Dame Jolie

2 "Alma de gelo, coração de pedra"


Notas iniciais
Olá, meus queridos! Antes de mais nada gostaria de agradecer do fundo do coração pela receptividade em relação a esta nova fic, eu fiquei extremamente feliz em perceber que até mesmo a proposta de uma linguagem rebuscada de época - a qual eu temia ser considerada pedante ou cansativa de ler - foi bem aceita por parte de vocês. Recebi lindas manifestações de apoio, comentários estimulantes, e meus temores foram diluídos, muito agradeço por isso. Claro que se houver alguma dúvida, tanto sobre vocabulário, quanto sobre algum costume que tenha deixado dúvida, podem perguntar. Como uma leitora que perguntou se o recurso de "beber vinagre para ficar pálido" era real (infelizmente ela apagou o comentário antes que eu respondesse, não sei a razão) bem, é verdade sim, e aqui no Brasil, em meados do século XIX, influenciadas pelos padrões do Romantismo, as moças ingeriam vinagre a fim de ficarem pálidas como as heroínas de romances ou as musas das poesias. Claro que o método era bem prejudicial, pois afetava horrivelmente o fígado e o estômago, então PELAMOR, NÃO FAÇAM ISSO!!! Alguns esclarecimentos para melhor entenderem a história, ainda que muitos disso já saibam: — Havia uma ordem fixa para casar as filhas, as demais só poderiam contrair matrimônio após a mais velha (a primogênita) se casar. Nesta época, só havia duas opções para as mulheres, casar-se ou ir para o convento. A modificação que fiz aqui foi aumentar um pouco a idade para isso, pois não era incomum a menina se casar com 12, 13, 14 anos... o usual era casar após a primeira menstruação, o que desconsiderei aqui. — Milo trata o pai por "tu", por ser bem íntimo do mesmo; sempre lutaram juntos em batalhas, e meio que se tratam de igual para igual, mas isso não era regra; já Camille trata o pai por "vós", o que era mais comum. Um filho tratar o pai por "tu" sem a devida permissão estava sujeito até a punição física! Alguns trechos estão marcados com asteriscos, e sua explicação se encontra nas notas finais. Bem, vamos ao segundo capítulo, um pouco menor que o primeiro... espero que gostem. Fanart por Yumitim Boa leitura :)

Castelo de Turenne (Borgonha) – ao término da festa de noivado

A maioria dos convidados havia partido, ficando alguns poucos no castelo, por preferirem ali pernoitar e partir pela manhã. Eram nobres de cidades mais próximas, às quais chegariam dentro de um dia, logo, não tinham pressa de partir ao cair da noite, como fizeram o noivo e seu pai.

As filhas do conde dirigiram-se para o terceiro andar, onde ficavam seus aposentos. Naquela época, em geral os únicos que possuíam um dormitório exclusivo no castelo eram o senhor feudal e sua esposa, de resto, havia um grande aposento para as filhas mulheres, e um outro para filhos homens. Em Turenne, contudo, a primogênita dispunha de um quarto só para ela, uma raridade então. Essa era, dentre tantas outras, uma das razões por que Hilda, a segunda filha do duque de Borgonha, nutria maus sentimentos para com a ruiva. As menores, contudo, adoravam-na.

Assim que Camille, exausta, entrou em seu quarto, teve os braços agarrados pelas duas irmãs mais novas, antes que pudesse fechar a porta e refugiar-se como desejava havia horas.

— Marin! Seika! Por favor, não é hora de brincar – pediu, ao ser derrubada na cama pelas travessas meninas.

— Não queremos brincar, Camille! – retrucou Seika, a menorzinha.

— Queremos saber o que achou de teu noivo – Marin disse, sendo apoiada pela caçula, que batia as mãos, eufórica.

A mais velha suspirou, desanimada.

— Estou cansada, quero dormir...

— Não iremos deixar-te dormir enquanto não nos disseres que achaste do Cavaleiro! – Marin reforçou, cruzando os braços.

Camille não estampava qualquer emoção no semblante. Marin, de 14 anos, e Seika, de 12, estavam acostumadas àquilo e não se intimidaram; ao contrário, insistiam, chorosas, e em seguida, fazendo cócegas em Camille, que nem assim sorria.

