Dame Jolie

16 A Partida


Notas iniciais
*** Atenção, estou postando este capítulo antes de responder todos os comentários, pois fiquei um dia inteiro sem Internet, devido a um vendaval aqui na área, e tenho medo de que ela caia de novo antes de atualizar conforme prometi *** Olá a todos :) Eis que, como adianta o título, é chegado o momento da partida de Milo. O loiro diz que não voltará a Saint-Doulchard em menos de três meses... como serão os momentos que antecedem essa partida? Gostaria de agradecer o carinho e o apoio com os quais vocês têm me presenteado, principalmente os que prestigiaram com um comentário :) Agradecimentos mais que especiais à fabulosa Washu M., que ilustra a capa deste capítulo. Mais uma obra prima, sem sombra de dúvida (eu fico toda hora babando nessa imagem, hehehe) Explicações para os trechos numericamente marcados e link para o tema do capítulo nas notas finais. Boa leitura!

Milo chegou à sala de refeições, onde já se encontravam Shura e Afrodite. Recebeu dos dois um duro olhar de reprovação. Pigarreou antes de dizer em tom autoritário:

— Afrodite, vai ajudar tua senhora a se arrumar.

— Pois não, senhor conde – ergueu-se da mesa, a raiva bem aparente em sua voz. Ao se dirigir à saída, ainda foi interpelado pelo cavaleiro:

— Já providenciaste tua mudança para o pavimento inferior? Eu não estava a delirar quando falei que não te queria mais dormindo do lado de meu quarto.

— Pedi aos criados que transportassem meus pertences para um cômodo no andar de baixo ainda esta tarde – respondeu, sem conseguir disfarçar seu desagrado.

— Hunf. Deverias alegrar-te. Apesar de teu ofício, és nobre de estirpe. O quarto que ocupavas era destinado a uma criada. Agora ocuparás aposentos dignos de tua origem – sentou-se à mesa já repleta de finas iguarias.

— Agradeço vossa generosidade, senhor conde de Saint-Doulchard – o “agradecimento” foi o mais azedo possível.

— Não precisas chorar de alegria, agradece minha generosidade indo fazer o que te mandei. Vai-te logo.

O sueco retirou-se da presença dos nobres quase bufando de ódio. Indiferente àquilo, Milo prontamente arrancou uma coxa do vistoso ganso recheado de vitela e uvas verdes. Abocanhou um naco com vontade; a embriaguez trouxera-lhe apetite descomunal! Enquanto mastigava a carne com gosto, percebeu o olhar zangado do castelhano sobre ele.

— Não me dirijas essa mirada, ou acabarei engasgando-me.

— Milo...

— E sobretudo não me dirijas teu famoso julgamento implacável, Shura. Sei que ouviste meu rompante irracional e provavelmente pretendes passar-me algum sermão, conheço-te!

— Ao menos reconheces que foste irracional.

— Sim, reconheço – estendeu o cálice para que uma criada lhe servisse vinho – e já entendi-me com Camille.

— Tu juras por Deus? Pediste perdão à tua esposa por ter sido rude para com ela?

— Sim, sim, não acabei de dizer que me entendi com ela? – respondeu, impaciente. Encheu a boca de vinho.

O castelhano balançou a cabeça, servindo-se do pudim de ovos com miúdos de porco. Opinou, severamente:

—Deverias beber com parcimônia. Tua ebriedade foi a causa de tão grave contenda.

Uma resposta malcriada veio à mente do loiro. Vendo-o abrir a boca e adivinhando-lhe a vinda, o marquês ajuntou:

— Não és mais o filho do conde d’Auvergne. És o governante de uma terra. É o conde de Saint Doulchard. Hora de começar a agir como tal.

A reprimenda surtiu efeito em Milo. Reconheceu pertinência nela... afastou de si o vinho e pegou um copo vazio.

— Dá-me água – ordenou à serviçal, em um resmungo.

— Um dia ainda hei de entender o que se passa contigo. Justamente quando uma mulher conquista teu coração, tu a tratas mal...

Foi interrompido pelo engasgo do amigo, que quase se sufocou. Tossiu um pouco, antes de retrucar:

— Do que estás a falar? Acaso és tu que estás ébrio agora?

— Tolo, não estou ébrio.

— Que mulher conquistou meu coração?!?

— Camille, oras.

— Que sandice...

— Ainda me deves a explicação do por que estás a fugir disso. Não penses que me esqueci.

O loiro tossiu mais.

— Obtiveste a rara graça de ter sentimentos pela dama que desposou, e a desperdiças. Milo, como fiel servo de Deus, eu chego a considerar isso um pecado contra nosso Senhor. Tu desprezas uma dádiva que a ti Ele concedeu. Dádiva essa que concede a tão poucos...

Apertando firmemente o copo com os dedos, o conde, sem querer, abaixou a cabeça, atingido de forma certeira por aquela reflexão.

Como nunca pensara de tal modo?

Ele achava que se aceitasse o que sentia por um homem estaria desagradando a Deus.

Contudo... conforme bem apontara Shura, ele já o estaria fazendo, ao desprezar aquela “dádiva”. Em uma época na qual casamentos constituíam meros acordos de negócios entre famílias, e em que grande parte dos homens e mulheres casavam-se sem nem ao menos terem se conhecido antes... ele fora unido a uma pessoa por quem todo o seu ser clamava.

