezas que advirão desse matrimônio perpetuarão.
— Sim, eu sei. Contudo, meu senso de praticidade diz-me que não seria mau unir o útil ao agradável.
Começaram a descer a colina até o vale. A fortificação, já visível há alguns minutos, principiava a crescer, majestosa e feérica diante deles.
— Não seja por isso, a beleza das filhas do duque é notória, bem o sabes – lembrou-lhe o pai.
— Sei também que saíram à mãe, que era ruiva... com exceção de uma, que é loira. Queira Deus que seja ela!!!
— A filha loira é Hilda, a segunda mais velha. Vais desposar a primogênita, logo...
— Essa não, ruiva como o diabo, então!!!
— Isso lá são modos de falar de tua futura noiva? De fato, tem cabelos rubros como o fogo, entretanto dizem ser mui bela...
— Oras, meu pai, não sabes que ruivos atraem má sorte?
O nobre soltou uma risada franca.
— Tu ainda mantém, deveras, tais crendices? Não o julgaria um superticioso após passar três anos perto das mentes mais esclarecidas do mundo... mentes que não se atêm à escuridão que ainda assola nossa terra...
— Não deves falar assim tão abertamente, meu pai – opinou Milo, lançando um olhar para os lados – Sobre ruivos e azar... precaução nunca foi prejudicial a ninguém. Neste caso, devo assumir que meus filhos correm o sério risco de não nascerem loirinhos como anjinhos, e sim ruivos como capetinhas! Que Deus se apiede de mim e permita que eles prefiram a cor de meus cabelos e não os da mãe!
A expressão divertida do conde se dissipou, e ele calou-se, desviando o olhar. Notando-lhe a súbita mudança no espírito, o jovem indagou:
— O que foi, meu pai?
— Nada, meu filho.
— O senhor parece ter se perturbado com algo.
— Oras, devem ser as besteiras que dizes a tontear-me as ideias – respondeu, balançando as mãos.
Sem se convencer plenamente, o loiro preferiu não insistir. Voltou ao mutismo anterior, consolou-se com o fato de que pelo menos a futura esposa não era feia... não era tão devoto, mas poderia fazer algumas promessas a fim de ter descendentes loiros como ele... unzinho que fosse!
O pai observava-o de soslaio, apreensivo.
Mais uns minutos e eles chegaram diante da fortaleza do duque de Borgonha. Junto ao rio Ardgnion, um fosso monumental, o qual atravessaram por sobre uma ponte de pedra sustentada por largas colunas. Passaram pelo pórtico; a movimentação de cavalos e carroças pelos pátios indicavam que a festa ainda não iniciara. Uma propriedade admirável, podiam comprovar: certamente o maior castelo ao qual haviam estado, cercado por árvores frutíferas, arbustos artisticamente podados, flores cujas cores suplantavam as variedades dos vestidos das damas ali presentes.
Milo olhou em torno e compreendeu, efetivamente, os desígnios do tio distante. Terras férteis a perder de vista, natureza em profusão que prometia venturas sem fim, suntuosidade que atestavam a notável riqueza do grande duque de Borgonha... cuja filha ele desposaria.
Apeou do cavalo, entregando-o aos cuidados de um de seus servos. Seu pai fez o mesmo, e eles admiraram mais uma vez a magnitude das torres antes de serem conduzidos para dentro do castelo, que datava do século X.
Percorreram os longos corredores iluminados por centenas de círios até chegarem ao grande salão de cerimônias.
Logo todas atenções foram convergidas para os recém chegados condes de Auvergne, tanto pelo que representavam quanto pelo porte dos dois... e pela beleza de Milo.