— Tu és a única pessoa no mundo que não sente cócegas, irmã – admirava-se a pequena Seika, arregalando os grandes olhos castanhos.

— Será nossa irmã verdadeiramente feita de gelo, como alguns dizem? Outros dizem que tem um rubi no peito ao invés de coração – brincou Marin, em cujas bochechas se formavam graciosas covinhas.

— Por que rubi, mana? – a caçula não entendeu.

— Ora, porque é uma pedra... e tem a mesma cor dos olhos e dos cabelos de Camille.

— Aaah... verdade! E também o vermelho de nosso cabelo não é tão intenso como o dela, não é?

— Exatamente! O nosso está mais para um cobre... – riu, sendo acompanhada pela menor.

"Tais palavras, contudo, não soaram cômicas aos ouvidos de Camille. Ainda que fosse algo que ouvia desde que... desde que fora obrigada a ser ELA.

— “Feita de gelo com um rubi no lugar do coração”. Tal definição não poderia ser mais certeira...

As três viraram na direção de quem havia feito a observação.

— Hilda... – murmurou Camille, franzindo discretamente as sobrancelhas.

— Ora... tens no rosto a expressão de quem retorna de um velório, e não da própria festa de noivado... – comentou a recém chegada, com voz mansa porém venenosa.

A ruiva encarou-a; a loira cruzou os braços sobre os fartos seios, mal ocultos pelo profundo decote do vestido azul céu.

— Diz, irmã – Seika voltou-se para a mais velha – que achaste de teu noivo?

A resposta soou desinteressada:

—Que importância tem minha opinião? Casar-nos-emos, é tudo, já está decidido.

— Ah, mas hás de ter alguma opinião, sim... – replicou Marin, alisando a face apática de Camille.

— Ela é irrelevante.

Hilda, irritada, disparou:

— Deixa-te de ingratidão!

As três ruivas miraram-na. Ela pôs-se a andar em círculos pelo quarto, gesticulando:

— Deverias dar graças ao nosso bom Deus e ao nosso pai! És sortuda. Teu noivo é rico, forte e belo, muito belo! O mais garboso mancebo que já vi! Que mais poderias tu querer?!?

— Quisera eu que fosses tu a desposá-lo, e não eu – rebateu Camille, inabalável.

— Partilhamos do mesmo ensejo, minha irmã – riu Hilda, com as mãos na cintura fina – pois que agradei-me de teu noivo...

— Hilda! Que estás a dizer!! – escandalizaram-se as duas menores.

Camille, contudo, não se perturbou com aquela atitude. Que não era inédita, a bem dizer. Através dos anos, convivia com os rompantes enciumados de Hilda. Fitou a loira de modo tão gélido que desarmou-lhe, pouco a pouco, o sorriso largo e perverso.

— Hunf. Sempre esse teu insuportável olhar de superior... com esses teus olhos vermelhos do diabo... – murmurou, raivosa.

— Cala-te, Hilda! – Seika gritou, aterrada.

— Proíbo-te de falar assim da irmã Camille! – Marin chegou a ficar de pé, nervosa.

— Tu? És um pedaço de gente, queres me proibir de algo? – gargalhou, sarcástica. A hilaridade, entretanto, logo cessou, e ela voltou a encarar Camille, tornando para ela o rosto maldoso, enquanto dizia calmamente:

— Decerto não te agradaste do jovem conde por não ser bom o suficiente para ti, ainda...

— Que ganhas tentando me atormentar? – questionou a maior, finalmente, erguendo o nariz arrebitado de poucas sardas.

— Porque vais te casar com o mais belo e encantador nobre que já vi... e fazes essa cara de quem chupou limão azedo! – perdia novamente a compostura – E eu, aqui, esbarrando nos 18 anos, solteira! Solteira porque nosso pai não consegue te despachar para ninguém! Porque ninguém está à tua altura! E então, surge esse verdadeiro deus grego... tens toda a sorte do mundo e ficas aí te lamuriando!

— Quem está se lamuriando? – Camille ergueu uma sobrancelha, irônica – A mim parece que és tu, irrompendo em meus aposentos para chorar mágoas de solteirona...

