Dame Jolie

14 Honra e Declínio


Notas iniciais
Chegando a jato a continuação da esperada cena das núpcias... as testemunhas saem dos aposentos senhoris, Milo arranca o lençol de cima de um atônito Camus, anunciando que precisam "do sangue no lençol" para validar de vez seu matrimônio... mas de que maneira? Agradeço profundamente o lindo apoio que têm dado a esta fic. Agradecimentos mais que especiais a quem comentou, e ultra super especiais à diva das fanarts Washu M., mais uma vez nos presenteando com sua arte para a capa. Camille de uma forma que nunca vimos, não é mesmo? Simplesmente uma obra prima... muito obrigada, Washu!!! Observação - a partir deste capítulo, uso o gentílico "castelhano", e não "espanhol" para referenciar Shura, pois não havia Espanha ainda, e o cavaleiro veio de Castela, que mais tarde, sim, formaria o país. Link para o tema do capítulo e explicações sobre os trechos numerados nas notas finais. Boa leitura!

— Senhor Milo? – foi tudo que um atônito Camus enunciou, ao ter o lençol de seda arrancado de cima de si, em um gesto brusco por parte do homem com quem acabara de se casar.

O loiro ficou a encará-lo de modo ameaçador. Largou a peça e caminhou para o oratório. Com um sopro rápido, apagou as velas que ardiam em um castiçal triplo que havia em cima do móvel. Tirou-as do objeto, feito de puro ouro. O ruivo apenas observava suas ações, em silêncio.

Milo pegou o castiçal e virou-se para o rapaz imóvel no grande leito, sentado por cima das pernas flexionadas.

— A tradição manda que o marido estenda na janela o lençol com o sangue da primeira relação carnal de sua mulher... caso não o mostre, o casamento estará anulado, por ser considerada indigna aquela que se afirmou como donzela – falava, tomando o caminho de volta para a cama, a passos propositalmente lentos.

Um par de olhos avermelhados crescidos e curiosos como os de uma corça mantinham-se fixos nele.

— Deves te perguntar como tão POUCOS matrimônios são invalidados por isso.

Sem obter resposta, o loiro prosseguiu:

— Obviamente trata-se de uma convenção tola. E facilmente contornável. Conhecido isto, a outra função das testemunhas das núpcias é averiguar a existência de objetos cortantes ou pontiagudos no quarto em que se dará o defloramento da dama.

— Objetos cortantes? – o ruivo realmente não sabia do que o esposo falava.

— Facas, punhais, espadas – Milo sentou no colchão, ficando de frente para ele – em suma, tudo aquilo que possa providenciar o sangue de OUTRAS FORMAS.

— Quereis dizer que há pessoas que SE CORTAM para conseguir o...?

— Evidentemente. Não te enganes. Mesmo com tanta vigilância, escasseiam-se as damas honradas em nossos dias – riu, tanto das próprias palavras quanto da expressão perplexa de Camus.

— Eu realmente não entendo aonde quereis chegar, senhor Milo – confessou, olhando, apreensivo, o castiçal na mão do loiro.

Seria possível que Milo tencionava FERI-LO com aquele artefato?

Era ASSIM que esperava obter o sangue?

— Senhor Milo...

— Observa, nem tudo é o que parece ser.

Posicionando a base do castiçal sobre a palma da mão esquerda, o jovem pôs-se a girar o corpo do objeto com a mão direita; a parte de baixo desenroscava-se! Para surpresa de Camus, quando a base foi retirada, o que viu surgir diante de si foi...

— Uma lâmina – balbuciou, estupefato.

— Sim. O que parece ser um inocente castiçal de ouro é na verdade um pequeno porém eficiente punhal – mostrou-o, sorridente – este belo instrumento tem mais de 300 anos, acreditas? Sim, está na família desde os tempos em que não podia se confiar nem na própria sombra... hunf, não que vivamos tempos muito diferentes.

— Que pretendeis fazer?

— Usá-lo para obter a prova que o mundo espera, é lógico.

Camus engoliu em seco. Esperou que Milo fosse estender a lâmina em sua direção. Não lhe negaria, malgrado sua natural apreensão. Entretanto, presenciou, com assombro, o loiro erguer a própria túnica até deixar à mostra as coxas musculosas. E sobre uma delas, posicionou a ponta do punhal.

— Esperai! Que tendes em mente?

— O que achas?

— Não podeis vos ferir POR ISSO! – inesperadamente segurou o pulso de Milo, que arregalou os olhos em grande surpresa.

— Solta-me, é necessário!

— Senhor Milo...

— Assim que fizer uma incisão, o sangue verterá, manchando o lençol de maneira natural.

Sem se importar com a superioridade em força física do outro, o ruivo continuou segurando-o pelo pulso. Por sua vez, mesmo sabendo que poderia desvencilhar-se com facilidade, Milo nada fez, perdido nos olhos suplicantes do esposo.

— Senhor Milo, cortai a mim.

— O quê?

— Não é justo que sejais o senhor a sangrar. Se estais hoje nesta situação, a culpa é toda de minha abjeta existência. Sou eu quem deve receber a punção dessa lâmina a bem de fornecer o sangue de que necessitamos. Sois o único inocente nesta história sórdida – argumentou o ruivo, abaixando a cabeça.

Ainda a segurar firmemente o marido pelo pulso.

Milo mirou-o, boquiaberto.

— Sabeis o que é personificar uma mentira todos os dias de uma vida, senhor Milo? Podeis imaginar como me sinto perante Deus Nosso Senhor, enganando a todos? Enganando meu povo, minha família... minhas irmãs... – cerrou os olhos com força – Acabei de mentir diante do altar. Perante o sacerdote. Permiti que em meio a toda esta mentira, pelo menos ALGO DE MIM seja verdadeiro...

E ergueu para o loiro seu rosto em obstinada súplica.

— Permiti que o sangue seja DE FATO meu.

— Camus...

Soube que jamais iria demovê-lo daquela ideia. As íris rubras faiscavam, causavam-lhe viva impressão. Compreendia-lhes as palavras, e, pela primeira vez, se deu conta de quão pesado havia de ter sido o fardo de Camus através dos anos. Era um milagre que se conservasse são depois de tudo a que fora obrigado se submeter!...

Relaxou a mão, o que foi sentido pelo ruivo.

— Está bem. Faremos como me pedes – concordou, placidamente.

Aliviado, Camus soltou o pulso de Milo, e pareceu ficar no aguardo de orientação. Após uns segundos de silêncio, o loiro ordenou:

— Primeiramente, ergue tua túnica até a altura das coxas e deita-te.

Assentindo, ele fez conforme indicado e se deitou, os longos cabelos vermelhos esparramados a contrastarem com a alvura dos tecidos macios. Não havia temor algum em seu rosto sereno. Milo permitiu-se observá-lo, seu coração como a se expandir com a esplendorosa visão.

— Abre tuas pernas.

Respirando fundo, o ruivo obedeceu, separando-as. Permaneceu em calma espera, traduzindo na serenidade de seu semblante a confiança que Milo sequer sabia que despertava nele. Ali estava Camus, em total entrega, seu corpo à sua total mercê... os olhos azuis do cavaleiro cintilaram, ao subir pelas pernas desnudas, abertas... em total e absoluta entrega.

À sua mercê.