Sua alma. Seu corpo. Seu coração.

Sim... todo o seu ser clamava por Camus.

E ele O TINHA. Casara-se com ele.

“Deus salvou-o da morte. Deus o pôs em minha vida. Deus, que me criou, que criou meu coração... acaso não terá sido o próprio Deus a semear nele o que sinto? Que estou eu a pensar, lutando contra tal ensejo? Nada existe se não for de Sua vontade...”, pensava, uma dor crescente no peito...

— Ah, sua senhora chegou.

Milo ergueu a cabeça, seus olhos azuis indo contra o que sua mente tinha decidido fazer: ignorar Camus, que adentrava o recinto, seguido pelo camareiro-mor. O ruivo trajava um vestido cinza com estampa de folhas, cujos mangas e corpete possuíam tonalidade mais escura, beirando o petróleo. Uma roupa que em qualquer dama poderia cair simples ou casual, mas que nele tornava-se magnífica.

“Impressionante como tudo cai bem no miserável... mesmo sendo homem, faz sombra a todas mulheres que já vi”, pensava o loiro, vendo o esposo fazer uma elegante reverência antes de tomar seu lugar à mesa, de frente para os dois que ali estavam. A seu lado Afrodite sentou-se. Puseram-se a se regalar com os acepipes e conversações triviais.

— Marquês Shura, lamentarei vossa ausência nesta habitação. Sentirei falta de nossas palestras durante e após a ceia – comentou “Camille”, com branda amabilidade.

— Também eu sentirei falta de convosco parolear. Palavra de honra, cara senhora, jamais encontrei tamanha agudeza de espírito em uma dama. E também sentirei falta de conversar contigo, caro Afrodite.

— Tem a certeza de que é recíproco, Shura – respondeu o sueco, sorrindo-lhe.

Vendo os dois se tratarem por “tu”, os dois cônjuges arregalaram os olhos ao mesmo tempo.

— Auxiliarei Milo em variados negócios, e, em seguida, pretendo resolver algumas questões de ordem administrativa junto à minha família em Castela. Tão logo tudo se resolva, retornarei a estas paragens. Milo virá na minha frente, já trazendo volumes que, creio, farão vosso deleite.

— Evidentemente confio em vosso bom gosto e conhecimento, contudo, podeis adiantar-me alguns títulos que porventura tenhais em mente?

Não foi com satisfação alguma que Milo viu os olhos de Camus brilharem ao enunciar aquela pergunta. Sabia que aquele entusiasmo era pelos livros... mesmo assim...

— Ah, senhora condessa, seria como nomear as estrelas do céu, o que igualmente competiu à sabedoria dos mouros fazê-lo... estes, quando tomaram a Península Ibérica, trouxeram além do terror e do medo, seus conhecimentos a nós superiores. Como tomaram a Biblioteca de Alexandria, de lá arremataram milhares de livros, muitos dos quais encontram-se em castelos e mosteiros da Catalunha até Aragão... – contava o moreno – Sabeis que além dos fornecedores em quais penso, há centenas de bibliotecas por lá?

— Isso é fascinante – disse o ruivo, pousando o queixo na palma da mão, sonhadoramente – Marquês Shura, dizei-me, falando das estrelas, por que os mouros as conhecem tão mais do que nós?

— Ao contrário de nós, que precisamos viajar de dia porque a noite se faz gelada, os árabes e demais povos daquela região precisavam viajar à noite, visto ser escaldante o dia que lhes iluminaria os caminhos. Sem poder contar com a ajuda da luz, passaram a contar com as estrelas, e aprenderam a lê-las, a fim de desvendarem as direções.

— Que incrível! – impressionou-se o camareiro-mor.

— A ameaça que sobre nós e a terra de Nosso Senhor representaram não lhes apaga a supremacia intelectual. Ao contrário de muitos destas terras, a maioria de nossos povos ibéricos preferiu desse brilhantismo se servir.

Revirando os olhos, Milo não fazia menor menção de sair do isolamento que ele mesmo se infligira durante a conversa. Também estava a par de tudo aquilo que o castelhano dizia, e que angariava a atenção admirativa dos dois deslumbrados. Porém, recusava-se a participar do profícuo diálogo.

— Eu li que os filhos de Ismael são dados ao conhecimento porque este é um dos preceitos do deus deles... quando seu profeta recebeu a visita do Arcanjo Gabriel, este lhe disse “leia esta revelação”, e não tão somente a revelou – comentou Camus, ao que Afrodite falou:

— E que revelação seria essa?

— É o próprio livro deles, a imitação deles de nossas Sagradas Escrituras...

— Não é bem uma “imitação”, senhora, contudo, o que leste condiz com o registrado – corrigiu Shura – chama-se “Alcorão”. A parte boa é que assim abandonaram o primitivo politeísmo a que se entregavam. Bom, pelo menos, os que triunfaram por meio dessa nova religião. Mas, voltando à vossa pergunta inicial, senhora Camille, tende preferência por algum gênero?

— Estou certa de que agradar-me-ei de quaisquer que sejam os volumes trazidos – respondeu o ruivo – Penso, outrossim, que tenho particular afeição por poemas, epopeias, tratados filosóficos e romances de cavalaria. Ah, e contos populares e tradicionais!

