Dame Jolie

9 Injustiça


Notas iniciais
Helloooo Vamos a mais um capítulo de "Dame Jolie"? Gostaria de agradecer pelos votos de melhoras recebidos, vocês fazem minha vida melhor, podem acreditar. Muito obrigada também pelo apoio que vêm dando a esta fic, seja lendo, favoritando, mas, principalmente, comentando, que, como digo, é sempre um combustível para o prosseguimento da história :) Enfim fiz uma capa!!! Nada que chegue aos pés da diva Washu M, maaaas, eu precisava ilustrar essa situação... TENSA. Pra variar, as cores sucks, eu vou fazer um curso de pintura digital, ah se vou... *promessa de político, hein...* Link para o tema do capítulo nas notas finais, bem como algumas explicações (poucas desta vez, aleluia, rsrsrs) Boa leitura!!!

Disfarçando com a habitual máscara de frieza a apreensão que revolvia-se dentro de si, Camus fechou a porta do casebre emprestado pelo líder comunitário Eugene, para que ele e o pai conversassem.

Acerca de uma “denúncia” feita por Hilda.

Denúncia essa que soou tão grave aos ouvidos do duque de Borgonha a ponto de ele dispensar a filha que pretendia punir por atos indecorosos... e concentrasse sua sanha punitiva no filho mais velho.

Eles se encararam brevemente, incomodados como jamais estiveram, um diante do outro.

— Camus. Imagino que saibas por que motivo chamei-te até aqui.

O jovem engoliu em seco. Respondeu, constrangido:

—Sim, meu pai. Imagino que seja por algo que Hilda vos contou.

— “Algo”? Poderias ser mais específico?

Sem saber o que dizer, o rapaz manteve-se em silêncio. Teobald II sondou-o, um desagradável teste para Camus.

— Sabes o que Hilda me contou, vejo-o. E então? Exijo saber: ela incorreu em alguma inverdade? Mentiu? Lançou falso testemunho contra ti?

Os questionamentos vieram em um crescente assustador, que selaram ainda mais os lábios do pobre jovem. Continuou tão somente a mirar o pai. Este declarou, por fim:

—Não vais falar nada? Pois saibas que esse teu mutismo apenas comprova o que tua irmã revelou-me.

As narinas pálidas do ruivo dilataram-se. Malgrado a expressão pretensamente calma, notava-se a tensão em todo seu ser. Não podendo suportar o peso do olhar severo do pai, abaixou a cabeça, como que pego em falta.

— Não pensei que chegaria o dia em que MENTIRIAS para mim, Camus.

Ele deixou entreabrir os lábios ao puxar o ar; ergueu o rosto aflito para o pai.

— Eu, que te julgava incapaz de proferir mentiras...

— Eu NUNCA menti para vós, senhor meu pai – retrucou, timidamente.

— Oh, deveras? Pois não me disseste que não te ardias por mulheres, mas que também não o fazias por homens?!?

— Isso... isso não era mentira...

— NÃO? Não te interessas por homens? – vociferou o duque, fazendo o filho tremer – Então por que motivo BEIJASTE Milo d’Auvergne?!?

— Não menti – insistiu o ruivo, angustiado – Eu realmente NÃO me interesso por homens, tampouco por mulheres! O que ocorreu com o senhor Milo foi algo diferente...

— Conta-me, portanto, sem mais delongas, pois que, de acordo com minha concepção, Milo É um homem, e tu confessas tê-lo beijado.

Pouco a pouco, o duque abandonava a insatisfação pura e simples e cedia à cólera. Pela primeira vez, Camus teve MEDO do pai. Respirou fundo antes de tentar proceder à explicação:

—O caso não se deu conforme vós estais a interpretar. Tudo não passou de um estratagema para despistar Hilda, que nos espionava no bosque, durante o passeio que fazíamos a mando do senhor conde d’Auvergne.

— Se bem me lembro, ele sugeriu o POMAR e o JARDIM do castelo, não recantos afastados; tu já começaste a errar nesse ponto.

Aquela reprimenda fez Camus se calar novamente. Encontrava-se nervoso demais para prosseguir. Teobald II cruzou os braços robustos e inquiriu, autoritário:

—Não mandei que te calasses. CONTINUA, Camus. Qual era a necessidade de confundir Hilda?

— Ela... ela viu uma determinada situação... e... caso a contasse por aí, poderia ser de grande problema para Milo... e para mim também... para o casamento, em suma...