Ao contrário da maioria dos homens, que mantinham os cabelos curtos, anelados, ou no máximo até os ombros, o jovem conde, reconhecidamente “um rebelde” trazia-os bem longos; desciam em suaves ondas douradas até passar da metade das costas, atingindo a cintura. Poucas damas poderiam se gabar de ter cabelos soberbos como o do cavaleiro. Seus olhos, de um azul fulgurante nada tímido, assemelhavam-se a preciosas safiras, e seu belo rosto a tudo e a todos considerava, num curioso misto de deferência e orgulho. No corpo forte e firme, modelado pelo cultivo das artes guerreiras, trajes de finos tecidos trazidos do Oriente, os quais eram raros mesmo entre muitos nobres ali presentes; vestia uma túnica marrom tão escura que parecia negra, um cinto de puro ouro com pedras preciosas incrustadas, tal qual os braceletes que adornavam as mangas que iam até os punhos. Por baixo da túnica, uma calça justa, azul como seus olhos, nos pés sapatos de fino couro que exibia um requintado trabalho no trançado que ia-lhe até as barrigas das pernas, as quais notavam-se musculosas.
Leques puseram a se movimentar, malgrado não estivesse quente...
O duque de Borgonha foi até eles, abrindo os braços em sinal de alegria.
— Conde de Auvergne, folgo em ver-te em plena saúde, meu amigo! – disse, beijando-o no rosto, sinal da longa amizade de que partilhavam.
— Digo-vos o mesmo, meu senhor.
— Ora, deixa-te de formalidades, trata-me por “tu”...
Os dois riram. Ainda que Teobald Turenne fosse um homem tão poderoso, era simples e amável, conhecido pela justiça com que administrava seus vastos feudos. Em 1192, poder-se-ia dizer que o ducado que governava era independente, a autoridade do rei de França muito mais simbólica do que efetiva. Ainda assim, ali estava ele, prestes a acatar uma ordem de Filipe II; aliviava-o que fosse através de seu melhor amigo, o Conde de Auvergne, que havia estado tantos anos no exterior e de lá retornado mais rico e influente. Talvez por isso o rei tivesse resolvido fazer aquele movimento...
Pai e filho foram conduzidos até a mesa onde se reuniram dezenas de nobres. Teria início o banquete. Antes, porém, o duque apresentou os mais importantes convidados:
—Senhoras e senhores, apresento-vos o magnânimo Conde de Auvergne, Henri d’Auvergne, amigo de longa data, o qual esteve em diversas missões militares em terras estrangeiras nos últimos 25 anos, sempre delas retornando com muito sucesso e numerosos despojos para nossa nobre Coroa. Tanto tempo ficaram ele e seu filho na Grécia que foram apelidados de “gregos”, e nota-se mesmo certo gosto em suas apresentações...
Os convidados riram, atendo-se à pertinência do discurso do duque; realmente, via-se na indumentária de pai e filho forte influência bizantina, pelas cores e ricas pedrarias, contrastando com a triste sobriedade vigente ali.
— ...seu filho, Milo d’Auvergne, acompanha o pai nas missões desde a tenra idade de 10 anos; aos 19, foi lutar na Segunda Grande Cruzada, ao lado de nosso glorioso rei Filipe II, e hoje, passados três anos, ei-lo aqui, após defender com tanta galhardia a nossa Santa Fé contra os infiéis...
Milo concentrou-se para não torcer os lábios em repúdio ao que ouvia.
Fé não teve quase NADA a ver com o que foram fazer no Oriente, AGORA ele o sabia.
Não obstante, controlou-se, pondo um sorriso contido nos lábios carnudos.
— ... é com grande prazer que vos digo, meus senhores, caras damas, que Milo d’Auvergne não se encontra aqui unicamente como convidado, mas como futuro membro de minha humilde família, pois que desposará minha filha mais velha, Camille – anunciou o duque, brandindo as palmas das mãos – eu vos conclamo a um brinde, senhores... um brinde a essa sacrossanta, abençoada união!
E assim brindes foram efusivamente feitos em honra àquele auspicioso acontecimento: o noivado de Milo e Camille.
A quem o rapaz ainda não havia visto.
As filhas do duque ainda não haviam sido levadas ao salão; era costume que primeiro se banqueteassem os nobres e só depois de algum tempo, as moças da família deveriam descer e se reunir em uma mesa à parte, onde já estivessem se refestelando as solteiras. Milo não cabia em si de ansiedade. Certo, eram belas, diziam, mas o QUÃO bela seria Camille? Sabia que Hilda era loira, e as outras duas possivelmente jovens demais... bem, que lhe importava. Eram ruivas como Camille...