“Diz logo que gostas de tudo, exibido”, pensou um emburrado Milo, limitando-se a comer.

— E tu, Afrodite? Possuis algum desejo literário em especial?

— Bem... prefiro deixar a teu cargo. Sei que não me decepcionarei. Entretanto, agradar-me-ia sobremaneira de tratados de botânica e medicina... quase não possuímos cá títulos que versem sobre esses assuntos. E sobre os mesmos são os islamitas e demais orientais bem mais avançados que nós.

— Pois muito que bem, tem a certeza de que chegará em tuas mãos o que há de melhor.

Milo e Camus se entreolharam: quando foi que aqueles dois haviam ficado tão próximos?

*************

O dia passou, entre as últimas preparações para a partida dos jovens nobres. À noite, não estenderam demasiado a ceia: eram perto das onze horas da noite quando resolveram se recolher, já que Milo e Shura pretendiam partir ainda pela manhã.

Camus havia dormido pouco, e mal, naquele dia, o que aliás vinha acontecendo há uma semana. Ainda por cima, tomara vinho um pouco além do que costumava beber, logo, só de tocar o colchão o ruivo foi tragado quase de imediato pelo sono. Sequer se cobrira propriamente. O marido, que fora checar uns documentos e guardá-los em sua bolsa antes de se deitar, deparou-se com ele já adormecido, de barriga para cima.

“Não bastasse estar fatigado pelo sono insuficiente, foi beber como um gambá”, pensou, torcendo a boca de canto. Tanto melhor, atestava. Trajando sua roupa de dormir, tomou lugar no leito. Ajeitou a colcha de pura lã só até um pouco acima da cintura. Não fazia frio que exigisse mais que aquilo, e, ao que parecia, o ruivo tivera a mesma opinião. Se É que estivera possibilitado de ter alguma... Ficou a lembrar do que ocorrera instantes antes, franzindo o cenho. Aborrecia-se só de pensar!...

Camus, Shura e Afrodite pareciam ter formado uma irmandade! Da qual ELE estava de fora, graças ao bom Deus... após o jantar, ficaram os três, como de praxe, diante da lareira, tomando vinho e dando continuidade ao assunto dos livros. Oras, ele TAMBÉM gostava de livros! Talvez o prepotente do Camus sequer soubesse. Devia se achar o único letrado deles dois... bem, de qualquer forma, nem sob tortura se juntaria a eles naquela conversa. Seria como aceitar “o miserável” e a “ama seca” do miserável! Tinha se contentado em se estirar em um divã à distância, verificando uma papelada qualquer que levaria na viagem. De vez em quando, respondia a Shura através de monossílabos, afetando total desinteresse por aquela “festinha particular”.

Oh, seria muito bom ficar três meses que fossem longe do estorvo que ressonava a seu lado.

Sim, muito bom.

Muito bom MESMO.

Cruzou as mãos sobre o peito, os olhos muito abertos fixos nos fundos do alto dossel.

Com efeito. Muito, muito, muito bom.

“Oxalá pudesse ficar mais tempo. No entanto, não há como deixar a propriedade sem minha presença por tanto tempo...”

Bem.

Agora... bastasse de reflexões. Carecia de dormir. Dormir bem para acordar disposto... e empreender uma jornada que o livraria de ver Camus por pelo menos três abençoados meses.

Dormir bem.

“Para isso precisas fechar teus olhos, estouvado”, ralhou consigo mesmo, em pensamento. Assim o fez.

Não demorou muito, entretanto, abriu os olhos.

Sob uma força invisível (só isso explicaria!) virou a cabeça um pouco para o lado.

O lado ocupado pelo “miserável”.

Pôs-se a observar o homem que ali dormia.

Um HOMEM.

Sim, um homem. Não uma MULHER, malgrado com... com AQUILO tivesse se casado.

Por vezes, precisava ficar se lembrando que aquilo acontecera de fato: que DESPOSARA UM HOMEM!

E no entanto... despojado das pomposas vestes femininas, da maquiagem, dos brincos vistosos e dos colares que sempre trazia aos montes no pescoço com objetivos não estéticos... conservava singela suavidade no semblante geralmente frio e altivo. Sim, olhando bem de perto, e sem todos os disfarces cotidianos, via-se sim que era um homem...

Um intrigante homem. E nem tão feminil como lograva ser no teatro no qual se via obrigado a atuar. No teatro de sua própria vida...

Nem ostensivamente másculo, nem delicadamente andrógino.

Um bonito homem jovem, de feição serena e, ao mesmo tempo, austera.

Bonito.

O “miserável” era bonito... certo, no que isso dizia-lhe respeito?

“Eu o beijei. Três vezes”, rememorava, perturbado. A primeira... uma simulação. A terceira, não diferia do que motivara a primeira. A segunda porém...

Oras. Que tinha ELE que ficar pensando naquilo? Nada daquilo fora autêntico. NADA!

No entanto... das três vezes algo ACONTECERA consigo.

Com seu corpo.

Com seu coração.

A parca iluminação a velas não teria possibilitado aquele estudo ao qual se lançara sem que disso se apercebesse; a proximidade, entretanto, cuidou de fazê-lo.