— Ah, sim? E por quê? O que estava a acontecer para que se servissem de tão leviana ação? Que situação era essa?

O rapaz não conseguiu responder. Algo dentro de si refreava o impulso de contar a verdade: que terminaram por “simular” aquele beijo por causa da atitude intempestiva de Milo, que empurrou-o com violência contra uma árvore, mera reação ao que lhe atirara à cara...

Milo NÃO iria agredi-lo, de verdade!

... ou iria?

Lembrou-se da revolta de Afrodite, quando lhe contou o ocorrido:

“- Ele TENTOU TE AGREDIR?

— Sim. Bem, não sei se o faria, realmente. Em um momento de fúria, empurrou-me contra uma árvore e...

— Tu “não sabes se ele o faria realmente”?”

— Não vais me dizer qual era a tal “situação”, Camus? – insistiu o nobre.

O ruivo mordeu o lábio inferior. Silenciou-se mais uma vez, incapaz de revelar o que de fato ocorrera.

Teobald II observou-o longamente. Em um tom carregado de desprezo, declarou:

— Não esforcei-me tanto em proteger tua vida para que tu te tornasses um pederasta.

Aquilo foi como uma estocada no peito já machucado de Camus. Sim... a dor chegou a ser física! Com o mesmo acento decepcionado, seu pai continuou:

—Eu acreditei piamente que fosses como os padres fiéis e santos. Que fosses um ser elevado. Seria uma compensação de Deus para o sacrifício que EU fiz, ao abrir mão de um filho varão perante o mundo! Acreditei que poderias viver em comunhão com Milo, como se dele fosse um irmão. Enganei-me: tu te serviste, na primeira oportunidade, para entregar-te a tão vil proceder!...

As pernas do jovem tremeram, e ele temeu não se sustentar. Súbito, algo passou a queimar dentro dele. Primeiro, um crepitar... e em seguida, começou a emergir... subindo como o magma que se levanta do seio da terra...

— Achas que tudo que fiz para proteger-te dos inimigos de nosso clã foi para que te tornasses um sodomita, Camus? É isso? Achas que foi por isso?

…o magma convertendo-se em lava…

— RESPONDE-ME, Camus! Por que traíste a minha confiança e te entregaste em prostituição a um homem?!?

... a lava afluindo pela boca do vulcão...

— Vais falar ou não? – gritou o duque, exasperado.

— Vós me criastes como MULHER. O que vos espanta TANTO?

Teobald ficou assombrado: aquele murmúrio lhe fora mais assustador que um brado.

— Sabes por que assim o fiz... não foi... NÃO FOI para que tornasses UMA!

— Não? – sorriu Camus, amargo – Então O QUE SOU, senhor meu pai? No que VÓS me tornastes, então? Pois minhas irmãs creem que sou Camille. Minhas tias creem que sou Camille. O MUNDO crê que sou Camille. Camus só existe naquela lápide, ao lado do túmulo de minha mãe.

— Camus – balbuciou o nobre, agora atônito. O filho NUNCA lhe falara daquela forma!

Saindo da defensiva, agora o ruivo assumira uma postura altiva, de enfrentamento até:

— Não menti para vós. Embora tenhais tornado MINHA vida uma mentira, eu NUNCA menti para vós.

— CAMUS! Como te atreves a te dirigir a mim dessa maneira? Tudo que fiz por ti foi para te preservar do inimigo que espreitava... foi para TE SALVAR! Foi por amor!!!

— Pois eu ODEIO vosso amor e preferia ter morrido a viver como a aberração que sou... como a aberração que VÓS criastes – disparou Camus, cortante, o olhar não mais submisso, e sim repleto de autoridade.

Os olhos azuis do duque ficaram vidrados. Boquiaberto, ele contemplou o filho, em total assombro. E então, em um violento ímpeto, esbofeteou o filho com força desmedida. Camus quase perdeu o equilíbrio com o impacto que explodiu em seu delicado rosto. Aprumou-se em seguida, e continuou a fitar o pai... DESAFIADOR.

— Não posso acreditar que tenhas dito isso!!! – bufou o nobre, indignado.

Um grosso filete de sangue escorreu por entre os finos lábios que continuavam comprimidos. Os olhos escarlates já não refletiam qualquer temor.

