Dame Jolie

15 Depois da Tempestade


Notas iniciais
*** ATUALIZAÇÃO ESPECIAL *** EM HONRA A DOIS ANIVERSARIANTES: — De hoje, 8 de novembro, ninguém mais, ninguém menos que nosso glorioso (será?) protagonista Milo — De amanhã, 9 de novembro, a querida Yuki Saiko. Parabéns, minha amada, e obrigada por sua amizade e por seu apoio a esta fic! Devido a esta atualização expressa, não respondi os comentários ainda, mas antes de postar o próximo com certeza o farei. Explicando um pouco sobre este capítulo: originalmente ele seria bem maior - pelo rascunho havia ainda outras três sequências antes de concluí-lo. Mas eu fiquei com vontade de homenagear o Miluxo e a Yuki chan, portanto, dividi de forma a fazer sentido na história. Créditos da fanart: Pixiv ID: 26202724 Member: さね@健康飲料 Explicações dos termos numerados e link para o tema do capítulo nas notas finais. Ah, gente, nem betei direito, para dar tempo de homenagear os aniversariantes. Vou corrigindo os erros à medida que, relendo, eu os for encontrando. Perdoem-me pelos erros. Boa leitura!!!

— E então, senhor Afrodite? Contar-me-eis o que preciso saber para ajudar-vos?

O sueco ponderava os ocorridos, as possibilidades, nunca abandonando o olhar firme e determinado do homem à sua frente. Deus... ele parecia sincero. Uma loucura, não conhecia Shura há tanto tempo, pelo contrário, fazia apenas duas semanas desde a primeira vez em que com o cavaleiro travara contato.

Não sabia se por, efetivamente, não ter relações com muitas pessoas devido à estrita dedicação em que vivia por e para Camus, mas o certo é que gostava do castelhano. Incrível que um homem tão centrado, equilibrado e cortês fosse o melhor amigo do detestável Milo d’Auvergne! Quem sabe ele realmente pudesse pôr juízo na cabeça daquele ímpio! Era inadmissível que Milo tratar Camus tão grosseiramente enquanto enquanto convivessem... ele não podia fazer muito àquele respeito... as cruéis palavras do conde era odiosamente verdadeiras, e o próprio amo com elas concordara! E se Milo algum dia resolvesse servir-se do “direito de vida e morte sobre a esposa” para enfim livrar-se do jovem com quem fora obrigado a se unir em matrimônio?

Contudo...

— Senhor Afrodite...

Cerrou os olhos refletindo.

Tinha um pacto com Camus.

Tinha um pacto com o venerável duque de Borgonha.

Não. Não havia como traí-los! Contar SEU MAIOR SEGREDO!

Camus o odiaria.

— Senhor Afrodite.

“Camus odiar-me-ia.”

Camus estava perdido. Irremediavelmente perdido. Por se ver preso àquele lugar, àquela vida, àquele homem... por AMAR aquele homem...

— Vou dizer-vos o que ocorre, senhor Shura – os olhos de águas cristalinas reapareceram diante dos de águas profundas – Vosso amigo é um ímpio. É isso que ocorre.

Shura balançou a cabeça, contrariado.

— Não ireis me contar. Essa é vossa decisão.

— Oras, se não estou a fazê-lo! – retrucou o loiro – Pois bem, o senhor conde resolveu pôr as garras de fora tão logo se viu a sós com minha senhora. Sei que vós o conheceis como homem bom e justo. Porém...

— Está bem. Não tenho como obrigar-vos a me falar se não o quiserdes. Ou... se não o puderdes...

Entristecido, o camareiro calou-se. Abaixou o rosto, sentindo-se culpado de várias formas. Então sentiu o toque suave dos dedos do moreno em seu queixo, erguendo-o com delicadeza.

— Não vos desanimeis. Falarei com ele de qualquer jeito – prometeu, amável.

— Senhor Shura...

— Chamai-me Shura tão somente.

