Dame Jolie
49 Negociações
Notas iniciais
Não seria necessário significativo poder de observação para perceber que a atmosfera tornara-se subitamente pesada quando o Conde de Saint-Doulchard e o Marquês de Aguilar se encontraram frente a frente. Dir-se-ia que o ar tornava-se denso, irrespirável; os presentes mantiveram-se em tensa expectativa, cientes de que os laços que um dia uniram aqueles dois homens desfizeram-se como que papéis de seda atirados ao lume. Brasas ardentes emanavam dos olhos azuis turquesa de Milo, sempre cravados nos gélidos e escuros de Shura, que sequer parecia respirar, tão imóvel se encontrava.
— Surpreende-me sobremaneira teu audacioso retorno, Shura de Aguilar. Não esperaria que acá voltasses depois do que fizeste a Afrodite. – Pontuou Milo, contendo a ira com todas as forças.
— Conheces-me o suficiente para saber que não sou homem de fugir. – O moreno respondeu em um tom límpido e odiosamente tranquilo.
Trêmulo de raiva, Milo encarava-o, seus batimentos cardíacos a ressoarem-lhe nos ouvidos. Seus dedos roçaram nervosos o cabo dourado da espada. O desejo por derramar o sangue do espanhol carregava sua boca de um pungente gosto metálico, amargo. Sabia, contudo, que não haveria sentido em matar o traidor. Não sem antes saber o que ele fizera a Camus. Não sem antes saber o paradeiro de Camus. Tampouco poderia do recém-chegado a verdade ali arrancar, diante de tantos ouvidos. Teria de medir suas ações, medir suas palavras, ainda que desejasse com todo ardor golpear Shura de uma forma que o levasse ao arrependimento por ter nascido!...
— Bem sei que não és “homem de fugir”, embora tenhas procedido de modo assaz inesperado nestas paragens. A começar pela insubordinação às minhas ordens...
Shura ergueu o queixo, adquirindo uma postura quase petulante.
— As ordens de Deus AINDA vêm antes das TUAS, Milo D’Auvergne.
Os soldados de Milo entreolharam-se, intrigados com aquela fala. O que queria dizer o Marquês de Aguilar? Sentindo o perigo no ar como um lavrador que avista uma nuvem de gafanhotos aproximando-se de sua lavoura, o loiro umedeceu os lábios, no afã de refrear a língua.
— É evidente que sim, meu amigo. – Forçou-se a assentir. – Entretanto, receio que tenhas que acompanhar meus guardas. Conversaremos sobre tuas “necessárias”... ações... de maneira mais reservada.
— Nada tenho a ocultar-te. Se te aprouver, poderemos tratar sobre o assunto AQUI MESMO... – Volveu Shura, levantando uma sobrancelha.
“Maldito, tenciona intimidar-me!”, pensou Milo, rubro de cólera. Tinha que cuidar para que aquela maldita língua permanecesse dentro daquela maldita boca. Uma única palavra inconveniente ao vento diante de todas aquelas testemunhas e ele estaria em PERIGO.
Não poderia ir atrás de Camus se estivesse em perigo.
Desembainhou a espada para a estupefação dos presentes. Shura, porém, não pareceu nada surpreso.
— Que tal verificarmos como andam tuas habilidades contra as minhas? – Propôs o conde, lançando-lhe um meio sorriso.
— É uma demonstração de boas vindas?
— Precisamente.
Sem hesitar, Shura arrancou de si a longa capa negra que ainda cobria-lhe o corpo alto e vigoroso. Desembainhou sua espada, tão longa e reluzente quanto à do nobre que o desafiava. Incertos sobre o que estava a acontecer ali, os soldados afastaram-se. Um breve murmúrio correu entre os homens enquanto abriam espaço para os dois aristocratas.
De frente um para o outro, os ex-Cruzados, agora adversários, fitavam-se com solene gravidade. Milo sabia que não poderia matar Shura... isso se não fosse ELE a ser morto naquele embate. Por sua vez, o espanhol não aceitara o sacrifício de Camus para MATAR Milo. No entanto, defender-se-ia. E, se durante o processo, viesse a necessidade da qual preferia evadir-se, bem, ele o faria.
Não era homem de fugir.
Tão rápido quanto um raio que corta o firmamento, a luta teve início. Os dois cavaleiros atiraram-se impetuosos um contra o outro, suas espadas traçando trajetórias mortais no ar. As lâminas chocaram-se ruidosamente em uma dança feroz, ambos guerreiros equivalendo-se em força e agilidade. Nenhum dos dois oferecia qualquer brecha, sempre repelindo as investidas do outro, ao mesmo tempo que os ataques se sucediam. Boquiabertos, os soldados de Milo acompanhavam quase com dificuldade os movimentos dos dois ex-Cruzados. Não saberiam dizer a quem pertencia a vantagem, nem se fosse pela mais tentadora das apostas!
Eis que as espadas travaram-se em um impasse, que momentaneamente pôs seus rostos resolutos quase juntos, seus olhares duros afiados como o aço das lâminas junto a cada um.
— Eu não esperava isso de ti. – Milo disse, em um tom audível apenas por seu rival.
— Como eu disse, sirvo a Deus antes do Conde D’Auvergne. – Shura tornou, da mesma maneira.
— Onde ELE está?
— MORTO.
Foi como se o sangue tivesse-lhe congelado nas veias; os olhos de Milo esgazearam doentiamente. Súbito, sua força sobrepujou a de Shura. Com um brusco movimento seu, o espanhol vacilou sobre os pés. A espada de Milo ascendeu em uma curva lancinante, que desarmou prontamente o marquês. A espada de Shura caiu sobre a relva, patenteando a vitória do soberano de Saint-Doulchard. Em um gesto maquinal, os guardas comemoraram a vitória de seu senhor. No rosto deste, todavia, não se verificava qualquer satisfação pelo feito. Ao contrário, sua expressão toldara a ponto de evocar um deus destroçado... e sedento de vingança. Ninguém, a não ser Shura, em cuja direção brandia a espada vencedora, ouviu seu balbucio rouco, angustiado:
— Tu mentes.
— TU és o entendido em MENTIRAS aqui.
Aquilo foi além do que Milo poderia suportar. Aproximou-se de Shura, incontinenti, a espada ainda em punho. Isso levou as testemunhas a acreditarem que, ao contrário do que previram, aquilo acabaria, sim, em SANGUE. De fato acabou, mas não do modo que esperaram naqueles breves segundos de terrível expectativa: quando da erguida da espada do ar, Milo girou-a de forma a usar-lhe o cabo para golpear violentamente o maxilar de Shura, de imediato lançado às trevas da inconsciência. O espanhol tombou desacordado no chão ante uma plateia surpresa, cujos brados de euforia foram substituídos pelo silêncio do pasmo.
Ofegante, com os longos cabelos dourados em desalinho, Milo procurou aprumar-se a fim de ordenar, em alto e bom som:
— Levem-no para a masmorra. Tranquem-no e deixem-no lá, SOZINHO. Não quero NINGUÉM perto dele,
Conquanto estranhassem-lhe a ordem – o ideal não seria alguém ficar a vigiar o prisioneiro? – rapidamente obedeceram ao conde. Carregaram o marquês desmaiado para dentro do solar.
Após enxugar com a manga de sua túnica verde esmeralda o suor que lhe brotara na fronte e nas faces afogueadas, Milo rumou também para o solar, a passos pesados, como se quisesse abalar aquela terra. Foi para o quarto onde estavam Afrodite e Giuseppe; ambos prontamente suspenderam as respirações ante a entrada intempestiva do governante de Saint-Doulchard.
— Excelentíssimo conde – O artífice-mestre pôs-se de pé; torceu as mãos ao se dirigir ao desfeito e ofegante aristocrata. – Pelo que ouvimos, pudemos perceber que batestes em duelo com o Marquês de Aguilar. Perdoai-me por não ter ido em vosso auxílio; considerei sensato levar a cabo vossa ordem para permanecer ao lado do senhor Afrodite…
— Procedeste com sensatez, pois que me obedeceste, e não aos teus anseios. Ademais, não precisaria de qualquer auxílio para subjugar aquele sevandija, como se deu...
— Ele está morto?!? – Quis saber o sueco, visivelmente aflito.
Para ele Giuseppe tornou o olhar abismado. Seria possível que depois de TUDO que o Marquês de Aguilar lhe fizera, Afrodite ainda...?
— Não sejas tolo! Acaso poderia eu matá-lo? Poderia, Afrodite? Tu sabes MUITO BEM que NÃO! – Disparou Milo, com agressividade. – Tu, acima de todas as pessoas!
Mordendo o lábio inferior, o ex-camareiro abaixou a cabeça, esmagado pela vergonha e pela culpa. A cena não fora compreendida pelo toscano, nitidamente confuso com as palavras do conde. Todavia, permaneceu em silêncio, à espera de que o nobre prosseguisse o colóquio... e mais lhe fosse revelado...
Milo passou a mão pelos cabelos, a fim de recobrar a calma.
— Nós travamos uma breve luta. Venci-o, e, agora, ele está preso na masmorra...