As ruivinhas riram, cobrindo as bocas com as mãozinhas rosadas.

Tomada de cólera, Hilda ficou vermelha como os cabelos da irmã mais velha. O peito arfava no corpete muito justo. Camille sorriu, cinicamente, e falou, muito serena:

—Vais te sufocar desse jeito… pede logo à criada que te liberte desse corpete. Pareces uma pomba a arrulhar.

As menores riram ainda mais, espalhando-se pela cama da mais velha. Seika chegava a espernear, divertida. A loira levou as mãos aos seios, ultrajada.

Com voz baixa, mal contida pela ira, praguejou:

— Deus ainda há de castigar-te por menosprezares a boa sorte que tens.

Camille continuou cínica:

—“Boa sorte”, dizes? Achas que tenho “boa sorte” na vida?

— E tu, que achas que tem? – vociferou Hilda, lágrimas de despeito cintilando nos olhos azuis violeta – És a primogênita! És a preferida de nosso pai! Ele passa contigo muito mais tempo do que conosco, e tens com ele tratamento de filho homem! És noiva do conde de Auvergne...

— Não me importa o senhor conde de Auvergne – interrompeu Camille, levantando-se do leito. Mantinha a fria altivez ao enfrentar a outra – Ele é arrogante e tem a si mesmo em muito alta conta. Dá-lo-ia de bom grado a ti. Fazem um par perfeito, com tão similares “qualidades”...

— Não és a primeira nem a última mulher a se casar com um homem que não ama! E sinceramente não sei por que isso te preocupa tanto... tu não amas ninguém.

— Hilda! Que estás a dizer?!? – ralhou Marin.

— Não podes falar assim da irmã Camille! – reclamou Seika.

— Mas é verdade – a loira sorriu maldosamente, procurando algum efeito na expressão dura da mais velha – Ela não ama ninguém. Tem a alma de gelo, o coração de pedra, aliás, de rubi, não? O mesmo material de que devem ser feitos esses olhos odiosos do...

— HILDA!!!

A chamada severa do duque, em pé à porta, assustou-as de tal forma que chegaram a se encolher.

— P-papai... – balbuciou a loira, pega em flagrante, acreditando-se perdida.

Teobald II adentrou o quarto, sua imponência palpável até mesmo na voz grave:

— Eu só não vou te punir porque hoje é um dia de celebração, um dia de alegria e contentamento. Sai da minha presença sem mais abrir essa boca, senão mudarei de ideia.

Tremendo dos pés à cabeça, a jovem segurou a longa saia para sair dali o mais depressa possível.

— Marin, Seika, ide para vosso quarto – ordenou, abrandando o tom. Ele afagou-lhes os cabelos, quando as duas chegaram à porta – Tende uma boa noite.

— Obrigada, senhor nosso pai – responderam as ruivinhas, a uma só voz.

E saíram do recinto, deixando o duque a sós com sua filha primogênita. Olharam-se brevemente. Ele fechou a porta. Caminhou até Camille, que voltara a se sentar na cama. O nobre também se sentou, apoiando as palmas nos joelhos. Esperou que a filha falasse algo, mas ela se manteve calada. Coube ao duque romper o silêncio:

—Tu me odeias.

— Não vos odeio, meu pai. Odeio meu destino.

— Eu não tive escolha. Foi uma ordem do rei.

— Compreendo-o.

Aquela “compreensão” de Camille doía-lhe no peito! O que havia de ser legítimo e o que havia de ser condicionado em suas emoções?

“Tem a alma de gelo, o coração de pedra”, dissera Hilda.

Tomando fôlego, o nobre tentou parecer animado:

— Foi uma grande dádiva dos céus. Devemos agradecer que o teu... noivo é filho do meu melhor amigo... e justamente quem partilha conosco de NOSSO SEGREDO!

— Deveras...

— Foi a providência divina...

Um sorriso triste se desenhou nos lábios finos de Camille.

— A providência divina...

— Sim, e não te atrevas a blasfemar... Camus.

Grandes e úmidos olhos rubros chocaram-se com os verdes, apertados sob genuína angústia.

— Tu não correrás perigo algum. Henri me prometeu. E eu te prometo... MEU FILHO.