— Não imaginas como foi para mim, através de todos estes anos, ver meu único varão convertido em uma dama perante todos... como padeci! Tentei à minha maneira preservar em ti o gérmen de um HOMEM... queres dizer que FALHEI? Que és mesmo um maldito pederasta?!?

— De fato, sou maldito – replicou o ruivo, em voz baixa e calma – VÓS me fizestes sê-lo... oxalá estivesse EU debaixo da terra, e não Camille, a quem roubei a vida... para não tê-la, no final das contas...

Um novo tapa, ainda mais forte que o primeiro, abateu-se sobre a face do jovem. Mesmo assim, ele não mudou sua posição aprumada. Vendo aquilo, o sangue nas veias do duque ferveu a ponto de enrubescê-lo até as orelhas. Ergueu a mão para desferir novo golpe contra o filho, quando a porta abriu-se de supetão; Milo surgiu, imediatamente interpondo-se entre Teobald II e Camus. Posicionou-se na frente do ruivo, um braço erguido a protegê-lo; na outra mão trazia a espada, sem contudo apontá-la para o duque. Camus, muito surpreso, não conseguiu articular uma exclamação que fosse. Seu pai, igualmente surpreso, rosnou:

—MILO! O que ocorre aqui nada tem a ver contigo. Ordeno que te retires!

— Não é verdade; o que ocorre aqui TEM SIM a ver comigo.

— Como te atreves, rapaz? Eu… eu deveria…

— Não me importa que deveríeis fazer, não permitirei que continueis a agredir Camus – sentenciou, gravemente, tal qual uma muralha entre os dois Turenne.

— Mi... Milo – o ruivo balbuciou, enfim, quase em choque.

O cavaleiro não se moveu um centímetro sequer da posição protetora em que se encontrava, seu olhar justiceiro fixo no velho nobre. Teobald II chegou mesmo a sentir-se intimidado por aquela autêntica personificação de Ares (1) à sua frente.

O conde de Auvergne adentrou o humilde lugar, fechando a porta cuidadosamente.

— Henri... – falou o duque, aturdido – Eu mandei que os guardas não deixassem ninguém se aproximar desta casa...

— Achas mesmo que teus guardas poderiam conter Milo? – indagou o conde, não sem uma ponta de orgulho.

— Oras... então eles... eles...

— Acalmai-vos, meu senhor. Foram apenas desarmados. Não estão feridos – Milo esclareceu, tranquilamente, guardando a espada na bainha.

Os quatro mantiveram-se em momentâneo silêncio. Percebendo o duque enfim desarmado na alma, Milo virou-se para Camus e, tomando-o pelo braço, ordenou:

— Vem comigo.

Sem ação, o ruivo deixou-se conduzir pelo noivo para o cômodo ao lado; a portinhola que separava os dois ambientes fechou-se. Teobald II não tivera coragem de ver o filho ser levado. A consciência do que fizera parecia vir aos poucos, de forma que agora estava realmente abalado.

— Teobald – disse Henri, com cautela – tu te excedeste, meu amigo. Camus não merecia tal tratamento.

— Eu sei... – a voz tremida denunciava-lhe o remorso – Por Deus... perdi a cabeça, Henri... perdi a cabeça! Oh, Deus... Camus...!

E ao vê-lo fazer menção de ir ao encontro do filho, o conde o conteve, balançando a cabeça:

— Deixa. Milo está cuidando dele. E a propósito... será assim, daqui em diante.

Aquela frase soou ambígua aos ouvidos de Teobald II. Tomando coragem, arguiu:

—Henri. Tu viste a atitude… a postura de teu filho a defender Camus…

— Vi sim.

Considerou o amigo, a desconfiança ascendendo à certeza.

Uma incômoda certeza.

— Não te importarias que Milo fosse... que Milo fosse...

— Eu só me importo com a felicidade de Milo, Teobald.

— Mas, Henri... mesmo que ele seja... que ele e Camus sejam...

— Se repetes a pergunta, devo repetir a resposta – sorriu Auvergne – só importa-me a felicidade de meu filho.

Pôs-se a caminhar pelo cômodo, mãos para trás, pensativo. Voltou-se para o amigo, a quem percebera presa de intenso conflito interior:

— Se ele, ao contrário de mim, puder trilhar o caminho que de fato escolheu... o caminho que NÓS não trilhamos... – olhou para Teobald, melancólico.