— Mas... os guardas... Shura... – Balbuciou o sueco, agoniado. A presença de Giuseppe não permitia-lhe que externasse o medo de que o espanhol revelasse a alguém o segredo de Camus. A Giuseppe, apenas ficava cada vez mais nítido que seu amado ainda se preocupava com o odioso marquês...
— Ele está inconsciente. Dei ordens expressas para que o deixem só. Ninguém o vigia, neste momento.
Giuseppe abriu a boca para questionar. Contudo, conseguiu se conter, malgrado a imensa estranheza ante a informação de que nenhum guarda vigiava homem tão perigoso e insurgente. A Milo a impressão do subalterno não passou despercebida; tratou de esclarecer-lhe:
— Não há risco algum. Ele encontra-se a ferros, como a fera belicosa que é. Hei de tratar PESSOALMENTE desse... prisioneiro especial...
— Senhor Milo, permiti que vos acompanhe.
— Agradeço-te a prestimosa oferta, Giuseppe. No entanto, é mister que eu fique a sós com Shura. E peço-te... não... EXIJO-TE – O semblante do conde fez-se ameaçador. – não questiones minha decisão, tampouco tente compreendê-la.
Engolindo em seco, o toscano assentiu com profundo respeito.
— Milo... – Afrodite murmurou, hesitante.
— Que foi? Acaso preocupa-te ainda com aquele que te fez prisioneiro por dias?
— Não... preocupo-me contigo. Se te excederes... Shura é um nobre influente de Espanha... temo que tu possas...
— Não temas por mim – Interrompeu-o, mais sombrio do que ríspido. – O que de PIOR poderia me acontecer... possivelmente JÁ ACONTECEU.
Uma adaga afiada não teria o poder de ferir Afrodite como aqueles dizeres o fizeram. Sem mais nada proferir, Milo retirou-se do quarto. Os punhos do sueco contraíram-se violentamente. Oxalá golpeassem-lhe a face até convertê-la em massa rubra e disforme.
— Percebo que há aqui um grande mistério. – Comentou Giuseppe, como se falasse consigo mesmo. Ciente do terror estampado nos olhos úmidos do sueco, rapidamente ajuntou – Sossega-te, não tenciono interpelar-te acerca do que quer que seja. Entendo que não poderias revelar-me.
Com profundo desânimo, o loiro anuiu:
— Eu... com efeito, não, eu não posso revelar-te.
— Mesmo assim, qualquer um poderia facilmente inferir que o que aqui se desenrola tem relação com o desaparecimento da senhora condessa.
Abatido, o ex-camareiro não obteve forças para contestar. Então era fato que Camus desaparecera de Saint-Doulchard... pela resolução de Milo prender o marquês, deduzia que, no mínimo, Shura metera-o em graves apuros.
Se é que não estava MORTO.
— Afrodite, estás terrivelmente pálido – Alarmou-se o artífice-mestre. – Que tens? Pareces à beira de novo desfalecimento!
— Não, não, estou bem – Replicou o loiro, com voz estrangulada. Mirou o outro e finalmente indagou-lhe: – Mas, afinal, que fazes aqui? Como vieste parar em Paris com o senhor Milo?
— Explicar-te-ei somente quando tiver certeza de que te encontras em plenas condições de ouvir minha história.
— Tem-na, pois, anda, diz-me! – Esforçou-se por se mostrar enérgico, contudo, apenas pareceu suplicante.
Então o toscano contou-lhe tudo quanto se sucedera em Saint-Doulchard, desde que presenciara a insólita cena na taverna, durante a qual um misterioso homem encapuzado, supostamente um nobre com forte acento espanhol, conduzia amarrado seu criado, feito naquela ocasião um prisioneiro... até o momento em que o Conde de Saint-Doulchard irrompeu pelas obras do futuro hospital em busca de informações sobre a consorte desaparecida. Contou-lhe, em minúcias impressionantes, acerca da conversa com Milo D’Auvergne e, por fim, do chamado do soberano para que o acompanhasse.
Afrodite perguntava-se por que Milo havia chamado Giuseppe até Paris. Acaso desconfiava de que o toscano suspeitasse de algo? Afinal, por que Giuseppe associara a cena na tavern ao sumiço de “Camille”? Giuseppe achara “o pouco que vira do criado prisioneiro do nobre misterioso assaz similar à figura ‘da condessa’”. Atormentava-o vislumbrar o risco em que pusera o segredo do amigo! Agora, além de Shura, muito provavelmente Giuseppe...
— Vês? Empalideceste outra vez! E agora tens os olhos de um peixe recém retirado de um rio! – O toscano observou, enquanto enchia de água um copo de cerâmica. – Toma, bebe aos poucos.
— Agradeço-te... é tudo tão... m-mas diz-me... por que te ofereceste para auxiliar Milo com tanto préstimo? Por que vieste até Paris tão diligentemente?
Como se tivesse ouvido a pergunta mais sem lógica de todas, o artífice-mestre ergueu as sobrancelhas grisalhas, seus estreitos olhos cinzentos agora dobrando de tamanho.
— O senhor Milo é o governante de Saint-Doulchard, e, precisamente, o homem que contratou meus serviços naquela localidade. É perfeitamente plausível que eu me pusesse à sua disposição, tanto mais em um momento de provação quanto este...
— Sim, claro, faz sentido.
— Perdoa-me, mas não terminei.
Aquela réplica surpreendeu o sueco. Aguardou ansioso pela conclusão do italiano, que se seguiu a um breve suspiro seu:
— Ao saber do ocorrido na taverna, o senhor Milo tornou-se assustadoramente sombrio... tive-lhe real receio, não ouso negar... e... ao adquirir tão funesta expressão, murmurou o TEU nome.
— Meu nome?!?
— Sim. Naquele instante, desconfiei vivamente de que pudesses de algum modo incompreensível estar envolvido nessa questão tão séria. Por isso... deixei clara ao senhor conde a minha preocupação quanto à tua pessoa.
— A-acaso contaste-lhe... sobre nós? Sobre...
Com um sorriso entre gentil e amargo, o toscano apressou-se em elucidar:
— Não te aflijas. Disse tão somente que eu me considerava teu amigo.
Afrodite não pôde furtar-se a dirigir-lhe um sorriso doce.
— Com efeito, tu o és. Teres vindo até aqui com Milo... e ter me livrado das agressões daquele guarda bruto... perdoa-me, sequer agradeci a ti.
— Bem sabes que gostaria de ser mais que um amigo, bello...
Ouvi-lo enunciar tais palavras, e naquele tom acariciante que um dia quase o fizera capitular, devolveu ao ex-camareiro o ar cabisbaixo.
— No entanto – Giuseppe falou, terno. – muito mais importante que meus sentimentos é o teu bem-estar, a tua segurança. Portanto, abstém-te de te molestar com o que este reles tolo diz.
— Não és nenhum tolo, Giuseppe! O tolo aqui SOU EU – Retrucou, com certa urgência.
— Sei que não podes me revelar de forma íntegra o que se sucedeu neste solar... não obstante, a ira do Conde de Saint-Doulchard ao lidar contigo sugere-me que não te encontras em boas graças perante nosso soberano. A fim de se desfazer de um novo nó na garganta, o loiro sorveu mais da água que o outro lhe trouxera. Inspirou com tristeza e respondeu:
— Cometi uma grande falta para com as duas pessoas que mais me apoiaram na vida. A cólera de Milo é perfeitamente justificada, crê-me. Como disse-te, fui um tolo, ou melhor, SOU um tolo, um completo e abjeto tolo!!!
— Pelo que fizeste ao senhor conde... ou por ainda nutrir sentimentos para com o Marquês de Aguilar?
Foi como se Afrodite levasse nova bofetada. Não esperava que semelhante sandice transparecesse após o martírio infligido justamente pelo alvo de seu amor. Desviou o olhar enevoado de lágrimas.
— Teu silêncio responde a mim de modo mais eficaz que palavras. – Apontou Giuseppe, uma tranquilidade encenada a dissimular sua decepção.
— O que te leva a concluir que ainda nutro sentimentos por Shura? – Forçou-se a contestar.
— Recebeste como uma punhalada a notícia de que o senhor marquês foi derrotado em duelo pelo senhor conde e que foi dele feito prisioneiro.
Ante a mirada indignada do sueco, o artífice-mestre insistiu, sem reservas:
— Sim, já admito que o outrora “Shura, o Justo” agora é um MALFEITOR. A começar pelo que fez contigo! Depois... bem, não sei o que mais fez ele, mas a julgar pelas ações do senhor Milo...
— Eu NÃO o amo mais. Como poderia? Depois de tudo…?!? – Gemeu um atormentado Afrodite, a indagação mais para si do que para seu interlocutor.
— Então não deves ressentir-se do que quer que lhe sobrevenha. – O toscano reforçou, contundente.
— N-não... – Balbuciou. – Claro que não...
Milo certamente TORTURARIA Shura até descobrir o que fora feito de Camus.
Nada poderia parar o conde enquanto não soubesse do paradeiro do amado... ou...
Ou de seu CADÁVER.
Teria Shura EXECUTADO Camus?