Sempre descobria algo novo naquele rosto, que raramente observava com a atenção que estava a empregar. O que percebia agora eram as longas pestanas acobreadas... e os lábios; não eram tão finos assim, vistos de tão perto. Não carnudos como os seus, mas possuíam volume sim... Camus deveria comprimi-los com frequência a bem da seriedade que ostentava. O ruivo dormia profundamente; sentia-lhe mesmo o cheiro do vinho, sem que isso fosse necessariamente desagradável. Ao contrário, algo de doce emanava dele... lembrava que havia sido exatamente essa a sensação que tivera ao provar a boca de Camus. Uma das mãos do ruivo pousava na altura do peito branco, que se deixava entrever pelo decote em V da camisola, cujas cordinhas das ilhoses afrouxavam-se...

Deu-se conta de que estava a admirar Camus adormecido há muito tempo.

Sim. Que não se atrevesse a negar.

Não estava mais simplesmente “observando”.

“Preciso dormir também. Oh, Deus, tende misericórdia de mim”, clamou. Nem mesmo ele sabia distinguir se pedia clemência para sua insônia ou para... para...

Urgia que dormisse!

Embora... o que quisesse realmente fazer...

Imagens não convenientes vinham-lhe à mente.

Em uma delas, a mão de Milo resvalara para a barra da camisola de Camus, puxando-a um pouco para cima e metendo-se por debaixo dela; teve acesso à cintura do ruivo, a princípio segurando-a afetuosamente, e, em seguida, acarinhando-lhe a pele macia. O ruivo, sem despertar, erguia um pouco o rosto, presenteando-o com sua exótica beleza... a mão do loiro descia-lhe pelos flancos, sempre acariciando, e desembocava nas coxas... traçava caminhos pela suave textura, atestando-lhe as belas formas, sempre com o olhar fixo em sua bela face. Engoliu em seco ao ouvir um gemido muito baixo. Será que Camus achava que era um sonho? Será que ELE, Milo, estava num sonho?

—Uhn…

O conde umedeceu os lábios, suspirando para dar vazão à taquicardia que dele se apoderava. A mão trêmula, que há muito sondava aquele corpo adormecido, deslizou mais para cima, encontrando o ventre plano de Camus. A princípio, queria ficar APENAS ali... mas seus dedos esticaram-se... e tocaram...

— Uhn...

Teve que abrir a boca para não sufocar. Puxou mais o ar ao tocar o sexo do marido. Adormecido como o dono. Acariciou-o até senti-lo principiar a se enrijecer. Nem assim ele acordava... não acordaria... passou a estimular o órgão que crescia entre seus dedos com movimentos constantes, sempre atento às deliciosas expressões de prazer que via no rosto de Camus; ele entreabria ainda mais os lábios úmidos, gemia mais, suas sobrancelhas uniam-se, e ele erguia mais o rosto, puro, casto, provocante, entregue...

Não havia como bloquear o que sua imaginação lhe trouxera.

Milo levou a mão até a barra da roupa de dormir, e por baixo do traje deixou-a se insinuar... mas não na de Camus.

Na SUA própria, por baixo da coberta de lã.

Deslizou seus dedos por suas fartas coxas, já encontrando seu membro ereto, duro como rocha. Fechou ao redor dele seus dedos, firmemente.

Sem deixar de mirar o marido a dormir, Milo pôs-se a se masturbar, as conjecturas e dilemas dissolvendo-se ao calor de seu desejo. No interior de seu baixo ventre o ardor, que começava a se irradiar pela extensão do pênis, vigorosamente estimulado, pela urgência do que sentia e da situação em que se encontrava: e se Camus acordasse?

Isso apenas o incendiou mais.

Imaginou-se avançando sobre o ruivo, já que fora flagrado... sem poder reter a necessidade corporal, ainda mais depois do que fazia... será que se Camus acordasse ele se renderia...?

Formando um anel com o indicador e o polegar ao redor do pênis, e ali empreendendo movimentos que quase o faziam erguer os quadris, o loiro imaginava tratar-se do ânus virgem do esposo... como não deveria ser...!

— Nnh... – gemeu, entre dentes ante este pensamento. Depois disso, certamente não demoraria muito... o aperto de seus dedos era o aperto do canal intocado... a pressão sobre ele era a pressão do interior cálido de Camus... a energia avolumou-se na direção da glande já extremamente úmida... sentiu o corpo todo tremer quando o ápice chegou... e em meio a espasmos os quais ele tentou controlar, a fim de não acordar Camus, gozou como há muito não gozara, nem mesmo com as mais experientes meretrizes. Precisou morder os lábios para não gemer alto. Durante aqueles segundos de pura explosão, não perdeu de vista o rosto do marido.

Sentindo-se amortecido pelo forte orgasmo, enfim cerrou os olhos que quase sequer piscara durante aquele ato. Ofegava, abrindo muito a boca, buscando sôfregamente o ar... todo seu corpo formigava. E o torpor convertia-se pouco a pouco em sono...

“Bom, pelo menos agora conseguirei dormir”, pensou, sem se entregar a qualquer análise sobre o que ocorrera...

Nem poderia. Sua mente nublada pelo prazer e agora pelo sono jamais permitiria.

Assim, o conde dormiu, tão profundamente quanto o jovem a seu lado.