“Camille” abaixou a cabeça, tentando ocultar do já aflito pai a tristeza que afogueava-lhe as faces. O duque acariciou-lhe os lisos e compridos cabelos.

Tão macios quanto o da mãe.

Tão iguais aos de sua amada e saudosa esposa.

— Não temo por mim, meu pai – disse Camus, a voz tremida mais grossa do que antes – temo por vós. Por minhas irmãs, que desamparadas ficariam caso algo se sucedesse a vós. Que será de nossa família se o rei descobre esta farsa?

— Filho... é por isso mesmo que deves te manter firme, como o foste até agora.

— Eu só temo por vós – repetiu o rapaz – porque por mim, a morte seria uma bênção.

— C-Camus...

— Mesmo que fosse mediante uma condenação desonrosa – uma lágrima pousou solitária no tecido escarlate – assim eu iria para junto de...

— CAMUS! – gemeu o pai, abraçando-o, emocionado. Camus correspondeu ao abraço, pousando o rosto no ombro do pai.

Não chorava.

Aquela única lágrima era todo o pranto de que era capaz.

O duque, não obstante, soluçava. O filho estreitou o abraço, consolando-o carinhosamente.

Após alguns minutos, o nobre se recompôs e anunciou, enxugando o rosto:

— Eles retornarão em dez dias.

— Eles... mas... com que propósito? O casamento não é daqui a trinta dias? – surpreendeu-se Camus.

— Precisamos conversar a sós, nós quatro. Ordenar nossos passos, nossas ações. Assinar um contrato de cavalheiros. É um acordo muito sério. Ainda que eu confie em Henri, o contrato é necessário, até mesmo a título de posteridade.

O ruivo sacudiu a cabeça.

— Meu pai. Entendo que vosso amigo compreenda o que ocorre... mas o tal Milo? Como agirá... tendo que desposar um HOMEM? Mesmo que seja pelo bem de sua família, não o vejo aceitando pacificamente tamanha... loucura.

— É para tratar disso também que nos reuniremos, amado filho.

Engolindo em seco, Camus assentiu respeitosamente. O duque apertou-lhe as mãos, como a transmitir segurança.

— Eu confio em Henri.

— Ele... pai, ele é primo do rei!...

— Também é como um irmão para mim. Henri está a par de TUDO, desde o início, e até agora nada disse.

— Ele não precisou casar o filho com UM HOMEM – retrucou Camus, amargo.

O pai afagou-lhe a franja, afetuosamente.

— Camus. Também ele recebeu a ordem do rei. Não pode recusar. E se o fizer... teria que revelar “a farsa” de que esteve a par por 13 anos. Achas que o rei se agradaria disso?

Ponderando aquelas palavras, o jovem balançou a cabeça, negativamente.

— O conde de Auvergne está acuado como nós, filho meu. Eu e ele estamos no mesmo barco. Resta saber se nossos filhos estão igualmente conosco nesse barco.

Camus tocou o rosto do pai, afetuosamente. Sorriu, e naquele sorriso o duque viu uma bravura que fez fremir seu coração de velho nobre.

— Eu estou convosco, pai. Sempre, eternamente.

Comovido, Teobald II sorriu de volta. Arrematou:

—Resta-nos saber se o conde Milo também assim o estará com seu pai...

Eles trocaram um olhar profundo e cúmplice. O duque ergueu-se, afagou os cabelos do filho uma última vez, e disse:

— Descansa bem. Tu mereces.

— Obrigado, meu pai. Tende uma boa noite.

Assentindo, o senhor dirigiu-se para a porta. Quando esta se fechou, Camus deixou-se, enfim, tombar sobre os travesseiros. Pôs-se a observar as curiosas sombras projetadas pelas chamas das velas, que tremiam no teto.

Espalhou-se pela cama, como os longos cabelos e o tecido do odiado vestido, o qual tencionava arrancar de seu corpo, desistindo por puro cansaço.

Quis esvaziar a mente, evadir-se dos últimos acontecimentos, e tão somente sobreviver a fim de cumprir a missão a que levou sua funesta sina... porém...

“Milo”, pensou, tristemente, semicerrando os olhos rubros.