— Sabes que EU não tinha escolha. Estava prometido a Maude desde os oito anos de idade. Como poderia...

— Eu sei – riu o conde – Isso não vem mais ao caso. E... o importante é que tu a amaste. Isso me deixa satisfeito. Ou, pelo menos, consolado.

Teobald encarou o amigo, em um silêncio repleto de significados. Passou a mão pelo rosto congestionado, lembrando-se do que mais importava naquele momento.

Camus.

Sentou-se em um rústico banco de madeira, perto de um baú desgastado. Perguntou:

—Achas que ao concordar com este casamento entregamos nossos filhos à perdição?

— Tu achas que tínhamos opção? É da ordem do rei de França que estamos falando. E... o que consideras “perdição”, Teobald?

O duque evocou a imagem de Milo a proteger Camus, o olhar ardentemente destemido de quem defende um despojo, uma posse... um tesouro.

— Que... se tornem... tu sabes... Henri. Eu NUNCA quis que Camus se tornasse um pederasta.

— Mas o quis vivo. Não é o mais importante?

— Henri! Pareces sossegado com a possibilidade de ser também teu filho um... um...

Com um sorriso condescendente no rosto, o conde elucidou, com a paciência de quem se dirige a uma criança:

— Teobald. Há muitos tipos de amor pelo mundo. O que não significa que um seja inferior ao outro. Ou mais indigno. O amor é uma força primordial da qual se ramificam tantas formas de amar quanto estrelas no céu. Pensa que, malgrado os tamanhos díspares entre elas, todas formam uma mesma teia celeste... pertencendo ao mesmo universo.

— Não entendo que dizes. Falas bonito para te referir a algo condenado por Deus...

— Condenado por Deus? Ora, se não foi Deus quem criou todas as coisas? Ele CRIOU o amor... como condenaria alguma forma dele?

— Mas… as Escrituras…

— ...escritas por homens... um acolchoado de outras “Escrituras”, de povos bem mais vetustos do que os que a compilaram...

— Assustas-me! Vejo-te blasfemo, de volta dessas terras orientais... a cada vez que retornas, vens mais e mais contaminado por filosofias e pensamentos excêntricos!...

Henri sorriu, rejuvenescendo incrivelmente ao fazê-lo.

— A cultura deles está a um nível diferente da nossa. Não faz mal absorver o que é mais natural e pertinente à natureza do homem. Se soubesses como são suas cidades... suas civilizações... o que sabem de nosso mundo... (2)

O duque, por sua vez, impacientou-se:

—Não importa o que digas . Deus certamente não se agradará caso nossos filhos tornem-se AMANTES!

— Preferias que Camus fosse entregue a alguém que o execrasse? Que não o protegesse, como Milo ACABOU DE FAZER? Deveras?

Uma exclamação sufocou-se na garganta de Teobald. O conde, sereno, prosseguiu:

—Se o que estás a imaginar acontecer… será tão somente a vontade do Criador. Nada acontece sem que Ele o queira. Se Camus e Milo efetivamente desenvolverem um pelo outro sentimentos os quais tu tanto temes, será apenas a manifestação da Vontade Soberana que move o universo. Não vês, Teobald? Como Deus condenaria algo que foi da vontade Dele?

O outro sacudiu a cabeça, nitidamente cansado.

— Estou confuso, Henri – confessou – talvez até com medo.

— Mas não estás sozinho. Não se o quiseres.

Os velhos amigos se entreolharam, imersos em uma cumplicidade partilhada há décadas.

Enquanto assim se desenrolava o diálogo entre os dois nobres, seus filhos, no outro cômodo da choupana do aldeão, estudavam-se mutuamente. Auxiliado pelas candeias que iluminavam o lugar, Milo, ainda segurando Camus pelo braço, analisava-lhe o ferimento. O sangue vertia sem trégua da boca do rapaz, sem que ele contudo demonstrasse o menor desconforto.

— Tsc – o loiro estalou a língua, revoltado – como pôde... com mil diabos...

Olhou em torno: havia ferramentas de campo, baldes de madeira, lenha, gaiolas com algumas aves, e muitos utensílios, os quais ele não perderia tempo identificando. Por fim, viu uma cisterna e foi até ela; destapou a caixa, retirou de um de seus bolsos um lenço e o umedeceu na água gelada. Foi até Camus, que continuava imóvel, encostado a uma viga de madeira.