*************

Seu sono não fora tão tranquilo quanto julgara que seria, dadas as taças de vinho que em geral o potencializavam.

Desistindo de esperar que o mesmo voltasse, Afrodite levantou-se e sentou-se na cama.

O dia começava a clarear.

Olhou em torno; seus novos aposentos eram bem maiores que os que ocupara até a noite anterior, e até maiores que os do castelo de Turenne. Afinal, sempre ocupara o que seria o quarto de uma criada, e para uma serva do povo, jamais seria construído um cômodo daquele tamanho. Nas paredes deste novo, tapeçarias belíssimas nas quais se viam cenas que provavelmente compuseram a história de glórias dos Auvergne. No chão, ricos tapetes orientais franjados com fios de ouro. Caminhando sobre eles, dirigiu-se para a mesa de carvalho. Ao lado desta, um baú trancado, que ele abriu com uma chave que retirara de uma das gavetas do gabinete. Retirou de seu interior um tomo de capa de couro cru, sem letras nem identificação alguma.

Sentou-se na cadeira estofada de frente para a mesa e abriu o grosso volume; não se tratava de um livro comum.

Tomando da pena que repousava em um suporte de madrepérola, mergulhou sua ponta em tinta de noz de galha, que conferia uma impressão permanente, e pôs-se a escrever em uma das páginas em branco, quase já no final:

“Creio ter com isto sonhado em algum momento. Não obstante, não pretendo de forma alguma aproveitar-me da ausência do detestável conde Milo para investir sobre Camus. Em algumas fantasias recôndidas tal ocorreu, porém o mesmo seria inviável no plano real. Os motivos? Primeiramente, e sempre, sempre, o compromisso que tenho para com os Turenne, os quais considero mais minha família do que a verdadeira, que segue se engalfinhando pela supremacia do poder. Mesmo que por sobre isso eu ousasse passar, esbarraria no amor que Camus sente por Milo, amor este que em seu coração puro e inexperiente, e com certeza até por isso, instalou-se desde o instante em que conheceu o infame conde. Machuca-me a alma vê-lo apaixonado por quem só lhe faz o mal... por quem não o trata como ele merece... que estou a dizer! Mais sincero e objetivo seria dizer: por quem o destrata! Contudo, por alguma razão que desconheço, Camus o ama. Se ao menos não o amasse, eu ousaria declarar-me, e viveríamos em bem vinda clandestinidade o amor que Milo se nega com ele partilhar. Tenho certeza de que ser-lhe-ia conveniente, até. Afinal, pelo contrato de casamento, Milo poderá tomar para si uma concubina e com ela formar uma família. Apenas assim poderá vir ao mundo a criança que se possa passar pelo herdeiro de meu amo e do odioso Milo.

Mas eis que surge também Shura. Constringe meu coração a ideia de que ele me reprovaria por esse meu ato. Se ele descobrisse, oh, isso eu temeria muito mais que a descoberta por parte de Milo... só de pensar, resfria-me a alma. Não sei por qual motivo a imagem que Shura faz de mim me é tão importante. A despeito do pouco tempo que nos conhecemos, sinto que somos muito mais do que o que somos agora. Não sei se ele sente o mesmo; embora seja amável para comigo, não sei até que ponto trata-se de mera cordialidade social. Sequer entendo como alguém tão refinado pode ser o melhor amigo do vil Milo d’Auvergne! Sim, em verdade, mesmo que ele jamais viesse a descobrir meus intentos para com Camus, só de imaginar que ele os desaprovaria, perco neles o interesse... não digo que deixo de amar Camus. Mas, suprema sandice!, digo que gostaria de ser amado por Shura. E isso deve ser tão impossível quanto ser amado por Camus. Talvez seja a sina à qual estou destinado...

Amar e não ser amado.

Nem quando amava Camus.

Nem amando Shura.

Oras... escrevi “amava” Camus. Shura o substituiu em meu coração? Será leviandade minha? Um amor de menos de um mês tomar lugar de um amor de 5 anos?

Ocorre que, além do fascínio que Shura causa em mim, há o desejo de que Camus seja feliz. Ele nunca seria feliz comigo. Camus só seria feliz nesta vida se Milo aceitasse seu amor.

Temo, dessarte, que meu amado (cogito, agora, se não falo de modo fraternal) Camus nunca seja feliz. E eu, serei? Creio que seguirei o mesmo caminho: rumo à desventura. E ela começa hoje, pois que Shura partirá para sua terra. Não há previsão de sua volta, o que me entristece sobremodo. Ficarei sem ver seus lindos olhos de mares revoltos, de profundidades equiparáveis à sua nobre essência, sem ver-lhe o belo e másculo rosto no qual se mescla estoicismo e gentileza.”

Fechou o tomo, suspirando. Poderia estar confundindo as coisas...

Ou será que as confundira por 5 anos?

“Meu coração é um estorvo, deveras”, riu tristemente, enquanto guardava o diário. Trancou o baú e tornou a colocar a chave dourada dentro de uma das gavetas do gabinete. Viu que réstias de luz invadiam o recinto. Decidiu proceder logo à higiene matinal, antes que fosse chamado para auxiliar “a condessa” a se vestir.

*************

— Aaahh... – fez Camus, premindo com força as pálpebras ao despertar; sua cabeça doía horrivelmente.