— Shura – repetiu o ex-pajem, saboreando aquele nome como um encantamento – e vós podeis chamar-me Afrodite. E... podeis tutear-me.

— Agradeço-te. De igual maneira podes tratar-me.

O loiro sorriu, aquecido por aquele estreitamento de amizade no momento em que mais necessitava.

— Bom. Malgrado seja muito cedo, não creio que voltarei a dormir. Penso em dar uma volta antes da refeição matutina (1), ver o sol nascer das belas montanhas que nos cercam... acompanhas-me?

— Com muito gosto – concordou o sueco, animadamente. Juntos desceram as escadarias, cruzando com alguns criados já ocupados com seus afazeres.

*************

O canto dos rouxinóis irrompia pelos ares mornos da manhã. Seria mais um dia quente, e o verão sequer iniciara...

Milo despertava, a dor em sua cabeça como espadadas contínuas em sua fronte.

Percebeu que estava sozinho na cama enorme. Aquela constatação trouxe-lhe em uma horrível torrente a lembrança do que fizera. As pontadas na cabeça tornaram-se ainda mais contundentes.

“Camus! Deus... o que eu fiz?...”

Ignorando a vertigem pôs-se de pé, olhando ao redor. Não se surpreenderia nada se o jovem tivesse deixado o quarto. O que Milo lhe fizera... era inominável! Possivelmente Camus NUNCA havia sido tratado daquela forma!

Para onde teria ido?

Quando ia se dirigir para a saída dos aposentos deparou-se com uma cena inusitada.

Deitado no chão, virado para a parede de pedra, com o corpo diretamente no assoalho, sem nem ao menos usar um dos lençóis...

— Camus... – murmurou, comovido com o que via: o imponente primogênito do poderoso duque de Borgonha estirado no chão como um cão... nem mesmo o mais miserável dos servos ou dos camponeses havia de dormir daquele modo degradante! E àquela humilhante situação submetera-se o ruivo por causa de SEU destempero!

Sentiu-se sinceramente mal. Não podia deixar que o outro continuasse a dormir ali!

Agachou-se próximo a ele. Via apenas uma parte de seu rosto pálido.

Profundamente adormecido, malgrado o frio e a rigidez da superfície do que tomara como leito. Havia de estar MUITO cansado para render-se a um sono tão profundo naquelas condições!

“Preciso colocá-lo na cama, acabará adoentado se permanecer aí”, decidiu, preparando-se para carregá-lo nos braços até a alcova.

Não obstante, ao sentir-se tocado, Camus acordou e, ao perceber, sonolento, que era Milo a tentar pegá-lo no colo, em um reflexo se retraiu, em um gesto tão brusco que assustou o loiro. Encostou-se rapidamente na parede, em seguida soltando um gemido de dor; ao desvencilhar-se do marido, apoiara as mãos no chão e seus pulsos magoados pelo conde se ressentiram daquilo. Cerrou os olhos com força, segurando com a mão direita o antebraço esquerdo.

O rosto de Milo contorceu-se de piedade e remorso. Ver o orgulhoso Camus praticamente imprensado contra a parede de pedra, sentindo dor e... talvez MEDO...

Que diria seu pai?

Que diria seu padrinho Teobald II?

Ambos CONFIARAM nele, como cavaleiro que era...

— Camus... vais ficar doente se continuares neste solo gelado – a voz baixa sondou terreno.

Ele nada respondeu. Tinha os grandes olhos avermelhados fitos nos azuis turquesa. Nada respondeu. Parecia procurar assimilar o que estava acontecendo.

— Eu ia levar-te para a cama em meus braços quando...

— Não me toqueis.

Ante aquele tom amargamente autoritário, Milo deteve a mão que estendia para o esposo. A expressão compungida imediatamente transmutou-se em uma gélida.

— Como quiseres.

Afastou-se para que Camus se levantasse, o que fez com certo esforço, já que tinha os pulsos doloridos. O loiro percebeu nos antebraços descobertos marcas de dedos... de SEUS dedos.

Por que havia sido tão bruto?