E, além disso, tratava-se de algo do qual ele não poderia escapar.
Músicos puseram-se a tocar seus instrumentos; os sons de alaúdes, cítaras, fídulas, cornamusas e harpas , mesclavam-se magistralmente, compondo uma rica melodia. O vinho abundava nas taças, bem como as iguarias que os criados não paravam de trazer: porco assado recheado com gemas, faisões com castanhas, javalis envoltos em toucinho, sopas das mais variadas espécies, inúmeras qualidades de bolos, tortas e pães, frutas, peixes... os talheres eram compartilhados entre os comensais, e o garfo ainda não havia sido inventado! Frequentemente, lavava-se os dedos engordurados com água aromatizada com extrato de baunilha, na qual flutuavam pétalas de rosas.
Ao contrário do que se verificava em mais de 90% dos lares de França àquela época... a fartura abençoava-os.
Comia-se à vontade, bebia-se mais ainda, ria-se, vozes aumentavam de volume e a euforia avolumava-se sobremaneira, quando escoltadas por suas damas de companhia, as quatro filhas do duque adentraram o salão. Pararam no centro, de maneira a serem vistas das quatro grandes mesas dispostas, uma em cada extremidade do recinto. Da mesa frontal, onde sentavam-se o duque e os convidados mais ilustres, Milo ergueu de seu cálice os olhos curiosos.
As moças fizeram uma respeitosa mesura aos convivas. A todos impressionou a beleza e a frescura das jovens. Três ruivas e uma loira. Malgrado houvesse uma linda loira dentre elas, a qual Milo sabia não ser sua prometida, foi uma das três ruivas que atraiu sua atenção imediata.
Ao contrário das outras duas ruivas, mais baixas e de cabelos ondulados na altura dos seios, a que o magnetizou era bem alta, de cabelos rubros muito longos e lisos, duas mechas compridas a caírem-lhe por sobre o peito magro. Uma franja cobria-lhe parte da fronte alta, deixando entrever curiosas sobrancelhas vermelhas e bifurcadas. Uma infinidade de colares e gargantilhas trespassavam por cima do lenço púrpura amarrado ao pescoço alvo. Trajava um longo vestido vermelho escuro cuja cor contrastava soberbamente com a pele clara; ia-lhe até os tornozelos, com um cinto de ouro cravejado de rubis a marcar-lhe a cintura delgada. As mangas justas nos longos braços eram delicadamente bordadas e terminavam em punhos muito compridos, que desciam-lhe até a altura dos joelhos.Seus olhos escuros e semicerrados pousaram sobre ele, aparentemente desinteressados. Diferiam-se dos de suas irmãs, nitidamente encantadas com a festa de que a partir de então iriam participar.
“Deus Todo Poderoso, que seja ELA”, clamou em pensamento, contrito como nunca, o coração disparado.
A música cessou por completo; o duque de Borgonha ergueu-se da cadeira estofada.
— Meus amigos, meus irmãos, nobres damas, celebremos a partir deste momento, o noivado de minha querida filha Camille Turenne com o virtuoso conde Milo d’Auvergne, filho de meu mais estimado amigo, conde Henri d’Auvergne, conde de Auvergne, primo de nosso soberano Rei Filipe II – anunciou o duque, de pé no centro da mesa, sua voz alta e límpida chegando a todos – Sob as bênçãos de Deus Nosso Senhor Onipotente, em um mês nossos filhos unir-se-ão definitivamente pelos votos do sagrado matrimônio. É com grande júbilo que peço que venha até teu noivo, minha querida Camille.
Para suprema alegria de Milo quem deu um passo à frente foi justamente a moça que ganhara seu coração de imediato.
Camille conservava na bela face a expressão indiferente com que ouvira o discurso do pai. O jovem conde julgou tratar-se de modéstia... isso apenas a engrandeceu mais ainda diante dele. Muito mais atraente era aquela aura destituída de emoções do que os olhares aparvalhados de euforia de suas irmãzinhas ruivas, e do provocante e altivo que a todos Hilda dirigia. Sua noiva assemelhava-se às estátuas de santas que via nas catedrais. Ela se aproximou da mesa a passos tão lentos e equilibrados que parecia flutuar por sobre o chão. Milo engoliu em seco, assombrado com tal beleza.