“Maldição, quanto vinho estive a ingerir?”, pensou, recriminando-se logo.

Olhou para o marido, que ainda dormia o mais pesado dos sonos.

“Parece ser outra pessoa assim”, considerou, melancólico.

O cavaleiro, deitado de lado e virado para ele, tinha brilhantes anéis dourados a caírem por sobre o rosto de traços perfeitos. A tez amorenada, o nariz afilado, os lábios cheios entreabertos, as sobrancelhas aloiradas espessas sobre as longas pestanas de semelhante tom... um verdadeiro anjo, um anjo como os idealizados pela Fé. A expressão ora dura, ora cruel, ora zombeteira, não mais ali residia, e sim uma tranquila, amena, evocando um porto seguro que, ele bem o sabia, era apenas aparente... uma miragem trazida pelo estado inconsciente no qual imerso se encontrava o indômito conde.

Ainda assim, Camus entregou-se à contemplação... a bem dizer, sequer era a primeira vez em que o fazia.

Noites e noites, dias e dias assim procedera.

Não obstante, havia algo diferente no esposo. Uma paz, uma satisfação a qual não vislumbrara antes. Em geral, havia na bela face marcas de seus desregramentos, ou alguma angústia...

“Exulta-te tanto ficar meses longe de minha presença?”, inquiriu internamente. De pronto voltou a fechar os olhos castanhos ao notar que Milo começava a acordar.

— Uhhn. Ahh... – o loiro suspirou, antes de abrir os olhos. Camus fingiu estar acordando naquele mesmo instante.

— Oh... o sol já vai alto, pelo visto – comentou, sentando-se na beirada da cama. Olhou para o ruivo, que espreguiçava de leve. Coçando a cabeça, tencionou comprovar – Dormiste bem?

Camus não pode deixar de unir as sobrancelhas avermelhadas, em genuína surpresa.

Milo NUNCA lhe dirigia a palavra ao acordar... e agora perguntava-lhe se...!

— Sim.

— A sério? Porque bebeste como nunca...

— Estivestes a reparar?

— Reparar? Reparei, sim, no ranço de álcool com que impregnaste esta alcova.

— Oh – o ruivo ergueu-se de súbito, cobrindo a boca com a mão, constrangido. E então, adquiriu empáfia na expressão – Bem, olho por olho, dente por dente. Encontramo-nos quites. Estive a suportar VOSSOS miasmas por dias.

E voltou a se deitar, cobrindo-se, mal humorado.

Graças àquilo, Milo pôde sorrir, divertido.

Levantou-se e abriu a janela, deixando o delicioso ar matinal invadir o recinto. Mirou as montanhas envoltas pela névoa, respirando fundo.

Camus sabia que tinha que se levantar também. Em tudo acompanhava o marido “a esposa”, sendo dele uma sombra... deveriam fazer a higiene, vestir-se e juntos, perante os servos, guardas e administradores, descerem para a sala de refeições. Logo depois, dar-se-ia a partida do grande senhor...

— Camus.

— Hum? – fez o rapaz, sentando-se no colchão. Tomava coragem para se erguer.

— Há algo que quero dizer-te.

Virou-se para ele, encarando-o bastante sério.

— O que seria?

“Que estou a fazer? Detém-te JÁ, estúrdio!” a voz interior de Milo bem tentou impedi-lo, porém...

— Toma cuidado com Afrodite.

Ao ver os olhos de Camus arregalando-se, cerrou os punhos. Agora NÃO tinha como voltar atrás!

— Não estou a compreender vossa mensagem.

— É simples. Ficarei ausente por pelo menos três meses. E tu ficarás sozinho neste castelo com ele.

— Não ficarei sozinho com Afrodite, há tantas pessoas aqui...

— Tu REALMENTE não compreendes ou estás a zombar de minha inteligência? – exasperou-se o loiro, deixando a janela e aproximando-se do esposo.

O ruivo nada respondeu; Milo então prosseguiu, enfático:

— Digo-te que te acauteles da proximidade com teu “camareiro perfeito e extremamente bonito”.

— E por que dizeis isso? – Camus não se deixou acuar; ergueu o queixo, petulante.

— Por quê? Oras… porque… porque… não te é evidente?

— Não. Não é.

Aborrecido, Milo bufou. Não queria perder a paciência... mas já a sentia escapar...

“Porque EU NÃO QUERO que fiques a sós com ele”, gritava em pensamento, “porque percebo que ele sente algo por ti! Porque SEI que tentará assediar-te em minha ausência! Porque SEI que sucumbirás, pois que ele é belo, e doce e bom contigo, ao passo que eu...”

— Estou esperando vossa resposta, senhor Milo – anunciou, cruzando os braços.

— Porque eu tenho uma REPUTAÇÃO a zelar. Que será dela se vós dois vos entregardes a atitudes suspeitas diante dos criados, dos guardas, dos... – deparou-se com a expressão interrogativa de Camus, ainda de braços cruzados – Em suma, não quero que tu dês motivos para que comecem a tripudiar de minha honra.

— De que “atitudes suspeitas” estais a falar?

— POR DEUS – revirou os olhos, irritado – Atitudes que atestem que sou ENGANADO pela minha esposa enquanto estou fora!

— Continuo na mesma.