Com efeito lembrava-se de suas ações, porém não compreendia por que se excedera tanto. Tempos atrás decidira que, mesmo que não estabelecesse relações de amizade com o rapaz, não fá-lo-ia sofrer.

“Não quero sofrer, tampouco quero que ele sofra”, não havia sido esta a resolução?

Vendo-o de pé, anunciou:

— Em breve providenciarei mobiliário decente para esta habitação, e estes aposentos não estarão excluídos desta providência. Quem sabe uma cama romana, ou um divã marroquino... para quando não quiseres dormir no leito estando eu nele.

— Muito agradecer-vos-ia – respondeu secamente, ajeitando a camisola branca.

— Bom, podes servir-te do leito agora, não retornarei a ele.

— Somente quando a criada trocar TODA roupa de cama voltarei a dele me servir.

— Insinuas que estou SUJO? – reclamou o cavaleiro, ultrajado.

O ruivo fuzilou-o com o olhar; foi resposta suficiente.

— Está bem – rosnou, enquanto se virava para dirigir-se à porta – chamarei alguém para...

Não pôde concluir; terrível mal estar dele se apossou, a ponto de ter de se apoiar em uma coluna. Camus observou-o, um pouco assustado. Ficou em dúvida se ajudava ou não.

— Senhor Milo?

O cavaleiro soltou um gemido rouco. O mal estar aumentara significativamente, talvez pelos movimentos de se agachar junto ao marido, e levantar-se de supetão. Em passos hesitantes, Camus adiantou-se para ele.

— Que estais a sentir?

E então, ao virar-se para ele, o loiro deu dois soluços, pareceu sufocar-se um instante. Inconscientemente apoiou a mão no ombro de um surpreso Camus e tentou prender o ar, mas... tarde demais: o jorro de vômito veio, abundante, entre os dois. Camus suprimiu um grito.

Tão nauseante quanto inesperado foi aquilo que ambos se mantiveram mudos, um olhando terrificado para o outro.

— Bem – o ruivo finalmente pôde articular, afastando os braços do tronco atingido – agora penso que não ireis recusar aquele banho.

— E eu penso que tu também precisarás de um.

— Graças a vós.

Milo bem que tentou conter-se, porém o sorriso que nascera em seus lábios sujos converteu-se em um cômico riso. Àquilo o marido respondeu com um menear de reprovação...

Serviçais foram chamados para limpar o recinto e preparar-lhes o banho em uma sala anexa, à moda das antigas casas de banho patrícias. Havia ali não uma tina ou uma banheira de tamanho normal, mas um tanque de mármore, herança da dominação romana anterior à bárbara na região. Raros eram os castelos que daquele luxo desfrutavam. Ao que parece, os Auvergne, dado seus constantes contatos com islâmicos e orientais, tomaram para si certas excentricidades não muito caras à maioria dos europeus...

O interior da banheira, que já continha água até a metade, fora completado com água quente trazida por quatro criados. Mantinha-se sempre em alguns dos fogareiros da cozinha caldeirões com água, regularmente aquecidos para que a mesma estivesse sempre à disposição dos senhores. Enquanto os servos completavam o tanque, em uma saleta fechada os jovens nobres tinham os corpos previamente limpos com o auxílio de Afrodite, que para a função fora chamado com urgência. Shura dera uma bela gargalhada quando soube o motivo...

Dispensados os criados, voltou-se a trancar o apartamento. Afrodite foi ajudar Camus a entrar na banheira, que possuía cerca de 1,50 m do chão, e tinha degraus igualmente de mármore, tanto do lado externo quanto do lado interno. Milo permanecera o tempo todo de costas para Camus, mas sabia-o nu, como ele, aliás. Saber que o camareiro-mor via livremente a nudez do ruivo sempre fora considerado por ele algo trivial, dado o ofício que o sueco desempenhara, e as necessidades do filho do duque. Contudo, era a primeira vez que o presenciava... e aquilo perturbava-o. Franziu as sobrancelhas, perturbado, sobretudo, por se perturbar...