Engoliu em seco.

“Ele é MEU. É meu POR DIREITO.”

— Senhor Milo...?

O chamado baixo de Camus trouxe-o à realidade. Por Deus... que ABSURDOS eram aqueles em que estava a pensar?

Mas... era a VERDADE, não era? Puxou o ar, que retivera sem que o tivesse percebido, e anunciou:

— Farei um pequeno corte em tua coxa direita. Pequeno, porém terei que enfiar a lâmina de forma a colher sangue bem escuro, entendes?

— Entendo.

— Deixaremos que ele escorra até formar a quantidade adequada. Não será muito, porém...

Espalmou sua mão esquerda na rija coxa, quase tão branca quanto o lençol que estavam prestes a macular. O ruivo suprimiu um gemido àquele toque. Dir-se-ia que o local queimava tão somente ao contato daquele homem. Sentia um estranho anseio... como se quisesse abrir mais suas pernas... mover-se para sentir mais da mão quente de Milo. De sua parte, Milo, inconscientemente, apertou um pouco aquela tenra carne, embevecido com a beleza de suas formas. Embora fosse magro, as coxas do ruivo possuíam uma regular fartura de volume que ele jamais teria imaginado. A lâmina prateada apontou para a área escolhida. Olhou para Camus, cujo olhar sereno fazia-se fixo nele. Percebeu a respiração do ruivo um pouco acelerada.

— Tentarei ser rápido. No entanto... hás de sentir dor, por certo...

— Não temo a dor, senhor Milo – respondeu, suavemente.

— Eu imagino isso – respondeu, sentindo fremir o coração. Como haveria Camus de temer a dor?

— Confio em vós.

Sua alma enregelou-se com aquela declaração. Umedecendo brevemente os lábios, o loiro tirou, a muito custo, o olhar do lindo rosto de Camus e dirigiu-o à coxa que segurava com sua grande mão, bronzeada em comparação àquela pele rósea pela pressão... inseriu com firmeza ali a lâmina do punhal, arrancando um gemido que Camus não conseguiu reprimir nem mesmo comprimindo os finos lábios:

— Hnnng!

Milo afligiu-se ao perceber como aquilo o afetara. Infligir dor em Camus... CAUSAVA-LHE dor, nele, que tantos e tantos exterminara com sua espada...! Tornou para ele, preocupado ante a expressão de sofrimento contido...

Retirou o punhal de onde um grosso filete de sangue verteu, percorrendo a coxa do ruivo, indo pousar no nível lençol abaixo de seu corpo. Esperou que determinada quantidade ali se depositasse; a serenidade retornara ao semblante do ruivo. Mas Milo SABIA que ele havia de estar sentindo dor! Tentando não pensar naquilo, foi até uma arca e de lá tirou uma caixa de madeira envernizada: retirou de seu interior algumas tiras de linho. Retornou ao leito, e, ao confirmar já ter a quantidade de sangue que julgou adequada para a farsa, ordenou:

— Já é o bastante, ergue tua perna, dobrando-a.

Camus assim o fez; Milo sentou-se do lado oposto da cama, na beirada, e, após limpar a ferida com uma das tiras, com as outras começou a fazer um curativo, enrolando-as razoavelmente apertadas. Pôde mesmo vislumbrar a intimidade de Camus... tirou dali o olhar que começava a sentir faminto. As maçãs do rosto, o pescoço, queimaram... o outro teria percebido? Deu uma última volta, amarrando firmemente a ponta.

— Está feito – disse o loiro, erguendo-se da cama assim que terminou.

— Obrigado, senhor Milo – agradeceu, ajeitando a camisola, sem olhar para ele, ruborizado... – E agora?

— Agora esperamos um pouco. Não queres que pensem que sou algum “afoito” na cama, queres?

— Como assim?

— Esquece – balançou a mão, enfastiado. Experimentava certa impaciência... a visão de Camus vulnerável na cama, suas pernas abertas, tocar sua coxa... tudo isso já havia atiçado fogo o suficiente em seu baixo ventre... e aquela, agora, vislumbrar-lhe parte da genitália! De pé, ficou de costas para o ruivo, temendo que sua ereção fosse descoberta. Com aquela fina roupa de baixo, estava desprotegido, quase como se estivesse nu! Rapidamente, pegou sua túnica verde água, jogada por cima de uma mesa, e a vestiu. Pôs apressadamente as calças, o peso em sua virilidade incomodando-o. Por cima do ombro, viu o marido ainda imóvel na cama, como em transe. Notou que sob o tecido branco que cobria-lhe a virilha...

Não podia ser.

A masculinidade de Camus... TAMBÉM despertara...

“Não, isso não. Não!”

Então... as sensações aberrantes e pecaminosas não se faziam exclusivamente DELE?

Camus TAMBÉM as tinha?

Besteiras. Havia de ser mero reflexo sugestionado pelo momento... o garoto tivera sua coxa nua apertada por outra pessoa, e sua intimidade acidentalmente exposta... sendo ele mais casto que um padre!

Ignorando o tremor que experimentava, buscou retomar o foco da prioridade de então. A cena estava armada. Era necessário dar cabo do espetáculo.

Mas seu coração agiu mais rápido que sua mente, e ele se viu indagando:

— Sentes dor?

— Oh – o ruivo pareceu despertar – Não.

— Não? – Milo ergueu uma sobrancelha, desconfiado – Acabei de perfurar-te a perna com um punhal.

— Bem, um pouco, sim – confessou o rapaz, sem jeito.

Após limpar a arma e guardá-la de volta em seu lugar de origem, Milo pegou uma garrafa em cima da mesa e levou-a para o ruivo.

— Daqui a pouco, há de doer como o inferno. Bebe isso, em goles generosos. Vai aliviar-te a dor.

— Eu não temo a dor, já o disse.

— Eu não sou surdo – rosnou, mal humorado – Mas se ficares fazendo caretas durante a festa perante os outros, hão de pensar que fui bruto para contigo.

O rosto do mais novo ficou quase tão vermelho quanto seus cabelos!

— Hunf – fez, aceitando a bebida e virando diretamente no gargalo. Quase engasgou quando a garganta incendiou.

— Por Deus, o que é isso? – tossiu, tão logo indagou. Milo sufocou um riso.

— É ouzo, uma bebida muito popular em Bizâncio (1). Na verdade, nem os bizantinos a bebem pura assim...

— E por que me fizestes ingerir esse horror desta forma?

— Porque em teu caso é para aplacar a dor. Mais uns dois ou três goles e não sentirás mais nada.

— Provavelmente porque estarei MORTO.

— Não sejas teimoso – insistiu Milo, gesticulando – Bebe de uma vez.

— É detestável!

— Será que terei de fazer-te engolir à força?!?

Camus fez um muxoxo, indignado. Olhou para a garrafa que segurava, e foi então que um pensamento singular o visitou...

Milo estava preocupado com ele? Não queria que ele sentisse dor, era isso?

“Tolice. É como ele mesmo disse. Não quer que pensem que foi ‘excessivo’ comigo... eis tudo”, concluiu, reflexivo. E recriminando a si mesmo por aquelas ponderações, tomou mais um gole. Chegou a sentir ânsia.

— Pfff... palavra de honra, é a coisa mais odiosa que já tive o desprazer de beber! – reclamou, as lágrimas descendo-lhe pelo rosto. Milo riu da cena, enfim.