Surpreendentemente para o ruivo, o cavaleiro pôs-se a limpar com extrema delicadeza o sangue que escorria; cuidadosamente, Milo passou o lenço molhado no local atingido pelo furor punitivo do duque. Virou o lado do pano para continuar a assepsia do ferimento. A algidez da água aliviava sobremaneira a dor que o ruivo fingia não sentir. Durante esse processo, não puderam evitar de se olhar, o loiro por vezes perdendo-se de uma forma que não gostaria naqueles finos lábios entreabertos... de repente, deles saiu a pergunta:

— Por que estais a me ajudar? Vós me odiais.

O filho do conde considerou-o, pensativo; ele REALMENTE odiava Camus?

Ainda assim, respondeu:

— Odeio ainda mais a injustiça.

— Injustiça? Chamais “injustiça” a correção de um pai à falta de um filho?

Milo afastou-se um pouco para encará-lo, estupefato.

— “Correção”? Achas que mereceste o que teu pai te fez? – questionou, um tanto indignado.

— Eu faltei-lhe com o respeito. Nada mais natural – Camus mantinha uma tranquilidade espantosa ao proferir tais palavras. Milo balançou a cabeça, em uma negativa obstinada, e inquiriu:

— Como podes dizer isso? Como podes manter-te tão submisso aos desígnios de quem manipulou tua vida dessa maneira?

— Proíbo-vos de falar assim de meu pai! – contestou o ruivo, subitamente enérgico – Podeis vilipendiar-me como bem vos aprouver, mas não permitirei que o façais com meu pai!

Surpreso com aquela reação, o cavaleiro afastou-se dele. Devolveu, irritado:

—Há minutos, finalmente havias te libertado das amarras que impediam-te de dizer o que de fato vai em teu coração. E agora, te recolhes novamente a essa condição conformada?

— Foi um rompante irracional…

— Foi o que querias dizer EM ANOS e nunca conseguiste!

Cravando nele um olhar desdenhoso, Camus indagou:

— Parece-me que acreditais conhecer bastante acerca desta “aberração”, senhor Milo d’Auvergne. Receio, entretanto, que não seja esta a realidade.

Sentindo-se mal por ouvir o noivo usar o termo “aberração”, de que tantas vezes se servira para se referir a ele, o loiro abrandou a voz:

— Por Deus Nosso Senhor... és mesmo um mal agradecido – e atirou longe o lenço ensanguentado.

— Por quê? Porque recuso vossa repentina piedade? – o ruivo esboçou um sorriso irônico.

— Piedade? Não confundas humanidade e senso do dever com “piedade”!

— Detém-vos de confundir-me VÓS, com vosso discurso pretensamente indulgente! – Camus elevou a voz, cedendo à ira.

— Juro-te... deveria ter deixado teu pai te esmurrar até a MORTE! Ficaria livre de ti, pela graça dos céus! – gritou Milo, fora de si.

Dando dois passos para trás, Camus mirou-o com olhos que assemelhavam-se a labaredas. Ruborizado, respirava rapidamente. Em um gesto inesperado, virou-se na direção da porta daquele recinto. Abriu-a e, sem qualquer aviso, saiu em disparada, rumo à mata que guardava a parte de trás do casebre. Surpreendido por aquela escapada, Milo parou no batente da porta e ainda gritou:

— ESPERA! Aonde vais?!

Não obstante, o outro apenas correu dali, deixando o noivo sem resposta.

Desconcertado, Milo hesitou.

— Merda – praguejou, por fim pondo-se a correr atrás do filho do duque.

A lua ia alta, iluminando o caminho pelo qual Camus, segurando as saias, corria desenfreadamente. Só queria escapar, fugir... SUMIR.

Enveredou por entre as árvores do bosque, ofegando pelo esforço empreendido. No entanto, se ele conhecia a região e possuía certo preparo físico graças aos treinamentos com o pai, era um guerreiro Cruzado que o seguia em perseguição... além do fato de o vestido atrapalhá-lo.

Milo apenas calculava o melhor momento para pôr fim àquela fuga frenética; aumentou a velocidade tão logo alcançaram uma trilha mais limpa de obstáculos e atirou-se na direção do jovem que perseguia. Lançou-se com tudo sobre Camus, que caiu juntamente com o loiro, agora agarrado nele. Rolaram alguns metros pelo chão, terminando por Milo conseguir conter o rapaz que se debatia incansavelmente.