— Obrigado, Afrodite. Não é difícil entrar. Da próxima, nem precisa incomodar-te comigo – disse Camus, deliciando-se com a água tépida – Podes retirar-te.

— Claro... com tua licença – decepcionado por ter sido dispensado tão rapidamente, o ex-pajem fez uma breve mesura e se retirou. Não se furtou a lançar para Milo um olhar frio e desafiador antes de deixar a sala de banhos. O cavaleiro revidou encarando-o de modo ameaçador.

— Mas é um impertinente que não reconhece MESMO seu lugar – resmungou, vendo a porta se fechando – Está fazendo por merecer o que lhe prometi...

O som vindo da banheira chamou-lhe a atenção, fazendo-o imediatamente se esquecer de Afrodite.

Olhou para ela.

O marido parecia experimentar imenso prazer em meio ao vapor que se elevava. Tinha um sorriso sutil nos lábios, de forma que era mais a paz que se via nos olhar relaxado que atestava seu bem estar.

Sendo os banhos itens de distinção entre os nobres, era normal que muitos fidalgos se entregassem ao hábito meramente por status (2). Não era o caso de Camus, Milo podia notar; o ruivo REALMENTE apreciava a água. Jamais o vira tão à vontade, tão regalado como ali imerso no belo tanque de mármore. Parecia que, naquele instante, Camus sequer se dava conta da presença ou mesmo da existência de Milo! Recostara a cabeça na borda, fechando os olhos e entreabrindo os lábios, deixando entrever os bonitos e simétricos dentes. A temperatura cálida expulsara a palidez de seu rosto, agora vermelho no nariz e nas bochechas.

Milo tiritava; a despeito de sua notável resistência, como grande guerreiro que era, um de seus pontos fracos era justamente o frio... odiava-o! Simplesmente odiava sentir frio! Olhou para a banheira... olhou para Camus de novo... aquela névoa promissora... pensou por dois segundos, talvez...

O ruivo abriu os olhos, fechados até então, ao perceber que o cavaleiro entrava na banheira. Sobressaltou-se e fez menção de sair, ao que o outro ergueu a mão, dizendo:

— Não carece de saíres. Há espaço suficiente para nós dois.

Ressabiado, Camus encarou-o, como se dele desconfiasse de alguma má intenção. Desvendando aquela suspeita, o loiro esclareceu:

—Eu estava a congelar. Até tu terminares, a água estaria fria de novo.

— Sinto muito por ter entrado antes de vós. Posso sair e esp...

— Não te incomodes. De mais a mais, dormiste nesse chão gelado, precisas aquecer logo teu corpo.

Confuso, o ruivo manteve-se amuado, evitando olhar o marido. Este suspirou, apreciando o aconchegante calor. Na posição em que estavam, via-se apenas até a base do pescoço de cada um. Ainda assim, Camus constrangia-se. Tanto pela situação entre si quanto pelo desconforto que sentia perto de Milo após o ocorrido de madrugada. Vendo-o não mais à vontade como antes, o loiro começou a falar:

— Não é novidade para mim banhar-me na presença de outro homem, sossega-te, por Deus! Quando se está em guerra, nem sempre se dispõe de tempo ou de espaço... ou de água – riu de leve.

Notou que o outro ainda evitava contato visual. Tomou fôlego e enunciou:

—Camus... perdoa-me. Eu estava bêbado. Eu... não tive a intenção de assustar-te, e muito menos de... de te ferir.

Erguendo timidamente os olhos castanhos para ele, o ruivo não encontrou o que responder.

— Excedi-me... reconheço-o e peço-te sinceras desculpas.

Sem muita vontade, Camus assentiu.

— Deixa-me ver teus pulsos – aproximou-se dele.

— Estou bem, senhor Milo, não vos preocupeis.

— Mostra-mos, insisto.