De frente um para o outro, fitaram-se longamente. Milo franziu o cenho, intrigado com a cor dos olhos de Camille. Vermelhos? Impossível! Não existiam íris vermelhas, por Deus... examinou-as com curiosidade despudorada, nem assim fazendo a jovem sequer piscar: um tom de castanho incomum, em verdade, com nuances avermelhadas, que tornava-se rubro mediante efeito das tremulantes chamas das tochas e dos círios. Sob aquele olhar perscrutador, as faces pálidas de Camille tingiram-se de carmim. Milo quase pediu desculpas por fazê-la corar. A jovem, no entanto, conservava a altivez, destoante do casto rubor.
Ela segurou as laterais da longa saia e fez uma profunda reverência, à qual correspondeu o rapaz, sem poder dela tirar os olhos.
A um sinal do duque de Borgonha, a música recomeçou; os músicos puseram-se a executar um tradicional “virelai”, forma musical derivada do “lai” surgido no século XII, executada de forma puramente instrumental. Algo luziu no olhar escarlate... O jovem conde reconheceu logo os acordes.
“Dame Jolie”.
“Bela dama”.
Totalmente de acordo com o momento, tanto pela melodia sublime quanto pelo título, que parecia ter sido criado para nomear sua futura consorte. Quem quer que a tivesse composto, decerto vira Camille em sonhos, ladeada pelas musas da canção.
Milo levantou-se, foi até a noiva e estendeu para ela a mão. Ali ela pôs sua palma branca e gelada. Havia de ser tensão, pensou ele, assustando-se com a frieza daquela pele. Ou usara sanguessugas em demasia... nesse tempo, o padrão de beleza impunha às damas de famílias abastadas que ostentassem palidez, a bem de confirmar-lhes a aristocracia, nem que para isso recorressem a métodos como pôr sanguessugas nas bochechas ou beber vinagre. Camille, porém, a nada disso precisava recorrer. A frieza de suas mãos provinha de sua alma congelada...
A outra mão da moça pousou sobre o ombro de seu noivo, que, por sua vez, pôs a outra na cintura dela. Reparou que ela era ainda mais alta do que lhe parecera inicialmente... alta demais para uma mulher, por todos os santos! Pois que ele tinha 1,85m e a moça não ficava muito abaixo dele... talvez tivesse 1,80m, 1,82m! Bom, pelo menos ELE ainda era mais alto, por isso suspirou, aliviado. Ela contraiu as sobrancelhas, sem entender aquela reação. Percebendo, o jovem lhe sorriu.
Não foi correspondido.
Sem se importar, o loiro começou a conduzir a dama em uma lenta dança, em consonância com o doce virelai que preenchia o ambiente. Mirava o fundo dos olhos avermelhados da dama, convencendo-se de que um dia iria compor versos para aquela música em sua homenagem. Bailaram no centro do salão, estreitando um pouco mais seus corpos, reconhecendo-se mutuamente. Milo transmitia admiração, Camille, frieza. Alguns perceberam o contraste naquelas expressões, contudo, chegavam à mesma conclusão do noivo; aquela fleuma, aquela distância, havia de ser excesso de recato... mesclado com o orgulho que se esperaria da primogênita da mais alta casa de França, quem poderia condenar? Camille era reclusa, mesmo em bailes da corte, recusava muitas danças e raramente conversava com alguém, comportamento oposto do de sua irmã mais nova, a exuberante Hilda.
Ao jovem conde não incomodava aquela dureza; se assim se mostrava, apenas comprovava sua virtude. Ora, uma donzela se mostrar solícita à primeira vista do noivo é que teria sido preocupante, indício de coquetismo indesejável em uma esposa!
Os demais convidados foram pouco a pouco se juntando a eles na dança. Os pares se distribuíam, valsando placidamente, até que o ritmo animou-se, e a dança tornou-se mais animada também, pois que fora substituída por uma esfuziante rondé. E mais animada tornava-se à medida que as horas passavam, e as taças de vinho, cerveja e hidromel chocavam-se em infindáveis brindes. Milo pegou dois cálices de vinho e estendeu um a Camille.