— Estou ficando enjoado – disse o pobre ruivo, após um terceiro gole.

— Neste caso, basta. Isso deve ser o suficiente – tirou a garrafa dele, que não ofereceu a menor resistência. Depois de guardá-la, resolveu que já podia preparar a parte final da fraude.

— Bem, levanta-te. Removerei o lençol.

Assentindo fracamente, o jovem jogou as pernas para fora do leito e tentou se levantar; entretanto, tonto pela forte beberagem, caiu ao chão.

— Cristo! Não o sabia tão fraco para bebida assim! – reclamou Milo, indo ajudá-lo a se reerguer. Segurou-o e o pôs em uma poltrona, na qual o ruivo se esparramou.

— Não costumo beber essas... bebidas de... bárbaros...

— Bárbaros? – soltou uma gargalhada – Saibas que são bem mais avançados que nós, meu caro! Estão em outro patamar de desenvolvimento.

— Hunf – fez Camus, fechando os olhos, pois o enjoo piorou e ele temeu vomitar.

Rindo de canto, o mais velho retirou o lençol do colchão. Estudou o feito: parecia bem autêntico. E à distância de que estavam, pareceria ainda mais.

Foi até uma das janelas e a abriu, não sem certa dificuldade. Emperrada... realmente, havia muito que se fazer naquele velho castelo! Estendeu em seu parapeito de pedra o lençol, com a mancha de sangue voltada para fora. Como esperado, palmas, exclamações, glorificações exultantes. Não se dignou a acenar para os convidados, ainda que já tivesse visto homens fazendo tais gestos. Achava-os, contudo, patéticos... era sangue que a sociedade queria ver, era isso que veria, ponto final.

— Está feito – e jogou o pano sobre o piso, fazendo ar de pouco caso.

Foi calçar suas botas e ajeitar-se diante do espelho. Percebeu que o ruivo não fizera menção em sair da posição em que se encontrava, largado na poltrona. Suspirou, indo até ele.

— Não é hora de dormir. Anda, veste tuas roupas – ordenou.

— Senhor Milo...

O loiro pegou o vestido do jovem e jogou sobre ele, dizendo:

— Toma, veste.

Camus levantou-se, com a delicada vestimenta em suas mãos. Inesperadamente, perguntou, o álcool soltando-lhe a língua:

— Senhor Milo, vós ireis beijar-me outra vez?

— Por que perguntas isso? – retrucou, perturbado. Coçou a cabeça, desconfortável, vendo o outro pôr o vestido, muito sem jeito com aquilo. Oras! Para tudo servia-se do tal Afrodite... o imprestável sequer sabia colocar um reles vestido!

— Claro que não voltarei a fazê-lo – respondeu, pois que a resposta de Camus não chegara. Tomou a liberdade de ajudá-lo com a roupa, ajeitando-a por trás – Que desajeitado és. Quanto à tua pergunta ignóbil, é claro que não tornarei a beijar-te. Precisamos nos beijar na igreja e aqui. Agora não será mais necessário, sossega e não te preocupes mais com isso.

“Eu não me incomodaria que me beijásseis novamente, senhor Milo”, pensou o ruivo, mordendo o lábio inferior, no afã de impedir que aquilo lhe saísse pelos lábios ardidos.

— Vira – ajeitou-lhe o caimento do traje pela frente – Penso que está bom. Bem, precisamos ir agora. Juntar-nos aos demais em “nossa celebração”.

— De acordo – assentiu, esforçando-se por fazer dissipar aquele pesar que o invadia.

— Camus.

— Hum?

— Foste valente.

O ruivo ergueu para o esposo os olhos muito abertos, surpreso por aquele elogio repentino. Rapidamente, o loiro virou o rosto, tomando a dianteira para sair do quarto. Camus talvez sequer tenha se dado conta, mas um tímido sorriso pousou em seu rosto... seguiu o marido, rumo à festa que duraria dias e noites, sem qualquer trégua.

*************

O “casal” surgiu na festa, ovacionado pelos convidados. Por onde passassem os dois eram cumprimentados efusivamente, disfarçando com louvor o extremo desconforto que sentiam. Os amigos de Milo o rodearam, dando-lhe palmadinhas e fazendo gracejos indecorosos, sem se importarem com a proximidade “da esposa”. Shura, contudo, fez uma mesura respeitosa e disse:

—Meus parabéns, senhora.

— Muito obrigada, marquês Shura – respondeu Camus, polido.

— Minha senhora...

— Oh. Afrodite.

— Rogo que os céus cubram-vos de bênçãos – o sueco curvou-se, reverente.

— Agradeço teus votos, Afrodite.

O camareiro encarava firmemente o amo, tentando desvendar nele algum sinal de que algo estranho talvez pudesse ter acontecido... não obstante, parecia estar tudo bem com ele... por mais que soubesse que o filho do conde não era nenhum sodomita, chegou a temer que tentasse se vingar de alguma forma injusta no seu querido Camus. Oh, se ele o fizesse... não haveria título no mundo que lhe livrasse a pele!

Os pais dos recém casados se aproximaram, e o sueco, pedindo licença, afastou-se, a bem de dar-lhes privacidade.

Henri trocou um rápido olhar com Teobald II, averiguando se o amigo tinha efetivamente assimilado o que lhe fora dito: que Milo cuidaria de tudo e que não cometeria nenhuma ação incauta contra Camus. De fato, o duque parecia tranquilizado, vendo o filho bem e disposto... dir-se-ia até leve demais...

Virou-se para o conde, intrigado.

— Ele parece meio embriagado – sussurrou.

Rindo-se, Henri respondeu-lhe ao ouvido:

—Deixa, é natural que assim o fique hoje... até o final do dia, garanto-te que não será apenas ele.

— Tens razão – Teobald II sorriu. E para o filho e o genro – Vinde, meus filhos, celebremos, pois, em família.

Foram então partilhar do faustoso banquete, do qual já desfrutavam os convidados desde que “o casal” fora para suas núpcias. Numerosas mesas distribuíam-se pelo pátio, diante das quais artistas executavam números variados, e sobre elas uma infinidade de iguarias. Os criados cuidavam que nenhum copo chegasse sequer à metade!

— Irmã Camille! Irmã Camille! – Marin veio ao seu encontro, radiante – Hoje é o dia mais feliz da tua vida, e agora, adivinhas? É o dia mais feliz da minha também!

— Deveras? – sorriu o ruivo, já adivinhando a notícia.

— O senhor Aiolia pediu minha mão em casamento ao nosso pai!!!

Milo olhou para o irmão, levemente surpreso. O caçula riu, maroto.

— Que boas novas me trazes, minha irmã. Já dava para notar o quanto vós vos entendestes.

A menina parou, e corou, preocupada.

— Ficou tão visível assim?!?

— Até para um cego teria ficado – brincou Seika, fazendo a maior ficar mais envergonhada ainda.

— Cala-te, Seika! Do jeito que falas, parece que eu estava a agir com coqueteria!

Emilie puxou a orelha de Marin, com um ar reprovador:

— E ESTAVAS MESMO, mocinha!

— AAAI, tiaaa! – choramingou a menina.

— Sorte tua que teu pai relevou teu comportamento desapropriado. Mas EU estou sempre alerta...