A contragosto, o jovem levantou as mãos, tirando-as de dentro d’água. Ao redor dos pulsos, as marcas já haviam se tornado manchas arroxeadas. Claro, aquela pele delicada, própria de uma donzela nobre que nunca se sujeitara a um esforço sequer... não fora assim que ele vivera por tantos e tantos anos? Desde que àquela farsa fora sujeitado?

A culpa voltou a morder a consciência do cavaleiro.

— Permite-me – estendeu para o rapaz suas mãos. O ruivo, paralisado, deixou que Milo tocasse de leve as áreas magoadas.

— Sinto muito por isto – balbuciou – Deve estar doendo...

— Não está – mentiu, em um fio de voz. E aumentando-a – com a vossa licença, já acabei.

— Esfregarei tuas costas, ser-te-á impossível com... bom... – meio sem jeito, tomando da esponja (3), Milo ergueu-se um pouco, fazendo um atordoado Camus ficar ainda mais vermelho. Sentiu os ombros serem delicadamente esfregados. Em seguida as costas. Prendia a respiração de quando em quando. Milo fingia indiferença, Camus fingia tranquilidade.

— Tens realmente a pele de moça.

— Ao contrário de vós, vivi como uma.

— Eu sei.

— Aliás... vivo – completou, desanimado – E agora, como moça casada. O que devo considerar pior ainda.

Milo engoliu em seco, sabendo-se merecedor da incômoda colocação.

— Imagino como deva ser difícil para ti.

Por mais que buscasse palavras, Camus não as encontrou, e optou novamente pelo silêncio. Ficou a aproveitar aquele agradável momento, sem saber que o outro também daquilo se agradava.

— Bom, está acabado.

— Obrigado. Posso esfregar-vos também, se assim vos aprouverdes.

— Não é necessário. E isso exigiria de teus pulsos machucados.

— Não é tão sério.

— Menosprezas minha força? – ergueu uma sobrancelha, divertido.

— Não. Mas vós menosprezais a minha.

Surpreso com a réplica, Milo o encarou. Então retirou os longos cabelos das costas, dizendo:

— Está certo – e entregou-lhe a esponja.

Com o coração aos pulos, o mais novo a pegou.

Nunca havia esfregado as costas de ninguém!

Na verdade... nunca havia tomado banho com ninguém... já tinha visto as irmãs se divertindo daquele jeito quando crianças, o que para ele, obviamente, era um ato proibido de se desfrutar...

— AU! NÃO TÃO FORTE!

— Perdoai-me.

— Queres esfolar-me os ombros?

— Assim está melhor?

— Não tão suave!

— E assim?

— Hum. Sim. Melhor.

Camus experimentava temor e alegria, simultaneamente, enquanto desempenhava aquele ato tão íntimo... poderia acreditar que mesmo após tanta tensão entre eles haveria chance de um convívio não tão conflituoso?

Tinha medo de ter esperança. A bem dizer, sequer era de seu feitio ESPERAR por algo...

...não obstante...

— Tendes cicatrizes extensas em vossas costas – comentou, distraidamente.

— Estive em inúmeras batalhas. Seria inevitável não tê-las. Penso que possuo até poucas, em vista do que por que já passei.

— Fostes ferido em batalhas?

— Em algumas vezes sim. Em outras… — o loiro puxou para frente algumas mechas aneladas que teimavam em voltar para trás – ganhei-as no cativeiro.

— Cativeiro? Fostes feito prisioneiro?

— Sim.

— E... sofrestes... – arrepiou-se só de pronunciar – tortura?

Milo gargalhou:

— Como imaginas que consegui tão belas marcas? Tropeçando na prisão?

Camus mordeu o lábio inferior, sob indisfarçável angústia. Milo sentiu a pressão sobre seus músculos diminuir.

— Sentis dor? Digo… nos locais em que…

— Quê? Não! – riu o cavaleiro. E suavizou o tom, enternecido por aquela preocupação – Não. Não sinto nada.

— Graças a Deus – murmurou o ruivo.