Em meio ao turbilhão de emoções que o engolira nas últimas horas, desde que fora libertado do cárcere, não se detivera nessa hórrida conjectura. Pela história de Giuseppe, Shura teria levado Camus de Saint-Doulchard... ambos teriam deixado o condado disfarçados... mas para onde teriam ido? Para onde Shura teria LEVADO Camus? E com que intuito?
“Deus meu, que é feito de meu amigo?”
Era por ELE que deveria sofrer, não por Shura, com mil demônios!!!
Foi acometido de um forte e súbito mal-estar, que o obrigou a recostar-se na cabeceira do leito. Vendo-o doentiamente lívido, Giuseppe achou por bem pausar seus questionamentos. Foi até a porta e chamou um guarda, que por sua vez chamou um dos criados da habitação. Ordenou-lhe:
— Providencia um caldo forte de carne de vaca com vegetais. Bastante canela, açafrão e pimenta preta. E um jarro de leite de cabra.
Voltou para a alcova, de onde um enfraquecido Afrodite o encarava de modo interrogativo.
— Tu necessitas de uma refeição substanciosa, porém leve, a fim de não te sobrecarregar o estômago. De minha parte, deixo a partir de agora de instigar-te a falar ou mesmo pensar. Concentra-te, peço-te, apenas em teu restabelecimento.
De fato, toda a energia de Afrodite havia se esvaído. Sentia-se como a chama de uma vela prestes a se apagar. Resignou-se a proceder conforme instruía o artífice-mestre. Tentou agradecer a ele através do olhar profundo que aqueceu o coração do toscano. Desistiu de tentar conter as lágrimas que rolaram pelas faces descoradas. Cerrou os olhos cor de água-marinha, no afã de não ter mais diante de si o rosto devotado de Giuseppe. Este, por sua vez, cumpriu a resolução de cessar perguntas ou quaisquer outros comentários. Em outra hora, perguntaria ao sueco acerca da cicatriz que agora riscava-lhe o rosto divinal.
Em seu íntimo, sabia que Shura de Aguilar havia de ser por ela o responsável.
*************
As infiltrações que semeavam estranhas imagens nas paredes escuras denotavam que aquelas masmorras poderiam ter quase tanto tempo quanto as guardadas sob o antiquíssimo Castelo de Saint-Doulchard. Bastou acessá-las para que Milo pudesse sentir a temperatura decrescer. O que não era suficiente, todavia, para abrandar o fogo que fazia seu sangue ferver ante a visão do prisioneiro ainda desacordado. Descera até ali sozinho, não sem antes frisar com severa veemência que NINGUÉM ousasse segui-lo, sob ameaça de uma punição que faria corar de pejo a própria morte... desnecessário dizer, pois, que apenas aquelas centenárias rochas, e alguns morcegos e aranhas, testemunharam o Conde de Saint-Doulchard parado defronte à cela de Shura, mal iluminada por tochas que distribuíam sinistras sombras no rosto do loiro.
— Encontro-me completamente só. Tu já podes me dizer o que é feito DELE. – Demandou, de forma seca e direta.
Sem demora, o espanhol abriu os olhos. Pôs-se a sentar-se sobre os joelhos flexionados. Os dois homens encararam-se por alguns instantes. Reunindo uma paciência que jamais soubera possuir, Milo disse:
— Ninguém nos ouve, de modo que podes revelar-me o que sabes que necessito ouvir. Sê sincero e poupar-te-ei da MORTE.
— Achei que me conhecesses o bastante para saber que eu NÃO temo a morte. – O moreno volveu, friamente.
Milo crispou os punhos. Reformulou a ameaça:
— Pois muito que bem. Diz-me o que quero ouvir e poupar-te-ei de SUPLÍCIOS que haveriam de indignar qualquer filho de Deus.
Com um sorriso sarcástico, Shura atirou:
— Porventura temeram os santos mártires seus vis algozes? Por que temeria eu a ti, Milo D’Auvergne?
— Consideras-te um MÁRTIR, deveras? Posso cuidar para que o sejas – Rosnou o conde, aproximando-se das barras de ferro enegrecidas pelo tempo. – Anda, diz-me: ONDE ELE ESTÁ?
Shura cravou nos olhos furiosos de Milo os seus subitamente mortiços. Respondeu com o mesmo desinteresse que injetou no olhar:
— MORTO.
Os lábios de Milo descolaram-se, trêmulos: por entre eles, breves ofegos que sufocaram qualquer palavra. A fúria em seu olhar deu lugar a um estupor quase idiotizante. A voz, pastosa, miúda, emergiu tímida, em um patético e incrédulo balbucio:
— Morto?
— Sim, morto. – O espanhol confirmou, com espantosa tranquilidade.
Envolto em frêmitos incontroláveis, Milo inspirou com profundidade. Volveu os olhos para o alto como alguém que está se afogando tenta vislumbrar a superfície. Seus membros pareciam pesados, e então, tornaram-se moles. Temeu desfalecer. Puxou o ar novamente, a fim de manter-se no controle.
Camus, morto?
Como?
COMO?
— Como? – Seu pensamento materializou-se naquele fio de voz.
— Eu o MATEI, ora.
— O que... o que estás a dizer-me?...
— O que acabaste de ouvir. Que eu o matei.
— M-mas... mas como? Por que haverias tu de fazer algo semelhante? – o loiro meneava o rosto, sem admitir que ouvia o que ouvia.
— Não desconfias?
Milo encarou-o com firmeza.
— Afrodite disse-me que tu encontraste seus diários...
— Precisamente.
— E... e o que teria isso a ver com... com
— Seu infame segredo estava lá. Descrito com minúcias pérfidas e nauseantes. O seu, o de Afrodite... e também o TEU.
Engolindo em seco, Milo inconscientemente deu dois passos para trás. Que o amigo havia descoberto o segredo de Camus de Turenne não lhe era surpresa, desde que falara com Afrodite. Mas ouvi-lo da boca do próprio Shura adquiria o efeito de uma punhalada em seu peito já em franco tormento. Murmurou:
— E essa descoberta cingiu-te do direito de MATAR Camus?
— Esse direito era o meu DEVER como Cavaleiro de Cristo. – Rebateu o moreno, erguendo o rosto orgulhoso.
— Deveras? Descobriste que Camus foi OBRIGADO pelo próprio pai a assumir a identidade da irmã assassinada, e resolveste terminar o serviço dos que conspiraram contra o clã dos Turenne?
— Poupa-me de tais chorumelas, meu caro amigo. Eu o tinha como homem prático e sensato.
— Mas essa era a verdade, Shura!
— Não. A verdade é que aquele homem vivia como um pecador, o PIOR de todos, e arrastou a TI para o lodo de sua perdição.
— Não... não é assim... – Horrorizado, Milo balançava a cabeça.
— Mas a TI, ao menos, foi-me dada a possibilidade de SALVAR. Livrando-te do alcance de tão sórdida criatura...
— Salvar... a MIM?
— Mas é CLARO! Cortei a erva-daninha que prendia-se aos teus pés, e que fatalmente arrastar-te-ia para o báratro!
Aquilo tudo planava por sobre o entendimento de Milo como um sonho meandroso. Entendia-lhe as palavras, porém, elas faziam-se difusas, quase um reles aroma, não um som... um piedoso mecanismo de defesa da mente de Milo, impedindo-o de precipitar-se para o abismo da loucura.
CAMUS ESTAVA MORTO.
Era isso que Shura estava a lhe dizer?
Sacudiu a cabeça, cerrando os olhos que já ardiam com lágrimas quentes como o seu sangue.
SHURA MATARA CAMUS.
Como...
Como aquilo poderia ter acontecido?
Sim, conhecia o fervor religioso do amigo, católico irrepreensível, o mais implacável guerreiro pela Fé que já conhecera em vida. No entanto, por mais que fossem consideradas pelo espanhol “corretas” suas ações extremadas... era de alguém a quem o próprio Shura estimara de que estavam falando! Era do objeto de AMOR de seu MELHOR AMIGO de quem estavam falando! Mesmo Shura NÃO PODERIA...
— Eu não acredito em ti.
— Perdão? – O espanhol ergueu uma sobrancelha.
— Sei que tu o sequestraste, e tenciono descobrir como e para onde o levaste... entretanto, sei que tu NÃO o executaste.
— Então fugiria eu do meu DEVER, que era SALVAR a alma de um amigo que tenho como irmão?
— Revela-me JÁ onde se encontra Camus – Demandou novamente o conde, inflexível.
— Já o disse: MORTO!
— ONDE?
— Por que razão almejas sabê-lo?
Milo chegou a esboçar um sorriso de puro escárnio:
— Oras, se eu não vir seu corpo, que garantias tenho de que falas a verdade?
— Acusas A MIM de faltar-te com a verdade? Tu, que por TODO ESTE TEMPO me enganaste!... – Vociferou o marquês, finalmente abandonando a fleuma habitual.
Sua voz ecoou dramaticamente pela fria e sombria prisão. Com voz pausada pela forte emoção que o dominava, Milo argumentou:
— Shura... eu não tive intenção. Nunca tive intenção de te enganar! Compreende-me! Como poderia contar semelhante coisa, tanto mais... tanto mais...