— Vós e vossas intimidades, é disto que falo! Vossas conversas... vossos passeios pelo pomar, pelos jardins...

— Devo ficar preso, então? Preferis que eu vá para a masmorra? Ou que me encerre por três meses neste quarto?

— É claro que não. Apenas... apenas exijo que cuides da imagem deste matrimônio.

— Um de nós deve fazê-lo, não? – o ruivo ergueu uma sobrancelha, em um sarcasmo frio.

— Por Deus, tu desempenhas o papel de esposa. Não FUI EU quem assim o quis, lembra-te? Não fui EU quem te pôs nessa comédia – Milo agora gesticulava, contendo a altura da voz.

— E por acaso o quis eu?

— Basta. Tu me cansas – disse, por fim, esfregando o rosto com a mão – Pedirei à criada que chame aqui “teu” Afrodite para vestir-te.

— Se tanto vos incomoda tal fato, tratai de ajudar-me, pois – provocou.

— Em primeiro lugar – ergueu para ele um dedo em riste – em NADA me incomoda. Preocupo-me apenas com a MINHA reputação de marido. Em segundo lugar... já te disse; não te ajudaria a trocar as roupas nem que disto dependesse a salvação de minha alma!

Irritado, caminhou resoluto para a porta. Camus deu de ombros; um sorriso trocista desenhou-se nos lábios, por sorte não presenciado pelo outro...

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Era chegada a hora da partida.

No pátio central, uma carruagem esperava pelos dois nobres; levá-los-ia até o porto de Toulouse, onde embarcariam para a Ibéria, acessando-a a partir da rica Córdoba, na Andaluzia. As bagagens já haviam sido acondicionadas no veículo.

Os quatro aristocratas para lá se dirigiram. Milo e Camus à frente, Afrodite e Shura atrás deles. O castelhano passou a andar mais devagar, e o sueco o acompanhou. Tomando distância do amigo e de sua consorte, o moreno virou-se para o ex-pajem de “Camille”:

— Estiveste silencioso durante a refeição matinal.

— Impressão tua...

— Será mesmo?

O loiro olhou para o chão.

— Bem, não estou exatamente feliz com teu exílio. Perdoa minha puerilidade – confessou, sentindo as maçãs do rosto queimarem. O outro deu um risinho, e ele se envergonhou ainda mais.

— Não será por muito tempo. Lembra-te de que fiquei de ajudar Milo em sua administração de Saint-Doulchard?

— Isso intriga-me... és marquês em tua terra... por que...

— Afrodite, eu não sou o primogênito – parou de andar. O sueco também se deteve, ficando ambos no topo da escada, a qual os demais já haviam descido.

— Então...

— Não tive a sorte de Aiolia, cujo pai deu-lhe praticamente tratamento de filho mais velho (1). Não é o que ocorre em minha terra. À parte de ter minhas posses, a maior parte delas conquistadas por minhas missões e pelas graças que obtive do rei de Castela, o normal é que nós, que viemos depois do mais velho, busquemos os louros da vida em outras instâncias. E foi o que fiz. A exemplo de Teobald II, conquistei meu lugar ao sol. E nele pretendo ficar. E ele é ao lado de Milo d’Auvergne, que, conforme está escrito nas Escrituras, é-me “amigo mais chegado que um irmão” (2).

— Então retornarás mesmo? – as íris cristalinas de Afrodite cintilaram.

— Pensaste que eu estava a mentir?

— Não... mas... bem...

— Estás vermelho como os cabelos de Camille.

— Oh – riu o ex-pajem, entre feliz e envergonhado.

Shura sorriu-lhe, amistosamente.

— Alegra-me que me dirijas tua amizade. Ela me é muito cara, Afrodite. Tenho por ti igual sentimento.

E voltou a andar, deixando para trás um atônito Afrodite

“Amizade... então é isso... mas... claro! Tolo!!! Que tolo eu sou... como seria diferente, por Deus?” pensava, já sentindo os olhos arderem pelas lágrimas quentes. Segurou-as a muito custo. Esperou que houvesse distância para enxugá-las, e seguiu caminho.

À frente deles, Milo e Camus caminhavam silenciosamente, até que Milo falou, de forma neutra:

— Sabes que teremos que nos despedir propriamente, não? Testemunhas aguardam... há até enviados do rei para me verem partir.

— Teremos que... que nos beijar?

— Desta vez pode ser um beijo na testa. Diante dos outros, a regra é que os beijos sejam castos, bem como comedidas as demais demonstrações de afeto entre os cônjuges – esclareceu o loiro.

— Compreendo. Fazei o que for preciso.

Unindo as mãos diante do corpo trajado com um vestido carmesim de mangas e amarrações douradas, Camus aguardou que Milo desse as últimas instruções ao castelão; ao líder comunitário Leopold, que trabalhava para ele agora, coordenando os criados e que a partir de então ajudaria “a condessa” nessa função; aos pajens e escudeiros, bem como ao responsável pela guarda da fortificação e a alguns nobres que ali se encontravam para resolver os últimos negócios com o novo soberano de Saint-Doulchard.

Todos aguardavam o aristocrata; Shura já se acomodara nos acolchoados bancos de veludo púrpura do transporte. Milo encarou Camus, a fim de comprovar alguma hesitação ou recusa de sua parte.

Não havia nenhuma das duas.