Abaixando a cabeça, o loiro pôs-se a analisar: mesmo depois de ter agido com violência com o rapaz, ali estava ele, consternado com as cicatrizes justamente de quem deixara-lhe hematomas nos pulsos e nos braços!

— Precisamos nos alimentar. Já se faz tarde – falou, erguendo-se. Camus evitou mirar-lhe a nudez, o que acabou por ser em vão, pois o esposo se posicionou bem de frente para ele do lado de fora; estendia-lhe a mão para ajudá-lo a sair. Pensou em recusar aquele auxílio, contudo temeu ofendê-lo... levantou-se, extremamente envergonhado.

Ainda que simulando estar tão tranquilo quanto o cavaleiro.

Malgrado fingisse não notar, a beleza daquelas formas não lhe passou despercebida. Não... como poderia? Aquela pele levemente trigueira pelos sóis de tantas jornadas, de tantas terras exóticas, aqueles músculos pelas aventuras moldados, aquele peito largo de poucos pelos, dourados como os magníficos cabelos.

Enquanto o ruivo tentava de todas as formas desviar o rosto avexado, o marido, tomando-lhe as mãos, aproveitou-se para rapidamente olhar aquele corpo que era-lhe como um mistério proibido... em nenhum momento olvidara de que Camus fosse um homem; no entanto, vê-lo desnudo, tão de perto, tão másculo, parecia uma descoberta.

Bom, ERA, efetivamente, uma descoberta.

Foi-lhe custoso desviar o olhar. Foi como se uma mão invisível empurrasse sua cabeça...

Então ele viu...

O pescoço longo e marcado por constantes disfarces impostos à sua masculinidade... os ombros largos salpicados de algumas poucas sardas... o peito imberbe avermelhado pelo calor do banho... acompanhou, extasiado, o deslizar da água em seu torso magro, rumo ao ventre plano em cujo final distinguia-se a rubra penugem...

Teve que levantar logo os olhos, ao mesmo tempo em que umedecia os lábios, subitamente ressequidos. Deu-lhe as costas, indo pegar duas macias peças de linho egípcio penduradas em uma haste de ouro afixada em uma coluneta de alabastro. Entregou uma delas ao marido e com a outra começou a se enxugar.

— Chamarei o insolente de teu camareiro para vir te vestir. Dirige-te para a sala de refeições em seguida.

— Não tenho fome, meus senhor...

— Dei-te uma ordem, Camus – retrucou, sem compreender a repentina irritação que sentia.

O ruivo franziu o cenho, comprimindo os lábios. Milo tirou a franja molhada úmida da testa e, revirando os olhos, emendou:

— Principalmente do que houve aqui, precisamos refazer as aparências deste matrimônio, Camus. Entendes o que digo?

— Sim.

— Ademais – virou-se novamente, não mais tendo-o em seu campo de visão – amanhã partirei com Shura para a Ibéria (4).

— Para a Ibéria? – perguntou o outro, quase deixando cair o tecido.

— Exatamente. Tenciono fazer alguns negócios, em prol de Saint-Doulchard, falando tanto da região quanto desta fortificação. Trarei, inclusive, livros o bastante para deles fornir adequadamente a biblioteca. Shura possui interessantes contatos, e não somente com mercadores (5). Será excelente, creio que agradar-te-ás com eles.

— Ficareis fora por muito tempo?

— Pretendo retornar em, no máximo, três meses.

“Três meses!”, o ruivo tornou-se pesaroso; não podia atinar todo aquele tempo longe do esposo! Com quantas mulheres ele iria...!

— Não te preocupes – Milo pegou sua túnica de baixo, disposta juntamente com as roupas de Camus sobre uma bancada de mármore rósea – o castelo estará fortemente guardado. Um novo contingente de guardas está a caminho daqui. Protegerão Saint-Doulchard juntamente com os que já cá estão.

Concordando com um menear de cabeça, o filho do duque mergulhou em uma tristeza imediata.

Vestindo-se com presteza, o loiro falou:

— Muito que bem, estou faminto! Por favor, não te demores, sim?