— “Tanto mais”...?
— … tanto mais sabendo como és – Admitiu o loiro, desolado, agarrando as grades de ferro com as mãos.
O prisioneiro não se deixou comover; observou, com frio desdém:
— Se temias minha reação, é porque estava ciente de teus crimes. Ao contrário do que cheguei a pensar, tu compactuaste com a hedionda infâmia que...
— CALA-TE! – Bradou Milo, dando um violento solavanco nas barras. – Nada mais tenho a esclarecer-te; tu leste os diários de Afrodite, conheces toda história, a razão por que tudo se deu como deu! Agora diz-me ONDE ELE ESTÁ?
— Eu já disse…
—Que seja, ONDE ESTÁ SEU CORPO?
Momentaneamente acuado, Shura considerou o amigo, que tremia de tensão junto às grades da cela. Em tom desprovido de emoção, respondeu:
— Tu não terás como recuperá-lo, por muito que o queiras.
— Oh, não? E por quê?
— Porque ele está no fundo do mar.
Como que fulminado por um raio, Milo paralisou, olhos esbugalhados, de pé apenas porque se segurava nas barras de ferro.
— Que dizes? – Tartamudeou, mais morto que vivo. – No fundo do mar? Que queres dizer com isso?
Após um profundo suspiro, Shura enfim pôs-se de pé. Aproximou-se das grades nas quais um estarrecido Milo se segurava. Lenta e calmamente, ele elucidou:
— Para que não houvesse vestígios de sua existência, bem como para livrar a terra da contaminação de tão indigna carne, decidi executá-lo e atirar seu corpo ao mar.
Tal qual as estrelas fulguram extraordinariamente antes de se extinguirem nos céus, assim cintilaram os olhos vidrados de Milo. Permaneceu em perplexo silêncio enquanto o outro continuava:
— Devo dizer que Camus foi valente, aceitando com bravura seu destino. Entregou-se a mim, e, com isso, seu fim foi praticamente indolor, asseguro-te. Minha espada varou certeira seu coração; ele não levou mais que 4 ou 5 segundos para expirar. Tão logo partiu deste mundo, depositei seu corpo em uma balsa e remei por algumas horas, até um ponto que considerei suficientemente afastado da costa para tornar-se seu lugar de descanso. Sim, pois que ao se entregar ao seu destino, Camus renunciou aos seus pecados. Fê-lo para salvar a ti, mas, creio na infinita misericórdia de Nosso Senhor... com isso, também ele se salvou.
Lágrimas enfim rolaram pelas faces agora congestionadas do Conde de Saint-Doulchard. Uma seguiu-se à outra, e à outra, e à outra, e por longos minutos tudo que Milo fez, sempre fitando Shura, foi derramar aquelas lágrimas, que pareciam não ter fim, em um pranto tão morbidamente silencioso que incomodou o marquês; este, contudo, não o deixou transparecer. Nenhum soluço, suspiro, gemido, nem mesmo o som da respiração de Milo fazia-se ouvir. Shura percebeu que os nós dos dedos do loiro embranqueciam gradualmente, tamanha a força com que contraía as mãos nas grades da cela.
Ao cabo daqueles angustiantes instantes, a voz de Milo elevou-se, regular e contida:
— Eu NÃO acredito em ti.
O marquês não pôde disfarçar a surpresa. Largando a grade, o conde afastou-se, dando as costas ao cativo. Então virou-se para ele, com uma expressão completamente diferente no rosto.
— Ser-me-á dura prova proceder contigo como deverei proceder para OBTER RESPOSTAS. – Anunciou, recompondo-se e assumindo um ar frio, inclemente. – Contudo, se é da pessoa que MAIS AMO NESTA TERRA de que estamos a tratar...
— Que pretendes?
— Dar-te-ei um quarto de hora para que decidas revelar-me a verdade. É o tempo necessário para que eu retorne com os INSTRUMENTOS dos quais dever-me-ei servir.
Shura quedou-se boquiaberto.
— Acaso tencionas TORTURAR-ME?
— Contar-me-ás a verdade?
— Pois se eu já não a disse!!! – Bradou o espanhol, quase saindo de si.
— Bem, neste caso... havemos de conferir se hás de manter a tão decantada fleuma dos santos mártires diante de seus algozes... – Dito isto, Milo dirigiu-lhe um sorriso cruel de congelar a alma do mais altaneiro dos varões.
*************
Camus acordou assustado, emergindo de um sonho do qual não conseguia se lembrar.
Considerou-se afortunado por isso.
Ao menos em ALGUMA COISA ele era afortunado.
Presa de um terrível enjoo, tentou se levantar para depositar na precária latrina o que ele NÃO queria espalhado no centro de sua diminuta cela. As forças faltaram-lhe, a ponto de não poder se firmar com propriedade sobre as pernas. Gemeu, sob novo mal estar. Levou a mão à boca, temeroso de expulsar o pouco que ainda lhe restava no organismo. Sabia, contudo, que era uma questão de tempo. Empregou toda sua já escassa energia em uma nova tentativa para manter-se ereto. Mas com os diabos! Tudo balançava... sua cabeça começou a girar, seu estômago a ser perpassado por adagas invisíveis.
— Oh, Deus...! – Ciciou, antes de vomitar, de quatro, bem no meio da “gaiola”.
Tossiu, em franca agonia. Procurou afastar-se tanto quanto podia da sujeira que muito a contragosto fizera... a garganta parecia repleta de cacos de vidro. Ardia...
— Para alguém de propalada origem nobre, não deténs bons modos, meu caro Laurent.
O ruivo virou seu rosto abatido na direção das grades de ferro.
— C-Capitão Saga...
— E então? Como tens passado? – Indagou, em tom casual, enquanto destrancava a fechadura.
Piscando seguidamente, Camus mirou seu próprio vômito.
— Eis aí vossa resposta, senhor capitão... – Respondeu, mais débil do que gostaria de parecer.
— Ora, isso não é nada. É que deixamos o cais. Estamos a entrar agora em alto-mar, por isso teus enjoos. Pioram com o jejum prolongado.
— Deixamos o cais...? – Os olhos castanho avermelhados abriram-se exageradamente.
— Sim. Até este momento, não eras um homem do mar. Com o passar do tempo, teus humores acostumar-se-ão.
Sem o menor ânimo para responder, Camus limitou-se a continuar olhando o capitão; não trazia ele consigo nenhum alimento, tampouco água, ou mesmo acompanhava-o um subalterno que os trouxesse... será que seu castigo seria estendido? Não, aquilo não era possível! A fome e a sede, principalmente, atormentavam-no tanto! Conquanto temesse provocar a ira do grego em ousar pedir-lhe algo, com voz baixa e arrastada, enunciou:
— Por favor, senhor capitão... tenho sede...
— Posso imaginá-lo. – Rebateu o moreno, com um meio sorriso sarcástico. – Há 24 horas que te encontras aqui trancafiado.
— 24 horas...? Isso quer dizer que… que poderei comer e beber a partir de agora?
— E o que é que me DARIAS em troca disso, Laurent?
— E-eu... eu não estou a entender-vos, senhor.
O grego sorriu novamente. Retirou a faixa escarlate que prendia à túnica curta de veludo chumbo a calça de linho cor de vinho. Para estupor de Camus, o grego abaixou a vestimenta inferior, até deixar livre seu grande pênis coroado por pelos negros e brilhantes.
— Creio que com ISTO tu me entendes.
Aterrado, o ruivo fitou o rosto do capitão. Este propôs, tranquilo, manuseando o próprio sexo:
— Chupa-me e dar-te-ei uma lauta refeição, prometo-te.
Camus deu alguns passos para trás. Chegou a encostar-se na parede.
— Laurent, estás sem comer há pelo menos dois dias, imagino-o. Conhecendo Shura como o conheço, sei que pouco te ofereceu até chegardes a Marselha. Pois bem, basta que te ajoelhes e faças-me rapidamente um servicinho trivial.
Ante o horror estampado no semblante do cativo, o outro deu uma curta porém divertida risada, atirando para trás a farta cabeleira negra.
— Farei ainda melhor... – Acrescentou, manuseando lentamente o falo a fim de enrijecê-lo. – se fores habilidoso como essa tua linda boca sugere-me que és, hei de garantir que NUNCA te faltem refeições exatamente como as que são a MIM servidas. Tereis pão, carne e vinho à vontade, sempre que te aprouveres, assim como tenho-os eu.
Com desprezo gélido e mordaz, Camus disse:
— Juro por Deus Todo Poderoso, que reina sobre os Céus e a Terra, que prefiro antes servir-me de meu próprio vômito.
Primeiro, o grego quedou-se boquiaberto, estático. Em seguida, deixou romper uma risada galhofeira. E então, declarou:
— Deveras? Bem, se recusas minha proposta, é justamente o que hás de fazer...
— KANON!!!
Os dois homens na cela voltaram-se para o terceiro, que postava-se à porta aberta.