— Brindas comigo, minha noiva?
Olhando-o inexpressiva, ela aceitou o oferecimento. Para o espanto de Milo, a garota virou toda a bebida de uma só vez! Boquiaberto, o loiro até se esqueceu de beber. Ao terminar, ela voltou a olhá-lo, a mesma expressão vazia. Os lábios rubros pelo vinho pareceram tentadores ao rapaz, e ele empertigou-se, intrigado.
— És bem forte para beber, bela Camille... – comentou, arqueando a sobrancelha – Não sei se aprecio isso.
— Não sei se me importo que aprecies ou não – disparou ela, com voz baixa e impessoal.
Milo estacou com aquela resposta impensável para uma noiva. Ela fez sinal a um servo que ali passava e pegou outro cálice.
— Compreendo que estejas nervosa, um noivado deve ter esse efeito, porém não deves embebedar-te...
— Como disseste, meu noivo, sou “bem forte para beber” – rebateu a jovem, os olhos oblíquos desviando-se dos atônitos dele.
O rapaz sorriu, repentinamente divertido.
— Deveras. Não pareces uma mulher comum, minha noiva!
— Não. Não o sou – disse ela, sombria.
Aquelas palavras causaram em Milo uma impressão indefinida. Embora aquela fleuma aumentasse os encantos de Camille, dando-lhe um irresistível ar de mistério muito caro aos ávidos leitores de romances de cavalaria como ele... no fundo, ele gostaria de receber da linda dama um olhar mais cálido e menos frígido. Entretanto, não se preocupou em demasia: o casamento era iminente, o compromisso selado, e o mais importante, ele se agradara dela.
Bastante.
— Fico feliz em saber que serás minha esposa, Camille – confessou.
Ela abriu os finos lábios, como se fosse responder àquela declaração. Não obstante, comprimiu-os, visivelmente perturbada, e virou o rosto, que mais uma vez enrubescia. Malgrado quisesse ouvir-lhe resposta, Milo achou aquela reação encantadora; achou que a jovem não fosse, enfim, “feita de gelo”.
— Por que não me levas aos jardins de teu castelo? Percebi que são mui belos e extensos, pareceram-me os maiores que já vi – sugeriu Milo, buscando pretexto para ficar um pouco a sós com a noiva.
Ela hesitou, sondando-o, desconfiada. Ele riu.
— Prometo comportar-me. Não precisas temer nada.
— Eu NÃO TEMO NADA, meu noivo.
— Isso muito me surpreende, bela Camille. As mulheres são medrosas por natureza – falou, sorridente. Não obteve a mesma reação da nobre. Começou a achá-la séria demais... atalhou:
— Não precisas manter tal atitude, minha noiva. Agradei-me francamente de ti, jamais faltar-te-ia com o respeito.
Achando-o sincero, a jovem duquesa abrandou a expressão, assumindo em seguida uma ainda mais fria. Assentiu e, após uma breve troca de olhares com seu pai, atravessou o salão, sendo seguida pelo cavaleiro. Atrás dela, ia reparando-lhe o talhe esbelto. Mesmo desprovida de curvas, achou-a bem feita, embora um tanto dura nos modos e no caminhar. Não que fosse indelicada de todo, porém dir-se-ia que uma estátua de mármore tivesse ganhado vida...
“Pelo caimento do tecido, porém, nota-se que tem uma bela bunda... logo, belas ancas... além de proporcionar prazer, proporcionar-me-á uma boa prole”, pensava, sorrindo largamente.