O ruivo apenas aguardava-o. Indiferente. Plácido. Como um dos soldados, à espera de uma ordem.

— Minha adorada esposa. Rogo a Deus que esteja convosco (3) durante meu exílio forçoso. Os céus sabem o quanto me são diletos os momentos em tua deleitosa companhia – enunciou o conde, afetando amorosidade. Camus achou-o um péssimo ator.

No entanto... Milo não fora obrigado a representar como ele, fora?

Claro que não. Para que o seria?

Milo era autêntico, intrépido, destemido.

Não precisava de disfarces, de máscaras, de subterfúgios para ser QUEM ERA no grande palco do mundo.

— Agradeço vossas palavras, meu senhor – segurando suas saias, ele fez uma profunda reverência – igualmente intercedo convosco nos percursos que levar-vos-á ao destino que tanto trará a esta terra.

Assentindo, o loiro lançou um olhar em torno; todos atentos àquela despedida...

Não haveria MESMO jeito.

Aproximou-se de Camus, que, malgrado a aparência comedida, encontrava-se sob forte expectativa. Curvou-se para ele e o beijou na fronte.

Foi como se o tempo parasse. Para os dois.

O ruivo fechou vagarosamente os olhos, sentindo aquela proximidade, aquele calor, aquele cheiro almiscarado. O mesmo fez o loiro, ao pousar na pele fria do esposo seus lábios. Ao se afastar, considerou-o, presenciando as pálpebras frementes que se abriram, como as asas de uma rara borboleta, desvendando as singulares íris avermelhadas. Estas se chocaram com um céu claro de verão, como a mais preciosa gema que poderiam contemplar.

Sequer se deram conta do significativo olhar que trocavam.

O conde apartou-se “da esposa” e, sem mais nada proferir, entrou na carruagem.

Sob o sol que reinava no centro do firmamento, o veículo partiu. Camus não saiu do lugar até que ele desaparecesse de sua vista vidrada.

“Três meses sem Milo...”, dizia para si mesmo, tentando se convencer de que agora de fato aquela ausência se concretizaria.

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— E tu dizes não amá-la... imagino eu como seria se a amasses! – riu Shura, sarcasticamente.

— Do que estás a falar?

— Oh, enfim tiraste esta cara de cão famélico da janela e te lembraste de minha presença!

— Hunf – fez o loiro, acompanhado de um muxoxo que fez o castelhano rir mais ainda.

— Serão três meses, não três anos... logo estarás nos braços de tua adorada Camille!

— Como se eu quisesse...! Não entendo tuas palavras, juro por Deus.

Shura considerou-o, divertido, apoiando o queixo com a mão sobre um dos joelhos.

— Palavra de honra que nunca em minha vida vi um olhar tão apaixonado quanto o que direcionaste à tua esposa quando dela te despediste. Salta à vista, Milo. Eu ainda não entendo porque negas isto tão veementemente, porém, teu sentimento para com ela é patente.

O conde pensou em refutar... não obstante...

Cerrou os punhos sobre as coxas.

Não conhecia ninguém mais observador que Shura. Quem era ele para negar algo reparado pelo amigo? E ainda mais depois... depois de...

— Sossega teu coração – aconselhou Shura, pondo a mão sobre um dos ombros do amigo, visivelmente entristecido — Ela estará em segurança. E à tua espera, em cada minuto que se passar.

— Shura... tens toda a razão – murmurou. E não resistiu a virar o rosto para trás, tendo pela última vez pelos próximos três meses previstos, a visão do feérico castelo de Saint-Doulchard, com um único pensamento em sua mente conturbada:

“Camus...”

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Notas finais
(1) Na maior parte das vezes, o único filho que detinha todos privilégios de herança era o primogênito. Em razão disto, os demais lançavam-se em aventuras e missões pelo mundo, a fim de conquistarem seu "lugar ao sol"; poderia obtê-lo também através de um bom casamento e até mesmo tornando-se comerciante. Havia exceções, pais que tratavam os demais filhos com quase tantas regalias quanto as que tinham os filhos mais velhos; é o caso de Henri (quem sabe por sua mente "mais aberta"?). Será que Shura está certo sobre Teobald II? Como teria o duque suplantado Durval, o irmão mais velho? Lembrem de que Henri e Teobald II desconfiam de que Durval tenha assassinado o próprio pai... pode ser que a resposta resida aí. (2) "Amigo mas chegado que um irmão" - expressão que é parte de um versículo bíblico, Provérbios 18:24, que diz: "O homem de muitos amigos deve mostrar-se amigável, mas há um amigo mais chegado do que um irmão." (3) Milo, que normalmente trata Camus por "tu", usa "vós" para falar com ele, apenas para mostrar respeito "à esposa" diante das testemunhas presentes em sua despedida. ************* Bem, lá se vai um Milo já saudoso... deixando um Camus mais saudoso ainda e... espere aí, Milo, saudoso? Será que justo agora que ficará afastado do ruivo por meses, o loiro vai enfim assumir o que sente? No próximo capítulo, um cenário completamente diferente e... a estréia de uma nova personagem. Espero-vos lá... obrigada por prestigiarem :) Link para o tema do capítulo, uma autêntica música do século XII... https://www.youtube.com/watch?v=Xk1W22yHLJQ