— Só o estiveste até os banquetes terem início...

— QUÊ? – foi preciso Marin se esconder atrás da risonha Agnes para escapar dos temidos piparotes de dedos roliços da tia Emilie...

— Tia Emilie, confio em ti para instruir minha irmã tão bem quanto instruíste a mim – falou Camus, sorrindo, cuja cintura era abraçada por Seika, que ria a não poder mais.

“Ele está um tanto ébrio... não é de seu feitio sorrir tanto assim”, pensou Milo. Em seguida, se espantou ao perceber-se analisando o ruivo. Que lhe importavam as reações de Camus? Oras…

À média distância, em uma mesa ocupada por Durval e outros nobres, ocupados em discussões não muito concernentes a casórios, Andreas saboreava o que na véspera chamara de “vinho rústico”, olhando de soslaio para os noivos. Surt engoliu o naco de javali tenro e perfumado de especiarias para comentar, ao pé do ouvido do mais velho:

— Com efeito, perdeste uma chance de ouro, meu irmão. Além de garantires tua parte na família mais rica de França, terias a teu lado uma mulherzinha bem mais interessante que tua noiva...

Longe de se irritar, Andreas se divertiu com aquela tirada.

— Para um servo de Cristo, tens a língua daquele que foi tentá-lo no deserto... ( 2 )

— Lembra do que está escrito nas Escrituras: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo”. (3)

— Milo d’Auvergne é tão próximo de mim quanto um sapo de um falcão...

Eles riram, brindando aos seus sarcasmos, proferidos sob a proteção de músicas, risos, palmas, e muito falatório.

— Quando penso em minha noiva e nossa prima, aliás, não posso deixar de pensar em similar comparação.

— Não te faças sorumbático, não combina contigo. De mais a mais, a duquesa de Estíria é apaixonada por ti, toda a corte comenta. Bem diferente da nossa prima que, ao invés de um doce olhar, dirigiu-te a ponta de uma espada.

— Não te parece isso bem mais interessante? – riu, no que foi acompanhado pelo sacerdote, que bem pouco de “santidade” possuía... – Ah, meu irmão. Essa bela maldita me ganhou ali, sabes?

Surt serviu-se do arenque defumado com tiras de toucinho. Enquanto o partia com a faca, dizia:

— Típico de tua pessoa. Nunca foste afeito ao convencional, ao adequado, ao padrão... em inúmeros sentidos.

— Sou intenso. Deus vomitará os mornos... ( 4 )

— Se vais continuar citando a Palavra, experimente “Dai a César o que é de César”. ( 5 )

— Quem te ouve falando assim jamais imaginará que és frequentador assíduo das alcovas das casas de banho de Bourges... ( 6 )

— Melhor arder-me com o que já está queimado – retrucou, cínico – E bem melhor do que ficar embevecido pela priminha recém casada e recém deflorada... o que nela poderia te comprazer já não existe mais.

Andreas soltou um riso baixo.

— Hunf. Será mesmo? – fez, enigmático.

Nesse instante, Surt deixou de sorrir e considerou o mais velho; estava tomando toda aquela conversa como uma pilhéria. Estaria, contudo, Andreas levando aquilo a sério?

Percebendo-lhe a mirada perscrutadora, o cavaleiro logo se empertigou, declarando:

— Bem, a soberana da próspera Estíria me aguarda. A priminha Camille que se contente com os morcegos desta necrópole sobre rochedos – escarneceu, arrancando um riso aliviado do irmão.

************

Os festins em honra às bodas de Milo e Camus duraram seis dias e seis noites, o sétimo dia marcando a partida dos que ficaram até o fim. Alguns, neles incluídos Durval e seus filhos, o rei e seu séquito, bem como alguns poucos nobres, partiram ao raiar do terceiro dia. Não se pode dizer que os Auvergne e os Turenne tenham lamentado por aquilo... puderam até festejar mais descontraidamente. Isso, é claro, excetuando-se Camus, que por vezes pretextava mal estar para encerrar-se em seus novos aposentos – em se tratando de “mal estar emocional” não deixava de ser verdade, em absoluto. Almejava ardorosamente pelo término das comemorações. O tempo em que passava nos festins era-lhe penoso, e somente o fazia por obrigação social e, principalmente, para ficar mais uns momentos entre os seus. Fome nunca tinha, e quando dos manjares se servia, o fazia apenas para não despertar a atenção dos demais, que poderiam começar a comentar.

Se havia algo que o alegrara verdadeiramente foi a alegria da irmã, que selaria compromisso com Aiolia assim que lhe viesse a menarca (7). A menina não cabia em si de felicidade, e se houve sorrisos sinceros da parte de Camus naqueles dias, foi devido à felicidade que via estampada no rosto da pequena. Agradecia a Deus por saber que a garota seria feliz, e pedia o mesmo por Seika. Já por ele mesmo... por mais que reconhecesse a onipotência divina, não via validade alguma em pedir semelhante dádiva.

Milo sequer disfarçava o desagrado em ter se casado com ele.

Era como se, oficializado o compromisso ao qual haviam-no forçado a assumir, se visse livre de qualquer obrigação em dissimular sua má vontade para com “a esposa” e a nova vida. Durante as festas, não ficava onde Camus estivesse, e se este se aproximava, prontamente se retirava. Convidava outras damas para dançar e ria animado junto a elas e aos amigos. A tudo o ruivo se fazia indiferente, procurando se ocupar dos demais convidados e de seus familiares. Quando não mais se sentia capaz, dizia se sentir mal e se recolhia, pelo menos por algumas horas.

Teobald II demonstrava no semblante sisudo a reprovação pelo comportamento do genro, divertindo-se efusivamente com outras pessoas. Percebendo-o, Henri lhe disse:

—São os momentos finais de uma fuga.

— O quê?

O conde sorriu, olhando o filho em uma disputa de quem bebia mais rápido.

— A presa em seus momentos finais de fuga emprega a maior parte de seus esforços em se safar do predador. Entretanto, chegará a hora em que tudo estará terminado...

O duque pareceu compreender.

— Nunca pensei que fosse dizer isto, mas... espero que teu filho realmente perceba a chegada dessa hora. Não suporto a ideia de Camus sofrer, ainda que eu mesmo tenha infligido tantos anos de sofrimento a ele... – declarou, melancólico – Talvez... até por isso. Deposito em teu filho a esperança de que o meu venha a conhecer um pouco de ventura nesta vida.

— É uma questão de tempo, meu amigo. Tempo... e aceitação.

Dado o longo período de celebração, não era incomum na época que, em alguns dias, o recém casado escapulisse com os amigos para tabernas nos povoados próximos, ao cair da noite. Casos houve em que a escapada foi seguida ao término das próprias núpcias! Sim, era um hábito vigente... o que não significava consolo algum para o ruivo. Ainda que ele se mostrasse altivo e alheio ao comportamento do esposo. Shura bem tentou dissuadir o amigo de proceder daquela maneira, mas foi em vão... não lhe restara alternativa a não ser ir junto com os rapazes. Ele prometia a “Camille” que cuidaria do noivo (o que nem sempre conseguia). Camus agradava-se sobremaneira daquele respeito a ele pelo castelhano dispensado, e agradecia, fingindo tranquilidade. O camareiro-mor admirava-se daquela gentileza, contemplando, discretamente, o belo moreno fazer a reverência antes de se retirar.