— Que pretendes, por Deus?!? Recompõe-te, safardana! Acaso estás ébrio outra vez? – Ralhou o recém-chegado, que, para surpresa de Camus, era o exato reflexo do homem que viera atormentar-lhe: a mesma altura, o mesmo rosto anguloso e expressivo, os mesmos olhos azuis esverdeados, os mesmos cabelos longos, repicados e negros como o céu noturno!
— E desde quando para se pregar uma inocente peça em um novato preciso eu embebedar-me? – Vestindo-se novamente, Kanon não parecia nem um pouco contrariado. Em verdade, mantinha o sorriso divertido.
— És incorrigível. – Bufou Saga. – Vai-te daqui. Deixa em paz esse pobre diabo.
Ainda em choque, o nobre olhava de um para o outro, sucessivas vezes. Eram simplesmente IDÊNTICOS!
— Gêmeos…? – Murmurou, confuso, a despeito da obviedade do fato.
Kanon parou defronte Saga. Entre zombeteiro e desafiador, falou:
— Não permitiste que o novato fosse “batizado” por nossos homens, no convés. E agora, interrompes uma simples brincadeirinha que pretendia substituir o “batismo” ao qual esse reles NINGUÉM tão ousadamente resistiu.
— Kanon, não me escutaste? Mandei-te que fosses daqui.
— Hunf. Certo, eu me vou. – Antes de se retirar, aproximou-se bem do irmão; colou os lábios ao ouvido do mais velho e sussurrou-lhe, perversamente: – Ouviste bem teu novo protegido? Declarou preferir comer o próprio vômito a te tocar, a te fazer feliz... teu recém-despertado anseio pode ser em vão...
E com uma sonora gargalhada, Kanon deixou a “gaiola”. A tudo acompanhou um atônito Camus. Quando finalmente ficaram apenas ele e Saga no cubículo, este questionou:
— Meu irmão tocou em ti antes que eu chegasse?
— Oh… n-não. Ele chegou pouco tempo antes que vós... de vós...
— Conforme pudeste comprovar, tenho um irmão gêmeo, Kanon. Um completo doidivanas, contudo, exímio homem do mar e das armas.
Involuntariamente aliviado, o ruivo atreveu-se a observar:
— Não vos conheço o suficiente para afirmar com propriedade, mas... a impressão que tenho é a de que sois iguais apenas na aparência.
— É a salvação da Gemini! – Assentiu o capitão, vivamente. – Fosse aquele mentecapto em meu lugar, nossos negócios já teriam afundado como barcos surpreendidos pelas mais violentas borrascas. Bem! Deixemos esta cela fétida, com o que contribuíste magistralmente...
— Não consegui chegar à latrina a tempo – Justificou-se Camus, envergonhado.
— ... virás comigo à minha cabina.
— Eu?
Abrindo os braços e olhando ao redor com um gesto cômico, Saga chasqueou:
— Há, por acaso, mais alguém aqui a quem eu possa me dirigir, além de ti? Se houver, palavra de honra que enfim conhecerei o significado da palavra “medo”!
— Mas... por que o senhor capitão haveria de querer um reles prisioneiro em vossa cabina...?
— Laurent, não és um prisioneiro. És parte da Gemini, agora. Não permito que te refiras à tua condição de modo tão lamentoso.
— Perdoai-me. – O nobre encolheu os ombros, incerto sobre o que fazer.
— Levar-me-ão o almoço, quero que me acompanhes. É meu jeito de assegurar a ti que agora és um de nós, e não mais um escravo de nobres. És um “lobo do mar”!
— Eu... – Pensou em inúmeras coisas para dizer. O estrondoso ronco de seu estômago vazio calou-o de súbito.
Saga riu, ao passo que o ruivo corou.
— Teu estômago responde por tua língua. Anda, acompanha-me. Precisas estar bem restabelecido para logo assumires tuas funções no navio.
— Sim, meu senhor. – Anuiu, por fome, sede, cansaço e, por que não dizer, lógica pura e simples. Não estava em condições de desobedecer aquele homem, estava?
Perguntava-se, porém, se um reles remador de galés receber semelhante convite do capitão era algo assim tão COMUM na Gemini.
A ele parecia incrivelmente inusitado.
Subiram pelos estreitos degraus de madeira, que rangeram de modo dramático. Acessaram um longo corredor iluminado por archotes, até pararem diante de uma porta de nogueira que se abria; surgiu diante deles o jovem Orfeu, que pareceu surpreso em vê-los.
— Meu fiel Orfeu! Vejo que já me trouxeste a refeição.
— Precisamente, senhor capitão – O rapaz fez uma curta mesura, seus olhos azuis e desconfiados pousando de imediato sobre Camus. – Já deixei vosso almoço disposto sobre a mesa.
— És um camareiro irrepreensível, nunca canso-me de dizer.
— Cumpro apenas com o meu dever, senhor, e cumpro-o com prazer. – De serena, a expressão de Orfeu tornou-se desdenhosa quando fixa no ruivo. – Percebo que tivestes a complacência de ir pessoalmente libertar o novato. Bastava que o ordenasses a mim, e eu de tão exígua tarefa ocupar-me-ia com presteza.
A despeito da seriedade com que os dois jovens se encaravam, Saga deu uma risada. Disse:
— Kanon chegou antes de mim, confesso-o.
— O quê? Acaso Kanon... – Orfeu não logrou concluir, o que atiçou a curiosidade de Camus.
— Tu o conheces, o mandrião não resiste a uma pilhéria, tanto mais contra um novato. – Respondeu, sorridente, o capitão.
— Um novato que já deu mostras de ser um tanto enfatuado...
— Hehehe, quis tripudiar do pobre rapaz aqui, que foi salvo a tempo por mim!
E Saga deu umas pancadinhas no ombro de um sempre mudo Camus. Orfeu forçou um sorriso.
— Sois realmente benevolente, meu senhor. Imagino que esse... indigente... tenha agradecido por ser merecedor de tamanha munificência... – E acrescentou, empedernido: – embora eu não compreendo por que o seja.
Os lábios de Camus não se dignaram a abrir, embora ele reconhecesse a premência, sim, de algum agradecimento ao capitão.
— Agora que estamos em alto-mar, deveremos esperar muitas outras picardias de meu querido irmão. Em terra firme há atrações amiúde para ocupá-lo: tavernas, jogos, bebedeiras, meretrizes. A partir deste momento, voltaremos a sermos NÓS seus instrumentos de lazer.
— Espero que ele preserve mais homens que da última vez em que estivemos embarcados. Se a cada incursão marítima ele INUTILIZAR tantos trabalhadores, o senhor capitão terá de desembolsar fortunas para tratar ou mesmo substituir esses desvalidos.
“Aquele homem INUTILIZA trabalhadores?”, com horror pensou Camus, um calafrio a percorrer-lhe o corpo, à medida que lembrava-se de ter estado a sós com ele... e de tê-lo enfrentado, embora julgava tratar-se de Saga. Ora, como teria feito diferente? Tinha seu orgulho. Saber, contudo, que o irmão gêmeo do capitão era notório pelo descaso para com o próximo... e pela BRUTALIDADE... não configurava um pensamento tranquilizador...
— Deixa que de meu irmão cuido eu. De mais a mais, conquanto Kanon por vezes se mostre excessivo e até mesmo cruel... reconheço que tais artifícios ajudam a manter a tripulação na linha.
As sobrancelhas de Orfeu franziram-se ante aquela afirmação. A Camus pareceu que o rapaz reprovava o discurso de seu capitão. Não obstante, Orfeu cessou de argumentar.
— Espero que tenhas trazido comida suficiente para dois. – Atirou Saga, fazendo menção de entrar em seus aposentos com o novato.
Estremecendo visivelmente, Orfeu replicou:
— Trouxe-vos a quantidade usual. Não estava a par de que teríeis um... um convidado.
— Bom, costumas servir-me com fartura, se não alteraste o hábito...
— Se quiserdes que vos traga mais alimentos, basta que toqueis a sineta e prontamente virei.
Saga assentiu e fez um gesto de dispensa. Orfeu fez uma mesura; quando se aprumou, cravou um olhar assassino em Camus. Este, por sua vez, continuou a mirá-lo como quem observa um toco de árvore. O que, claro, apenas alimentou o fogo dos ciúmes do rapaz. O capitão e o novato adentraram o camarote, a porta fechando em seguida. Injuriado, Orfeu bufou. Por que o capitão vinha dando tantas atenções àquele novato? Seria por causa da origem aristocrática do ruivo? Envenenado pela raiva, saiu dali a passos mais pesados que o comum.
No interior da cabine, Camus deparou-se com um ambiente inesperadamente requintado, que contrastava com o resto do que o que havia visto da embarcação. Pelas paredes de madeira lustrosa pendiam quadros e tapeçarias finas. Também pelo chão estendiam-se tapetes ricamente ornados, feitos de veludo carmim e com borlas de puro ouro e pedras preciosas. Candelabros dourados sustentavam velas que ardiam lânguidas, malgrado ainda fosse dia e escotilhas abertas garantissem a iluminação do aconchegante recinto. Ao pé da alcova, protegida por diáfano dossel, elegantes canapés marroquinos guarnecidos por almofadas bordadas. Não havia dúvidas de que o capitão Saga era realmente um navegador bem sucedido... e vaidoso. Por sobre a mesa de eucalipto trabalhado fumegavam iguarias que logo captaram a atenção sofrida do nariz de Camus.