Camille conduziu-o até a escadaria que desembocava na ala oeste do castelo. Desceram os degraus de pedra, sentindo o vento frio fustigar-lhes as faces, contrastando com o calor do interior que deixaram. O loiro deixou escapar um assobio de admiração ao ver os jardins de perto. Naquela época, mesmo os jardins das famílias mais ricas eram simples, compostos majoritariamente de pomares e hortas que se destinavam ao consumo, típico da cultura de subsistência sob a qual viviam. Flores em geral adornavam altares. Todavia, não apenas aquela região da França era fértil, como estavam no auge da primavera, e o duque contava com os incríveis préstimos de Afrodite, um dos mais leais e competentes pajens do duque; Afrodite vinha de uma nobre família sueca, e à França fora, a fim de estudar na famosa Universidade de Paris, fundada em 1170, ainda uma novidade na Europa. Dessa forma, alamedas floridas se distribuíam, e por elas o casal caminhava, vagarosamente, presenteado pelo doce aroma trazido pela brisa. O loiro não sabia se prestava atenção nas belas espécies multicores ou nos cabelos escarlates que se moviam graciosamente à sua frente. Pareciam formar uma cascata de sangue, tão luzidia que acendeu-lhe o desejo de tocá-los. Sabia que seria precipitado, portanto conteve-se.
— O senhor aprecia flores?
Surpreendido com aquela súbita pergunta, achou algo de novo na voz de Camille. No salão, fora abafada pela música, pelo burburinho dos convivas, pelos ruídos do festejo. Agora, em meio ao silêncio daquele jardim, mostrava-se legítima, um timbre entre o grave e o melódico.
Ignorando o tom jocoso com que fora interpelado, o loiro mostrou-se simpático ao responder, sempre olhando ao redor:
— Aprecio sim, as flores, as árvores, as plantas...
— Isso muito me surpreende, belo Milo – Camille repetiu a fala do noivo, uma nota de sarcasmo tão sutil que ele optou por ignorar – Os homens não costumam se interessar por tais coisas...
— Interesso-me porque é belo. O que é mais belo que a natureza? Nunca havia achado a resposta... – mirou-a profundamente — ... até agora.
Ela sustentou-lhe o olhar, corajosamente. Dir-se-ia... atrevidamente.
Mas NÃO como um flerte.
E sim como uma BARREIRA. Um escudo.
Milo enfim pôs-se a ponderar se tal barreira não seria recato... e sim insatisfação.
— Alegra-te com nosso matrimônio, Camille? – inquiriu o jovem conde.
A moça encarou-o por uns segundos. Abaixou-se e retirou do solo uma pequena flor vermelha. Levantou-se e aspirou as pétalas.
— E isso faz diferença?
A fria contra-resposta da dama alfinetou as emoções revoltas do loiro. Ele sabia que não fazia diferença alguma se ela se alegrava ou não. Uma vez determinado que deviam se casar, assim seria feito.
Não obstante... Milo estava alegre sim.
Fora amor à primeira vista.
Achou-se infantil por querer o mesmo da duquesa. Mesmo assim... queria.
— Se te é tão forçoso assim desposar-me, preferia sabê-lo – confessou, a firmeza em sua fala ocultando a insegurança de sua alma.
Ela sacudiu a cabeça, em uma negativa veemente.
— Não dês atenção ao que digo: vapores ébrios falam por mim, e não minha razão.
— Não pareces tocada pelo vinho, minha cara.
— Posso simular várias coisas, meu senhor, inclusive a sobriedade – garantiu, petulante, estendendo para ele a flor que acabara de colher.
— Podes simular o amor?
Sem esperar-lhe a resposta, ele tomou em sua grande mão não a pequena flor mas os finos e longos dedos da moça, depositando neles um beijo lento e terno. Camille teve um sobressalto, ele o sentiu; ao erguer os olhos, porém, ela permanecia serena, para não dizer.... apática.
Não obstante, estava ali.
O rubor das maçãs do rosto.
O dilatar das negras pupilas.
O arfar de seu peito apertado no corpete.
O discreto tremor da mão fria.
Aquilo inundou de euforia o peito de Milo: Camille não lhe era assim TÃO indiferente.
Sentindo-se vitorioso, ele fez uma profunda reverência diante da jovem duquesa.
— Voltemos ao salão, minha noiva. A hora avança e não quero que línguas afiadas tocadas pelo álcool falem de nós. Nem todos possuem teu admirável controle sobre ele – propôs ele, alegremente.
Fitando-o séria, ela concordou, aceitando a mão tépida que lhe era oferecida. Retornaram ao festim, de mãos dadas, figurando perante todos como o mais belo casal jamais visto.