— Shura parece mais meu marido que o meu marido – ria o ruivo, um riso tão forçado que chegava a magoar a face.

— Ele sim é um cavalheiro – ajuntava Afrodite, dividido entre a raiva que sentia por Milo e a admiração que sentia por Shura.

Assim se passaram os dias e as noites até que a última caravana partiu de Saint-Doulchard, ficando no castelo Milo, Camus, Afrodite e Shura, a pedido do amigo, que dele precisava para auxiliá-lo em questões administrativas que deveria colocar em dia, para pôr início aos planos de revitalizar a região. Onze criados de Auvergne também permaneceram no lugar, para trabalharem na cozinha e na manutenção da casa. Através do líder comunitário Leopold, o agora conde de Saint-Doulchard (o sobrenome permanecia, o título, porém, dizia respeito à terra que governava... alguns nobres assim procediam) contratou alguns locais para trabalharem na propriedade. Esses começaram a se instalar nas casinhas contíguas às áreas comuns dos ofícios.

Naquela manhã, os dois amigos observavam a movimentação pela propriedade, o que passaria a ser cena constante.

— E quando chegam os artífices italianos? – indagou Shura, cobrindo a testa para se proteger da claridade.

— Penso que em um mês cá estarão. No início, achei desnecessário, porém vejo agora que não é inconveniente ajeitar o triste aspecto desse lugar, já que aqui viverei... que diria o povo, vendo feia a residência de seu senhor...

— Deves pensar no bem estar de Camille, também.

Milo fechou o sorriso.

— Se servirá a mim, servirá a ela. Não é preciso acrescentá-lo.

— É porque NUNCA o fazes – observou o moreno – Mas diz, e quanto ao projeto da biblioteca?

— Já está em andamento. Meu pai teve o cuidado de trazer algumas centenas de títulos, e pretendo adquirir mais algumas centenas. Nisso conto contigo para intermediar as aquisições. Melhor do que a França é o teu país para consegui-los.

— De fato, milhares das obras trazidas do Oriente quando da ocupação moura lá permanecem. Os chamados infiéis podem ter sido um estorvo mas se não fosse por eles, muitas das obras clássicas e orientais não chegariam a nós.

— Também os padres copistas tiveram sua importância nisso, não? Malgrado sejam considerados tacanhos pelos intelectuais, muito ao árduo esforço dos religiosos devemos.

— Não poderias estar mais correto, meu amigo.

Eles caminharam até a sombra de um pessegueiro; o sol começava a se fazer forte.

— Há muito que se fazer, Shura. Saint-Doulchard é, possivelmente, a mesma que era há 500 anos, quando cá chegaram os primeiros Auvergnes – comentou, pensativo.

— Penso outrossim que tem imenso potencial. Tu a farás se desenvolver, assim o creio.

O loiro suspirou.

— Até hoje tudo que soube fazer foi guerrear e desfrutar do que a vida tinha de bom. A caminhada há de ser longa... contudo, não me falta vontade.

— Disso sei eu – sorriu o castelhano – Se me permites, deverias também construir um alto forno. Melhor será a produção local de armas e maquinário de agricultura que a compra dos mesmos. O lugar abunda em espaço. Poderás quiçá comercializá-los.

— Tens toda a razão. De passagem pelas terras, vi que as técnicas de plantio sequer chegaram ao uso das charruas. Não dispõem sequer de moinhos e canais de irrigação...

— Faz-se mister trazer todos esses progressos se queres que Saint-Doulchard cresça.

— Pelejar era bem mais fácil – riu o conde.

— Sim, destruir é sempre mais fácil que construir... sempre o foi, desde os primórdios de nossa existência.

— Shura, o filósofo – brincou – Mas estás certo. Bem, posso não me tornar o próximo “duque de Borgonha”, mas certamente terei eu também meu lugar de honra nos anais da História.

O moreno sorriu, comentando:

—Folgo em ver-te otimista a esse respeito. Quando aqui chegaste, parecias assaz desanimado em relação a tudo.

— Bem... o casamento estava a me desanimar – confessou – Contudo... não é a vida apenas isso.

— Não, entretanto é dela grande parte.

Milo não respondeu. O outro nunca deixou de perceber a distância do amigo em relação aos assuntos conjugais. Jamais procurava a esposa, e a ela quase nunca dirigia a palavra, mesmo durante as refeições. Estranhava-o, pois além de Camille ser formosa, fazia-se agradável ao convívio; era gentil, comedida, cordata, inteligente e culta. Durante palestras com ela, após os jantares, percebia que a jovem versava sobre os mais variados assuntos, tendo com ela, assim, plena liberdade de tópicos. Acompanhava-a sempre o também agradável Afrodite, com quem conversava frequentemente. Nesses aprazíveis momentos, Milo fazia-se distante, limitando-se a observar os três degustando finas bebidas e conversando animadamente diante da lareira. De quando em quando, Shura tentava inseri-lo no colóquio, ao que ele respondia de forma lacônica e mal humorada. O moreno, notando o estranho clima entre marido e mulher, encerrava suas tentativas, e continuava a falar com a dama e o camareiro.

Em uma noite, os três decidiram jogar gamão. Divertiam-se, como sempre sob o olhar pretensamente desinteressado de Milo; foi então que o conde se ergueu da poltrona, muito sério, e se dirigiu à porta.

— Aonde vais? – indagou Shura, pois sabia que a esposa do amigo não o faria.

— Fazer um pequeno passeio noturno. Encontro-me um tanto sufocado aqui.

O marquês olhou para ele e para seus dois acompanhantes, em dúvida de como agir. A resposta veio através da fala de Milo:

—Não é preciso que me acompanhes, Shura. Podes prosseguir com o jogo. De mais a mais, não demoro-me.

Camus mordeu o lábio inferior, abaixando o olhar. Sempre que o marido dizia aquilo, voltava ao romper da aurora.

— Fazes como bem te aprouver – soltou o ibérico, a reprovação patente no tom da voz.

— Assim o farei – respondeu o loiro, e deixou a sala.

Shura olhou para suas companhias. A ira no olhar de Afrodite era indisfarçável. Já Camille permanecia serena.

— Estou certo de que em breve ele se acostumará à nova realidade... Milo sempre foi uma criatura livre. Cresceu no mar, em ilhas, nas pradarias vastas do mundo, e nos campos de batalha – comentou, servindo os copos à mesa.

— Sois de uma gentileza ímpar, senhor Shura. Não vos preocupeis, entretanto. Nada exijo de meu marido – respondeu Camus, sorvendo a bebida, elegantemente.

— Eu sei, senhora, e vossa postura é o que me faz esperar que o tolo de meu amigo se emende. Vós mereceis melhor tratamento da parte dele.

— Estou convosco de pleno acordo, marquês Shura.

— Não me surpreendo, senhor Afrodite – riu o moreno – vós, por outro lado, nem por um segundo, disfarçais a indignação que Milo vos causa.

— De que outra maneira agiria eu... despreza minha senhora a olhos vistos!

— Afrodite. Continuemos nosso jogo, que tal? – Camus pediu, calmamente.

O loiro suspirou. E anuiu, em concordância.