— Toma assento, Laurent. Teu jejum findar-se-á agora. – Conclamou o grego, com um gesto cavalheiresco a mostrar onde o ruivo deveria se sentar.
Camus queria perguntar “por quê?”. Que lhe custaria aquele aparentemente desprendido gesto de humanidade? O privilégio de almoçar à mesa do capitão do navio no qual ele deveria servir às galés? O pobre nobre, no entanto, já sentia a boca salivar, o estômago ganir choroso: a fome maltratava-o demasiado… resolveu satisfazer ambos; seu descomunal apetite e sua crescente curiosidade. A despeito da dolorosa avidez, esforçou-se por manter suas maneiras aristocratas. Todavia, sua vontade era a de servir-se como um bárbaro...
— Serve-te sem cerimônias, presumo que estejas sem comer há pelo menos dois dias. – Falou o capitão, abrindo um garrafão de vinho.
— Confesso que mais do que isso... – Admitiu Camus, deliciando-se com um bocado de perdiz assada no mel.
— O Marquês de Aguilar é um homem austero. Imagino que estenda essa austeridade ao trato de sua criadagem. Tanto mais a um condenado como tu.
Após engolir um naco da carne, Camus ousou perguntar:
— Conheceis meu antigo senhor há muito tempo?
— Meu pai fazia negócios com os Aguilar antes mesmo de eu e o celerado de meu irmão nascermos. Conheço Shura desde que éramos crianças, embora só fomos ter contato efetivo um com o outro na vida adulta, antes de Shura ir às Cruzadas. Ele passou a representar o pai, e eu fiquei no lugar do meu, que morreu quando contávamos eu e Kanon 16 anos.
— Comandais este navio desde essa idade?
— Não como imaginas. Eu e Kanon éramos assessorados por companheiros de nosso falecido pai. Quando completamos dezenove anos, mediante uma espécie de pleito entre a tripulação, assumi permanentemente a Gemini.
Camus perguntava-se se ter sido preterido pelo irmão mais velho não havia moldado em Kanon a excentricidade com a qual já travara contato... analisando friamente, no entanto, o mais provável é que tivesse sido justamente seu duvidoso caráter o responsável pela derrota na escolha...
— Então... havia alguns anos que não víeis o senhor marquês... – Sentiu necessidade de voltar a falar de Shura.
— Sim, desde que ele foi à Terceira Cruzada. À parte de suas campanhas, sou um homem do mar, portanto, não é incomum que eu fique anos sem ver um companheiro.
— Não soubestes mais nada sobre ele desde tais eventos?
Pousando gravemente o cálice sobre a mesa, o capitão considerou seu convidado com interesse.
— Por que motivo indagas-me isso?
Com um breve suspiro, Camus deu de ombros antes de responder:
— Tende razão. Não tenho motivos para interpelar-vos acerca de um homem ao qual já não sirvo.
Com um sorriso, Saga ofereceu-lhe vinho. Camus pensou em recusá-lo, contudo, sabia que tal atitude seria uma afronta para com o seu agora superior. Aceitou-o, sob um cuidadoso exame do grego, que, em seguida, comentou:
— És uma pessoa assaz interessante, meu caro Laurent. De alguma forma misteriosa, cativas-me minuto a minuto.
Embora tal observação pudesse cobrir qualquer subordinado de lisonja, o jovem Turenne experimentou foi um inegável receio. O que queria aquele homem, afinal? Sem nada responder, sorveu a excelente bebida, certo de que o eloquente capitão prosseguiria o colóquio por si só.
— Respondendo à tua pergunta... não, não soube mais do bravo Shura, até que este enviasse uma missiva para meu escritório em Marselha, na qual pus as mãos dias atrás. Nela, partilhava a intenção de ceder tua pessoa à Gemini. Por sorte, estávamos atracados na cidade havia três semanas. Creio que disto ele tomou conhecimento... recebi seu mensageiro e respondi-lhe positivamente. E eis que aqui estás, em minha mesa.
Havia indisfarçável satisfação no tom de Saga, o que muito incomodou Camus. Bom, melhor atrair a simpatia do capitão do que sua ira, insistia-lhe o persistente instinto de sobrevivência... mas a que se devia aquela... “simpatia”?
— A comida está de teu agrado?
— Seguramente que sim, senhor capitão. Não possuo palavras o bastante para expressar-vos meu agradecimento. – Respondeu, polido.
Saga pigarreou cenicamente antes de apontar:
— Espero que a comédia proporcionada por meu irmão não te impressione demasiado. Como ouviste-me dizer a Orfeu, Kanon encontra particular gosto em tripudiar dos outros. É um prazer pessoal que, asseguro-te, faz-se, na maior parte das vezes, inofensivo.
“Inofensivo? Como ‘inutilizar trabalhadores’ pode ser considerado ‘inofensivo’?”, pensava o aristocrata, abismado com a indulgência que o capitão despendia a um comportamento tão nocivo. De modo seguro, declarou:
— Agradeço-vos a magnânima consideração, senhor capitão. Vosso irmão, ao contrário do que possa ter parecido, não me assustou. Surpreendeu-me, é verdade, indignou-me... contudo, não lhe tive medo em momento algum.
— Indignou-te... – Repetiu o capitão, em tom baixo e insatisfeito.
“Ouviste bem teu novo protegido? Declarou preferir comer o próprio vômito a te tocar, a te fazer feliz... teu recém-despertado anseio pode ser em vão...”
— Senhor capitão.
Os olhos azuis esverdeados voltaram-se para o rosto do convidado.
— Tencionei abster-me de sondar as razões para o tratamento que mui generosamente me dispensais – Camus não recorreu a qualquer afetação, conquanto mantivesse a polidez. – visto que não passo de um criado que caiu em desgraça, e que entregue foi à vossa embarcação a fim de servir às galés... confesso que intriga-me vossa deferência para com tão miserável criatura.
Nitidamente encantado com a articulação do belo jovem à sua frente, o capitão apoiou o queixo com o punho, nunca deixando de o fitar. Camus fingiu não perceber, continuando sua linha de raciocínio:
— Por mais ignóbil que seja este desditoso servo... ele não pôde deixar de perceber que tal pasmo é partilhada por alguns de vossa tripulação...
— Referes-te a Kanon e Orfeu?
— Mesmo o pequeno Isaak mencionou vosso magnânimo proceder quando fui encarcerado. Disse-me que costumais punir insubordinações, como a que cometi, com severidade...
— Não consideras o cárcere e o jejum forçado punições severas o bastante?
— Segundo Isaak, que cá se encontra há muito mais tempo do que eu... não o seriam.
Saga tamborilou os dedos cheios de anéis sobre a mesa.
— Em outras palavras, queres saber por que estou sendo gentil para contigo.
O ruivo aquiesceu, enrubescendo. Bebeu mais do vinho, para que a bebida fosse tomada como razão daquele rubor.
— Laurent. Tua fibra impressionou-me por TRÊS vezes no espaço de um dia.
Surpreso, Camus arregalou os olhos ante a resposta.
— Perdão, meu senhor...?
— Quando Shura trouxe-te ao cais, dir-se-ia que o condenado ERA ELE, NÃO TU. Sim, eu percebi, como percebo tudo ao meu redor. Sustentaste com nobre serenidade e, por que não dizer, galhardia, uma situação durante a qual os homens choram, lamentam-se, imploram ou praguejam. A mim, assemelhavas-te a um santo mártir e Shura, a um vil pecador que supliciava um santo...
Boquiaberto, Camus fez menção de falar, no que foi impedido, gestualmente, pelo capitão. Este continuou:
— Em momento oportuno, hás de revelar-me o que de fato se sucedeu entre ti e o Marquês de Aguilar, pois que, após aquela cena, me é impossível acreditar na versão acordada por VÓS DOIS.
O ruivo desviou o olhar, desejoso de sair o mais rapidamente dali.
O que era impraticável, lógico.
— Teu proceder no convés de igual maneira impressionou-me. Jamais um recém-chegado havia enfrentado meus homens com tamanha coragem.
— Não os enfrentei. Apenas recusei-me a me humilhar como queriam, sem ter eu nada lhes feito – Volveu Camus, cada vez mais desconfortável com a conversa.
— Isso FOI enfrentá-los, inocente rapaz. – Riu Saga.
Os olhos castanho avermelhados estreitaram-se.
— Elogias-me a coragem, entretanto, graças a ela fui por vós punido.
Espantado com aquele atrevido comentário, o grego deu de ombros e alegou, como que achando graça:
— Que querias tu? Estavas a subverter uma tradição centenária dos “lobos do mar”! Ainda que eu tenha admirado tua bravura, foste, com efeito, insubordinado. E todos aqui sabem que um capitão que se preze CASTIGA exemplarmente qualquer insubordinação a bordo.
Vencido por aquele argumento, o ruivo silenciou.
— Isaak não mentiu para ti. Aliviei teu castigo. O que, de forma alguma, é de meu feitio, ele o sabe...