— Detém-te! Que pensas que estás a fazer? – vociferou o cavaleiro, segurando o ruivo firmemente pelos pulsos.

— SOLTAI-ME! Soltai-me, ordeno-vos!!!

— Somente se me prometeres não sair em disparada novamente como um gamo selvagem! – rebateu Milo, sacudindo-o com vigor. Prendia o mais novo com seu próprio corpo, ambos caídos na relva úmida e fria. Camus, bufando, ainda buscou resistir à captura. Gradativamente, porém, a exaustão e a admissão da derrota foram vencendo-o. Sem ousar mirar o homem que o dominava, murmurou:

— Eu prometo.

— Ótimo.

O filho do conde ergueu-se e puxou o ruivo consigo, auxiliando-o a ficar de pé. Não sabia se por precaução, ou porque realmente queria fazê-lo, continuou segurando Camus pelos braços, que seguia evitando contato visual.

Aproveitando-se daquilo, Milo estudou-lhe o rosto: os olhos apenas foram descobertos úmidos pelo reflexo do luar. Havia terra e musgo na pele alva, nos finos trajes, nos cabelos vermelhos. Uma expressão tenaz, ferida, que comoveu o loiro... tanto quanto aquela beleza que se fazia quase irreal.

Algo estremeceu dentro de si. Teria sido o esforço empregado na perseguição? Ora, ele, que havia irrompido tantas vezes por campos de guerra, por pradarias inóspitas, envergando sua portentosa armadura... corrido por insignes extensões semeadas com o sangue de miríades de guerreiros... cansar-se-ia com AQUILO?

Mas... era cansaço?

Se não... como explicar aquela palpitação que quase o sufocava? O calor que subia-lhe das profundezas de seu ser? Sem perceber, não conseguia desviar os olhos cerúleos do ruivo subjugado, a quem continha com certa rispidez. Este nada enunciava; parecia concentrado em restabelecer o ritmo normal de sua respiração, e, simultaneamente, não sucumbir ao pranto.

Milo reparou no sangue que voltara a fluir dos lábios de Camus. Sua face estava bem magoada. Inconscientemente, levou uma das mãos até o rosto do ruivo. Ao sentir aquele toque suave, Camus teve um leve sobressalto. Olhou para o mais alto.

— Vê o que fizeste... abriste outra vez o ferimento que eu estive a tratar... – a voz de Milo saiu estranhamente baixa... aveludada... Camus estremeceu, sem contudo evitar contato visual como estivera a fazer antes. Ao invés disto, permitiu-se mergulhar de vez no azul celestial das íris de seu noivo.

— Soltai-me – pediu, sem força alguma, nem no apelo que fazia, nem no corpo – não quero vossa piedade!

— De novo afirmas isso. O que queres então de mim, Camus? O QUÊ?

O ruivo não podia responder.

Não podia!

Então não respondeu.

Foi quando viu Milo inclinar-se para ele... e sentiu o canto dos lábios feridos sendo tocados, de leve, pelos lábios do loiro. O cavaleiro tomava para si um pouco daquele sangue, que, sabia-o, havia sido vertido também por sua causa... Camus sequer pôde fechar os olhos, tão enleado se encontrava. Todo seu interior ferveu, e quando sentiu o toque da língua de Milo, desejou ser por ele segurado como antes, pois não estava certo de conseguir manter-se de pé por muito tempo. Uma discreta aspiração no canto de sua boca, e em seguida, beijos sequenciados fizeram-no, enfim, cerrar as pálpebras em absoluto êxtase. Provados os lábios do ruivo, o loiro empreendeu uma cálida invasão daqueles domínios, que finalmente abrigaram-no com ânsia incontida. Milo não mais estava em si, ou pelo menos, ACHAVA que não estava. Amparava ternamente o rosto do menor com uma mão, e com a outra ainda agarrava-o pelo braço. Foi um beijo terno, doce, lento... que aos poucos tornava-se mais quente, profundo, urgente...

Próximo deles, o córrego refletia o argênteo luar que os banhava, em meio à névoa que se derramava por sobre o bosque. No firmamento, estrelas cintilavam, e imitavam-na uns poucos vaga-lumes que se aventuravam a brincar por entre a vegetação, e próximo aos dois jovens que experimentavam um arrebatamento único... ambos desejando, secretamente, que aquele momento nunca se findasse.