— Que tal um pouco de música? – dizendo isso, o ruivo bateu palmas três vezes, e foi o bastante para que um dos criados assentisse e fosse chamar alguns dos músicos do castelo. Em poucos minutos, estava diante deles um jovem aloirado de farto sorriso a tocar docemente a flauta dupla, acompanhado de um de similar idade, que tocava saltério.

A delicada melodia tratou de amenizar a atmosfera, ainda que no fundo do coração de “Camille” o que existia contrastava amargamente com aquela paz instituída...

*************

— Achei que não viésseis esta noite, meu senhor...

— Não.

— Perdão, meu senhor?

— Não te desnudes por inteiro.

— Não desejais ver-me...?

— Mantém tua roupa íntima. Quero ver-te de camisola.

A prostituta, uma bela jovem de seios avantajados, estranhou aquele pedido. Se para a maior parte dos homens casados a única maneira de ver um corpo nu de mulher era justamente quando utilizavam serviços de moças como ela!

— Como quiserdes, meu senhor.

Ela ajeitou a barra da túnica clara que principiara a tirar, revelando de imediato as pernas brancas como os lírios dos bosques. Contrastavam com a ligeira morenice dos braços e de sua expressiva face. Alisou o tecido, atenta ao mais novo cliente, e também o mais atraente, que permanecia sentado em uma cadeira, diante do leito amarfanhado. Ocupavam um dos quartos superiores de uma das tabernas do vilarejo de Saint-Doulchard.

— Tende certeza de que não preferis um vinho? Essa aguardente de maçãs não é para o paladar de homens refinados como vós – aproximou-se dele, manhosa.

— Ao contrário, acho-a o ideal para a ocasião – ele riu, dando um gole demorado. Sentiu a garganta queimar e resistiu a pigarrear.

— Sois um fidalgo singular...

Ele respondeu com um simples som gutural, observando-a sob a luz bruxuleante dos candeeiros.

Não fazia nenhum movimento para cortejá-la. Algo diferia das três últimas vezes, em que a ela se atirara, com ânsia desmedida. Desde a primeira vez em que ali estivera, aquele nobre recém chegado à região havia se mostrado fogoso, intenso e quase cruel em seu jeito furioso de copular.

Agora ali estava, o olhar mortiço, imerso em um quê de melancolia, que sequer o suave sorriso nos lábios carnudos escondia.

— Estais bem, meu senhor? – perguntou a cortesã, cada vez mais intrigada com a mudança no humor do antes impetuoso rapaz.

— Joga teus cabelos para frente.

— Sim, meu amo.

Os longos cabelos levemente anelados, de um bonito castanho claro, foram arrumados conforme ordenou o nobre. Passavam da cintura, e possuíam um brilho avivado pelas luzes das velas.

— Agora, ergue tua roupa até a altura das coxas.

Dirigindo-lhe um sorriso malicioso, ela obedeceu. Súbito, ele fez-se ríspido:

— Eu disse ATÉ A ALTURA DAS COXAS!...

Assustada, ela abaixou o vestido. Quisera fazer-se provocante e o levantara até mostrar as partes pudendas.

— P-perdoai-me... eu...

— Deixa assim. Não ergas mais que isso. Deita-te na cama, ainda segurando a barra.

Ela assentiu, e deitou-se no leito. Ele ficou de pé, e aproximou-se da cama. Mirou-a uns instantes antes de mandar:

—Abre tuas pernas.

— Assim? – quis certificar-se de que fazia conforme o cliente queria.

Sem responder, ele virou a garrafa de destilado, sem se importar com o que escorria-lhe pelo queixo. Abandonou a garrafa vazia. Olhou para a mulher, que permanecia imóvel conforme lhe fora orientado. Com a camisola erguida até as coxas, as pernas abertas, os olhos acinzentados fixos nele, em uma espera ansiosa.

À sua mercê.

Em total entrega...

— És meu... tu és meu por direito... – murmurou.

A jovem não distinguiu-lhe as palavras. Mas algo no rapaz começou a causar-lhe certo medo.

Ele tinha algo de maníaco no olhar. Não parecia sexualmente excitado. Excitado, sim, mas não pelos motivos adequados, talvez.

Ela já vira aquele olhar em outros clientes.

E isso sempre antes de terminar a noite machucada.

— M-meu senhor...?

— Tu foste valente até agora. Continuarás sendo-o?

— C-como?

— O que farei contigo renderá o triplo do que te prometi. Queres continuar?

Um suor frio escorreu-lhe pela face ansiosa.

Com os diabos.

O homem falava em pagar-lhe O TRIPLO?

Para o diabo seus medos!...

— Sim, meu senhor. Servi-vos de mim como desejardes. Estou à vossa disposição.

A firmeza de sua decisão balançou quando viu o loiro sacar um punhal de ouro cravejado de rubis. Mostrou-o para ela:

—Não temas. Não te matarei, tampouco ferir-te-ei... demasiado. Será apenas um pequenino corte em tua coxa...

— QUÊ? – a jovem ergueu meio corpo, apavorada – Que tendes em mente…?

Ao seu lado uma bolsa de veludo negro caiu pesadamente, tão repleta de moedas estava.

— Que é um pouco de teu sangue em vista do que te dou em troca?

— Meu... meu sangue...?

— Já o sangraste por muito menos, sei como é a vida de meretrizes como tu – argumentou, em tom indiferente.

Ela o olhava, assombrada. Olhou para o dinheiro... olhou novamente para o nobre. Respirou fundo.

— Estou de acordo, meu senhor. Peço-vos, contudo, que, pela misericórdia dos céus, não me inutilizeis para...

— Cala-te – foi antes um sussurro que uma ordem autoritária.

A mulher, com o coração descompassado, escolheu confiar. Voltou a pousar a cabeça nos travesseiros amarelados. E esperou pela ação do excêntrico cliente.

A dor foi bem desagradável, como era de se esperar. Ele, contudo, tivera o cuidado de fazer uma rápida punção, e não cortar vagarosamente a carne. Em verdade, tão logo tirou a lâmina, ficou apenas um estranho ardor.

Sentiu o colchão balançar: ele ajoelhara diante dela, apenas observando o sangue descer… verter pela coxa roliça, quase tão branca, quase tão branca, quase tão...

O rastro rubro precipitou-se de encontro ao lençol.

A prostituta respirava rapidamente... longos minutos se passaram, sem que nada acontecesse. Suas batidas cardíacas começaram a normalizar-se... ao que parecia, ficaria por aquilo mesmo. O fidalgo somente olhava para suas pernas abertas, para o sangue que depositava-se no colchão, para aquele rosto cujos olhos claros não o abandonavam nem por um instante.

Nem por um instante.

“Camus...”

E não mais era a meretriz, e sim o homem que desposara.

A farsa.

A aberração.

O pecado.

A infâmia.

Ele se inclinou para o corpo à sua disposição, espalmando suas mãos nas coxas desnudas.

— Camus... – gemeu, tão baixo que mesmo próximo da moça, ela ainda não pode entender o que ele dissera.

Camus.

Apertou aquela carne, sonhando com a carne de Camus, sentindo ali o cheiro de Camus, vendo descer o sangue de Camus, sangue que mais uma vez, uma vez mais... vertera por eles dois.

Sentiu marejarem os olhos azuis celestes.

Curvou-se por sobre a fonte do sangue...