Mais algumas horas se passaram, e ao cair da tarde os convidados principiaram a partir, já ansiando pelo dia do matrimônio. Se a festa de noivado havia sido tão deliciosa daquele jeito, o que diriam da festa de casamento!
Após despedir-se propriamente, o conde de Auvergne e seu filho puseram-se a caminho, cavalgando até o Condado de Auvergne. Dois dias de viagem depois chegaram nas vastas propriedades, sendo recebidos com presteza por seus servos.
Pai e filho haviam trazido do Oriente o costume de se banharem com regularidade, ao contrário de seus compatriotas. Assim o fizeram; trocaram de roupas e Milo foi cumprimentar sua mãe, de cama há semanas. Contou-lhe, feliz, sobre a bela e interessante moça com quem iria se casar. Sua mãe sorria, satisfeita com a euforia do filho. Segurando-lhe a mão, o conde conservava-se um tanto sério.
— Aiolia ainda não retornou de viagem? – indagou, interrompendo o assunto.
— Não, meu senhor, mas ele advertiu-nos que provavelmente não o faria até a chegada do verão. Creio que deve chegar alguma mensagem dele por estes dias – respondeu ela, uma linda senhora de quem Milo herdara os impressionantes olhos azuis e o nariz afilado.
Ele assentiu e chamou o filho para que ceassem.
No salão principal, brindaram com o vinho da região, para eles nada inferior ao famosíssimo da Borgonha: os criados traziam-lhes carnes de caça, frutas e bolos. O duque notou que Milo não falava de outra coisa que não a fascinante Camille. Enumerava, embevecido, as vantagens da noiva sobre todas as mulheres em que pusera suas mãos e seus olhos claros. A tudo o patriarca ouvia, silencioso, as mãos ossudas unidas cobre a mesa de carvalho escuro. Milo ordenou a uma criada:
—Traze-nos mais um odre de vinho!
— Milo, já não bebeste o suficiente?
— Agora vamos brindar, meu pai...
— Já o fizemos, filho...
Ele riu, contente.
— Fá-lo-emos novamente, portanto. Pois que a sorte me sorriu magnificamente. A união do útil ao agradável nunca foi tão bem representada nesta terra!
— A que te referes?...
— O senhor fará o que teu primo, o rei nosso senhor, ordenou: casarás teu filho com a primogênita do homem mais poderoso de França... abaixo dele, claro... – pôs nestas últimas frases um acento sarcástico. Sabia-se que o poder do rei naquela época era quase que simbólico, e por isso mesmo o monarca dera aquela ordem.
— Milo...
— ... e eu me casarei com a maior preciosidade existente. E eu que achava que ruivos traziam azar! – ria ele, feliz – Ah, meu pai! Chame-me tolo, se assim quiseres! Mas estou completamente apai...
— Milo, NÃO.
O jovem calou-se, estranhando a atitude incomodada do pai. Viu-o torcer nervosamente a barba grisalha. Sabia que ele somente fazia aquilo quando estava sob grande tensão.
— “Não” o quê, meu pai? – contraiu as sobrancelhas loiras, intrigado.
— Eu... preciso falar contigo sobre esse casamento.
— Pois bem, sou todo ouvidos.
A serviçal encheu-lhes os copos e deixou o jarro sobre a mesa. O conde fez sinal para que ela e os demais saíssem do aposento. Milo não compreendeu aquela ação.
Quando estavam apenas ele e o filho, o conde começou, pausando as palavras:
— Milo. Eu não podia falar antes. Para que tu agisses naturalmente diante de todos, e nenhuma desconfiança fosse levantada... para que tudo corresse bem... para que não pusesses TUDO a perder... eu NÃO podia ter te contado antes.
— Contado o quê?
O ancião torceu mais a barba. Pôs as mãos sobre a mesa, tentando se controlar.
— A ordem veio tão de repente... não haveria tempo de te preparar. Então preferi não te falar. É sobre Camille.
— O que tem minha bela e estimada noiva, meu pai?
— Milo. Camille... Camille é um homem.
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