— Não demoro – ciciou, colocando a roupa de baixo limpa.

Sinalizando aprovação, Milo saiu do cômodo, acreditando que apenas a ele aquele pesar vinha atormentar.

Enquanto caminhava lépido pelo corredor, refletia, amargo:

“Vem em boa hora, este meu exílio.”

*************

Notas finais
(1) A frequência e a ordem das refeições na Idade Média variava tanto com a época quanto com a região, a estação do ano, as posses da família, a disponibilidade do alimento, etc. Contudo, nas pesquisas vi que basicamente eram de duas a três, e seus nomes variam entre almoço, jantar e ceia. Não vi registro de desjejum e muito menos café da manhã, logo, penso que não era uma refeição muito fixa. Em alguns lugares, antes de trabalhar, os servos consumiam caldos, pão ou mingaus de trigo. Os ricos basicamente consumiam carne. Havia uma refeição por volta das 10 da manhã, a qual em alguns lugares vi sendo chamada de "jantar"(!)... olha, é bem complexo e discutível, então na fic vou considerar três refeições. Esta das 10h, o jantar e a ceia. Logo, essa à qual o Shura se refere seria a mais frugal. E vou fazê-los chamar de "refeição matutina". (2) Ainda a polêmica do banho na Idade Média... os historiadores se dividem nisso. Eu escolhi o lado que sere à fic e à minha crença de que "nem tudo é 100% como nos dizem ser": Muito embora séculos depois tivessem afirmado o contrário (notadamente os iluministas) o banho era um elemento de status da nobreza. Sendo a alimentação e o aquecimento do lar prioridades aos menos abastados, destinar lenha para banhos era um luxo com que poucos podiam arcar. A prova de que os ricos não se faziam avessos aos banhos são os registros e tratados da época que preconizavam a prática, tendo existido, inclusive, casas de banho por toda Europa. A Igreja, sim, não via o hábito com bons olhos, associando-o à lascívia. E a partir daí, ele se tornaria um tabu... O que se verificou muito mais na Era Moderna que na própria Idade Média! Sendo o banho item de status, era normal que muitos fidalgos deles se servissem tão somente por ostentação. Claro que sei que nem assim é como hoje - helloooo, mesmo hoje, não é no mundo todo que se toma banho regularmente não, tá... - mas sirvo-me da licença poética. E viva ela. (3) Os antigos egípcios e romanos já se serviam de esponjas naturais para se esfregarem. Ainda que eu duvide que os europeus usassem isso - talvez os "viajados" e "orientalizados", como Milo - fiz os nossos limpinhos usarem... (4) Ibéria - não era um país, e sim uma parte da Europa que compreendia o que hoje é, principalmente, Portugal, Espanha. À época da fic, 1192, era formada pelos reinos/condados de: Leão, Castela, Navarra, Aragão, Catalunha (pode ter algum erro aí, em cada lugar acho variações, mas basicamente, é isso) (5) Um dos paraísos do "intelectual" na Europa certamente seria nesta região, por oito séculos ocupada em diversos lugares pelos muçulmanos - em muitos textos mencionados como "árabes", mas eram de outras nacionalidades. Foi graças à permanência deles que inúmeras obras literárias, filosóficas, científicas, históricas para lá foram levadas, e, como Milo disse no capítulo anterior, muitas foram traduzidas e transcritas por clérigos. Ocorre que grande parte dessas obras permaneceu nos mosteiros, e, possivelmente, é a "esses contatos" que Milo se refere, quando diz que Shura possui "contatos" além dos mercadores para adquirir os livros. ************* Parece que os recém casados estão se entendendo, embora ainda não cedam ao que REALMENTE querem... será uma mera trégua ou o início de novos tempos? E quanto a essa viagem de Milo? Acarretará em algo de bom ou de ruim em suas vidas? Tema do capítulo https://www.youtube.com/watch?v=NNjnZwFysqM Muito obrigada por prestigiarem, e até o próximo capítulo!