— Camus!... – balbuciou, uma vez, agarrando-se à coxa da meretriz, que manteve-se imóvel e quieta, sem nada compreender.

Ela, não obstante, não ousou se mover, tampouco enunciar qualquer coisa.

Pensava tão somente na vultosa quantia que com aquela sandice conseguira... planejando usá-la para abrir um negócio próprio... algo que lhe permitisse sustentar a família sem ter que se sujeitar a nobres exóticos que se compraziam em cortá-la, e sobre seu sangue chorar balbuciando nomes ininteligíveis...

*************

Envolto em macios lençóis de pura seda, Camus dormia, a mão por sobre seu peito, os cabelos vermelhos presos em uma trança grossa e não muito apertada. Seu sono era profundo, de forma que ele não acordou quando a porta de madeira maciça se abriu, e Milo surgiu, apoiando-se nela para não cair.

Estava miseravelmente embriagado.

Via o quarto senhoril mover-se diante de si, como se estivesse acontecendo um tremor de terra. Sua cabeça pesava possivelmente mais que o lustre circular de bronze, no qual umas poucas velas ardiam ainda. Seu corpo formigava, e um gosto horrível invadia-lhe a boca, sensação quase tão nefanda quanto a dor que parecia perfurar sua cabeça.

Tudo que queria era deitar-se, e, com sorte, morrer durante o sono.

Caminhou, a passos vacilantes, até a rica cama em madeira nobre, de cujo topo lustroso descia o dossel franjado, em tecido aveludado e dourado como o ouro. A exemplo das camas que apenas membros da mais alta nobreza possuíam, era enorme, e caberiam facilmente mais de meia dúzia de homens ali. Isso muito o alegrava; poderia ali deitar e ainda assim manter distância daquele que nela ressonava, tão tranquilamente que quase o enervava.

De pé ainda, deteve-se diante do jovem adormecido, tomando o cuidado de se apoiar em uma das colunetas trabalhadas em espiral do luxuoso móvel.

Ficou a observá-lo, malgrado dolorosamente lhe pesassem as pálpebras.

“Como podes dormir tão tranquilamente se estou eu a sofrer como o pior dos desgraçados!”, refletia, revoltado.

O que ele não sabia – e que Camus nunca lhe contaria – é que o que lhe possibilitara o sono àquela hora havia sido justamente as longas horas de atormentada vigília pelas quais o ruivo vinha atravessando nos últimos dias... uma semana desde o fim das bodas!

“Por que não me sais do pensamento, Camus? Por que tinhas que surgir em minha vida para atormentar-me? Por que tinhas que existir... tão perto... tão distante... tão puro... tão lindo...”

Levou a mão à boca, temendo vomitar. Felizmente, apenas um enjoo transitório.

Melhor que descansasse logo.

Tudo que fez foi arrancar dos pés as botas, e, dando a volta pelo leito, ali se enfiou, deslizando como quem entra na água morna.

Não se sabe se pelo balanço do colchão, ou pelo barulho das botas caindo no assoalho, o fato é que Camus despertou. Viu seus olhos avermelhados semicerrados abrirem-se totalmente. E então ele tirou de cima de si a delicada colcha, fazendo menção de se levantar.

— Aonde vais? – perguntou Milo, sonolento.

— Para outro cômodo.

O loiro arregalou os olhos, surpreso.

— Não podes deixar o quarto. Sequer amanheceu.

— Por isso mesmo. Tenciono dormir. E não o farei com vosso pútrido cheiro de meretriz e álcool barato a empestear-me o ar. Com vossa licença.

Dito isto, o ruivo ergueu-se resoluto. Milo levantou meio corpo do colchão, olhando-o, incrédulo.

— Sabes que NÃO podes dormir em outro quarto, estando EU aqui! – retrucou, irritado.

— E por que não? – o ruivo ergueu uma sobrancelha, virando-se para ele, imperturbável.

— Tu o sabes muito bem! Uma mulher não dorme em quarto separado do quarto em que dorme o marido, a menos que haja doença grave entre eles... ou...

Não ousou dizer, mas a verdade é que outro fator que justificasse aquela ação diria respeito à ineficiência sexual do marido... Camus sabia disso, no entanto, pouco ou nada com a opinião alheia se importaria agora.

— Tanto se me dá, senhor Milo. Da próxima vez, ao menos tome um banho após vossos atos degradantes.

— NÃO TE ATREVAS A SAIR DESTE QUARTO – vociferou o loiro, pondo-se imediatamente de pé — É assim que queres continuar a desgraçar minha vida? Pondo-me ao ridículo perante a criadagem?

Sem que nem ao menos um sorriso de sarcasmo pousasse em seus finos lábios, Camus encarou-o firmemente ao replicar:

— Não necessitais de meu auxílio para vos pôr em ridículo, “senhor meu marido”. Executais esse ofício com notável maestria – e deu-lhe as costas, rumo à porta.

Súbito, viu as paredes rodarem vertiginosamente quando, com velocidade inesperada para alguém em seu estado, Milo atirou-se contra ele, puxando-o pelos braços, violentamente.

— O q... – e foi jogado na cama, tão rudemente que sequer pôde assimilar o que estava a acontecer – Uuunf!

Milo saltou sobre ele, segurando-lhe os pulsos, a ira deformando seu belo rosto.

— SOLTAI-ME! ESTAIS LOUCO?

— LOUCO ESTÁS TU, se pensas que podes enfrentar-me!!!

— Quê?! – Camus tentou se desvencilhar, porém, não era páreo para a força física do esposo, ainda mais esta potencializada pela insanidade. Quanto mais se debatia, mais pressão Milo empregava. O ruivo temeu que a qualquer instante o marido fosse lhe quebrar os pulsos. Tentou empregar mais força em sua tentativa, acabando por gemer de dor.

Por cima dele, o loiro não parecia nada disposto em libertá-lo. Vociferou, transtornado:

— Está na hora de aprenderes as REGRAS desta casa...

O barulho da porta do quarto contíguo se abrindo chamou-lhes a atenção.

— O que está a haver aqui?!? – Afrodite surgiu, a espada em punho mal oculta.

— Afrodite, vai-te daqui – ordenou Camus, ainda imobilizado pelo cavaleiro, que encarava o recém chegado com profundo desdém.

— Como me pedes isso, Camus? Ele está A AGREDIR-TE!

— E o que tem TU a ver com isso, SERVIÇAL? – cuspiu Milo – Meta-te nos assuntos de teus senhores mais uma vez e o porei a ferros na masmorra!

— Nada temo, se com isso puder livrar meu amo de tuas violências!

— Afrodite, POR FAVOR, sai!

— Pretendes levantar teu espadim contra aquele que agora é TEU senhor? Não conheces teu lugar, atrevido? – Largando Camus, pôs-se de pé e tencionou caminhar para o sueco, que segurava a arma com mão trêmula.

— Vós dois não estais mais em Turenne. Não viveis mais em vosso mundo perfeito de sonho, em que tudo girava a vosso redor. Vossas vontades aqui À MINHA hão de se curvar!

— Ele tem razão, Afrodite.

— C-Camus – balbuciou, os olhos lacrimejantes, ao ver o amo erguer-se, os pulsos avermelhados quando suas mãos seguravam seus braços magoados.