— Foste vós que... que...
— Eu? Fui eu o quê?
— Que… bem… o olho dele…
— Não! – Saga tornou-se sério. – Foi o próprio pai, o garoto contou-me em certa ocasião.
— O próprio pai?!? – O nobre ficou chocado.
— Sim, a mesma pessoa que mo entregou. Mas... – Bebeu novos goles. – São segredos de meus homens. Se quiseres conhecê-los, terás de averiguar junto aos donos deles. Não sou nenhum alcoviteiro.
Camus fez um muxoxo. Ora, tampouco ele o era! Tornou o olhar um tanto zangado para o céu cinzento, visível através das escotilhas abertas.
— E a terceira vez que me impressionaste foi ao não te sujeitares a Kanon, mesmo em clara desvantagem. Ou melhor... a “MIM”, pois que o calhorda estava a se fazer passar por minha pessoa.
Um vívido rubor voltou às faces do jovem. Sem disfarçar a perturbação trazida por aquela lembrança, retrucou:
— Aquilo nada teve de impressionante. Que homem teria se sujeitado a tão despudoradas propostas?
— Vários já o fizeram. Vários o fazem.
Ante o olhar assombrado do ruivo, o capitão esclareceu com paciência:
— Apesar de teres conhecido as masmorras do Marquês de Aguilar, parece-me que apenas recentemente conheceste o significado da palavra “privação”, Laurent. A REAL privação. Não imaginas a que os homens se submetem na hora da fome. Da sede. Do frio. Do medo.
Dando-se conta de que haviam esvaziado os cálices, Saga reabasteceu-os.
— Ademais, inocente Laurent... relações entre homens não são raridade em embarcações. Fica-se meses em alto-mar. Acaso viste mulheres na Gemini?
Constrangido, Camus meneou negativamente a cabeça. Após beber mais uns tragos, o capitão prosseguiu:
— Não sobreviveriam quinze minutos à sanha de homens esfaimados por sexo. Seria um desperdício de tempo, dinheiro, e garantia de problemas com a Lei. Por isso não há mulheres a bordo. Logo, os homens viram-se como podem. Alguns suportam a abstinência até os portos, até a terra firme. Outros...
O receio de Camus, até então amorfo, enfim tomou forma.
— Foste particularmente indômito ao enfrentar ninguém mais, ninguém menos que o capitão do barco onde agora estás a servir. – Riu-se o moreno.
— Não era vós.
— Mas tu crias que fosse. Não crias?
Engolindo em seco, o jovem Turenne assentiu. Saga observou-o atentamente, atendo-se aos detalhes do belo e pálido rosto abaixado. Teve ganas de indagar-lhe “Terias, de fato, tanta repugnância por minha pessoa? A ponto de preferir nutrir-se de teu vômito a tocar-me?”. Todavia, conteve-se.
— Eu queria saber, Laurent, o que move tuas atitudes.
Envergando um autêntico ar de dúvida, o ruivo tornou a erguer o rosto para seu interlocutor.
— Por que te mostras tão desapegado a tudo? Por que ages como se mais nada na vida pudesse atingir-te?
— Perdoai-me, senhor Saga... temo não estar a compreender vossas palavras...
— Já vi homens que, ao aqui entrarem nas mesmas condições que as tuas, escolhem o desapego, a desesperança, a revolta, nada disso é novidade. A novidade sobre tuas ações é que tu te desfazes até mesmo dos instintos mais primais. O da SOBREVIVÊNCIA, por exemplo. ISTO é novo para mim. – Concluiu o grego, fincando em seu conviva um longo olhar analítico.
Por longos minutos ficaram se estudando mutuamente. A Camus em nada agradava aquela conversa, pois que, de sua parte, só existia uma resposta plausível. E ele não podia dá-la ao capitão. Revestindo-se de sua gélida couraça de indiferença, pôs-se corajosamente de pé.
— Vejo-me incapaz de responder ao senhor capitão, de modo que creio ser melhor agradecer por esse lauto banquete e dirigir-me ao meu posto de trabalho. – Anunciou.
— Quem te ordenou que levantasses? – Vociferou Saga, abandonando a cortesia até agora presente em suas maneiras.
Nem assim o ruivo voltou a se sentar. Ficou ali, imóvel, tão somente mirando o grego. Este decidiu pôr-se de pé também. Atirou, apressado:
— Sim, despoja-te da VIDA, o motivo não sei, mas um dia, hei de saber...
— O senhor capitão conceder-me-ia, por fim, a permissão de juntar-me aos meus companheiros de labuta? – Insistiu o nobre, inabalável.
Aquela postura sacudiu Saga com sentimentos contraditórios; sentia aumentarem em seu coração, simultaneamente, a ira e o fascínio. Tornou, zombeteiro:
— Por que a pressa? Ou devo dizer… por que o medo?
— Não se trata de um nem de outro, e sim o senso do dever, que me diz ser injusta minha demora em vossa cabine enquanto os demais, de mesma posição que a minha, trabalham arduamente neste exato instante.
— EU decido o que é justo ou injusto em MEU navio, Laurent – Disse Saga, cortante, quase agressivo.
Apesar da inquietude disseminada pela recém-adquirida conduta do capitão, o nobre manteve-se estático, o queixo levemente erguido. O moreno aproximou-se dele, uma vontade imperiosa consumindo-o cada vez mais e mais... quase estendeu as mãos para aquele jovem impávido, a fim de puxá-lo para si e tomá-lo como queria... como considerava que tinha direito. Não obstante, deixou escapar um suspiro resignado. Anunciou, de repente:
— Não irás trabalhar nas galés, Laurent.
— Como? Não?
—Não. Dar-te-ei outra função que não a de remar dia e noite em meio àqueles brutos.
— Mas... que hei, afinal, de fazer?
— Tomar-te-ei como MEU criado pessoal. Um CAMAREIRO, como possuem os nobres. Que me dizes?
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De pé, defronte à proa, cabelos médios castanho claros esvoaçantes ao vento daquela tarde cinzenta, Orfeu tinha os olhos fixos nas vagas prateadas que revolviam-se na superfície escura do mar. Dir-se-ia que seu coração refletia-se naquela nervosa ondulação, no balanço constante porém intranquilo do oceano.
— Orfeu? Que fazes aí?
O rapaz voltou-se para Kanon, parado atrás de si. Não se surpreendeu nem um pouco com aquela presença fortuita.
— Pensei que estivesses a servir meu irmão.
— Servi-o já. E fui logo em seguida dispensado. – Falou, voltando a olhar o mar.
— Que estás a fazer aí, sorumbático desse jeito, pois? Vem, acompanha-me; estamos a jogar.
— Agradeço vosso oferecimento, senhor Kanon, mas encontro-me indisposto. Prefiro ficar aqui, respirando o ar marinho para recuperar-me.
— Respirá-lo-ás de qualquer buraco em que estejas na Gemini, com mil diabos! – Riu-se o grego.
— Preciso ficar só.
— Hum. Isso é estranho, vindo de ti. És sempre tão expansivo e participativo. Que te sucede?
Orfeu olhou-o de soslaio. Não confiava em Kanon, não para dividir com ele o que quer que fosse. Os anos de assessoramento ao capitão mostraram-lhe que Kanon inspirava reservas até mesmo por parte do próprio irmão mais velho... lembrou-se do capitão dizendo que ele estivera “na gaiola” com o novato. Seria possível que também Kanon tivesse se encantado com o ruivo detestável que viera arrebatar-lhe o capitão? Ora, arrebatar-lhe, sim... não fora Saga pessoalmente libertar Laurent? Levara-o para almoçar em sua cabina! Um novato! Um reles novato!
“Nem mesmo comigo o capitão...”, pensou, tal era sua amargura que procurou rapidamente conter a progressão daquele pensamento.
— Parece-me que estás a sofrer. – Observou Kanon, docemente, reparando o semblante tenso do rapaz.
Orfeu fez menção de sair dali:
— Não é nada, com a vossa licença... eu devo...
— Que deveres demandam a presença do CAMAREIRO de meu irmão, uma vez que ele se encontra recolhido em sua cabina? E ACOMPANHADO?
Um frêmito de raiva sacudiu o corpo de Orfeu.
— Estais sempre a par do que faz o capitão Saga. Sois deveras atento, senhor Kanon. – Ironizou, dardejando-o com um olhar esquivo.
— Como seria diferente? Devo zelar pela segurança de meu querido irmão, não? – E, maldosamente, Kanon insistiu: – Não parece que ele precisa de ti no momento.
— Não. Ele NÃO precisa. Com a vossa licença!
O irmão de Saga viu o formoso e impaciente jovem afastar-se. Passou a mão pelos bastos cabelos negros, revoltos pelo vento, enquanto um sorriso escarninho se desenhava nos bem moldados lábios. Murmurou, prazenteiro:
— Sim, meu voluntarioso Laurent, és a peça que me faltava, afinal... a peça que me faltava!...
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Receoso por desconfianças que assolavam-lhe a aguda percepção, Camus umedeceu os lábios, um ato involuntário que fez cintilar os olhos cobiçosos de Saga.