Entretanto, a consciência do que fazia se abateu sobre o cavaleiro, tão fulminante quanto um raio; desprendeu-se do ruivo, genuíno pavor nos olhos turquesas. Camus ainda demorou a abrir os olhos, e quando o fez, fitou, entre confuso e inebriado, o noivo à sua frente.

— P-por Deus! Perdoa-me... e-eu não... eu não sei... não sei por que fiz isso... perdoa-me – constrangia-se Milo, soltando o rapaz, que apenas mirou-o, perdido.

O loiro encontrava-se em franca confusão; despertava de um delírio, por certo! Tocou os próprios lábios, verificando com estupor o sangue em seus dedos.

“O que eu fiz?!? E por quê?”, GRITAVA em pensamento. Balançou a cabeça, sacudindo os cachos dourados, atormentado.

— Eu... e-eu não sei por que fiz isso – repetiu, em grande aflição – Camus. Perdoa-me. Talvez... talvez tenha sido o vinho... sim... o vinho...

O ruivo comprimiu os lábios, seu semblante toldando mais uma vez. Deu um passo para trás... outro... e outro. Milo logo soube o que ele faria.

— Camus – balbuciou, temeroso.

Em vão.

O filho do duque girou sobre os calcanhares e, tal qual um ente da floresta que escapa após ser flagrado por um mortal, mergulhou nas brumas, novamente em fuga... desta vez, rumo ao castelo.

Milo ainda ergueu a mão e abriu a boca em um apelo mudo. No entanto, tudo que levaria dali em diante seria a visão dos revoltos cabelos rubros, brilhantes sob a luz da lua, desaparecendo na escuridão.

Por alguns minutos permaneceu ali parado, sem saber o que fazer, apenas olhando na direção que engolira Camus... finalmente decidiu voltar para a aldeia dos camponeses, onde ainda ocorria a festa.

De volta ao arraial, pesaroso, viu Afrodite caminhando em sua direção, decidido e aparentemente desafiante.

— Onde está Camus? – demandou o sueco, dispensando quaisquer formalidades. Não havia ninguém perto deles, de forma que assim se referiu ao amo.

— Ele retornou ao castelo – era mais uma suposição do que uma certeza, porém foi o que respondeu.

— Ao castelo? Vós... lhe fizestes alguma coisa?

— Afrodite, peço-te: vai para lá. Cuida dele.

O camareiro-mor teve dúvida se sua pergunta não fora ouvida ou se fora, de fato, ignorada. Atirou-lhe, petulante:

— Vossa ordem de modo algum se fazia necessária, eu SEMPRE cuidarei de Camus.

Mas então notou o semblante desalentado do filho do conde: parecia abatido... seria impressão sua? Aquele homem sempre se mostrava tão soberbo... ufano...

— O que aconteceu com ele? – perguntou Afrodite, menos hostil.

— Conversa com ele, ele te dirá. Afrodite... cuida dele... por favor – repetiu. E retirou-se da frente do sueco. Este o chamou, antes que se afastasse:

— Senhor Milo.

O cavaleiro virou-se para ele, ostentando uma angústia que não passava despercebida. Não era impressão... tendo percebido real preocupação naquela súplica, o ex-pajem confessou:

— Eu vos julguei má pessoa.

— Tu tens razão para tal – atinou Milo, sorrindo tristemente.

— Todavia... talvez eu tenha enganado-me.

— Talvez sim. Talvez não.

Dito isto, Milo afastou-se de Afrodite, dirigindo-se para onde estavam as irmãs menores e as tias de Camus. Queria tranquilizá-las... com exceção de...

— Onde está Hilda? – interpelou, sem disfarçar a raiva ao mencionar a jovem. Tia Agnes foi quem respondeu:

— O senhor duque mandou que três guardas a escoltassem de volta para casa. Ficará trancada em um outro quarto, até que o senhor meu cunhado a castigue amanhã.

— Não foi apenas Marin que viu o que ela fez – ajuntou tia Emilie, sobraçando bolinhos – um casal de camponeses “a pecar” por ali também viu. O ocorrido espalhou-se como fogo e...

— Espero que o duque ENFIM saiba agir com justiça – o loiro quis encerrar aquele assunto, perturbado com todos os acontecimentos...

... mas principalmente... com o beijo que dera em Camus.

Por Deus!

O QUE HAVIA SIDO AQUILO?