— O senhor Milo legalmente é MEU marido, Sobre mim tem ele direito de vida e morte. O que dirá sobre TI – falou o ruivo, tentando se fazer firme; a voz, porém, tremendo em alguns tons – Eu te peço, em nome de tudo que é mais sagrado... se tens amizade a mim... vai-te agora daqui.

Pelas faces rosadas do ex-pajem grossas lágrimas de ódio rolaram. Ele abaixou a cabeça, odiando-se ainda mais por saber verdadeiras as palavras do amado senhor.

— Dar-te-ei o perdão desta vez, insolente – disse Milo, muito sério – Na próxima não serei tão benevolente.

Cerrando os punhos, o sueco girou sobre os calcanhares, para voltar a seu quarto.

— A partir de amanhã, tu irás dormir no andar de baixo. Não quero alcoviteiros a espreitar-me o sono e a intimidade – anunciou o conde, sorrindo vitorioso.

Sem nada responder, o camareiro-mor saiu da presença de seus senhores. Camus parecia resistir bravamente a uma crise nervosa. Chegava a prender a respiração, a cabeça baixa, sentindo-se humilhado como nunca.

— Bom, ao que parece não mais há empecilhos para que, enfim, eu seja agraciado com o repouso que me é de direito – ironizou o marido, jogando-se displicentemente na cama.

Totalmente paralisado, Camus permaneceu de pé, mesmo depois que o sono venceu o cavaleiro.

Não conseguia sequer sair do lugar.

À beira de um ataque de nervos, Afrodite não pôde simplesmente encerrar-se em seu apartamento. Saiu corredor afora, dirigindo-se para a escadaria. Não sabia para onde iria, mas COM CERTEZA NÃO ficaria ali! Shura surgiu diante dele.

— Marquês Shura!...

— Percebi que estava a acontecer alguma coisa. Ouvi os dizeres hostis de Milo. Entendei-me... não poderia eu envolver-me. Pelo menos na intimidade deles.

— Uhn... – gemeu o loiro, prestes a desabar. Percebendo-o, o cavaleiro adiantou-se a ele. Foi o bastante para que ali o camareiro-mor se abandonasse, rendendo-se ao pranto desesperado.

Shura envolveu-o com os braços fortes, e àquele amplexo Afrodite deixou-se abrigar.

— Prometo que conversarei com ele mais tarde. Não vos afliji. Vossa senhora estará em segurança, prometo-vos – garantia o moreno. Quando sentiu que o choro tornou-se menos compulsivo, afastou um pouco de si o rapaz, para mirar fixamente seus olhos:

— Senhor Afrodite, eu não reconheço meu amigo. Ele nunca foi descortês para com uma mulher. Desde que cá cheguei, Milo tem sido um completo estranho. Suas ações não condizem com o cavaleiro honrado e gentil que sempre conheci. Está mais que evidente para mim que há ALGUM SEGREDO neste casamento que o fez mudar.

Àquelas palavras, o sueco conteve seu pranto, olhando-o com visível pavor.

Aquele olhar apenas confirmava o que Shura deduzia.

Havia algo de ERRADO naquele casamento.

Algo de MUITO errado.

Algo que transformara por completo seu melhor amigo.

— E-eu não sei do que estais a falar...

— Sabeis SIM. E PRECISAIS contar-me. Não poderei ajudar se não estiver a par do que, efetivamente, está por trás deste matrimônio. Com certeza, está além de um simples contrato entre duas famílias poderosas. Se me contardes, Afrodite... somente se me contardes, poderei ajudar-vos. Vós e vossa senhora.

— Ajudar... ajudar minha senhora?

— Sim – assentiu o cavaleiro, ainda a segurar o loiro pelos ombros.

Afrodite mergulhou fundo nas profundezas daqueles olhos turvos.

Pareciam tão sinceros!

— Vós... vós prometerdes... ajudar minha senhora?

— Eu vos prometo. Mas para isso, precisais contar-me. Qual o mistério por trás deste casamento... o que envenenou Milo para que ele mudasse tanto assim?

O coração do ex-pajem parecia prestes a explodir.

Duas forças digladiavam-se dentro dele...

— Eu... – seus lábios rosados descolaram-se, enfim — ...vou contar-vos...

*************

Notas finais
(1) Bizâncio - Antiga capital do Império Bizantino, mas também termo genérico para o império todo (assim como Roma) (2) Andreas faz alusão às três vezes em que o Diabo tentou Cristo no deserto, episódios narrados no Novo Testamento: "Em Mateus 4:3-11 nós lemos: 'A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome'. Quando Jesus foi levado ao deserto para ser tentado, foi levado pelo Espírito de Deus. Não convidou a tentação. Marcos conta a história desta forma: 'E logo o Espírito o impeliu para o deserto, onde permaneceu quarenta dias, sendo tentado por Satanás…' (Marcos 1:12, 13)." (Em biblia.com.br) (3) "(...) não cobiçarás a mulher do teu próximo", faz parte de um dos 10 Mandamentos, aparecendo em Êxodo 20:17, e também em Deuteronômio 5:21, ambos no Velho Testamento. (4) Em Apocalipse 3:16, a passagem "Deus cuspirá os mornos" faria menção ao desagrado divino acerca daqueles que não são intensos em nada, aos que são indiferentes, apáticos. (5) "Dai a César o que é de César", Mateus 22:21, frase atribuída a Jesus. Algo como "há que se fazer as coisas de Deus, e há que se fazer as coisas 'do mundo', tudo a seu tempo". Alguns associam ao respeito a diferentes autoridades, ou seja, mesmo sendo temente a Deus, devemos respeitar as autoridades terrenas. Surt provavelmente está dizendo ao irmão "que não se meta com o que não é dele". (6) Casas de banho - Frequentadas por pessoas de todas as camadas sociais, contanto que pudessem pagar. Seu número aumenta após as Cruzadas, pois são influenciadas por luxuosas casas de banho orientais. Algumas eram usadas como ponto de encontro, e contratos para prostituição, daí a a fala de Andreas. Começam a cair em desuso no século XIV, por causa das grandes pragas, e desaparecem totalmente no século XVI, quando a Igreja e até os médicos passaram a proibir o banho (a Igreja, por associá-lo ao pecado, e os médicos, por acharem que fazia mal à saúde). (7) Menarca, a primeira menstruação. Na realidade, grande parte das meninas casavam-se logo após a menarca. Havia, entretanto, as que somente se noivavam após a menarca, casando-se de 30 a 40 dias depois. No caso de Marin será assim, já que a menina ainda não estava prometida a ninguém. Lembrando que a idade máxima para uma nobre se casar costumava ser de 22 a 24 anos, logo, "Camille" se casou quase no limite, rs. ************* Há muito tempo, Milo profetizara fazer Camus "pagar". Será que agora que está casado, ele realmente levará a cabo seus ressentimentos? E Afrodite, contará a verdade a Shura? O sueco fez um voto de silêncio aos Turenne... entretanto, o marquês promete ajudar "sua senhora", e ele parece vacilar... Link para o tema do capítulo, uma canção possivelmente de 1400 que possui várias versões, das quais escolhi esta: https://www.youtube.com/watch?v=DXQDSZYcI5E Obrigada por prestigiar! E até o próximo capítulo... beijos :x *Grupo de minhas fics no Facebook: https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/