Reviu o cavaleiro à mesa, os olhos azuis fitos nele, embevecidos com uma mentira.

Sentiu a garganta se fechar.

Tocou a própria mão, em busca daquele calor que estivera ali, horas antes.

Fechou os olhos para evocar a imagem dos loiros cabelos ao sabor do vento, em meio dos dentes-de-leão que valsavam no ar perfumado do jardim, indo nos cachos dourados pousar.

“Não... não é possível”, pensou, apertando as pálpebras com força.

Sentiu-as úmidas.

“Não, eu não devo...”

“Fico feliz que serás minha esposa, Camille.”

Ele levou as mãos à testa, cobrindo os olhos, quase esfregando-os.

“Não, eu não devo!!!”

Sentiu nos dedos a suave porém demorada pressão dos lábios de Milo.

“Podes simular o amor?”

“Não... não pode ser...”

Não... Milo.

... O AMOR?

Entreabriu os lábios, num grito mudo.

Pela primeira vez, desde que se tornara Camille... pela primeira vez em treze longos anos...

...Camus teve medo.

*************

Condado de Auvergne, dois dias depois. Castelo d’Auvergne

Por uns instantes, Milo encarou fixamente seu pai, sob efeito daquela declaração absurda. Teria o nobre enlouquecido? Largou a faca com que partia o tenro pernil na travessa de ouro.

— O que acabaste de me dizer? – demandou, um tanto ríspido.

— O que acabaste de ouvir: CAMILLE É UM HOMEM.

O jovem mirou-o, entre surpreso e aborrecido. Tinha franca abertura com o pai, ao lado de quem lutara em tantas guerras, a ponto de tuteá-lo(* ) e confrontá-lo quase que abertamente, na maior parte das vezes em que isso se fazia necessário.

Como agora.

— Que estás a falar, meu pai? Acaso estará este vinho estragado? Nunca soube de tal acontecimento, entretanto talvez as uvas fossem de má qualidade e...

— Acalma-te e tudo explicarei.

— Que queres me explicar?

— Acerca de Camille. Precisas saber que não te noivaste com uma mulher e sim com...

— Creio que estás a delirar, isso sim – levantou-se de súbito da mesa guarnecida de manjares

— Milo, eu PRECISO explicar, mas tu deves...

— Devo ouvir meu PRÓPRIO PAI dizer que Camille, minha bela e querida Camille, é um HOMEM? – interrompeu-o em voz alta, indignado.

O velho conde deteve-se, consternado. Abaixou a cabeça. Muito sério, o loiro anunciou, abaixando a voz:

— Mandarei que Georgette prepare uma boa infusão para que recobres a sobriedade...

— Milo...

— ... sendo assim, retirar-me-ei para meus...

— MILO, DETÉM-TE E SENTA! VAIS ME OUVIR! – bradou o nobre, erguendo-se por sua vez, resoluto.

Atônito, o jovem parou, a mão na porta de carvalho. Sabia que o pai enveredava em declarações insólitas... mas sabia também que a autoridade de um pai era inexorável.

Voltou para a mesa, contrafeito, e sentou-se novamente na cadeira estofada. Aguardou silenciosamente que o conde explicasse o que tencionava. Pigarreando um pouco antes, Henri começou:

—O rei de França, Filipe II, teme a ascensão do duque de Borgonha. Teobald II é rico, poderoso, amado pelo povo. Sua influência suplanta à do monarca em vários aspectos. Poderia, tranquilamente, erguer-se em revolta contra um monarca que somente agora começa a ganhar projeção, e que no trono está tão somente pelo sangue. Filipe não fez boa figura com a última Cruzada... bem o sabes.

O jovem apenas assentiu, desejoso de ouvir integralmente a história.

— Para ele, Teobald poderia erguer-se em revolta... o que não seria inédito na história deste país... ou poderia ser levado a isso mediante alianças com nobres descontentes com a Coroa. Não podendo bater-se de frente com o duque, Filipe viu por bem unir forças com ele através de mim, o parente mais próximo a ter um filho varão ainda solteiro.

— Até aí entendi o estratagema de teu primo, meu pai... trazer o duque de Borgonha para nossa família equivale a neutralizá-lo... evitar que essas suposições venham algum dia se concretizarem...