— Tive a impressão de que o senhor capitão já possuía um camareiro a seu serviço... – E, ante a expressão interrogativa do grego, completou: – o senhor Orfeu...
— Orfeu? – Repetiu, erguendo as negras sobrancelhas. Riu, com bonomia. – De fato, ele tem servido-me como criado pessoal, quase um secretário, eu diria... além de entreter-me com a harpa e a cítara, que tão bem toca.
— Desejais que eu o auxilie, então?
— Ei, não sou um marquês ou um conde, não posso dispor de dois camareiros! – Volveu, bem-humorado. – Não quando há tanta demanda de serviço em uma embarcação como esta. Orfeu voltará ao seu ofício de origem, que era na cozinha do navio.
A lembrança do olhar escabreado de Orfeu em sua direção não consistia bom augúrio para aquela proposta. Com todo cuidado de que poderia dispor, o nobre alegou:
— Acaso terá o senhor Orfeu caído em alguma falta grave que justifique sua substituição por um miserável recém-chegado como eu?
— Orfeu? Qual! Homem mais leal e prestativo não há neste barco! Sempre desempenhou com soberba maestria seus deveres! Confio mais nele do que em minha sombra.
Cada vez o ruivo sentia mais confuso... e acuado.
— Destarte... sinto-me incapaz de atinar por que tencionais substituir tão competente empregado por este decaído com tão... depreciativas recomendações. – Insistiu, timidamente.
— Não compreendes? – Murmurou Saga, encarando-o de um jeito despudorado que causou novo rubor ao seu interlocutor. – Creio que já expus minhas razões a ti: simpatizei-me com tua pessoa. Desde o início. Desde que Shura te entregou a MIM...
Camus engoliu em seco. Parecia difícil de acreditar que enveredava por um novo problema... mas a expressão hostil de Orfeu e, agora, a lúbrica do homem à sua frente diziam-no claramente!...
— Capitão Saga...
— Não foste feito para ficar em meio àqueles brutos, já o falei. Creio que tampouco aguentarias remar por dez minutos que fossem. Tens compleição pouco adequada para o trabalho, vê-se. És culto, delicado, educado como um nobre, agrado-me de tuas maneiras e de teu temperamento. Quero-te ao MEU LADO. – Despejou o capitão, que tentou não parecer tão afoito com a decisão... no que fracassou.
Sim, queria-o ao seu lado. Sob sua proteção. E, quem sabe... sob seu corpo... forçoso era admitir, aquele novato o conquistara desde o instante em que aparecera, amarrado, contido por cordas e coberto por imundos andrajos, no Porto de Marselha.
— É com inaudita lisonja que recebo tão honroso oferecimento... sou, todavia, obrigado a RECUSÁ-LO.
A luz no olhar de Saga apagou-se, ao mesmo tempo em que apagou-se de sua face seu luminoso sorriso.
— Não tenciono envolver-me em contendas com vossos subordinados, meu senhor...
— Tens OBRIGAÇÃO de aceitar minha proposta, Laurent. – Interrompeu o capitão, ríspido.
Camus não se deixou intimidar:
— Peço-vos a graça de conceder-me a permissão de concluir, meu senhor: outrossim, não seria propício que eu me furtasse a cumprir a punição que me foi imposta pelo Marquês de Aguilar.
— Não és mais serviçal de Shura! Agora pertences A MIM! – Bradou o grego.
— Eu creio que destes vossa palavra de homem... e de capitão... ao Marquês de Aguilar.
O autocontrole do ruivo contrastava-se com a cólera mal contida de Saga, patente no rosto pálido deste. Saga bufou, seus olhos faiscantes cravados nos estáticos de Camus. Ao cabo de tensos segundos, ele deu um suspirou, no afã de se recompor. Caminhou até a porta de madeira clara e a abriu. Um gesto pouco paciente sinalizou ao ruivo que se retirasse.
— Que assim seja. Saibas, porém, que minha oferta continuará válida, caso mudes de ideia. – Assegurou, mais calmo.
Tranquilamente, Camus tornou:
— Mais uma vez, agradeço-vos o gentil oferecimento, de todo coração. Dirigir-me-ei agora mesmo às galés.
E foi com o coração acelerado que dirigiu-se até a porta. Antes que atravessasse o umbral, sentiu o braço ser agarrado com força pelo grego. Sufocou uma exclamação de susto comprimindo os lábios. Em seu ouvido o hálito quente do capitão precedeu a repetida proposição:
— Lembra-te: a qualquer momento que quiseres desistir das galés... aceitar-te-ei como meu criado pessoal. Terás segurança, acomodações dignas, boas vestes, mesa farta... e minha incondicional amizade.
Por muito que o disfarçasse, para si mesmo o nobre já não negava seu frio temor. Não tentou se desvencilhar, o que seria arriscado, mas não deu mostras de ceder. Evitou encarar o capitão, limitando-se a esperar que enfim fosse solto por este. E assim que o foi, apressou-se em seguir pelo corredor, rumo ao convés, em meio a dois suspiros de alívio.
Sim, alívio por dirigir-se às galés! Por mais aviltante que fosse seu destino, seria mais digno que o de servir de forma tão intimista a um homem que claramente estivera flertando consigo! Estremeceu ante o perigo do qual acabara de se desembaraçar. Logo, porém, recobrou a paz de espírito que, mesmo em momentos dramáticos como aquele por que passara, reinava em seu âmago.
Afinal de contas, era herança de seu amor por Milo.
Uma vez que preferiria morrer a macular esse amor, que teria ele a temer, ele, que sequer temia a morte?
“Milo está a salvo; isso é tudo que me importa”, pensava, subindo os degraus da escada que conduzia à área externa. Vislumbrou alguns dos homens retornando aos seus lugares nas galés, outros, sem parar de efetuar os mecânicos movimentos que permitiam o avanço da Gemini pelo mar.
— Laurent! – Chamou-lhe uma voz já conhecida.
— Isaak! – Exclamou, indo juntar-se ao rapazinho, que segurava um dos remos.
— Como estás, Laurent? Fizeste tua refeição, enfim? Fiquei preocupado contigo.
— Agradeço tua preocupação. Alimentei-me, sim. Estou ótimo e pronto para juntar-me a ti.
— Senta-te ao meu lado, pois – Conclamou o adolescente, animado.
Os demais remadores olharam o recém-chegado com indisfarçável interesse: alguns dirigiam-lhe expressões fechadas, ameaçadoras até; outros, sorrisos e acenos conciliadores. Tentando mostrar respeito aos seus “veteranos”, fossem-lhe simpáticos ou não, o nobre fez uma breve mesura.
Nesse meio tempo, Jamian deu uns saltos pelo convés até chegar a Dohko, que se preparava para voltar ao seu posto após o almoço.
— Dohko – Chamou-o. Só revelou de que se tratava fora do alcance dos ouvidos dos outros trabalhadores. – O capitão exige tua presença em seu camarote.
O chinês contraiu as sobrancelhas. Estava indo retomar a liderança das galés dianteiras, e o capitão sabia disso. Normalmente, Saga iria até o convés ter com seus capatazes, caso tivesse algo a tratar com eles, estando estes em horário de trabalho. O usual, um capitão a circular por seu navio... o que haveria de ser?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Certo, fica em meu lugar até que eu volte. – Pediu, entregando a Jamian um chicote enrolado que trazia consigo. Dirigiu-se à escada, tentando adivinhar o que lhe esperava.
Ao chegar aos aposentos do capitão, não pôde deixar de reparar no semblante pouco amistoso de seu superior.
— Capitão Saga. Eis-me aqui. Em que vos posso ser útil, meu senhor?
— Dohko. Viste se o novato já engrossou tua fileira de remadores? – Inquiriu o grego, sem delongas.
— O... o novato? Qual deles, meu senhor...?
— Laurent.
— Sim, ele acabou de ocupar um dos bancos na ala esquerda...
— Tenho uma ordem para ti. – Anunciou, em voz baixa, controlada. – Mais que uma ordem, uma MISSÃO.
Dohko assentiu, intrigado com a gravidade de seu chefe.
— No que consistiria tal missão, meu senhor? Revelai-ma e ela será cumprida, tão certo como o sol se ergue nos confins do oceano. – Assegurou, servilmente.
Saga mirou-o com uma firmeza que fê-lo estremecer. Respondeu:
— Quero que tornes o trabalho de Laurent nas galés particularmente... INSUPORTÁVEL.
— Perdão...? – O chinês não entendeu de primeira. Por isso, o capitão fez-se mais claro:
— Farás com que Laurent queira mais que a própria vida DEIXAR as galés.
— M-mas... capitão... não é óbvio que TODO homem adoraria deixar as galés?
— Aquele novato NÃO É NADA ÓBVIO, Dohko.
— Sendo assim... minha “missão”...?
Os olhos azuis esverdeados estreitaram-se de forma tão perversa que Dohko teve a impressão de que era Kanon à sua frente e não Saga.
— Não o mates nem o incapacites. Tampouco marques-lhe o rosto. Afora essas ressalvas, tens minha permissão para fazer com que cada segundo de Laurent nas galés seja um INFERNO.
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