— Senhor Milo, onde está a irmã Camille? – a vozinha preocupada de Seika tirou-o do devaneio em que adentrava.

Ele sorriu, amável, para as duas ruivinhas a seus pés.

— Ela voltou para o castelo. Teve um pequeno aborrecimento, devido a tudo que se sucedeu, sentiu-se indisposta e... bem, não vos preocupeis, pequenas. Afrodite foi prestar-lhe assistência.

— O papai brigou mesmo com ela? – quis saber Marin, com a mãozinha no peito, apreensiva.

— Sim, mas creio que depois ele irá se desculpar com ela... ele agora sabe que Camille não fez nada de errado. Não vos aflijais, anjinhos – disse, recebendo das crianças um abraço.

— Meninas, comportai-vos! Não deveis apoquentar o senhor Milo d’Auvergne!

— Deixai as pequenas, senhora Emilie. Está tudo bem – falou o jovem.

— Milo – ouviu a voz de seu pai. Tornou para ele.

— Com vossas licenças, senhoras – apartando-se das parentas de Camus, juntou-se ao conde, com ele afastando-se de quem pudesse escutá-los.

— O que houve com Camus? Ele sumiu — quis saber Henri.

— Creio que retornou ao castelo. Pelo menos, foi a direção em que seguiu... – respondeu, exausto.

— Milo. Gostaria de falar contigo sobre...

— Pai, por favor. Eu NÃO quero falar sobre nada relacionado a Camus ou este casamento agora. Depois, prometo que o farei. Agora não, peço-te.

O aspecto atormentado do filho compadeceu o nobre. Assentiu, compreensivo:

—Como quiseres. Por ora, quero que saibas que considerei tua ação justa.

— Por favor, diz que deixaremos Turenne tão logo possamos fazê-lo. Antes mesmo que amanheça o dia, de preferência.

— Não queres mais encontrar Camus?

O loiro suspirou, antes de responder:

— É necessário? Encontrar-nos-emos em duas semanas… para então nos unirmos em matrimônio. Quero PAZ até lá. Penso que não é pedir demais, em vista ao que estou me sujeitando.

— Compreendo-te. Não te aflijas. Partiremos assim que o céu começar a clarear.

— Agradeço-te, meu pai – finalizou o rapaz. O conde não insistiu no assunto, respeitando-lhe o momento, que notava ser tempestuoso.

E assim se deu o desenlace: Teobald II foi o único a despedir-se deles. Entendeu-se com Milo, prometendo punir Hilda exemplarmente. O loiro não pareceu interessado; na verdade, queria era esquecer aquela criatura ardilosa... e tudo que ela causara.

Ao romper da aurora, a comitiva de Auvergne deixou Turenne.

Montado em seu cavalo ricamente adornado, Milo ainda voltou o rosto para trás, a fim de mirar, pela última vez, o suntuoso castelo de Turenne. Creditou à imaginação a imagem de uma solitária figura vestida de branco no alto da torre, cujos rubros cabelos serpenteavam ao sabor do vento da manhã que chegava...

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Notas finais
(1) Ares - deus grego da guerra ("Marte" é seu correspondente romano) (2) É senso comum entre os historiadores que o Oriente Médio era "mais desenvolvido" do que a Europa, à época da Idade Média. A região soube absorver as milenares culturas asiáticas, a chinesa, incluída, servindo-se de toda suas sabedoria e tecnologia. O Oriente Médio era próspero e valorizava as ciências, alcançando progressos dos quais mais tarde (em um processo justamente iniciado com as Cruzadas) a Europa se serviu, em campos variados como medicina, farmacologia, filosofia, artes, navegação, cartografia, perfumaria, etc. Por ter vivido tantos anos naquelas terras, Henri d'Auvergne tem uma cabeça diferente da do amigo Teobald II. Mesmo a homossexualidade era tolerada em algumas áreas do Oriente Médio medieval. Há inclusive poemas persas deste período que enaltecem o amor entre homens. Provavelmente, o conde teve também acesso ao conhecimento de que no Extremo Oriente, ela era ainda mais tolerada. *** Cá está o tema deste capítulo, uma bela música instrumental da banda italiana Ataraxia, "Charola": https://www.youtube.com/watch?v=pplTJOAeaL0 Espero que tenham gostado... nos encontramos no próximo capítulo :) Muito obrigada por prestigiarem, e até lá! o/