— E além disso – ajuntou o conde, franzindo o cenho – o patrimônio do duque de Borgonha passa a estar à disposição do rei de França. Não que ele vá tomá-lo, creio eu, mas em caso de necessidade, pode dele dispor, como um “favor em família”, falando de maneira simplória.

A Milo o que mais interessava era saber logo sobre o mistério de Camille. Entretanto, limitou-se a ouvir o pai, a fim de que chegasse logo à parte que queria.

— De certo modo, todos estão levando alguma vantagem. O duque poderá dispor de nosso exército, indubitavelmente superior ao dele, bem como da glória de pertencer à família real. Nós cairemos nas graças do rei, que até então me teve como um primo sem maior importância, confinado neste condado provinciano; nosso maior trunfo, o poderio militar, começa a necessitar de maiores subsídios, visto que nossos ganhos provêm obviamente da guerra... da qual parece o homem de então estar se enjoando.(** )

Impaciente, Milo voltou a beber do vinho, temeroso de que nunca chegasse à parte pela qual ansiava de fato.

— Estás ciente, então, deste ponto, não é, Milo? Unir a primogênita do detentor de maior riqueza e prestígio da França com o filho do maior detentor de exércitos... sob o manto de SUA família real... é um golpe de mestre.

Sim, sem sombra de dúvidas um golpe de mestre! E sem desagradar a ninguém, pelo menos no quesito “perdas e ganhos” materiais e físicos.

Aspectos emocionais nada significavam em tais acordos.

Milo e Camille deveriam se casar, gostassem ou não, quisessem ou não. Não obstante:

— De tudo isso estou ciente.

— Achei por bem rememorar – replicou o conde, aparentemente cansado.

— Não era preciso que te estendeste tanto. Agora explica-me tua revelação assombrosa de há pouco.

— Sim. Camille, a quem desposarás, NÃO É uma mulher de verdade.

O loiro engoliu em seco, e mirou, maquinalmente, as esplêndidas tapeçarias com a figura do escorpião pelas paredes. O mesmo escorpião que figurava no brasão da família, em um claro simbolismo de sua abrangência letal. Tomou mais um gole de vinho.

— Camille... é algum tipo de HERMAFRODITA, é o que estás a me dizer? – inquiriu, um canto da boca repuxando de nervoso.

— Não. Camille não é hermafrodita. É um homem, tão somente.

— Tu almejas enlouquecer-me!

— Meu filho, tão somente ESCUTA. Olha para ti. Imaginas que te contasse a verdade e e tivéssemos que ir, sem demora, a Borgonha? Ao primeiro gole de vinho, poderias trazer à tona o estupor que está a vidrar teus olhos, a ira que está a enrubescer-te as faces...

— Pai – interrompeu o loiro, duro e fatigado. Pousou o cálice na mesa – Conta-me, apenas. Eu te suplico.

— Está bem. Escuta-me com atenção.

O jovem respirou fundo, sabendo que ouviria algo surpreendente Que mistérios rondava Camille? Ou melhor...?

—O nome dele é Camus... – e este início foi mais como um sussurro do conde de Auvergne – e eu preciso contar-te tudo, desde o nascimento dele... e de Camille.

*************

Notas finais
(* ) Tutear - ato de tratar alguém na segunda pessoa do singular ("tu") (** ) O pai de Milo se refere ao declínio do número de conflitos e guerras que se verificou entre os séculos X e XIII (não havia mais invasões bárbaras), o que, inclusive, causou o enfraquecimento do sistema feudal, no qual os senhores de terra eram mais poderosos que o rei, e o consequente fortalecimento deste. É um quadro geral, podendo ser mais ou menos verificado nas diferentes partes da Europa. É, gente... parece que Camille, ou melhor, Camus, não ficou assim tão indiferente ao cavaleiro Milo... sabemos que Milo se apaixonou por "Camille", mas e agora que está sabendo que o objeto de sua paixão é um HOMEM, como ficarão os dois? No próximo capítulo, como devem ter percebido, a verdade sobre Camus/Camille será revelada... espero vocês lá. Obrigada por lerem, forte abraço! Tema deste capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=l-G-j2-YhJY